Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Carlos Caroso · Capítulo 8 de 23 · parte 2/3

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Baía de Todos os Santos: aspectos humanos

Recôncavo: território, urbanização e arquitetura

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

passos da paixão.

 

Muitas dessas ruas se bifurcam formando espaços triangulares ou

trapezoidais, a exemplo dos largos da Matriz, em Maragogipe;

Aclamação, em Cachoeira e da Bandeira, em Jaguaripe. Seguindo o

exemplo de Salvador, o poder civil quase nunca comparte o espaço

com o religioso.

 

Dinâmica diversa têm as aldeias jesuíticas. Partem de terreiros ou

praças projetadas e se expandem livremente, como a Vila de

Abrantes e Santo Amaro de Ipitanga, com uma grande igreja em

uma das suas cabeceiras. Nisso se parecem com Santo Amaro,

nascida também em função de uma igreja, com a matriz em uma

das extremidades e a Casa de Câmara e Cadeia na outra da Praça

da Purificação. É a exceção que confirma a regra.

 

São nesses largos e praças, quando à beira-mar ou rio que se

realizam as feiras semanais. Na praça Cel. José Bitencourt, junto a

velho porto, em Nazaré, se realizam as tradicionais feiras dos

caxixis, e até há poucas décadas, da banana e da farinha, sob o

portal do Sobrado dos Arcos, como em Salvador no período

colonial. Em Jaguaripe, é sob as arcadas do subsolo da Casa de

Câmara e Cadeia, junto ao porto, que se realizava a feira, com

produtos trazidos de barco. Em Cachoeira é também no cais, em

cuja proximidade existiam sobrados com arcarias, que se realiza

ainda hoje a feira de São João.

 

São em largos e praças que se realizam ternos anunciadores,

reisados, congadas e o levantamento da Bandeira do Divino, em

Jaguaripe e Cairu. A Irmandade da Boa Morte e terreiros de

candomblé preservam a cultura dos antigos escravos em Cachoeira

com procissão e lavagem de igrejas. A participação nas lutas pela

Independência da Bahia é relembrada anualmente no 25 de Junho e

2 de Julho com o encontro dos carros do caboclo e da cabocla nas

ruas de Cachoeira e São Félix. Filarmônicas de longa tradição estão se renovando no Recôncavo. E Maragogipe preserva um dos

carnavais de rua mais típicos da região, com fantasiados e

mascarados. Tradições que estão se perdendo por falta de apoio

governamental.

 

Da casa-grande à matriz

 

O Recôncavo foi um importante laboratório de arquitetura no

período colonial. Ali nasceu a capela com planta em cruz de Santo

Antônio, a Escola Franciscana de Arquitetura do Nordeste e a matriz

assobradada, que se difundiria por todo o país. Devido à limitação

de espaço, nos concentraremos na arquitetura do Recôncavo e

ilhas, com referências passageiras a Salvador. As observações

feitas aqui estão todas referendadas ao nosso Inventário de

Proteção do Acervo Cultural da Bahia, onde o leitor pode encontrar

mais informações, plantas, fotos e bibliografia sobre os edifícios aqui

descritos. 12 Lamentavelmente muitos dos edifícios citados estão em

ruína ou já desapareceram. Este é em parte um resgate

arqueológico da arquitetura do Recôncavo.

 

Arquitetura religiosa

 

Os atores

 

A formação de uma arquitetura religiosa típica do Recôncavo não

tem uma única origem. Ela resulta da contribuição de diferentes

ordens religiosas, do clero secular e de laicos reunidos em

comunidades rurais e urbanas. Destacam-se entre as ordens

religiosas os franciscanos e entre os laicos as ordens terceiras ou

irmandades. Pequena foi a presença de conventos de freiras no

Recôncavo. Assinale-se apenas o de N. S. dos Humildes (1793-

1870), em Santo Amaro, construído e reformado ao longo de quase

um século por diversos capelães.13

 

jesuítas

 

A atuação dos padres da Cia. de Jesus no Recôncavo se

concentrou em Salvador, e no Litoral. Em Salvador eles tinham o Colégio de Jesus, fundado em 1549 e ampliado três vezes, a última

em 1657-72; o Noviciado da Anunciada da Jequitaia, ou Colégio dos

Órfãos de São Joaquim (1706-28); o Seminário de Nossa Senhora

da Conceição (1756-57), no Solar do Ferrão, além da Quinta do

Tanque, (final do século XVI) e a Casa de Oração (1757).14 Fora de

Salvador, à margem da Baía de Todos os Santos, tinham a Capela

de Escada, na atual Av. Suburbana, doada por Lázaro Arévolo, em

1572.

 

No Recôncavo possuíam as aldeias de Santo Antônio do Iguape

(1561), em Cachoeira, e Santo Antônio dos Índios, em Aratuípe, a

Fazenda de Nossa Senhora da Penha, em Vera Cruz, doada em

1689 pelo Pe. José de Andrade e Sá na condição de construírem

uma capela.15 Eram proprietários, também, do engenho Real de

Sergipe, em São Francisco do Conde, doado ao Colégio de Santo

Antão de Lisboa por D. Felipa de Sá, filha de Mem de Sá, casada

com Dom Fernando de Noronha, Conde de Linhares. O engenho

fora construído por seu irmão, Francisco, em 1563. Em seu território

os jesuítas edificaram a igreja de N. S. da Purificação, que ruiu em

1678, e eles não a reconstruíram mais.

 

No Litoral Norte, como já vimos, criaram uma série de aldeias, que

demandavam Olinda, começando com a do Divino Espírito Santo

(1558), atual Vila de Abrantes, em Camaçari, seguida por São João

e Santo Antônio do Arguim, ou Massarandupió, em Mata de São

João, e terminando na fronteira com Sergipe, em Abadia e Conde.

No Litoral Sul tinham colégio, aldeias e engenho em Porto Seguro e

Ilhéus.

