As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 20 de 30 · parte 3/3

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

2 - A anábase de Švejk a caminho de Budějovice

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O voluntário concluiu sua narrativa de uma maneira solene: — Cartago também foi destruída, Nínive foi reduzida a cinzas, querido

amigo, mas vamos em frente, com a cabeça erguida! Que ninguém pense que, se me enviarem ao front, eu vou disparar um único tiro! Relatório regimental! Expulso da escola! Viva o imperial e real cretinismo! Por que eu deveria me agachar em suas escolas e fazer seus exames? Para ser cadete, alferes, subtenente, tenente? Cago para isso! Para a escola de oficiais! Lidar com alunos que têm de repetir todos os anos a mesma coisa! O fuzil deve ser carregado no ombro esquerdo ou no direito? Quantas estrelinhas tem um cabo? Manter registros dos militares da reserva! Pelo amor de Deus, não temos o que fumar, meu amigo! Quer que lhe ensine a cuspir no teto? Olhe, se faz assim. Faça um desejo e ele será atendido. Gosta de cerveja? Posso lhe recomendar uma água excelente, está ali, naquela jarra. Se tem fome e quer comer manjares, lhe aconselho o Clube Municipal. Está entediado? Recomendo que escreva poemas. Eu já escrevi uma epopeia aqui:

O carcereiro está em casa?

Durma em paz, rapaz, tranquilamente.

O exército é o centro de gravidade.

Quando um novo comandante chegar de Viena

Dizendo que a batalha foi perdida,

Transformará o catre em barricada

Contra o inimigo e sua cavalgada.

E então, trabalhando, vai entoar

Essa canção que não deixará ninguém brincar: “O império da Áustria jamais perecerá,

Glória à pátria e ao imperador.”

— Você está vendo, amigo — continuou o gordo voluntário —, e agora que

venham me dizer que o povo está perdendo o respeito pela nossa querida monarquia! Um homem trancafiado atrás das grades que não tem o que fumar e está esperando ser julgado dá o mais belo exemplo de devoção ao trono. Em suas canções presta homenagem à pátria no sentido mais amplo da palavra, à pátria ameaçada por todos os lados. Mesmo privado de liberdade, faz fluir versos cheios de firme devoção. Morituri te salutant, Casear! Os mortos o saúdam, imperador! Mas o carcereiro é um sem-vergonha. Boa gentalha esta que está a seu serviço! Anteontem, lhe dei cinco coroas para que me comprasse cigarros e ele, o miserável, me disse hoje de manhã que aqui é proibido, que isso lhe traria problemas e que me devolverá as cinco coroas assim que receber o soldo. Pois é, meu amigo, agora não acredito em mais nada. Os melhores preceitos foram abandonados. Roubar um prisioneiro! E, como se não bastasse, o sujeito fica o dia inteiro cantando: “Ao ouvir cantar, não tema, as pessoas ruins não cantam.” Canalha, patife, bandido, traidor!

E o voluntário perguntou a Švejk de que estava sendo acusado. — Você estava procurando seu regimento? Caramba, que volta! Tábor, Milevsko, Květov, Vráž, Malčín, Čížová, Sedlec, Horažd’ovice, Radomyšl, Putim, Štěkno, Strakonice, Volyň, Dub, Vodňany, Protivín, Putim, Písek, Budějovice. Um caminho espinhoso. Você vai amanhã ao conselho de guerra? Então voltaremos a nos encontrar no patíbulo, irmão. Nosso coronel Schröder vai ficar de novo muito feliz. Você nem pode imaginar como o afetam as questões do regimento. Fica correndo pelo pátio como um cachorro raivoso e estica a língua como uma besta de carga. E as coisas que diz, suas admoestações, e como cospe ao seu redor como se fosse um camelo babão! Essa conversa não tem fim e você fica achando que o quartel de Maria vai desabar a qualquer momento. Eu o conheço bem; uma vez estive diante do conselho. Cheguei aqui com botas altas e uma cartola e como o alfaiate não me entregou meu uniforme a tempo fui à escola preparatória dos voluntários com as botas altas e a cartola, entrei na fila e marchei pelo flanco esquerdo. O coronel Schröder avançou sobre mim a cavalo e quase me derrubou no chão. “Maldição!”, berrou, de tal maneira que deve ter sido ouvido até na Š umava: “O que está fazendo vestido assim, como civil?” Respondi educadamente que era um voluntário e estava participando dos exercícios. Você precisava ter visto. O coronel falou durante uma hora e só depois percebeu que eu estava batendo continência de cartola. Então só disse que no dia seguinte eu teria de me apresentar ao conselho de guerra e, como estava soltando faíscas, partiu a cavalo, enfurecido, Deus sabe para onde, como um cavaleiro selvagem, e aí voltou, gritou outra vez batendo no próprio peito, ordenou que me expulsassem imediatamente e me levassem ao quartel-general. O conselho de guerra me condenou a duas semanas de prisão. Me deram uma roupa inimaginável do almoxarifado e ameaçaram me tirar o galão de voluntário. “A função de voluntário é nobre”, aquele imbecil ficou dizendo besteiras em voz alta. “É o embrião da glória, da dignidade militar, do heroísmo. O voluntário Wohltat, que foi promovido a cabo depois de passar nos exames, se apresentou ao front por vontade própria e prendeu quinze inimigos; quando os entregava, foi destroçado por uma granada. Cinco minutos depois, chegou o comunicado de que Wohltat havia sido promovido a cadete. Certamente o esperava um futuro brilhante de promoções. Seria condecorado e teria seu nome inscrito no livro de ouro do Regimento.”

O voluntário cuspiu:

— Você está vendo, meu amigo, que tipo de animais nasce debaixo do sol.

Eu estou me lixando para os galões de voluntário de um ano e seus privilégios. “Vocês, voluntários de um ano, são uns animais.” Como soa bem este “os senhores são uns animais” em lugar de “você é um animal”. E, uma vez morto, receberá o Signum Laudis ou a grande medalha de prata: os imperiais e reais fornecedores de cadáveres com ou sem estrelinhas. Um boi é muito mais feliz. É morto no matadouro e não é arrastado antes pelo pátio de armas nem no campo de tiro.

