Amanhã
Capítulo X · Andava ao tempo em Lisboa um pouco…
Andava ao tempo em Lisboa um pouco acesa a questão religiosa. Durante os últimos oito anos que o partido ultramontano, cobrando progressivos alentos, vinha estadeando um crescente aparato de forças e promovendo a aliciação de influências novas. Perante a desprevenida indiferença dos liberais, adormecidos, depois de 1834, numa estulta e cega confiança, embalados na ingénua crença de que a vitória do seu épico esforço desafiaria os séculos, aqueles tinham trabalhado sempre pela desforra, disciplinadamente e na sombra, sem descanso, e tenazmente arregimentando no mistério tolerado dos velhos mosteiros em ruina, legiões novas de prosélitos. Tudo lhes facilitava este minar de sapa nas consciências: a inação dos governos, o egoísmo dos interesses e a ignorância do povo. Assim sucedeu que os resultados foram galopantes; e tão seguros se achavam, que tinham agora por azado o momento de fazer ostensiva parada dos seus recursos, de realizar uma ostentosa e solene demonstração que pelo deslumbramento e pelo espanto cavasse fundo na imaginação das massas.
A ocasião, o pretexto estava achado. Tinha um cativante sainete popular, vinha de molde e perfidamente a jeito de alcançar sobre os elementos contrários uma vitoria decisiva. — Era a celebração do centenário de Santo António, para junho do ano seguinte. Em magno concilio de prelados, titulares e argenta rios concertara-se rodear esta celebração de todos os possíveis coeficientes de êxito, pela propaganda, pelo esplendor, pelo suborno e pelo ruido. As festas durariam quinze dias; haveria te-deums, lausperenes, luminárias, magnifica ornamentação de ruas e monumentos, quermesses, cortejos, procissões; celebrar-se-ia um congresso católico no paço de S. Vicente. O governo estava de acordo. O Núncio, com o seu dulceroso talento, estimulava. E para a realização do audacioso programa havia já comités da aristocracia, havia comissões paroquiais nomeadas. O conservantismo dava o seu apoio incondicional, não faltava o dinheiro.
Ora a série de boatos incessantes que sobre os espaventosos manejos da reação corriam, eram mais que motivo para o indignado alvoroço das consciências livres e honestas. Um legítimo e agudo sobressalto remordia os homens de pensamento e ação, que pressentiam e temiam um calamitoso ladeirar ás sombras intolerantes do Passado. Seria o inevitável regresso aos ominosos tempos em que a nação perdera o seu destino histórico, debruçada a entoar ladainhas. Já todos os dias os jornais avançados tocavam a rebate inflamadamente, e a sua leitura enardecia os proletários, chocava o fermento de possíveis revoluções na baixa população das oficinas. A grande massa burguesa da cidade continuava a sono Lear na sua egoísta indiferença, sepultada nesta beatitude inerte dos que sentem o gozo fácil e a vida segura. Uma instintiva manha aconselhava mesmo a multidão enorme dos ganhões e traficantes a aproximarem-se, num escoramento mútuo de interesses, dos grandes mandões dispondo da influência e dos ganhos. Mas o eterno explorado, o proletário, pela miséria irremissível da sua condição tornado incrédulo, não podendo recear-se de penas sobrenaturais mais horríveis que o seu incomportável inferno já neste mundo, esse dia a dia mais violento e negro sentia no íntimo crescer-lhe o odio por todo o existente, e se consultava a alma não colhia da sua tumultuaria ansia senão explosivas ameaças. Na mesma cruzada andavam de concerto empenhados também os vários centros socialistas da cidade. Nunca em Lisboa este partido fora tão unido, tão numeroso, tão forte; nunca o comocionara um tão intensivo ardor de ação, um tão desapoderado furor de propaganda. Eram amiudadas, quase quotidianas, as reuniões dos seus principais dirigentes, ora no pátio do Fiúza, na rua do Bem formoso, ou na sede do círio civil da vila Dias. Aí se pesava com judicioso critério a situação; aí se fazia próximo o passo das manobras de sapa dos ultramontanos, no propósito de as contraminar e inutilizar a tempo; aí choviam, bastos e cegos, os alvitres revolucionários, a cuja tempestuosa onda veio depois o verbo candente do Mateus acrescentar um sopro estonteante de revolta. No fim deste ano de 1894, não havia pois centro operário da capital que um ardente anseio de libertação não trabalhasse. Cada um desses ínfimos seres estava disposto a suar sangue pela liberdade do seu pensamento, o que de mais nobre existe na organização do homem. A benemérita Voz do Operário sempre firme e inalterável na prossecução do seu programa, — a união pela vida, — chamava com insistência ás armas os correligionários pela voz tão autorizada como difusa do seu jornal; e nas modestas salas da sua sede, ao largo do Outeirinho da Amendoeira, oferecia aos pobres e aos humildes a vulgarizadora lição de conferências semanais, proferidas poios mais celsos e cultivados espíritos. Acentuava-se assim, rija e instintivamente, essa luta de defesa do individuo contra o Estado, de que modernamente o grande apóstolo foi Spencer, esse Aristóteles moderno. A tendência para o equilíbrio social, esta intima febre de revolta dos oprimidos, eram agora exacerbados pela aversão contra a ostentosa desfaçatez dos grandes. Piorava o mal-estar presente a desconfiança pelo futuro. E no recetáculo desprevenido e fácil da alma popular, a colorida ampliação dos fatos, feita pelos jornais, mais temeroso volume assumia ainda, desdobrada pela imaginação, envenenada pela ignorância.
Um dos sintomas desta excitação crescente do espirito público, foi a assuada da gente do Almargem contra os dois padres, a qual esteve por um triz a motivar o encerramento da fábrica. A flatulenta imundície da D. Mafalda incendiou-se em timpânicas iras, deflagrou em trejeitos apopléticos. Foi todo o dia, pelo alto sossego dos salões, uma berraria doida. Valeu porem, a abrandar-lhe os rigores pelo momento, que o balanço do fim do ano ia acusar um lucro liquido de algumas dezenas de contos de reis.
Em todo o caso, o magno escândalo foi naturalmente debatido em conselho privado, logo na mesma noite do desacato, entre a sociedade de hábito, no conhecido salão do Almargem, incluindo o marquês de Vale de Madeiros. — Estivera este, por espaço de três dias, preso em casa pela gota, no seu esmadrigado palácio da Murtosa, à Mouraria, sem poder sair. Naquela manhã, porém, acordara mais aliviado. Desaparecera o inchaço das pernas, as dores tinham diminuído. Tinha-se por isso o marquês levantado, o arrastara-se até a uma grande poltrona Luís XIII, que ele tinha no vão de uma das janelas do salão de entrada, deitando para o pátio quando, sobre a tarde, ouviu garotos apregoando com demoníaco furor um suplemento à Vanguarda, à última hora! Atraído pelo ar sedicioso do pregão, apurou o ouvido. Colheu palavras soltas, — grande escândalo... jesuítas feridos... uma fábrica em greve... e por fim pareceu-lhe ouvir também distintamente a palavra «Almargem.» Instintivamente estremeceu. Ao pique natural da curiosidade juntou-se no seu ânimo um sentimento de piedoso interesse pelos Meireles, de quem era sinceramente amigo. Chamou pelo escudeiro, mandou comprar. — E com efeito o caso era com eles! — Mal que o criado veio com a folha volante, como não podia estar a afirmar-se, o marquês mandou-o ler. Era de verdade a narração, exagerada de indústria pela mira mercantil do momento, da assuada feita aos dois padres no Almargem, naquela manhã. Falava-se em desordens graves, ferimentos, morras, a fábrica cercada por forças da municipal. Num sincero ímpeto de indignação e susto, o marquês aprumou-se na cadeira, ergueu-se e avançou dois passos, na intenção de ir inquirir pessoalmente, valer ao mal no que pudesse, acudir aos seus amigos. Mas breve se viu colhido numa grave dificuldade, uma amarga aflição lhe ranilhou a caparrosada aridez da face. — As pernas tremiam-lhe ainda como vimes, perras, moles, cheias de picadas. Não podia ir a pé, carecia de uma tipoia... e não tinha em casa 5 reis! Se fosse questão só de o levarem, bem estava; mandava ali ao Rossio, qualquer “lagoia” lhe fazia da melhor vontade a esmola da corrida. Eram todos seus amigos... muito mais do que isso lhe deviam eles. Mas quem o levasse tinha de esperar, para o trazer também. E isto é que já era um favor mais puxado. Não se atrevia a pedir tanto... Demónio! E o pobre Meireles lá, e o Jorge, e Adriana, e o pateta do padre Sebastião aquela hora quem sabe se vivos... sabe Deus como! — E perplexo e inquieto, sobre brasas, o marquês sentia tenalhado o coração no cuidado e na dor por esses vagos perigos, que a sua imaginação de artrítico mais avolumava. Nisto, — estava-se em vésperas de pagamento de rendas, — anunciam-lhe a visita de um dos locatários de algumas terras de semeadura e horta que o marquês possuía ainda, hipotecadas havia muito, nas várzeas da ribeira de Algés, cerca da estrada militar. Distraidamente, voltou a sentar-se, mandou-o entrar.