 

Seu maior empreendimento no Recôncavo foi o Seminário de Belém

de Cachoeira (1687-1707), edificado em terras doadas pela família

Aragão de Menezes. Deste complexo edificado em adobe, com um

só pátio e igreja central, restou apenas o templo, cujo frontão

barroco influenciaria outras igrejas da região. 16 Esta igreja

apresenta um partido curiosíssimo, com galerias de tribunas e um

consistório sobre a sacristia avarandados abertos para o exterior.

Os elementos artísticos mais importantes desse templo são o forro

da sacristia, com temas florais pintados sobre fundo negro de

inspiração oriental, e um frontal de altar, com incrustações,

transferido, há algumas décadas, para a Matriz do Rosário de

Cachoeira. Fora do Recôncavo os jesuítas tiveram aldeias no

Sertão, a partir de 1666, após a expulsão dos holandeses, mas

foram muito hostilizados pelos Ávila.17

 

franciscanos

 

A ordem religiosa que teve maior influência no Recôncavo e no

Nordeste foi a franciscana. Além do Convento de São Francisco de

Salvador, eles fundaram três grandes estabelecimentos no

Recôncavo, os conventos de São Francisco do Conde (1649), Santo

Antônio de Cairu (1654) e Santo Antônio do Paraguaçu (1658). 18

Nesses dois últimos é lançado um novo partido arquitetônico que

seria reproduzido em Pernambuco e na Paraíba criando-se a

chamada Escola Franciscana de Arquitetura do Nordeste. Esta é,

talvez, a nossa maior contribuição à arquitetura religiosa luso-

brasileira. Os franciscanos tiveram missões no sertão, em Jacobina,

e nas barrancas do São Francisco.

 

beneditinos

 

Em 1655, os Beneditinos recebem de D. Catarina Álvares, casada

com Balthazar Barbosa de Araujo, a Fazenda Laje, em São

Francisco do Conde. Ali instalam o Engenho São Bento de Sergipe

do Conde onde, no final do século XIX, foi construído o Imperial

Instituto Baiano de Agricultura. Em 1666, eles compram mais terras

de Balthazar Barbosa de Araujo e constroem o Convento de Nossa

Senhora das Brotas, hoje em ruínas. A vila de Santo Amaro se

desenvolveu em função de uma capela beneditina, de igual

invocação, que ainda se conserva. Sua influência chegou,

aparentemente, até o Acupe, no mesmo município, onde existem as

ruínas da excelente capela de São Braz, cujo risco é atribuído ao

arquiteto beneditino Frei Macário de São João.19 carmelitas

 

A contribuição desta ordem é importante, mas se resume a um

único convento em Cachoeira. Em 1688, o Cap. João Rodrigues

Adorno e sua esposa doaram aos carmelitas o terreno onde hoje se

ergue o Convento do Carmo de Cachoeira, construído,

provavelmente, entre 1715 e 1722. Em 1700, o mesmo casal doou

terreno para a Ordem Terceira do Carmo que ali constituiu entre

1691 e 1724 sua belíssima capela e cemitério. O Convento do

Carmo teve um papel importantíssimo na consolidação e

estruturação da vila de Cachoeira. A capela da Ordem Terceira do

Carmo de Cachoeira e o Convento de Santo Antônio de Cairu

conservam as mais belas talhas douradas e coleções de imagens

sacras de todo o Recôncavo. 20

 

clero secular e laicos

 

Este clero, composto por clérigos não ligados a nenhuma ordem

religiosa, conjuntamente com laicos são os responsáveis pelas

pequenas capelas rurais e pelas igrejas matrizes e de irmandades

das cidades do Recôncavo. Essas confrarias teriam um papel

importante na modelagem das matrizes e suas igrejas sedes. Se

não tinham entre seus membros arquitetos, como as ordens

religiosas, se valeram de alarifes militares ou eventualmente de

mestres de obras, sem formação acadêmica, mas, por isso mesmo,

mais abertos às inovações. Como veremos, são eles os

responsáveis pela criação das capelas rurais com planta em Cruz

de Santo Antônio e das igrejas assobradadas de irmandades e

matrizes.

 

As influências

 

No Recôncavo conviveram praticamente desde meado do século

XVI ao final do XVIII dois estilos na arquitetura erudita. Um de

natureza clássica, universal e codificada, cujas soluções devem ter

sido encontradas nos tratadistas do Renascimento, e outra barroca,

não codificada, de raiz italiana e ibérica, em grande parte reelaborada regionalmente. A estas duas tendências se somaram

influências orientais, que analisaremos adiante.

 

O clássico, do erudito ao popular

 

Clássicas são as igrejas com frontão triangular apoiado sobre

cunhais toscanos que imitam templos greco-romanos, sem sineira,

ou mais frequentemente com torre piramidal, que têm como

protótipo na Bahia a Igreja de Santo Antônio da Barra, de cerca de

1600. São exemplos desta tipologia igrejas do século XVII, como

Divino Espírito Santo, da Vila de Abrantes (1641), em Camaçari; as

capelas de São Braz, em Santo Amaro; Conceição Velha (1645), em

Conceição de Feira; Nossa Senhora de Nazaré (1649), em Nazaré

das Farinhas; e as matrizes de São Bartolomeu (Ca. 1680), de

Maragogipe, e N. S. do Rosário de Cachoeira, do final do século

XVII, estas duas últimas já com belas portadas barrocas.

