Amanhã
Capítulo XII · Acontecia que Adriana nos seus matutinos passeios…
Acontecia que Adriana nos seus matutinos passeios procedia agora por forma que quase quotidianamente havia de vê-la o Mateus. Declinara até ao mínimo habitual de cada ano a extensão das manhãs; cada vez mais tardio era o romper do sol da envaginadura hiemal dos nevoeiros; e apesar disso a patrícia figura da irmã de Jorge no parque era com o seu vestido branco invariável comentário aos primeiros alvores do dia. Custava-lhe isso o esforço de violentas madrugadas, que, por serem um pouco fora da razão e do hábito, D. Mafalda Meireles não deixava de estranhar. Mas Adriana insistia — que realizava assim um grande prazer seu, que obedecia apenas ao espontâneo calor do seu desejo; e como, ao dize-lo, tomava a mais encantadora e convincente expressão o mistério infixável dos seus lábios, e como, além disso, era sempre irrepreensível o seu porte, e isentas sempre tais excursões de toda a leviana suspeita, as amoráveis advertências dos pais logo amainavam, deixando limpo e livre avoejar o capricho da mimada criança.
O certo é que o Mateus raro saía agora, de manhã, de casa em direção à fábrica, que um momento não sentisse perto, rabejando pelos resíduos soltos do mato, ou inundando os raleiros de árvores de um fugidio clarão de alvorada, a linha já familiar daquela grande figura branca. E a doce frequência destas aparições, de princípio fortuitas, fazia-lhe bem, converteu-se num hábito, numa das reclamações egoístas do seu querer. Tornaram-se-lhe em breve imprescindíveis; eram a antecipada bênção do seu dia, a ablução matinal da sua alma. Já perturbado as procurava com amor; já não era senhor de tomar pelo carreiro que o conduzia à fábrica, sem que o senhoreasse o supersticioso receio de não ver iluminando-lhe o caminho essa efémera visão estremecida... Foi por isso que, com o volver dos dias, ele agora antes de sair, por mais mau tempo que estivesse, não se esquecia nunca de ir antes abrir a janela da sua casita de entrada que defrontava com o solar do Almargem. Daí erguia interessadamente ao maciço quadrilongo a vista, a indagar pé a janela da última sacada da esquerda já estaria aberta. Se estava, dava-se pressa em sair; se não estava, aguardava religiosamente, marruaz, invisível, que a verificação desse sinal lhe garantisse depois fora,, no parque, a correspondente colisão da sua alma com aquele meteoro fugaz e necessário. E também, antes que saísse, olhava-se cuidadosamente, afeiçoava em erguidas projeções o bigode algodoado, escolhia gravatas, alisava o cabelo, punha, em suma, um ingénuo garridismo, um escrupuloso esmero no trajar, a que dantes era por completo rebelde o seu espirito. E os seus modos para com o pessoal da fábrica tinham experimentado igualmente uma modificação sensível; como se a piedosa tendência do seu coração tivesse aumentado, e generoso quisesse repartir com os tristes e os humildes um pouco do clarão de felicidade que o inundava.
Ora aconteceu que um dia, já passado o Natal, o contramestre saiu de casa no momento exato em que na orla superior da pequena clareira, ali mesmo a dois passos dele, apontava resoluta e ágil, talhada com um vigor de água-forte no emolduramento negro do arvoredo, a dominadora figura de Adriana. Nunca, depois do breve coloquio com ela na fábrica, a tornara a encontrar; nunca mais a tivera tão próxima de si. A inesperada aparição ensopou-lhe os nervos de uma delícia infinita, imobilizou-lhe a expressão numa beatitude alvar. E logo lhe dava rebate na consciência uma surda contrariedade... Tinha de lhe falar forçosamente, a menos que não quisesse ser tomado pelo último dos selvagens no conceito daquela criatura divina. Sim, falar-lhe... E esta ideia acobardava-o. O fogoso e audaz agitador, o caudilho veemente das multidões, sentia toda a sua energia esbarrondar-se perante esta delicada figura de mulher. Tinha que a ir cumprimentar, era forçoso; mas uma contratura instintiva de defesa pregava-o no mesmo lugar, fazia-o de antemão revoltar-se contra o desempenho desse dever banal.