O gordo voluntário de um ano virou-se para o outro colchão de palha e

continuou:

— A verdade é que tudo isto explodirá algum dia. As coisas não podem ficar

eternamente assim. Infle um porco de glória e ele acabará explodindo. Se eu fosse ao front, escreveria o seguinte no trem de transporte militar:

Com ossos humanos semearemos os campos.

Com oito cavalos ou quarenta e oito homens.

A porta foi aberta e o carcereiro entrou com um quarto de ração de pão de

campanha e água fresca para os dois.

Sem se levantar do colchão de palha, o voluntário se dirigiu ao carcereiro,

dizendo o seguinte:

— Como é nobre e belo visitar os prisioneiros, Santa Inês do 91º

Regimento! Bem-vindo, anjo bondoso, coração compassivo! Vens carregando cestas de comida e bebida para aliviar nosso pesar. Nunca esqueceremos sua caridade, aparição luminosa em meio às trevas de nossa prisão!

— No conselho de guerra você não terá vontade de fazer piadas —

resmungou o carcereiro.

— Pare de nos ameaçar, seu hamster — respondeu o voluntário. — Seria

melhor se nos dissesse o que faria se fosse obrigado a encarcerar dez voluntários. Não fique me olhando como um apalermado, guardião do quartel de Maria. Prenderia vinte e soltaria dez. Jesus, Maria e José, se eu fosse ministro do Exército, você veria o que é a vida militar! Conhece o axioma segundo o qual o ângulo de incidência equivale ao ângulo de refração? Só lhe peço uma coisa: me dê um ponto fixo no universo e moverei a Terra, com você em cima, seu imbecil!

Os olhos do carcereiro pularam das órbitas; estremeceu e saiu, batendo a

porta.

— Deveríamos fundar uma associação de auxílio mútuo para a erradicação

dos carcereiros — disse o voluntário, dividindo a ração de pão honestamente. — Conforme o parágrafo dezesseis da lei de execuções penais, deve-se alimentar os detidos no quartel até o dia da sentença; aqui, no entanto, reina a lei da pradaria: qual é o lobo que vai comer primeiro a comida dos prisioneiros.

Sentados no catre, roíam o pão de campanha aos poucos. — Este carcereiro — continuou a refletir o voluntário — é a melhor prova

de que a guerra embrutece o homem. Certamente nosso carcereiro era, antes do serviço militar, um jovem cheio de ideais, um querubim louro, meigo e compassivo com todo mundo, defensor dos infelizes, que, nas festividades de sua aldeia natal, os defendia nas brigas pelas garotas. Não há dúvida de que todo mundo o respeitava, no entanto, agora... Meu Deus, como eu gostaria de esbofeteá-lo, de bater sua cabeça no catre, enfiá-la na latrina! Isso também é uma prova, meu amigo, de que o ofício militar embrutece a mente das pessoas.

Começou a cantar:

Não temia o diabo

Mas encontrou um artilheiro...

— Querido amigo — continuou falando —, se olharmos as coisas pelo

ângulo da nossa estimada monarquia, chegaremos, inevitavelmente, à conclusão de que ela é exatamente como o tio de Pushkin, um moribundo desenganado sobre o qual ele escreveu:

 

Suspirar e em silêncio esperar

Suspirar e em silêncio esperar

Que o diabo venha te buscar.

Ouviu-se de novo a chave ranger na fechadura. No corredor, o carcereiro

acendeu o candeeiro.

— Um raio de luz na escuridão! — gritou o voluntário. — A luz penetra no

exército! Boa noite, senhor carcereiro, cumprimente os oficiais superiores. Que tenham belos sonhos! Sonhe, por exemplo, que já me devolveu as cinco coroas que lhe dei para comprar cigarros e que você gastou bebendo à minha saúde. Durma docemente, seu monstro!

Ainda conseguiram ouvir o carcereiro resmungar alguma coisa sobre o

conselho de guerra do dia seguinte.

— De novo a sós — disse o voluntário. — Antes de dormir, vou dedicar

alguns instantes a uma dissertação sobre como, a cada dia, se ampliam os conhecimentos zoológicos dos suboficiais e oficiais. Arregimentar novo material bélico com suficiente consciência militar para alimentar os canhões requer profundos estudos de biologia ou do livro Fontes do bem-estar econômico, publicado por Kočí, no qual, em cada página, aparecem palavras como gado, porco, leitão. Não obstante, ultimamente temos visto que nossos círculos militares avançados estão usando uma nova terminologia para se referir aos recrutas. Na 11ª Companhia, o cabo Althof usa a expressão cabra de Engadine; o soldado Müller, um professor de alemão de Kašperské Hory, chama os recrutas de fedorentos; o sargento Sondernummer denomina-os de sapo-boi e javalis de Yorkshire, prometendo aos recrutas que vai dissecá-los. Diz isso com tanto conhecimento da matéria que dá a impressão de provir de uma família de taxidermistas. Todos os oficiais do exército se esforçam para inculcar assim o amor à pátria, usando efeitos especiais como, por exemplo, gritar com os recrutas, dançar ao seu redor, uivar belicamente como selvagens da África quando se preparam para escalpelar um inocente antílope ou assar a perna de um missionário destinada a uma refeição. Naturalmente, isto não se aplica aos alemães. Quando o sargento Sondernummer se refere a “um bando de porcos”, acrescenta rapidamente a palavra “tchecos”, para que os alemães não se ofendam, achando que o insulto é destinado a eles. Enquanto isso, todos os oficiais da 11ª Companhia reviram os olhos nas órbitas como um pobre cachorro que engoliu uma esponja empapada de azeite e não consegue expeli-la. Uma vez ouvi uma conversa do soldado Müller com o cabo Althof sobre a próxima fase de treinamento dos defensores da pátria. Naquela conversa se destacavam expressões como um par de bofetadas. A princípio pensei que havia acontecido algo entre eles, que estava se fraturando a unidade dos militares alemães, mas me equivoquei. Falavam apenas dos soldados. Quando um destes porcos tchecos não aprende a ficar firme como um pau nem depois de trinta flexões, não basta estapeá-lo. Dê-lhe um soco na barriga com um punho e com a outra mão afunde o quepe em sua cabeça. Entendeu? Meia-volta! Quando se virar, dê-lhe um chute no traseiro; ele sairá correndo e o alferes Dauerling terá um ataque de riso.

