As Aventuras do Bom Soldado Švejk
2 - Em Budapeste
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Fez um gesto impaciente com a mão.
— Os comandantes do comboio não cumpriram seu dever. Vamos ao
escritório.
Seguiram-no se perguntando por que todos os generais haviam
enlouquecido.
No escritório do comando se constatou que ninguém sabia nada do gulache.
Era verdade que havia sido dada a ordem de prepará-lo para todos os comboios que passavam por ali, mas depois havia chegado a ordem de descontar da contabilidade interna 72 cêntimos por cabeça, que a intendência lhes entregaria com o próximo pagamento. No que dizia respeito ao pão, cada soldado receberia meia bisnaga na estação de Watian.
O comandante do centro de abastecimento não se intimidou. Disse ao
general, sem rodeios, que as ordens mudavam a cada hora, que, habitualmente, preparavam comida para todos os comboios, mas que se chegasse um trem-hospital com ordens superiores não havia nada a fazer: o comboio se via diante do problema dos caldeirões vazios.
O general balançou a cabeça em um gesto de aprovação e observou que,
decididamente, as condições estavam melhorando e que no começo da guerra tudo era muito pior. Nada sai de primeira, era preciso acumular experiência, práxis. Na verdade, a teoria freava a prática. Quanto mais durasse a guerra, tanto mais as coisas funcionariam.
— Posso dar um exemplo prático — disse o general, entusiasmado por ter
descoberto uma coisa nova. — Há dois dias, os comboios que passaram pela estação de Hatvan não receberam pão; no entanto, vocês receberão sua ração amanhã. E agora vamos ao restaurante da estação.
No restaurante, o general não parou de falar das latrinas, observando que era
muito feio ver aquela espécie de chouriços por toda parte nas vias férreas. Enquanto dizia isso, comia um bife, e todos tinham a impressão de que ele estava mastigando um cacto.
O general insistia tanto nas latrinas que parecia que a vitória da monarquia
dependia delas.
A respeito das notícias da Itália, declarou que a indiscutível superioridade da
A respeito das notícias da Itália, declarou que a indiscutível superioridade da
campanha italiana repousava precisamente nas latrinas.
A vitória da Áustria estava nas latrinas.
Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica
repousava nesta receita: “Às seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.”
De repente, o general se interrompeu, acendeu um cigarro e ficou
observando o teto em silêncio, querendo descobrir de que outra maneira poderia orientar os oficiais do comboio.
— Seu batalhão tem um fundo bom — disse de repente, quando todo
mundo esperava que continuasse contemplando o teto em silêncio —, está em perfeita ordem. A franqueza e a atitude militar daquele homem com quem falei me deixam com ótimas esperanças em relação a todo o batalhão. Tenho certeza de que seus homens lutarão até derramar a última gota de sangue.
Calou-se e, apoiando-se no respaldo da cadeira, voltou a observar o teto.
Depois retomou o discurso sem mudar de postura, enquanto o subtenente Dub, obedecendo aos impulsos de sua alma servil, observava o teto com ele.
— Por outro lado, as ações do seu batalhão não deveriam cair no
esquecimento. Os batalhões de sua brigada já têm uma história própria e vocês precisam dar continuidade a isso. O que está faltando aqui é uma pessoa que faça um registro exato, que escreva a história do batalhão. Este homem deve ter acesso a todas as informações a respeito de cada uma das companhias. É necessário que seja uma pessoa inteligente, não um palerma ou um mentecapto. Prezado capitão, o senhor deve nomear um historiador para o seu batalhão.
Em seguida, o general olhou para o relógio de parede, cujos ponteiros
recordavam ao grupo sonolento que chegara a hora de ir embora.
O trem de inspeção do general estava nos trilhos, e este pediu ao oficial que
o acompanhasse ao vagão-dormitório.
O comandante da estação suspirou. O general não se lembrara de pagar seu
bife e a garrafa de vinho que bebera e por isso teria que enfiar a mão de novo no próprio bolso. Todos os dias recebia algumas visitas desse tipo. Elas já haviam lhe custado dois vagões carregados de forragem que deixara em uma via abandonada e depois vendera à casa Löwenstein, que fornecia forragem para o exército como quem vende milho no pé. O exército comprara os dois vagões de volta, mas, por precaução, ele os deixara no mesmo lugar. Talvez fosse obrigado a vendê-los pela segunda vez à casa Löwenstein.
Por isso, todos os inspetores do exército que passavam pela estação central de
Pest diziam que o comandante sempre oferecia boa comida e bom vinho.
De manhã, o comboio continuava na estação. Tocou a alvorada. Os soldados se lavaram na bomba, usando latas. O general ainda não havia partido, e por isso aproveitou para examinar pessoalmente os banheiros. Todo o batalhão estava ali, seguindo a ordem do dia do capitão Ságner, Schwarmuweise unter Kommando der
Schwarmcommandanten,70 para que o general ficasse feliz. E para que o subtenente Dub também ficasse feliz, o capitão Ságner lhe comunicou que naquele dia caberia a ele fazer a inspeção.
De maneira que o subtenente Dub supervisionava os banheiros. Nos dois
corredores do longo banheiro cabiam dois pelotões de uma companhia.
Os soldados estavam agachados um ao lado do outro, como as andorinhas
nos fios telegráficos quando se preparam para voar à África no outono.
Seus joelhos despontavam das calças arriadas e todos tinham colocado o
cinto em volta do pescoço, como se estivessem esperando uma ordem para se enforcar. A postura dos soldados era uma demonstração da férrea disciplina militar e da excelente organização do exército.
No lado esquerdo estava Švejk, que fora parar ali por acaso e lia com
interesse um pedaço de papel rasgado, arrancado de quem sabe qual romance de Růžena
Jesenská:71
...quela pensão desgraçadamente as sen
idade definida, certamente mais av
a maioria se trancou nas h
n as refeições em seus quartos,
a diversas distrações. E se diziam
nava um homem sozinho e só a tristez
melhorava mas não queria tão rapidame
der, tal como teriam gostado se pu
ou não significava nada em absoluto para aquele jovem...
Quando levantou os olhos do papel, olhou automaticamente para a porta de
saída do banheiro e ficou surpreso: ali estava o general da véspera, com toda sua pompa, acompanhado pelo seu ordenança e pelo subtenente Dub, que lhe dizia alguma coisa com veemência.
Švejk olhou em volta. Todos continuavam agachados tranquilamente nas
privadas; apenas os oficiais pareciam petrificados.
Švejk percebeu a gravidade da situação. Do jeito que estava, com as calças arriadas e o cinto em volta do pescoço,
embora no último momento tenha usado o pedaço de papel, pulou e gritou:
— Em pé! Sentido! Olhar à direita!
E bateu continência.
Dois pelotões com as calças abaixadas e o cinto no pescoço se levantaram da
latrina.
O general sorriu amavelmente e disse:
— Descansar! Prosseguir!
