Amanhã
Capítulo XV · Entre os fisgados na rusga contavam-se o…
Entre os fisgados na rusga contavam-se o Esticado, o Adelino e o Romão, qualquer dos três homem de decisão e influencia na sua roda. O Romão, com a sua impulsiva loquacidade e a sua tagarelice incorrigível, gozava de uma grande aura de respeito em todo o vasto formigueiro fabril do Campo Grande. Acercavam-se dele como de um bom deus protetor, escutavam-no com interesse, e a solenidade luzidia do seu crânio iluminava por vezes de um poder de fascinação sobrenatural o báratro de extravagantes ideias que por um admirável instinto assimilara. A voz em falsete do Adelino era um formidável instrumento de sedução também, porque arranhava os nervos, porque, despedida toda em monossilábicas estridências, ora lembrava um lampejante bater de ferros, ora tinha de um sarcasmo demolidor os silvos justiceiros. Igualmente o Esticado era um violento e querido hipnotizador das massas, quando na quente improvisação da sua barbara eloquência as narinas fogosas lhe rufiavam, e uma alta e vingadora febre lhe envidraçava os olhos negros.
A prisão dos três determinou portanto, no jorro estercoral de lázaros que os seguia, uma funda comoção de rancor, afervorou em todos esses peitos de lama atávicas reações, os seus ímpetos incipientes de revolta. Era o primeiro conflito entre eles e a ordem social estabelecida; a primeira dificuldade séria que ao seu emancipador plano opunha o Estado, em nome do convencional interesse coletivo. E a certeza deste fato, exasperando-os, dava-lhes a envaidecida noção da sua importância, do seu valor, da sua força; despertava-lhes, equivalente à nítida visão do perigo, a candente floração de novas e ignoradas energias. Os presos jaziam, rigorosamente incomunicáveis, no Governo Civil. Constava que, apenas terminados os inquisitoriais interrogatórios a que estavam sendo submetidos, — e dos quais nem uma única palavra transpirava para os jornais, — eles seriam postos à disposição do governo, o que era o vago eufemismo consagrado para designar o seu desterro indefinido. O Mateus andava desolado. Pungia-lhe sinceramente na alma boa e generosa este pródromo fatal de sacrifício, a dura sorte preparada àquela dezena de honestos e limpos trabalhadores, pela imprudente impulsão da sua propaganda. — Inapelavelmente desterrados, votados a uma sumaria supressão para os confins do mundo! Não podia ser!... E isto por aquela forma tumultuária e iniqua... sem defesa, sem o exame sereno dos seus atos, sem corpo de delito, por mera presunção, sem provas! Era espantoso! Antes a forca... Era o cúmulo do cesarismo, da arbitrariedade, da infâmia!
Foi e procurou, com a cabeça perdida, o Azinhal. perante esta clara e perentória intervenção da força legalizada, os seus teóricos furores, os seus lindos ideais revolucionários sofreram o primeiro estremeção de dúvida. — Estaria ele realmente condenado, ele e todos quantos o seguiam, a irem bater inutilmente de encontro ao imobilismo brônzeo da autoridade, nulos diante do seu querer absoluto, vítimas inofensivas da sua força brutal?... Se o resultado tinha de ser esse, não valia a pena. Mil vidas que ele tivesse, ofertá-las-ia todas de bom grado, heroica, espontaneamente, em holocausto ao bem comum... mas com a sua consoladora isenção arrastar à mesma inevitável necrofagia tantos milhares de entes humanos, já no antecipado convencimento da inutilidade fatal do sacrifício, não lho consentia o coração, não estava no seu ânimo, não era tolerável nem digno, não podia ser! — O Azinhal, ceticamente, com facilidade lhe provou que aquelas prisões tinham sido providenciais; que onde há luta, há vítimas, que a sorte não escolhe; e que, nos campos de batalha, tanto mais ardente é o estímulo, a ralé de vencer por parte daqueles que a morte poupa, quanto mais acrescido se amontoa de roda deles o número dos cada veres. — E o velho estudante tinha razão; porque era agora que, com efeito, o Mateus via como nunca, bravas e impetuosas como as vagas de um mar em fúria, as mais cegas dedicações assediarem-no; era agora que verdadeiramente ele começava a sentir rugir em cachões de ameaça os seguros gérmens de odio que havia semeado. Todos vinham falar-lhe, convulsivamente, em desagravo, em vingança; cada um o incitava a que não esmorecesse, a que andasse para frente... cada um para si reclamava, na próxima e suprema liquidação, o lugar primeiro. E vinha também à ferina indignação dos homens juntar-se o gritado protesto das mulheres. Sublinhavam estas pela sensibilidade o que aqueles reclamavam na vingadora impulsão do seu querer. Todas quantas de repente se viram mergulhadas naquela irremissível viuvez, sem defesa, sem proteção, sem carinho, todas vinham para o meio das companheiras lamuriar as suas vozes de agonia; e mais perdida e mais só do que nenhuma, a pobrezita da Ana, que extenuada e rouca percorria, lavada em lágrimas, a ilha do Grilo e imediações, deblateratido alto a sua desgraça, socavando num aflitivo soluçar o peito, pedindo esmola, com a Idazita, parva e atonita, pela mão e a outra filhita pendente dos tetos dessangrados. E este coro ululante de pragas e lástimas, arrastado e gemido como um pregão de extermínio, quebrando-se em lúgubres plangências na ruina dos prédios encardidos, encapelava de dor o coração das mães, fazia simpaticamente engrossar essa atroadora fúria feminina.