 

Mas este estilo continuou em uso durante todo o século XVIII, como

atestam a Igreja da Ordem Terceira do Carmo (1724) e a capela de

N. S. da Pena, do Engenho Velho do Paraguaçu, ambas em

Cachoeira; São Miguel (1732) e São Lázaro (1734) em Salvador; a

capela de N. S. da Conceição, em Nazaré (1742) e a Matriz de São

Gonçalo dos Campos (1770).21

 

Como esses modelos teriam chegado até nós? Provavelmente por

meio dos tratados de arquitetura, em especial o de Sebastiano

Serlio, e indiretamente através de arquitetos de formação

acadêmica. Dom Clemente Maria Silva-Nigra defende que este

estilo foi difundido entre nós pelos beneditinos, em particular pelo

Frei Macário de São João, espanhol, autor do projeto do Mosteiro de

São Bento de Salvador (1679-94). Arquiteto de formação acadêmica

sólida, ele adota na igreja daquele mosteiro a planta jesuítica de Il

Gesú (1584) de Roma, de autoria de Giacomo Vignola, a mais

festejada na época e desenha uma portada clássica para a igreja de

seu mosteiro, seguindo todos os cânones do Renascimento. (SILVA-

NIGRA, 1950a, 1950b)

Pelo fato do convento de Santa Tereza (1668-1686), de carmelitas

descalças, apresentar a mesma planta, pórtico em galilé e frontão

clássico, elementos frequentes em igrejas beneditinas, o mesmo

autor atribui seu projeto a Frei Macário de São João. Não só é

plausível esta hipótese, como ousamos dizer que Santa Teresa é

uma cópia, ao pé da letra, do convento dos Trinitários Descalços

(1667), depois paróquia de San Pablo, de Salamanca, região de

onde aparentemente provinha o frei espanhol. Ali estão a mesma

fachada, com três arcos no térreo, janela e nicho central, flanqueada

de cartelas, a mesma espadaña lateral e zimbório de planta

quadrada. Esta semelhança pode ser uma chave para esclarecer a

origem e formação do arquiteto beneditino. 22

 

Com igual faro e sensibilidade, Silva-Nigra atribui ao beneditino

outros projetos, como o da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, a

Capela de São Brás, em Santo Amaro, e a portada da igreja

fundacional da mesma cidade, onde nos deparamos com frontões

clássicos para provar que foram os beneditinos que introduziram o

classicismo na Bahia. (SILVA-NIGRA, 1971, p. 89-153)23 Mas os

jesuítas também utilizaram este estilo em suas primeiras

construções na Bahia, em monumentos como a igreja do Colégio do

Divino Espírito Santo (1641), em Vila de Abrantes, e na Igreja da

Penha, em Vera Cruz, do final do mesmo século, na ilha de

Itaparica. O protótipo deste estilo seria a igreja de São Roque, de

Lisboa, do final do século XVI. Mas não há dúvida de que os

jesuítas, embora começassem com uma linha clássica, logo

aderiram ao barroco, do qual eles foram os criadores na Europa.

 

O fato é que o gosto por este estilo perdurou na Bahia até o século

XVIII, pois encontramos belas portadas clássicas em templos com

tratamento barroco, como a capela de São Roque, do engenho

homônimo, em Maragogipe; na Matriz de N. S. da Purificação, de

Santo Amaro, e capelas de N. S. da Conceição, em Salinas da

Margarida.24 São portadas de lioz, encomendadas em Portugal, mas

que demonstram a persistência deste gosto ainda na segunda

metade do século XVIII.

É curioso que este estilo, altamente erudito, tenha caído no gosto

popular, como comprovam capelas e igrejas muito simples,

especialmente na banda ocidental do Recôncavo, como as capelas

de N. S. da Conceição, em Cachoeira, Senhor dos Aflitos e Santana

de Taquari, em São Gonçalo dos Campos, e Nossa Senhora Madre

de Deus, em Jaguaripe.25

 

A torre piramidal é outro elemento persistente em templos barrocos,

seja pela tradição construtivista, como nas matrizes de Santo Amaro

de Ipitanga, São Francisco do Conde e Candeias, onde esta

terminação é um telhado de quatro águas, seja por preferência

estética, como cúpula piramidal, em Santo Antônio da Barra (Ca.

1600), em Salvador; nos conventos franciscanos de São Francisco

do Conde (1630-36); Santo Antônio de Cairu (1654); Seminário de

Belém de Cachoeira (1693); igrejas de Santo Amaro, na cidade

homônima, e de São Lourenço (1610), em Itaparica.26

 

A influência oriental

 

Em Cachoeira são abundantes os vestígios de arte oriental. Na

igreja do Seminário de Belém de Cachoeira (1687-95) existem dois

desses indícios: a pintura do teto de sua sacristia com flores

chinesas sobre fundo negro e pratos da mesma origem na sua torre

revestida de azulejos e embrechados de louça. Esta influência não

se limitou ao Seminário de Belém de Cachoeira. Na igreja da Ordem

Terceira do Carmo do mesmo município existem armários com

pinturas chinesas, no salão nobre e na sacristia, além de imagens

com traços evidentemente orientais. 27

 

Essa cidade possui também bem elaborados estuques flamejantes

no frontão da igreja do Carmo e no ossuário de sua Ordem Terceira,

bem como no frontão da Ig. de Deus Menino, na vizinha São Félix.

Menos pelo desenho, que pela sua técnica, poderíamos evocar a

tradição indiana de estuques presente nas igrejas de Santana de

Talaulin e Espírito Santo de Margão, em Goa. A mesma influência

se nota nos pedestais de cruzeiros dos conventos de Santo Antônio

de Cairu e Santo Antônio do Paraguaçu, este último com carrancas

mongóis. 28 Na arquitetura doméstica essa influência se fez presente

na bela porta do atual Museu de Arte da Bahia, nas esteiras

protegendo janelas e sacadas, bem como louça, colchas

estampadas e imagens de marfim nos oratórios. (AZEVEDO, 2004,

p. 583-601)

 

Por que essa influência se concentrou em Cachoeira?

Possivelmente por ser aquele o principal centro de produção e

comercialização de tabaco e aguardente, produtos muito apreciados

pelos orientais. Goa foi a maior importadora do fumo baiano, de

onde era reexportado para todo o Oriente, superando as

importações da metrópole.