O cabo Málek foi o primeiro a dar um exemplo ao seu pelotão voltando à
posição original. Švejk foi o único a continuar em pé, batendo continência: por um lado o subtenente Dub se aproximava dele com ar ameaçador e, pelo outro, o general de brigada, com um sorriso.
— Ontem à noite já havia prestado atenção em você — disse o general de
brigada diante da postura estranha de Švejk.
Então o subtenente Dub se aproximou, realmente indignado, e disse ao
general de brigada, em alemão:
— Humildemente, senhor, este homem é um bobalhão; é um idiota
reconhecido, um deficiente mental declarado.
— O que está dizendo, senhor?! — gritou o general para o subtenente Dub,
e lhe disse aos gritos que era exatamente o contrário.
Aquele era um homem que sabia o que devia ser feito quando via um
superior, enquanto os oficiais fingiam não vê-lo e não lhe davam a menor atenção. A mesma coisa acontecia, segundo ele, no campo de batalha: em tempos de perigo, é um simples soldado quem assume o comando. Era precisamente ele, o subtenente Dub, quem deveria ter dado a ordem que aquele soldado havia dado: “Em pé! Sentido! Olhar à direita!”
— Você limpou a bunda? — perguntou o general de brigada a Švejk. — Humildemente, senhor, está tudo em ordem.
— Cagou bastante?
— Humildemente, senhor, já acabei.
— Então ajeite as calças e fique em posição de sentido. Como o general de brigada disse a palavra “sentido” em uma voz um pouco
alta, os soldados que estavam sentados por perto começaram a se levantar das latrinas.
Mas o general de brigada lhes dirigiu um gesto amistoso e disse em tom
paternal:
— Não, não é necessário; continuem.
Švejk estava plantado com toda a pompa diante do general e este lhe dirigiu
um breve discurso em alemão:
— O respeito aos superiores, o conhecimento do regulamento e a presença
de espírito são os bens mais preciosos do exército. E se a tudo isto se acrescenta a coragem, não há inimigo a temer.
E depois se dirigiu ao subtenente Dub, enquanto enfiava um dedo na barriga
de Švejk.
— Tome nota: quando chegarem ao front, devem dar imediatamente a este
homem um cargo superior e, na primeira oportunidade, indicá-lo para receber a medalha de bronze por bom cumprimento de seus deveres e por seus conhecimentos... Você sabe o que estou querendo dizer. Retire-se!
O general se afastou do banheiro enquanto o subtenente dava as seguintes
ordens em voz suficientemente alta para que o general o ouvisse:
— Primeiro pelotão, em pé! Em fila dupla! Segundo pelotão...! Entretanto, Švejk saiu e, quando passou ao lado do subtenente Dub, voltou a
bater continência, mas Dub não conseguiu evitar de lhe ordenar:
— De novo!
Švejk se viu obrigado a bater continência de novo, e enquanto o fazia ouvia a
voz de Dub:
— Você me conhece? Não me conhece! Você conhece meu lado bom, mas
quando conhecer o mau verá como se chora!
Por fim, Švejk se dirigiu ao seu vagão, pensando: “Uma vez, quando ainda
estava no quartel de Karlín, havia um subtenente, um tal de Chudavý, que dizia a mesma coisa, só que de uma maneira um pouco diferente: ‘Rapazes, quando me virem, recordem que sou um infeliz e que continuarei sendo infeliz enquanto estiverem na minha companhia!’”
Švejk estava passando ao lado do vagão do alto-comando quando o tenente
Lukáš o chamou para lhe dizer que falasse a Baloun de sua parte que se apressasse com o café, e que deixasse a lata de leite condensado bem fechada para que não estragasse.
Baloun estava no vagão do intendente Vaněk e preparava o café do tenente
Lukáš. Ao lhe dar o recado, Švejk se deu conta de que durante sua ausência todo o vagão começara a beber café.
As latas de leite e de café estavam meio vazias e Baloun, bebendo aos
golinhos, remexia na lata de leite para melhorar o gosto do seu café.
Jurajda, o cozinheiro ocultista, e o intendente Vaněk se asseguravam
mutuamente que quando chegassem latas de leite e de café devolveriam ao tenente Lukáš o que haviam pegado.
Também ofereceram a Švejk um xícara de café, mas ele a recusou e disse a
Baloun:
— Acaba de chegar uma ordem do estado-maior do exército, segundo a qual
um ordenança que rouba de seu oficial uma lata de café ou de leite deve ser enforcado em vinte e quatro horas. O tenente me encarregou de lhe dizer isso e também que lhe leve o café agora mesmo.
Assustado, Baloun arrancou das mãos do telefonista Chodounský o café que
acabara de lhe servir, esquentou-o um pouco mais e correu até o vagão onde estava o alto-comando.
Com os olhos arregalados, entregou o café ao tenente Lukáš, e quando o
fazia teve a impressão de que o tenente lia em seus olhos o que fizera com as latas.
— Me atrasei — balbuciou —, porque tive dificuldade de abrir as latas. — Tenho certeza de que você se serviu de uma boa ração de leite
condensado, hem? — perguntou o tenente Lukáš, tomando goles de café. — Ou então você o comeu a colheradas como se fosse uma sopa. Sabe o que o espera?
Baloun se lamentou, suspirando:
— Tenho três filhos, senhor, humildemente.
— Tenha cuidado, Baloun, e vou adverti-lo mais uma vez: não seja tão
guloso. Švejk não lhe disse nada?
— Poderiam me enforcar no prazo de vinte e quatro horas — respondeu
Baloun com tristeza, balançando o corpo nervosamente.
— Não se balance assim, estúpido — disse o tenente sem conseguir
reprimir um sorriso —, e tente melhorar. Afaste a gula da cabeça e diga a Švejk que procure alguma coisa boa para eu comer, aqui na estação ou nas proximidades. Entregue-lhe estas dez coroas. Não vou mandar você; só fará este tipo de tarefa quando tiver se fartado até arrebentar. Você não comeu minha lata de sardinhas? Tem certeza? Traga-a e me mostre!
Baloun disse a Švejk que o tenente havia lhe enviado dez coroas com a
missão de procurar alguma coisa boa para comer. Com um suspiro, tirou da maleta do tenente a lata de sardinhas e levou-a, angustiado.
O pobre desejara que o tenente tivesse se esquecido da lata, mas suas
esperanças haviam sido vãs. Agora, certamente a guardaria em seu vagão e Baloun não a veria nunca mais. Sentia-se como se lhe tivessem roubado alguma coisa.
— Humildemente, senhor, aqui está a sua lata de sardinhas — disse com
amargura, entregando-a a seu proprietário. — Quer que a abra?
— Está bem, Baloun. Não abra nada, devolva-a a seu lugar. Só queria checar
se você tinha enfiado o nariz. Quando me trouxe o café, achei que estava com a boca cheia de gordura, sei lá, de azeite. E Švejk, já saiu?