Em meio de toda esta agitação, uma ignominiosa interrogação se formulava. — Evidentemente, tinha havido um traidor: quem fora ele?... Era indispensável descobri-lo, para sua completa escarmenta, para a reabilitação e o sossego dos demais. Mas quem teria sido?... — Então começou a esfriar aquela sórdida sociedade, deslaçando-a, ameaçando desorganiza-la, um vento incómodo de desconfiança. Entre os nomes apontados à odienta suspeição de cada um, o que maior número de opiniões colhia era o do Lourenço, do Almargem. várias circunstancias, todas terrivelmente conjugadas, depunham contra ele: os seus antecedentes de calaceiro brigão, frases soltas que lhe ouviram, o seu rancoroso despeito pelo despedimento da fábrica, finalmente, a sua cobarde agressão ao Tobias, na azinhaga da Bruxa. — Não tinha sido senão ele... Era capaz disso e de muito mais! — E gradualmente foi crescendo e engrossando, na ávida osga da multidão, esta vaga suspeita. Vertida de orelha em orelha, passada de boca em boca, progressivamente ela tomou corpo até converter-se para o maior numero numa convincente realidade. Passadas quarenta e oito horas sobre a inesperada rusga ao pátio do Fiúza, havia na vila Dias, em casa do Queimadela, um secreto conciliábulo, no qual foi votada a morte do Lourenço. O primeiro que o apanhasse a jeito... Baldadamente o Serafim, quase isolado e em riscos de ser acoimado também de traidor, combateu essa resolução extrema. — Era preciso ver bem primeiro... ele pensava de outro modo. Não havia provas. — A sede vingadora da assembleia passou como uma língua de fogo sobre a sua intervenção. Ninguém o ouvia. O Lourenço era um homem perdido.
O que determinou o tanoeiro, no dia seguinte, logo de manhã, a fazer-se encontrado com ele. Mais que provável que o toparia lá para as bandas da tenda do Zé Pequeno. E com efeito. De sorte que, mal viu o seu vulto sombrio e tardo apontar ao fundo da estrada de Marvila, correu a ele, e com afável expressão :
— Anda cá, meu malandro!
— Também tu?... — repontou, de cabeça baixa, o fiandeiro, fazendo alto e juntando ainda mais a crespa celha dos olhos rancorosos.
— Eu o quê!?... — disse-lhe conciliador o Serafim. — Anda cá... não fales antes de tempo. — E, numa inflexão singular: — Salvo se lá por dentro te roí alguma coisa...
— Ah, não! Isso não! — exclamou de salto o Lourenço, numa convicta sinceridade.
— Bem! Então ouve... Sabes que toda gente está aí contra ti!
Os dentes patibulares do Lourenço apareceram, num lívido rictos de ameaça.
— Canalha!
— Todos te culpam... menos eu! As minhas ideias são outras... — Tranquilizado e confiante, o Lourenço, desanuviado o rosto, avançou dois passos; enquanto com intimativa o Serafim: — E é sobre isso que temos que falar.
Então, por um instante, mudamente, os dois mediram-se, como que na mutua e definitiva inquirição das suas respetivas lealdades; e ao cabo o Serafim, com familiar decisão, batendo no ombro do interlocutor:
— De quem desconfias tu?
— Queres que te diga? — murmurou com ar misterioso o Lourenço, enviesando os olhos.
— Desembucha! — disse o outro, impaciente.
Então o Lourenço descaiu-lhe sobre o ombro, e com uma voz recalcada, mas cheia de convicção:
— Ó Silvério!
— Pois está entendido! — exclamou num relance o Serafim, com a face glabra instantaneamente aquecida por um raio de alegria. — Também eu... É minha opinião há muito tempo; não foi senão ele. Olha, um dos que não podiam ouvir falar mal dele era o pobre Esticado... Vê lá tu! Àquilo, sim! Aquilo é dos tais que nem o diabo lhe aproveitava a alma.
— Alma de cântaro!
— Mas é que te entala!
— É o que ainda havemos de ver...
— Não tem dúvida nenhuma! Dele ninguém desconfia. Caem-te em cima... Por isso já vês, deves tratar, quanto antes, de lhe pôr a calva ao léu.
— Há de ser custoso... o demónio é fino!
— Não sei, não sei... mas despacha-te. Quem te avisa, teu amigo é... Anda, que se não lavras ligeiro, dão-te cabo do canastro! Jogas nisso a vida.
Intimidado e confuso, numa receosa hesitação, o Lourenço coçava a cabeça.
— Mas como diabo hei de eu?... Raio de azar!
— Bem, não temos mais que dizer, — epilogou, estendendo-lhe a mão, o Serafim. — Vou à vida. E o que te juro é que também cá pela minha parte vou ver se o enrasco. Olé!
— Anda aqui beber meia lata... — convidou enternecido o Lourenço, demorando a mão do Serafim nas suas.
— Não, não, obrigado... já tenho a conta para outra vez. Adeus!
