Baía de Todos os Santos: aspectos humanos
Recôncavo: território, urbanização e arquitetura
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
passos da paixão.
Muitas dessas ruas se bifurcam formando espaços triangulares ou
trapezoidais, a exemplo dos largos da Matriz, em Maragogipe;
Aclamação, em Cachoeira e da Bandeira, em Jaguaripe. Seguindo o
exemplo de Salvador, o poder civil quase nunca comparte o espaço
com o religioso.
Dinâmica diversa têm as aldeias jesuíticas. Partem de terreiros ou
praças projetadas e se expandem livremente, como a Vila de
Abrantes e Santo Amaro de Ipitanga, com uma grande igreja em
uma das suas cabeceiras. Nisso se parecem com Santo Amaro,
nascida também em função de uma igreja, com a matriz em uma
das extremidades e a Casa de Câmara e Cadeia na outra da Praça
da Purificação. É a exceção que confirma a regra.
São nesses largos e praças, quando à beira-mar ou rio que se
realizam as feiras semanais. Na praça Cel. José Bitencourt, junto a
velho porto, em Nazaré, se realizam as tradicionais feiras dos
caxixis, e até há poucas décadas, da banana e da farinha, sob o
portal do Sobrado dos Arcos, como em Salvador no período
colonial. Em Jaguaripe, é sob as arcadas do subsolo da Casa de
Câmara e Cadeia, junto ao porto, que se realizava a feira, com
produtos trazidos de barco. Em Cachoeira é também no cais, em
cuja proximidade existiam sobrados com arcarias, que se realiza
ainda hoje a feira de São João.
São em largos e praças que se realizam ternos anunciadores,
reisados, congadas e o levantamento da Bandeira do Divino, em
Jaguaripe e Cairu. A Irmandade da Boa Morte e terreiros de
candomblé preservam a cultura dos antigos escravos em Cachoeira
com procissão e lavagem de igrejas. A participação nas lutas pela
Independência da Bahia é relembrada anualmente no 25 de Junho e
2 de Julho com o encontro dos carros do caboclo e da cabocla nas
ruas de Cachoeira e São Félix. Filarmônicas de longa tradição estão se renovando no Recôncavo. E Maragogipe preserva um dos
carnavais de rua mais típicos da região, com fantasiados e
mascarados. Tradições que estão se perdendo por falta de apoio
governamental.
Da casa-grande à matriz
O Recôncavo foi um importante laboratório de arquitetura no
período colonial. Ali nasceu a capela com planta em cruz de Santo
Antônio, a Escola Franciscana de Arquitetura do Nordeste e a matriz
assobradada, que se difundiria por todo o país. Devido à limitação
de espaço, nos concentraremos na arquitetura do Recôncavo e
ilhas, com referências passageiras a Salvador. As observações
feitas aqui estão todas referendadas ao nosso Inventário de
Proteção do Acervo Cultural da Bahia, onde o leitor pode encontrar
mais informações, plantas, fotos e bibliografia sobre os edifícios aqui
descritos. 12 Lamentavelmente muitos dos edifícios citados estão em
ruína ou já desapareceram. Este é em parte um resgate
arqueológico da arquitetura do Recôncavo.
Arquitetura religiosa
Os atores
A formação de uma arquitetura religiosa típica do Recôncavo não
tem uma única origem. Ela resulta da contribuição de diferentes
ordens religiosas, do clero secular e de laicos reunidos em
comunidades rurais e urbanas. Destacam-se entre as ordens
religiosas os franciscanos e entre os laicos as ordens terceiras ou
irmandades. Pequena foi a presença de conventos de freiras no
Recôncavo. Assinale-se apenas o de N. S. dos Humildes (1793-
1870), em Santo Amaro, construído e reformado ao longo de quase
um século por diversos capelães.13
jesuítas
A atuação dos padres da Cia. de Jesus no Recôncavo se
concentrou em Salvador, e no Litoral. Em Salvador eles tinham o Colégio de Jesus, fundado em 1549 e ampliado três vezes, a última
em 1657-72; o Noviciado da Anunciada da Jequitaia, ou Colégio dos
Órfãos de São Joaquim (1706-28); o Seminário de Nossa Senhora
da Conceição (1756-57), no Solar do Ferrão, além da Quinta do
Tanque, (final do século XVI) e a Casa de Oração (1757).14 Fora de
Salvador, à margem da Baía de Todos os Santos, tinham a Capela
de Escada, na atual Av. Suburbana, doada por Lázaro Arévolo, em
1572.
No Recôncavo possuíam as aldeias de Santo Antônio do Iguape
(1561), em Cachoeira, e Santo Antônio dos Índios, em Aratuípe, a
Fazenda de Nossa Senhora da Penha, em Vera Cruz, doada em
1689 pelo Pe. José de Andrade e Sá na condição de construírem
uma capela.15 Eram proprietários, também, do engenho Real de
Sergipe, em São Francisco do Conde, doado ao Colégio de Santo
Antão de Lisboa por D. Felipa de Sá, filha de Mem de Sá, casada
com Dom Fernando de Noronha, Conde de Linhares. O engenho
fora construído por seu irmão, Francisco, em 1563. Em seu território
os jesuítas edificaram a igreja de N. S. da Purificação, que ruiu em
1678, e eles não a reconstruíram mais.
No Litoral Norte, como já vimos, criaram uma série de aldeias, que
demandavam Olinda, começando com a do Divino Espírito Santo
(1558), atual Vila de Abrantes, em Camaçari, seguida por São João
e Santo Antônio do Arguim, ou Massarandupió, em Mata de São
João, e terminando na fronteira com Sergipe, em Abadia e Conde.
No Litoral Sul tinham colégio, aldeias e engenho em Porto Seguro e
Ilhéus.
