As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 26 de 30 · parte 2/2

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

3 - De Hatvan à fronteira da Galícia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Švejk subiu no vagão e Kunert voltou ao seu buraco. Ao cabo de um quarto de hora partiram para Nové Čabiny e atravessaram

duas aldeias calcinadas, Brestov e Veliký Radvaň. Via-se claramente que a coisa começava a ficar séria.

As ladeiras e encostas dos Cárpatos estavam sulcadas pelas trincheiras, que

se estendiam de um vale a outro ao longo dos novos dormentes da via. Em ambos os lados havia buracos abertos pelas granadas. Aqui e ali, ao lado dos riachos que corriam para o Laborec, cujo curso seguia os trilhos do trem, viam-se pontes novas e trechos calcinados de velhas pontes.

Todo o vale de Medzilaborce estava sulcado e revolvido, como se exércitos

inteiros de toupeiras gigantes tivessem trabalhado ali. A estrada do outro lado do rio parecia destroçada, cheia de sulcos e, em sua borda, os terrenos por onde os exércitos haviam passado estavam devastados.

As tormentas e os aguaceiros haviam deixado a descoberto pedaços de

uniformes austríacos na margem das fossas abertas pelas granadas.

Depois de Nové Čabiny, no meio dos galhos de um velho pinheiro, pendia a

bota de um soldado de infantaria austríaco com um pedaço de perna dentro.

A fúria dos disparos da artilharia deixara os bosques de pinheiro sem folhas

e sem agulhas, árvores sem copas e casas destruídas.

O trem avançava lentamente pelos aterros recém-construídos, de maneira que

todo o batalhão podia contemplar e saborear com prazer as alegrias da guerra, observar os cemitérios militares que brilhavam com suas cruzes no meio das planícies e das encostas devastadas, começar a se preparar mentalmente para o campo de glória que terminava com um quepe austríaco cheio de lama se balançando sobre uma cruz branca.

Os alemães de Kašperské Hory, que ocupavam os vagões do fundo e que,

quando ainda estavam entrando na estação de Milovice, haviam cantado aos gritos sua canção de sempre, “Quando eu voltar, quando eu voltar...”, depois de Humenné emudeceram, pois compreenderam que muitos daqueles cujos quepes viam sobre as tumbas haviam cantado aquela mesma canção que falava de como seria bonito poder voltar para casa e encontrar a mulher amada.

A estação de Medzilaborce estava destroçada e queimada, e de suas paredes

manchadas de fumaça sobressaíam travessões torcidos.

O novo barracão de madeira, construído de maneira atropelada para

substituir a estação queimada, estava coberto de cartazes em todas as línguas: “Subscrevam os donativos de guerra austríaco.”

Em outro barracão alongado, ficava o posto da Cruz Vermelha. Dali saíram

duas enfermeiras com um médico de guerra gordinho que, para se divertir, imitava a voz de alguns animais e naquele momento tentava, sem muito sucesso, grunhir como um porco.

Um pouco mais além dos trilhos da ferrovia, em uma depressão do curso

Um pouco mais além dos trilhos da ferrovia, em uma depressão do curso

d’água, havia uma cozinha de campanha despedaçada. Apontando-a, Švejk disse a Baloun:

— Olhe, Baloun, é isso o que nos espera em um futuro imediato. No

momento em que iam começar a distribuir a comida, uma granada chegou voando e a deixou assim.

— Isso é terrível! — suspirou Baloun. — Jamais teria imaginado que me

esperaria coisa parecida. Mas a culpa de tudo isso é o meu orgulho; miserável de mim, no inverno passado comprei, em České Budějovice, umas luvas de couro. Já estava cansado de enfiar minhas mãos camponesas nas velhas luvas de lã do meu falecido pai e fiquei louco por umas luvas de couro, como a gente da cidade. Meu pai comia ervilhas refogadas, coisa que me dava nojo; eu só queria aves. Tampouco aceitava um porco assado comum; minha mulher tinha que prepará-lo, Deus me perdoe, na cerveja.

Totalmente desesperado, Baloun começou a confessar em público: — Blasfemei contra todos os santos e contra todas as santas; em uma taverna

do Malše e também na aldeia de Dolní Zahájí dei uma surra num capelão. Não nego que acreditava em Deus, mas tive minhas dúvidas no que diz respeito a São José. Em casa suportei as imagens de todos os santos, mas me desfiz da imagem de São José. Agora Deus me castigou por todos meus pecados e minha imoralidade. Quantas malditas imoralidades cometi no moinho! Quantas vezes insultei meu pai e lhe amarguei a velhice, e quantas vezes aborreci minha mulher!

Švejk ficou pensando: “Você é moleiro, não é mesmo? Pois devia saber que

os moinhos de Deus moem lentamente mas com certeza foi por sua culpa que explodiu a Guerra Mundial.”

O voluntário interveio na conversa:

— Blasfemar e não reconhecer todos os santos não lhe serviu de nada,

Baloun; pelo contrário, pois deve saber que nosso exército austríaco é, há muitos anos, um exército puramente católico. O exemplo mais brilhante disso é o nosso comandante supremo. Como pode ousar ir à guerra envenenado pelo ódio em relação a alguns santos e mártires quando o Ministério da Guerra introduziu exércitos de jesuítas no comando das guarnições e temos testemunhado a glória do renascimento militar? Entende bem o que estou lhe dizendo, Baloun? Compreende que, na realidade, está cometendo um crime contra o glorioso espírito do nosso não menos glorioso exército? Como, por exemplo, com essa história de São José, cujo quadro você disse que não suportava ver pendurado na sua sala de estar. Devia saber, Baloun, que ele é o padroeiro de todos os que querem escapar da guerra! Era carpinteiro e você conhece o ditado tcheco: “Precisamos saber onde o carpinteiro deixou o buraco!”, ou seja, onde está a porta que nos permitirá fugir. Quantas pessoas foram aprisionadas por causa desse ditado quando, assediadas por todos os lados, tentavam se salvar, não por egoísmo, mas para, como membros das forças armadas, poderem dizer a Sua Majestade o Imperador, ao voltar do cativeiro: “Estamos aqui e esperamos suas ordens!” Está me entendendo, Baloun?

— Não, não estou — suspirou Baloun —, tenho a cabeça dura. Tudo tem

que se repetido dez vezes.