E rancorosamente, afastando-se e renovando no ar o seu manejo habitual do cutelo:
— Refinadíssimo malandro! Se o apanho a jeito, rachava-o!
Depois de ficar mirando com delícia o descadeirado vulto do amigo, té vê-lo sumir-se no alto da rua, o Lourenço enfiou para a taberna.
Ainda nesse mesmo dia, à tardinha, o tanoeiro despegou um pouco mais cedo do trabalho, e tendo despedido o pessoal e fechado a loja, tomou logo direito ao Almargem, na intenção firme de encontrar o Mateus. Disseram-lhe que já tinha saído; para onde, ninguém sabia. E esta imprevista contrariedade fazia-o agitar-se com impaciência, desconjuntava-lhe o arcaboiço esquelético num exaspero de arrelia. Começou então a procura-lo, num confiado afã, pelas tascas e armazéns da redondeza. Por fim, um aprendiz da fábrica soube explicar-lhe que tinha visto entrar o contramestre para o parque, com o Fagulha. — Estaria seguramente em casa..., a trabalhar na coisa! — Pediu ao rapazito que o conduzisse; ensaiaram a aldraba do portão, que felizmente estava só encostado; e daí a minutos alcançavam os dois a sabida clareira, e o aprendiz batia à porta da residência do Mateus.
Logo se ouviu um miudinho passo claudicante, e, aberta a porta, a figurita inflamada e esperta do Fagulha apareceu.
Mal que o viu, confiadamente, o tanoeiro avançou; e com rapidez o Fagulha, abrindo-lhe espaço:
— Entra! — Depois imperiosamente, para o garro-to: — Roda!
Ao que o rapazito num instante desandou e sumiu-se a correr, carreiro abaixo, pelo arvoredo, encolhido e murcho como um cão vadio.
Quando viu o tanoeiro diante de si, o Mateus, visivelmente contrariado, interrogou:
— Que me queres?
— Coisa muito séria e urgica, Sr. Mateus!
— Faço ideia... — observou o contramestre com um sorriso incrédulo.
— Nada menos que a vida de um homem! — disse o Serafim, com intimativa.
— O quê!? — fez, de repente sério, o Mateus, aprumando e voltando-se na cadeira.
Também o Fagulha viera já, num agudo interesse, encostar-se à mesa, sobre a qual se baralhava uma grande profusão de listas de nomes, mapas, uma régua graduada e boletins cifrados.
— É o que eu lhe digo, patrão! — disse o Serafim com firmeza, adiantando-se. — Toda gente culpa o Lourenço, e é preciso valer-lhe... atinar com a ovelha ranhosa do rebanho, pôr as coisas no são. Que culpa tem o rapaz!
— Essas coisas não são para agora, — volveu o Mateus, dando aos ombros, novamente aborrecido.
— Ah, isso é que elas são! — insistiu o tanoeiro, com uma energia que fez o Mateus fita-lo de espanto. — Desculpe, mas o Sr. Mateus não sabe da missa a metade... Olhe que ontem à noite, lá em baixo, em casa do Queimadela, decidiram-lhe a morte!
— Sério?...
— Mas a valer!
— Não sabia... — exclamou o Mateus, pondo-se em pé, enquanto o Fagulha, com sincera insistência, abanava aprobativamente a cabeça.
O Serafim, gingando convicto, acrescentou:
— Agora, é um mais decidido encontra-lo e ir de maré... e o Lourenço é um homem arrumado!
— É grave, isso é... — monologava, carregando a expressão, o Mateus, medindo a passos largos o aposento.
— Ora e então isto admite-se?... há de o malandro que nos encravilhou ficar-se a rir, e o outro, um inocente... que eu não digo que ele não fosse capaz do mesmo, mas, era suma, agora está inocente... pois há deste marchar para a outra vida?
O contramestre parou, e intimativamente, cruzando os braços:
— Mas quem foi então o traidor, vamos a saber?
— Cá o nosso palpite é que foi o Silvério! — acudiu, de pé no ar, o Fagulha.
O Mateus teve um gesto de mortificada dúvida.
— Mas isso era preciso provar-se, valha-os Deus!
— Está entendido! — apoiou o Serafim, com os olhos chispando claros de evidência.
— Não havemos de ir, sem mais detido exame, para salvar um presumido inocente, desgraçar um pretendido criminoso.
— Qual presumido! Certinho que nem um raio, patrão!
— Ah, isso está-se mesmo a ver! — apoiou o Fagulha, numa irreprimível pirueta de rancor.
— Não foi senão ele quem deu a senha ao tal marau do assobio... que eu ainda hei de varar, olé!
— Eu sei lá... — objetou triste o Mateus, voltando a sentar-se o vergando a cabeça perplexo.
— Vejam vocês bem...
Aqui o Serafim cingiu-se muito a ele, e todo dobrado, com uns olhos irascíveis e a glabra epiderme muito esticada sobre os malares desguarnecidos:
— Olhe que esse porco sujo, Sr. Mateus, há muito que se entende cos da secreta... come de lá. Andava ralado por dinheiro e agora prometeu pagar a todos.
— E mais não lhe saiu a sorte grande!
— Como se há de apurar? — disse, depois de uma pausa, o contramestre.
— Era pôr-lhe um cão à perna! — alvitrou logo o Serafim.