Entretanto, depois de uma hesitação, adiantou-se, de cabeça descoberta e apertou a tremer a mão longa e branca que Adriana familiarmente lhe estendia. Ao tempo que balbuciava:
— Folgo imenso de ter encontrado V. exa, para lhe dar finalmente contas da incumbência que me fez...
— O que foi?... — interrogou distraidamente Adriana, espelhando nos olhos vagos um simulacro perfeito de alheamento altivo.
— A sala, lá em baixo, que V. exa tão judiciosamente queria aproveitar...
— Ah, sim...
— Está pronta.
— Muito obrigada!
— E agora realmente... aguardo ordens... não sei que mais deva...
— Nem mais pensei em tal... não se incomode. Verei depois...
E, dizendo e cortejando levemente, num movimento alto e brusco, quase desabrido, Adriana sumiu-se entre o arvoredo, deixando vexado e aturdido o contramestre, que, na sua virginal ignorância da tática feminina, agora se increpava violentamente, acoimando-se de desastrado, convencido de que a melindrara, certo de que se excedera, e de que fora talvez pela sua extemporânea diligencia anular para sempre aquela inocente embriaguez de cada dia.
Oh, como dolorosamente o trabalhou, todo o dia, toda a noite, esta aguda e terrível suspeita! A cada hora, a cada instante, por entre o travamento dos negócios, no mais grave momento das suas preocupações industriais, o mortificante receio vinha e contra o seu querer insinuava-se-lhe no cuidado, empolgava-o, distraí-o, tomava-lhe conta da vontade, era a tirânica obsessão do seu espirito, fazia-lhe aflitivamente galopar no peito o coração. Que atormentados minutos, que duras e cruéis alternativas de febre e desânimo, de remorso e duvida, aquela alma virgem de namorado sentiu então balotinarem-lhe, como um brinquedo infantil, as mais afastadas e fundas radiculas do seu ser! Ora se odiava, como um renegado confesso, na abominação consciente da sua fraqueza; ora doce e volutuosamente se abandonava, no alado calor da esperança, à contemplativa evocação da sua miragem, ao saborido domínio do seu sonho.
Por esta forma atropelada e incerta se lhe arrastou interminavelmente o dia. Com a morto na alma, esperou, esperou... Felizmente na madrugada seguinte a branca aparição não faltou ao programa habitual. Com uma pontualidade de astro, aos primeiros alvores da manhã ela aí veio riscar, serena e rutila, por diante do Mateus, a imprescindível trajetória no abrasado céu do sou desejo. Mas sempre longe outra vez, retraída em meteóricas fugas, pomo um bólide perdido, vagamente acendendo apenas os intervalos das árvores, o saibro breve dos carreiros, no seu rasto efémero, no fugidio desenho, sobre o carvoamento húmido da manhã, da sua orbita de luz e de ternura.
Até que, — num lindo dia de inverno, como a felicidade brunido e claro, — disse novamente o Mateus a defronta-la perto, na pequena clareira que lhe circuitava a casa. E desta vez a cavalo, igualmente sozinha, airosa e firme sobre um nervoso alazão mordicando o freio com orgulho, mais fina ainda, mais adelgaçado e enobrecido o busto ondeante dentro do seu negro vestido de amazona, quase roçagando, em pregas esculturais, a terra. Mal que ela sentiu apontar no limiar da porta o Mateus, saltou lesta do cavalo, com toda a aparência de quem o não vira, mas por forma que ele a visse muito bem.