Seu maior empreendimento no Recôncavo foi o Seminário de Belém
de Cachoeira (1687-1707), edificado em terras doadas pela família
Aragão de Menezes. Deste complexo edificado em adobe, com um
só pátio e igreja central, restou apenas o templo, cujo frontão
barroco influenciaria outras igrejas da região. 16 Esta igreja
apresenta um partido curiosíssimo, com galerias de tribunas e um
consistório sobre a sacristia avarandados abertos para o exterior.
Os elementos artísticos mais importantes desse templo são o forro
da sacristia, com temas florais pintados sobre fundo negro de
inspiração oriental, e um frontal de altar, com incrustações,
transferido, há algumas décadas, para a Matriz do Rosário de
Cachoeira. Fora do Recôncavo os jesuítas tiveram aldeias no
Sertão, a partir de 1666, após a expulsão dos holandeses, mas
foram muito hostilizados pelos Ávila.17
franciscanos
A ordem religiosa que teve maior influência no Recôncavo e no
Nordeste foi a franciscana. Além do Convento de São Francisco de
Salvador, eles fundaram três grandes estabelecimentos no
Recôncavo, os conventos de São Francisco do Conde (1649), Santo
Antônio de Cairu (1654) e Santo Antônio do Paraguaçu (1658). 18
Nesses dois últimos é lançado um novo partido arquitetônico que
seria reproduzido em Pernambuco e na Paraíba criando-se a
chamada Escola Franciscana de Arquitetura do Nordeste. Esta é,
talvez, a nossa maior contribuição à arquitetura religiosa luso-
brasileira. Os franciscanos tiveram missões no sertão, em Jacobina,
e nas barrancas do São Francisco.
beneditinos
Em 1655, os Beneditinos recebem de D. Catarina Álvares, casada
com Balthazar Barbosa de Araujo, a Fazenda Laje, em São
Francisco do Conde. Ali instalam o Engenho São Bento de Sergipe
do Conde onde, no final do século XIX, foi construído o Imperial
Instituto Baiano de Agricultura. Em 1666, eles compram mais terras
de Balthazar Barbosa de Araujo e constroem o Convento de Nossa
Senhora das Brotas, hoje em ruínas. A vila de Santo Amaro se
desenvolveu em função de uma capela beneditina, de igual
invocação, que ainda se conserva. Sua influência chegou,
aparentemente, até o Acupe, no mesmo município, onde existem as
ruínas da excelente capela de São Braz, cujo risco é atribuído ao
arquiteto beneditino Frei Macário de São João.19 carmelitas
A contribuição desta ordem é importante, mas se resume a um
único convento em Cachoeira. Em 1688, o Cap. João Rodrigues
Adorno e sua esposa doaram aos carmelitas o terreno onde hoje se
ergue o Convento do Carmo de Cachoeira, construído,
provavelmente, entre 1715 e 1722. Em 1700, o mesmo casal doou
terreno para a Ordem Terceira do Carmo que ali constituiu entre
1691 e 1724 sua belíssima capela e cemitério. O Convento do
Carmo teve um papel importantíssimo na consolidação e
estruturação da vila de Cachoeira. A capela da Ordem Terceira do
Carmo de Cachoeira e o Convento de Santo Antônio de Cairu
conservam as mais belas talhas douradas e coleções de imagens
sacras de todo o Recôncavo. 20
clero secular e laicos
Este clero, composto por clérigos não ligados a nenhuma ordem
religiosa, conjuntamente com laicos são os responsáveis pelas
pequenas capelas rurais e pelas igrejas matrizes e de irmandades
das cidades do Recôncavo. Essas confrarias teriam um papel
importante na modelagem das matrizes e suas igrejas sedes. Se
não tinham entre seus membros arquitetos, como as ordens
religiosas, se valeram de alarifes militares ou eventualmente de
mestres de obras, sem formação acadêmica, mas, por isso mesmo,
mais abertos às inovações. Como veremos, são eles os
responsáveis pela criação das capelas rurais com planta em Cruz
de Santo Antônio e das igrejas assobradadas de irmandades e
matrizes.
As influências
No Recôncavo conviveram praticamente desde meado do século
XVI ao final do XVIII dois estilos na arquitetura erudita. Um de
natureza clássica, universal e codificada, cujas soluções devem ter
sido encontradas nos tratadistas do Renascimento, e outra barroca,
não codificada, de raiz italiana e ibérica, em grande parte reelaborada regionalmente. A estas duas tendências se somaram
influências orientais, que analisaremos adiante.
O clássico, do erudito ao popular
Clássicas são as igrejas com frontão triangular apoiado sobre
cunhais toscanos que imitam templos greco-romanos, sem sineira,
ou mais frequentemente com torre piramidal, que têm como
protótipo na Bahia a Igreja de Santo Antônio da Barra, de cerca de
1600. São exemplos desta tipologia igrejas do século XVII, como
Divino Espírito Santo, da Vila de Abrantes (1641), em Camaçari; as
capelas de São Braz, em Santo Amaro; Conceição Velha (1645), em
Conceição de Feira; Nossa Senhora de Nazaré (1649), em Nazaré
das Farinhas; e as matrizes de São Bartolomeu (Ca. 1680), de
Maragogipe, e N. S. do Rosário de Cachoeira, do final do século
XVII, estas duas últimas já com belas portadas barrocas.