— Você não pode deixar por menos? — perguntou Švejk. — Tentarei

explicar mais uma vez. Acabou de ouvir que tem de agir de acordo com o espírito que reina no exército, que precisa acreditar em São José e, quando estiver assediado pelos inimigos, deve procurar onde o carpinteiro fez o buraco para que você se preservasse para o imperador nas guerras que faltam. Agora talvez entenda, e seria bom que fizesse uma confissão mais completa e nos contasse que tipo de imoralidades fazia no moinho. Mas não quero que conte alguma história parecida com a anedota da garota que foi se confessar e, depois de ter confessado vários pecados, começou a sentir vergonha e disse ao capelão que toda noite cometia imoralidades. Claro, quando o capelão ouviu aquilo ficou com água na boca e disse: “Não se envergonhe, minha filha, você sabe que eu sou o representante de Deus na Terra; conte-me, pois, suas imoralidades detalhadamente.” A garota se desfez em lágrimas dizendo que tinha vergonha, que sua imoralidade era terrível, e ele repetiu que era seu pai espiritual. Finalmente, depois de se fazer de sonsa durante um bom tempo, a menina confessou que toda noite se enfiava na cama pelada. O capelão não conseguiu lhe arrancar nem mais uma palavra e a garota começou a chorar muito mais do que antes. E ele, ora, que não tinha motivos para sentir vergonha, que o homem é um ser pecador por natureza, que a misericórdia de Deus é infinita. Então ela se decidiu e, ainda chorando, lhe disse: “Bem, um dia, quando estava pelada na cama, comecei a tirar a sujeira do meio dos meus dedos do pé e dei uma cheirada.” E essa era toda sua imoralidade. Espero, Baloun, que você não tenha feito isso no moinho e que nos conte algo mais saboroso, alguma imoralidade como Deus manda.

Era óbvio, levando-se em conta sua confissão anterior, que Baloun fizera

imoralidades com camponesas no moinho. Então se descobriu que as imoralidades consistiam em fraudar a farinha que lhes vendia. Sua alma simples chamava aquilo de imoralidade. Quem ficou mais decepcionado foi o telegrafista Chodounský, que lhe perguntou se no moinho não havia feito nada com as camponesas em cima dos sacos de farinha e Baloun respondeu, agitando os braços:

— Eu sou muito estúpido para isso.

Os soldados foram informados de que a comida seria distribuída depois de

Palota, no desfiladeiro de Lupków, e o intendente do batalhão, os cozinheiros das companhias e o subtenente Cajthaml, encarregado da alimentação, se dirigiram à aldeia de Medzilaborce acompanhados por quatro homens designados para protegê-los.

Em menos de meia hora voltaram com três porcos amarrados pelas patas

traseiras, acompanhados pela família encolerizada de um ruteno da Hungria de quem os haviam confiscado e um médico gordo da barraca da Cruz Vermelha, que passou a relatar com veemência alguma coisa ao indiferente subtenente Cajthaml.

A discussão atingiu o clímax diante do vagão do alto-comando, quando o

médico militar afirmou ao capitão Ságner que aqueles porcos eram destinados ao hospital da Cruz Vermelha. O camponês não queria saber de nada e exigia que lhes devolvessem seus porcos, a única coisa que lhe restara; não queria entregá-los em hipótese alguma, e menos ainda pelo preço que haviam pago por eles.

Enquanto dizia isso, tentava entregar ao capitão Ságner o montão de cédulas

que recebera pelos porcos; sua mulher segurava a mão do capitão e a beijava com a submissão típica dos habitantes daquela região.

O capitão Ságner estava atordoado e teve muita dificuldade para afastar a

camponesa. Mas não lhe serviu de nada, porque chegaram novos reforços, mais jovens, que ocuparam o lugar da camponesa e começaram a devorar suas mãos com beijos.

O subtenente Cajthaml anunciou, em um tom estritamente comercial:

— Este homem tem uns doze porcos e lhe pagamos corretamente, conforme

a última ordem do comandante da divisão, número 12.420, seção de abastecimento. Segundo o parágrafo 16 desta ordem, os porcos devem ser comprados em lugares afastados da zona de guerra, por um preço de não mais de 2 coroas e 16 cêntimos por quilo de peso vivo; nos lugares afetados pela guerra, se acrescentará um suplemento de 36 cêntimos por quilo de peso vivo; de maneira que, por um quilo, serão pagas 2 coroas e 52 cêntimos. A isso é preciso acrescentar a seguinte observação: se nos lugares afetados pela guerra forem detectados casos em que a economia ficou intacta com um rebanho completo de muitos porcos que pode ser usado para alimentar as tropas que passarem pelos lugares em questão, pela carne de porco se pagará, como nas regiões não afetadas pela guerra, um suplemento especial de 12 cêntimos por quilo de peso vivo. Se a situação não estiver de todo clara, será constituída imediatamente uma comissão formada pelos interessados, o comandante da unidade militar em trânsito e o oficial ou intendente (quando se tratar de uma unidade não muito numerosa) encarregados do abastecimento.

O subtenente Cajthaml leu todo o texto da ordem da divisão do qual não se

afastava nunca; por isso sabia quase de memória que um quilo de cenouras na zona de guerra valia 15,30 cêntimos, enquanto um quilo de couve-flor destinado à cozinha dos oficiais da linha de frente chegava a 1 coroa e 75 cêntimos por quilo.

Aqueles que haviam elaborado essa lei em Viena imaginavam que a zona de

guerra era uma região onde abundavam cenouras e couves-flores.

O subtenente Cajthaml leu o texto em alemão ao camponês aturdido e depois

lhe perguntou se o entendera. Como o camponês balançou a cabeça, o tenente exclamou:

— Então está querendo uma comissão?

O camponês entendeu a palavra comissão e assentiu com a cabeça. Já fazia

um bom tempo que haviam arrastado os porcos para as cozinhas de campanha para serem executados e os soldados da patrulha do confisco, com baionetas nos fuzis, o haviam cercado. A comissão se dirigiu a sua granja para avaliar se deviam pagar 2 coroas e 52 cêntimos por quilo ou apenas 2 coroas e 28 cêntimos.

Ainda não haviam chegado ao caminho que levava à aldeia quando, da

cozinha, ouviram-se os grunhidos de agonia dos três porcos.

O camponês entendeu que não havia mais nada a fazer e exclamou com

desespero:

— Me deem 2 florins de ouro por cada porco!

Os quatro soldados se aproximaram mais ainda. A família do camponês

ajoelhou-se na poeira e obstruiu o caminho do capitão Ságner e do subtenente Cajthaml.

A mãe e as filhas abraçaram seus joelhos e chamaram os dois militares de

benfeitores. Por fim, o camponês mandou que se calassem, ordenou, no dialeto ucraniano dos rutenos húngaros, que se levantassem e gritou para os soldados:

— Devorem os porcos e se arrebentem!

