Amanhã

Abel Botelho · Capítulo 8 de 21

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Amanhã

Capítulo VII · Mal rompia ainda a manhã, quando ao…

 

Mal rompia ainda a manhã, quando ao longo da tortuosa artéria que margina o rio, entre Marvila e Xabregas, os postigos das primeiras tabernas, abrindo-se, de onde a onde almagravam convidativas lucarnas no amorfismo vago da cacimba. Um confuso algodoamento obliterava as coisas. Envaginava a paisagem como que uma aérea cortina de moliço azul, pontuada levissimamente de murça cor de rosa. Da cidade o languido espreguiçar matutino, a vida, o movimento deliam-se sob essa rociada camisa de noite da Natureza que acordava. E o bairro teria a aparência de um deserto, seria como que a necrópole secular, na sua mortalha de névoa acoinchada, Nalguma grande civilização extinta, se não fora, no vértice das chaminés, o fumo que começava a jorrar em ralos famulentos, bolsando grossos rolos de treva, isófonos com a rouquenha artagem da minúscula multidão que em baixo, esparsa em filamentos negros e direita ás avinhadas boqueiras, se difundia, formigava e engrossava, orientada ás suas sabidas etapas de prazer, numa obsessiva avidez virgulando a terra.

Dir-se-ia, pela monstruosidade, pelo horror, que estas aparições sinistras eram incorpóreas figurações do nevoeiro, que formavam o resíduo à pulverização diáfana do ar, ou que emergiam do espontâneo fermento das podridões da rua. Iam apressados todos, gorros para os olhos e mãos nos bolsos, numa eterna humilhação, vergados ao destino implacável, seus passos batendo muito claros no silêncio húmido da noite que debandava. E então que, na luz nascente, faziam praça inconsciente de todos os aleijões, de todas as deformidades, a que a escassa luz da manhã ainda prolongava vagamente o horror. Nesta asquerosa tapeçaria humana, os trajos e as expressões fundiam-se em tão estreita harmonia, que não seria possível diferençar onde acabava o farrapo e onde começava a carne. Os trechos visíveis da epiderme eram mais esquálidos que os andrajosos restos que a cobriam. Como se, na sua sofreguidão, na sua miséria insaciável, a mesma pele tivesse devorado o pano, e agora, envenenada e sórdida também por essa assimilação infeta, adquirisse inconfundíveis analogias de estrutura e essência com os trapos que ao sabor da aragem lhe açoitavam a anatomia derrancada. — E eram tudo evocações de presídio e hospital, tipos de fome e de ruina. Uns movendo-se de salto, perramente, na sinartrose das articulações exaustas; outros com os ombros ladeiros demandando, numa ansia de libertação, a terra; uns com os músculos dilacerados por excessos, esboicelados os ossos por desastres; outros, vibriões da desgraça, com o rosto lascado, roído de miséria; estes, derreados de trabalho, com os fémures fazendo angulo a meio das pernas prestes a ajoelhar; aqueles dobrando horizontal a espinha, numa insensível resignação de doidos tranquilos; estômagos cuja sondagem faria vertigens, lábios cosidos sobre vulcões de ameaça, pupilas ardendo num delírio de vingança ; crianças com os esguios troncos como linhas e dolorosamente estiraçados, até ao calcanhar, os braços; velhos em cujas pequeninas figuras, cavadas e lívidas, apenas descomunalmente avolumam os pés e as mãos. — Pois toda esta ronda patibular de espetros, que é rara primeiro, a cada momento cresce e se reforça, rompendo das tocas, fumando da calçada, surdindo das vielas; toda se arrasta maquinalmente, como um bando de hipnoblesicos, na avassaladora atração daqueles pontos luminosos.

Ao balcão da tenda do Zé Pequeno, que fora uma das primeiras a abrir, o Manoel António e o Adelino tomavam na ponta das unhas gretadas cada um seu cálice de aguardente. E o primeiro, tendo bebido e, poisado o cálice, espalmando de regalo a mão no extenuamento concavo do tórax:

— Isto faz peito!

Ao que o Adelino, bebendo também, pipiou:

— Olé! É o que nos vale.

E a sua devastada figura assumia projeções descomunais na fumosa luz do candeeiro.

— Que demónio de homens são vocês? — observou com desprezo o da locanda.

— Falas bem...

— Não têm sangue!

— Não levamos a tua vida, é o que é... Ora o safado!

— Que, isto é, — acudiu e Manoel António com tristeza, — eu daqui a nada estou com o coiro a arder. Nem que tivesse já a pá no inferno!

— Ora... — arrastou em tom de dúvida o Adelino dobrando sobre o segundo copo a língua encoscorada. — Primeiro que acendam os fornos...

— Qual! — disse o outro. — Apenas entro... Aquele raio daquela tijolada estão recozidos, têm o calor entranhado... chisnam uma pessoa. Porque tenho eu os olhos estoirados?

— Quer não que eu, todo o dia ali assim, no Almargem, aferrado à calandra, de peito à finca... um cheiro de dar volta ás tripas, a casa fria que nem uma praga! Não sei qual seja pior!

— Leve o diabo a escolha!

Entrou ao tempo, derreado e trémulo, o Zanaga. O seu invariável cachimbo aceso, com um embrulho na mão:

— Adeus, Zanaga!

— Vens fornecido hoje...

— Que demónio trazes tu aí?

— Tiveste queijada?

— Eh! Veja como fala... — repontou de ameaça o enfardador dos Fósforos. — Eu não tenho as suas manhas, ouviu, seu cara de canejo?

Mas, muito guloso, o Adelino, chegando-se e aflautando familiarmente a voz:

— Bom, bom... já aqui não está quem falou. Repartes com o teu amiguinho?

Sacara o Zanaga com importância, em cima do balcão, de dentro de um imundo retraço de jornal, um cibo de chouriço, e comandava para o redondo locandeiro:

— Vamos, morraça para aqui!

