Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 7 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 7

Curando Feridas e Missões Canceladas

 

ALDBOURNE

13 de julho-16 de setembro de 1944

 

— Foi a única vez em que vi o exército fazer alguma coisa correta — disse Gordon Carson. — Eles nos puseram naqueles LSTs, nos levaram para Southampton e depois de volta para Aldbourne, nos deram dois conjuntos completos de uniformes novos em folha, todo o nosso pagamento atrasado, 150 dólares ou mais, sete dias de licença e, lá pelas 7, 8 horas, estávamos de volta a Londres.

Os membros da Easy não se lembravam muito bem dessa semana que passaram em Londres. Os pára-quedistas americanos foram os primeiros soldados oriundos da Normandia a voltar para a Inglaterra; os jornais tinham dado amplo destaque e cobertura à atuação deles; todos na cidade queriam pagar-lhes uma refeição ou uma cerveja — nos primeiros dias. Mas os jovens heróis passaram da conta. Beberam demais, quebraram muitas janelas e cadeiras, meteram-se em muitas brigas com outros tipos de soldados. Foi uma das semanas mais turbulentas na história de Londres. Um jornal comparou os prejuízos causados à cidade aos que resultaram dos bombardeios sofridos por ela na 2ª Guerra. Corria pela cidade a seguinte piada: a de que os soldados americanos da 101ª receberiam uma homenagem do presidente pelo cumprimento do dever além do que se exigia deles durante a semana que ficaram em Londres.

Nem todos foram para Londres. Harry Welsh seguiu para a Irlanda, a fim de visitar parentes. Winters ficou em Aldbourne para descansar, refletir e enviar cartas aos parentes dos soldados mortos ou feridos em combate. Gordon e Lipton, depois de se recuperarem dos ferimentos, foram para a Escócia, com o intuito de conhecerem suas paisagens.

No hospital, depois da evacuação da Normandia, Gordon fora submetido a enxerto de pele; depois, teve a perna engessada da cintura à ponta do dedão do pé. Ele era o único homem ferido em combate na enfermaria; os outros estavam doentes ou tinham se ferido em acidentes na Inglaterra. Ele era, portanto, “alvo de grande respeito. Eles me reverenciavam”. Em três ocasiões, oficiais foram visitá-lo para pôr uma Purple

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Heart no travesseiro dele. — Eu baixava os olhos em sinal de modéstia e agradecia

em voz baixa ao pequeno grupo que se reunia para ver o herói. — Depois, ele escondia a medalha e ficava esperando a próxima.

Após oito semanas no hospital, ele voltou para a Companhia E. (Era parte da política dos comandos das unidades aerotransportadas fazer soldados feridos em combate voltar para sua companhia de origem; na infantaria, quando os feridos se recuperavam e ficavam prontos para voltar ao serviço, eram encaminhados para onde quer que fossem necessários. A política dos aeronautas era, na opinião de todos os pára-quedistas, uma das coisas mais sábias que seus comandantes tinham feito; já a política para a infantaria era, na opinião de todos, uma das maiores idiotices criadas pelo exército.)

O sargento Talbert voltou para a Easy no mesmo dia que Gordon. Uma vez que seu ferimento tinha sido infligido pela baioneta do praça Smith, em vez de pelo inimigo, ele não teve direito a receber a Purple Heart. Gordon disse a ele que não se preocupasse, pois ele mesmo poderia condecorá-lo com uma das medalhas que recebera. O 3º Pelotão reuniu-se e preparou uma cerimônia digna para Talbert. Gordon e Rogers tinham feito um poema para imortalizar Talbert, Smith “e a baioneta que se interpusera entre eles”. O título do poema era “A Noite da Baioneta”; felizmente para a posteridade, o poema não foi preservado (ou talvez seus autores tenham se recusado a repassá-lo a mim para incluí-lo neste livro). — Eu poderia ter dado uns seis tiros no filho da mãe quando ele tentou furar-me com aquilo, mas decidi que não podíamos nos dar ao luxo de perder um único homem sequer então — declarou Talbert, indignado.