E assim terminou a história da comissão. Mas como, de repente, o

camponês se revoltou e começou a ameaçar todo mundo com os punhos, um soldado lhe deu um golpe com a culatra. Então toda a família se persignou e, encabeçada pelo pai, fugiu.

Dez minutos depois, o intendente do batalhão e o ordenança Matušič

saboreavam em seu vagão os miolos do porco. No meio daquele banquete, entre uma mordida e outra, o intendente dizia, maliciosamente, aos escreventes:

— Bem que vocês gostariam de participar da comilança, não é mesmo? Nem

pensar, bonitinhos, é só para os oficiais. Os rins e fígado para os cozinheiros, os miolos e os pés para os senhores intendentes e, para os escreventes, apenas a ração dupla da carne destinada aos soldados.

O capitão Ságner acabara de dar uma ordem à cozinha dos oficiais. — Porco assado ao cominho. Escolher a melhor carne, nada de excesso de

gordura!

E foi assim que, quando no desfiladeiro de Lupków o rancho foi distribuído

à tropa, cada soldado encontrou em sua ração de sopa pequenos pedaços de carne, e os que haviam nascido em um planeta ainda pior, apenas um pedacinho de pele.

Na cozinha reinava o nepotismo militar habitual, de maneira que a camarilha

dirigente e seus asseclas eram os primeiros a se alimentar. Os ordenanças chegaram ao desfiladeiro de Lupków com a boca engordurada. A barriga de todos estava dura como uma pedra. Era de se gritar aos céus.

O voluntário Marek armou um grande escândalo na cozinha porque queria

ser justo. Quando o cozinheiro colocou um bom pedaço de pernil em sua sopa dizendo: “Isto é para o historiador do nosso batalhão!”, ele declarou que no exército todos os homens eram iguais. Tal afirmação provocou um assentimento geral e os soldados começaram a insultar os cozinheiros.

Para deixar claro que não admitia qualquer protecionismo, o voluntário

atirou o pedaço de carne no caldeirão. Mas os cozinheiros não entenderam o gesto e acharam que o historiador do batalhão não estava satisfeito. O cozinheiro-chefe lhe disse ao ouvido que aparecesse mais tarde, quando tivesse repartido o rancho, e que lhe daria um pedaço da perna.

Os lábios dos escreventes também brilhavam, os enfermeiros resfolegavam

de satisfação; no entanto, ao redor daquela festa se viam os rastros dos últimos combates. Por toda parte estavam espalhadas cápsulas de cartuchos, latas vazias, farrapos de uniformes russos, austríacos e alemães, pedaços de carros quebrados e longas tiras de gaze e algodão ensanguentadas.

Ao lado da velha estação em ruínas, sob um velho pinheiro, ficara uma

granada que não explodira. Por toda parte se viam as marcas das explosões e, ali perto, estavam enterrados cadáveres de soldados, porque se percebia uma pestilência de putrefação.

E nas imediações dos lugares onde os exércitos haviam acampado se viam

pequenas pilhas de excrementos de origem internacional, de todos os povos da Áustria, da Alemanha e da Rússia. Os excrementos dos soldados de todas as nacionalidades e confissões religiosas estavam espalhados ou empilhados sem o menor conflito.

Uma cisterna de água meio destruída, a cabana de madeira de um guarda

ferroviário e tudo o que tinha alguma parede estava cheio de buracos de bala de fuzil, parecendo uma peneira.

Para que não falte nada a esta imagem de alegrias bélicas, por detrás de uma

montanha subiam em direção ao céu colunas de fumaça, como se estivesse ardendo uma aldeia inteira e ali se concentrassem as operações militares. Eram as barracas da cólera e da disenteria, incendiadas para grande alegria dos senhores que haviam construído aquele hospital sob o patrocínio da arquiduquesa Marie, e que haviam enchido os bolsos apresentando contas de inexistentes barracas da cólera e da disenteria.

Agora, um grupinho de barracas servia de bode expiatório e todo o dinheiro

sujo do patrimônio arquiducal se elevava aos céus com o fedor típico de colchões de palha queimados.

Em cima das rochas, atrás da estação, os alemães haviam se apressado em

erigir um monumento aos brandemburgueses tombados, com uma inscrição que dizia: “Aos heróis do desfiladeiro de Lupków” e uma grande águia imperial esculpida em bronze. No pedestal se informava que aquele emblema fora construído com canhões russos conquistados pelos regimentos do Reich alemão durante a libertação dos Cárpatos.

Depois da refeição, o batalhão descansava nos vagões no meio daquela

atmosfera curiosa e desconhecida, enquanto o capitão Ságner e o ordenança do batalhão se esforçavam para decifrar os telegramas cifrados da base de operações da brigada que explicavam o itinerário a ser seguido pelo batalhão. As determinações eram tão confusas que tinha-se a impressão de que, de fato, não deviam ter se dirigido ao desfiladeiro de Lupków, mas que, a partir de Nové Mesto, ou Sátorajaújhely, deveriam ter tomado outra direção, porque o telegrama mencionava cidades como Csap-Ungvár, Kis-Berezna-Uzsok.

Em dez minutos ficou demonstrado que o oficial da base de operações da

brigada era um imbecil: chegou um telegrama cifrado perguntando se se tratava do 8º Batalhão do 75 º Regimento (código militar G3). O estúpido da base de operações ficou espantado com a resposta, que dizia que se tratava do 7º Batalhão do 91º Regimento, perguntava quem havia dado a ordem de ir a Mukačevo pela via militar do vale do Stryj se o itinerário indicava que deviam ir a Sanok, na Galícia, passando pelo desfiladeiro de Lupków. O imbecil ficou surpreso de ter recebido um telegrama do desfiladeiro de Lupków e enviou uma mensagem cifrada: “Itinerário sem alterações, do desfiladeiro de Lupków a Sanok, esperar ali novas determinações.”

Quando o capitão Ságner voltou, no vagão do alto-comando começaram a

discutir se alguém havia perdido a cabeça e alguns afirmaram que, se não fosse pelos alemães do Reich, a Unidade Leste do Exército teria perdido completamente a cabeça.

O subtenente Dub tentou justificar a idiotice do estado-maior austríaco

dizendo que aquela região fora muito devastada por causa das recentes batalhas e que ainda não fora possível reparar totalmente as vias férreas.

Todos os oficiais o olhavam com pena, como se quisessem dizer: “Não é sua

culpa ter nascido idiota.” Como não encontrava quem o contradissesse, o subtenente Dub falava pelos cotovelos da extraordinária impressão que lhe causava aquela região arrasada e que nosso exército, segundo testemunhava, tinha um punho de ferro. Outra vez, nenhuma resposta, de maneira que Dub repetiu: “Sim, certamente, claro, os russos fugiram tomados pelo pânico.”