— Humildemente, senhor, assim é — respondeu Baloun mais animado. —
Disse que o tenente ficaria satisfeito e que todo mundo o invejaria. Saiu da estação para ir sabe Deus aonde; disse que conhecia toda a região até Rákospalota e que se, por acaso, o trem partisse sem ele, se dirigiria ao pelotão motorizado e nos procuraria na próxima estação. Não precisamos sofrer por ele. Sabe qual é sua obrigação e a cumprirá mesmo que tenha que pegar uma carruagem e seguir nosso comboio até a Galícia. Isso poderá ser descontado do seu soldo. Não deve temer por ele de nenhuma maneira, senhor.
— Fora! — disse o tenente Lukáš com tristeza. Do escritório do comando chegou a notícia de que sairiam às duas da tarde
em direção a Gödölö-Aszód e que, na estação, pegariam dois litros de vinho tinto e uma garrafa de conhaque para cada oficial. Disseram que se tratava de uma remessa da Cruz Vermelha que se extraviara. De qualquer maneira, as bebidas eram como sonho coberto de mel e o vagão do alto-comando se animou. O conhaque era de três estrelas e o vinho, da excelente marca Gumpoldskirchen.
O tenente Lukáš era o único que parecia preocupado. Já se passara uma hora
e Švejk ainda não havia voltado. Depois de meia hora se aproximou do vagão do alto-comando uma estranha procissão que saíra do escritório do comandante da estação.
Era encabeçada por Švejk, solene e grave, como os primeiros mártires
cristãos quando entravam na arena.
À esquerda e à direita do bom soldado avançavam dois soldados húngaros
com baionetas caladas. Mais à esquerda caminhava um sargento da comandância da estação e, atrás deles, uma mulher com uma saia vermelha rodada e um homem com botas altas de camponês húngaro e um chapéu redondo. O olho do homem estava roxo e carregava uma galinha viva que cacarejava, assustada.
Todos subiram no vagão do alto-comando, mas o sargento disse em
húngaro ao homem da galinha e à mulher que esperassem na gare.
Švejk olhou para o tenente Lukáš e começou a piscar significativamente. O sargento pediu para falar com o comandante da 11ª Companhia. O
tenente Lukáš recebeu de suas mãos um bilhete da comandância da estação. Leu a mensagem e ficou pálido.
Ao chefe da 11ª Companhia N do 91º Regimento de Infantaria. Encaminha-se o soldado de infantaria Josef Švejk, que, segundo
sua declaração, é ordenança da citada companhia N do 91º Regimento de Infantaria, por ter cometido o delito de saque contra o casal István na aldeia de Isatarcsa, na zona da comandância da estação.
Motivos: O soldado de infantaria Josef Švejk apoderou-se de uma
galinha que corria pela parte traseira da casa dos István em Isatarcsa, na zona de comandância da estação, que pertence ao casal István (no original
haviam criado um esplêndido neologismo alemão “Istvangatten”), e depois de ter sido impedido pelo proprietário do qual queria tirar a galinha, lhe propinou um golpe com dito animal no olho direito; foi detido pela patrulha e conduzido ao seu regimento, enquanto se devolvia a galinha a seu proprietário.
Assina o oficial de dia
Quando assinou o recibo da chegada de Švejk, os joelhos do tenente Lukáš
tremiam.
Švejk estava tão perto que viu que o tenente Lukáš esquecera de escrever a
data.
— Humildemente, senhor, hoje é 24 de maio. Ontem foi 23, o dia em que a
Itália nos declarou guerra. Agora, enquanto estava fora, vi que não se fala de outra coisa.
Os soldados húngaros e o sargento foram embora e na gare só ficou o casal
István, que queria subir no vagão.
— Se o senhor tivesse pelo menos cinco florins, prezado tenente, então
poderíamos comprar a galinha. O pilantra está me pedindo quinze florins, dos quais dez por seu olho roxo — disse Švejk com o tom que uma pessoa adota quando conta uma história divertida. — Eu acho que pagar dez é muito por uma bobagem como um olho. Um dia, na taverna U Starý Paní, por vinte florins fizeram saltar a mandíbula inteira do torneiro Matěj com um golpe de bengala e isso que então o dinheiro valia mais do que hoje. O próprio verdugo Wohlschläger não cobra mais do que quatro florins para enforcar uma pessoa.
“Venha cá”, continuou Švejk, dirigindo-se com gestos ao homem de olho
roxo que segurava a galinha, “você, vovó, fique onde está!”
O homem subiu no vagão.
— Sabe um pouco de alemão — observou Švejk —, entende todos os
palavrões e sabe insultar muito bem.
“Quer dizer que são dez florins, não é mesmo?”, se dirigiu ao homem.
“Cinco florins por esta sem-vergonha, quiquiriqui!, e cinco pela coisa do olho, entendido? Isto aqui é o vagão do alto-comando, ladrãozinho! Me dê a galinha.”
Colocou dez florins na mão do homem surpreso, pegou a galinha, torceu
seu pescoço e em seguida empurrou o homem para fora, dando-lhe amistosamente a mão e apertando-a com força:
— Adeus, vá embora e leve a bruxa da sua mulher ou lhe darei uma coça tão
grande que ficará tonto!
“Bem, senhor, está vendo como tudo se ajeita”, disse Švejk ao tenente Lukáš.
“Prefiro sempre resolver as coisas sem nenhum escândalo, sem fazer confusão. Agora Baloun e eu prepararemos uma sopa de galinha de chupar os dedos; o cheiro chegará à Transilvânia.”
Aquilo foi muito para o tenente Lukáš. De um golpe arrancou a galinha das
mãos de Švejk, soltou-a e gritou:
— Você sabe o que merece um soldado que saqueia uma população pacífica
em tempos de guerra?
— Uma morte honrada com balas e pólvora — respondeu Švejk,
— Uma morte honrada com balas e pólvora — respondeu Švejk,
solenemente.
— Você merece uma corda, Švejk, porque foi o primeiro a saquear. Sim,
sem-vergonha, não sei mais o que dizer: você esqueceu seu juramento. Me faz perder os nervos.
Švejk dirigiu um olhar interrogativo ao tenente Lukáš e se apressou a dizer: — Humildemente, não esqueci o juramento que os soldados devem prestar.
Juro solenemente fidelidade e obediência a nosso excelentíssimo príncipe e senhor, Franz Joseph I, ser fiel e obedecer aos generais de Sua Majestade e a todos os meus superiores, respeitá-los e protegê-los contra qualquer inimigo. Não deixarei nunca de cumprir suas ordens e determinações, sempre que o peça sua imperial e real majestade, na água, debaixo da água, na terra, no ar, de dia e de noite, nas batalhas, nos ataques, e em todas as ações, em qualquer lugar...
Švejk pegou a galinha no chão e, sem parar de olhar o tenente Lukáš nos
olhos, continuou falando em posição de sentido:
— ... em qualquer lugar, em qualquer ocasião. Lutarei valentemente. Não
abandonarei jamais meu exército, minha bandeira, meus estandartes e meus canhões. Não terei nunca nem o mais mínimo trato com o inimigo e me comportarei sempre como exigem as leis da guerra e como cabe aos soldados obedientes, com o objetivo de viver e morrer honradamente. Deus me ajude para que assim seja. Amém. E eu não roubei a galinha, não saqueei ninguém, me comportei bem, de acordo com meu juramento.