“Agora, meu amigo, preciso lhe dizer algumas coisas sobre Dauerling —

continuou o voluntário. — Os recrutas da 11ª Companhia falam dele como uma velhinha solitária de uma fazenda perto da fronteira do México imagina um famoso bandoleiro mexicano. Dauerling tem fama de canibal, de antropófago de alguma tribo australiana que devora os membros de outras tribos quando caem em suas mãos. Sua carreira é brilhante. Pouco depois de nascer, a ama de leite caiu com ele e o pequeno Konrad Dauerling bateu a cabecinha, de maneira que ainda hoje é visível em sua cabeça um achatamento, como se um cometa tivesse se chocado contra o polo norte. Depois daquela comoção cerebral, todos passaram a duvidar de que pudesse vir a ser alguma coisa; apenas seu pai, na época coronel, não perdeu as esperanças e afirmou que aquilo não deveria preocupá-lo, porque era óbvio que, quando crescesse, o jovem Dauerling seguiria a carreira militar. Depois de uma luta terrível travada ao longo dos quatro anos do curso primário com professores particulares (um deles ficou com os cabelos prematuramente grisalhos e acabou apatetado e outro ameaçou se atirar da torre de São Estevão, de Viena, por puro desespero), o jovem Dauerling ingressou na escola de cadetes de Hainburg. Um dos preceitos desta escola é o de nunca levar em conta a educação anterior, pois isso não era considerado útil para os oficiais austríacos da ativa. Os ideais militares se limitavam a brincar de soldado. A educação serve para enobrecer a alma, coisa que não interessa ao exército. Quanto mais grosseiros são os oficiais, melhor. Como aluno da academia militar, Dauerling não se destacou nem mesmo nas matérias que todos os alunos dominavam mais ou menos. Mesmo na escola de cadetes, foram percebidas as consequências da batida que levara na cabeça.

“Suas respostas nos exames eram um testemunho claro daquele acidente e

eram consideradas um clássico pelo seu alto nível de estupidez. Os professores só o chamavam de nosso pequeno idiota. Sua estupidez era tão gritante que todos tinham uma grande esperança de que um dia chegasse à Academia Militar Teresiana ou ao Ministério da Guerra. Quando explodiu a guerra e todos os jovens cadetes foram promovidos, Konrad Dauerling também estava na lista da promoção de Hainburg e assim chegou ao 91º Regimento.”

O voluntário suspirou e continuou:

— A editora do Ministério do Exército publicou um livro intitulado

Instrução ou educação, no qual Dauerling leu que os soldados deviam viver sob o terror e que o êxito da instrução era proporcional à intensidade do medo. E deste ponto de vista ele sempre tinha êxito. Para não ouvir seus gritos, os soldados faziam longas filas na enfermaria para comunicar que estavam doentes; mas esta tática não teve resultados. Aqueles que se diziam doentes recebiam três dias de verschärft. Você deve saber o que significa verschärft, não é mesmo? Enfim, punição. Obrigavam-nos a fazer exercícios durante todo o dia no pátio de armas e à noite eram trancafiados. E assim as enfermidades sumiram da companhia de Dauerling. Os doentes da companhia ficavam sentados em um buraco. No pátio de armas, ele usava sempre um tom desenvolto e todos os seus discursos começavam com a palavra “porco” e acabavam com um enigma zoológico: “cachorro porco”. Ao mesmo tempo era muito liberal. Dava liberdade de decisão aos soldados. Dizia, por exemplo: “O que você prefere, infeliz, um par de socos no nariz ou três dias de castigo?” E se o aluno escolhesse o castigo, também recebia dois socos no nariz, coisa que Dauerling acompanhava com a seguinte explicação: “Seu covarde, você teme pelo seu focinho. O que fará, então, quando ouvir a artilharia pesada?”

“Uma vez, ao arrebentar o olho de um recruta, declarou: ‘Para que ter

respeito por um sem-vergonha se de qualquer maneira vai bater as botas?’ O marechal de campo Konrad von Hötzendorf também dizia: ‘Os soldados estão fadados a abotoar o paletó, aconteça o que acontecer.’

“O método preferido e também o mais eficaz de Dauerling é convocar as

tropas tchecas para um discurso no qual trata dos deveres militares da Áustria e esclarece os princípios gerais da instrução militar, começando pela prisão e terminando pela forca ou o fuzilamento. Nos primeiros dias de inverno, antes que eu tivesse ingressado na enfermaria, estávamos nos exercitando no pátio de armas, ao lado da 11ª Companhia, e, durante o descanso, Dauerling disse o seguinte aos seus recrutas tchecos, obviamente em alemão:

“‘Eu sei’, começou, ‘que todos vocês são uns sem-vergonhas e que tenho de

tirar de suas cabeças, a pancada, todas as suas loucuras. Com o seu tcheco não chegarão nem ao pé da forca! Nosso chefe supremo também é alemão. Estão ouvindo? Deitados!’