O capitão Ságner decidiu que, na primeira oportunidade que tivesse, quando

a situação nas trincheiras fosse verdadeiramente perigosa, enviaria o subtenente Dub para explorar as posições inimigas no outro lado dos alambrados. Foi à janela com o tenente Lukáš e disse ao seu ouvido: “Estes malditos civis são uma praga infernal. Quanto mais inteligentes, mais burros.”

Parecia que o tenente Dub não ia parar de falar nunca. Agora contava a todos

os oficiais o que lera nos jornais sobre as batalhas dos Cárpatos e sobre os combates que haviam sido travados para reconquistar os desfiladeiros durante a ofensiva conjunta da Áustria e da Alemanha no San.

Não apenas narrava aquilo como se tivesse participado daquelas batalhas,

mas como se ele próprio tivesse comandado todas as operações. Especialmente desagradáveis eram frases como:

— Depois avançamos até Bukovsko para garantir a linha Bukovsko-Dynov,

sempre mantendo contato com o grupo de Bardějov perto de Velká Polanka, onde aniquilamos a divisão inimiga de Samara.

O tenente Lukáš não conseguiu suportar mais aquilo e observou: — E, naturalmente, antes da guerra você conversou bastante com o prefeito

do distrito.

O subtenente Dub dirigiu um olhar hostil ao tenente Lukáš e saiu do vagão. Sob o aterro no qual estava o trem militar era possível ver vários objetos que

os soldados russos haviam jogado fora durante a retirada: chaleiras oxidadas, panelas, cartucheiras. Também haviam espalhado pelo vale rolos de arame, tiras de gaze e chumaços de algodão cheios de sangue. Um grupo de soldados se inclinara no alto da escarpa e o subtenente Dub notou que Švejk estava entre eles e dizia alguma coisa.

Dirigiu-se para lá e, plantando-se diretamente diante de Švejk, alfinetou-o

em tom severo:

— O que está acontecendo aqui?

— Humildemente, senhor — respondeu Švejk por todos —, estamos

olhando.

— E o que estão olhando? — perguntou o subtenente Dub. — Humildemente, senhor, estamos olhando a escarpa. — E quem lhes deu permissão para fazê-lo?

— Humildemente, senhor, este é o desejo de nosso coronel, Schröder, de

Most nad Litavou. Ao se despedir da gente antes de partirmos para o campo de batalha, nos disse que quando passássemos por um cenário bélico abandonado o contemplássemos atentamente para compreender como se lutara ali, pois isso nos poderia ser muito útil. E agora, senhor, olhando essa escarpa nos damos conta de quantas coisas um soldado tem de jogar fora quando está fugindo. Aqui vemos, humildemente, senhor, que não vale a pena um soldado carregar todo tipo de coisas inúteis. É inútil andar tão carregado. É inútil se cansar dessa maneira; com tanto peso, não é possível lutar com facilidade.

Uma esperança brilhou de repente na mente do subtenente Dub; talvez

tivesse, finalmente, uma oportunidade de enviar Švejk a uma corte marcial por propaganda antimilitarista e alta traição; por isso lhe perguntou, rapidamente:

— Então você acha que um soldado deve jogar fora os cartuchos como esses

que estão abandonados aqui na vala, ou as baionetas, como aquelas ali?

— Oh, não! De maneira nenhuma, senhor — respondeu Švejk com um

sorriso afável. — Faça o favor de olhar aquele penico de lata.

E, de fato, sob a encosta, no meio de pedaços de panelas, estava atirado,

provocativamente, um penico oxidado e com o esmalte descascado: todos aqueles objetos que não serviam mais para nada deviam ter sido deixados ali para o chefe da estação, certamente para que se transformassem em material de discussão de arqueólogos nos séculos futuros. A descoberta daquele povoado os deixaria boquiabertos, e os escolares estudariam a antiguidade dos penicos esmaltados. O subtenente observou aquele objeto muito atentamente, mas a única coisa que conseguiu descobrir foi que não se tratava de um daqueles artefatos inúteis que haviam passado os dias de sua juventude debaixo de uma cama.

Todos ficaram impressionados e, ao ver que o subtenente Dub não dizia

nada, Švejk afirmou:

— Humildemente, senhor, uma vez aconteceu uma coisa muito divertida com

um penico como esse no balneário de Podĕbrady. A história foi contada por alguém em uma taverna do meu bairro. Em Podĕbrady acabara de ser publicada uma revista chamada Nezávislost, sim, independência. Seu diretor era o farmacêutico da cidade e para exercer a função de redator contrataram um tal de Ladislav Hájek, de Domažlice. O farmacêutico era um personagem muito extravagante: colecionava panelas antigas, potes velhos e outras quinquilharias e quase chegou a montar um museu. O tal Hájek de Domažlice convidou uma vez um amigo que também escrevia em um jornal a visitá-lo em Podĕbrady. Como fazia mais de uma semana que não se viam, tomaram um porre e o amigo lhe prometeu que em troca do convite escreveria um artigo para a Nezávislosti, a tal da revista independente em que trabalhava. De maneira que o companheiro escreveu sobre um colecionador que encontrara na margem do Elba, na areia, um velho penico de lata; achou que era o elmo de São Venceslau e armou tal alvoroço que até o bispo Brynych de Hradec Králové foi vê-lo com uma procissão de estandartes. O farmacêutico de Podĕbrady achou que o artigo era uma alusão a sua pessoa e aí ele e o senhor Hájek brigaram.

O subtenente Dub estava morrendo de vontade de atirar Švejk na escarpa,

mas se controlou e gritou para todo mundo:

— Parem de ficar perdendo seu tempo olhando essas besteiras e saiam daí!

Vocês ainda não me conhecem, mas quando me conhecerem verão! Você fica aqui, Švejk — acrescentou com uma voz terrível quando Švejk ameaçou ir com os outros para seu vagão.

Ficaram plantados cara a cara. O subtenente Dub pensava no que poderia

dizer que soasse arrepiante, mas Švejk se adiantou:

— Humildemente, senhor, tomara que continue fazendo este tempo. De dia

não faz muito calor e as noites são agradáveis, de modo que agora é o momento mais adequado para se ir à guerra.

O subtenente Dub puxou o revólver e perguntou a Švejk: — Você sabe o que é isto?

— Humildemente, senhor, sei sim. O tenente Lukáš tem um igual. — Então se lembre dele, infeliz! — disse o tenente Dub com seriedade e

dignamente, voltando a guardar o revólver. — Para que não lhe aconteça algo desagradável se continuar a fazer propaganda subversiva.