— Solte a galinha, pedaço de animal! — gritou o tenente Lukáš, e, armado
com o dossiê que o sargento acabara de lhe trazer, deu um golpe na mão com que Švejk sustentava a defunta. — Olhe estes papéis! Está vendo? Aqui está escrito em preto no branco: “Encaminha-se o soldado de infantaria Josef Švejk, que, segundo sua declaração, é ordenança da citada companhia do 91º Regimento de Infantaria, por ter cometido o delito de saque...” E agora me explique, mequetrefe, bagunceiro! Eu o transformarei em picadinho, está entendendo? Agora me explique, ladrão podre, como pôde cair tão baixo!
— Humildemente, senhor — disse Švejk, amavelmente —, está mais claro
do que água que se trata de um equívoco. Quando recebi a ordem de procurar alguma coisa boa para o senhor comer, comecei a pensar o que poderia ser mais saboroso. Atrás da estação não havia nadica de nada, só embutido de carne de cavalo e carne-seca de asno. Pensei em tudo muito bem, senhor. Antes de ir ao front é necessário comer algo bastante nutritivo para suportar melhor os sofrimentos bélicos, e por isso quis lhe dar uma alegria colossal. Queria lhe preparar uma canja de galinha, senhor tenente.
— Uma canja de galinha! — repetiu este, levando as mãos à cabeça. — Sim, humildemente, senhor, uma canja de galinha. Comprei cebola e
cinquenta gramas de aletria. Tenho tudo aqui. Neste bolso está a cebola e neste, a aletria. Temos sal e pimenta no escritório, de maneira que não faltava nada além de comprar a galinha. Por isso caminhei da estação até Isatarcsa. É uma aldeia, não parece nem um pouco uma cidade, embora nas placas da entrada da aldeia se leia “Isatarcsa vároš”, ou seja, “cidade Isatarcsa”. Atravessei uma rua com jardins, primeiro o primeiro, depois o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo, o nono, o décimo, o décimo primeiro, o décimo segundo e, finalmente, no décimo terceiro, no final de tudo, ali onde atrás de uma casa começavam os prados, encontrei várias galinhas passeando. Fui e escolhi a maior, a mais volumosa; faça o favor de olhá-la, meu tenente, e verá como está bonita. Não é preciso nem tocá-la, imediatamente se vê que lhe davam muito grão para comer. Então peguei-a ali mesmo, diante dos vizinhos. Eles me disseram alguma coisa em húngaro; peguei a galinha e perguntei a várias pessoas em tcheco e depois em alemão a quem pertencia para poder comprá-la, quando, de repente, saíram disparados da casa um homem e uma mulher e começaram a blasfemar em húngaro e depois em alemão, dizendo que eu havia lhes roubado uma galinha em plena luz do dia. Eu lhes disse que não gritassem comigo, que haviam me enviado para comprá-la, e contei como as coisas tinham acontecido. E enquanto eu dava explicações, a galinha começou a agitar as asas, como se quisesse voar, e, como eu a segurava com força, empurrou meu braço e foi se sentar no nariz do dono. Ele imediatamente começou a gritar que eu havia batido em sua cara com o animal. A mulher, por sua vez, não parava de gritar e de chamar a galinha: “Piu, piu, piu, piu.” Mas então alguns imbecis que não estavam entendendo nada chamaram a patrulha e eu mesmo lhes pedi que me acompanhassem ao comando da estação para poder provar que era absolutamente inocente. Mas com aquele subtenente que estava de serviço não foi possível conversar; nem sequer quando lhe roguei que consultasse o senhor, pois o senhor lhe diria que, de fato, me mandara procurar alguma coisa boa para o senhor comer. Inclusive me deu quatro gritos dizendo que me calasse, que lia em meus olhos que o que me esperava era um galho forte e uma boa corda. Acho que estava de péssimo humor: me disse que um soldado tão gordo como eu só pode pensar em roubar e saquear. Parece que na estação receberam mais de uma queixa: segundo o sargento, ontem se perdeu aqui perto um peru, e quando lhe disse que então ainda estávamos em Raab, me respondeu que este tipo de desculpas para ele não valia. De modo que me trouxe para cá, mas antes um cabo que eu não havia visto gritou comigo se eu imaginava com quem estava falando. E eu lhe respondi: “Estou vendo um cabo; se fosse dos fuzileiros, seria comandante de patrulha, e, da artilharia, artilheiro sênior.”
— Švejk — disse o tenente Lukáš depois de uma pausa —, você já esteve
envolvido em tantas casualidades e infelicidades, tantos equívocos e mal-entendidos, como costuma dizer, que provavelmente a única forma de afastá-lo de todos esses contratempos será amarrar com muita força uma corda no seu pescoço, com todas as honras militares e perante uma formação em quadro, me explico?
— Sim, senhor. Um quadro é formado por quatro companhias e, em casos
excepcionais, por três ou cinco. Senhor tenente, quer que eu coloque minha aletria na canja de galinha para que fique mais espessa?
— Švejk, eu lhe ordeno que desapareça levando a galinha se não quiser que
lhe faça uma nova cara golpeando-o com ela, canalha!
— Humildemente, senhor. Mas não encontrei aipo nem cenoura. Colocarei
ba...
Švejk não chegou a dizer “tatas” antes de sair voando com a galinha e cair
diante do vagão do alto-comando. O tenente Lukáš engoliu de uma vez um copo cheio de conhaque.
Sob a janela do vagão, Švejk bateu continência e partiu.
Depois de ter apaziguado sua alma, Baloun estava prestes a abrir, apesar dos pesares, a lata de sardinha do tenente quando Švejk apareceu com a galinha. Naturalmente, o acontecimento gerou certa agitação no vagão. Todos o olhavam como se dissessem: “De quem a terá surrupiado?”
— Eu a comprei para o meu tenente — explicou Švejk tirando a cebola e a
aletria do bolso. — Ia fazer uma canja para ele, mas não quer mais e me deu de presente.
— Não estava morta? — perguntou o intendente Vaněk com ar desconfiado. — Eu mesmo torci seu pescoço — respondeu Švejk, e tirou um canivete do
bolso.
Baloun olhou para Švejk com gratidão e respeito e, sem dizer nada, começou
a preparar o fogareiro a álcool do tenente. Depois pegou alguns copos e saiu para procurar água.
O telegrafista Chodounský se aproximou de Švejk e se ofereceu para
depenar a galinha. Depois lhe perguntou ao ouvido:
— Estava muito longe daqui? Teve que pular algum muro ou elas correm
em liberdade?
— Eu a comprei!