E, com a mão direita nas rédeas, uns instantes circunvagou o olhar em volta, inquisitivamente, numa expressão que era um misto de estranheza e de arrelia. Depois, na mais perfeita afetação de quem se supunha só:
— Francisco! Francisco! ó Francisco! — a espaços exclamou.
Continuando, contrariada, vagamente aflita, a rolar pela orla da clareira os olhos sérios.
Viu-se o contramestre fatalmente obrigado a intervir. E vencendo a timidez, direito a Adriana, cortejando:
— V. exa precisa de alguma coisa?
— Ah, o Sr. Mateus! Estava aí?... — correspondeu logo ela, voltando-se, com a maior naturalidade. — Não o tinha visto, desculpe.
E, muito afetuosa, para lhe estender dois dedos da mão esquerda, soltou por um momento a cauda do vestido.
Entardecido pelo acolhimento, o Mateus disse:
— Se nalguma coisa lhe posso ser útil...
Com um sorriso Cortez, Adriana continuava vagamente a olhar. O contramestre insistiu:
— Mas, por Deus! O que é que aflige?... Mande-me no que quiser!
— Sabe?... — disse por fim Adriana. — É que... a manhã está um pouco fresca de mais... e este maroto muito folgado! — Por um impulso da mão direita, que não largava o bridão, sacudiu a cabeça ao animal, que fitou as orelhas de espanto. — Estranho-o hoje, fatiga-me. E arrefeceram-me os pés... Queria continuar o meu passeio, agitando-me toda, andando. Queria que o Francisco levasse o cavalo. É a única pessoa por quem ele se deixa conduzir à mão. Mas não o vejo!
— Vou chama-lo...
— Mas onde?... Tinha ordem de me seguir; não posso saber onde se meteu. Ora esta!
E vergastava a saia com impaciência. Por fim, como quem toma uma resolução, sacudindo os ombros:
— Bem, o remédio é eu seguir com o cavalo. — Fez pausa e, novamente perplexa: — Mas como hei de eu aqui montar?...
O Mateus, elevadamente, cravou nela, numa grande concentração espiritual, os olhos, que iluminou um relâmpago jucundo, enquanto a mais dolorosa emoção lhe pregava os lábios, e se lhe ensopava a face nesta palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. Depois, sem ferir palavra, fitando-a sempre, adiantou-se, e com uma gentileza medieval, de mãos enconchadas formando estribo, junto aos pés de Adriana, galantemente, ajoelhou.
— Mas, Sr. Mateus! O que é isto? O que é que o senhor faz?... — acudiu com vivacidade Adriana, levemente ruborizada, no mistério infixável dos seus lábios correndo um risinho de triunfo. — Não tem jeito nenhum! E o culpado foi aquele Francisco. Parece impossível!
E tornava a olhar impaciente o carreiro que conduzia ao solar. Mas o Mateus, sempre na-mesma atitude, sempre sem arriscar uma palavra, alongou os braços como numa súplica, ergueu mais as mãos. A termos que finalmente Adriana, subjugada:
— Pois não tenho outro recurso senão utilizar-me da sua amabilidade. É um perfeito pajem de ocasião!
Agora, enquanto arpoava com a mão direita a forquilha, confiava o pé ao carinhoso apoio das mãos do Mateus, e formava o salto apoiando-se-lhe no ombro, o seu forte riso peculiar estalidou, cristalino, triunfante. E, ao cair na sela:
— Muito obrigada!
Fustigou a garupa do cavalo, que partiu as upas; ao tempo que o Mateus descia vagaroso ã fábrica, preocupado e sombrio, vergado a uma mordente humilhação e olhando cauteloso em volta, como se tivesse perpetrado um crime.