Depois estrinçou nas mãos a apetecida vianda; e, enquanto o taberneiro lhe servia a aguardente, estendendo ao Adelino um pedaço entre os dedos reluzentes:

— Eu não sou homem de nabos era sacos. Vá lá... — E dando outro isco ao Manoel António: — Toma! É pouco, mas de sustância.

Em seguida bebeu; e enquanto atochava de tabaco o cachimbo:

— E então, alguma novidade ontem?... — O grosso bodegueiro teve um sorriso misterioso e encolheu os ombros com desdém. — Deixaram-te em paz?

— Os guitas por aí andarem toda noite. Cada olho cá para dentro!... E então com as meias-arrobas debaixo dos oleados, pareciam-me as basílicas da Sé. Mas eu, moita quatro vinténs! Andando sempre na minha lida... Nem para eles olhava!

E ria alvarmente, cofiando os matacões; ao passo que o Zanaga, renovando o fogo:

— Deixa! A coisa há de andar...

Mas de repente, olhando a porta, o Adelino:

— Olha! Olha! Este já vêm armado pro que der e vier.

Aludia ele ao Serafim, cujo terroso esqueleto protuberára na locanda, trazendo, nu e luzente sobre o ombro, o seu largo cutelo de tanoeiro.

Todos olharam; mas a sua bonacheira expansão quebrou-se perante a maligna frialdade do Serafim, que cabisbaixo rosnou:

— Vá de paródia!

— Homem! Que bicho te mordeu?

— Então já um homem não pode andar com a sua ferramenta?

— Não, é que estávamos aqui assim a falar na nossa grande combinação, meu tanso! — insinuou-lhe com vivacidade ao ouvido o Zanaga, ainda de cachimbo na mão. — E como entraste de alfange... — para essa combinação não contem vocês comigo!

— Então!? — acudiu o Zanaga, desconfiado.

E lugubremente o Serafim, depois de beber:

— Antes disso, estico...

— Maluqueiras!

— Anda comigo uma tristeza mortal... não há sol que me aqueça, nada me apetece, não durmo... os ouvidos sempre como dois búzios, as pontas dos dedos a arder...

— Isso é medrança, homem! — disse, batendo-lhe no ombro, o Zanaga.

E, direito cada qual à sua obrigação, os quatro dispersaram-se; enquanto o Zê lhes anotava num caderno o débito, e depois, trepado a um mocho, soprava o candeeiro.

Dia claro agora, tinham um brilho lavado as coisas, a paisagem recuava ás suas linhas normais, definiam-se direitos de alto a baixo os prédios. Já se erguia a espreitar sobre o Tejo o grande disco rutilo do sol, ensanguentando as águas; já um grosso murmúrio humano subia no ar e de roda das moagens os pardais esvoaçavam. Cortando a toada cantante dos pregões, o silvo estridente das máquinas tocava a reunir, naquele imenso acantonamento de tristeza de trabalho. E a grande artéria marginal, corrida em frémitos de vida, era em todas as direções cortada e cheia por uma dolente invasão de proletários, — menos esquálidos estes, menos fantásticos, sem essas sinistras e monstruosas mascaras a que a indecisa luz da madrugada emprestava um ar de pesadelo; antes aconchegados num relativo bem-estar, molhados em grupos mansos, medindo com igualdade o passo, os fatinhos cerzidos com carinho. Trajavam os homens jaqueta de pano ou blusa de ganga azul; os garotitos, numa gravidade precoce, vinham descalços; e as mulheres, muitas mulheres, iam todas invariavelmente amortalhadas no xaile e o lenço, vergadas a uma lassidão resignada e tranquila, de olhos à terra e uma grossa restolhada de chinelos pela brita húmida dos passeios. A cada momento, na embrulhada confusão da rua, a promiscua jolda embarrava com as carroças do lixo, tresmalhava os rebanhos de cabritas anémicas, imobilizava ao alto as cestas dos jovens de padeiro. De sorte que a esta hora preguiçosa todo o bairro, servilmente estiraçado pela falda lívida das colinas, barrando o rio de caliças caprichosas, era como uma floresta desgrenhada e cantante de cabeças que deliram gozos, de chaminés que vomitam nuvens, de vidraças que incendeia o sol. Cerca a meio da rua e prolongando, ladeira abaixo, caminho de Lisboa, o muro do parque, destacava a fábrica do Almargem, com a sua grande fachada irregular, toda em cinzento, dura e fria na sua carapaça industrial; como um gigantesco pólipo complicada e chumbada à terra, fiadas seguidas de ventiladores, negros e redondos como tentáculos, incrustado longe pelas terras o bracejar geométrico das oficinas; anastomoses de canalizações, azas de fios metálicos por toda a parte, e os tetos de zinco, caixilhos de ferro, vidros despolidos, lisos os umbrais riscados na mesma cor uniforme da parede, e apenas as vergas e os peitoris em bordaduras salientes de tijolo. Em baixo, rente com a rua, rasgava-se alternamente, a todo o comprimento, em portões e frestas; e corria-lhe por cima uma alta platibanda, lisa, de alvenaria branca, natural resguardo a uma espécie de larga varanda ou terraço, ao fundo do qual, num plano mais recuado, se aprumava então o colosso banal, em dois andares, das oficinas. Instalavam-se num dos extremos os escritórios; no outro a casa da máquina e do dínamo especial para a iluminação, formando corpo à parte, empenachada agora de fumo, suando ruídos gordos de óleos e metais, e com a elevada ponta do seu frontão e o amplo portal em arco, todo envidraçado, tomando um simultâneo aspeto de armazém e de cárcere, de estufa e de templo.

A mansa multidão obreira vinha entrando devagar, numa arrastada passividade, numa inconsciência de máquinas, enfarados, inertes pelo sentimento da fatalidade iniludível daquela forçada contribuição dos melhores glóbulos do seu sangue, de toda a arrogância e vigor da sua vida. Franqueavam em baixo um portão, ao centro, subiam uma escada de pedra, entaliscada na muralha, e depois em cima, alastrando pelo asfalto do terraço, vinham todos desfilar em revista por diante da doce figura sorridente do Mateus, o qual lá estava plantado firme no seu posto, rente à dura mole da fábrica, à ilharga do enorme e negro boqueirão que na sua insaciável voracidade a todos ia engolindo.