E ao mesmo tempo o Fagulha, levando a mão ao peito, com espontaneidade insinuante:
— Se o patrão quiser...
Complacente e risonho, com afetuosa bonomia, o Mateus disse:
— O que é que tu vais fazer?...
— O que vou? Ora essa! Pôr-me ao lado dele como um cão de fila. Cá de largo, está entendido, para o gajo não desconfiar... Mas não faz mal, tenho lume no olho... nem assim me escapa. E vai chorando-me ali assim, cozidinho, inseparável, que nem a sua sombra. De noite e de dia! Até que o apanhe na ratoeira.
— Está bem, anda lá! — condescendeu o Mateus com entusiasmo.
E o caso foi que já a contar dessa mesma noite o ubíquo e incansável Fagulha tomou o seu justiceiro papel a sério. Ao entardecer lá estava ele, marroazmente, de atalaia, espreitando no vale de Chelas a saída do Silvério da fábrica, o seu exíguo corpito parapeitado à cautela por um tronco de oliveira. Quando o opressivo estrondear das máquinas cessou e a misera turbamulta começou a sair, carregando a paisagem de tristeza, não lhe foi difícil dessa derrancada jolda de rôtos destacar a obesidade paradoxal da sua presa. Foi-lhe então, a distância, no encalço. O Silvério fora dos últimos a sair, pausada, refletidamente; e mesmo assim, numa agorafobia de ocasião, como que numa preocupação instintiva de defesa, deixou muito de calculo que todos os outros se distanciassem, marchando então ossinho. Depois seguiu, isolado e depressa, quanto possível cosido com os taludes altos da azinhaga, empapuçando o deslaçado abdómen com esforço, não parando de rolar inquieto os olhitos de camaleão a um e outro lado, e voltando-se num sobressalto ao menor ruido. Assim alcançou, a direito pelas terras, o alto da Belavista e tomou logo, cada vez mais apressado, à direita, ao longo da ilha do Grilo, no extremo da qual enfiou para casa.
Então o Fagulha rodando-lhe na orbita provável de expansão, por ali assim se ficou vagabundeando, e falava a um, falava a outro, sem desamparar o campo, com o olho sempre na porta. Ainda o Silvério saiu, e ele inflexivelmente atrás dele. Deitou a baixo, ao correio, na vila Dias, e como não tivesse nada, num patente desalento voltou para casa. E novamente perambulando nas imediações o Fagulha, entretendo e disfarçando, quanto podia, pela roda dos conhecidos; a começar pelo Manaio, que lhe narrou longamente, por uma forma sensibilizante e ingénua, o galopante deperecer e os vesânicos desvarios da filha. Mas para tão cruciantes penas mal tinha o azougado coxo vagos monossílabos de piedade; andava-lhe o pensamento tão longe... E dali passava a outro, e a outro, ao caprichoso sabor do acaso, onde quer que pilhasse uma porta, uma janela aberta. Se lhe ofereciam para entrar, por serem horas de ceia, agradecia, passava adiante. E falavam de tudo e de todos, mormente desse projeto de vasta conspiração em que despoticamente o Mateus lhes trazia enliçada a vontade e espertos os cuidados.
Mas o sudoeste soprava rijo, mas àquela ínfima escoria humana impunha-se fatalmente a parcimónia de luz, a urgência de dar descanso aos nervos estrompados, aos músculos doridos. Gradualmente, uma a uma, todas essas imundas tocas reassumiram a sua gélida feição de túmulos, todas essas lúgubres lucarnas se fecharam. Desatou a chover. E inalteravelmente o Fagulha ficou ainda, agora sem o menor rebuço na mais absoluta escuridão, incansável e firme, tiritando, até altas horas, quando o mau tempo e o repetido cantar dos galos tirara já a qualquer nova escapada do Silvério toda a plausibilidade.
Mas, daí a pouco, vinha ainda indecisa a madrugada e voltava ele inflexível ao seu posto outra vez. Á sua hora de hábito, o Silvério saiu, com a insípida face fria de cera, e muito caparrosado o nariz no ar fino da manhã. Tornou logo direito ao correio, onde indagou com o mais vivo interesse se ainda não tinha vindo nada para ele. E, exasperado pela negativa do empegado, — que era impossível! Visse bem... havia de ter por força!
Impassivelmente, o empregado limitava-se a pendular num gesto negativo a cabeça. Ao que por fina o Silvério, colhido num grande embaraço, muito branco, exclamava, erguendo ao frontal as gordas mãos crispadas:
— Esta só a mim!
E o Fagulha, que tinha entrado também, a perguntar correspondência, seguiu esperto atrás dele, esfregando as mãos.
Pelo dia adiante, como tivesse sido o marcado, abateu basta e incessante sobre a casa do Silvério, qual um bando de corvos, a romaria implacável dos credores. Eram aos cardumes. Desde o marçano da tenda, o padeiro, o carvoeiro, o sapateiro, um emissário do Zé Pequeno e outro do Barateiro de Xabregas até ao sacristão das Comendadeiras, a quem o recheio discreto da caixa das almas dava à vontade com que agiotar. As três mulheres, em clamoroso uníssono, diziam que o seu homem não estava, descompunham-nos, atiravam-lhes a porta com estrondo. E eles na sua insofrida berrata também, desatavam-se em impropérios e afrontas de toda a ordem; apodavam-no a ele de impostor, intrujão, caloteiro; a elas chamavam-nas «bestas mansas de serralho». Escarninhamente os garotos faziam roda. Por fim, no inapelável convencimento da ineficácia dos seus esforços, os sucessivos cordões da matilha lá iam debandando, e deixavam numa atenuada esteira peio estrangulamento lôbrego da rua o seu raivoso carpir de ludibriados.