Mas este estilo continuou em uso durante todo o século XVIII, como
atestam a Igreja da Ordem Terceira do Carmo (1724) e a capela de
N. S. da Pena, do Engenho Velho do Paraguaçu, ambas em
Cachoeira; São Miguel (1732) e São Lázaro (1734) em Salvador; a
capela de N. S. da Conceição, em Nazaré (1742) e a Matriz de São
Gonçalo dos Campos (1770).21
Como esses modelos teriam chegado até nós? Provavelmente por
meio dos tratados de arquitetura, em especial o de Sebastiano
Serlio, e indiretamente através de arquitetos de formação
acadêmica. Dom Clemente Maria Silva-Nigra defende que este
estilo foi difundido entre nós pelos beneditinos, em particular pelo
Frei Macário de São João, espanhol, autor do projeto do Mosteiro de
São Bento de Salvador (1679-94). Arquiteto de formação acadêmica
sólida, ele adota na igreja daquele mosteiro a planta jesuítica de Il
Gesú (1584) de Roma, de autoria de Giacomo Vignola, a mais
festejada na época e desenha uma portada clássica para a igreja de
seu mosteiro, seguindo todos os cânones do Renascimento. (SILVA-
NIGRA, 1950a, 1950b)
Pelo fato do convento de Santa Tereza (1668-1686), de carmelitas
descalças, apresentar a mesma planta, pórtico em galilé e frontão
clássico, elementos frequentes em igrejas beneditinas, o mesmo
autor atribui seu projeto a Frei Macário de São João. Não só é
plausível esta hipótese, como ousamos dizer que Santa Teresa é
uma cópia, ao pé da letra, do convento dos Trinitários Descalços
(1667), depois paróquia de San Pablo, de Salamanca, região de
onde aparentemente provinha o frei espanhol. Ali estão a mesma
fachada, com três arcos no térreo, janela e nicho central, flanqueada
de cartelas, a mesma espadaña lateral e zimbório de planta
quadrada. Esta semelhança pode ser uma chave para esclarecer a
origem e formação do arquiteto beneditino. 22
Com igual faro e sensibilidade, Silva-Nigra atribui ao beneditino
outros projetos, como o da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, a
Capela de São Brás, em Santo Amaro, e a portada da igreja
fundacional da mesma cidade, onde nos deparamos com frontões
clássicos para provar que foram os beneditinos que introduziram o
classicismo na Bahia. (SILVA-NIGRA, 1971, p. 89-153)23 Mas os
jesuítas também utilizaram este estilo em suas primeiras
construções na Bahia, em monumentos como a igreja do Colégio do
Divino Espírito Santo (1641), em Vila de Abrantes, e na Igreja da
Penha, em Vera Cruz, do final do mesmo século, na ilha de
Itaparica. O protótipo deste estilo seria a igreja de São Roque, de
Lisboa, do final do século XVI. Mas não há dúvida de que os
jesuítas, embora começassem com uma linha clássica, logo
aderiram ao barroco, do qual eles foram os criadores na Europa.
O fato é que o gosto por este estilo perdurou na Bahia até o século
XVIII, pois encontramos belas portadas clássicas em templos com
tratamento barroco, como a capela de São Roque, do engenho
homônimo, em Maragogipe; na Matriz de N. S. da Purificação, de
Santo Amaro, e capelas de N. S. da Conceição, em Salinas da
Margarida.24 São portadas de lioz, encomendadas em Portugal, mas
que demonstram a persistência deste gosto ainda na segunda
metade do século XVIII.
É curioso que este estilo, altamente erudito, tenha caído no gosto
popular, como comprovam capelas e igrejas muito simples,
especialmente na banda ocidental do Recôncavo, como as capelas
de N. S. da Conceição, em Cachoeira, Senhor dos Aflitos e Santana
de Taquari, em São Gonçalo dos Campos, e Nossa Senhora Madre
de Deus, em Jaguaripe.25
A torre piramidal é outro elemento persistente em templos barrocos,
seja pela tradição construtivista, como nas matrizes de Santo Amaro
de Ipitanga, São Francisco do Conde e Candeias, onde esta
terminação é um telhado de quatro águas, seja por preferência
estética, como cúpula piramidal, em Santo Antônio da Barra (Ca.
1600), em Salvador; nos conventos franciscanos de São Francisco
do Conde (1630-36); Santo Antônio de Cairu (1654); Seminário de
Belém de Cachoeira (1693); igrejas de Santo Amaro, na cidade
homônima, e de São Lourenço (1610), em Itaparica.26
A influência oriental
Em Cachoeira são abundantes os vestígios de arte oriental. Na
igreja do Seminário de Belém de Cachoeira (1687-95) existem dois
desses indícios: a pintura do teto de sua sacristia com flores
chinesas sobre fundo negro e pratos da mesma origem na sua torre
revestida de azulejos e embrechados de louça. Esta influência não
se limitou ao Seminário de Belém de Cachoeira. Na igreja da Ordem
Terceira do Carmo do mesmo município existem armários com
pinturas chinesas, no salão nobre e na sacristia, além de imagens
com traços evidentemente orientais. 27
Essa cidade possui também bem elaborados estuques flamejantes
no frontão da igreja do Carmo e no ossuário de sua Ordem Terceira,
bem como no frontão da Ig. de Deus Menino, na vizinha São Félix.
Menos pelo desenho, que pela sua técnica, poderíamos evocar a
tradição indiana de estuques presente nas igrejas de Santana de
Talaulin e Espírito Santo de Margão, em Goa. A mesma influência
se nota nos pedestais de cruzeiros dos conventos de Santo Antônio
de Cairu e Santo Antônio do Paraguaçu, este último com carrancas
mongóis. 28 Na arquitetura doméstica essa influência se fez presente
na bela porta do atual Museu de Arte da Bahia, nas esteiras
protegendo janelas e sacadas, bem como louça, colchas
estampadas e imagens de marfim nos oratórios. (AZEVEDO, 2004,
p. 583-601)
Por que essa influência se concentrou em Cachoeira?
Possivelmente por ser aquele o principal centro de produção e
comercialização de tabaco e aguardente, produtos muito apreciados
pelos orientais. Goa foi a maior importadora do fumo baiano, de
onde era reexportado para todo o Oriente, superando as
importações da metrópole.