O bom ar protetor do contramestre animava-os, fazia-lhes mais leve a dura condição da sua sorte, aquecia-lhes o coração e refrescava-lhes as entranhas. Saudavam-no com olhos de agrado as mulheres, os homens num instintivo movimento de amor e de respeito. E ele a todos falava, a todos conhecia; tratava a este pelo nome, aquele por qualquer epiteto familiar, aqueloutro por alcunhas filhas da profissão; e nas costas os ficava com piedosa atenção considerando, à medida como essas muitas centenas de pacíficos condenados se sumiam por aquele antro sem esperança, entregando as senhas.

Uma mulherita derrancada e pequena, — de preto, olheiras fundas e uma dolorosa quebreira no pergaminho dos lábios ao abandono, — aproximou-se dele com humildade:

— Com licença, Sr. Mateus...

— Adeus, Margarida; diz lá...

— É que eu ontem... peço desculpa... faltei meio dia, porque fui ao enterro da minha irmã.

— Fizeste a tua obrigação, rapariga.

— Se me perdoassem a falta... Era uma esmola.

— Não penses mais nisso. Vai com Deus!

— Agradecida, patrão! — suspirou a fiandeira.

E num grato meneio, de cabeça baixa, entrou à fábrica, com os macerados olhos fundentes de ternura.

Mas já outra se adiantava também, andrajosa e oftálmica, na tanada asperidão da pele ardendo-lhe cruamente as pálpebras túmidas, mordidas de vermelho. — Pedia escusa por dois dias; era ordem do médico. Não via o fio. Em forçando a vista, eram logo os olhos a chorar... — E erguia numa súplica ao Mateus o rosto de cera, num molesto bater dos cílios, grossos de purulências.

— Pois não venhas amanhã, — disse-lhe apiedado o Mateus, desviando os olhos. — Trata disso, mulher!

— Ah, já não tem cura, patrão... É escrofuloso.

E resignada, num sorriso lívido, seguiu para a oficina, com os dedos ásperos e ácidos ainda de rês-tos de comida, esfregando maquinalmente os olhos.

Outra passava agora, ruça, lábios de febre, o miudito rosto herpético, a face assimétrica e o peito côncavo, a tossicar. — Pedia para retirar em tendo dado o seu meio dia. E era se pudesse... Doíam-lhe muito o peito e as costas. Uma pontada constante!

— Sabes que estás sempre a faltar? — objetou o Mateus com doçura.

— Que remédio tenho eu! Assim Deus me dê saúde, em como não posso.

— Isso custa pouco a dizer...

— Ó Sr. Mateus!

— Ora olha bem para mim...

— Juro-lhe que vim eu mesma, por não ter quem mandar! Senão, não deixava a cama.

— Deus te dê saúde... Pois vai-te embora, anda lá!

— Obrigada! Muito obrigada, Sr. Mateus! Deus Nosso Senhor lho pague... — exclamou, numa explosão de grato jubilo, a pobre rapariga. — Ai, filhas! Isto é um santo.

E desandou rápida, direita à escada, entre o mudo aplauso e o comovido sorrir das companheiras.

Seguiu-se um matulão já grisalho, prognata e refeito, os dedos felinos, o nariz impudente, e olhos de falsidade nas pequeninas pálpebras inquietas.

— Ó Sr. Mateus, eu vinha-lhe pedir licença...

— O quê! Pois também tu?...

— Dar hoje só meio dia...

— Já me tardavas!

— Não mas é que tenho meu cunhado no governo civil... Mandou-me agora dizer.

— Que fez ele?

— Se calhar, foi bebedeira... alguma paródia em que se meteu.

— Lá se avenha!

— Pois sim, Sr. Mateus, mas é que está lá sem ninguém... sem dinheiro, nem comer.

— Manda-lho.

Depois de uns segundos de pausa, com a maxila cafreal sacudida numa crispação de arrelia, o marmanjão disse:

— Não, eu preciso lá ir...

— Pois vai, — disse-lhe com firmeza o Mateus.

— Na certeza que não voltas!

O molosso estremeceu e nos olhos cosidos passou-lhe uma faísca de ameaça. Por fim, depois de uma hesitação, voltando costas e agitando os ombros:

— Ora! Em toda a parte se ganha.

E partiu; enquanto o Mateus, impassível, era agora rodeado por um lamuriento bando de mulheres, que todas avançando à compita, invetivando-se, atropelando-se, com aflitivo exaspero pediam trabalho, ferozmente o extenuamento e a fome vincados na atitude, na expressão, nos olhos, torcidos ao alto, numa suplica dilacerante, os braços, os longos dedos ressicados à frente das mãos erguidas.

Contrariado, sem as olhar e recuando, o Mateus defendia-se. — Que não podia ser, tivessem paciência... havia falha de encomendas... já tinha gente a mais. — E amalhoadas, sucumbidas, as pobres postulantes estacavam e debandavam, tornada por esta recusa mais amarga a algidez do seu abandono, mais negra a noite da sua dor; quando, do portão mesmo da fábrica, rompeu a risonha figura de Jorge Meireles, airoso e forte, de chapéu mole, chicote, fato cinzento e botas de montar. Pois, mal que o viram, ei-las de novo atacando, numa faminta avidez, molhada de lágrimas:

— Dê-nos que fazer, Sr. fidalgo! — Menino Jorge, tenha dó de mim! — Cinco filhos em casa e nem um trapo para empenhar! — Ninguém me fia um pão! — Fidalgo! Por amor de Deus...

Entretanto Jorge, que retribuirá afetuoso a saudação do Mateus, sem lhe estender a mão:

— Isso não é comigo.

— Por amor de Deus! — Pela sua boa sorte, Sr. Jorge!

— Entendam-se aqui com o mestre Mateus.

— Não quer...

— O que ele fizer está bem feito.

Mateus adiantou-se, e urbanamente, mas com firmeza:

— Não pode ser!