— Ora, não me venha com histórias; nós vimos que o trouxeram! No entanto, ajudava, entusiasmado, a depenar a galinha. O cozinheiro
ocultista Jurajda também participava dos preparativos solenes cortando batatas e cebolas.
As penas atiradas para fora do vagão chamaram a atenção do subtenente
Dub, que rondava em volta do trem.
Ordenou aos gritos que quem estivesse depenando uma galinha se
apresentasse e na porta surgiu o rosto bondoso de Švejk.
— O que é isto? — gritou o subtenente Dub, pegando no chão a cabeça da
galinha.
— Humildemente — respondeu Švejk —, isto é a cabeça de uma galinha da
raça das italianas pretas. São excelentes poedeiras, senhor tenente. Botam cerca de duzentos e sessenta ovos por ano. Por favor, venha ver como seus ovários eram excelentes.
Švejk colocou embaixo do nariz do subtenente Dub os intestinos e as
entranhas da galinha.
O subtenente Dub cuspiu e foi embora, mas voltou depois de um momento. — Para quem é a galinha?
— Humildemente, senhor, é para a gente. Veja quanta gordura tem. O tenente se afastou, resmungando baixinho:
— Voltaremos a nos ver na taverna U Filippi.
— O que ele disse? — perguntou Jurajda a Švejk. — Marcou um encontro comigo na taverna U Filippi. Esses sujeitos
estranhos costumam ser veados.
O cozinheiro ocultista declarou que só os estetas eram homossexuais, coisa
que emanava da própria essência do esteticismo.
O intendente Vaněk começou a contar como os pedagogos abusavam dos
meninos nos monastérios espanhóis.
E, enquanto a água da panela fervia, Švejk contou que haviam confiado a um
educador um grupo de meninos abandonados de Viena e que o professor abusara de todos eles.
— É uma tara, o que querem que lhes diga! Mas as mulheres são piores. Há
— É uma tara, o que querem que lhes diga! Mas as mulheres são piores. Há
tempos viviam em Praga duas mulheres abandonadas; tinham se divorciado porque eram umas rameiras. Chamavam-se Mourková e Šousková. Uma vez, quando as cerejeiras das estradas da aldeia de Roztoky estavam em flor, agarraram um velho impotente que tocava realejo, arrastaram-no à floresta e o violentaram. As coisas que fizeram com ele! Em Žižkov vive um professor que se chama Axamit; estava escavando ali perto tentando encontrar tumbas pré-históricas; elas arrastaram o tocador de realejo a uma daquelas tumbas abertas e abusaram dele, fizeram de tudo. No dia seguinte, o professor Axamit foi até lá e viu que havia alguma coisa dentro da tumba. Ficou muito feliz, mas logo se deu conta de que era o atormentado e martirizado tocador de realejo que aquelas mulheres haviam deixado atirado ali. Em volta, estavam espalhados os restos de seu instrumento. No quinto dia o tocador de realejo morreu, e imaginem que harpias eram aquelas mulheres: tiveram a desfaçatez de ir ao enterro. Isso sim é que é perversão.
“Você colocou sal?”, perguntou Švejk a Baloun, que, aproveitando o
interesse geral que a história de Švejk despertara, estava escondendo alguma coisa em sua mochila. “Deixe-me ver o que está fazendo!”
“Baloun”, continuou Švejk, muito sério, “o que você quer fazer com a coxa
da galinha? Olhem, Baloun roubou uma coxa da nossa galinha para comê-la depois, às escondidas. Você sabe que delito cometeu, Baloun? Sabe como se castiga na guerra quem rouba um companheiro? Amarram-no em um canhão e o fazem voar com o primeiro cartucho. Já é tarde para suspirar. Quando encontrarmos a artilharia no front, se apresente ao primeiro artilheiro. Mas, enquanto isso, como castigo terá de fazer alguns exercícios. Vamos!”
O desgraçado do Baloun desceu do vagão e Švejk, sentado à porta, ficou lhe
dando ordens:
— Sentido! Descansar! Sentido! Descansar! Olhar à direita! Olhar para a
frente! Descansar!
“Agora fará movimentos com o corpo no mesmo lugar. Meia-volta à direita!
Vamos, rapaz, como você é fraco! É uma vaca e não um homem! Seus chifres devem estar ali onde antes estava seu ombro direito. Outra vez! Meia-volta à direita! Meia-volta à esquerda! Girar à direita! Girar à esquerda! Assim não, seu burro! Está vendo o que consegue fazer, seu palerma! Meia-volta à esquerda! Esquerda, de frente! De frente, burro! Não sabe o que é de frente? De frente! Meia-volta! Joelhos na terra! Corpo na terra! Sentado! Corpo na terra! Descansar! Vamos, Baloun, assim sim você fará bem a digestão!”
Ao redor deles começou a se reunir uma multidão que dava mostras de
grande alegria.
— Façam o favor de se afastar! — gritou Švejk. — Bem, agora marchar.
Baloun, vá com cuidado para que não tenha que obrigá-lo a repetir. Não gosto de martirizar inutilmente os soldados. Bem, então. Direção: estação! Olhe para onde aponto! Alto, estúpido! Finalmente parou. Passo curto! Não sabe o que é passo curto! Eu lhe ensinarei até que sue sangue! Passo redobrado! Passo lento! Marcar o passo! Cabeça oca, quando lhe digo para marcar o passo, só tem que mexer as pernas sem sair do lugar!
Em torno deles havia pelo menos duas companhias.
Baloun suava e já nem sabia o que estava acontecendo. Švejk continuava
Baloun suava e já nem sabia o que estava acontecendo. Švejk continuava
ordenando:
— Passo uniforme! Adiante! Alto! Passo ligeiro! Em marcha! Passo ligeiro!
Alto! Descansar! Sentido! Direção: estação! Passo ligeiro! Alto! Meia-volta! Direção: vagão! Passo ligeiro! Passo curto! Descansar! Agora descansará um pouco e depois começaremos de novo. Com boa vontade se consegue tudo.
— O que está acontecendo aqui? — gritou a voz do subtenente Dub, que
vinha a toda pressa.
— Humildemente, senhor — disse Švejk —, estamos fazendo exercícios
para não esquecê-los e não desperdiçar inutilmente um tempo precioso.
— Desça do vagão — ordenou o subtenente Dub —, já estou farto. Terá de
se apresentar ao comandante do batalhão.
Quando Švejk estava entrando no vagão do estado-maior, o tenente Lukáš
saiu por outra porta e desceu à plataforma.
O capitão Ságner, que fora informado pelo subtenente Dub das diabruras de
Š vejk, estava de ótimo humor, segundo ele mesmo disse. O vinho de Gumpoldskirchen era excelente.
— Entendo, você não quer perder inutilmente um tempo precioso. —
Sorriu significativamente. — Matušič, venha cá!
O ordenança do batalhão recebeu a ordem de ir buscar o sargento-mor
Nasáklo, da 12ª Companhia, famoso por suas tiranias, e encontrar imediatamente um fuzil para Švejk.