O subtenente Dub se afastou murmurando:

— Agora disse-o bem: propaganda subversiva. Perfeito! Antes de voltar ao seu vagão, Švejk passeou um tempo enquanto se dizia em

voz baixa: “Em que categoria deveria colocar este caso?” E, quanto mais pensava nisso, mais claramente via que poderia ser classificado como semipeido.

 

Desde tempos imemoriais, a palavra “peido” desfrutava de grande

Desde tempos imemoriais, a palavra “peido” desfrutava de grande

popularidade no exército. Este título honorífico estava reservado particularmente aos coronéis, aos majores e aos capitães, e era, de alguma maneira, o superlativo da expressão corrente “vovô safado”. Sem o adjetivo, a palavra “vovô” era um epíteto amável para designar um velho coronel ou major que gritava muito, mas que, mesmo assim, apreciava seus soldados e os protegia de outros regimentos, sobretudo quando se tratava de patrulhas que iam às tavernas recolher aqueles que não estavam de licença por algumas horas. Um “vovô” cuidava dos soldados, se preocupava com sua alimentação, que a comida fosse passável, mas sempre tinha alguma mania, algum tique, e por isso o chamavam de “vovô”.

Mas quando o velho importunava a tropa e os oficiais sem nenhum objetivo,

inventando exercícios noturnos e coisas semelhantes, se transformava em “vovô canalha”.

O grau superior a “vovô safado”, levando-se em conta sua capacidade de ser

impertinente, desagradável e estúpido, era “peido”, uma palavra que queria dizer tudo. Mas, aqui, convém chamar a atenção para o abismo que separa o “peido” do mundo civil do “peido” da vida militar.

O primeiro, o civil, é também um superior, e seus empregados e subalternos

o chamam geralmente assim. É um burocrata exageradamente exigente que, por exemplo, o censura por seu texto não ter sido bem enxuto com o mata-borrão. Na sociedade humana, simbolizam o cúmulo da estupidez; são aqueles pretenciosos que acreditam que sabem mais do que ninguém, são capazes de explicar qualquer coisa e se ofendem à toa.

Quem esteve no exército sabe qual é a diferença entre eles e o “peido” de

uniforme. Aqui o termo designa um canalha, um canalha de verdade, que investe contra tudo sem piedade mas que se detém diante do menor obstáculo; não gosta dos soldados e luta, inutilmente, contra eles, pois é incapaz de conquistar a autoridade desfrutada pelo “vovô” e até pelo “vovô safado”.

Em algumas guarnições, como a de Trento, em vez de “peido” diziam “nosso

velho filho da puta”. Em todos os casos se tratava de uma pessoa mais velha, e se Švejk qualificara o subtenente Dub de “semipeido” era porque compreendera que, para ser um peido completo, faltavam a Dub cinquenta por cento de idade, de categoria e de tudo.

Švejk voltava ao seu vagão submerso nessas reflexões quando topou com o

ordenança de Dub, Kunert. Seu rosto estava inchado e resmungava, de uma maneira quase incompreensível, que acabara de encontrar seu superior, que, ao constatar que tinha tratos com Švejk, lhe dera uma boa surra.

— Nesse caso — disse Švejk tranquilamente —, iremos denunciá-lo. Um

soldado austríaco só pode se deixar esbofetear em certos casos. Mas seu chefe ultrapassou todos os limites; como dizia o velho príncipe Eugène de Savoy: “Até aqui e nem um passo a mais.” Agora você terá que ir sozinho fazer uma denúncia formal e, se não for, eu mesmo lhe darei uns safanões que nem sua mãe o reconhecerá para que saiba que no exército tem de haver disciplina. No quartel de Karlín havia um subtenente que se chamava Hausner; ele também tinha um ordenança, e também lhe dava socos e pontapés. Um dia o subtenente lhe deu uma surra tal que o ordenança ficou tonto; apresentou uma denúncia formal, declarando que o subtenente acabara de lhe dar umas patadas; mas estava tão nervoso que confundiu tudo. O chefe provou que mentia, que naquele dia não havia lhe dado patadas mas apenas bofetadas, de maneira que o rapaz foi condenado a três semanas de prisão por falso testemunho.

“Mas isso não muda nada”, continuou Švejk. “É exatamente como o que

contou Hubička, um médico que é obrigado, no instituto de medicina legal, a dissecar tanto um enforcado como um envenenado. No exército, um par de bofetadas pode ser muito importante.”

Kunert ficou inteiramente atordoado e deixou que Švejk o levasse ao vagão

do alto-comando.

Inclinando-se na janela, o subtenente Dub gritou:

— O que estão fazendo aqui, bastardos?

— Comporte-se com dignidade — aconselhou Švejk a Kunert,

empurrando-o para o vagão.

No corredor apareceu o tenente Lukáš e, atrás dele, o capitão Ságner. O tenente Lukáš já tivera experiências suficientes com Švejk e por isso ficou

surpreso quando viu que o bom soldado não exibia sua costumeira expressão séria e bonachona; seu rosto pressagiava novas dores de cabeça.

— Humildemente, senhor — disse Švejk —, queremos apresentar uma

denúncia formal.

— Não volte a dizer besteiras, Švejk, já estou farto! — Desculpe — respondeu Švejk —, sou ordenança de sua companhia; o

senhor é o comandante da 11ª Companhia. Já sei que tudo isso pode lhe parecer estranho, mas sei também que o subtenente Dub é seu subordinado.

— Švejk, você está completamente louco — interrompeu-o o tenente Lukáš.

— Deve estar bêbado; seria melhor que saísse daqui! Entendeu, estúpido, idiota?

— Humildemente, senhor — disse Švejk, empurrando Kunert —, tudo isso

me lembra uma experiência que se fez em Praga com uma grade protetora para evitar que as pessoas fossem atropeladas pelos bondes. O próprio inventor se sacrificou para levar a termo a experiência e depois a prefeitura se viu obrigada a pagar uma indenização à viúva.

O capitão Ságner não sabia o que dizer, de maneira que balançou a cabeça

afirmativamente. O tenente Lukáš, por sua vez, parecia desesperado.

— Humildemente, senhor, tudo deve constar do informe — continuou Švejk

inexoravelmente. — Em Most nad Litavou o senhor me disse que, como ordenança da companhia, também tenho outras obrigações, além de cumprir ordens. Que tenho que estar a par de todas as coisas que acontecem na companhia. Levando em conta essa determinação, me permito lhe anunciar, senhor, que sem motivo algum o subtenente Dub tem curtido seu ordenança a bofetadas. Se fosse por mim, eu não diria nada, mas quando lembrei que o subtenente Dub está sob seu comando, resolvi que era preciso denunciá-lo.