E, sobre esta recusa formal, Jorge voltou ligeiramente costas ao doloroso bando das pedintes, que avergadas, numa forçada resignação, numa passividade idiota, foram lentas desandando à escada, de olhos baixos e as mãos juntas, numa convulsão de exaspero agora retesando os braços.

Quando as viu afastarem-se, o contramestre, inclinando-se, perguntou:

— O Sr. Jorge quer alguma coisa?

— Não... Que hei de eu querer?... — disse Jorge distraidamente, olhando o céu. — Não há novidade nenhuma, não?

— Por enquanto...

— Está muito bem, — disse com agrado o simpático rapaz, enquanto se voltava para o criado que o acompanhava a distância. — Francisco! Aparelha-me o Emir. Num instante, ouviste? — E ao tempo que o criado corria na direção do parque, novamente para o Mateus, explicando: — A manhã está a desafiar. Vou desenferrujar as pernas dar uns saltos ao Campo-Grande.

Sem acrescentar palavra, o Mateus curvou-se ligeiramente.

Jorge seguia ainda, com a vista apiedada, o rasto humilde das últimas mulheritas na frialdade húmida do asfalto.

— Diabo! Não se poder atender nem sequer uma ou duas...

— A ocasião, sinceramente, é péssima.

— É o que esta gente não quer ver...

— E ainda se houvesse fartura de encomendas... Mas, infelizmente, V. exa. bem sabe, há aí uma porção de fardos por colocar. — Jorge abanava numa aquiescência a cabeça bondosa e enérgica. — A única coisa que conviria talvez desenvolver era o fabrico de toalhas grossas e serguilhas; mas os teares estão todos tomados.

— Bem, você sabe muito bem o que melhor convêm à fábrica. E com despreocupada leveza, dando meia volta e afagando o calção com o chicote: — Que tenham paciência... Até logo, adeus!

Tinha já dado alguns passos em direção à escada, quando, erguendo a mão numa reminiscência e voltando-se:

— Ai, é verdade, ó Mateus... eu depois de almoço volto. Temos que falar aí numa coisa...

— O que V. exa quiser.

— Um melhoramento mais, uma inovação... Ideias da minha irmã!

O contramestre abriu perturbadamente os olhos.

— É preciso desimpedir alguma dessas casas do fundo, — prosseguiu Jorge. — Uma clara, que tenha bem ar.

— Ao fundo?... Não será fácil.

— Então a última casa da ponta, ao norte?... Ali assim, deitando para o terreiro dos jogos, é que ficava bem.

— Está lá o depósito de material.

— Isso muda-se.

— Enfim, vamos a ver... Tudo depende do novo destino que lhe queiram dar.

— O nosso plano é bem simples e bem humano... — ia Jorge a explicar. Porém nisto, como visse já na rua, em baixo, o Francisco com o cavalo: — Olhe, Mateus, o melhor... a Adriana vêm cá e falia ela mesma consigo.

Impercetivelmente o Mateus, corando, estremeceu. Jorge completou:

— O maior empenho é dela; entendem-se melhor os dois. Até logo!

E desapareceu lesto pela escada de pedra; em-quanto o contramestre ficava uns segundos pregado no mesmo lugar, tímido, apreensivo, absorvido por uma deliciosa inquietação interior... Depois, sacudindo a cabeça, entrou à fábrica, para a sua invariável inspeção matinal.

Agora ali dentro a vida tomava um aspeto especial, as horas contavam devagar, o frio, a indiferença, o tédio despiam de alto a baixo as brancas paredes salitrosas. O que quer que era de opressivo e triste, sobrenadando, colava cada um à sua faina, vergava os dorsos e encruecia as coisas. Havia uma troca formal de carateres entre o homem e a matéria bruta, tornada inteligente e ativa à custa da passividade sem remissão dos serventuários. As máquinas transmitiam a sua insensibilidade, o que elas têm de fatal, de irresponsável, de sinistro, a essas centenas de míseros seres ali de manhã à noite inexoravelmente amarrados ao trabalho, sem alívio, sem trégua, sem descanso, pálidos e cativos na crua luz, na álgida nudez das oficinas. Havia um enfarado cheiro ao algodão. Emanações resinosas pesavam no ar. Um fartum estranho rebalsava aquele ambiente agitado e sujo. E era anestesiada a vontade, e estrangulada a alegria e toldado o cérebro pelo cheiro acre dos óleos, pelo áspero buzinar dos engenhos de aço, por aquele ronquido incessante, aquele atropelado fermentar da riqueza, aquele remoinhar vertiginoso e febril de correias, rolos, cilindros, êmbolos, turbinas, veios e roldanas.

Logo no primeiro compartimento, à direita, — a sala da mistura — cinco homens apenas trabalhavam. A meio da casa, o algodão em bruto, rompendo em rústicas escamagens dos sacos intumecidos, mareado de manchas húmidas, como a lã virgem, posto a monte em farfalhos sujos, era impelido para o interior de uma grande caixa de madeira, erguida a prumo, dentro da qual rapidamente escarpado, aparecia em cima depois, numa rama solta e mais leve, posto a correr pelos carris horizontais que de banda a banda tomavam toda a quadra; e daí caía na joeira do primeiro abridor esparso em farrapos, como neve. E todo este movimento seguia manso e fácil, em velaturas de carinho, desdobrado em maciezas fluentes pela alta atmosfera peneirada de filamentos brancos.

Quando viram entrar o contramestre, os cinco abridores levaram as mãos ás boinas, saudando. Ele correspondeu sobriamente, com um gesto; e aproximando-se do mais velho dos cinco, — um honrado tipo de ancião, bem espaduado, curto, olhos azuis, uma fina lanugem vegetal algodoando-lhe os tesos pêlos brancos da barba, — exprobrou-lhe ao ouvido :

— Faltaste no sábado!

— Estava tão doente! — balbuciou, confundido, o velho tecelão.

— Eu logo vi... — disse o Mateus, com desprezo, — Assim, que diabo querem vocês fazer?

— Não me podia arrastar, palavra.