— Este homem — disse o capitão ao sargento-mor Nasáklo — não quer
desperdiçar inutilmente seu tempo precioso. Leve-o para trás do trem e passe uma hora com ele fazendo manobras. Sem nenhum tipo de pena, sem descanso. Depressa, uma ordem após a outra: apresentar armas! Arma no ombro! Apresentar armas! Arma no ombro! Você não se entediará, Švejk — acrescentou quando estavam indo embora.
Depois de um tempo se ouviu detrás do trem uma severa ordem que ressoou
solenemente no meio dos trilhos. O sargento-mor Nasáklo, que no momento em que o haviam chamado estava jogando vinte e um e tinha a banca, preenchia o espaço com seus latidos:
— Descansar armas! Arma no ombro!
Depois se fez um estranho silêncio, que foi interrompido pela voz serena e
tranquila de Švejk:
— Aprendi tudo isso em alemão alguns anos atrás quando fazia o serviço
militar. Quando dizem “Beim Fuss!”, o fuzil deve ser apoiado na cadeira direita, a ponta da culatra alinhada com as pontas dos pés. Naturalmente, a mão direita deve estar estendida e sustentar o fuzil de modo que o polegar envolva o cano, e os outros dedos, a parte dianteira da culatra. E quando dizem Schultert!, o fuzil deve ser apoiado no ombro com a boca do cano para cima e o cano para trás...
— Chega de conversa fiada! — E voltaram a ouvir as ordens do sargento-
mor Nasáklo. — Sentido! Olhar à direita! Meus Deus, o que você está fazendo...
— Estava em Schulert; se quero olhar à direita, deslizo a mão pela correia
para baixo, seguro o pescoço da culatra e giro a cabeça para a direita. Na posição de sentido volto a pegar a correia com a mão direita e minha cabeça olha para a frente, para o senhor.
Ouviu-se de novo a voz do sargento:
— Descansar armas! Arma ao ombro! Calar armas! Carregar arma! Joelhos
ao chão! Em pé! Joelhos ao chão! Carregar arma! Apontar! Apontar à direita, ao vagão do alto-comando! Distância: duzentos passos! Disparar! Descansar armas! Apontar! Disparar! Apontar! Disparar! Descansar armas! Carregar armas! Descansar!
O sargento enrolou um cigarro.
Enquanto isso, Švejk examinou o número do fuzil e exclamou: — 4268! É o número de uma locomotiva que estava em Pečky, na via 16.
Tinham que levá-la ao armazém em Lysá nad Labem para que a consertassem, mas não foi assim tão fácil porque o condutor que devia levá-la tinha péssima memória para os números. Então o ferroviário chamou-o a seu escritório e lhe disse: “Na via 16 está a locomotiva 4268. Já sei que tem péssima memória para números e que se os escrever em um papel então perderá o papel. Mas vejamos até que ponto está fraco em números. Eu vou lhe mostrar que, na verdade, é muito fácil memorizá-los. Olhe: a locomotiva que deve levar ao armazém de Lysá do Elba tem o número 4268. Preste atenção. A primeira cifra é 4, a segunda é 2. De maneira que tem 42: dois por dois são quatro, se dividi-lo por dois, voltará a ter um 4 e um 2, um ao lado do outro. E agora não se assuste: quanto é 4 vezes 2? Oito, não é mesmo? Pois grave na memória que o 8 é a última cifra do número 4268, de maneira que já só tem de lembrar que o primeiro número é 4, o segundo, 2, o quarto, 8, e agora se concentre no 6, que vem antes do 8. É muito simples. O primeiro número é o 4, o segundo, o 2, e 2 mais 4 são 6. Assim, agora já pode ter certeza de que o penúltimo número é 6; isso nunca se apagará de sua memória. Guardou na cabeça o número 4268. Também pode chegar ao mesmo resultado de uma maneira mais simples...”
O sargento parou de fumar, arregalou os olhos e limitou-se a dizer: — Tire o quepe!
Švejk continuou sua história em um tom muito sério: — Então começou a lhe explicar a maneira mais simples de recordar o
número da locomotiva, o 4268. Oito menos 2 são 6. Bem, agora já sabe o 68; 6 menos 2 são 4, assim agora já sabe o 4-68. Quando adiciona o 2, chega a 4268. Também é fácil fazer isso com a ajuda de multiplicações e divisões: é outra forma de chegar ao resultado desejado. “Repare bem”, lhe disse o ferroviário, “42 vezes 2 são 84. Um ano tem 12 meses. Se subtrair 12 de 84, sobram 72, tira-se outra vez 12 e sobram 60, de maneira que já temos um 6; descartamos o 0. Assim, agora temos 42-6-84. Da mesma forma que esquecemos o zero esqueçamos também o 4 do final e pronto, chegamos ao 4268, o número da locomotiva destinada ao armazém de Lysá nad Labem. Como lhe digo, também é fácil dividir. Calculamos os coeficientes de acordo com as tarifas da aduana”. O que está acontecendo, senhor sargento-mor? Está passando mal? Se quiser, posso começar com a descarga geral. Apontar! Disparar! Porra, o capitão não deveria ter nos mandado fazer manobras com este sol! Vou buscar uma liteira.
O médico constatou que o sargento-mor não estava sofrendo de nenhuma
insolação, mas de uma meningite aguda.
Quando recuperou a consciência, Švejk estava ao seu lado. — Bem, então acabarei de lhe contar aquela história. O senhor consegue
imaginar, prezado sargento, que o ferroviário esqueceu aquele número? Equivocou-se e multiplicou tudo por três depois de se recordar da Santíssima Trindade. Nunca encontrou a locomotiva. Ela continua até hoje na via 16.
O sargento-mor voltou a fechar os olhos.
Quando Švejk voltou ao seu vagão e lhe perguntaram onde estivera durante
todo aquele tempo, respondeu:
— Às vezes quem ensina manobras a outro atira pedras em seu próprio
telhado.
No fundo do vagão, Baloun tremia. Na ausência de Švejk, depois de ter
preparado uma parte da galinha, comera metade da ração do bom soldado.
Antes da partida do trem, chegou outro comboio, que transportava diversos corpos do exército. Eram aqueles que haviam se atrasado, deixado o hospital, iam se incorporar a sua unidade e outros indivíduos suspeitos que voltavam de missões especiais ou da prisão.
Desta última composição também saiu o voluntário de um ano Marek, que
fora acusado de insubordinação por ter se recusado a esfregar latrinas. Finalmente o tribunal da divisão o colocara em liberdade, a investigação fora suspensa e assim o voluntário Marek surgiu no vagão do alto-comando para se apresentar ao comandante do batalhão. Até aquele momento o voluntário não pertencia a nenhum lugar, porque não haviam parado de levá-lo de uma prisão a outra.
O capitão Ságner não ficou exatamente encantado ao vê-lo chegar com
documentos que continham uma observação estritamente confidencial: “Politicamente suspeito! Atenção!” Por sorte, o capitão se lembrou do general das latrinas, que lhe recomendara completar o batalhão com um historiador.