O caçapo saloio avançou humilde e devagar, todo desfeito em zumbaias, com um espertalhão sorriso a debruar-lhe de vez em quando os olhos e o chapéu à frente, rodando nas mãos calosas.
— Ora salve-o Deus, amigo Jerónimo! — disse-lhe afável o marquês, depois que, de mão em palia à frente da testa, conseguiu reconhecê-lo.
— A paz do Senhor seja nesta casa, Sr. marquês! — acolitou o ladino, com uma nova mesura.
— Então o que é que o traz por cá?...
Adiantou mestre Jerónimo mais um passo, com mostras de envergonhado, cofiando os matacões.
— Vossa Excelência sabe... eu vinha para dizer ao Sr. marquês... Isto a lavoura está uma desgraça! As terras não dão nada: nem há produtos, nem compradores. Os anos cada vez piores...
— Ora! Desde que me entendo que eu lhes oiço dizer isso.
— Ah, queira desculpar, Sr. marquês, mas isso é que não! Nunca como agora... Eu cá falo franco, assim não posso continuar lá com a fazendita.
— Então entregue-a.
— Ó Sr. marquês! E o dinheirinho que eu ali tenho enterrado?... Tenha dó de mim.
— Mas então o que é que você quer?
O saloio fez pausa, baixou mais a cabeça, e numa lamurienta distensão dos lábios:
— Se Vossa Excelência me perdoasse por este semestre a renda...
— Você está doido! — vociferou súbito o marquês. — E então eu de que é que vivo? Eu e a minha gente não havemos de comer?... Nada! Nada! Preciso muito de dinheiro.
— Tem muita razão, Sr. marquês, tudo isso é muito direito, mas...
— Bem, bem, vamos a despachar!
— Mas então ao menos um abaixamentosinho...
— Abanou o marquês negativamente a cabeça. — Era uma esmola!
— Homem! Já de outra vez eu lhe fiz a redução que podia.
Sobre esta contestação, o marquês abriu uma pausa transigente. E o outro, adivinhando-o, balbuciou:
— Eu vinha para pedir isto, para saber... sim, para ver como hei de então trazer depois de amanhã o recibo.
Manteve silêncio o fidalgo. E na sua insistente moenda o Jerónimo, perante aquela condoída hesitação, lamuriava sempre monossílabos de súplica; quando de repente o marquês, com familiar descaro:
— Olhe lá, tem você aí dez tostões que me empreste?
— Pois não tenho, patrão! Acudiu logo o saloio, num vitorioso relâmpago. — Até mais, se quiser! Ora essa, meu fidalgo!
— Não, não... dez tostões bastam.
O feliz arrendatário puxou da bolsa e adiantando as duas moedas de prata:
— Pronto!
— Está bera, obrigado... — disse, colhendo sôfrego o dinheiro, o outro. — Abata lá então alguma coisa.
— Quanto, Sr. marquês?
— Eu sei... para aí um terço.
— É pouco!
— Bem, olhe, encha lá o recibo, em consciência, para a melhor forma que entender. E não me masse mais...
Despedido por um gesto, deu-se pressa o Jerónimo em retirar. Mas o marquês disse:
— Já agora, dê-me cá mais cinco tostões... — E depois de servido, com um frialão cinismo ao saloio, que retirava todo humilde, ás arrecuas: — Adeus, meu rapaz!
Meia hora depois, já o besuntão se apeava à porta da casa senhorial do Almargem. Entrou pela cozinha, jantou; e no momento em que os seus grossos sapatos apontavam tartameleando na fria antessala do andar nobre, recapitulava o padre Sebastião atabalhoadamente, perante a escovada indignação do comendador Sulpício, a sacrílega agressão de que ia sendo vítima, aquela manhã. A D. Mafalda, do seu fauteuil, sublinhava a carfologias de odio as palavras do padre, tremulas ainda de pavor. Jorge e Adriana, de pé e enlaçados, sorriam complacentes. O pai lia a Palavra. E Bernardo Gonzaga, perfeito, invariável no seu papel de cortesão barato, não descurava de ás iras rompantes da D. Mafalda acudir com o seu reforço de exclamações e gestos indignados.
Quando viu o descadeirado vulto do marquês, logo a fidalga exclamou:
— Ah, ó marquês! Venha cá... Ainda bem! Então já sabe?
— Pois então não sei! — acentuou do marquês a laringe oxidada.
— Quem lhe contou?...
— Andam suplementos nas ruas.
— Vejam!
— Vão lá fazer bem a esta gente!
— Foi por isso que eu cá vim... Deu-me cuidado! Mandei ao demo a gota e pus-me a caminho.
— É amigo! — exclamou D. Mafalda, com os olhos boiando numa ternura envaidecida. E indicando ao marquês uma poltrona de coiro, ao lado: — Sente-se...
O marquês avançou com precaução, e tomando lugar, muito amparado aos braços, na cadeira:
— Estão então todos vivos?
— Graças ao Senhor! — acudiu num plácido sorriso o Meireles, sem desfitar o jornal.
— E ao mestre Mateus, digam também! — observou alto Jorge, adiantando um passo.
— Ora adeus! — rompeu colérico o padre.
— Não me venhas falar nesse traste! — apoiou no mesmo tom a fidalga.
— Mas porque não, minha querida mãe?... — disse com afável bonomia Jorge Meireles, trocando com a irmã um sorriso de irónica piedade. — Pois a verdade não é esta? Sim, se não fosse ele... padre Sebastião, diga lá... eu sempre queria ver!
Como o padre se mantivesse mudo, o marquês invetivou:
— Vamos! Que diz a isto, seu jarreta?
— É sempre bom firmar em toda a sua pureza a verdade dos fatos, — aqui achou oportuno sentenciar o comendador.
E então, vendo todos com os olhos nele postos, o padre:
— Lá isso, verdade, verdade... estávamos quase a ser apanhados, mas mal que esse danado contramestre apareceu e lhes fez um sinal, toda aquela furibunda choldra estacou e emudeceu... ficou de pedra!
— É singular... é bonito isso! — arranhou o marquês.
— Eu cá nunca assim vi!
— Mas que homem! — exclamou Adriana num transporte, corando e abrindo ao alto enlevadamente os olhos.
— Foi um achado, isso foi... — murmurou compenetrado Afonso Meireles, largando para cima do bufete o jornal.
D. Mafalda, com os olhos sumidos de raiva, batia de punho fechado na concha da mão esquerda. E então bajuladoramente o Gonzaga, a ir com ela:
— Eu acho-o perigoso...
— Pois não é!
— Sim, até certo ponto, pode-se dizer... — interveio de pausa o comendador, de mãos no ar suspensas, na grave preparação de uma pitada. — Esse homenzinho, vê-se, está identificado de mais com a canalha... há de pensar e sentir como eles. Não convêm! — Sorveu a pitada, sacudiu os dedos e limpando-se, epilogou: — Eu cá despedia-o!
— Veem! Veem! — disse D. Mafalda para o marido e os filhos, num riso triunfante.
— Não pode deixar de ser! — ajudou o Bernardo, prometo à deixa.
— Homem, essa! — observou com toda a sua rude estranheza o marquês. — Então há de ser votado ás feras um homem que acaba de prestar-lhes tamanho serviço? Um homem que é a primeira garantia de ordem que vocês têm ali assim, das portas para dentro?...
— Ora, marquês, eu sei lá!
— Quem sabe se não andaria aí plano para mais tarde?... — insinuou Bernardo Gonzaga com ar misterioso. E como Afonso Meireles o fitasse com sincero espanto: — Sim, com o ascendente enorme que o meliante tem sobre aquela gente, se um dia lhe dá para mal, imaginem!
— Que lembrança!
— Está doido! — fulminou Adriana.
E, de nojo, voltou com o irmão costas à conversa.
— Está claro que sim! Há que pensar nessa coisa… — apoiou irritadamente, pondo-se em pé, o padre. — Mormente no tempo falso e perigoso em que vamos.
— Não há coisa nenhuma! — disse aborrecido o Meireles.
— O tal senhor Mateus é declaradamente pedreiro livre...
— Lá volta a asneira! Pois ainda há disso?
— Ah, isso é que ele é! Conheço-os pelo cheiro... Ia jurar! Ora se ele se lembra de se ligar a esse trabalho de extermínio que anda iminente, de roda de nós e contra nós... se arrasta consigo, e é só ele querer, toda essa sucia de malandrins que lhe obedecem como autómatos, vejam! Vejam que calamidade! Não há quem os sustenha, veem para aí acima… dão-nos cabo da vida!