Alguns dos feridos se mostravam preocupados com a possibilidade de ficarem incapacitados para sempre. Malarkey descobriu isso quando ele e Don Moone estavam sentados no salão do rancho, e Lipton passou por eles. — Fala, aleijão — exclamou Malarkey. Lipton se virou e agarrou os dois pelo pescoço, levantou-os das cadeiras, e os fez saber que os enfrentaria ali mesmo, um de cada vez ou os dois juntos. Eles ficaram pálidos e disseram que não haviam tido a intenção de ofendê-lo tanto assim com a piada. Mais tarde, Lipton retornou, com a face enrubescida, e pediu desculpas por ter perdido o controle. Acrescentou que estava com medo de que o ferimento na mão se revelasse um prejuízo permanente, que o impedisse de jogar futebol na faculdade.

Por trás da tentativa inconsciente de liberação da tensão em Londres, ou das ineficazes tentativas de Gordon de criar um ambiente de descontração, estava a realidade que esses homens tinham enfrentado e sua apreensão em relação àquilo que ainda enfrentariam.

O sargento Martin deu uma olhada nos alojamentos do 1º Pelotão em sua primeira noite de retorno da Normandia e viu que metade dos combatentes que tinham estado lá de setembro de 1943 a maio de 1944 se haviam ido. Ele disse a Guarnere: — Meu Deus, Bill, temos aqui alojamentos apenas com a metade da tropa e nem começamos a combater para valer ainda. Não temos a menor chance de conseguirmos sair vivos desta coisa.

— Se perdemos metade dos alojamentos numa maldita e insignificante operação na Normandia — Guarnere ajuntou —, esqueça mesmo isso, pois jamais voltaremos para casa.

Eles passaram seus dias de licença na Escócia, onde fizeram tatuagens e ficaram imaginando: mesmo “tendo perdido tantos homens assim numa missão insignificante como essa e mesmo com praticamente a guerra inteira pela frente, por que não?”.

O praça David Kenyon Webster tinha saltado com a Companhia do QG do 2º Batalhão no Dia D. Alguns dias depois, foi ferido, evacuado para a Inglaterra e levado de volta para Aldbourne antes de o batalhão retornar. Ele se escondeu atrás da cabana da Cruz Vermelha quando “a estreita coluna de sobreviventes cansados se aproximou da área marchando”, na esperança de que ninguém o olhasse na cara e perguntasse: “Onde

você estava, Webster, quando os Krauts{32} lançaram o grande contra-ataque no outro lado de Carentan, a Companhia F cedeu terreno e o flanco da Companhia E ficou exposto?”

Embaraço à parte, Webster ficou muito feliz ao ver os amigos voltarem. “Você conhece todo mundo de vista no batalhão”, ele escreveu, “quando não pelo próprio nome, e você se sente como se fizesse parte de uma grande família. Ficamos ligados a esses homens tal como a nenhum outro civil.”

Ele fez requerimento para voltar para a Companhia E, pois, na Companhia do QG, atuara como carregador de munição durante a maior parte de seu tempo de serviço. Ele fizera disparos em sua metralhadora somente uma vez na Normandia, mas “ardia em mim o desejo de combater. Eu queria acabar logo com a guerra; queria combater como fuzileiro numa companhia da linha de frente”. Ele foi engajado no 1º Pelotão.

Webster achava que, tal como dissera numa carta enviada aos pais, “ainda estou vivo por sorte. Acho que não sobreviverei ao próximo salto. Se eu não voltar, tentem não se deixar afetar tanto por causa disso. Gostaria de conseguir persuadi-los a considerar a morte algo tão normal quanto a consideramos aqui. No calor da batalha, sempre esperamos sofrer baixas, sabemos que alguém morrerá e não ficamos surpresos quando um amigo leva uma rajada de metralhadora na cara. Temos de continuar a combater. Não é como a vida de civil, na qual morte súbita é algo tão inesperado”.