— Você é muito negligente, voluntário — disse. — Na escola de voluntários
de um ano era um verdadeiro terror. Em vez de tentar se destacar e alcançar o nível que lhe cabe de acordo com sua inteligência, foi passando de uma prisão a outra. O regimento se envergonha de você, voluntário. Mas ainda pode reparar suas falhas se começar a cumprir escrupulosamente seu dever e chegar assim a ocupar seu lugar entre os bons soldados. Dedique ao batalhão todas as suas forças e todo o seu amor. Vou lhe dar uma última oportunidade. Você é um jovem inteligente e certamente sabe redigir. Vou lhe dizer uma coisa. No campo de batalha cada batalhão precisa de um homem que faça uma crônica de todos os acontecimentos bélicos nos quais o batalhão intervém. É preciso descrever todas as campanhas vitoriosas, os momentos gloriosos dos quais o batalhão participa e nos quais tem um papel destacado e decisivo; assim, pouco a pouco, irá redigindo nossa contribuição à história do exército. Entendeu?
— Humildemente, senhor, sim. Trata-se dos episódios da vida de todas as
unidades. O batalhão tem a sua história. Sobre a base de seus batalhões, o regimento compõe a sua. Os regimentos criam a história da brigada, a brigada a história da divisão e assim por diante. Vou me esforçar ao máximo, senhor.
O voluntário Marek colocou a mão no coração:
— Registrarei com verdadeiro amor os dias gloriosos do nosso batalhão,
particularmente agora que a ofensiva está em plena marcha, quando a luta começa a ser dura e nosso batalhão cobrirá o campo de batalha com seus filhos heroicos. Escreverei escrupulosamente a crônica de todos os acontecimentos que se produzirão para cobrir de louros as páginas da história do nosso batalhão.
— Você ficará com o alto-comando, voluntário. Anotará os nomes de todos
os que foram ou forem indicados para receber condecorações; registrará, evidentemente de acordo com nossas observações, as marchas que deixam especialmente patente a notável combatividade e a disciplina de ferro do nosso regimento. Não é uma tarefa fácil, voluntário, mas espero que você tenha suficiente espírito de observação para que, seguindo minhas diretrizes, possa exaltar nosso batalhão acima das demais formações. Enviarei um telegrama ao regimento no qual comunicarei que o nomeei historiador do batalhão. Apresente-se ao intendente Vaněk da 11ª Companhia para que o acomode no vagão. Ali há mais lugar. E diga-lhe que venha me ver. Evidentemente, você será designado ao alto-comando por ordem do batalhão.
O cozinheiro ocultista cochilava. Baloun continuava tremendo porque acabara de abrir a lata de sardinhas do tenente Lukáš. O intendente Vaněk foi ver o capitão Ságner. O telegrafista Chodounský havia conseguido, quem sabe onde, uma garrafa de borovička, bebera-a em segredo, ficara sentimental e cantava:
Quando nos doces dias vagava,
o paraíso no mundo vislumbrava;
meu peito se enchia de confiança
e minha alma, de amor e de esperança.
Mas, ao ver que o mundo é insidioso,
comecei a chorar feito um garoto.
Desapareceram a esperança e o amor,
A existência perdeu seu sabor.
Ato contínuo, se levantou, foi à mesa do intendente Vaněk e escreveu com
letras grandes em um pedaço de papel:
Com esta carta solicito, amavelmente,
que me promovam e me nomeiem corneteiro do batalhão.
Chodounský, telegrafista.
O capitão Ságner não dispunha de muito tempo para conversar com o
intendente Vaněk; limitou-se a fazê-lo saber que o historiador do batalhão, o voluntário Marek, estava designado ao vagão em que estava Švejk.
— Só posso lhe dizer uma coisa: Marek é, para dizê-lo de alguma maneira,
suspeito, politisch verdächtig. Meu Deus! Hoje em dia isso não é nada extraordinário. Quem não é suspeito? São suposições, você me entende, não é mesmo? Só lhe sugiro que, se disser coisas... enfim, você sabe a que me refiro, corte-o imediatamente, faça-o se calar para não me causar confusões. Peça-lhe que pare de falar e pronto. Não é necessário que venha correndo me contar a cada vez. Resolva tudo com ele de uma maneira amistosa; uma conversa é sempre melhor do que uma denúncia. Para dizê-lo em poucas palavras: não quero saber nada a respeito porque... Você me entende. Esse tipo de coisa sempre repercute em todo o batalhão.
Quando Vaněk voltou, levou para um lado o voluntário Marek e lhe disse: — Filho, você é suspeito, mas não importa. Sobretudo não fale além da
conta diante do telegrafista Chodounský.
Mal acabara de falar, Chodounský se aproximou cambaleando, caiu nos
braços do intendente e com voz de bêbado gemeu alguma coisa que talvez fosse uma canção:
No dia em que todos me abandonaram
com seus cabelos ergui um muro
e com a cabeça em seu coração puro
meus olhos amargamente marejaram.
De repente seu rosto ficou iluminado,
Seus lábios de deusa se aproximaram,
senti seu beijo em minha boca,
e aí me disse: eu não a abandonarei nunca, nunca.
— “Não a abandonarei nunca” — vociferava Chodounský. — Comunicarei
a vocês imediatamente tudo o que souber através do telefone. Estou cagando para o juramento!
Em um canto, Baloun se persignou horrorizado e começou a rezar em voz
alta:
— Mãe de Deus, não rechace minha súplica, ouça-me com sua graça,
console-me com Sua vontade, me ajude, a mim, miserável pecador que lhe implora com fé viva e esperança sincera e amor ardente nesse vale de lágrimas. Oh, rainha dos céus, interceda por mim para que até o final de meus dias possa permanecer na graça de Deus e sob Sua proteção...
De fato, a Virgem Maria cheia de graça intercedeu por ele, porque ao cabo
de um tempo o voluntário tirou de sua pobre mochila umas latas de sardinha e deu uma a cada um.
Baloun, com um gesto decidido, abriu a maleta do tenente Lukáš e enfiou
nela a lata que caíra do céu.
Mais tarde, quando todos destamparam suas latas de sardinhas e começaram
a saboreá-las, Baloun caiu em tentação, abriu a maleta e devorou as sardinhas do tenente com voracidade.
E então a cheia de graça e dulcíssima Virgem Maria o abandonou: no exato
momento em que acabara de engolir a última gota de azeite da lata, surgiu diante do vagão o ordenança do batalhão Matušič, que vociferou:
— Baloun, você tem de levar as sardinhas ao seu tenente. — Haverá bofetadas — observou o intendente Vaněk. — Não vá de mãos vazias — aconselhou-o Švejk —; pelo menos leve as
cinco latas vazias.
— O que terá feito para que Deus o castigue assim? — disse o voluntário.
— Deve ter cometido um grande pecado no passado. Terá feito algum roubo sacrílego, como comer o presunto que seu cura guardava na lareira? Terá bebido o vinho de missa que o padre guardava na adega? Quando criança, trepou no muro do capelão para colher peras?