“Todos se atiraram no chão e, quando estavam naquela posição, Dauerling

caminhou no meio deles falando:

“‘Corpo ao chão’ sempre será ‘corpo ao chão’, mesmo que vocês tenham

que chafurdar na lama, bando de pilantras! Essa coisa de ‘corpo ao chão’ já existia na Roma antiga. Naquela época todo mundo servia no exército dos dezessete aos sessenta anos de idade, dos quais trinta no campo, e não ficava rolando como porcos nos quartéis. Então no exército só se falava uma única língua e só havia um comando. O que os oficiais romanos pensariam se os soldados falassem em etrusco? Eu também exijo que me respondam em alemão e não nessa sua algaravia. Estão vendo como vocês ficam bem, deitados na lama? E agora imaginem que um de vocês não queira continuar atirado no barro e então se levanta. O que eu faria? Rasgaria sua boca até as orelhas, porque estaria diante de uma insubordinação, de uma rebelião, de um motim, de uma infração aos deveres do bom soldado, de uma desordem e de uma indisciplina, de um menosprezo pelos regulamentos oficiais... Um sujeito desses estaria sendo esperado pela forca e a ‘ perda do respeito de seus pares’.”

O voluntário ficou em silêncio e, depois de uma pausa que deve ter

aproveitado para ordenar mentalmente a descrição das relações na caserna, continuou:

— Veja o que acontecia na época do capitão Adamička, um homem

inteiramente apático. Quando estava em sua sala, costumava ficar olhando para o vazio como um louco silencioso e sua expressão parecia dizer: “Me devorem, moscas.” Só Deus sabe em que pensava durante os conselhos de guerra. Uma vez se apresentou a ele um soldado da 11ª Companhia queixando-se de que o alferes Dauerling o insultara à tarde, chamando-o de “porco tcheco”. O soldado era um encadernador, um operário que tinha o sentimento da sua dignidade nacional. “Pois assim estão as coisas”, disse o capitão Adamička em voz baixa, porque esse era seu tom habitual. “Disse-lhe isso na rua, à tarde. Temos que checar se naquele dia tinha permissão para sair. Retire-se!” Depois de um tempo, o capitão Adamička chamou o queixoso e lhe disse em voz baixa: “Foi comprovado que naquele dia você tinha permissão para ficar fora do quartel até as dez da noite e por isso não será castigado. Retire-se!”

“A partir daí, o capitão Adamička adquiriu a fama de ser um homem justo e

por isso, meu querido amigo, foi enviado ao front. Foi substituído pelo major Wenzl, que é um filho do diabo no que se refere às rivalidades nacionais e foi ele quem atiçou o alferes Dauerling. O major Wenzl é casado com uma tcheca e seu maior medo são as disputas em torno das questões da nacionalidade. Quando era capitão e servia em Kutná Hora, anos atrás, uma vez, bêbado, insultou o gerente de um hotel dizendo-lhe que era uma escumalha tcheca. Quero acentuar que tanto em sociedade como em casa o major Wenzl fala exclusivamente tcheco e que seus filhos estudam tcheco. Assim que proferiu aquelas palavras, a história chegou ao jornal local e um deputado apresentou uma queixa ao Parlamento de Viena a respeito do comportamento do major Wenzl no hotel. Este incidente lhe causou muitas dores de cabeça porque tudo aquilo coincidiu com as sessões parlamentares nas quais se discutiam certos regulamentos militares e justo naquele momento o capitão bêbado de Kutná Hora enfiara os pés pelas mãos.

“Mais tarde o major Wenzl soube que o autor de todas aquelas histórias

havia sido um tal de Zítko, representante dos cadetes da escola dos voluntários; fora ele quem denunciara o assunto ao jornal, pois entre ele e o major Wenzl havia uma inimizade, surgida no dia em que Zítko começara a discorrer publicamente, na presença do major, sobre a natureza criada por Deus, a lembrar que as nuvens cobriam o horizonte, a falar da altura das montanhas, do grito das cascatas dos bosques e do canto dos pássaros. ‘Basta’, dizia Zítko, ‘refletir a respeito do que é um oficial se comparado à magnitude da natureza. Exatamente um zero à esquerda, assim como qualquer representante de cadetes’.

“Posto que naquele dia todos os oficiais estavam bêbados, o major Wenzl

quis dar uma surra no pobre filósofo Zítko. A inimizade entre os dois foi aumentando e o capitão torturava Zítko sempre que podia, porque a máxima daquele virou um provérbio: ‘O que é o major Wenzl em comparação com a grandeza da mãe natureza?’ Toda a cidade de Kutná Hora conhecia a frase. ‘Farei com que esse desgraçado se suicide!’, disse para si mesmo o major Wenzl, mas Zítko abandonou o exército para poder continuar a estudar filosofia.

“A raiva do major contra os jovens oficiais vem dessa época. Nem os

subtenentes estão imunes aos seus ataques de ira, para não falar dos alferes e dos cadetes. ‘ Vou esmagá-los como se fossem percevejos’, costuma dizer o major, e pobre do alferes que leve alguém ao conselho de guerra por qualquer besteira. Para o major Wenzl, só contam os delitos graves e sérios, como, por exemplo, quando alguém dorme no paiol de armas, ou ainda mais terríveis, como quando um soldado sobe no muro do quartel de Maria à noite e adormece lá em cima, ou quando é pilhado à noite pela Defesa Territorial ou pela patrulha da artilharia, enfim, quando faz alguma coisa tão monstruosa que envergonha todo o regimento. ‘Por Jesus Cristo!’, ouvi-o gritar uma vez no corredor, ‘é a terceira vez que a guarda territorial pega você! Coloquem-no no buraco agora mesmo! Esse sem-vergonha tem de ser expulso do regimento, vamos colocá-lo em um destacamento de transporte de esterco! E ainda nem os enfrentou! Não são soldados, são lixeiros! Fica terminantemente proibido lhe dar de comer até depois de amanhã, tirem-lhe o colchão e o cobertor e coloquem este porco asqueroso na solitária!’.