Quando a mãe dele lhe enviou uma carta para dizer quanto ficara alarmada com a atitude dele (e para falar das preocupações dela pelo irmão mais novo dele, que tinha acabado de entrar para uma unidade de pára-quedistas), Webster foi incisivo em sua resposta: “Você gostaria que fosse o filho de outra pessoa a morrer na lama? Você quer que vençamos a guerra, mas, aparentemente, não quer que seus filhos se envolvam no derramamento de sangue diretamente. É uma atitude estranhamente contraditória.

Alguém tem de ir lá e matar o inimigo. Alguém tem de fazer parte da infantaria e das unidades aerotransportadas. Se o país inteiro tivesse uma atitude como a sua, ninguém lutaria; todo mundo iria para o serviço de intendência. E que espécie de país seria o nosso?”

Lipton achava que, “quando os soldados entram em combate, a realidade se impõe como algo inevitável. Eles estão lá, e não há nada que possam fazer para mudar isso. Assim, eles a aceitam. Acostumam imediatamente os sentidos ao cheiro da morte, dos corpos, da destruição, da matança, do perigo. Os corpos e os ferimentos do inimigo não os afetam. Os ferimentos dos próprios colegas e os corpos dos amigos lhes causam apenas uma impressão passageira, e, nessa impressão, há um sentimento fugaz de triunfo ou de façanha, por não terem sido eles as vítimas. [Graças a Deus que foi ele e não eu é um sentimento comum a muitos combatentes quando seus colegas tombam; depois, isso pode gerar um sentimento de culpa.] Ainda há trabalho a ser feito, uma guerra a ser vencida, e eles pensam nisso”.

Uma vez fora da linha de frente e de volta a um acampamento para descansar, prossegue Lipton, “eles começam a pensar. Lembram-se da forma pela qual seus amigos foram feridos ou mortos. Lembram-se das vezes em que estiveram a metros ou segundos da própria morte. Longe dos combates, morte e destruição não são mais inevitáveis — a guerra pode acabar, as missões podem ser canceladas. Com esses pensamentos, os soldados ficam nervosos diante da idéia de ter de voltar a combater. Assim que voltam a lutar, porém, as dúvidas e o nervosismo desaparecem. O endurecimento do caráter e dos sentimentos, a frieza, a calma retornam. Mais uma vez, há trabalho a fazer; a velha confiança e a excitação provocada pelos combates retornam, e a motivação para superar-se e vencer volta a tomar conta deles”.

Talvez isso pareça romanceado, mas é inevitável; foi assim que Lipton e muitos outros da Easy, muitos outros das unidades aerotransportadas e de todo o exército americano — e, por falar nisso, dos exércitos alemão e soviético também —, enfrentaram a guerra. Mas a análise de Lipton não se aplica, absolutamente, a todos os soldados. Milhões de soldados combateram na 2ª Guerra Mundial. Nenhum deles pode falar por todos. Apesar disso, a análise que Lipton fez do estado emocional do combatente nos fornece um meio de nos orientar a tentativa de entender a forma pela qual a tropa enfrentava e suportava as situações de combate.

Depois da experiência na Normandia, muitos dos membros da Easy passaram a combater os alemães aguerridamente e absolutamente convictos de que os Aliados venceriam a guerra. “Espero voltar logo”, Webster disse aos pais, “pois devo aos alemães várias balas e todas as granadas de mão que eu puder lançar.” Os alemães haviam cortado o pescoço de pára-quedistas presos no arnês do pára-quedas, mataram-nos com suas baionetas e suas armas, arrancaram-lhes as entranhas, alvejaram-nos, arrasaram um posto de socorro dos americanos. Por causa dessas atrocidades, “não teremos misericórdia deles”. Quanto ao desfecho da guerra, “depois de ver aquela cabeça-de-praia, um quadro de poder militar de tirar o fôlego, sei que não podemos perdê-la. Quanto aos pára-quedistas, estão sedentos do sangue inimigo. Espero voltar a participar da matança”.