A lembrança, o cuidado, o amoroso respeito de Adriana absorviam-no mais do que convinha. Estava-se saindo um piegas, quando tinha vindo para ali um revoltado. Fantasiara instalar-se n aquela fábrica para dentro dela tenebrosamente urdir, e fazer deflagrar depois por toda a cidade, um largo e providencial plano de vingança, e eis que arreliadoras causas, alheias ao seu querer, se apostavam em contraminar-lhe o esforço, em baldar do seu ideal a febre ardente e generosa. Não tinha jeito nenhum! De princípio não dera ele importância aquela diversão inocente; parecia-lhe que em nada poderia tão inofensivo parêntesis abrir continuidade na solidez estrutural da sua obra. Mas com alvoroço reconhecia agora o contrário; tinha de pôr-se em guarda, era forçoso parar. A ação entorpecedora e deprimente dessa preocupação feminina reconhecia-a ele agora, quando tentava reagir...
A gente do Almargem, naquele dia, achou-o como nunca brusco e intratável. Cortou de longe A entrada, para evitar os pretendentes, atravessou rápido as salas, mudo e de sobrecenho, quase sem falar a ninguém. Na oficina das mules o encarregado, o velho Tobias, fisgando-o com dificuldade, chamando-o à parte, renovou as suas queixas contra o Lourenço; — que continuava sendo um calmeirão, um indisciplinado, um ralaço, não se fazia bem dele, custava muito a aturar. O Mateus mandou-o ir ao escritório, e sumariamente, insensível a rogos, inabalável perante umas vagas nuvens de ameaça, fez-lhe contas e despediu-o. E na fábrica ninguém mais naquele dia o viu.
Encerrado muito cedo em casa, no meio dessa atmosfera de proteção feita pela condensação estratificada do seu pensamento, a sós com a sua consciência, junto dos seus livros, protestou furtar-se por completo ao amavioso influxo de Adriana, couraçar-se contra essa volutuosa fraqueza por onde tentava talvez o amor abrir traiçoeira brecha na sua alma.
Assim deu-se a evita-la, tomava cada dia por atalhos diferentes, entrava, saía de casa a horas caprichosas; e foi com uma sincera retração de contrariedade que, passados alguns dias, e quando à hora do descanso se dirigia a casa, no caminho ele viu Adriana, sentada, muito atenta ao trabalho do jardineiro junto a um canteiro de flores. — Vestia um sóbrio vestido inteiro, de guipura, toda em entremeios de seda levissimamente azul, que em diagonal partiam, muito juntos e paralelos, formando angulo, da cintura aos lados; tinha aos ombros uma pequenina capa de lã de camelo, com cabeção Stuart; e a sua vigorosa cabeça, nua e altiva no ar cortante, desdobrava com arrogância no espaço o rolo farto e livre do seu cabelo castanho. Agachado e curvo diante dela, o velho jardineiro sachava com cuidado, a desembaraçar e limpar as violetas do enxurro das últimas chuvas. — Mal que a viu, quis o Mateus retroceder, furtar-se, eliminar-se; mas era tarde... O jardineiro passara naquele momento das violetas a cuidar das roseiras, mais acima; e os olhos de Adriana que, acompanhando-o, se ergueram, deram então com a linha rebarbativa do contramestre, a quem ela naturalmente despediu, muito afável, um convidativo sorriso.
Não havia remédio... Muito sério, devagar, o Mateus aproximou-se, cortejou, trocaram-se as saudações de hábito, houve um trivial aperto de mãos. E logo Adriana, a desfrisar-lhe a hostilidade da atitude, adivinhando-o:
— Mas que é isso?... Sempre sério, apreensivo, sempre avergado ao trabalho!
— É a minha obrigação... — redarguiu baixo o Mateus, de olhos £ terra e sorrindo tristemente.
— Deixe um momento os negócios. Isso nem lhe faz bem... O próprio Deus descansou. A vida também é para gozar.
— Cada um goza a sou modo, minha senhora... — disse com uma expressão singular o Mateus, com um trio de aço lampejando na sombria noite das pupilas. — Eu vou assim muito bem!
E dispunha-se a partir.
Mas Adriana interrogou ainda, amimadamente, com a mais doce expressão nos olhos e um superlativo de graça no plexo central dos lábios menineiros:
— Gosta de flores?