Um panorama do relacionamento direto entre a Bahia e a Índia pode
ser obtido no clássico "A Bahia e a Carreira das Índias", de José
Roberto do Amaral Lapa (1968). Nos três primeiros séculos de
colonização, foi registrada a passagem por Salvador, de 253 barcos
da Carreira das Índias, por diferentes razões e pretextos. Nosso
porto, por sua localização privilegiada num dos vértices da rota
triangular Portugal, Brasil e Índia e pela variedade de produtos que
oferecia para a troca, era o local de 90% das arribações dessas
naus no Brasil. (LAPA, 1968, p. 2, 277-278) A Bahia chegou a ser,
em 1697, o porto de maior volume de exportação e importação do
além-mar português. Note-se que dessas paradas, dois terços eram
de torna-viagem, isto é, provenientes da Índia. (AZEVEDO, 2004, p.
583-601)
Aliás, no tocante ao comércio clandestino de tabaco para o
Oriente, praticado na Bahia, os registros são inúmeros. Até
mesmo os soldados e marinheiros que compunham as
tripulações dos navios da Carreira não lhe permaneciam
indiferentes. Chegavam a ir a Vila de Cachoeira,
onde se produzia fumo de superior qualidade, para trocá-lo por
mercadorias de procedência asiática, afirma José Roberto Lapa
(2004, p. 297).
A par das trocas de mercadorias, davam-se também trocas
culturais. Ainda no século XVI, ourives, pintores e bordadeiras
indianas foram mandados para Lisboa para ensinarem sua arte e
aprenderem o sentimento da arte cristã. (DIAS, 1995) Quantos
destes artistas e artesãos terão passado ou permanecido na Bahia?
Cachoeira foi também o primeiro porto de escoamento do ouro vindo
de Minas Gerais e depois de Rio de Contas e Jacobina. A produção
de joias e alfaias de ouro chegou a ocupar onze ourives em
Cachoeira, no período 1764-65. (OTT, 1988, p. 176-177) É
compreensível que existisse nessa cidade homens de negócio,
contrabandistas e artesãos orientais ou portugueses que viveram no
Oriente. (AZEVEDO, 2004, p. 583-601) O fato é que identificamos
na arquitetura religiosa da região influências orientais muito mais
profundas que puramente ornamentais como querem alguns
chegadas até nós via moda rococó portuguesa, como veremos
adiante. A milhares de quilômetros de Portugal, a circulação de
mercadorias, pessoas e ideias estava longe de ser controlada pela
coroa.
Barroco regional
As igrejas barrocas baianas adotam uma volumetria muito sóbria, na
linha da chamada arquitetura chã portuguesa. Não possuímos
igrejas de plantas ondulantes, borrominescas, como as que
floresceram em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Seu barroquismo
se limitou a uma fachada com frontão de volutas ou recorte rococó,
torres piriformes ou bulbosas e interiores com azulejos e talha
dourada, a exemplo da capela da Ordem Terceira do Carmo de
Cachoeira (1715-22); das matrizes de Nossa Senhora da
Purificação (1706-27) e Oliveira dos Campinhos, em Santo Amaro;
Nossa Senhora da Ajuda, de Jaguaripe (início do XVIII); da capela
do Engenho Freguesia (ca. 1760), em Candeias, e de numerosas
outras igrejas do Recôncavo, muitas das quais são originárias do
século XVII, mas tiveram suas fachadas refeitas no século XVIII. 29
Como no caso anterior, devemos perguntar de onde vieram esses
modelos? Como o barroco nunca foi codificado, o desenho desses frontões se difundiu a partir das primeiras igrejas barrocas da região,
como a Sé de Salvador (1625-36), reconstruída depois da ocupação
holandesa e demolida em 1933, e de igrejas de conventos
franciscanos, a exemplo de São Francisco do Conde (1649), Santo
Antônio de Cairu (1654), Santo Antônio do Paraguaçu (1658 ) e
Salvador (1686), esses sempre com um nicho para a exibição da
imagem do orago, e de igrejas jesuíticas, como a do Colégio de
Salvador (1691) e do Seminário de Belém de Cachoeira (1693).
Esses frontões diversos vão sendo copiados, modificados e
mesclados, surgindo um padrão barroco baiano, que é diverso do
pernambucano e de outros estados. Os frontões com grandes
volutas, servindo de contraforte para um corpo central mais elevado,
vão se transformando em um arranjo de volutas puramente
decorativo para terminar com frontões recortados miudinho de gosto
rococó.
As tipologias religiosas
A arquitetura religiosa do Recôncavo é de uma grande diversidade,
mas consolidou tipologias bem caracterizadas. Compreende desde
pequenas capelas rurais, passando por igrejas assobradadas
urbanas até monumentais conventos.
Capelas Rurais
A quase totalidade das capelas rurais fazia parte do complexo dos
engenhos de açúcar algumas, inclusive, anexas à casa-grande. Isto
explica algumas de suas características, como os copiares frontais e
alpendres laterais, para separar os fiéis brancos e pardos,
geralmente familiares ou assalariados, dos escravos negros.
capelas de planta centrada
O mais antigo monumento religioso da Bahia e do Brasil é uma
capela de planta centrada, hexagonal, recoberta por cúpula esférica,
partido claramente renascentista. É a capela de N. S. da Conceição,
da Casa da Torre de Garcia D'Ávila, em Tatuapara, atual Praia do Forte. A capela e casa anexa já existiam em 1584 conforme
descrição de Gabriel Soares. A residência deve ter sido ampliada
em pelo menos duas oportunidades, mas a parte anexa à capela
com duas salas térreas recobertas por abóbadas de aresta é da
mesma fábrica da capela. Existem duas capelas de igual partido em
Portugal: São Gregório de Tomar, coeva, e Madre de Deus, em
Aveiro, do século XVII.
Uma segunda capela com o mesmo partido, construída na segunda
metade do século XVII, encontra-se no Engenho D'Água, em São
Francisco do Conde. É a capela do Senhor Bom Jesus de Bouças.
Sua nave, de planta octogonal, é envolvida em partes iguais por um
alpendre frontal, sacristia e ossuário que ladeiam a capela-mor.