“Agora imagine, amigo, que assim que o alferes Dauerling chegou aqui

levou ao conselho de guerra um homem que, segundo declarou o pedaço de asno, não lhe batera continência de propósito em tarde de domingo quando estava passando pela praça em uma carruagem na companhia de uma senhorita! Os suboficiais contaram que naquele dia foi armado, no conselho de guerra, um verdadeiro juízo final. O próprio sargento do escritório do batalhão fugiu para o corredor com seus documentos quando o major Wenzl começou a dar uma bronca em Dauerling: ‘Que não volte a se repetir uma coisa dessas, eu o proíbo! Sabe o que é um conselho de guerra, senhor alferes? Um conselho de guerra não é uma matança de porco, nem outra festa semelhante. Como poderia vê-lo se estava passando pela praça? Lembre-se de que você mesmo estudou que temos de saudar os oficiais que encontramos, mas isso não significa que um soldado tenha de dar voltas como uma águia à procura de um alferes que está passando pela praça! Faça o favor de se calar! Um conselho de guerra é uma instituição muito séria. Se o próprio soldado afirmou que não o viu porque naquele momento estava na rua principal e batia continência para mim, virado para mim, o major Wenzl, está entendendo? Não podia olhar para trás e ver a carruagem em que você estava. Na próxima vez não me moleste com besteiras deste tipo.’ A partir daí Dauerling mudou.”

O voluntário bocejou:

— Precisamos dormir, amanhã nos espera o conselho de guerra. Queria

apenas lhe explicar, brevemente, como andam as coisas no regimento. O coronel Schröder não consegue suportar o major Wenzl; é uma ave estranha. O capitão Ságner, responsável pela escola de voluntários, considera Schröder um militar exemplar... embora não exista nada que deixe o coronel mais desassossegado do que a ideia de ir ao front. Ságner é um sujeito esquivo, escorregadio, e, como Schröder, também não gosta dos oficiais da reserva. Chama-os de civis pestilentos. Qualifica os voluntários de animais selvagens que é necessário transformar em máquinas militares, costurar estrelinhas em seus uniformes e enviá-los ao front para que sejam mortos no lugar dos nobres oficiais do serviço permanente ativo, que devem ser conservados para que a estirpe possa ser perpetuada.

“Enfim, tudo aqui no exército cheira a podre”, continuou o voluntário, se

enfiando debaixo de uma manta. “As massas ignaras ainda não se deram conta. Vão para o front obedecendo ordens; são transformadas, com os olhos fora de órbita, em picadinho e só lhes resta ânimo para deixar escapar um último suspiro: ‘Mãezinha...!’ Não existem heróis e sim gado destinado ao matadouro e carniceiros no estado-maior. Mas, no final, a massa acabará se rebelando e vai haver uma grande confusão. Viva o exército! Boa noite!”

O voluntário concluiu seu discurso, mas ao cabo de um tempo começou a se

remexer sob a manta e perguntou:

— Você está dormindo, amigo?

— Não — respondeu Švejk do outro lado do catre. — Estou pensando. — Em que está pensando, amigo?

— Em uma grande medalha de prata que um carpinteiro da rua Vávrova de

Vinohrady, meu bairro de Praga, recebeu por sua coragem. Um tal de Mlíčko. Foi condecorado por ter sido o primeiro de seu regimento a ter uma perna arrancada por uma granada na guerra. Recebeu uma prótese e não parava de se gabar com sua medalha dizendo que era o primeiro, primeiríssimo inválido do regimento. Uma vez foi à taverna Apollo, no mesmo bairro, e brigou com uns açougueiros que acabaram lhe arrancando a prótese e batendo com ela em sua cabeça. O sujeito que a arrancou não sabia que era uma prótese e desmaiou de susto. Voltaram a colocá-la na delegacia, mas a partir daquele dia Mlíčko passou a sentir aversão por sua medalha de prata à coragem e a levou a uma casa de penhora, mas ali o prenderam com medalha e tudo. Uma espécie de tribunal de honra para inválidos de guerra condenou-o a perder a medalha e mais tarde a ficar sem a perna...

— Como?

— Muito simples. Um dia foi visitá-lo uma comissão que lhe comunicou

que não era digno de usar a perna artificial; depois a desataram e levaram embora.

“É muito engraçado também”, continuou Švejk, “quando os parentes de

algum tombado em combate recebem, de repente, uma medalha com um bilhete informando que devem pendurá-la em um lugar destacado. Na rua Božetĕchova, no bairro de Vyšehrad, um pai ficou irritado porque achou que as autoridades estavam zombando dele e pendurou a medalha no mictório; mas, como compartilhava o banheiro com um policial, este o denunciou por alta traição e o pobre homem acabou pagando bem caro por sua audácia”.

— Daí podemos concluir que toda a glória é uma folha de relva — disse o

voluntário. — Em Viena acabam de publicar o Diário de um voluntário, onde há um poema magnífico traduzido para o tcheco:

Era uma vez um voluntário valente

Que pela pátria e seu rei tombou

Dando aos companheiros um exemplo

De como por eles se deve lutar.

Ao cemitério levam o corpo inerte,

Colocam em seu peito uma medalha,

Preces silenciosas se levantam aos céus,

Em homenagem ao homem que tombou pela pátria.

— Me parece — continuou o voluntário, depois de uma breve pausa — que

nosso espírito militar está em declínio. Amigo, sugiro que, no escuro da noite, no silêncio de nossa prisão, cantemos a canção do canhoneiro Jabůrek. Isso fortalecerá o espírito militar. Mas teremos que gritar para que nos ouçam em todo o quartel de Maria. Sugiro que nos aproximemos da porta.

E pouco depois se ouviu da prisão uma gritaria tão forte que até fez tremer

as janelas do corredor:

Ao pé do canhão estava

Carregando sua arma sem parar,

Ao pé do canhão estava

Carregando sua arma sem parar.

Uma bala voou,

Arrancou suas mãos

E ele continuou tranquilo,

Ao pé do canhão,

Carregando sua arma sem parar,

Ao pé do canhão,

Carregando sua arma sem parar.

Ouviram passos e vozes que provinham do pátio.

— É o carcereiro — disse o voluntário. — Está acompanhado pelo tenente

Pelikán, que está de serviço hoje. É um oficial da reserva. Eu o conheci no Círculo Tcheco. Na vida civil é matemático de uma companhia de seguros. Ele nos dará cigarros. Continuemos gritando.