Ainda arisco e duro, com filosófico desdém, o Mateus retrucou:
— Acho agradáveis... Lisonjeiam-me, uma ou outra vez, a vista. .
— Sempre, não?...
— Só quando tenho tempo para atentar nelas.
— Não tem bom gosto.
— É que, habitualmente, a minha alma é insensível ás solicitações banais do mundo exterior. Nem dou por elas, creia-me! E, assim mesmo, ainda ás vezes me preocupam mais do que eu quisera...
— Não o percebo... O quê!? Pois então perante um dia assoalhado, perfumado e lindo como o de hoje, numa hora como esta, não vê, sinceramente, não vê, não sente nada do que o rodeia?
E, dizendo, Adriana erguia e cravava com amor nos olhos sombrios do Mateus a azeitona aveludada dos seus olhos.
— O que é que eu hei de ver?... — suspirou este alheadamente, já sem força para arredar-se dali, encolhendo os ombros. — Por exemplo, agora sei, calculo que aqui mesmo em volta de nós desdobra vitoriosamente as suas harmonias pagãs a Natureza... toalhas de luz, ondas de perfumes, um cabriolar estonteante de cores, as mais admiráveis simonias de tons, fragrâncias, cânticos. Mas que me fazem, que me importam a mim todas essas futilidades do exterior?... Tudo isso é para mim como se não existisse: não vejo, não sinto nada!
— Diz isso por pose...
— Não digo, não, minha senhora.
— É uma original presunção.
— É a pura da verdade!
Adriana sentiu instintivamente que não levava a melhor, no melindroso torneio em que se embrenhara; mas decidida a ganhar a partida, na sua querençosa altivez estimulada, teve um sacudido desempeno, cheio de airosa decisão, e ergueu-se soltando este remoque de piedosa censura:
— Dir-se-ia que não tem coração!
— Conforme... — arrastou, sempre na defensiva, o Mateus.
— Não, isso é que não tem dúvida nenhuma!
— Adriana insistiu. Fracos são os meus conhecimentos, mas mesmo assim avalio muito bera que esta coisa da metafisica é a região polar da filosofia, pois não é?... — Abanava o Mateus negativamente a cabeça. — A abstração é para o homem o que é para a terra o gelo. Alma que no exclusivismo espiritualista se perdeu, ressicou, morreu para a vida... e a sua, meu caro Sr. Mateus, não está nesse caso!
— Posso ser um espiritualista e sentir vivamente as coisas.
— Tenha paciência, isso é que não pode ser!
Insensivelmente, tinham os dois agora desatado a andar, lado a lado, vagarosamente, subindo irmãos e amigos o sinuoso declive do carreiro. E numa familiar insistência, Adriana:
— O Sr. vai-se rir deste meu inquérito... mas é que eu sou naturalmente curiosa, ando ávida sempre de bons ensinamentos, e com os homens superiores é que é aprender.
— Ó D. Adriana, por amor de Deus! — atalhou o contramestre, curvando-se, confundido.
— Bem, bem, deixemo-nos de falsas modéstias, incompatíveis com a tal sua pretendida isenção... objetiva, e responda-me, como quem se confessa. Quer-me então convencer de que, sendo um homem sensível como é não ama, ou nunca amou?...
— É o caso de eu repetir: conforme... — disse, sorrindo irónico, o Mateus.
— Não é com tais subtilezas que me escapa, — obtemperou com intimativa Adriana, alongando na sua imperiosa linha reta os cílios. — É claro que me refiro ao amor por uma mulher.
— Deus me livre!
— Porquê?... — fez Adriana com decisão, parando.
— Porque o amor individual, — acudiu logo o Mateus, — é uma das formas do egoísmo, e como tal um sentimento bastardo e mesquinho, que degrada o homem... que é indigno de mim!
E plantado, firme e austero, diante dela, olhava-a com os seus implacáveis olhos de aço, fascinadoramente.