Embora tardia, ela se assemelha em particular à capela de São
Gregório de Tomar, pela presença do alpendre e pelo fato de seu
copo central se elevar acima dos demais elementos do programa.30
(AZEVEDO, 1996)
capelas em cruz de santo antônio
A planta mais comum nas capelas rurais durante os séculos XVII e
XVIII foi a chamada planta em cruz de Santo Antônio, o tau do
alfabeto grego, com seu eixo principal formado pela nave e capela-
mor, e o travessão pela sacristia e pela "casa da fábrica". Muitas
vezes a "casa da fábrica" se ligava à capela-mor por uma janelinha
protegida por treliça, que permitia ver, sem ser visto. O exemplo
mais antigo desta tipologia que se conserva no Recôncavo é a
capela de N. S. de Escada, de 1556, em Salvador, ainda que com
uma só sacristia.
Esta planta teria sido adotada em 1630 na Igreja da Palma em
Salvador, segundo planta existente no Arquivo Ultramarino de
Lisboa. Ela foi adotada em muitas capelas rurais do mesmo século,
no Recôncavo. O mais notável exemplar dessa tipologia, por seu
requinte e erudição, é a Capela de N. S. da Pena do Engenho Velho
do Paraguaçu, em Cachoeira, de 1660. É uma fusão do partido
centrado renascentista com a nova planta em Cruz de Santo Antônio. A capela possui nave quadrada integralmente revestida de
azulejos recoberta por cúpula também azulejada sobre pendentifs.
Esta planta foi muito adotada em capelas do século XVIII, a exemplo
das capelas de Bom Jesus dos Pobres, em Santo Amaro, e N. S. da
Conceição, em Salinas da Margarida e dos engenhos Pindobas, em
Candeias; Santo Antônio do Rio Fundo, em São Felipe; São
Bernardo, em Jaguaripe; e Capanema, em Maragogipe. São
frequentes também capelas com este partido, mas incompleto, com
uma só sacristia.31
Muitas dessas capelas são complementadas por um alpendre de
três águas, que antecede a nave, conhecido como copiar, termo tupi
que designa o alpendre situado na entrada da taba indígena.
Capelas rurais com alpendres frontais, mas sem planta em T, são
frequentes em Portugal e aparentemente resultam da abertura
progressiva de um pronau fechado, cujo primeiro exemplar
conhecido é a matriz de Lourosa, do século X, em Coimbra.
(AZEVEDO, 1983)
Esta espécie de saguão que antecede a nave foi transposta para o
Recôncavo, como dão testemunho iconografias antigas das capelas
de N. S. da Ajuda, em Cachoeira; Santo Antônio de Velasquez, em
Vera Cruz, e N. S. de Nazaré, do Engenho Passagem dos Teixeiras,
em Candeias. De tipo inteiramente avarandado são os copiares das
capelas de Escada, N. S. de Nazaré (1649) e de N. S. da Conceição
(1742), ambas em Nazaré das Farinhas.32 Este partido tinha,
porém, um inconveniente, as escadas de acesso ao púlpito, ao coro
e à sineira ficavam no exterior, ao relento.
capelas com alpendres laterais
Outro tipo de capela rural comum no Recôncavo é o de alpendres
laterais. Estes avarandados laterais, além de atenderem a um maior
número de fiéis durante as festas, serviam como transição ambiental
e social entre o interior e o exterior e protegiam as escadas
mencionadas anteriormente. O exemplo mais erudito dessa tipologia é a capela de São Brás, em Santo Amaro, de meados do século
XVII, atribuída ao risco de Frei Macário de São João. (SILVA-
NIGRA, 1971) Temos outros exemplos deste século, mas com
planta assimétrica, como a Capela de N. S. da Encarnação, de São
Sebastião do Passé e Santo Amaro de Catu, em Vera Cruz.
Existem exemplos dessa tipologia com plantas simétricas e com
alpendres suportados por arcaria nas capelas dos engenhos
Campina, em Cachoeira, e N. S. do Vencimento, do Engenho
Paramirim, em São Francisco do Conde, ambas do século XVIII, e
no Água Boa, em Terra Nova, do século XIX. Alguns exemplares
são igrejas com naves muito altas e alpendres de pés direitos
duplos, como as igrejas de Santo Antônio dos Índios, em Aratuípe;
Santo Amaro do Catu, em Vera Cruz, e Santana de Taquari, em São
Gonçalo dos Campos. A igreja de Oliveira dos Campinhos, em
Santo Amaro, é uma das poucas que manteve os alpendres laterais
baixos. Um caso interessante é o da Capela do Engenho Lagoa, em
São Sebastião do Passé, em que um alpendre em arcos envolvia
toda a nave. Hoje restam apenas os alpendres laterais. Exemplo
semelhante só em Queimadas, na Capela de Santo Antônio. 33
igrejas assobradadas
O aparecimento das igrejas com tribunas está, aparentemente,
ligado à multiplicação e ao fortalecimento das associações religiosas
laicas, as ordens terceiras ou irmandades. Essas associações, que
representavam comerciantes, profissionais, escravos forros e
pardos, foram as primeiras organizações da sociedade civil
consentidas pela coroa, sob o manto da caridade cristã, oferecendo
serviços de seguridade social a seus membros, como internação em
enfermarias ou ajuda em caso de doença, asilos para idosos e
crianças abandonadas e enterro para seus afiliados em suas
igrejas-sedes.
Tinham inevitavelmente caráter ideológico e político, fazendo lobby
para obtenção de vantagens para seu grupo junto às autoridades.
Daí surgir uma grande emulação entre elas, durante as procissões e construção de suas sedes suntuosas. As primeiras irmandades
devem ter funcionado nas "casas da fábrica" ou mesmo sacristias
das matrizes. Mas à medida que cresciam e se fortaleciam
buscavam espaços privativos para instalação de seus consistórios e
secretarias. Como muitos de seus membros cantavam, eles
praticamente monopolizavam o coro das igrejas-sedes durante as
cerimônias.