Ao meio dia o Silvério, no cuidado de evitar esse importuno encontro, nem veio a casa. Mas nem por isso o implacável bando, julgando pilha-lo, deixou de voltar. E vendo-se segunda vez iludidos, em mais exasperado tom repetiam as vexatórias homílias da manha, despertando o chalrar trocista dos papagaios e dando escandaloso pasto ao gaudio dos vizinhos, que de rótulas fechadas escutavam sorrateiros.
Nessa mesma tarde o Fagulha voltou ao correio. Dirigia-lhe neste sentido os passos uma suspeita de instinto; o vivo interesse, a vaga convicção de que qualquer coisa apreenderia, para os seus fins preciosa e decisiva, na aclaração do móbil que tão de rijo aguilhoava o Silvério à sua insistente inquirição epistolar. E, entrando, logo, espertalhotão e sonso, disse para o chefe, com a maior naturalidade :
— Ó tio Simões! E então esta tarde também não veio nada pro Silvério, de Chelas?... — O velhote verificava a correspondência, segurando os óculos:
— O homem está ralado!
— Cá está... — informou o empregado. — Diga-lhe que tem um bilhete postal. Veio agora...
— Bem bom! Bem bom! Obrigado... Vou num pulo, adeus!
E convencido de que estava finalmente na pista exata do seu objetivo, o Fagulha saiu a correr da estação, de passo lesto e nariz no ar, denunciando na rapidez e na extensão das grandes pernadas claudicantes o seu triunfante e ruidoso jubilo. E quando já longe, teve então oportunidade de notar que o mesmo Silvério aí tornava, muito açodado, do vale à vila. Para entrar na estação e sair logo, com o seu ansiado bilhete postal junto aos olhos, devorado num regalo indizível.
Ao despegar do trabalho, noite feita, foi ele então num instante a casa, enfiando com precaução a ilha do Grilo; ouviu-se dentro a ruidosa galhofa das mulheres; e eis que em breves minutos o pecaminoso sultão saía, sem tempo de haver ceado, e retomava rua abaixo, direito ao rio. Foi-lhe inseparavelmente no rasto o Fagulha. Enquanto o grosso sátiro, sempre apressado e a pé, consultando o relógio a quando em quando, tomava ao longo da grande artéria marginal, e, atingindo Santa Apolónia, passava o Terreiro do Trigo e a Alfandega, onde dobrou à direita para subir a rua da Prata. O Fagulha esperto sempre na cola do malandrim, ia muito intrigado; e a sua surpresa subiu de ponto quando o viu, quase ao cimo da rua, à esquerda,, entrar na Estrela de Oiro.
Num salto alcançou a mesma porta, estava dentro também; e como já não visse aquele dorso bisarmal da sua presa, um momento parou, em silêncio, de ouvido alerte, no corredor. Então, mal distinguiu a voz amaricada do Silvério, que, travada com a de outro interlocutor, saía de um dos repartimentos próximos, foi e instalou-se na cafua contígua. E sentado, enquanto o criado lhe trazia os pratos, talher e meio bife, tratou de escutar, colando com precaução o ouvido ao tabique intermedio.
Lastimava-se o Silvério, baixando suspeitoso a fala, daquela demora. — Que lhe tinha feito uma diferença! — Ao que o companheiro, numa voz pipiada e perra, do Fagulha desconhecida: — Que a todo o tempo era tempo.
E, ignobilmente servil, o desabusado polígamo dizia:
— Então, não foi boa a colheita?
— Podia ter sido pior...
— Ah, que só minha precisão me faria prestar a uma coisa destas!
— Ora tu agora com dó daquela malandragem tem graça!
— Tinha lá amigos... palavra!
— Olha lá não te matem!
— Matavam, sim! Se soubessem...
Os olhos ardentes do Fagulha tinham lampejos vingadores na escuridão.
— O quê!? — exclamou o desconhecido, num sarcasmo incrédulo.
— Fala baixo, diabo! — soprou-lhe com intimativa o Silvério.
— Tomaram eles que eu os chamasse... tomaram também comer!
Aqui uma pausa dilatória se abriu, cortada pelo tilintar dos garfos nos pratos e o grosso gorgolhar do vinho. E veio a tempo este parêntesis no diálogo, porque coincidiu com a aproximação também do jovem que servia o Fagulha, o que o fez retomar apressado o seu lugar. E logo disse então para o boçal serventuário:
— Bom, quando precisar eu chamo.
Depois, apenas o rapaz, correndo a cortina, voltou costas, aí estava ele de novo no seu posto de observação. Distinguiu agora um vago e surdo arranhar, como de quem mexia em papéis; e a misteriosa personagem intimando :
— Bem, vamos a contas.
Num grave silêncio, monotonamente, o espaçado contar dos papelinhos continuou. Ao cabo:
— Quanto é que você me dá?... Isto é pouco! — objetava o Silvério, chicanando.