E num irreprimível trejeito de pavor, como se já estivesse sendo vítima dos maus tratos da canalha, o padre Sebastião voltou a acoitar-se na cadeira que momentos antes deixara, enovelando-se todo, a tremer, aos suspiros, de pés no ar; numa tão arrevesada e grotesca apostura, que de roda dele estalaram grossas e unanimes as gargalhadas.
Ao ruidoso cascalhar voltaram-se Jorge e Adriana; exclamando esta:
— Ai o nosso pobre padre Sebastião, que arranjou susto para sua vida!
E, dizendo, Adriana ria, ria também... com um riso claro e crepitante, que rufava em todos os seus nervos e lhe tomava todo o corpo numa aleluia de troça... um riso petulante e amorável, que era só dela e de mais ninguém. Era como se os seus lábios se partissem em casquinadas de cristal, e a sua boca infixável se esbagoasse em frescas notas de carne, que arlequinadas e cheias, atropelando-se, vinham umas sobre outras rolando a sua música zombeteira e súbito espipavam numa estralada vibrante para o ar. Riso feito de agudas cintilas, de pequeninas fugas doidas, límpidos jatos de alegria, espadanando, afusando, espirrando para o céu em rutilas toalhas, um momento interrompidas, para logo recomeçarem mais espumantes e mais jucundas, na sua tamborilada e cantante alacridade. Nem era contrafeito, nem mau, nem agressivo; mas um rir bem timbrado e forte, um rir de saúde, a que a encantadora criança plena e regaladamente se entregava por uma tendência ao seu temperamento essencial, porque isso lhe dava prazer, e porque, em suma, há momentos em que a vida não merece outra coisa.
E de roda dela o pai, a mãe, todos menos Jorge, a fitavam de espanto, realmente admirados por a verem, em vez de indignada, toda entregue a um daqueles seus acessos de rir tão raros, como de quem adivinha uma grande e suprema felicidade, — e que só muito de espaço costumavam vir transtornar o severo triângulo do seu rosto egípcio, a linha sossegada e séria do seu perfil.
Passados alguns minutos, quando a calva académica do comendador conseguiu fechar a poder de compassados meneios este parêntesis de troça, achegou ele de importância o seu fauteuil do de Afonso Meireles e deblaterou:
— Em todo o caso, meu caro Meireles, não tenha duvida... entre nós algum grave fenómeno social se prepara.
— Não sei porquê... — o outro objetou, num dar de ombros incrédulo.
— Ah, é evidente... diz-mo a minha experiencia. Leia o amigo os jornais, surpreenda-me por aí as conversas, observe-me as fisionomias de toda essa gente nas ruas.
— Ora adeus! Já há pouco disse... não vejo coisa nenhuma!
— Perdão, pai... vê-se uma coisa... — acudiu muito irónico Jorge, sentado junto da mãe. — E é um ridículo e dispensável aparato de opas e sotainas. Ainda esta manhã!
— Cala-te! — segredou-lhe, com palmadinhas de mimo nas mãos, D. Mafalda.
— Não se digladiam duas classes, esperta-se a lembrança de um santo folião.
— Sempre a fazer espirito este menino! — arrastou numa protetora complacência o comendador.
— Ó meus caros senhores, é a pura da verdade! — insistiu Jorge com calor. — Os ultramontanos, cá a nossa gente, mexem-se... não sei se fazem bem, se mal, mas o fato é que, presumindo muito de si, estão buscando um pouco a evidência; trazem para o sol a sua influência, a sua organização, a sua força. Naturalmente, fazem sombra aos contrários, que pelo seu turno, provocados, se alvoroçam e se agitam também.
— Este meu filho! — comentou o velho Meireles, desvanecido.
— De sorte que, em última analise, o tal grave fenómeno social, de que a grande caturreira deste nosso comendador se arreceia, com perdão de s. exa, mas não passa de uma minúscula reedição do Hissope, uma pífia questão de confrarias.
— Não me tens respeito nenhum! — disse a mãe.
— E eu assim, no tal iminente conflito, não vejo soldados, mas sacristães. O medonhento combate que vai travar-se não será a pólvora e bala, mas a brandões e água-benta. A mãe deve estimar!
— Agora água-benta! — exclamou furioso o padre. — Um grande martelo vi eu por diante dos meus olhos... essa não está má!
— Não, agora, falando sério, — disse, enquanto os outros riam, e depois de uma pausa complacente, o comendador, — a coisa não está bem, Isso não está...
— Pois não! — resmoneou o padre. — Só quem for muito cego ou muito... herege, é que é capaz de sustentar o contrário.
— Padre! Padre! — ameaçou, rindo, Jorge. — Olhe que eu levo-o por uma orelha até lá baixo à fábrica.
Coseu-se de novo o padre Sebastião, quanto pode, com o fundo espaldar da sua poltrona. Ao tempo que o Gonzaga informava:
— Eu ouvi dizer que o governo, para assegurar a ordem e reprimir a desaforada licença que aí campeia à solta, vai restringir o direito de associação e publicar uma nova lei de imprensa.
— Diz que sim... e é muito bem entendido!
— Há muito que eu não prego outra coisa!
— É verdade, olha lá, — disse com intimativa Afonso Meireles para o marquês, batendo-lhe na cocha, — agora, quando o parlamento abrir, tens que apoiar nesse ponto o governo.
— Não, menino, isso é que não! — redarguiu logo o interpelado.
— Então porquê?...
— Esquece-se de que é dos nossos! — censurou a D. Mafalda com amorável estranheza. — e Vossas Excelências esquecem-se de que eu fui feito par pelos progressistas.
— Ora e isso que tem?
— Quem se prende hoje com essas coisas!
— Um membro da camara alta deve ter opinião sua, deve ser independente.
— E deve ser grato também... — acentuou o marquês com dignidade.
O Bernardo Gonzaga aclarou, todo solícito:
— Olhe, é verdade, aí tem o marquês o Vargas, que foi feito para o reino na mesma ocasião que V. exa e está do nosso lado.
Ao que o velho frialão, com uma expressão sarcástica singular, demoradamente:
— Ah, perdão, perdão... mas isso é o Vargas, que é um homem honrado... pode faze-lo. Agora eu, um cínico, um valdevinos, eu é que não!
Entretanto Adriana, altivamente alheada da conversa, passeava nervosa pelo aposento a sua alegria estimulada, em quebros felinos dos rins, em contraturas bruscas das mãos e caprichosas circuições no passo. Não sabia o que tinha... Dir-se-ia que instintivamente rejubilava, num diagnóstico vago de vitória, sem bem saber-se dizer porquê... Mas em todo o caso esta propicia excitação dominava-a por completo, fazia-a manifestar naquela dança de febre o seu antecipado anseio de triunfo. — É que o seu temperamento vivo e másculo tinha naturalmente a obsessão do mando. Da sua alma, embora feminina, a preocupação constante, essencial, era este garridismo dos fortes que consiste na sujeição dos outros. Sob este ponto de vista, a grandeza moral do Mateus desafiava-a... não pelo deslumbramento, não pelo afeto, não por qualquer fascinação sentimental... mas por uma espécie de duelo de primazias, por um acre ciúme de competências. Não era nada banal aquele homem! Tinha vontade sua, eloquência, poder, alma, prestigio. Quem o pudesse dominar! Aquele sim, valia a pena! Era de tentar a experiencia. A ver qual dos dois era mais forte! — E quanto mais considerava na arriscada empresa, mais também a atração, o encanto por um êxito que tinha como certo, a empolgava. A termos que, desde aquela noite, progressivamente tomou corpo e cada vez mais fundas raízes mergulhou na virgindade arrogante da sua alma o apetite absoluto e ardente de vir ela a tornar-se ainda a suserana, a dominadora suprema de um homem assim!
CAPÍTULO XI
Estimulado e aquecido também pela mais promissora alegria se sentia o Mateus, desde aquela manhã. Tinha ele agora para si como indubitavelmente assentes duas coisas: a submissão incondicional de todo o pessoal da fábrica ao seu fascinativo império, e a eficácia maravilhosa do seu estratagema. Com certeza os patrões não pensariam mais em creches, ou qualquer outra inovação piedosa; era um negócio arrumado. Assim, já não havia perigo de que inoportunas lágrimas de gratidão viessem amolecer a generosa semente de ódios que ele com tão incansável furor andava espalhando; a sua obra providencial de reivindicação e justiça continuaria inalterável; no momento próprio poderia finalmente então dispor ao seu talante, e arrojar em massa contra o inimigo comum, a passividade disciplinada e feroz da multidão. — E a evidência deste fato, a iniludível confirmação deste resultado mais ardidamente o faziam agora afervorar na sua cruzada igualitária; como que lhe reacendiam o entusiasmo e lhe decuplicavam as forças.