Por outro lado, as igrejas haviam crescido em altura e com ela os
alpendres laterais. Como é natural, estendeu-se o coro pelas
laterais da nave aproveitando o pé direito elevado dos alpendres e
ocupou-se o espaço sobre as sacristias com escritórios e
consistório. Em outras palavras, cria-se todo um andar em forma de
anel em volta da nave e capela-mor privativo das irmandades. Os
alpendres haviam perdido sua função na cidade e pouco a pouco se
substituem seus pilares e arcarias por muros portantes para
sustentar o sobrado.
As tribunas de uma igreja, como as sacadas dos sobrados e os
camarotes de um teatro, não eram apenas um local confortável para
assistir a um evento público, senão um local estratégico para
observar e ser visto pelo público.
Essas tribunas são os locais aonde os Irmãos privilegiados
poderiam assistir aos atos que se passavam na nave e capela-
mor, locais por todos disputados. As tribunas da capela–mor
eram, geralmente, ocupadas pelo Juiz, Ministros ou Prior. Estes
costumes podem ser comprovados pela resolução da (Ordem
Terceira da) S.S. Trindade de 1861, abaixo transcrita: "Foi tão
bem deliberado que nas ocasiões de Festividades em nossa
Ordem, cumpria que o Irmão Vigário fazer feixar todas as
tribunas mandasse, ou entregasse a cada um dos Mezarios a
chave da que lhe pertencer, conforme seos dísticos, e qdo as
mesmas tribunas não tenhão chaves ficava authorizado a
manda-las por", comenta Socorro Targino Martinez.
(MARTINEZ, 1979, p. 181)
Os chamados corredores laterais não tinham função específica.
Muitos deles eram usados como depósitos de andores ou ossuários.
Neles se enterravam escravos e mendigos, já que a nave e capela-
mor eram reservadas aos irmãos. Na maioria dos casos, eles nem
eram corredores, pois sua continuidade era interrompida pela
presença de capelas laterais e falsos transeptos. Eles eram meros
saguões de acesso ao púlpito, coro, tribunas e torres.
Em muitos casos, as arcarias laterais era apenas uma solução
estrutural para a sustentação da galeria de tribunas, como se pode
observar nas primeiras igrejas desse tipo, como São Bartolomeu de
Maragogipe e Santo Amaro de Ipitanga, ambas do final do século
XVII. A terceira igreja com tribunas deste período, Nossa Senhora
do Monte Recôncavo, em São Francisco do Conde, é um caso
diverso. Ali a arcaria lateral servia como portal da igreja, aberto para
a praça da vila. Sua fachada principal está na borda de um espigão
que despenca abruptamente sobre a baía dificultando sua
interlocução com a vila.
Reforça a hipótese dessas arcarias terem função prioritariamente
estrutural, o fato da matriz de Santo Amaro ter possuído tais
arcarias, segundo documento do vigário Pe. José Borges de Barros,
de 1727. Posteriormente, esses arcos foram entaipados para formar
os atuais corredores laterais. Corrobora esta hipótese a existência
de arcos de descarga, também entaipados, na Ig. de N. S. do
Amparo, na mesma cidade. 34
As igrejas com tribunas se difundiram, no início do século XVIII, no
Sul do país, aparentemente através de Minas Gerais, e no Nordeste
através de Pernambuco, ambas províncias muito ligadas à Bahia,
naquela época. A razão dessa planta ser comum a matrizes e
igrejas de irmandades e usada até o final do século XIX decorre do
fato de grande número de matrizes serem também sedes de
irmandades, daquelas mais pobres, que não tinham condições de
construírem suas sedes próprias.
A capela da Ordem Terceira de S. Francisco de Cairu nunca chegou
a ser concluída. As Misericórdias de Cachoeira, Santo Amaro e
Maragogipe e a Ig. de N. S. do Amparo, da Irmandade dos Homens
Pretos, de Santo Amaro, são modestíssimas na comparação com
suas congêneres de Salvador. A Irmandade da Boa Morte, de
mulheres de cor, tem peregrinado em diversas igrejas, estando
agora na modesta capelinha de Ajuda de Cachoeira.
Ao contrário do que acontecia em Salvador, em que as capelas de
ordens terceiras e irmandades eram mais ricas que as igrejas de
conventos e matrizes, no Recôncavo são os conventos e matrizes
os monumentos mais requintados, com painéis de azulejos, obras
de talha e tetos com pintura ilusionistas, a exemplo dos conventos
de Santo Antônio de Cairu e São Francisco do Conde, o Seminário
de Belém da Cachoeira e as matrizes de N. S. do Rosário, de
Cachoeira; N. S. da Purificação e Oliveira dos Campinhos, de Santo
Amaro; e São Pedro, de Muritiba. A exceção é a Ordem Terceira do
Carmo de Cachoeira, com sua belíssima capela e cemitério.
O ápice dessa evolução é uma igreja com falso transepto inscrito
dentro de um retângulo perfeito, que segue a tradição das igrejas
jesuíticas luso-brasileiras, como a antiga Igreja da Sé de Salvador,
mas que ao invés de múltipals capelas laterais, apresenta tramos de
corredores que servem às mais diversas funções. São exemplos
plenamente desenvolvidos dessa tipologia as matrizes de N. S. da
Purificação, de Santo Amaro; N. S. do Rosário, de Cachoeira; N. S.
da Ajuda, de Jaguaripe; N. S. de Nazaré e São Gonçalo dos
Campos respectivamente nas cidades homônimas. 35
Recapitulando, a tipologia das matrizes e igrejas de irmandades do
Recôncavo é o resultado da evolução da capela de partido em Cruz
de Santo Antônio, que ganhou alpendres laterais superpostos,
depois, por galerias de tribunas e um par de torres frontais. Tudo
organizado segundo um eixo longitudinal de simetria e contido em
um retângulo perfeito. A construção de cada igreja desse tipo, ao
longo de décadas e até séculos, refaz esta caminhada ao justapor
cada um dos elementos constitutivos de seu programa, mas sem perder o projeto original de construir uma igreja geometricamente
perfeita em planta e muito rica volumetricamente.