— São as ordens que tenho.
— É mesmo muito pouco! Por um lance arriscado como este a que eu me aventurei, que me podia ter custado a vida... Nada, não, isto assim não dá a conta. Vê lá!
— Não sei, menino... Olha, tudo o que vêm é ganho, vai guardando sempre...
— Coitado de quem precisa. — suspirou o gordo espião com hipocrisia.
— Pois sim, mas anda lá... — rosnava desprezivelmente o outro, batendo-lhe no ombro. — E agora, já sabes... se te convêm, continua.
Congestionado, o Fagulha, com os punhos crispados pendulando ameaças e os olhos chamejantes, desamparou o tabique, voltou à mesa e descarregou um sonoro murro sobre o mármore, a que espantado logo o criado acudiu. Então o indignado acolito do Mateus, sem mais querer saber, sem haver tocado no bife, sem um monossílabo de explicação, num instante pediu a conta, pagou e saiu.
E num instante correu da rua da Prata a Marvila, atalhando pela calçada do Caldas, bairro da Sé, Alfama e S. Vicente, veleiro e rápido como se levasse azas nos pés, direito à Bela Vista, a casa do Serafim. Mas a despeito de toda a sua diligência e rapidez, não conseguiu alcançar o termo da estirada excursão senão já bem tarde da noite.
Chegado ali, e salva em dois pulos cambos a escada, nervoso e impaciente, bateu, bateu... Volvidos minutos, rosnou de dentro irritada a voz da Clara:
— Quem é?
E logo com calorosa intimativa o Fagulha:
— Ó tia Clara, abra! Sou eu!
A enferrujada lingueta da fechadura recolheu-se, num chilrido áspero, e à porta entreaberta apareceu a estremunhada Clara, de candeia na mão, o busto cingido por um chale, descalça e sob a fímbria da camisa apontando, muito grossas e negras, as tíbias nuas.
— Que dianho quer você?... — disse ela com enfado.
— O Serafim?... — atacou, sem tomar folego, o Fagulha.
— Está a dormir.
— Pois acorde-o!
— Você está doido!
— Já lhe disse! — disse o outro, com decisivo império e avançando. — Ande, mexa-se, mulher!
— Nessa não caio eu...
— É indispensável! Ai, que demónio de lesma!
— E você leva depois a lambada por mim?...
Neste momento intervinha a figurita derreada e sumida da Ana, a qual depois da prisão do seu homem nunca mais soubera que coisa fosse ter sossego, e que acudira também ao estrondo da inesperada visita, num alvoroço de susto, puxando afogueada para traz do lenço o cabelo.
Mal que a viu, o Fagulha alegremente:
— Ai, a nossa Anica! Bem, bem, é a mesma coisa… deixa, — disse ele agora à Clara; e dizendo à improvisada viúva, com carinho: — Não sabes, filha? Estás vingada! Já sei!... Apanhei o melro na ratoeira!
— Então? Então?... — inquiriu a Ana com furor, arpoando os braços do intruso, com os olhos regaladamente abertos.
— O Silvério! Vejam vocês!...
— Palavra!? — Pode lá ser!
— Não há dúvida nenhuma! — E o Fagulha rugia numa convulsão de ameaçai — Que malandro!
— Tão chisnada tenha ele a alma como este inferno em que me meteu! — disse a Ana.
A Clara benzia-se apalermada:
— Padre, Filho, Espirito Santo!
— Agora já sabes... digam cá ao Serafim. Foi esse alma danada que nos vendeu! Mas tem que as pagar todas juntas, o refalsissimo Judas! E há de ser amanhã mesmo, olé! Parabéns...
E lestamente, numa grossa tropeada, o Fagulha descia e alcançava a rua; enquanto ao cimo da escada a Ana, pregada de pasmo, erguia as mãos a conter o desapoderado galopar do coração, onde um raio de perversa alegria descera a iluminar a álgida noite da sua dor.
No dia seguinte, logo com os primeiros alvores da manhã, começou a correr pela ilha do Grilo e imediações a abominável noticia. Um dos primeiros a sabê-la foi, da boca da própria Ana, o Manaio, que no mesmo instante desarvorou, num insofrido ingranzéu, a jorrar a torrente da sua indignação pelos vizinhos. Ao mesmo tempo o Serafim, despedido de casa como um raio, fora assoalhar o caso para a tenda do Zê Pequeno, onde entre cominatórias apóstrofes e justiceiros protestos de aversão uma formidável conjura se formou, de completa e imediata vingança. E dali o pregão da famosa descoberta, — a inevitável condenação do Silvério e o apoteótico louvor ao Fagulha, — alastrou com a empolgadora rapidez do relâmpago por todas as oficinas, estancias, fábricas, alambiques e tabernas da redondeza, desde os fornos de cal do alto até aos cais, por toda a parte acendendo a mesma tempestade unanime de irritadas fúrias, engrossando a abominação e aquecendo todas as vontades na mesma implacável com moção de extermínio, com esta avassaladora e crescente segurança das coisas fatais e iniludíveis. Isto ao tempo em que também, pelo interior de cada lar, portas a dentro de cada ínfima toca, a Ana e a Clara, cada uma ao modo do seu temperamento e na medida do seu sentir, iam concitando contra o traidor a generosa ira dos corações, uma na lamuriada plangência dos seus males, a outra num praguejado vociferar contra a ignominia.