As promoções vieram. Welsh e Compton passaram de segundos a primeiros-tenentes. O regimento precisava de novos graduados para substituir baixas; Winters recomendou a promoção do sargento James Diel, que tinha atuado como primeiro-sargento de uma companhia na Normandia. O coronel Sink aprovou a idéia. Com isso, Diel tornou-se segundo-tenente e foi designado para servir em outra companhia do 506°. Winters conseguiu a promoção de Lipton, para torná-lo o primeiro-sargento da companhia. Leo Boyle foi transferido para a Companhia do QG como segundo-sargento. Bill Guarnere tornou-se segundo-sargento. Don Malarkey, Warren Muck, Paul Rogers e Mike Ranney passaram diretamente de praça para sargento (Ranney tinha sido sargento, mas fora rebaixado para cabo durante o motim de Sobel). Pat Christenson, Walter Gordon, John Plesha e Lavon Reese foram promovidos de praça a cabo.

Webster queria ser escritor, era ávido leitor do melhor da literatura de língua inglesa, estudante de Harvard, combatente veterano que elogiava e, ao mesmo tempo, amaldiçoava o exército com base em observação pessoal e capacidade de análise profunda. As cartas que enviou à família são verdadeiras fotografias de alguns dos membros da Companhia E, logo depois da primeira experiência de combate da unidade.

O praça Roy Cobb, que tinha sido atingido por disparos do inimigo no vôo do avião de Harry Welsh sobre a Normandia e que, portanto, não saltou, “era um velho soldado que tinha a seu favor nove anos de bons serviços prestados. Ele conseguia manter-se bem à frente dos demais em sua presença no exército. Sua variada e rica carreira militar nos tempos de guerra incluía até então: 1) um salto numa operação de assalto na África com a 1ª Divisão Blindada; 2) um cerco feroz e uma evacuação para os Estados Unidos num contratorpedeiro depois que seu navio de transporte de tropas foi torpedeado; 3) vários meses de treinamento na Escola de Pára-quedistas; e 4) um ferimento na perna que demorou a cicatrizar, causado por fogo antiaéreo na Normandia. Ele era um sujeito alto, esguio, determinado e sempre bem-humorado”.

O 1º Esquadrão do 1º Pelotão era “liderado pelo pequeno Johnny Martin, excelente soldado, embromador de primeira e sujeito de raciocínio muito rápido que conseguia resolver qualquer problema de combate ou de guarnição que aparecia e sempre tinha o equipamento bom, o alimento bom e um bom lugar para descanso”.

O outro líder de esquadrão era “Bull” Randleman, que vivia reclamando, mas que podia “ser muito caxias, como eu mesmo pude comprovar na ocasião em que me delatou ao primeiro-sargento por eu ter rido dele quando ele me pediu que tirasse o gorro de lã no salão do rancho. Bull era considerado um tipo de soldado muito aceitável pelos oficiais, que não gostavam da atitude leviana do sargento Martin”.

O líder de esquadrão de Webster era o sargento Robert Rader. “Acho que Rader nunca deixou de cumprir com o dever na vida; ele era o soldado de guarnição ideal, do tipo que conhece todos os comandos dos exercícios de formação e desfile militar e que sente orgulho de manuais militares vistosos, que não tem paciência com os soldados que pautam a vida pela cartilha da simulação de doenças e acabam conseguindo abster-se de enfrentar as dificuldades dos combates noturnos.”