Vinha próximo o Natal, e portanto a anunciada visita do mestre chapeleiro Bazeleerts e do companheiro. Que enorme importância ia esta visita dar-lhe! Que influencia decisiva para o êxito da sua causa! Era afinal ele, sim, o pobre e ignorado Mateus, o primeiro que conseguia trazer a Lisboa dois delegados da Internacional... Por coisa nenhuma no mundo abdicaria desta glória! — Muito havia já que o contramestre do Almargem passava as noites a renhir no caso. Era o tempo de dispor para essa grave entrevista as coisas, de modo a garantir toda & segurança aos recém-vindos, e a tirar da aproximação deles com os nossos todo o possível resultado no sentido da execução da sua ideia. Tornava-se indispensável recebe-los bem, fora de toda a contingência de perigo, rodeando-os ao mesmo tempo de correligionários à altura, e dispondo, para influírem no animo deles e dos de cá, um cenário de efeito. Mas como, onde?... A tenda do Zé Pequeno já não oferecia garantias, nem era decente. Outra qualquer em condições também por ali não havia. Na vila Dias, a sede do Cirio Civil era segura, mas acanhada, dava muito na vista. De sorte que só se fosse talvez... em casa do João dos Unguentos.
Logo na tarde do mesmo dia da arruaça, resolveu o Mateus ir lá, para combinar. Terminada a entrada das 2 horas, deixou pois a fábrica, tomou calçada do Grilo acima, e depois à direita, pela estrada de Marvila toda, até, passado o pátio do Picadeiro, ao alto. Aí, antes da descida para Braço de Prata, a rua aplana e alarga, num esboço irregular de praça, onde, à direita, bizarramente entalada entre dois prédios banais, se afirmava pelo seu ar misterioso e exótico uma alta e maciça construção vermelha, meio armazém, meio celeiro. — Era primeiro um largo portão de pinho, pintado a sumagre, com os gonzos embebidos em dois pilares rústicos de alvenaria, flanqueados por frades de pedra e no topo sustentando dois grandes monstros arqueológicos, também de pedra, voltados um para o outro e coinchados numa apostura que lembrava a da celebre loba mitológica, da fundação de Roma. Depois, sobre o portão e contornando os devastados lombos das duas feras, corria uma espécie de novo embasamento de madeira, vermelha também, com o seu vistoso aparelho nos rebordos, o qual suportava um tapume protegido de zinco, fechando espaço, com janelas aos cantos. E por toda esta enigmática fachada escorriam herpes de abandono e de ruina. Grossas teias de aranha, prenhes e negras de pó, sanefavam as vidraças. As algas e os musgos acolchoavam as fendas, enchiam os ângulos, debruçavam-se dos ressaltos, destingiam junto à base as ripas carcomidas. O Mateus aproximou-se, puxou um cordão de campainha que se ouviu tinir dentro estrondosamente. Segundos depois, um dos postigos do portão abriu-se, o contramestre entrou, fechou-o sobre ele; e estava agora num longo pátio deserto, calçado a brita miúda, como a rua, com as duas faces maiores tomadas por lojas, e sobre elas, salientes como balcões, correndo varandas envidraçadas. Ao fundo, uma escadaria de pedra com corrimão e o seu alpendre, encostada à parede, dava serventia ao interior da casa por via de um aparatoso portão armoriado. De roda, pelo chão, havia profusos destroços de garrafas, retortas, frascos, fogareiros de barro, cacos e resíduos de toda a sorte. Á esquerda, o parapeito circular de um poço, com balde de roldana. Á direita, enferrujando o muro, uma nespereira.
Quando o Mateus entrou, assomavam ao portão do alpendre, do lado oposto, a cunhada mais velha do Silvério e a grandalhona e dura amasia do dono da casa. Mal que esta viu em baixo o Mateus, os seus olhos felinos fosforaram numa expressão que pretendia ser afável.
— Ó Sr. Mateus! Por aqui?...
E o contramestre, de mão ao chapéu, adiantando-se:
— É verdade... Salve-as Deus, meninas! Então o nosso João?
— Rijinho, graças ao Senhor... E o que ele vai ficar de contente! — exclamava envaidecida, do alto da escadaria, a virago, desengonçando vivamente os braços. — Entre, suba, faça favor!
O Mateus havia tomado com presteza à escada; e já em cima, no patim, apertava ás fluas mulheres as mãos com familiar engodo. A do João disse-lhe ao ouvido:
— Temos coisa de importância?
— Não... Apenas ver se o seu homem me empresta a casa para uma noite destas.
— Pois entre! — insistiu com intono protetor a amasia, quadrando os ombros do Mateus com a porta. E a meia voz explicava: — Estamos aí a aviar umas freguesas e ele depois já o atende. Ficamos sós...
— Bem, filha, obrigada... Adeus! — disse para esta a dó Silvério, estendendo do mimo a face.
— Até quando quiseres.
— Deus Nosso Senhor vos faça tanto bem como eu desejo para mira!
— Tomaste bem sentido?... Cénia, maná e sal inglês... ferves bem, com as por um pano e bebes todas as noites, ao deitar da cama. É infalível!
— Bem hajas!
E enternecidamente as duas beijocavam-se, piscando os olhos húmidos. Depois, já descendo a escada, a do Silvério suspirava:
— Se me vejo livre disto! Ai, Nossa Senhora!
Enquanto, com maligna intimativa para o Mateus, a outra:
— Esta desavergonhada... conhece-a?
— Não tenho bera ideia.
— É a cunhada do Silvério... a mais velha.
— Ah, sim...
— Está metida em boa! — bisbilhotou a dura abantesma, irreprimivelmente, com regalado interesse. — Anda aí enrolada cum gargajola que mal ganha para comer. Parece impossível! — E erguia ao alto numa indignação a mão enorme, espalmada. Mas vendo que a rapariga lhe acenava uma última saudação da porta da rua, corrigiu logo o gesto, acenando-lhe também: — Adeus, filha! Desejo as melhoras... — E mal que ela desapareceu, outra vez com intimativa para o Mateus, passando com ruido as costas da mão pelas narinas e arregalando os olhos: — Em suma, para que o senhor Mateus veja, o tal moinante é desta força: tem sete prisões, ninguém lhe conhece casa... Ainda da última vez que esteve preso, veio quase nuzinho... teve que vender tudo para sair!
— Esses homens têm atrativos!
— “Nanja” para mim! Pois esta lesma desconfia que ocupou dele... E agora têm medo! Se ao Silvério se mete isso na ideia, teme que ele lhe dê má vida... quer desmanchar a obra. Ai, se ele desconfia, credo! É capaz de a matar.
Visivelmente enfastiado, o Mateus olhava fito o portão, sem responder. E então ela, percebendo:
— Entre! Entre! Estão só mais duas... Aqui não se faz mistérios.-t-E passando adiante do Mateus, muito chalreira e contente para dentro, batendo as palmas: — João! ó João! Olha quem aqui vêm!
O João, que ao fundo do lezardento casarão estava sentado, junto a uma secretária trivial de mogno, com prateleiras, ergueu-se logo e veio numa grata surpresa ao encontro do recém-vindo.
— Olha o nosso homem por aqui! Como está, Sr. Mateus? Ora até que enfim!
E efusivamente apertava entre as suas a mão do Mateus, que, sorrindo:
— Então! Alguma vez havia de ser.
— Não te dizia eu que nós hoje tínhamos grande novidade? — acudiu, toda dobrada sobre o cachaço farrusco do João, a amiga.
— Mas que honra! — dizia ele em êxtase.
E ela repisando:
— Se eu esta manhã, andava a pôr a mesa para o almoço, ouvi as cafeteiras traquinar!
— Pra aqui, pro pé da gente! Ora o nosso homem! Á vontade... sente-se.
E com o mais solícito respeito fazia o João que o contramestre se instalasse numa cadeira de braços, à direita da secretária, enquanto ele retomava o seu lugar, com a gadelhuda mulher ao lado.
— Então o que o traz por cá? — apressou-se a inquirir com interesse.
— Acaba de aviar essa gente, que depois falamos. — atalhou em ar imperativo a amasia, acotovelando-o e acendendo um cigarro.
— Está dito! — condescendeu o João; e, fazendo ao Mateus uma vénia: — Com sua licença...
Depois, num quebramento languido dos olhos e tufando com os dedos, cheios de anéis, a gaforina, voltou-se para duas mulheritas que mudas, em pé e num acatamente humilde, se mantinham a distância.
— De que te queixas tu, Tereza? — disse a uma delas o fármaco.
— Ó Sr. Joãozinho, o meu estomago... — balbuciou, adiantando-se, uma mulher ruça e pequena, sem peito, de um androginismo anémico os quadris, os braços pendentes num desânimo e cavadas faces macilentas. — É sempre um peso! Não me consente nada. Quanto menos como, menos vontade tenho...
— Mas que diabo fazes tu?
— Ora, que hei de fazer?... Ralo-me com trabalho, e à procura do meu homem!