 

Um panorama do relacionamento direto entre a Bahia e a Índia pode

ser obtido no clássico "A Bahia e a Carreira das Índias", de José

Roberto do Amaral Lapa (1968). Nos três primeiros séculos de

colonização, foi registrada a passagem por Salvador, de 253 barcos

da Carreira das Índias, por diferentes razões e pretextos. Nosso

porto, por sua localização privilegiada num dos vértices da rota

triangular Portugal, Brasil e Índia e pela variedade de produtos que

oferecia para a troca, era o local de 90% das arribações dessas

naus no Brasil. (LAPA, 1968, p. 2, 277-278) A Bahia chegou a ser,

em 1697, o porto de maior volume de exportação e importação do

além-mar português. Note-se que dessas paradas, dois terços eram

de torna-viagem, isto é, provenientes da Índia. (AZEVEDO, 2004, p.

583-601)

 

Aliás, no tocante ao comércio clandestino de tabaco para o

Oriente, praticado na Bahia, os registros são inúmeros. Até

mesmo os soldados e marinheiros que compunham as

tripulações dos navios da Carreira não lhe permaneciam

indiferentes. Chegavam a ir a Vila de Cachoeira,

 

onde se produzia fumo de superior qualidade, para trocá-lo por

mercadorias de procedência asiática, afirma José Roberto Lapa

(2004, p. 297).

A par das trocas de mercadorias, davam-se também trocas

culturais. Ainda no século XVI, ourives, pintores e bordadeiras

indianas foram mandados para Lisboa para ensinarem sua arte e

aprenderem o sentimento da arte cristã. (DIAS, 1995) Quantos

destes artistas e artesãos terão passado ou permanecido na Bahia?

Cachoeira foi também o primeiro porto de escoamento do ouro vindo

de Minas Gerais e depois de Rio de Contas e Jacobina. A produção

de joias e alfaias de ouro chegou a ocupar onze ourives em

Cachoeira, no período 1764-65. (OTT, 1988, p. 176-177) É

compreensível que existisse nessa cidade homens de negócio,

contrabandistas e artesãos orientais ou portugueses que viveram no

Oriente. (AZEVEDO, 2004, p. 583-601) O fato é que identificamos

na arquitetura religiosa da região influências orientais muito mais

profundas que puramente ornamentais como querem alguns

chegadas até nós via moda rococó portuguesa, como veremos

adiante. A milhares de quilômetros de Portugal, a circulação de

mercadorias, pessoas e ideias estava longe de ser controlada pela

coroa.

 

Barroco regional

 

As igrejas barrocas baianas adotam uma volumetria muito sóbria, na

linha da chamada arquitetura chã portuguesa. Não possuímos

igrejas de plantas ondulantes, borrominescas, como as que

floresceram em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Seu barroquismo

se limitou a uma fachada com frontão de volutas ou recorte rococó,

torres piriformes ou bulbosas e interiores com azulejos e talha

dourada, a exemplo da capela da Ordem Terceira do Carmo de

Cachoeira (1715-22); das matrizes de Nossa Senhora da

Purificação (1706-27) e Oliveira dos Campinhos, em Santo Amaro;

Nossa Senhora da Ajuda, de Jaguaripe (início do XVIII); da capela

do Engenho Freguesia (ca. 1760), em Candeias, e de numerosas

outras igrejas do Recôncavo, muitas das quais são originárias do

século XVII, mas tiveram suas fachadas refeitas no século XVIII. 29

 

Como no caso anterior, devemos perguntar de onde vieram esses

modelos? Como o barroco nunca foi codificado, o desenho desses frontões se difundiu a partir das primeiras igrejas barrocas da região,

como a Sé de Salvador (1625-36), reconstruída depois da ocupação

holandesa e demolida em 1933, e de igrejas de conventos

franciscanos, a exemplo de São Francisco do Conde (1649), Santo

Antônio de Cairu (1654), Santo Antônio do Paraguaçu (1658 ) e

Salvador (1686), esses sempre com um nicho para a exibição da

imagem do orago, e de igrejas jesuíticas, como a do Colégio de

Salvador (1691) e do Seminário de Belém de Cachoeira (1693).

 

Esses frontões diversos vão sendo copiados, modificados e

mesclados, surgindo um padrão barroco baiano, que é diverso do

pernambucano e de outros estados. Os frontões com grandes

volutas, servindo de contraforte para um corpo central mais elevado,

vão se transformando em um arranjo de volutas puramente

decorativo para terminar com frontões recortados miudinho de gosto

rococó.

 

As tipologias religiosas

 

A arquitetura religiosa do Recôncavo é de uma grande diversidade,

mas consolidou tipologias bem caracterizadas. Compreende desde

pequenas capelas rurais, passando por igrejas assobradadas

urbanas até monumentais conventos.

 

Capelas Rurais

 

A quase totalidade das capelas rurais fazia parte do complexo dos

engenhos de açúcar algumas, inclusive, anexas à casa-grande. Isto

explica algumas de suas características, como os copiares frontais e

alpendres laterais, para separar os fiéis brancos e pardos,

geralmente familiares ou assalariados, dos escravos negros.

 

capelas de planta centrada

 

O mais antigo monumento religioso da Bahia e do Brasil é uma

capela de planta centrada, hexagonal, recoberta por cúpula esférica,

partido claramente renascentista. É a capela de N. S. da Conceição,

da Casa da Torre de Garcia D'Ávila, em Tatuapara, atual Praia do Forte. A capela e casa anexa já existiam em 1584 conforme

descrição de Gabriel Soares. A residência deve ter sido ampliada

em pelo menos duas oportunidades, mas a parte anexa à capela

com duas salas térreas recobertas por abóbadas de aresta é da

mesma fábrica da capela. Existem duas capelas de igual partido em

Portugal: São Gregório de Tomar, coeva, e Madre de Deus, em

Aveiro, do século XVII.

 

Uma segunda capela com o mesmo partido, construída na segunda

metade do século XVII, encontra-se no Engenho D'Água, em São

Francisco do Conde. É a capela do Senhor Bom Jesus de Bouças.

Sua nave, de planta octogonal, é envolvida em partes iguais por um

alpendre frontal, sacristia e ossuário que ladeiam a capela-mor.