E se ouviu de novo: “Ao pé do canhão estava...”

Quando a porta foi aberta, o carcereiro, incomodado pela presença do oficial

de dia, gritou energicamente:

— Isto aqui não é um zoológico!

— Perdão — respondeu o voluntário —, isto aqui é uma filial do

Rudolfinum, a sala de concertos. Estamos apresentando um concerto em benefício dos prisioneiros. Agora mesmo acabamos de executar a primeira peça do programa: “A sinfonia bélica.”

— Parem com isso — disse o tenente Pelikán, severamente. — Creio que

deveriam saber que às nove têm que estar deitados, sem fazer barulho. Dá pra ouvir seu concerto da praça.

— Humildemente, senhor — disse o voluntário —, não ensaiamos de

maneira adequada e se há alguma dissonância...

— Toda noite faz a mesma coisa — disse o carcereiro, tentando provocar o

inimigo —, em geral se comporta de uma maneira muito pouco inteligente.

— Humildemente — disse o voluntário —, eu gostaria de conversar com o

senhor em particular. Ordene ao carcereiro que espere atrás da porta.

Quando seu desejo foi atendido, o voluntário disse em um tom familiar. — Vamos, Franta, pegue os cigarros. Sport? Não tem nada melhor, tenente?

Por ora lhe agradeço. E deixe-me os fósforos, por favor.

— Sport — disse o voluntário com desprezo depois que o tenente saiu. —

Mesmo na miséria é preciso manter a dignidade. Fume, amigo, para ter uma boa noite. Amanhã nos espera o juízo final.

O voluntário não se esqueceu de cantar uma canção antes de dormir: “As

montanhas e os vales são meus camaradas, mas não podem me devolver minha amada.”

Ao descrever o coronel Schröder como um monstro, o voluntário se

equivocara, porque às vezes o oficial tinha senso de justiça, e ele se manifestava claramente depois que passava uma noite tranquila na companhia de amigos no hotel. Mas o que acontecia quando não havia se divertido?

Enquanto o voluntário criticava duramente o ambiente do quartel, o coronel

Schröder estava sentado no hotel em companhia dos oficiais e ouvia o tenente Kretchmann, que voltara da Sérvia com uma perna ferida (levara uma chifrada de uma vaca), relatar um ataque às posições sérvias que presenciara na unidade em que estava lotado:

— Sim, então pularam das trincheiras. Arrastaram-se ao longo da linha de

dois quilômetros, atravessaram os alambrados e se lançaram contra o inimigo, com granadas de mão nos cinturões, máscaras e fuzis nos ombros, preparados para disparar, dispostos a atacar. As balas silvavam. Um soldado que havia pulado da trincheira caiu, outro tombou em cima de um aterro e um terceiro depois de alguns passos, mas seus companheiros continuaram avançando com gritos de vitória no meio da fumaça e da poeira. E os inimigos disparavam de todos os lados, das trincheiras, das crateras cheias de granadas e nos apontavam suas metralhadoras. Outros soldados tombaram. Um grupo tentou se apoderar de uma metralhadora inimiga, desabou, mas seus companheiros conseguiram atingir seu objetivo. Hurra! Um oficial caiu. Não se ouviam mais os fuzis dos soldados da infantaria, uma coisa terrível pairava no ar. Outro pelotão inteiro desaba. Ouvimos as metralhadoras inimigas: ratatatata... Cai... Não, me desculpem, não consigo continuar, estou bêbado...

O oficial da perna ferida emudeceu e permaneceu sentado com ar ausente. O

coronel Schröder sorriu com benevolência e ouviu o capitão Špíra, no outro lado, dar socos na mesa como se estivesse brigando e repetir uma coisa que não tinha nenhum sentido; não era possível entender o que significava ou o que ele queria dizer com aquilo.

— Pensem bem. No exército temos os lanceiros territoriais austríacos, a

defesa territorial austríaca, os caçadores bósnios, os caçadores austríacos, a infantaria húngara, os artilheiros imperiais tiroleses, a infantaria bósnia, os hovends da infantaria húngara, os hussardos húngaros, os hussardos territoriais, os carabineiros montados, os dragões, os lanceiros, os artilheiros, os trens, os sapadores, o corpo de saúde, os marinheiros. Estão entendendo? E a Bélgica? A primeira e a segunda esquadra formam o exército operacional, a terceira fica na retaguarda...

O capitão Špíra deu um soco na mesa: — As tropas territoriais prestam serviço ao país em tempos de paz. Ao seu lado, um jovem oficial, tentando, com honestidade, convencer o

coronel de sua firmeza militar, dizia ao vizinho, em voz muito alta:

— Os tuberculosos devem ser enviados ao front, isso lhes fará bem, e depois

é melhor que tombem os enfermos ao invés dos sãos.

O coronel sorriu, mas, de repente, seu semblante ficou sombrio e, virando-

se para o major Wenzl, disse:

— Acho estranho o fato de o tenente Lukáš evitar nossa companhia. Desde

que chegou nunca veio ficar entre a gente.

— Está escrevendo poemas — disse o capitão Ságner em tom de

brincadeira. — Assim que chegou se apaixonou pela mulher do engenheiro Schreiter, a qual conheceu no teatro.

O coronel olhou para a frente com desaprovação.

— Eu ouvi dizer que sabe cantar canções de cabaré. — Na escola de cadetes nos divertia muito cantando coplas — respondeu o

capitão Ságner —, e sabe ótimas piadas. Não sei por que não vem se encontrar com a gente.

O coronel balançou a cabeça com tristeza:

— Hoje em dia não existe mais a mesma camaradagem de outrora entre nós.