— Andam sempre pelas tabernas! — criticou a amiga do João, numa fumaça de desprezo.
— Ele! Ele! Isso dois pontos... — protestou Teresa com vivacidade, crispando os olhos. — Ele é que anda... e eu em casa, horas, à espera... a moer-me, a gastar carvão.
— De sorte que não tens hora certa para comer?
— Há muito tempo que não sei o que isso seja. Assim me Deus salve! — E erguia ao alto com tristeza os olhos de crepúsculo. — Nem dormir uma noite descansada!
— Pois é isso que te não convêm. Porque não comes tu à parte?
— Ó Sr. Joãozinho e a despesa? Posso lá!
— Vê se lhe apanhas mais alguma coisa... — insinuou a virago com dureza.
— Ah, quem falia nisso?... para ele me sacudir o pó, ainda em cima. Aquele dianho anda na forra. Socancra que nem um prego... Tudo é pouco para vinho.
— Mas tu... tens a tua féria... porque não vais à Sopa económica?
— Não gosto daqueles comeres., Têm muita soda.
Tinha o João puxado com importância uma das gavetas da prateleira em frente, donde tirou uma pequenina caixa redonda de papelão.
— Toma estas pilulas... duas por dia. Depois me dirás o efeito... E faz por comer ás horas, ouviste? É a melhor coisa que te posso receitar.
Tereza colheu comovida da mão do casquilho alveitar o remédio; guardou-o no bolso da saia; e saqueando então de sob o xaile um dessangrado galináceo, que, piando rouco, passou à mão pronta da inseparável acolita dó João:
— Eu dinheiro não tenho... mas contudo, como a senhora tem criação, lembrei-me de lhe trazer este frangainho.
— Obrigada, Tereza!
— Os senhores desculparão, mas não tenho posses para mais.
— Nem eu para outra vez quero que te incomodes. Adeus!
E de um gesto expedito o João despediu a mulher, que tomou à porta; enquanto a derradeira consulente vinha ao lugar por ela deixado; e a amasia atirava para o chão o frango, que fez uma grossa restolhada de azas, com as pernas presas e o bico sedicioso.
O Mateus, vagamente distraído, considerava agora com particular atenção a última das demandantes. — Era uma rapariguita esnalgada e esperta, apenas núbil, com uma pele alva e translúcida, o cabelo castanho em fartas ondas sob o lenço roxo, a boca rasgada com impudência e grandes olhos negros, mordidos de paixão. Uma aragem de pecado, uma contagiosa e ardente precocidade lhe alvoroçava o corpito, quase impúbere; sobre o pescoço, que era uma linha, a sua oblonga cabeça de predestinada oscilava numa instabilidade inquieta; e por baixo da barra da saia curta de lã apontavam, calçadas em meias azuis, longas as tíbias como arestas vivas.
Quando a viu, não pode a Virago conter o seu rir sarcástico:
— Olá! Também por aqui o Contrapeso!
— É verdade... — murmurou a pequena num trejeito humilde.
— Bem digo eu! Isto hoje é o dia das novidades.
Mas carinhosamente, a anima-la, o João:
— Que tens tu? Andas assim a modo arrelampada...
Depois de uma enleada pausa, de olhos baixos, correndo a mão pelo avental e frisando a testa, a rapariga aventurou:
— Então que quer, Sr. Joãozinho?... Aquele Ventura!
— Que te fez ele?
A pequena corou, e muito naturalmente:
— Foi-se-me o melhor!
— Outra! — exclamou o João, dando um grande murro na carteira e com um brilho guloso nos olhos, menos de indignação, dir-se-ia, quede inveja. — Mas que menino!
O Mateus, muito pálido, estremeceu. E a outra, atirando longe o cigarro:
— Ó mulher, mas que pressa! Que danadas vocês são! Nem ratas...
— Ele é um rapaz tão bonito! — disse com singeleza a débil criança.
E com desolado espanto observava o Mateus o amoroso relâmpago que lhe ardeu nas pupilas.
— Nem eu fiz isto por ser doida... juro pela luz dos meus olhos! Nem conhecerei nunca outro homem. — O João e a amiga cambiaram um olhar escarninho. — hei de ser só tele e de mais ninguém!
— Sim, filha... É a cantiga de todas.
— Ó senhora, verá!
— Ainda é preciso que ele queira...
— Se me deixar, — volveu resignada, como que monologando, a rapariga, — também já cá fiz o meu plano... É certo, vou para Irmã da Caridade... — E rematou, num frouxo de choro: — Se não morrer antes de paixão I
— Tola! Sabes a fama que ele tem... — repreendeu João com doçura.
— Que esperas tu dali? — disse a amiga.
— Se esse malandro gostasse de ti... mas a valer!
— Ele diz que sim... que me põe casa. — E perante o rir incrédulo dos dois: — Mas tenho ouvido tanta coisa... ele é tão maroto, tão vário, que a falar a verdade... sim...
— Que queres tu então? — disse-lhe com particular intenção o saloio esculápio.
E timidamente, numa sublinha acre de malícia, a arveloasita:
— Queria uma droga que o prendesse...
Na sua cadeira o Mateus teve um movimento de impaciência, franzindo os cílios.
— Aquele melro há de ser custoso... — acudiu a amasia do João.
Mas piedosamente o Contrapeso rolava para ela os grandes olhos negros, balbuciando:
— Eu bem sei que fiz mal! Por causa dele perdi fortunas... Olhe o fiscal lá dos Fósforos.
— Então não sei!
— E então o velho aqui de cima... o morgado das Veigas?
— É verdade...
— Quantas vezes a senhora mesma me disse: Tu estás assim tão tristinha ao pé dele! Mostra-lhe graça, que ele deixa-te tudo.
— Falava-te uma mulher de experiencia...
— Afinal, tinha este raio desta sina talhada... Já não tem remédio!
E, fungando, tornava a esfregar com a aba do avental os olhos. Depois suplicava:
— Sr. Joãozinho, então?...
— Está direito! — providenciou por fim o João, colhendo da prateleira ao lado um pequeno boião de vidro, com um pó violáceo. — Vamos! Por seres boa rapariga, toma lá... — Meteu a espátula, projetou uma porção dó pó num minúsculo retângulo de papel, dobrou e deu à pequena, que, abrindo muito os olhos:
— Mas como é?...
— Tu não comes com ele? Pois num instante, sem que o sujeito veja, arruma-lhe com uma pitada desses pós para dentro do vinho ou do café...
— Mesmo na sopa, — completou a amasia.
— E verás! É prisão certa!
A sincera indignação do Mateus fê-lo erguer-se de salto e afastar-se, numa explosão de revolta. Enquanto o João, com intimativa:
— Mas isto muito segredo, ouviste? Toma conta... E traze o resto.
A rapariga agora tudo era revolver a algibeira, colhida num novo embaraço.
— Deixa, filha... depois pagas.
— Quando tiveres casa...
— Se Deus quiser! — agradeceu o Contrapeso num alívio.
— E olha, meu pivete, quando for esse grande dia, não te esqueças... a primeira coisa que deves levar para lá é, num pucarinho de barro, azeite, sal, carvão, meio tostão em prata, e cinco réis, que tens que dar a um pobre.
Sobre esta oficiosa indicação suplementar, a dura virago tomou o frango do chão com presteza, ergueu-se, beijou com hipócrita efusão a rapariga; e, enquanto esta saía, tomando também à porta que dava para o interior, disse, fazendo uma mesura:
— Bem, então agora, meus senhores... o que é com os homens é com os homens, com a sua licença!
E ia a retirar-se. Vendo porém o claro sobrecenho do Mateus, que, visivelmente contrariado, passeava longe pelo aposento, julgou de boa tática intervir; e com melúria:
— Ó João! O senhor Mateus parece que... não vês? Não está corrente...
— Eu? Não... Pelo contrário... — acudiu logo o contramestre, desanuviando e voltando-se. — Que ideia!
— Não acredita nestas coisas?... — disse a mulher, com um espertalhão sorriso.
E ele, estacado com decisão diante dos dois, cruzando os braços:
— Ora, sejamos francos... nem vocês!
— Ah, senhor Mateus! Nem a brincar diga isso... — protestou ela com veemência, num ensarilhado dobar dos braços, que fazia o frango ao seu turno protestar também, num dolorido pipiar, sacudindo as azas. — Por alma da minha mãe lhe juro! Não há coisa mais certa... Pois então, se assim não fosse, metia-se lá a gente numa dança destas, credo! Costuma-se a dizer que o pecado mais amargado é o que sai da boca de uma pessoa... e assim, se a gente não estivéssemos bem a cavalo na certeza do que é este remédio... este livre! Nem eu nem o meu João o passávamos a ninguém.
— Falas com cabeça, mulher!