Entretanto o Silvério, logo também de manhã, muito cedo, descera diligente à vila Dias, onde foi pagar à tenda parte do seu débito, fazendo ao mesmo tempo correr boato pela copiosa legião dos credores, para que ao meio-dia fossem, ou lhe mandassem a casa. Assim, fizeram; desta vez com melhor êxito do que na véspera, valha a verdade. Todos foram de algum modo contemplados, num rateio de ocasião, ali muito à boa paz improvisado pelo Silvério., consoante as exigências de cada um e em atenção aos recursos de que ele dispunha. Á porta de casa plantado, afável e sorridente, aí mesmo, à medida como chegavam, os ia recebendo... umas escusas banais primeiro, depois parlamentava-se um ajuste qualquer e despediam-se em bons termos... saudados de dentro, numa espécie de coro bachico, pelas vozes avinhadas das mulheres, destemperadas na orgíaca fartura do jantar daquele dia.
Naquele momento, pela ilha fora, ás portas e janelas de quase todas as barracas, havia fartas pinhas de gente, principalmente de homens, que assistiam à cena com rasgado interesse. Esta espécie de desavergonhado bodo, a céu aberto, era para eles a odiosa confirmação do repulsivo atentado. Sacudia-os num odio de morte a natural facilidade, a impudência como o Silvério jogava com aquele dinheiro, que devia escaldar-lhe as mãos! — Não havia duvida... as vis notas com que o biltre estava pagando aqueles seus torpes minutos de ventura, eram o preço porque ele ajustara a entrega, ao inimigo, da liberdade, da vida, da honra dos seus irmãos! E como estava fresco e lépido, o maldito! Só cosido a facadas! Até parece que remoçara... Não os indignava só o banditismo, a perfídia dó ato em si, mas também o desplante da sua exibição; aquele contraste exasperante entre o cinismo feliz do delator e a irremediável desgraça dos vendidos. E este cúmulo de impudor incendiava a alma de cada um dos espetadores da ignóbil farsa em fúrias de punição imediata e cabal. Cada um queria ser simultaneamente juiz e executor no infamíssimo pleito.
O Silvério, lá da sua porta, no extremo da rua, notava, toda de olhos postos nele, aquela afluência de curiosos, tão fora do comum; mas sem lhe atinar com a exata significação. Chegou até a rejubilar com o fato, que atribuía a qualquer comovido interesse pela sua pessoa. Queria agradecer... Nesta cega inconsciência dos irremediavelmente perdidos, não pode alcançar de que intima origem vinha o palpitante, o intenso lume que direitas a ele pregava as expressões, que ardia em todos os olhos. Tomava à conta de um simpático agrado pela sua sorte a impiedosa revolta contra o seu crime.
Ao aproximar-se a noite, — parecia um dia santo, — começaram com estranha insistência a definir-se, aqui, ali, subtis e espertos ao abrigo da penumbra, pequenos grupos de curiosos. A cada momento de todas as direções surdiam, silenciosos como conspiradores, suspicazes vultos de homens, avançando com precaução, tomando posições de recato ao abrigo dos portais, na sombra escassa das árvores, mascarados pela aresta das esquinas. Depois, simultânea e progressivamente, como se obedecessem a uma senha comum, encaminharam-se todos para o extremo da ilha, diametralmente oposto à habitação do Silvério e onde vinha desembocar o caminho que subia do vale de Chelas. Aqui se agruparam então de preferência, tomando a boca do atalho, vagamente escalonados pelo declive da ladeira. Já não eram agora conglomerações de acaso, débeis formações sem nexo ou coesão aparente disseminadas, mas uma grande massa negra, uma ameaçadora e compacta mancha, cujas vivas arestas na crista do outeiro alternavam, carvoadas no esmaio lilás do céu, com as duras laminas recurvas das piteiras. E um grosso borborinho se erguia do extravagante amontoamento. Pragas soltas cruzavam-se no ar. Por vezes altercavam.
Como fossem já mais que horas do despegar do trabalho, a mulher do Silvério, impaciente porque o seu homem chegasse, veio à porta, olhou; e ao ver no outro extremo da rua aquela imprevista e turbulenta jolda, disse para dentro ás irmãs:
— Querem vocês ver? Ali há sarilho!
Disse e voltou à porta, curiosamente, a observar. E então, de repente, tendo-se erguido em bicos dos pés, como que a afirmar-se, enlivideceu, soltou um grito lancinante, um supremo arranco de agonia, partido das mais fundas arcas do peito.
— Ai, que é o meu homem!
E partiu, louca e desapoderadamente, com os olhos brancos de terror, com as mãos nos cabelos, alarmando pelo seu apavorado gritar a rua. E na mesma alucinada carreira, chorando e bramindo, atordoadas de pavor, partiram logo também as irmãs na esteira dela.