Embora tardia, ela se assemelha em particular à capela de São

Gregório de Tomar, pela presença do alpendre e pelo fato de seu

copo central se elevar acima dos demais elementos do programa.30

(AZEVEDO, 1996)

 

capelas em cruz de santo antônio

 

A planta mais comum nas capelas rurais durante os séculos XVII e

XVIII foi a chamada planta em cruz de Santo Antônio, o tau do

alfabeto grego, com seu eixo principal formado pela nave e capela-

mor, e o travessão pela sacristia e pela "casa da fábrica". Muitas

vezes a "casa da fábrica" se ligava à capela-mor por uma janelinha

protegida por treliça, que permitia ver, sem ser visto. O exemplo

mais antigo desta tipologia que se conserva no Recôncavo é a

capela de N. S. de Escada, de 1556, em Salvador, ainda que com

uma só sacristia.

 

Esta planta teria sido adotada em 1630 na Igreja da Palma em

Salvador, segundo planta existente no Arquivo Ultramarino de

Lisboa. Ela foi adotada em muitas capelas rurais do mesmo século,

no Recôncavo. O mais notável exemplar dessa tipologia, por seu

requinte e erudição, é a Capela de N. S. da Pena do Engenho Velho

do Paraguaçu, em Cachoeira, de 1660. É uma fusão do partido

centrado renascentista com a nova planta em Cruz de Santo Antônio. A capela possui nave quadrada integralmente revestida de

azulejos recoberta por cúpula também azulejada sobre pendentifs.

 

Esta planta foi muito adotada em capelas do século XVIII, a exemplo

das capelas de Bom Jesus dos Pobres, em Santo Amaro, e N. S. da

Conceição, em Salinas da Margarida e dos engenhos Pindobas, em

Candeias; Santo Antônio do Rio Fundo, em São Felipe; São

Bernardo, em Jaguaripe; e Capanema, em Maragogipe. São

frequentes também capelas com este partido, mas incompleto, com

uma só sacristia.31

 

Muitas dessas capelas são complementadas por um alpendre de

três águas, que antecede a nave, conhecido como copiar, termo tupi

que designa o alpendre situado na entrada da taba indígena.

Capelas rurais com alpendres frontais, mas sem planta em T, são

frequentes em Portugal e aparentemente resultam da abertura

progressiva de um pronau fechado, cujo primeiro exemplar

conhecido é a matriz de Lourosa, do século X, em Coimbra.

(AZEVEDO, 1983)

 

Esta espécie de saguão que antecede a nave foi transposta para o

Recôncavo, como dão testemunho iconografias antigas das capelas

de N. S. da Ajuda, em Cachoeira; Santo Antônio de Velasquez, em

Vera Cruz, e N. S. de Nazaré, do Engenho Passagem dos Teixeiras,

em Candeias. De tipo inteiramente avarandado são os copiares das

capelas de Escada, N. S. de Nazaré (1649) e de N. S. da Conceição

(1742), ambas em Nazaré das Farinhas.32 Este partido tinha,

porém, um inconveniente, as escadas de acesso ao púlpito, ao coro

e à sineira ficavam no exterior, ao relento.

 

capelas com alpendres laterais

 

Outro tipo de capela rural comum no Recôncavo é o de alpendres

laterais. Estes avarandados laterais, além de atenderem a um maior

número de fiéis durante as festas, serviam como transição ambiental

e social entre o interior e o exterior e protegiam as escadas

mencionadas anteriormente. O exemplo mais erudito dessa tipologia é a capela de São Brás, em Santo Amaro, de meados do século

XVII, atribuída ao risco de Frei Macário de São João. (SILVA-

NIGRA, 1971) Temos outros exemplos deste século, mas com

planta assimétrica, como a Capela de N. S. da Encarnação, de São

Sebastião do Passé e Santo Amaro de Catu, em Vera Cruz.

 

Existem exemplos dessa tipologia com plantas simétricas e com

alpendres suportados por arcaria nas capelas dos engenhos

Campina, em Cachoeira, e N. S. do Vencimento, do Engenho

Paramirim, em São Francisco do Conde, ambas do século XVIII, e

no Água Boa, em Terra Nova, do século XIX. Alguns exemplares

são igrejas com naves muito altas e alpendres de pés direitos

duplos, como as igrejas de Santo Antônio dos Índios, em Aratuípe;

Santo Amaro do Catu, em Vera Cruz, e Santana de Taquari, em São

Gonçalo dos Campos. A igreja de Oliveira dos Campinhos, em

Santo Amaro, é uma das poucas que manteve os alpendres laterais

baixos. Um caso interessante é o da Capela do Engenho Lagoa, em

São Sebastião do Passé, em que um alpendre em arcos envolvia

toda a nave. Hoje restam apenas os alpendres laterais. Exemplo

semelhante só em Queimadas, na Capela de Santo Antônio. 33

 

igrejas assobradadas

 

O aparecimento das igrejas com tribunas está, aparentemente,

ligado à multiplicação e ao fortalecimento das associações religiosas

laicas, as ordens terceiras ou irmandades. Essas associações, que

representavam comerciantes, profissionais, escravos forros e

pardos, foram as primeiras organizações da sociedade civil

consentidas pela coroa, sob o manto da caridade cristã, oferecendo

serviços de seguridade social a seus membros, como internação em

enfermarias ou ajuda em caso de doença, asilos para idosos e

crianças abandonadas e enterro para seus afiliados em suas

igrejas-sedes.

 

Tinham inevitavelmente caráter ideológico e político, fazendo lobby

para obtenção de vantagens para seu grupo junto às autoridades.

Daí surgir uma grande emulação entre elas, durante as procissões e construção de suas sedes suntuosas. As primeiras irmandades

devem ter funcionado nas "casas da fábrica" ou mesmo sacristias

das matrizes. Mas à medida que cresciam e se fortaleciam

buscavam espaços privativos para instalação de seus consistórios e

secretarias. Como muitos de seus membros cantavam, eles

praticamente monopolizavam o coro das igrejas-sedes durante as

cerimônias.