— Olhe que ainda o mês passado, Sr. Mateus... isto é verdade, assim me Deus salve! — Atirou furiosa contra o soalho o frango, que não aplacava no seu sedicioso queixume. — Diabos te levem!... Pois ainda o mês passado veio aqui assim uma senhora da Baixa... que fartura de mulher! Linda, alva de neve. Casada, com o marido estabelecido... moram na rua Augusta. Ele andava-lhe aí a modos perdido com uma espanhola. Eram ralhos, pancada, uns gastos doidos, noites fora de casa...
Gomo o Mateus voltasse em ar de dúvida os olhos para o João, este corroborou:
— Foi assim!
— E vai eu tirei-me dos meus cuidados, fui lá...
— Prosseguiu a amiga. — A coisa combinou-se e eu fui como mulher a dias. Pois o homenzinho tomou a droga, e em tão boa hora que o prendi! Parece outro agora... caseirinho, lamecha, não larga um instante a mulher!
— Ora então isto foi mal feito? — comentou o João com vivacidade.
— Não foi uma obra de caridade? — disse também a amasia, erguendo de novo a ave, agora pelas rémiges espontadas. — Já vê... Cá a gente sabe o que faz!
E saiu triunfante.
Logo o João se aproximou do contramestre, e dobrando-se urbanamente:
— Meu rico Sr. Mateus, estou ás ordens.
E como indefinidamente se mantivesse o contramestre num silêncio meditativo e vago:
— Então, em que pensa?...
— Penso... Olhe, sabe, meu caro João?... estou a ver, e cada vez mais nitidamente sinto, a indispensabilidade e a urgência, para a redenção humana pela igualdade e pela justiça, de uma radicalíssima, de uma grande e inexorável remodelação social!
— Ah, isso também eu estou que sim!
— Pois porque é que há atritos, revoluções, contendas, guerras? Porque é que os pequenos sofrem a desaforada exploração dos grandes?... Porque é que tantas iniquidades morais, como esta burla dos salários, como a torpeza de que foi vítima essa pobre criança, se perpetram e ficam impunes, senão porque em toda a sua odiosa prepotência as favorece e incita e é por elas, a nossa sociedade de convenção, de impostura e compadrio? Bem vê você, — o chamado direito é a tirania regulamentada; a jurisprudência é a alcaiota do Mal. O homem é fundamentalmente ruim; mas veem os usos, os códigos, as tradições e legitimam-lhe as infâmias! O crime, a loucura, o vício têm o mesmo carater de fatalidade; são três manifestações diferentes do mesmo fenómeno, separadas apenas poios preconceitos, pelas ficções sociais. E destas a instigadora, a imoralíssima fonte é a Lei. É ela que as sentenceia, que as classifica e define, segundo melhor convêm... Assim, tal ação que, cometida por um pária, concita o anátema ou desafia a força, seja ela obra de algum poderoso ou feliz da terra, e passará pela coisa mais divertida e inocente. As leis são isto... Alçapão para uns, pelourinho pros outros... aí está!
Atoleimado, sem perceber, abanava a cabeça num assentimento o João e esgazeava estupidamente os olhos.
Numa convicção irreprimível, o Mateus continuou :
— E só deixará de assim suceder quando todos nós acordarmos deveras! Quando tenhamos conseguido garantir o máximo da iniciativa individual... quando assegurarmos, com o direito absoluto à liberdade, o correspondente e efetivo dever da responsabilidade de cada um.
Dizendo, o cândido visionário voltara a medir a passo largo o aposento, como que alheado no seu ardente soliloquio, já de novo sem atenção ao farmacopola, que o olhava com respeito.
Por fim o Mateus voltou a ele, e batendo-lhe no ombro:
— Diga-me uma coisa, amigo João... você tem-me ouvido... Acredita em mim?
— Isso nem se pergunta!
— Sim, ou não?... Tem fé na sinceridade, na justiça, no sacrossanto ideal da minha propaganda?
— Toda!
— E você atinge bem os trabalhos em que os quero meter? As dificuldades, os perigos enormes desta nossa aventura?
— Vejo que é obra de costa acima, isso é... Mas tanto melhor!
— Ora muito bem! Parece-me que nos entendemos... — fez numa cordial expansão o Mateus, com os olhos faulando clarões de júbilo. — também eu confio em você, João... e instintivamente diagnostico e sinto que encontrei no meu amigo o grande, o indispensável e providencial colaborador à minha obra!
Com os olhos deliquescentes de vaidade e a boca humilde, o João curvava-se; ao tempo que inflamadamente o Mateus lhe insinuava ao ouvido, depois de haver cauto olhado em roda:
— Sabe?... vamos ter aqui em Lisboa, dentro em breves dias, dois dos nossos irmãos lá de fora!
— Sério!? — acudiu num espanto o lascivo caboclo, aprumando-se de interesse.
— Não há dúvida nenhuma. E são dois tipos de vulto! Um é belga, outro italiano. O primeiro é o revolucionário de maior popularidade e prestigio no seu país... arrastaria as pedras! O segundo já pelas suas ideias sofreu cinco anos os horrores do regímen celular. São desta força!
— Mas que grande reinação! — exclamou o João aos saltinhos, muito alegre, esfregando as mãos entre os joelhos.
— Veem palpar pessoalmente o terreno, conhecer isto, oferecer-nos recursos... ver com o que podem aqui contar.
Agora, ao seu entusiasmo de há um instante substituíra o João um vago receio, uma cautelosa manha, que o fez compenetradamente aventurar:
— É preciso muito cuidado!
E levava a mão à cabeça, acamando a gaforina, antecipadamente erguida de pavor.
— Está claro! — apoiou o Mateus. — A gente temos que reunir... combinar qualquer coisa, trocai ideias. Toda a cautela será pouca... Precisamos de uma casa em que eles e nós possamos estar afoitos... longe da espionagem do governo, do faro da polícia... e não sei onde!
Mudamente, oscilava a cabeça do João num meneio hesitante. O Mateus arriscou:
— Estátua casa é que convinha...
— Não é decente.
— Mas é segura! Cá longe, com a fama que o vosso tem, ninguém se lembra... ninguém é capaz de suspeitar.
E enquanto o João, colhido numa grave perplexidade, retardava por um apreensivo silêncio o seu assentimento, voltava o contramestre a olhar com mais minuciosa atenção aquele vasto casarão defumado e banal, meio arruinado, com os negros artesões de velho castanho do teto farpados e comidos do tempo, sanefados em abundancia de teias de aranha; salitrosas escumalhas pelas paredes nuas: à frente do rodapé de azulejo a monótona enfiada de uns bancos escolares; e mais, apenas, à direita junto ao canto, a secretária, ladeada por grandes armários suspensos, mostrando uma lustrosa profusão de frascos através das vidraças, e em baixo contra a parede, ao alcance da mão, o cavaquinho.
Mas interrompeu-lhe o exame o João, dizendo com arrogância:
— Disponha da casa como sua, Sr. Mateus!
— Vê lá...
— Não tenho duas palavras!
— És um homem de bem! — exclamou no mais efusivo júbilo o contramestre, premindo o João num grande abraço. E com um novo alento de familiaridade, levando-o muito cingido ao longo do salão: — Mas então aqui estaremos realmente seguros? Toda a casa é assim?
— Ah, felizmente aqui há muito pano para mangas. E temos várias saídas... Venha ver! — Entrava, com o contramestre pelo braço, na galeria da direita, perpendicular com a sala. — Isto aqui é o meu laboratório.
Diante dos dois alongava-se um esmadrigado e negro compartimento, espécie de corredor, com a sua frente, provisoria, de mirante de pinho envidraçado, dando sobre o pátio, e correspondente do lado oposto uma aparatosa parede mestra, de cantarias lavradas, com a grossa cornija distante empenachada de avenca e ninhos de andorinha. Passadas transversalmente ao alto, velhas cordas bamboavam ainda, estaladas em parte, entre as traves combalidas; e ao longo da parede encostavam, formando banca, várias tinas de lioz e de zinco, em plano inclinado, algumas ainda com torneira. — Sucessivas estratificações da sorte; escarninhos vestígios das várias metamorfoses de acaso porque passara aquela casa, seguidamente residência solarenga, fábrica de sabão e de papel pardo.
Mas também, vitoriosamente, lá se viam, mais recentes, os testemunhos do génio industrial do João. Era ao longo da parede alinhada, sobre umas prateleiras muito sumarias, uma fieira enorme de frascos, todos iguais e encabeçados todos por filtros de papel, cuja ponta ia coando gota a gota um líquido viscoso e leitoso, como orchata. E do topo da quadra, alongando o braço com orgulho, o charlatão:
— Ora tem o Sr. Mateus aqui assim a casa principal do meu palácio, o produto do meu trabalho honrado. A composição deste maravilhoso licor é pura invenção minha, não devo nesse ponto nada a ninguém... deixe falar quem falia. Pôde-se gabar de que é a primeira pessoa que eu aqui admito, a surpreender o meu segredo., porque também sei com quem trato! Olha os outros... Tomarem eles! Dando medíocre atenção a este autopanegírico intempestivo, o Mateus passeava pelo esguio compartimento, num exame de conjunto, os olhos. O que vendo, o João aclarou:
— Estranha a casa?... Está sujita, está... Se todo o tempo é pouco para aviar as encomendas! E mesmo essas cordas e mais trapalhadas velhas que para aí assim apodrecem, é tudo anterior ao meu! Tempo. O meu é só isto: veja! — E, adiantando dois passos, tornava o lascarinho a apontar com desvanecimento a monótona enfiada dos frascos, em cujo ventre aquelas leitosas gotas, com uma simultaneidade marcial, silenciosa e mansamente, iam caindo.