Sobranceira naquele minuto à bravia confusão do juntamento, apercebia-se com efeito, sacudida e oscilante, sobrenadando, a grossa figura do Silvério a debater-se aflito, numa ansia pávida de náufrago, entre a selvática fúria da multidão. Mal que o viram apontar ao cimo da ladeira, tinham caído todos sobre ele. Num relâmpago a impetuosa onda apertou, cresceu, gruiu de todos os lados, lês-lha um céreo de morte. E ele, perplexo e atónito, assim coibido de improviso, num atribulado momento de incerteza, movia desesperadamente os braços, queria furtar o corpo, ensaiava uma ginástica de defesa incompatível com o seu físico, suplicado sempre: — Não me matem, não! Oiçam! Por piedade! Mas vingadoramente o enraivecido bando cobria-lhe as súplicas com impropérios, jogava-lhe ferozmente, como uma pela, o corpo imundo a poder de murros e de sarcasmos. E cá de longe as três mulheres, numa atribulada anda, sem poderem romper aquela implacável parede humana, gesticulavam renhiam clamorosamente. E pela vasta extensão da ilha as janelas, uma a uma, iluminavam-se; dezenas de cabeças avidas avançavam e penduravam-se a esquadrinhar com ferino interesse a escuridão; para o que havia, projetados à frente e rompendo a treva, lumes friorentos de velas e candeias, que afogueavam em baixo a viscosidade negra do lodaçal de trémulos sulcos sanguinolentos. Irremediavelmente, o Silvério estava perdido... Agora sentiu ele rasgar-lhe o ventre o frio gume de uma faca; e um arrepio cobarde lhe correu a espinha. Prestes a-sucumbir, levou as mãos ao abdómen, num protesto alto de dor abriu desmesuradamente a boca; e logo um braço vingador se alongou pelo ar, vindo não se sabia donde, brandindo uma grande torquês, a qual mergulhou fundo entre os lábios da vítima e lhe arrancou pela raiz a língua, que um momento sacudida ao alto, triunfalmente, como um rubro pendão de revolta, foi depois despedida longe, na sua trajetória sinistra cuspindo sobre a multidão uma chuva de sangue ainda quente.
A inesperada barbaridade, a trágica violência desta mutilação determinaram na feroz alcateia de algozes um estremecimento de horror. Os mais deles hesitaram e acuaram, numa vaga comoção de piedade, quase arrepesos. Mas foi um instante. Esse mesmo imprevisto batismo de sangue, arrefecendo-lhes por um momento a coragem, não tardou a servir-lhes mais um ácido estímulo e a enardecer a sua sanha homicida; acabou de exasperar a cega perversão do seu instinto. Já cada um reassume o seu papel vingador, e de novo todos caem, todos abatem em brutal competência sobre o ignóbil delator, a poder de maus tratos e cruas agressões os raios vingadores da sua cólera. Todos com igual fúria o agridem. Uma floresta de ferros, cacetes punhos fechados sarilham pelo ar. Na sua justiceira febre marinham uns pelos outros, travam-se em conflitos parciais que por momentos deslaçam e embrulham aquela mutua solidariedade no extermínio-
Enquanto, sempre no mesmo clamoroso bramir, as três mulheres se debatem na orla do grupo, longe da vítima, procurando agora desesperadamente, â unhada e à dentada, abrir caminho, — as suas estranguladas suplicas doloridamente prolongadas, rua em fora, desde o lugar onde elas esbravejam até casa pela fiada lamuriosa dos filhitos, que tinham vindo também, de mãos dadas e estendidos a chorar e a grazinar, na sensibilidade impulsiva da inocência.
O desgraçado Silvério, no enternecido dó de si mesmo, com a expressão horrivelmente devastada, nem voz tinha já para se queixar. O seu desespero e a sua dor, doidos bailando na congestionada alucinação dos olhos, rompiam dos lábios desguarneci dos em sons guturais, surdamente roncados, como um estertor, por aquele hiato negro e sanguinolento... Tinha o fato todo em farrapos, uma orelha derrubada, um braço partido, e do rosto opado e roxo de equimoses, a cada nova contusão esparrinhava o sangue em abundancia. Começaram então os joelhos a vergar-lhe, na irremissível compreensão do seu destino. O abominado colosso ia aluir, quando um formidável calhau, erguido por quatro vigorosos braços, lhe apanhou a nuca e o acabou de arrastar, abolachando-lhe o crânio contra a terra.
E ao passo que o alarido feminino redobrava, tudo o mais, como por encanto, emudeceu. Definiu-se logo uma repulsiva e prudente debandada. As luzitas bisbilhoteiras que estrelavam as tocas da ilha, cautamente, recolheram-se. E os bárbaros executores passavam rápidos por diante do alvo abjeto do seu rancor, jogavam-lhe um último olhar de execração e sumiam-se na invisível proteção das trevas, deixando ao mais impiedoso abandono aquele grande e obeso cadáver, com o encéfalo derramado sobre a pupila espavorida.
Então finalmente puderam as três mulheres aproximar-se e recumbir, ululantes, de encontro à grossa massa inerte, sobre a qual a fita loira das crianças, prematuramente orfanadas, vencidas de fadiga e pavor, vinham poisar as cabecitas adormecidas... E as três viúvas, ali, desamparadas e perdidas, agitando a cabeça e torcendo aflitivamente os braços na insensibilidade total do céu, das negras casas fechadas como túmulos, ficaram numa interminável lutuosa arrastando o seu carpir, bailada lúgubre que desafiava os magoados uivos dos cães peles casais distantes.