 

Por outro lado, as igrejas haviam crescido em altura e com ela os

alpendres laterais. Como é natural, estendeu-se o coro pelas

laterais da nave aproveitando o pé direito elevado dos alpendres e

ocupou-se o espaço sobre as sacristias com escritórios e

consistório. Em outras palavras, cria-se todo um andar em forma de

anel em volta da nave e capela-mor privativo das irmandades. Os

alpendres haviam perdido sua função na cidade e pouco a pouco se

substituem seus pilares e arcarias por muros portantes para

sustentar o sobrado.

 

As tribunas de uma igreja, como as sacadas dos sobrados e os

camarotes de um teatro, não eram apenas um local confortável para

assistir a um evento público, senão um local estratégico para

observar e ser visto pelo público.

 

Essas tribunas são os locais aonde os Irmãos privilegiados

poderiam assistir aos atos que se passavam na nave e capela-

mor, locais por todos disputados. As tribunas da capela–mor

eram, geralmente, ocupadas pelo Juiz, Ministros ou Prior. Estes

costumes podem ser comprovados pela resolução da (Ordem

Terceira da) S.S. Trindade de 1861, abaixo transcrita: "Foi tão

bem deliberado que nas ocasiões de Festividades em nossa

Ordem, cumpria que o Irmão Vigário fazer feixar todas as

tribunas mandasse, ou entregasse a cada um dos Mezarios a

chave da que lhe pertencer, conforme seos dísticos, e qdo as

mesmas tribunas não tenhão chaves ficava authorizado a

manda-las por", comenta Socorro Targino Martinez.

(MARTINEZ, 1979, p. 181)

Os chamados corredores laterais não tinham função específica.

Muitos deles eram usados como depósitos de andores ou ossuários.

Neles se enterravam escravos e mendigos, já que a nave e capela-

mor eram reservadas aos irmãos. Na maioria dos casos, eles nem

eram corredores, pois sua continuidade era interrompida pela

presença de capelas laterais e falsos transeptos. Eles eram meros

saguões de acesso ao púlpito, coro, tribunas e torres.

 

Em muitos casos, as arcarias laterais era apenas uma solução

estrutural para a sustentação da galeria de tribunas, como se pode

observar nas primeiras igrejas desse tipo, como São Bartolomeu de

Maragogipe e Santo Amaro de Ipitanga, ambas do final do século

XVII. A terceira igreja com tribunas deste período, Nossa Senhora

do Monte Recôncavo, em São Francisco do Conde, é um caso

diverso. Ali a arcaria lateral servia como portal da igreja, aberto para

a praça da vila. Sua fachada principal está na borda de um espigão

que despenca abruptamente sobre a baía dificultando sua

interlocução com a vila.

 

Reforça a hipótese dessas arcarias terem função prioritariamente

estrutural, o fato da matriz de Santo Amaro ter possuído tais

arcarias, segundo documento do vigário Pe. José Borges de Barros,

de 1727. Posteriormente, esses arcos foram entaipados para formar

os atuais corredores laterais. Corrobora esta hipótese a existência

de arcos de descarga, também entaipados, na Ig. de N. S. do

Amparo, na mesma cidade. 34

 

As igrejas com tribunas se difundiram, no início do século XVIII, no

Sul do país, aparentemente através de Minas Gerais, e no Nordeste

através de Pernambuco, ambas províncias muito ligadas à Bahia,

naquela época. A razão dessa planta ser comum a matrizes e

igrejas de irmandades e usada até o final do século XIX decorre do

fato de grande número de matrizes serem também sedes de

irmandades, daquelas mais pobres, que não tinham condições de

construírem suas sedes próprias.

A capela da Ordem Terceira de S. Francisco de Cairu nunca chegou

a ser concluída. As Misericórdias de Cachoeira, Santo Amaro e

Maragogipe e a Ig. de N. S. do Amparo, da Irmandade dos Homens

Pretos, de Santo Amaro, são modestíssimas na comparação com

suas congêneres de Salvador. A Irmandade da Boa Morte, de

mulheres de cor, tem peregrinado em diversas igrejas, estando

agora na modesta capelinha de Ajuda de Cachoeira.

 

Ao contrário do que acontecia em Salvador, em que as capelas de

ordens terceiras e irmandades eram mais ricas que as igrejas de

conventos e matrizes, no Recôncavo são os conventos e matrizes

os monumentos mais requintados, com painéis de azulejos, obras

de talha e tetos com pintura ilusionistas, a exemplo dos conventos

de Santo Antônio de Cairu e São Francisco do Conde, o Seminário

de Belém da Cachoeira e as matrizes de N. S. do Rosário, de

Cachoeira; N. S. da Purificação e Oliveira dos Campinhos, de Santo

Amaro; e São Pedro, de Muritiba. A exceção é a Ordem Terceira do

Carmo de Cachoeira, com sua belíssima capela e cemitério.

 

O ápice dessa evolução é uma igreja com falso transepto inscrito

dentro de um retângulo perfeito, que segue a tradição das igrejas

jesuíticas luso-brasileiras, como a antiga Igreja da Sé de Salvador,

mas que ao invés de múltipals capelas laterais, apresenta tramos de

corredores que servem às mais diversas funções. São exemplos

plenamente desenvolvidos dessa tipologia as matrizes de N. S. da

Purificação, de Santo Amaro; N. S. do Rosário, de Cachoeira; N. S.

da Ajuda, de Jaguaripe; N. S. de Nazaré e São Gonçalo dos

Campos respectivamente nas cidades homônimas. 35

 

Recapitulando, a tipologia das matrizes e igrejas de irmandades do

Recôncavo é o resultado da evolução da capela de partido em Cruz

de Santo Antônio, que ganhou alpendres laterais superpostos,

depois, por galerias de tribunas e um par de torres frontais. Tudo

organizado segundo um eixo longitudinal de simetria e contido em

um retângulo perfeito. A construção de cada igreja desse tipo, ao

longo de décadas e até séculos, refaz esta caminhada ao justapor

cada um dos elementos constitutivos de seu programa, mas sem perder o projeto original de construir uma igreja geometricamente

perfeita em planta e muito rica volumetricamente.