Recordo que antes todos os oficiais se esforçavam para dar uma contribuição ao nosso entretenimento no cassino. Estou me lembrando de que certa vez um tenente, Dankl se chamava, tirou a roupa, deitou-se no chão, enfiou um rabo de arenque na bunda e imitou uma sereia. Outro, o tenente Schleisner, sabia mexer as orelhas e relinchar como um garanhão, imitar o miado dos gatos e o zumbido dos abelhões. Também recordo o capitão Skoday; sempre que queríamos, trazia umas garotas para o cassino dos oficiais; eram três irmãs, adestradas como cães. Colocava-as em cima da mesa e elas começavam a se despir na nossa frente seguindo a batuta. Ele tinha uma pequena batuta e, sinceramente, lhes digo que era um ótimo regente. E o que fazia com elas no sofá! Uma vez mandou colocar uma banheira com água quente no meio da sala; e nós, um atrás do outro, tivemos que tomar banho com as garotas enquanto ele nos fotografava.

Depois dessas lembranças, o coronel sorriu de felicidade. — E que apostas fazíamos na banheira! — continuou estalando a língua de

maneira repugnante e mexendo-se na cadeira. — E hoje? Isto é distração? Nem o tal do cantor de coplas aparece por aqui! Os jovens oficiais de hoje não sabem nem beber. Ainda não é nem meia-noite e na mesa, como estão vendo, já temos cinco bêbados. Na minha época, ficávamos sentados durante dois dias e quanto mais bebíamos mais sóbrios ficávamos, e nos encharcávamos com cerveja, vinho, licores. Hoje em dia não existe mais aquele bom espírito militar. Só o diabo sabe o que aconteceu. Nenhuma piada, sempre aquelas mesmas conversas intermináveis. Ouçam, simplesmente, o que estão dizendo, lá na cabeceira da mesa, sobre a América.

No outro lado da mesa se ouvia uma voz séria afirmando: — A América não pode entrar na guerra. Os americanos e os ingleses se

odeiam mortalmente. A América ainda não está preparada para a guerra.

O coronel Schröder suspirou: — Esta é a conversa fiada dos oficiais da reserva. O diabo em pessoa os

enviou para cá. Ontem mesmo estes sujeitos estavam fazendo contas em algum banco, vendendo temperos e canela em cones, ou engraxando sapatos, ou dizendo às crianças na escola que a fome leva os lobos a saírem das florestas, e hoje querem se comparar aos oficiais do serviço permanente ativo, entender de tudo e enfiar o nariz onde podem. E quando temos entre nós um oficial da ativa, como é o caso do tenente Lukáš, então ele não aparece por aqui.

O coronel Schröder voltou para casa aborrecido e quando acordou de

manhã seu humor ficou ainda pior porque, ao folhear o jornal na cama, encontrou no noticiário dos campos de batalha várias vezes uma frase segundo a qual nossas tropas haviam sido conduzidas a posições previamente estabelecidas. Eram dias gloriosos do exército austríaco, só comparáveis, como um ovo a um ovo, aos dias de Šabac, a cidade da Sérvia que fora disputada por austríacos e sérvios em 1914 e 1915.

E, sob aquela impressão, o coronel Schröder se dirigiu, às dez da manhã,

àquele ato oficial que o voluntário havia chamado, talvez com razão, de Juízo Final.

Švejk e o voluntário estavam em pé no pátio, esperando o coronel. Também

estavam presentes os subtenentes, o oficial de dia, o oficial adjunto do regimento e o sargento-mor do escritório do regimento com o expediente dos dois infratores que eram esperados pelo machado da justiça — o conselho de guerra.

O coronel finalmente apareceu, acompanhado pelo capitão Ságner, da escola

de voluntários. Tinha uma expressão soturna. Estava nervoso e chicoteava o cano de seus coturnos.

Depois de ter recebido o informe, ficou andando em silêncio sepulcral em

volta de Švejk e do voluntário. Estes “olhavam à direita” e “olhavam à esquerda”, acompanhando os movimentos do coronel. E o fizeram tão rigorosamente que quase torceram o pescoço, pois aquilo durou um bom tempo.

Finalmente o coronel se deteve diante do voluntário, que disse: — Voluntário...

— Eu sei — interrompeu-o o coronel, laconicamente —, o pária dos

voluntários. O que você é na vida civil? Estudante de filosofia clássica? Quer dizer, um intelectual bêbado... Senhor capitão — ele chamou Ságner —, traga para cá todos os alunos da escola de voluntários. Claro — continuou se dirigindo ao voluntário —, o senhor é um estudante de filosofia clássica com os quais os nossos têm que se sujar! Meia-volta! Eu sabia. As pregas do seu sobretudo estão fora do lugar. Como se viesse das putas ou estivesse se chafurdando em um bordel. Eu vou lhe ensinar, rapaz.

Os alunos da escola de voluntários entraram no pátio. — Formem um quadrado! — ordenou o coronel. Os acusados e também o coronel foram fechados em um quadrado estreito. — Vejam este homem! — gritou o coronel, apontando o voluntário de um

ano com o chicote. — Bebeu a honra dos voluntários, que devem ser educados para que venham a ser oficiais respeitáveis que conduzirão as tropas à glória nos campos de batalha. E aonde este bêbado levaria a tropa? De taverna em taverna. Beberia todo o rum destinado à tropa. Você pode alegar alguma coisa em sua defesa? Não pode. Olhem para ele. Não tem nada a dizer em sua defesa e, na vida civil, é estudante de filosofia clássica. É mesmo um caso clássico.

O coronel pronunciou as últimas palavras com enfática lentidão e cuspiu: — Um filósofo clássico que à noite, bêbado, arranca os quepes da cabeça

dos oficiais! Meu Deus! Teve a sorte de que fosse apenas um oficial de artilharia!

Nestas últimas palavras estava concentrado todo o rancor que o 91º

Regimento tinha da artilharia de Budějovice. Pobre do artilheiro que à noite caísse nas mãos de uma patrulha do regimento ou vice-versa. Um rancor terrível, implacável, uma espécie de vendeta, de vingança de sangue, que ia passando de um ano a outro, acompanhado em ambos os lados de velhas histórias sobre soldados de infantaria que haviam jogado artilheiros no Moldava ou vice-versa, sobre como haviam brigado em Port Arthur, no Růže e em muitos outros locais de entretenimento da metrópole da Boêmia meridional.