— Que assunto mais estranho! — disse o capitão Ságner. — Por que trouxe

Kunert até aqui, Švejk?

— Humildemente, senhor comandante de batalhão, devo colocar tudo no

informe. Este rapaz é um tolo. O subtenente Dub lhe deu uma surra e ele não se decidiria nunca por conta própria a formalizar uma queixa. Humildemente, senhor, faça o favor de ver como os joelhos de Kunert estão tremendo. Está mais morto do que vivo por ter de apresentar uma denúncia. Não fosse por mim, nunca teria ousado fazê-lo, como um tal de Koudela de Bytouchov, que, quando estava fazendo o serviço militar, vivia se queixando até que o transferiram para a marinha. Foi corneteiro, fugiu para uma ilha do Pacífico e o declararam desertor. Depois se casou e quando um dia conversava com o explorador Havlasa, este o tomou por um indígena. É preciso dizer que é triste apresentar uma queixa por quatro bofetadas. Mas ele não queria vir, dizia que não pensava em fazê-lo de maneira alguma. O rapaz recebeu tantas bofetadas que até perdeu a conta. Se fosse por ele, não estaria aqui, teria se deixado esbofetear sem dar um pio. Humildemente, senhor comandante; está totalmente cagado de medo! Deveria ter vindo imediatamente se queixar por ter levado uma surra, mas não se atreveu, pensou que era melhor, como disse o poeta, ser modesto como uma violeta. É necessário dizer que serve ao subtenente Dub.

E, empurrando Kunert para a frente, Švejk acrescentou: — Pare de tremer como uma folha de carvalho!

O capitão Ságner perguntou a Kunert o que acontecera de fato. Mas Kunert, com o corpo todo trêmulo, disse que podiam perguntar ao

senhor Dub, que o subtenente nunca o esbofeteara.

Sem parar de tremer, Kunert acabou dizendo que Švejk inventara toda a

história.

O próprio subtenente Dub colocou um ponto final naquela lamentável cena.

Apareceu de repente e, ao ver Kunert, soltou um grito:

— O que você quer? Que lhe dê outro par de tabefes? Tudo ficou absolutamente claro, pois, e o capitão Ságner limitou-se a dizer a

Dub:

— A partir de agora, Kunert está transferido à cozinha do batalhão. No que

diz respeito ao novo ordenança, dirija-se ao intendente sargento-mor Vaněk.

O subtenente Dub bateu continência e antes de sair se contentou a dizer a

Š vejk:

— Aposto que um dia você ainda vai ser pendurado. Quando foi embora, Švejk se dirigiu ao tenente Lukáš em tom suave e

amistoso:

— Em Mnichovo Hradište um senhor um dia disse essas mesmas palavras.

E o outro lhe respondeu: “Voltaremos a nos encontrar no patíbulo.”

— Švejk — disse o tenente Lukáš —, você é mesmo um imbecil! E não se

atreva a me dizer, como de costume: “Humildemente, senhor, sou imbecil.”

— Surpreendente! — disse o capitão Ságner, inclinando-se na janela. Naquele momento teria preferido recuar, mas não havia mais tempo. A

desgraça já estava ali: o subtenente Dub aparecera embaixo da janela.

Começou dizendo que lamentava muito que o capitão tivesse partido sem

ouvir o desenvolvimento de suas ideias acerca da ofensiva no front oriental.

— Para compreender essa enorme ofensiva — gritou o subtenente Dub

aproximando a cabeça da janela — deve-se ter presente a evolução das operações do final de abril. Tivemos que romper o front russo e nos demos conta de que o lugar mais favorável para tal irrupção era o front entre os Cárpatos e o Vístula.

— Não estou discutindo com você — respondeu o capitão Ságner

secamente, e se afastou da janela.

Quando, depois de meia hora, o trem continuou seu caminho para Sanok, o

capitão Ságner desabou no assento e fingiu que estava dormindo para não ter de suportar as banais deduções do subtenente Dub sobre a ofensiva.

No vagão de Švejk faltava Baloun. Acabara de obter uma permissão para

No vagão de Švejk faltava Baloun. Acabara de obter uma permissão para

limpar com pão o caldeirão de gulache. Naquele momento, estava no vagão das cozinhas de campanha em uma postura pra lá de incômoda. É que, quando o trem começou a andar, Baloun caiu de cabeça no caldeirão e ficou agitando os pés no ar. Mas, por fim, acabou se adaptando àquela posição, e do fundo do caldeirão ouviam-se chupadas e barulho de mordidas, como quando um ouriço caça escaravelhos. Depois de um tempo ouviu-se sua voz suplicante:

— Ouçam-me, rapazes, por favor, tragam-me outro pedaço de pão, ainda

sobrou muito molho.

Este idílio durou até a estação seguinte, onde a 11ª Companhia chegou com

o caldeirão brilhando, o estanho reluzindo como se fosse novo.

— Deus lhes pague, companheiros — disse Baloun, transbordando de

agradecimentos. — Hoje a sorte me sorriu pela primeira vez desde que estou no exército.

E era a mais pura verdade. No desfiladeiro de Lupków, Baloun recebeu

rações de gulache e, além disso, o tenente Lukáš, feliz de ver que seu ordenança lhe levara, intacta, a comida da cozinha dos oficiais, lhe deixou aproximadamente a metade. Baloun estava contente, balançava as pernas esticadas para fora do vagão e, de repente, toda aquela guerra lhe pareceu uma coisa cálida, familiar.

O cozinheiro da companhia pegava no seu pé dizendo que quando

chegassem a Sanok teriam que preparar o outro jantar e o outro almoço que lhes cabiam por toda a viagem, durante a qual não haviam lhes dado nada. Baloun se limitou a fazer um gesto de aprovação com a cabeça e disse em voz baixa:

— Vocês logo verão, amigos, que Deus não nos abandonará. Todos começaram a rir às gargalhadas, e o cozinheiro, sentado no fogão de

campanha, cantou:

Trá-lá-lá, trá-lá-lá

Deus não nos abandonará.

À lama nos enviará,

Da lama nos livrará.

Ao bosque nos enviará,

Depois do bosque nos tirará.

Trá-lá-lá, trá-lá-lá,

Deus não nos abandonará.

Passada a estação de Szczwne, voltaram a surgir nos vales novos cemitérios

militares. Do trem se via uma cruz de pedra com um Cristo decapitado; os tiros haviam cortado sua cabeça.