Mas renitente o Mateus, encolhendo os ombros:

— Sentem-se bem com a canga... Andai lá! — E já junto de outro, elevando a voz: — Pois a vossa libertação esta mais próxima do que vocês imaginam... Muita união, muita união! E um bocadinho de coragem. Que demónio custa isto?

— Eu cá estou prometo!

— Eu não fui, porque ninguém me disse nada!

— Vamos para onde o mestre Mateus quiser!

E com os olhos incendidos num clarão de esperança, enquanto o Mateus descia à sala seguinte, já os cinco ingénuos conspiradores com impulsivo ardor se apegavam ao trabalho.

Na segunda sala cinco homens também. O encarregado da oficina, ao centro, plantado junto da caixa-forte, todo cingido com ela, vigiava atento a entrada dos grossos flocos de algodão arminhado para a goela, eternamente faminta, desse paralelepípedo colossal de ferro maciço, desse negro sumidouro impenetrável, com a base afogada nos montões da rama expelida, quase topetando com o teto a larga cornija chapeada, e incessante golfando nuvens de dejetos brancos. A porção ali dentro afastada vinha sair ao de cima, passando depois por um caleiro à balança automática, que o pesava. Daí, entrava nas talas em rampa dos batedores, que pelo seu turno o deglutiam também, industrializando-o, babujando pardas excrescências; e entregando-o por fim, imprensado, sujeito em camas concêntricas, empastado e enrolado em grandes cilindros de ferro lavrado, os quais eram levados então para a oficina ao lado. Aquilo que os batedores rejeitavam, passava ao alimpador; os sobejos deste iam ainda à esfarrapadeira, que definitivamente sentenciava a inutilidade dos últimos resíduos.

Um grande e ruidoso curador batido de bravas sonoridades, regulava os andamentos e centralizava o trabalho. Mas as suas prudentes vibrações perdiam-se no alto estridor dos outros engenhos, que periodicamente, voltando à mesma nota, grazinavam o seu vaivém, com uma intensidade grossa e aflitiva, por vezes trágica, ora em hinos cheios de triunfo, ora em arrancos de suprema dor... cava, torcida e ululante como a súplica de pavor de um condenado, arrastada em atritos que eram estertores, sibilada em contatos longos como gemidos.

Ao ver o contramestre, deixou o seu posto o encarregado, soltando as pernas da filaçagem gorda que o envolvia, e veio adonde a ele, respeitosamente, sincero e simples dentro da sua velha blusa, salpicada de coágulos vegetais, com a barba rude rompendo em desmazelo no livor das faces encovadas.

Com mostras de uma deferência especial, o Mateus apertou-lhe a mão.

— Adeus, Pascoal! Então, anteontem à noite?...

— Está muito bem, senhor!

— Entendeste-me?

— Pudera não!

— Respondes cá pelos teus homens?

— Estou que sim, senhor.

— Pela sua discrição, pela sua coragem?

— Não haja dúvida, mestre! — afirmou categórico o Pascoal, cambiando olhares furtivos de inteligência com os colegas, que de longe, cada um do seu lugar, o apoiavam, momentaneamente distraídos da sua faina.

O Mateus epilogou:

— Em breve havemos de ver!

Dito o quê, sumariamente, reatou caminho e sumiu-se no compartimento imediato.

Na esmagadora amplidão desta terceira sala, — toda arranhada de uma ressonância estrupidante, dançando toda numa vertiginosa fúria, sob o teto de zinco em tremidos, pelas fugas distantes das asnas atrevidas, — funcionavam rijamente trinta cardas, quatorze torsos e doze introitos. Tudo arfava num empolgante sopro criador, sentia-se o peso avassalador da matéria bruta. Irrequieta e convulsamente, era o ar em todas as direções cortado pelo galopar parabólico das correias, que,, enroscadas nas varas longitudinais do teto, traziam do alto aquela disciplinada confusão de estranhos seres a alma, o movimento, a vida. Nesse grande espaço, atormentado e doido, a insalubridade era contagiosa. A impenetrabilidade das vidraças verticais, cerradas totalmente, grado a grado condensava o calor e armazenava as emanações doentias. Assim, enquanto as máquinas em delírio arquejavam, passeava de regalo no ambiente e acumulava-se nos intervalos um crasso fétido a surro, a febre e a suor, como que a carne derretida.

Junto do bojo bisarmal das cardas, o matraquear vibrante dos metais quase anulava a voz humana, apagava a noção da consciência e fazia os homens mais pequenos. Ali, o algodão em pasta dos cilindros dos batedores, trazido da sala ao lado, sumia-se num instante, ingerido pela voracidade insaciável desses ventres enormes de madeira, blindados de rodinhas reluzentes; aí dentro então implacavelmente sofria, como num cadinho misterioso, nova digestão afinadora, nova série de torturas; era esgarçado, laminado, triturado, moído, rôto; e vinha depois sair no extremo oposto do monstro, onde as grandes bobinas dentadas do coado, no seu manso rolar, o iam largando, macerado e diáfano, como um véu, cuspido e solto, quase incoercível, em te nuíssima trama que um homem ajudava a colher em pregas. Para juntar-se ainda, na cabeceira da carda, em três molhos, os quais, confundidos, entravam afinal pelo orifício único do capacete, já num esboço de torcida, lasso e redondo, enrolando helicoidalmente, em coleamentos mudos de verme, nos cilindros de zinco verticais que poisavam no solo.

De um para outro repartimento da sala, rapazitos descalços corriam arrastando estes cilindros, das cardas para os torsos; e, destes para os introitos, os baldes cheios de novelos. Os introitos alinhavam-se do lado da luz, as cardas ruminavam na proteção da sombra. Num grande cardador, a um canto, um velho fazia baetilhas. Junto a uma das janelas, outro afiava os coados em duas máquinas de esmeril.

O Mateus, num franzir doloroso da expressão, atravessou rápido as duas linhas paralelas das cardas, vertendo apenas guturalmente no ouvido do encarregado, ao passar:

— Vocês têm que receber novas instruções. Fala com o Serafim.