Com uma expressão cheia de desesperança, Baloun afastou os olhos. Seu
rosto angustiado parecia perguntar de uma forma que partia o coração: “Quando meu sofrimento terá fim?”
— O que acontece — declarou o voluntário, que ouvira as palavras do pobre
Baloun — é que você, meu amigo, perdeu o contato com Deus. Não reza com suficiente intensidade para que Deus o leve deste mundo o quanto antes.
Švejk acrescentou:
— Baloun não se decide a encomendar à bondade do coração paternal de
Deus Todo-Poderoso sua vida militar, suas ideias militares, suas palavras, suas ações e sua morte militar, como costumava dizer Katz, meu capelão militar, quando bebia além da conta e por engano trombava com algum soldado na rua.
Baloun gemia e afirmava que perdera a fé em Deus porque havia rezado
muitas vezes para que ele reduzisse seu estômago, sem nenhum êxito.
— Minha gula não começou durante a guerra — choramingava. — É uma
velha doença, uma coisa crônica. Minha mulher e meus filhos peregrinaram ao santuário de Klokoty, para rezar a fim de que me curasse.
— Conheço esse lugar — disse Švejk —, fica perto de Tábor. Tem uma rica
Virgem Maria coberta de falsos brilhantes. Um sacristão de algum lugar da Eslováquia foi até lá para roubá-los. Se disse que o roubo lhe sairia melhor se antes confessasse todos os seus pecados, e então contou ao capelão, entre outras coisas, que tinha pensado em roubar no dia seguinte o vestido da Virgem Maria. Ainda não havia acabado de rezar os trezentos pais-nossos que o capelão lhe encomendara para impedir que fugisse quando os sacristãos o levaram diretamente à polícia.
O cozinheiro ocultista começou a discutir com o telegrafista Chodounský se
isso era ou não uma traição do segredo de confissão que clamava ao céu e, se ao fim e ao cabo, aquilo tudo valera a pena, levando-se em conta que os brilhantes eram falsos. Por fim, o cozinheiro conseguiu demonstrar para o telegrafista que tudo aquilo era carma, ou seja, uma predestinação procedente de um passado distante e desconhecido no qual o desgraçado sacristão eslovaco possivelmente fora o antípoda de um planeta remoto. Talvez em um passado também distante, quando o capelão de Klokoty era uma equidna, uma espécie de mamífero marsupial extinto, ficara predestinado que um dia violaria o segredo da confissão. “De qualquer maneira, do ponto de vista jurídico, o direito canônico concede a absolvição quando se trata de bens do monastério”, concluiu.
Švejk acrescentou uma simples observação a esses comentários: — É claro, ninguém pode saber as burradas que ele mesmo cometerá ao
longo de alguns milhões de anos; ninguém pode dizer desta água não beberei. Quando ainda estávamos no Comando da Reserva de Karlín, o tenente Kvasnička sempre dizia quando nos dava aula: “Porcos, palermas, perdulários, não achem que vão se livrar da guerra neste mundo. Depois de morrer voltaremos a nos encontrar, e vocês verão que tipo de purgatório os farei passar, bando de estúpidos!”
Durante todo aquele tempo, Baloun permaneceu submerso em um estado de
desespero total. Pensava que só falavam dele, que tudo o que diziam se referia a ele, e deu continuidade a sua confissão pública.
— Nem mesmo Klokoty pôde fazer nada com minha gula. Minha mulher
voltou da peregrinação com as crianças e começou a contar as galinhas. Faltavam uma ou duas. Mas eu não podia fazer nada, embora soubesse que precisávamos delas para os ovos; quando saía de casa e as via, começava a sentir no estômago um grande vazio e depois de uma hora já estava me sentindo bem, com a galinha na barriga, devorada até o último pedaço. Um dia, quando minha família estava no santuário de Klokoty, onde rezava para que o pai não comesse tanto, dei uma volta no pátio e de repente vi um peru. Quase paguei esse dia com minha vida: seu fêmur ficou cravado na minha garganta, e se não fosse meu aprendiz, um rapaz jovenzinho que me arrancou aquele osso, hoje não estaria aqui entre vocês e não teria vivido para ver a Guerra Mundial. Sim, sim, aquele rapaz era muito esperto. Baixinho, roliço, gordinho...
Švejk se aproximou de Baloun. — Mostre-me a língua!
Baloun esticou a língua e Švejk se dirigiu a todos os presentes: — Tinha certeza, Baloun comeu até o aprendiz! Confesse que o engoliu!
Quando sua família estava de novo em Klokoty, não é mesmo?
Baloun, desesperado, juntou as mãos e exclamou:
— Me deixem, amigos! Só me faltava isso, e ainda por cima por parte de
meus companheiros!
— Nós não o condenamos por esse ato — disse o voluntário. — Ao
contrário, dá pra ver que você virá a ser um bom soldado. Durante o assédio de Madri pelas tropas napoleônicas, o comandante espanhol da cidade, para não ter que entregar a fortaleza faminto, comeu seu escudeiro sem sal.
— Isso sim foi um sacrifício; um escudeiro com sal teria sido muito mais
saboroso — opinou Švejk. — Falando de comer escudeiros: senhor intendente, como se chama o ordenança do nosso batalhão? Ziegler? Daquele caniço não seria possível cortar bifes que bastassem nem para uma única companhia.
— Olhem — disse o intendente Vaněk. — Baloun está com um rosário nas
mãos.
E de fato, em sua dor, Baloun procurava a salvação naquelas pequenas contas
de um rosário de madeira de buxo fabricado pela casa judia Moritz Löwenstein de Viena.
— Isso também é de Klokoty — explicou Baloun com tristeza. — Antes de
o terem trazido pra mim, desapareceram dois gansinhos, mas não eram feitos de carne, mas de algum tipo de cartilagem; eram muito macios.
Depois de um momento, uma ordem circulou por todo o comboio: o trem
partiria em quinze minutos. Como ninguém queria acreditar, apesar de toda a vigilância algumas pessoas se perderam. Quando o trem começou a andar, faltavam dezoito soldados, entre os quais o sargento-mor Nasáklo, da 12ª Companhia. Fazia um bom tempo que o trem havia desaparecido atrás de Isatarcsa e Nasáklo ainda estava em um pequeno bosque de acácias mais além da estação, regateando o preço com uma prostituta que lhe pedia cinco coroas, enquanto ele lhe oferecia, como recompensa pelos serviços já realizados, uma coroa ou uma surra. Ao final, esta última recompensa lhe foi entregue com tanta veemência que, ao ouvir os gritos estridentes da mulher, um monte de gente da estação acudiu correndo.
69 Fodam-se Cristo e sua Mãe. (N. do T.)
70 Do alemão, “por pelotões, sob o comando dos comandantes de pelotão”. (N. do T.)
71 Růžena Jesenská (1863-1940), poeta e escritora muito popular. (N. do T.)