Adriana, porém, derivando pelo seu turno o bote, ria agora a perder, e com sarcástica expressão, reatando o passo:
— E ainda o senhor não quer que eu apregoe a exatidão daquela minha teoria? Veja bem em si mesmo, aplicando el cuento... pôs-se de mal com as formas, os sons, as cores, e desterrou o coração para a Sibéria!
— Devemos amar, sim! Mas coletivamente, a humanidade em globo, com um fim útil em mira...
— Que massada que isso era!
— Amar como Jesus amou... Por forma que a amor seja não só um esteniante prazer para nós, mas para os outros uma fonte perene de felicidade um bem, um estímulo. Pudesse eu!
— Tem pensamentos estranhos, sabe? — balbuciou Adriana com carinhoso interesse. — E eu queria pedir-lhe...
— O quê, minha senhora? — acudiu solícito o Mateus, que, com galanteria curvado, desenriçava o vestido de Adriana de um dos arbustos do caminho.
— Olhe que é uma coisa muito banal, muito comezinha também... Não se indigne!
— Versos num álbum? — disse, sorrindo, o contramestre.
— Não...
— É que, se fosse... eu não faço versos, mas tenho um amigo capaz de desempenhar-se a primor dessa missão catita. — E o Mateus pensava vagamente no lamecha e galhardo Valentim.
— Pois não, deixemos o seu amigo em paz... não se trata de versos. Mas quase... — E com uma suavidade insinuante Adriana, parando novamente: — Oiça. Tenho um leque, um precioso leque de varetas de sândalo é pano de seda castanha... muito grande assim... É das coisas que mais estimo. O pano tem apenas, a guache, a um lado, um opulento lírio roxo, pintado pela minha maior amiga há portanto um grande espaço em claro. — E rematou, numa carinhosa súplica: — Não o dispenso de me escrever nele um pensamento seu.
Encantadoramente lisonjeado, numa grata surpresa, o Mateus, embora atingisse bem a iminência do amavioso laço que lhe armavam, dobrou-se numa humilde reverencia e murmurou:
— Quando V. exa quiser...
— Bem, bem, logo lho mando. Adeus! — E nos grandes olhos de Adriana passou um relâmpago vitorioso.
Enquanto, alegre e donairosa, com o seu andar despachado o amplo, num instante se sumia por entre a rumorosa trama do arvoredo.
Á noite recebia o Mateus, das mãos do Francisco, e cuidadosamente embrulhado em papel do seda branca, um grande leque, que numa religiosa comoção foi imediatamente depositar, levado nas pontas dos dedos, sobre a sua mesa de trabalho. Em seguida, acendeu o candeeiro, fechou-se por dentro à chave, cerrou as portas de todas as janelas, lavou as mãos, e, sentado à mesa, passou a desembrulhar com mil cuidados o precioso mimo. E por um requinte de volutuosidade, rolando moroso o papel que lhe estalava nos dedos, demorava propositalmente a operação. — Era um belo artefacto de japonismo artístico, de longas varetas lineares, afusando ligeiramente para o, vértice, de uma cor baça e uniforme, como a epiderme de uma virgem judia rofa e ardente, e todas abertas em alucinados recortes, filigranadas ao infinito em te nuíssimas combinações, em caprichosos, em miniaturados arabescos, em dolentes e languidas figurinhas, da mais solta e alada fantasia. Aberto, a seda tinha a mesma esmaiada cor uniforme, radiada apenas, na direção das varetas, de brunas maciezas e mordicada de reflexos de oiro. E, ao abri-lo o Mateus sentiu que lhe tomava o aposento e lhe escalava perturbadoramente o cérebro um perfume estranho e capitoso, esse divino perfume do sândalo, cálido, inebriante, que parece feito dos mais irresistíveis filtros da sedução e que era como que a fixação aromática, naquele momento, da volutuosa embriaguez que lhe embalava a alma... Lá tinha a um lado efetivamente, à esquerda, um grande lírio roxo, descaindo com graça da haste longa e delicada. O resto, que era muito, que era quase tudo, estava limpo por completo. Era nesse traiçoeiro espaço que ele tinha de agora escrever alguma coisa, — e esta ideia dava-lhe vertigens. Contraíra voluntariamente essa obrigação, havia de cumpri-la. Mas como descera ele a semelhante abjeção?... Que ignorado poder o transfigurara? Que homem era ele? Quem lhe aniquilara a vontade, o livre arbitro, o brio?... Parecia-lhe uma monstruosidade moral tudo aquilo pela primeira vez na sua vida se via a braços com a complexa solução de um problema feminino; pela primeira vez a sua alma de anjo proscrito sofria o domínio de outra alma, e, em vez de revoltar-se, sopesava o jugo com delícia, bem dizia a sua humilhação!