O encarregado, num sedicioso relâmpago, bateu as pálpebras cansadas; enquanto o contramestre se refugiava brevemente na outra metade da oficina.

Aqui era menos violento o ruido, mais delicado o trabalho; e as esguias bancas dos torsos e introitos, dispostas em longas fiadas horizontais, finas e recortadas, quase lineares, no seu leve paralelismo marcialmente alinhadas, davam ao recinto um ar de graça melindrosa e estiraçavam a perder a perspetival. E era ao longo de todas elas um turbilhão esfusiante de pequenos cilindros, rolos e carretes, ás centenas em compactas filas prolongados, ventoinhando simultâneos, sem cessar, em escalonados planos, rodopiando alucinadamente numa velocidade que encrespa o ar e faz sopro, à cabeça de cada um zinindo um rodizio estonteador de antenas de aço de uns para outros, incansavelmente, gira o fio; primeiro nos torsos, passando dos cilindros a apertar nos fusos; depois rapidamente arrebatado ao bojo dos grandes novelos de chapitéus amarelos, à frente dos quais forma uma geométrica e complicada rede que mãos previdentes de mulheres vigiam, — levantando, esticando, calibrando, atando, — enquanto cada três fios, feitos num, descem a oscular, a cingir, a sobrepor-se em baixo, nos pequeninos cilindros de buxo era prumo ao longo de cada máquina.

A aproximação do Mateus determinou nas mulheres instintivas abertas de alegria. Cada uma delas então, num segundo de consolado alívio, dilata o mortificado peito; e umas ás outras se chamam por sinais, e, como se a presença do contramestre lhes trouxesse claridade, piscam num meigo enleamento os olhos.

E ele a uma:

— Bons dias, Joaquina. Olha que eu ainda não vi teu irmão... para quando te guardas?

A outra:

— A tua filhita está melhor?

— Isso sim, mestre!... Tudo remédios tão caros! A gente não lhes pode chegar... Nem o anjinho escapa!

— Trata dela, não esmoreças, vê lá... — confortou meigo o Mateus; e metendo-lhe furtivamente na mão uma moeda de prata: — Olha, toma... para uma galinha.

— Deus Nosso Senhor lho pague!

— O teu homem, preciso muito falar com ele... não te esqueças! Esta noite sem falta, ás 8, no Zé Pequeno.

E a outra:

— Adeus, Maria! O teu Zé das Palas, que é dele?

— Está na tanoaria aqui em baixo, senhor.

— E então que te disse eu, outro dia?...

A Maria, timidamente, baixou as pálpebras roxas.

— É que ele acanha-se...

— Ou tem medo?... — A rapariga estremeceu num protesto. — Seria indigno do amor de uma raocetona como tu! — E chegando muito à orelha de Maria, rubra de vaidade, os lábios: — Está bem! Pois faz com que ele hoje me apareça, sem falta, ás 10 da noite, no Cerquinho. Ouviste?

— Tão tarde!

— Não importa! — rematou o Mateus com império.

E pouco depois tomava direito à porta; donde, tendo relanceado um derradeiro olhar de conjunto à perfeita labutação da oficina, voltou costas e sumiu-se, passando logo, no elevador, a novo compartimento, em cima outra vez, contiguo & sala da mistura.

Outra grande sala, — esta de largos espaços limpos, de ruídos atenuados, onde uma relativa pacificação reinava e o duro ronronar das máquinas chegava esbatido, como um zumbido distante. Em três linhas paralelas, no mesmo estirado enfiamento horizontal, havia aqui as longas e esguias mesas de seis mules, postas a par e picadas a todo o comprimento também pela cegarrega alucinante de filas cerradas de pequeninos cilindros, girando a prumo, colhidos numa enliçagem subtil, num alabirintado tecer de fios brancos. Cada mesa vigiada por um oficial e um ajudante; e mais à frente de cada qual seu aprendiz, seguindo o doce rodar, pelos carris perpendiculares, das carruagens automáticas, que num espreguiçamento lento, avançando e recuando, vinham, aproximavam-se, tocavam os carretes e fugiam, a enastrar, a afinar o fio progressivamente.

Ora entre os oficiais o Mateus notou um que, epicureamente, de mãos nos bolsos e costas para o trabalho, junto a uma das janelas, atirava longe num vago alheamento os olhos pelo espaço. Por isso disse-lhe:

— Lourenço, que diabo fazes tu?...

O interpelado, voltando-se, sorriu de chacota, numa implicativa expressão de confiança, mas sem despegar da atitude. Ao que,, muito sério, o Mateus disse:.

— Nada! Nada! Meu rico, bem deves saber... assim não me serves. Daquela porta para dentro a ordem é trabalhar.

Com o mesmo risinho sorna, o Lourenço não se moveu. E o Mateus, exasperado:

— Não ouviste?... — Avançou para ele dois passos. — As outras conversas são lá para fora... Mas enquanto aqui estamos e as coisas não mudam, temos que fazer jus honesto ao salario. É a nossa obrigação! — E como ainda nem assim o recalcitrante lombeiro se mexesse: — Vamos! Vamos! — rematou com decisão. Agora não teve o Lourenço mais remédio... foi e arrumou-se à sua mule, coçando a nuca, num mal disfarçado arremesso. Enquanto os colegas, numa passiva indiferença, dobrados sobre as mesas, nada pareciam ver. E ao tempo que o encarregado da oficina, claudicando, se arrastava té junto ao Mateus, e, oscilante nos bicos dos pés, lhe coava a medo no ouvido:

— Ó Sr. Mateus, veja lá...

— O que é!? — fez o Mateus, impaciente.

— Esse diabo é torto... se dá com a língua nos dentes, é capaz de nos comprometer.

— Pensas muito no perigo... Outra vida! — retorquiu baixo o Mateus, com um olhar oblíquo.

E logo o velhote, muito pequeno e humilde outra vez, a derivar:

— Eu tenho uma coisa a dizer ao Sr. Mateus...

— Então?... — acudiu logo de interesse o contramestre, já outro, abrindo muito os olhos.

— Estive ontem à noite com o Esticado, caixoteiro.