— E então esta sua receita é muito complicada? — perguntou num vago interesse o Mateus.
O João ergueu a cabeça com ar de importância, assobiando e piscando os olhos.
— Tem muitos ingredientes? — disse o contramestre.
— Pouca coisa... Tome sentido: é copaíba, é licor de hortelã, água de rosas, alcatrão, gema de ovo. A copaíba, sabe? é o secante por excelência; estimula as mucosas, afugenta o mal porque esperta a fibra; depois, o alcatrão também não deixava de convir, hein? Como desinfetante; a água de rosas aperta; a gema de ovo é para prender... Tudo isto eu pensei, tudo isto eu fiz, e o resultado vê-se! Perfeitamente milagroso, como eu lhe chamo, como à uma confirmam todos quantos o têm usado. É ler os jornais!
E com crescente intimativa, agarrado ao braço do Mateus, numa loquacidade vaidosa e complacente o João continuava:
— Primeiro, quer ver? A gente toma da copaíba e do alcatrão, cá em certas proporções... aí é que está a coisa toda... E então batem-se com as gemas, depois vão ao lume.
— Olhe, Sr. Mateus... — disse de um penumbroso recanto, no extremo oposto da galeria, a esborrifada amante do João, que o contramestre só agora descortinava, mexendo amorosamente com uma grande colher de pau num tacho, sobre um fogareiro.
— Quer-se o lume brando... o mais é operação fácil de fazer.
— E é até muito agradável. Parece que está a gente a fazer doce de calda.
— Vai dali agora a mistura é decantada a frio; depois leva ma água de rosas, passa-se ao filtro, por último vertem-se em cada frasco umas gotas de licor, para fazer paladar... e pronto! É rolhar, lacrar, pôr o rótulo e mandar para as drogarias.
— Fora o que veem buscar cá a casa.
— Ainda bem! Muito estírio.
— Por isso é tratar logo de fazer mais. Não preciso outra vida. Não imagina a saída que tem!
Tinham o João e o Mateus percorrido a todo o comprimento a galeria e estavam, na ocasião, perto da amasia, que o primeiro, ao passar, enlaçou com efusão pela cinta, enquanto dizia:
— É quem me vale, Sr. Mateus! Isto é o meu grande braço direito.
— E a tua aduela esquerda, maganão! — murmurou a amasia com ternura.
E descabida num requebro atrevido sobre o João, beijou-lhe a gaforina.
Entravam agora os dois homens num outro compartimento, perpendicular com este, vasto quadrilongo também provisório e agreste, deitando para a rua. — Era todo pintado grosseiramente a sumagre, como o exterior, o seu rústico esqueleto de vigas de refugo e tortuosas pranchas, postas de cutelo. Em cima, junto ao teto, dançava a mesma complicada anastomose de cordas com hirtos retraços de papel, petrifeitos na dura litíase do abandono, providencial suspensão aos sacos negros das teias de aranha. Aos dois cantos, na frente, erguiam com arrogância a garupa alva e puída, por entre as suturas toscas do soalho, os monstros mitológicos da fachada. E havia uma desordenada distribuição de várias bancas de pinho, rudimentares, luzentes de cristalizações sacarinas, lastradas de nodoas gordas, pejadas de cadinhos, pipetas, frascos, retortas, muflas e campânulas; por sobre as quais uma nova linha corria de prateleiras, tendo à frente uma infinidade de vidrinhos com fluidos rutilantes, e por traz arrimada uma formidável e vistosa bateria de garrafas brancas, todas em cintilações polícromas também, com capsulas espelhadas e rótulos de oiro.
Risonho, cheio de si, já o João explicava:
— Aqui faço eu as minhas curiosidades para entreter... Um desafogo recreativo, e afinai útil ao mesmo tempo, pois então! Olhe, tudo isto são cordeais, elixires, artigos de perfumaria. Tenho aí um extrato de essência de jasmim que é uma especialidade. No Quintans não querem outro! — Passava a outra mesa.
— Agora, aqui assim, licores... à escolha, vê? Banana, tangerina, alperce, arinto... Mas tenho então um licor de café que é um espanto, um mimo, vai ver! Como lhe juro que não há melhor em Portugal.
Havia tomado da prateleira uma garrafa com um líquido incolor, e completamente nua, com rolha apenas de cortiça.
— Que vai fazer?... — atalhou logo o Mateus, levemente contrariado.
— Ora essa! — disse obsequioso João, sorrindo e deslocando entre o polegar e o indicador a rolha.
— Vai verificar!
— Ah, não, muito obrigado... dispense-me.
— O quê!?
— Creia que nunca bebo licores, senão muito excecionalmente. Agradeço muito, mas...
— Não, não, tenha paciência. Era uma desfeita! Só provar...
E já em dois melindrosos cálices, facetados em bisel, estilo bacarat, um liquido alambicado e rutilo corria, todo em lampejos metálicos, fumando um aroma peregrino. O Mateus ergueu um dos cálices, agitou, olhou por transparência, levou-o aos lábios; e logo, todo presunçoso, o outro:
— Que tal?...
— É ótimo, palavra de honra!
— Já então vê o meu amigo que, quando os tais figurões vierem, há não só casa para os receber, mas com que os obsequiar. — E bebeu o seu cálice de um trago.
— Eu não peço tanto.
— E, caramba! Coisa que não envergonha a industria nacional, — rematou o João, lambendo os beiços.
— Vamos ao resto! — disse com impaciência o Mateus, na manifesta disposição de seguir.
— Ás ordens, meu rico senhor! — acudiu pronto o João. E, tendo reposto no seu lugar a preciosa garrafa, num momento passou, com o contramestre, ao novo compartimento à direita, — uma outra galeria envidraçada, paralela com a primeira, mas repartida esta em pequeninos cacifos por meio de biombos e tabiques de lona, vestidos de papel lascado e amareladas gravuras de jornais.
Logo no primeiro, espécie de arrecadação familiar, pendia das rôtas cordas do teto roupa branca encardida; a seguir, vinha o quarto da cama, a casa de jantar, a cozinha. Em todos havia o traço comum da desordem, em todos assentara à vontade arraiais o mais baralhado e imundo desmazelo. Instintivamente vexado, o charlatão passava rápido com o Mateus, e ia explicando:
— Ó Sr. Mateus, a gente não o esperava... não repare, desculpe. Casa de gente pobre...
E, na cozinha, arrastou-o logo à porta que se lhe via ao fundo, abrindo para o exterior. Dava para um pequeno patamar, de podrida madeira, vanguejante, com parapeito vermelho e a aresta enfeitada de velhos potes de barro e panelas de folha com craveiros. Dele depois descia, amparada ao muro do prédio té mergulhar na terra, uma escada do mesmo carater, insegura e podre também, dando para uma espécie de pequeno quinteiro, em cujo chão caliçoso esgaravatavam as galinhas. Um ripado baixo de pinho, facilmente salvável, o afastava da caprichosa esquadria das hortas e quintais em roda, os quais, numa vaga e solta confusão riscados, iam por fim findar longe, em baixo, no cais, sobre o rio.
Enquanto com olho grave e atento o Mateus estudava a fisionomia e as ligações do terreno, ao lado dele, muito ancho, o João dizia:
— Ora vê o meu amigo? A gente podemos reunir ali assim... — Apontava o casarão de entrada, que já lhes ficava, lés com lés, à direita. — Depois, se houver novidade, é uma beleza! A sociedade tinga-se por aqui...
— Sim, sim...
— Por esses quintais fora, cada um navega que nem o peixe na água. Vão lá saber!
Evidentemente o contramestre acertara. Quanto mais detidamente esmiuçava o espaço em volta, mais se robustecia na convicção de que o local reunia as condições topográficas requeridas. Num efusivo gesto de gratidão tomou as mãos ao efeminado alveitar; e passavam ambos, concertando os últimos pormenores, ao salão de entrada, quando da banda oposta os atingiu a amasia do João, que, muito cingida a este e sorrindo lambidamente, ao contramestre suplicou:
— Ó Sr. Mateus, por quem é! Disponha da nossa casa e utilize como entender as sabedorias aqui do juju, mas, pelas almas! Não mo meta em alhadas.