Muitas dessas igrejas não chegaram a ser concluídas e pararam
numa dessas etapas. Exemplos disto são a Ig. de N. S. do Rosário,
em Jaguaripe, que com planta em T, já apresenta uma nave com
vãos para receber futuras tribunas e a Matriz de São Pedro, em
Muritiba, que embora ainda não tenha corredores e tribunas já
possui arranque de duas torres no alinhamento dos corredores e
sacristia, ou ainda a Matriz de Deus Menino, em São Félix,
esperando o corredor, tribunas e torre do lado direito para completar
sua planta e imagem de matriz.36
Alguns engenhos adotaram este partido em suas capelas, que são
verdadeiras igrejas, como os engenhos Mataripe e Quicengo, em
São Francisco do Conde, Freguesia, em Candeias, e Pouco Ponto,
em São Sebastião do Passé. Quando a capela era anexa à casa do
engenho, como na Freguesia e no Pouco Ponto, as tribunas eram
ligadas diretamente à área íntima da casa, caracterizando estes
espaços como privativos da família. 37
Pode-se dizer, então, que as igrejas matrizes e de irmandade do
século XVIII são o desenvolvimento das capelas rurais de alpendres
laterais, que serviam para atrair e controlar os lavradores, mas que
nas vilas e cidades viram pelo avesso esses alpendres e os
duplicam, transformando-os em camarotes para seus dirigentes
melhor se exibirem e controlarem a comunidade de fiéis reunida na
nave. O resultado é uma igreja barroca de ópera, com palco, platéia
e camarotes.
conventos franciscanos
Em meados do século XVII, surge no Recôncavo um modelo de
igreja original. É o convento de Santo Antônio de Cairu, iniciado em
1654 e terminado em 1661, cujo projeto é repetido, pouco depois,
em Santo Antônio do Paraguaçu (1658), em Cachoeira. A autoria
desses conventos é do Fr. Daniel de São Francisco. 38 Este modelo logo se difundiria em Pernambuco e Paraíba, formando a Escola
Franciscana de Arquitetura do Nordeste. Três elementos de origem
indo-portuguesa parecem ter contribuído para a criação do primeiro
partido arquitetônico genuinamente brasileiro:
a) presença de um grande cruzeiro sobre peanha escultural em
meio ao adro que precede a igreja;
b) fachada inscrita em um triângulo e dividida por pilastras,
frisos e cornijas em cinco tramos horizontais e três pisos
escalonados;
c) galerias laterais avarandadas com um ou dois pisos,
debruçando-se em tribunas sobre a nave e abertas para o
exterior.
A presença de um cruzeiro sobre um pedestal de pedra ou alvenaria
em meio a uma praça fronteiriça à igreja é comum em Goa.
Segundo Orlando Ribeiro sua origem está na tulôsse, planta
sagrada hindu posta sobre um pedestal, a que se presta culto e se
dedicam oferendas. Em muitos casos a tulôsse cedeu lugar a um
obelisco sobre o mesmo pedestal. O sincretismo religioso fez com
que os chamados cristãos de São Tomé, anteriores à chegada dos
missionários portugueses, em lugar da tulôsse ou obelisco
colocassem um cruzeiro, induzindo a sua veneração. (Cf. CARITA,
2001; RIBEIRO, 1956)
Os franciscanos foram os primeiros religiosos portugueses a
chegarem à Índia. Acompanharam Vasco da Gama como capelães
de suas naves, em 1498, e voltaram para estabelecerem-se
definitivamente com a expedição de Cabral, quando este descobriu
oficialmente o Brasil. (CHACON, 1995, p. 60) Em 1516, eles
começaram a construir conventos em Cochim e, em 1519, em Goa.
A inspiração oriental dos adros franciscanos nordestinos fica
patenteada pela presença de carrancas com traços mongóis no
convento do Paraguaçu e de leões de guarda nos adros de
conventos do Recife e João Pessoa. (BAZIN, 1983, v. 1, p. 152)
A segunda característica comum de nossos templos franciscanos e
igrejas da Índia é o fato de suas fachadas se inscreverem em um
triângulo. Os templos piramidais, sugerindo uma montanha sagrada,
são comuns na religião hindu. A arquitetura das igrejas cristãs dos
seguidores de Santo Tomé e indo-portuguesas, que as sucederam,
casa a concepção do templo hindu com a concepção cristã de
eclésia ou assembleia de fiéis. O modelo que mais diretamente
influenciou as igrejas de Cairu e do Iguape, em Cachoeira, é a igreja
com fachada de cinco tramos horizontais e três ou mais pisos,
reticulada por pilastras e cornijas, tudo inscrito em um triângulo. Ela
pode ser encontrada com certa frequência em Cochim e no estado
de Kerala.
Um terceiro elemento parece ligar as igrejas franciscanas do
Recôncavo à arquitetura indo-portuguesa. Em sua evolução natural,
as varandas laterais das igrejas de Kerala se transformaram em
galerias duplas ensejando a volta à fachada tradicional da igreja
portuguesa com duas torres, como ocorre em São Tomás, de
Thumpoly. Esta galeria aberta para o exterior teria função de
proteger a nave contra o sol e a chuva durante as monções, num
período em que não se dispunha de vidro plano. Este tipo de planta
é, curiosamente, muito semelhante ao da igreja do Seminário de
Belém de Cachoeira (1687/93), onde existe, como vimos, uma
notável pintura oriental de forro de e pratos de Macau na torre e se
repete em Cairu e no Iguape.
Tal como São Tomás, Belém de Cachoeira tem sua nave e capela-
mor totalmente contornadas por uma varanda elevada aberta para o
exterior. 39 Não seria uma surpresa esta planta em um seminário
jesuíta, já que a São Tomás, em Thumpoly, é da mesma ordem.