Numa perplexidade mordente, sem achar uma solução, sem atinar com uma ideia, o Mateus esquecia-se a abrir e a fechar o leque interminavelmente, acariciando-o entre os dedos trémulos. — Que havia de ele ali assim escrever, que fosse ao mesmo tempo austero e amorável, galante e sério? Que nem desdissesse da decoração, nem fosse indigno dele?... Nada, evidentemente não havia. Ou tinha de ser um atrevimento, ou uma baboseira. Estúpido compromisso! — Num repelão de impaciência, largando o leque, levantou-se e abriu as portadas de uma das janelas do poente, em cuja negra quadrícula se lhe figurou logo, faulando, despertando-o de longe, o peneiramento luminoso, a coroa arrogante e jucunda que como uma exsudação de prazer aureolava, redonda e alta pelo ar, as sete colinas da cidade. Depois, acercando-se mais do peitoril, descortinou também ali mais perto, à sua esquerda, esse negro bairro de ignomínia, a extensa e sórdida colina em cujas lobregas profundezas gemia e arfava compactamente, na promíscua podridão do monturo, na abominação e na treva, uma população, uma raça inteira. Propusera-se ele trazer a luz, a prosperidade, a paz redentora a essa ínfima legião de lázaros, nivelar aquele contraste, acabar com essas seculares infâmias. Impusera-se também a si mesmo esta obrigação, a qual era anterior, a qual valia bem mais que todas... E era o que tinha a fazer. Tudo o mais eram ridículas futilidades, impróprias do seu carater, excêntricas ao seu destino. Forte com esta resolução, voltou à mesa, arremessou com rancor o leque para o fundo de uma gaveta, afastou dele o pensamento com obstinação, com denodo. E n esta emancipadora disposição adormeceu.
Porém, no dia seguinte, ás primeiras noções nítidas do despertar, lá estava de volta com ele essa ideia demoníaca. Sem poder dominar-se, foi direito à gaveta para reaver o leque; e, antes que o visse, denunciou-lhe a presença desse amuleto estremecido a mesma exalação cálida e forte, como que o seu hálito perfumado. Era uma estonteadora emanação, feita de pecado e de sonho, era a essência do Amor idealizada, sugerindo a morbidez sensual do Oriente, todo um mundo bíblico de sublimados desvarios... como se o vulto singelo e ardente de uma nova Sulamense tivesse abatido ali as azas deslumbrantes, e abandonada, extática ungida de óleos peregrinos, viesse numa fascinação embebedar-lhe os nervos e abeberar-lhe a alma de doçura!
Todo o dia andou vibrando ao dúlcido estímulo daquela impressão; todo o dia procurou com afinco, baldadamente, uma ideia. Por fim, à noite, vergado ao seu avassalador império, espalmou diante de si o leque sobre a mesa, e um pouco ao sabor do acaso num vago desgosto de si mesmo, com a mão a tremer, garatujou esta coisa desconchavada e incompleta :
«Amar é respeitar... Nas relações de homem para mulher, as mais austeras fórmulas do respeito são muitas vezes o colete de forças da alma. Na sua rígida abstenção dissimulam e condensam verdadeiros poemas cândidos, ferventes, de incondicional dedicação de efusiva ternura.»