— Não obstante — continuou o coronel —, uma coisa dessas deve ser

rigorosamente castigada. Este homem deve ser expulso da escola de voluntários, aniquilado moralmente. E basta de intelectuais no exército! Oficial de dia!

O sargento-mor do escritório do regimento se aproximou, gravemente, com

os expedientes e um lápis.

O silêncio reinante era semelhante ao dos tribunais onde é julgado um

assassino no momento em que o juiz diz: “Ouçam a sentença.”

E foi exatamente com esse tom de voz que o coronel anunciou: — Condeno o voluntário Marek a três semanas de prisão; depois de ter

cumprido o castigo será enviado à cozinha, onde ficará descascando batatas.

Em seguida o coronel virou-se para os alunos da escola de voluntários e

ordenou que se dispersassem. Ouviu-os se formarem rapidamente em fileiras de quatro e saírem marchando. Então o coronel disse ao capitão Ságner que haviam feito tudo errado e que à tarde repetisse com eles a marcha no pátio.

— O som da marcha deve ser semelhante ao de um trovão, senhor capitão.

Mais uma coisa. Quase ia me esquecendo: comunique-lhes que todos os alunos da escola de voluntários ficarão detidos por cinco dias, para que não se esqueçam jamais do ex-companheiro, aquele lúmpen do Marek!

 

O lúmpen do Marek permanecia em pé ao lado de Švejk, com uma expressão

O lúmpen do Marek permanecia em pé ao lado de Švejk, com uma expressão

completamente tranquila. Aquilo era a melhor coisa que poderia ter acontecido. Descascar batatas na cozinha, fazer almôndegas e cozinhar ossos era, sem dúvida, muito melhor do que ficar gritando a plenos pulmões debaixo do furacão do fogo inimigo: “Em forma! Baionetas caladas!”

Depois de se afastar do capitão Ságner, o coronel Schröder parou diante de

Š vejk e olhou para ele atentamente. Naquele momento, o rosto redondo do bom soldado estava sorridente, suas enormes orelhas espreitavam do quepe enterrado em sua cabeça. Dava a impressão de estar absolutamente tranquilo, convencido de que não fizera nada de errado. Seus olhos perguntavam: “Fiz alguma coisa, por favor?” Seus olhos diziam: “Sou culpado de alguma coisa?”

O coronel resumiu suas observações em uma pergunta que dirigiu ao

sargento do escritório do regimento:

— É bobo?

Então o coronel viu se abrir diante dele a boca daquele rosto bondoso. — Humildemente, senhor. Sou bobo — respondeu Švejk no lugar do

sargento.

O coronel Schröder fez um sinal para o ajudante e ambos se afastaram.

Depois chamaram o sargento e examinaram os informes sobre Švejk.

— Ah! — disse o coronel —, é o ordenança do tenente Lukáš, que, segundo

seu próprio informe, o perdeu em Tábor. Acho que os próprios oficiais deveriam educar seus ordenanças. Se o tenente Lukáš escolheu para ordenança um bobo notório, então que arque com as consequências. Tem tempo livre suficiente para fazê-lo, uma vez que não vai a lugar nenhum. Não é verdade que o senhor também nunca o viu nos fazendo companhia? Então tem tempo suficiente para educar seu escudeiro.

O coronel Schröder se aproximou de Švejk e, olhando seu rosto bondoso,

disse:

— Seu animal estúpido, vou lhe dar três dias de detenção. Depois se

apresente ao tenente Lukáš.

E assim Švejk voltou a se encontrar com o voluntário de um ano no cárcere

do regimento. O tenente Lukáš, por sua vez, não sabia que estava prestes a ter uma surpresa quando o coronel Schröder o chamou e lhe disse:

— Tenente, há aproximadamente uma semana, quando chegou ao nosso

regimento, o senhor me solicitou que lhe indicasse um novo ordenança, pois o seu se perdera na estação de Tábor. No entanto, como ele voltou...

— Senhor coronel... — começou o tenente Lukáš, em tom de súplica. — ... decidi que ficará preso por três dias e depois eu o enviarei de volta ao

senhor — disse o coronel, enfaticamente, dando o assunto por encerrado.

O tenente Lukáš saiu da sala cambaleando, completamente arrasado.

 

Ao longo daqueles três dias que passou na companhia do voluntário Marek, Švejk se divertiu muito. Todas as noites, sentados no beliche, organizavam manifestações patrióticas.

À noite, se ouvia da prisão “Deus nos proteja” e a canção popular austríaca

À noite, se ouvia da prisão “Deus nos proteja” e a canção popular austríaca

Prinz Eugen, der edle Ritter. Príncipe Eugênio, o nobre cavaleiro. Cantavam toda uma série de canções militares e quando o carcereiro se aproximava o saudavam assim:

Nosso bom carcereiro

Nunca deverá expirar,

Para isso Satanás

Terá que do inferno chegar.

Virá buscá-lo em um carro

E o jogará no chão.

Então os diabos, com ele,

Uma bela fogueira farão.

E, acima do beliche, o voluntário desenhou o carcereiro e escreveu embaixo a

letra de uma velha canção:

Quando fui à Praga comprar provisão

Encontrei no caminho um velho bufão.

Mas não era um bufão, era o carcereiro

Se não tivesse fugido, teria me mordido inteiro.

E enquanto os dois iam provocando o carcereiro, da mesma maneira que em

Sevilha os toureiros provocam o touro com uma capa vermelha, o tenente Lukáš esperava, angustiado, o dia em que Švejk apareceria e lhe comunicaria que voltaria a servi-lo.

32 Franz Joseph havia prometido solenemente, em 1871, que se faria coroar rei da Boêmia, mas não manteve sua promessa. (N. do T.)

33 Apelido dado pelos tchecos ao imperador Franz Joseph.