Identificamos vestígios de um consistório avarandado desse tipo na
capela do Colégio de Anchieta, no Espírito Santo. O assoalho do
consistório se estragou com as chuvas e o avarandado foi
entaipado, ficando a sacristia com pé direito duplo.
As igrejas de Cairu e do Iguape, embora apresentem semelhanças,
não são cópias de igrejas indo-portuguesas. Primeiro, suas fachadas se elevam sobre galilés, o que não ocorre na Índia.
Segundo, seu tratamento é francamente barroco e erudito, enquanto
que as indianas são maneiristas e populares. Além do mais, uma ala
do convento ou muro da roça, avançando para definir o adro, parece
ter origem nos primeiros conventos franciscanos do Nordeste.
Embora os frontispícios das igrejas baianas conservem uma
estrutura compositiva remotamente maneirista, são fachadas
visivelmente barrocas, inspiradas em Roma, onde havia estado Fr.
Daniel de São Francisco.
Da Bahia esse novo modelo passaria a Pernambuco, provavelmente
levado por Frei Daniel de São Francisco, que do Recôncavo retorna
ao Recife, onde morre em 1692. Entre 1700 e 1718 reconstrói-se o
convento franciscano de João Pessoa, na Paraíba.
Santo Antônio de João Pessoa nada mais é do que Cairu,
interpretado em estilo rocaille; é uma das mais magníficas
composições da América Latina e possui um dos mais belos
décors produzidos pela arte rococó,
afirma enfaticamente Germain Bazin (1983, v. 1, p. 149).
igrejas de três naves
Com a nova liturgia da contrarreforma, as igrejas de três naves são
abolidas. Mas na transição do século XIX para o XX algumas igrejas
de corredores laterais, da banda oriental do Recôncavo, são
transformadas em três naves, aparentemente com o intuito de
aumentar sua capacidade. Esta transformação é feita com a
abertura de arcos nas paredes laterais da nave, como nas igrejas de
Santo Amaro e São Domingos de Gusmão, esta reformada em 1923
mantendo as tribunas superiores, ambas em Santo Amaro. Na Igreja
de Santana de Catu, reformada em 1871, e Bom Jesus de Bouças,
em Terra Nova, são criadas arcarias sobrepostas que procuram
conciliar três naves com tribunas.40
Em outros casos, os muros da nave são substituídos por pilares que
vão suportar o telhado, como na Matriz de Candeias e Ig. de São Pedro do Rio Fundo, em Terra Nova. Encontramos apenas uma
igreja de três naves na parte ocidental do Recôncavo, a Igreja de
São Benedito, em São Felipe, ampliada em 1947 com a abertura de
arcos e a criação de sacristias e naves laterais.
A arquitetura civil
Um complexo engenhoso
A agroindústria açucareira implantada no Recôncavo e em
Pernambuco, ainda na segunda metade do século XVI, é talvez a
primeira empresa multinacional. Ali se juntaram capitais flamengos,
tecnologia italiana, logística portuguesa, mão de obra africana,
produção brasileira e comercialização holandesa na Europa. Não
menos complexas eram as instalações para a produção do açúcar
para o mercado internacional.
Este complexo compreendia, por ordem de importância econômica,
a fábrica, a senzala, a casa-grande e a capela. Mas na sua
implantação topográfica, esta escala era invertida. A casa-grande e
a capela ocupavam o ponto mais alto da topografia para controlar e
serem lembradas. A fábrica e a senzala ocupavam a posição mais
baixa do terreno, junto a um pequeno porto de saveiros, nos
engenhos de beira-mar.
Havia alguma lógica nisto, para além de preconceitos sociais. Como
se tratavam de engenhos reais, que dependiam de quedas d'água,
era natural que as fábricas ficassem nos pontos mais baixos e
próximas ao porto. Mas, mesmo quando os engenhos se
expandiram para o interior, no século XIX, e a roda d'água cede
lugar à almanjarra, esta hierarquia foi mantida.
a casa-grande
Muito já se escreveu sobre a casa-grande, tema inaugurado e
romanceado por Gilberto Freire. Os mais recentes e objetivos
estudos sobre este tema no Recôncavo se devem a Esterzilda
Berenstein de Azevedo, que identificou quatro tipos dessas residências patriarcais de engenho. (AZEVEDO, 1999) As casas de
engenho dos séculos XVII e XVIII, independente de tipologia, eram
na quase totalidade assobradadas. Esta disposição pode ser
explicada, não só por razões de segurança, como devido à
estratificação social da sociedade da época e em particular dos
engenhos. No térreo ficavam quartos de hóspedes, estribarias e
pequenos quartos que em muitos casos serviam como senzalas,
provavelmente para escravos domésticos. Mas em muitos deles,
especialmente na banda ocidental do Recôncavo, temos térreos ou
porões inteiramente vazados ou servindo indistintamente de
depósitos.41
Nos andares superiores vivia a família e no sótão, criados de
confiança. Todas as vezes que a topografia permitia se entrava
diretamente ao andar nobre, como nos engenhos Cajaíba, Tarefas e
São José, todos em S. Francisco do Conde, e Novo, em Santo
Amaro. Nesta categoria pode-se incluir também o Solar do Unhão,
em Salvador. Apenas casas-grandes construídas na zona de
expansão dos engenhos, no século XIX, ao norte da Baía de Todos
os Santos, não eram assobradadas, senão térreas e avarandadas.
casas com pátio
As casas-grandes com pátio são as maiores, mais robustas e
nobres. Duas delas exibem o brasão da família, as dos engenhos
Freguesia e Cinco Rios. Outras duas apresentam também pinturas
no teto de suas capelas, o Freguesia e o Matuim. A vigência dessa
tipologia vai de 1683, com a casa-grande de João Rodrigues Argolo,