— Sim?...

— O homem veio influidíssimo, não imagina!

— Bem! Bem!

— É nosso para a vida e para morte!

— Desses é que convêm... Aprende! Aprende!

— E então que aquilo, se quiser, traz com ele a vila Dias em peso! Tudo gente decidida!

O Mateus, animadamente, baixou ao ouvido cerdoso do velho os lábios brancos.

— Manda-o logo, à meia noite, vir cá abaixo... e espera-me com ele à porta da mata, aqui à raiz do muro. Já sabes...

— Sim, Sr. Mateus...

Mas, dizendo, o velho tecelão não desfitava do Lourenço os olhos inquietos. O que notando, o contramestre :

— Deixa lá o homem, que não te mata!

— Aquele demónio... se a gente pudéssemos dar-lhe de mão...

— Ora adeus!

— É da pele do diabo, patrão! Eu conheço-o...

— Precisamos de todos.

— Enfim, você lá sabe...

— Deixa! — epilogou com segurança o Mateus, misteriosamente. — Se nos for estorvo, o remédio é fácil... — Espalmou-lhe com força a mão sobre a espadua — Vigia-mo tu bem!

Mais bancas também, e o mesmo ruido atenuado, a mesma áspera moenda, as mesmas intermináveis fieiras paralelas de fusos dançando, na sala imediata, — onde funcionam vinte e quatro engenhos de fiação e um de trama, servidos todos por menores. O fio dos primeiros é passado à oficina das encarretadeiras, do pavimento inferior; a trama vai diretamente para os teares. Em todo o vasto recinto, além do encarregado, só mais dois homens, aplicados aos sarilhos, aparando tramas e urdiduras; e seis mulheres apenas, manobrando atentas de roda das aspas, a dobar linha. Pouca assistência faz portanto aqui o Mateus. Mal afaga de relance a cabeça de um ou outro adolescente; e abrangendo numa vista de conjunto exame a oficina, passa rápido e preocupado, por entre esse caprichoso dédalo de ruelas e ângulos, atravancado de toda a sorte de asperezas, através aquele brando e monótono serrilhar, cortado apenas de acaso pelo silvo de aviso de algum fuso cuja canela saltou fora. Entretanto, nesta oficina braveja e acumula-se uma grande diversidade de máquinas, uma complexidade interessante de géneros de trabalho. Aí está uma elegante máquina de fazer cordão; uma torcedora, a qual recebe das encarretadeiras o fio limpo e apertado, para dele fazer linha; outra para a escovar; outra que a enovela; uma dobadoira, uma prensa; e, finalmente, uma solida e esbelta banca de entrançado, toda em colunelos áticos de ferro, do alto de cujo capacete, vertiginosamente e em graciosas umbelas cónicas, os fios derivam, cuspidos, a enrolar em baixo em minúsculos carretes, que aos grupos de cinco e numa dança eurítmica de bilros, rodam, rodam, rodam sem cessar, no meio de um zumbido forte de colmeia, emaçarocando a linha numa saltada complicação de movimentos a que chamam baile pitorescamente os operários.

Novamente no piso inferior, o Mateus entra agora na oficina das encarretadeiras e urdideiras. Naquelas, em número de seis, o fio dos fusos, trazido dos engenhos de cima, é limpo nas escovas, estica automaticamente, no sentido vertical, e torna a enrolar em novos carretes, nos quais vai para a torcedora. Uma mulher só vigia cada máquina, que move quinhentos carretes. Nas urdideiras ao lado, — também em numero de seis, também servidas por mulheres, esses carretes, já torcidos, formam finas grades, engatados, suspensos numa espécie de grandes rotulas de madeira, assim de alto a baixo capsuladas de novelos brancos, e convergindo com os seus milhares do fios num angulo à frente do qual dois tambores, horizontais e sobrepostos, vão pachorrentos e cantantes esmoendo a urdidura.

Vigiando uma destas máquinas, destacava naturalmente a Bandeirinha com os seus olhitos de azeviche e o seu desempeno grácil de movimentos, a cantarolar. Foi direito a ela o contramestre, e todo afável, num patente jeito aliciador:

— Adeus, Bandeirinha!

— Bons dias, Sr. Mateus!

— Então o Ventura?...

— Sei lá, senhor... — arrastou meiga a rapariga, sacudindo a garupa redonda num frémito provocante.

E o Mateus, com frieza e decisão:

— Tens que o catequisar outra vez, entendeste? — para quê?... — interrogou a Bandeirinha num obliquo olhar de malicia. E desenvolta partiu um dos fios da urdidura, a fazer parar a máquina, para poder conversar.

— Porque preciso dele! — disse o Mateus com intimativa. — E não conseguirei que essa fera me obedeça, nem pô-lo dócil aos meus planos, senão se tu mo trouxeres, rendido e lamecha, pelo beiço, num começo de sujeição que será o apoio do meu poder.

— Ora! — objetou num momo de enfado a zorata, encolhendo os ombros.

— Hás de amansa-lo a ele... e a outros mais!

— Ó Sr. Mateus! Eu não sou dessas... — protestou, a fazer de envergonhada, baixando o rosto, a rapariga.

— Tem paciência, filha... para que fez a Natureza apetitosas e soberanas as criaturas de pecado, como tu, senão para que, ao vosso irresistível influxo molemente embalada, fique então a vontade do homem à mercê da vontade alheia?

Num peganhar lascivo, num claro lume de vaidade, a gentil tecedeira balbuciou:

— Sempre este nosso contramestre tem uma letra mais miúda...

— Então, a minha flor faz-me o que eu lhe peço? — disse o Mateus, imperturbável…

— Que remédio!

— Bem! Toma conta... Olha o que dizes!

— Ainda que, é um grande sacrifício, creia... Ir agora a gente apajear pessoas com quem embirra! — O Mateus teve um sorriso incrédulo. E a Bandeirinha, cravando nele olhos gulosos e suspirando: — Só quem eu quero me não quer!

— Isso quem sabe?... — murmurou numa sublinha sensual o Mateus, fazendo um esforço.