Dirigindo-se a Sanok através do vale, o trem acelerou a marcha; os

horizontes se alargavam e grupos inteiros de povoados destruídos se tornavam cada vez mais numerosos.

Perto de Kulaszna, em um riacho, viram um trem da Cruz Vermelha

descarrilhado e feito em pedaços.

Baloun arregalou os olhos. Os pedaços da locomotiva espalhados pelo chão

o deixaram gelado. A chaminé estava incrustada na ribanceira e sobressaía como um canhão.

Este espetáculo tampouco passou despercebido no vagão de Švejk. O

cozinheiro Jurajda parecia o mais indignado de todos.

— Mas é permitido disparar contra vagões da Cruz Vermelha? — Não é permitido, mas se faz — respondeu Švejk. — De qualquer

maneira, foi um belo tiro. As pessoas pedem desculpas dizendo que era de noite e que não se via a cruz vermelha. No mundo há muitas coisas que não são permitidas, mas são feitas. Cada um deve tentar sua sorte; quem não arrisca não petisca. Durante as manobras imperiais em Písek, recebemos uma ordem que dizia que durante a marcha era proibido amarrar soldados. Mas nosso capitão chegou à conclusão de que podia se fazer, sim, e que uma ordem daquelas era ridícula: salta à vista que um soldado amarrado não pode participar de uma marcha. De maneira que não desobedeceu a ordem por completo; simplesmente ordenou que atirassem os soldados amarrados nos vagões de carga do trem e seguissem em frente. Há também outro caso; aconteceu na minha rua, há cinco ou seis anos. Havia um tal de senhor Karlík que vivia em um primeiro andar. Um piso acima vivia o senhor Mikeš, estudante do conservatório, uma ótima pessoa. Gostava muito de mulheres e começou a seduzir, entre outras, a filha do senhor Karlík, que tinha uma agência de viagem e uma confeitaria e, em não sei que lugar da Morávia, umas lojas de encadernação sob outro nome. Quando o senhor Karlík soube que aquele estudante do conservatório cortejava sua filha, foi vê-lo em sua casa e lhe disse: “Você não se casará com minha filha, seu joão-ninguém. Eu não permitirei!” “Entendido”, disse o senhor Mikeš, “o que quer que eu faça, já que não posso me casar? Devo me atirar da janela?” Dois meses depois, o senhor Karlík, acompanhado por sua mulher, voltou a subir à casa de Mikeš, e o casal lhe disse: “Você levou nossa filha ao mau caminho, canalha!” “É verdade”, respondeu o senhor Mikeš, “me permiti transformá-la em uma puta, distinta senhora”. O senhor Karlík começou a gritar inutilmente com o rapaz, dizendo que o avisara de que não se casaria com ela, que jamais permitiria. O outro lhe respondeu, muito acertadamente, que era evidente que não queria se casar com ela, que dessa vez haviam decidido que nem falariam disso e que ela, nesse sentido, não lhe interessava; que não se tratava disso, que ele era uma pessoa de palavra e que podiam ficar tranquilos porque ele não a amava, que era um homem direito, honesto, que o que dizia era sagrado. Tinha a consciência tranquila e até sua falecida mãe o fizera jurar que não mentiria nunca, e um juramento desse tipo era válido para sempre. Em sua família ninguém jamais mentira, e na escola sempre havia tirado a melhor nota em comportamento. Bem, vocês estão vendo que há muitas coisas que não são permitidas mas que são feitas, ou seja, que “nossos caminhos podem ser diferentes, mas nossas vontades são iguais”.

— Queridos amigos — disse o voluntário, que fazia anotações com grande

entusiasmo —, todas as coisas más também têm seu lado bom. Graças à explosão do trem da Cruz Vermelha poderemos enriquecer a história do nosso batalhão e acrescentar um novo ato de heroísmo futuro. Imagino que em 16 de setembro, segundo tenho anotado, diversos soldados rasos de várias companhias do nosso batalhão irão como voluntários, guiados por um cabo, lançar pelos ares um trem blindado do inimigo que dispara contra a gente e nos impede de atravessar o rio. Disfarçados de camponeses, cumprirão sua missão com honra. O que estou vendo?! — exclamou o voluntário, olhando suas anotações. — O que nosso senhor Vaněk está fazendo aqui? Ouça, senhor intendente — se dirigiu a Vaněk —, que artigo mais bonito será publicado depois de sua morte! Creio que já falei do senhor, mas desta maneira será melhor e mais eficaz.

O voluntário leu em voz alta:

HEROICA MORTE DO INTENDENTE VANĚK

O intendente Vaněk foi um dos que se apresentaram como voluntário para levar a cabo a audaciosa operação que consistia em lançar pelos ares o trem blindado inimigo. Assim como seus companheiros, estava vestido de camponês. Em consequência da explosão, perdeu a consciência, e, ao voltar a si, se viu cercado de inimigos que o levavam ao estado-maior de sua divisão, onde, enfrentando a morte, se negou a dar qualquer tipo de explicação sobre a situação e a força de nosso exército. Como estava disfarçado, foi condenado à forca como espião, pena que, levando em conta seu nível, mais tarde foi comutada pela de fuzilamento. A execução foi levada a termo no ato, perto do muro do cemitério, e o valente intendente Vaněk pediu que não lhe tapassem os olhos. À pergunta se precisava de alguma coisa, respondeu: “Enviem minha última saudação a meu batalhão mediante um parlamentar e digam aos meus companheiros que morro com a convicção de que darão prosseguimento a seu caminho de vitórias. Além disso, façam saber ao capitão Ságner que, segundo a última ordem da brigada, a ração diária de conservas deve ser aumentada em duas latas e meia por pessoa.” Assim morreu nosso pobre intendente Vaněk. Sua última frase semeou pânico entre o inimigo, que havia acreditado que, impedindo que atravessássemos o rio, nos afastava dos pontos de abastecimento, com o que conseguiria que morrêssemos de fome e que nossas fileiras ficariam desmoralizadas. Da calma com a qual o intendente enfrentou a morte dá testemunho o fato de que antes de ser executado tivesse jogado cartas com os oficiais inimigos. “Entreguem à Cruz Vermelha o dinheiro que ganhei”, disse quando já estava diante da boca dos fuzis. Esta nobre magnanimidade comoveu até as lágrimas os oficiais presentes.

 

— Perdoe-me, senhor Vaněk — prosseguiu o voluntário —, que tenha me

permitido dispor assim do dinheiro que o senhor ganhou. Me perguntei se não devia entregá-lo à Cruz Vermelha austríaca mas, ao fim e ao cabo, do ponto de vista da humanidade, dá no mesmo; trata-se, sobretudo, de entregar o dinheiro a uma instituição humanitária.