Depois leu, teve uma hesitação, datou, assignou, e num mais acentuado movimento de desgosto atirou o leque para o lado. E toda a noite foi para o torturado lírico uma arrelia, um remorso, uma preocupação constante. Já depois de deitado, a miúde se levantava, numa inquietação... vinha e acendia a luz, retomava o leque, abria-o, lia, relia, mirava num desolado exame a sua obra. — E ora tropeçava numa palavra, achava o pensamento linfático, desenxabido, reles; ora embirrava com a disposição gráfica do que escrevera, que teria ficado melhor, mais em diagonal, simétrico com o lírio, mais ao canto; ora era também a forma, o lançamento da letra que lhe desagradava, tremula e desigual como lhe sairá... e a tinta, que não pegava nuns pontos, noutros empastara horrorosamente. — O maior dos fiascos, em todo o sentido! E sem emenda possível!
Ao amanhecer, pouco depois de abrir a janela do seu quarto que olhava ao norte, viu em cima, na sacada do solar fronteiro, sob os profusos ramos, ainda despidos, de uma glicínia o nobre vulto egípcio de Adriana, que, cortejando-o, lhe perguntou por gestos se já havia escrito. Significou-lhe o Mateus com a cabeça — que sim. Daí a minutos, entregava-lhe o leque.
Adriana leu, com piedosa atenção; e ao cabo, numa inflexão recalcada, enternecida:
— Muito bem! Agradeço e compreendo... — E no mais carinhoso dos gestos, fechando o leque e erguendo ao Mateus uns olhos de Madona: — Agora, fica assim!
Com ardilosa intenção, o contramestre observou:
— Ainda tem tanto espaço em branco...
— Engana-se! — acudia vivamente Adriana, olhando-o sempre. — para mim está cheio... Cheio de mais!
E com um destes sorrisos que vão direitos à alma, despedindo-se, a patrícia filha dos Meireles afastou-se, demoradamente, com o airoso busto balanceando num júbilo envaidecido.
Mas era agora também o Mateus que, tomado por um ingénuo encanto de vaidade, se supunha sinceramente o vencedor. — Não havia duvida! Aquela criatura de exceção e privilégio, vivendo lá tão alto, de um sentir tão contrário ao dele, pela raça e pelo instinto sua inimiga, fora ela que o procurara, que gradualmente descera adonde a ele, que viera com a fimbria do seu vestido branco iluminar a voluntariosa noite do seu viver. Com que fim, por qual sentimento? Não lhe importava... Fosse por paixão, por jogo, ou por capricho, o certo é que fora ela a demandante, naquele curioso e imprevisto pleito sentimental. Limitara-se ele a deferir-lhe um pouco no seu favor; um dever trivial de cortesia. Mas nem aquele episódio galante era de molde a perturbar a trajetória tensa e honesta da sua vida. Nem por isso a sua consciência tinha porque alarmar-se, ou que sofrer qualquer desvio deprimente & nobre orientação do seu destino. Uma cândida ilusão fazia-o sinceramente tomar por uma efémera futilidade esse afogueante sentimento que, traiçoeiro e breve, lhe ia manietando a alma. E dizia-se: — Acabara, passou... Ela, sim, ela é que descera... ela é que contraíra voluntariamente bem estranháveis compromissos. Aquela patente predileção por ele quem lha insinuou? Quem a obrigou a declara-la insistentemente no misterioso veludo dos seus olhos?... Foi uma coisa absolutamente espontânea, foi o puro voto livre da sua consciência, da sua alma. E votos destes, assumidos na perturbadora querença de todo o nosso ser, tomados e selados na telegrafia galvânica dos olhos, são sagrados também, obrigam para toda a vida.