 

Muitas dessas igrejas não chegaram a ser concluídas e pararam

numa dessas etapas. Exemplos disto são a Ig. de N. S. do Rosário,

em Jaguaripe, que com planta em T, já apresenta uma nave com

vãos para receber futuras tribunas e a Matriz de São Pedro, em

Muritiba, que embora ainda não tenha corredores e tribunas já

possui arranque de duas torres no alinhamento dos corredores e

sacristia, ou ainda a Matriz de Deus Menino, em São Félix,

esperando o corredor, tribunas e torre do lado direito para completar

sua planta e imagem de matriz.36

 

Alguns engenhos adotaram este partido em suas capelas, que são

verdadeiras igrejas, como os engenhos Mataripe e Quicengo, em

São Francisco do Conde, Freguesia, em Candeias, e Pouco Ponto,

em São Sebastião do Passé. Quando a capela era anexa à casa do

engenho, como na Freguesia e no Pouco Ponto, as tribunas eram

ligadas diretamente à área íntima da casa, caracterizando estes

espaços como privativos da família. 37

 

Pode-se dizer, então, que as igrejas matrizes e de irmandade do

século XVIII são o desenvolvimento das capelas rurais de alpendres

laterais, que serviam para atrair e controlar os lavradores, mas que

nas vilas e cidades viram pelo avesso esses alpendres e os

duplicam, transformando-os em camarotes para seus dirigentes

melhor se exibirem e controlarem a comunidade de fiéis reunida na

nave. O resultado é uma igreja barroca de ópera, com palco, platéia

e camarotes.

 

conventos franciscanos

 

Em meados do século XVII, surge no Recôncavo um modelo de

igreja original. É o convento de Santo Antônio de Cairu, iniciado em

1654 e terminado em 1661, cujo projeto é repetido, pouco depois,

em Santo Antônio do Paraguaçu (1658), em Cachoeira. A autoria

desses conventos é do Fr. Daniel de São Francisco. 38 Este modelo logo se difundiria em Pernambuco e Paraíba, formando a Escola

Franciscana de Arquitetura do Nordeste. Três elementos de origem

indo-portuguesa parecem ter contribuído para a criação do primeiro

partido arquitetônico genuinamente brasileiro:

 

a) presença de um grande cruzeiro sobre peanha escultural em

meio ao adro que precede a igreja;

 

b) fachada inscrita em um triângulo e dividida por pilastras,

frisos e cornijas em cinco tramos horizontais e três pisos

escalonados;

 

c) galerias laterais avarandadas com um ou dois pisos,

debruçando-se em tribunas sobre a nave e abertas para o

exterior.

 

A presença de um cruzeiro sobre um pedestal de pedra ou alvenaria

em meio a uma praça fronteiriça à igreja é comum em Goa.

Segundo Orlando Ribeiro sua origem está na tulôsse, planta

sagrada hindu posta sobre um pedestal, a que se presta culto e se

dedicam oferendas. Em muitos casos a tulôsse cedeu lugar a um

obelisco sobre o mesmo pedestal. O sincretismo religioso fez com

que os chamados cristãos de São Tomé, anteriores à chegada dos

missionários portugueses, em lugar da tulôsse ou obelisco

colocassem um cruzeiro, induzindo a sua veneração. (Cf. CARITA,

2001; RIBEIRO, 1956)

 

Os franciscanos foram os primeiros religiosos portugueses a

chegarem à Índia. Acompanharam Vasco da Gama como capelães

de suas naves, em 1498, e voltaram para estabelecerem-se

definitivamente com a expedição de Cabral, quando este descobriu

oficialmente o Brasil. (CHACON, 1995, p. 60) Em 1516, eles

começaram a construir conventos em Cochim e, em 1519, em Goa.

A inspiração oriental dos adros franciscanos nordestinos fica

patenteada pela presença de carrancas com traços mongóis no

convento do Paraguaçu e de leões de guarda nos adros de

conventos do Recife e João Pessoa. (BAZIN, 1983, v. 1, p. 152)

A segunda característica comum de nossos templos franciscanos e

igrejas da Índia é o fato de suas fachadas se inscreverem em um

triângulo. Os templos piramidais, sugerindo uma montanha sagrada,

são comuns na religião hindu. A arquitetura das igrejas cristãs dos

seguidores de Santo Tomé e indo-portuguesas, que as sucederam,

casa a concepção do templo hindu com a concepção cristã de

eclésia ou assembleia de fiéis. O modelo que mais diretamente

influenciou as igrejas de Cairu e do Iguape, em Cachoeira, é a igreja

com fachada de cinco tramos horizontais e três ou mais pisos,

reticulada por pilastras e cornijas, tudo inscrito em um triângulo. Ela

pode ser encontrada com certa frequência em Cochim e no estado

de Kerala.

 

Um terceiro elemento parece ligar as igrejas franciscanas do

Recôncavo à arquitetura indo-portuguesa. Em sua evolução natural,

as varandas laterais das igrejas de Kerala se transformaram em

galerias duplas ensejando a volta à fachada tradicional da igreja

portuguesa com duas torres, como ocorre em São Tomás, de

Thumpoly. Esta galeria aberta para o exterior teria função de

proteger a nave contra o sol e a chuva durante as monções, num

período em que não se dispunha de vidro plano. Este tipo de planta

é, curiosamente, muito semelhante ao da igreja do Seminário de

Belém de Cachoeira (1687/93), onde existe, como vimos, uma

notável pintura oriental de forro de e pratos de Macau na torre e se

repete em Cairu e no Iguape.

 

Tal como São Tomás, Belém de Cachoeira tem sua nave e capela-

mor totalmente contornadas por uma varanda elevada aberta para o

exterior. 39 Não seria uma surpresa esta planta em um seminário

jesuíta, já que a São Tomás, em Thumpoly, é da mesma ordem.