— Nosso querido defunto — interveio Švejk — poderia doar o dinheiro ao

Instituto da Sopa Beneficente da cidade de Praga, mas é melhor que não seja assim, porque nesse caso o alcaide será capaz de embolsar o dinheiro para ir comer uma salsicha no almoço.

— Claro, rouba-se em todos os lugares — disse o telefonista Chodounský. — Roubam sobretudo na Cruz Vermelha — disse o cozinheiro Jurajda,

com raiva. — Em Most nad Litavou eu tinha um conhecido, o cozinheiro que fazia refogados para as enfermeiras do barracão. Esse rapaz me contou que a diretora e as enfermeiras enviavam todo dia caixas inteiras de vinho moscatel e de chocolate para suas casas. A oportunidade faz o ladrão; é a autodeterminação do homem. Em nossa vida sem fim cada um de nós passa por inumeráveis metamorfoses e em determinados períodos somos ladrões. Eu mesmo passei por essa fase.

O cozinheiro ocultista Jurajda tirou uma garrafa de conhaque de sua

mochila.

— Aqui vocês podem ver — disse, destampado a garrafa — uma prova

inequívoca de minha afirmação. Peguei-a da cozinha dos oficiais antes da nossa partida. É um conhaque da melhor marca, e o tinham para preparar tortas de Linz. Mas estava escrito que eu o roubasse, da mesma maneira que estava escrito que me transformasse em ladrão.

— E não seria mau — disse Švejk — que estivesse escrito que todos nós

fomos seus cúmplices. Tenho uma espécie de pressentimento.

E, efetivamente, aquela predestinação se cumpriu apesar dos protestos do

intendente Vaněk, que sustentava que o conhaque devia ser bebido de uma xícara e repartido justamente. Eram cinco pessoas, e, segundo ele, com um número ímpar, podia acontecer de um deles beber um trago a mais.

— Isso é verdade — observou Švejk —; se o senhor Vaněk quer um

número par, que se retire da companhia para que não haja brigas nem disputas.

Vaněk revogou sua proposta e fez outra, mais generosa: sugeriu que Jurajda,

o doador, pudesse beber duas vezes. Esta sugestão provocou uma avalanche de protestos, porque, ao destampar a garrafa, Vaněk já havia tomado um trago para provar o conhaque.

Por fim, foi aceita uma proposta do voluntário, que consistia em beber

segundo a ordem alfabética; justificou sua sugestão alegando que os nomes tinham um valor augural.

O último trago foi dado por Chodounský, o primeiro por ordem alfabética,

que dirigiu um olhar ameaçador a Vaněk. Este acreditava que, como era o último, poderia lhe tocar um trago a mais. Cometeu um grave erro matemático porque havia vinte e uma doses.

Depois jogaram o kaufzwick simples de três cartas; o voluntário, cada vez

que matava uma carta, exclamava:

— Oh, Senhor, deixe-me receber este valete também neste verão; lavrarei a

terra ao seu redor e a adubarei para que me dê frutos.

Quando o censuraram por ter tido a audácia de ter comprado um oito, disse

em voz alta:

— Que mulher que, tendo dez centavos, quando perde um não acende uma

vela e faz uma varredura na casa, procurando, diligentemente, até encontrá-lo? E quando o encontra, chama as vizinhas e as amigas e lhes diz: “Desfrutem comigo; comprei um oito e também recebi um rei e um ás!” Então passem as cartas para cá. Estão todos fodidos!

De fato, o voluntário Marek tinha muita sorte com as cartas. Enquanto os

demais viviam precisando de um trunfo, ele sempre tirava as cartas mais altas, ganhava e dizia aos perdedores:

— E nestes lugares haverá um grande terremoto e os horrores da fome e da

peste e o céu fará grandes milagres.

Por fim os outros se cansaram de jogar. Chodounský perdera o soldo dos

Por fim os outros se cansaram de jogar. Chodounský perdera o soldo dos

seis meses seguintes. Ficou arrasado. O voluntário lhe pediu que assinasse um documento dizendo que, quando o intendente Vaněk fosse distribuir os soldos, lhe diria que seu dinheiro deveria ser entregue a ele.

— Não se preocupe, Chodounský — animou-o Švejk. — Com um pouco

de sorte você tombará na primeira batalha e Marek ficará com a cara no chão. Assine tranquilamente.

Chodounský não gostou muito da alusão a sua morte e afirmou, com

firmeza:

— Eu não posso tombar porque sou telefonista, e os telefonistas estão

sempre blindados. Depois das batalhas, é necessário verificar as linhas e consertar o que foi avariado.

O voluntário disse que, muito pelo contrário, os telefonistas estavam

expostos aos maiores riscos e que a artilharia inimiga lhes dava especial atenção. Nenhum telefonista, segundo ele, estava seguro nem em sua blindagem. Mesmo que se enfiasse dez metros debaixo da terra, a artilharia inimiga o encontraria. Telefonistas morriam como granizo nas chuvas de verão. A prova disso era que, exatamente quando ele estava saindo de Most nad Litavou, o vigésimo oitavo curso para telefonistas estava começando.

Chodounský ficou tão abatido que Švejk se viu obrigado a lhe dirigir

algumas palavras amistosas e bem-intencionadas:

— Você não pode fazer nada. Está fodido.

Chodounský respondeu amavelmente:

— Cale-se, safado!

— Vou procurar as letras Ch em minha história do batalhão — disse o

voluntário. — Chodounský... Chodounský... Ah, sim, aqui está: o telefonista Chodounský, abatido pela explosão de uma mina. Do fundo de sua tumba liga para o estado-maior: “Morro e felicito o batalhão por sua vitória.”

— Isso deveria lhe bastar — disse Švejk. — Ou quer acrescentar alguma

coisa? Está lembrado daquele telefonista do Titanic que, quando o navio estava afundando, continuou ligando para a cozinha para perguntar quando seria servido o almoço?

— Para mim tanto faz — disse o voluntário —; no que me diz respeito,

podemos completar as últimas palavras de Chodounský fazendo-o exclamar: “Mando lembranças a nossa brigada de ferro!”

72 Batatas cozidas, macarrão amanteigado e cebolas douradas. (N. do T.)

73 Scheissen quer dizer “cagar” em alemão. O polonês queria dizer schiessen, “disparar”. (N. do T.)

74 Nos exercícios do exército austro-húngaro, os grupos inimigos usavam braçadeiras vermelhas ou brancas. (N. do T.)