— Esteja descansada.
— Que seria de mim sem ele, ai! — dizia ela, n um tom arrepiadoramente languido, afagando a gaforina do João e abarcando-lhe as omoplatas em eróticos requebros.
— Sempre tens cada uma... — murmurou, vagamente vexado, o João.
Mas ela, incorrigível:
— Não sei o que este mafarrico me fez!
E dispunha-se a beija-lo.
— Descanse, mulherzinha, — atalhou prudente o Mateus, — que o seu homem não há de ter perigo. Era uma pena!
— Pois não era! Em boa hora o diga, meu rico senhor.
— Hei de restituir-lho tão inteirinho, tão completo como o receber...
— Isso! Isso!
— E pagar os seus bons serviços fazendo dele um grande homem.
— Pelo menos, visconde...
— O que quiserem... Adeus! Adeus! — rematou o Mateus em tom sacudido.
E, direito à porta, despediu-se muito sumariamente, já sem ânimo para sofrear o tédio.
Apenas salvado, em baixo, o postigo do portão, que fechou sobre si com estrondo, apressado tomou rua abaixo, direito ao largo do Assucar. Declinava o dia rapidamente e ele queria aproveitar aquela sua diversão para prevenir também ainda o Serafim. Nas ruas calmas e sombrias, de um pronunciado ar industrial, quase desertas, começavam a formigar pela penumbra dos passeios, gofrando turbulentos dos boqueirões das fábricas, os grupos anémicos das crianças. As mais delas sumiam-se nos atalhos, esbagoavam por aquele dédalo de construções de acaso; outras seguiam na mesma direção do Mateus e vinham chalreiras e felizes, a meio do largo, tropear nos degraus pelintras do coreto.
Pois fronteira e sobranceira a este, marginando pelo norte a rua, havia uma ancha porta dando para um grande espaço quadrangular, velho barracão de construção provisoria, desaprumado e sujo na sua envergadura enorme de gigante fossilizado. O ladrilho vermelho do piso mal se descortinava, profusamente ortografado de serradura, maços, pregos, arcos de pipa e roscas de aparas, em que os artelhos acariciadoramente se perdiam, como numa seara. As paredes eram de taipa, toda em negros ressaltos, emoldurando um empilhamento desordenado e colossal de vergas de ferro, cubas, tampos, canecos, balseiros, dornas, vasilhas de toda a espécie. O cavername do teto perdia-se nas-nuvens, tendo ao alto suspenso um velho pombal deserto. E de uma pequenina porta entreaberta, ao fundo, vinha com fortes emanações resinosas o grosso resfolgar de uma forja próxima, cortado pelo sonoro batucar dos tanoeiros, que, batido e cheio, pelo farto espaço alastrava numa ampla ressonância.
O Mateus, entrando, tomou logo à direita, onde, junto da porta e sobre um formidável cepo de castanho, o descadeirado vulto do Serafim, de cutelo em punho, impando, fazia aduelas.
— Viva o amigo Serafim!
— Ó Sr. Mateus! Seja muito bem aparecido. Então por cá?... — disse todo afável, parando um momento de cortar, o interpelado.
— Bravo! Isso é que é atirar com alma ao trabalho.
— Que remédio, Sr. Mateus! — E o tanoeiro agachava-se, a colher material da pilha ao lado. — Pois se a gente de inteligência e poder se não resolve a tirar-nos desta sujeição, que havemos de nós, os pequenos como eu, fazer senão puxar pela vida?
— Não há então quem vos ame, quem vos liberte?
— Ah, isso é que não há... É o que se vê... — confirmou num desânimo o Serafim; mas logo, acobardado pelo olhar de aço do Mateus: — Que, isto é... agora...
— Nós não queremos, — murmurou o Mateus, numa expressão singular, — enquanto vocês não quiserem...
— Ó patrão, vamos a isso! É para já! — rompeu galvanizado o Serafim, com um brilho ruim nos olhos. — Eu cá, olhe, entendo que com a mesma certeza com que alanho estes paus... Quer ver como se estripa um homem?
E entalava com agudo rancor o grande cutelo recurvo na madeira, rasgando de alto a baixo com matemática precisão o tofo de vinhático, de que atirava depois longe para o monte as duas lascas, ainda rangendo.
O contramestre do Almargem saboreou este movimento uns instantes com entranhado júbilo; e numa carinhosa intimativa depois, aproximando-se:
— Sabes que veem aqui breve, falar, fraternizar connosco, ensinar-nos, guiar-nos, dois dos nossos mais dedicados e valentes irmãos lá de fora?
— Essa agora! — sublinhou, num risinho alvarmente incrédulo, o tanoeiro.
— É o que te digo: aqui mesmo! — confirmou o outro.
O Serafim teve novo momento de pausa na sua labuta maquinal, e com filosófico desdém, encolhendo os ombros:
— Ele isso cá a nós que nos faz?... A gente não os entende...
E para o monte arremessava negligente as duas tabuas que retivera suspensas dos dedos.
Sacudido por um frio de contrariedade, logo o Mateus:
— Não me faças bruto! Vocês não os entendem, mas estou eu, mas hão de estar alguns dos homens em quem superiormente vocês mais confiam...
— Agora, agora...
— Que todos seremos perante vós os intérpretes do seu sentir!
— Bera bom! Bem bom!
— É preciso aquecer, afervorar nesta ideia, ouviste?
— Rica coisa! — apoiava inflamado o Serafim, brandindo rápido o cutelo reluzente.
— E é preciso também que tu me arranjes e escolhas gente para assistir a essa reunião... Gente de recato e decisão, capazes de guardarem um segredo e de sacrificarem a vida.
— Está entendido!
— Um homem por fábrica, é o bastante.
— Sim... antes poucos e bons.
— Tu vais, já se vê... E os mais querem-se representantes, não só aqui do sítio, mas também algum de Sacavém, da Povoa, do Campo Grande...
— Daí ninguém melhor que o Romão. E fala-se também ao Zanaga, aqui dos Fosfores, ao Manoel António, da Vidreira, hein?...
— Melhor sabes tu do que eu!
Começavam a sair do interior da loja compassadamente os tanoeiros. Vinham de camisola e boina, jaqueta ao ombro, enxugando do pescoço taurino o suor e dos antebraços. Passando junto do Mateus, cortejavam levemente, num mudo respeito, alguns mesmo sem olhar, e seguiam; um ou outro parando apenas depois na orla da rua o instante preciso para fazer um cigarro. E a todos invariavelmente, num bom ar protetor, o contramestre correspondia:
— Boa noite, rapaz!
Também o Serafim descavalgou a sua banca rudimentar, e morosamente, enterrando o cutelo no cepo ao lado:
— Se o Sr. Mateus não quer mais nada daqui...
— Vamos embora, — aquiesceu pronto este, saltando à rua.
O Serafim enfiou pela cabeça um velho boné de alpaca, lustroso e crasso, sem pala, vestiu a jaqueta, fechou meia porta aplicando a tranca, depois a outra, dando volta à chave; e enquanto guardava esta no bolso, voltou-se na direção do rio, assobiando um estribilho convencional.
Ao sabido apelo, logo de uma outra loja do largo, em baixo, lado do Tejo, rompeu o vulto brunido e forte do Esticado, que, muito risonho, num momento vinha adonde aos dois, com um vivo pique de interesse nos grandes olhos negros.
— Anda daí, homem! — disse-lhe logo, enquanto ele cumprimentava, impaciente o Serafim. — Anda, que temos grande novidade! — Falou-lhe ao ouvido; e depois ao Mateus, a explicar: — Com este também a gente pode falar... é dos nossos, é de uma cana!
E os três riram de inteligência. Depois todos muito à vontade, já em passo de conquistadores, foram na direção do Xabregas ao longo dos prédios marginando o rio. O Mateus ia no centro, incansável na sua catequese, falando, gesticulando sempre, obsidiando o pensar e enrolando o querer dos dois proletários com incentivos novos. A cada momento paravam; e ao imperativo grupo, que ia sendo notado, aderiam então ocasionalmente os conhecidos. Estes engrossavam, ao sabor do acaso, o bando, descendo também com ele, dispersando parcialmente a cada esquina. Não sem levarem carinhosamente rugindo-lhes na alma o fermento candente das palavras que tinham ouvido. Uns debandavam e no mesmo instante outros os substituíam, enquanto outros das portas das tascas apontavam admirativamente o Mateus, que inflamado e persuade-te continuava rojando, rua abaixo, aquela onda crescente de revolta. Seguia-o desconfiado o olhar de um polícia, de sobrecenho franzido, a meio da rua plantado entre os rails do americano. Mas a pequenina onda rolava e crescia sempre, confiada, resolutamente. E foi como, tenaz e incansável, mais uma vez o Mateus pôs em generosa labutação e, esquecido do jantar, prolongou bem pela noite fora o messiânico furor da sua propaganda.