Identificamos vestígios de um consistório avarandado desse tipo na

capela do Colégio de Anchieta, no Espírito Santo. O assoalho do

consistório se estragou com as chuvas e o avarandado foi

entaipado, ficando a sacristia com pé direito duplo.

 

As igrejas de Cairu e do Iguape, embora apresentem semelhanças,

não são cópias de igrejas indo-portuguesas. Primeiro, suas fachadas se elevam sobre galilés, o que não ocorre na Índia.

Segundo, seu tratamento é francamente barroco e erudito, enquanto

que as indianas são maneiristas e populares. Além do mais, uma ala

do convento ou muro da roça, avançando para definir o adro, parece

ter origem nos primeiros conventos franciscanos do Nordeste.

Embora os frontispícios das igrejas baianas conservem uma

estrutura compositiva remotamente maneirista, são fachadas

visivelmente barrocas, inspiradas em Roma, onde havia estado Fr.

Daniel de São Francisco.

 

Da Bahia esse novo modelo passaria a Pernambuco, provavelmente

levado por Frei Daniel de São Francisco, que do Recôncavo retorna

ao Recife, onde morre em 1692. Entre 1700 e 1718 reconstrói-se o

convento franciscano de João Pessoa, na Paraíba.

 

Santo Antônio de João Pessoa nada mais é do que Cairu,

interpretado em estilo rocaille; é uma das mais magníficas

composições da América Latina e possui um dos mais belos

décors produzidos pela arte rococó,

 

afirma enfaticamente Germain Bazin (1983, v. 1, p. 149).

 

igrejas de três naves

 

Com a nova liturgia da contrarreforma, as igrejas de três naves são

abolidas. Mas na transição do século XIX para o XX algumas igrejas

de corredores laterais, da banda oriental do Recôncavo, são

transformadas em três naves, aparentemente com o intuito de

aumentar sua capacidade. Esta transformação é feita com a

abertura de arcos nas paredes laterais da nave, como nas igrejas de

Santo Amaro e São Domingos de Gusmão, esta reformada em 1923

mantendo as tribunas superiores, ambas em Santo Amaro. Na Igreja

de Santana de Catu, reformada em 1871, e Bom Jesus de Bouças,

em Terra Nova, são criadas arcarias sobrepostas que procuram

conciliar três naves com tribunas.40

 

Em outros casos, os muros da nave são substituídos por pilares que

vão suportar o telhado, como na Matriz de Candeias e Ig. de São Pedro do Rio Fundo, em Terra Nova. Encontramos apenas uma

igreja de três naves na parte ocidental do Recôncavo, a Igreja de

São Benedito, em São Felipe, ampliada em 1947 com a abertura de

arcos e a criação de sacristias e naves laterais.

 

A arquitetura civil

 

Um complexo engenhoso

 

A agroindústria açucareira implantada no Recôncavo e em

Pernambuco, ainda na segunda metade do século XVI, é talvez a

primeira empresa multinacional. Ali se juntaram capitais flamengos,

tecnologia italiana, logística portuguesa, mão de obra africana,

produção brasileira e comercialização holandesa na Europa. Não

menos complexas eram as instalações para a produção do açúcar

para o mercado internacional.

 

Este complexo compreendia, por ordem de importância econômica,

a fábrica, a senzala, a casa-grande e a capela. Mas na sua

implantação topográfica, esta escala era invertida. A casa-grande e

a capela ocupavam o ponto mais alto da topografia para controlar e

serem lembradas. A fábrica e a senzala ocupavam a posição mais

baixa do terreno, junto a um pequeno porto de saveiros, nos

engenhos de beira-mar.

 

Havia alguma lógica nisto, para além de preconceitos sociais. Como

se tratavam de engenhos reais, que dependiam de quedas d'água,

era natural que as fábricas ficassem nos pontos mais baixos e

próximas ao porto. Mas, mesmo quando os engenhos se

expandiram para o interior, no século XIX, e a roda d'água cede

lugar à almanjarra, esta hierarquia foi mantida.

 

a casa-grande

 

Muito já se escreveu sobre a casa-grande, tema inaugurado e

romanceado por Gilberto Freire. Os mais recentes e objetivos

estudos sobre este tema no Recôncavo se devem a Esterzilda

Berenstein de Azevedo, que identificou quatro tipos dessas residências patriarcais de engenho. (AZEVEDO, 1999) As casas de

engenho dos séculos XVII e XVIII, independente de tipologia, eram

na quase totalidade assobradadas. Esta disposição pode ser

explicada, não só por razões de segurança, como devido à

estratificação social da sociedade da época e em particular dos

engenhos. No térreo ficavam quartos de hóspedes, estribarias e

pequenos quartos que em muitos casos serviam como senzalas,

provavelmente para escravos domésticos. Mas em muitos deles,

especialmente na banda ocidental do Recôncavo, temos térreos ou

porões inteiramente vazados ou servindo indistintamente de

depósitos.41

 

Nos andares superiores vivia a família e no sótão, criados de

confiança. Todas as vezes que a topografia permitia se entrava

diretamente ao andar nobre, como nos engenhos Cajaíba, Tarefas e

São José, todos em S. Francisco do Conde, e Novo, em Santo

Amaro. Nesta categoria pode-se incluir também o Solar do Unhão,

em Salvador. Apenas casas-grandes construídas na zona de

expansão dos engenhos, no século XIX, ao norte da Baía de Todos

os Santos, não eram assobradadas, senão térreas e avarandadas.

 

casas com pátio

 

As casas-grandes com pátio são as maiores, mais robustas e

nobres. Duas delas exibem o brasão da família, as dos engenhos

Freguesia e Cinco Rios. Outras duas apresentam também pinturas

no teto de suas capelas, o Freguesia e o Matuim. A vigência dessa

tipologia vai de 1683, com a casa-grande de João Rodrigues Argolo,

Continuar: parte 3 de 3