Ao estímulo vago da promessa, a Bandeirinha passeou a língua pelos lábios quentes, e com um rir mocanqueiro:

— Se eu domesticar esse moinante, quem é depois meu amiguinho?...

— Eu mais do que ninguém... já se vê.

— Promete?

— Sim, filha... depois terás o pago...--confirmou ainda o contramestre com doçura, dominando o tédio.

— Veja lá...

— Vê tu mas é se me trazes o Ventura ao rego, e depois falaremos... Quero que ele se encontre à noite, na fonte da Samaritana, com o Fagulha.

— Está direito!

— E agora não te esqueças! Olha-me essa urdidura... Adeus!

Dizendo o quê, o Mateus passou a dialogar com as outras mulheres, que já hostilmente fulminavam com invejosos olhares aquele coloquio interminável; enquanto, afogueada e esperta, a Bandeirinha repunha, atando o fio, a sua urdideira a trabalhar, com as pupilas boiando num vago clarão de esperança.

Pouco depois, já atravessava o Mateus, leve e indiferente, a oficina das repassadeiras, mera escola de aprendizagem dos pequenos; depois, passava a correr pelo nauseabundo retângulo, térreo e fumegante, em que duas grandes engomadeiras trabalham, num calor abafado, junto aos tanques da cola, donde a fermentação do sebo, da farinha e do sabão faz supurar um cheiro ardido, repugnante; e apontava por fim à galeria envidraçada que dava ingresso na vastíssima arena em que trezentos teares simultâneos batalhavam. — Empolgante e máscula impressão! Aqui novamente toda aquela infinidade de pequenas máquinas, duras, incansáveis, ao mesmo tempo disciplinadas e turbulentas, rompendo num alarme de ensurdecer, desatam a roncar a sua ansia perene de produção, tornam a fazer ouvir as suas vozes de agonia. O embate rijo dos metais, a imensidade reboante do recinto, as paredes nuas, o espaço resplendente, a claridade generosa, estonteiam, esmagam, embrutecem; e todo esse embricamento colossal de goelas de aço transmitem ao ser humano o mesmo atordoamento resignado e fatal que as alucina. Um aziúme insalubre e espesso satura o ar. Das ásperas rampas do teto, alto e distante, metade é envidraçada; daí jorrando torrencialmente a luz, em amplas toalhas que com a sua abundancia vitoriosa e crua parece virem ainda agravar o mal-estar, atropelar a velocidade e engrossar as vozes aquele torvelinho estonteante, aquele desaurido e galopante engrenar de rodas, alavancas, bobinas, pratos e correias, pelo meio do qual centenas de pequeninas mulheres andam perdidas, derreadas e atentas, moirejando, tressuando, desfeito o tórax em opressivas dispneias de cansaço e nos olhos febris ardendo-lhes um grande brilho estimulado. Para qualquer parte por onde se lance, nesta quadra ciclópica e infernal, a vista, é sempre o mesmo implacável e estralidante escabujar, incessantemente renovado, repetido ao infinito. Em cada tear a caixa bate, bate; e bate a lançadeira, projetada ao lado, com violência, pelo braço, despedida em fugas cegas como flechas, instantâneas como relâmpagos; e batem também as aviadoras, alternadamente acima e abaixo, entre os liços trémulos acamando, cruzando, apertando e tecendo o fio, que à frente depois a bobina enrola, mansamente.

Quebram a monotonia de linhas e o matemático empilhamento daquele arranjo alguns teares mais altos e refeitos; são os do pano enfestado, cada um tem duas teias. Outros são encabeçados por umas traquine-tas maciças de ferro, aparafusadas ao sobrecarro: fazem toalhas, Todos têm pendente ao lado um livrete com lápis, para registo da obra que se vai fazendo. No topo da sala, junto à galeria, as mulheres veem, por turmas, colher em baldes de zinco as maçarocas de trama, que lhes caim de cima, e que elas têm de encavar nas lançadeiras. E confusa, promiscuamente, minúsculas e diligentes como formigas, elas serpeiam sempre pelos intervalos arruados, somem-se, agacham-se por instantes, lidam cada uma de roda do seu tear... não param, não descansam. E incansavelmente também agora o Mateus pelo meio delas gira e manobra... vai a uma, vai a outra... a esta despede um galanteio, aquela faz uma promessa, a esta outra transmite uma ordem, àqueloutra insinua uma ideia; como se, vesanicamente sacudido e vibrante o seu cérebro pelo fragor tormentoso e fecundo que o rodeia, atingido ao abalo dessa intensa trepidação o máximo poder de atividade, procurasse então avidamente, no inspirado que da lucidez, no impulsivo calor do entusiasmo, alargar e firmar pela persuasão, pelo carinho, peio império a sedutora evangelização da sua propaganda.

E estava, podia dizer-se, finda pelo momento a sua tarefa oficial. Não costumavam ter inspeção quotidiana as demais dependências da fábrica, a saber: a casa da máquina, oficinas de serralheiro e torneiro, arrecadações, a calandra, as prensas, e as caneleiras e máquinas de dobrar, na casa da fazenda. Dos teares pois o Mateus passou logo direitamente ao terraço, oferecendo em cheio à caricia tónica do ar fresco a cabeça escandecida. E cá fora, direito e contente, alongando alto e longe pelo espaço a vista em devaneio, supunha-se já esse cândido visionário antecipado senhor da situação. Tinha inteiramente sob a mão os explorados, os párias, os humildes. A vitória estava segura, era dele o futuro Sim, porque a sua alma sentia-o bem... todo esse arfar potente de engenhos que o rodeia, o marulho de trabalho que aquela hora braveja em torno ali, por toda a parte, confunde-se na mais santa e absoluta irmanação com o seu desejo, é como o acantonamento de um grande exército, onde tocou a reunir, prometo a manobrar, compacto, cego, à voz do seu comando. — Oh, havia de consegui-lo! Já estivera mais longe... E então nesse ansiado momento, síntese suprema da sua vida, que alavanca invencível de libertação, que formidável engenho de vingança!