Os ajudantes de líderes de esquadrão, os cabos William Dukeman, Pat Christenson e Don Hoobler, “geralmente deixavam o trabalho nas mãos dos segundos e terceiros-sargentos. Dukeman tinha um jeito pessoal de evitar situações de combate noturnas e dar escapulidas para Londres no fim de semana que era simplesmente maravilhoso de ver”. Christenson era o ajudante de Randleman, o qual Webster considerava um “sujeito bem-mandado”, pois Randleman, assim como Rader, era muito consciencioso. Christenson “era de estatura mediana e corpo atlético, com cabelos dourados e encaracolados, a única atração da Companhia E. Hoobler era o oposto dele em todos os aspectos. Hoobler era a única pessoa que conheci que realmente gostava de combater; ele se divertia com a guerra. Jovem despreocupado e que ostentava um dente de ouro, ele se oferecia como voluntário em todas as missões de patrulha nos combates e para ajudar em todos os trabalhos leves da guarnição. Ele era um dos melhores e mais populares soldados da companhia”.

Na opinião de Webster (e ele tinha sido membro da Companhia do QG durante um bom tempo), os membros do 1º Pelotão da Companhia E eram “mais jovens, mais inteligentes do que os membros das outras companhias”. Pela primeira vez no exército, e para a alegria dele, ele conheceu homens que falavam em ir para a faculdade depois da guerra, inclusive o cabo Dukeman e os sargentos Muck, Carson e Malarkey.

Todos esses soldados eram o que Webster chamava de os “novos graduados do exército”. A idade média deles era de 21ªnos. Eles não conheciam os Artigos de Guerra de cabo a rabo, não se importavam com “o Livro que regulava a vida de tantos membros do exército regular”. Eles simplesmente se misturavam com os seus homens; eles não serviram no Panamá, nem no Havaí, nem nas Filipinas. “Eles eram soldados cidadãos. Foram eles que salvaram os Estados Unidos.”

Webster ficou impressionado também com alguns dos oficiais. Ele descreveu Winters como “um sujeito de estatura considerável, muito atlético, que acreditava na conveniência da ginástica entre os membros de guarnições e na agressividade nos combates”. Welsh era agora o subcomandante de Winters; Webster o descreveu como um sujeito “baixo, moreno, indolente, de raciocínio rápido, o único oficial do 2º Batalhão que conseguia fazer uma preleção interessante e instrutiva a respeito dos últimos acontecimentos”. Ele considerava o tenente Compton, líder do 2º Pelotão, um sujeito amigável e genial, o favorito de todos. Ele tinha convencido o grupo de aspirantes ao acesso à faculdade de que a UCLA era a única instituição na qual valia a pena estudar.

O 1º Pelotão era liderado pelo tenente Thomas Peacock, um oficial substituto. Webster escreveu que “ele sempre obedecia a ordens sem contestar, argumentar ou refletir”. Webster achava que Peacock “era muito estimado por seus superiores, mas cordialmente detestado por seus subordinados. Ele era caxias demais”. Certa vez, o pelotão voltou para Aidbourne de uma marcha de dez horas pelos campos; Peacock fez a tropa jogar uma partida de beisebol, pois fazia parte do programa. “Peacock acreditava que devia ater-se à letra do regulamento; como oficial de intendência do batalhão na Normandia, ele estava em seu meio, mas, como líder de pelotão, seus homens não suportavam nem olhar para ele.”

O ajudante de Peacock era o tenente Bob Brewer. Muito jovem, excelente atleta, Webster o descreve como um sujeito “grandalhão, jeitão de menino”.

No verão de 1944, a Companhia E conseguiu excelentes alojamentos por meio de boleto. Os oficiais ficaram num casa de tijolos ingleses encantadora perto do parque do lugarejo em que estavam; nos fundos, havia estábulos, que a tropa limpou e ocupou. Os estábulos tinham uma série de baias, em cada uma das quais quatro soldados se acomodoram confortavelmente e em discreta e bem-vinda privacidade. Ali, eles tinham como se esconder; foram tantos os que fizeram isso quando os treinamentos noturnos recomeçaram que Winters foi forçado a habituar-se a examinar as baias para ter certeza de que não havia nenhum deles escondido atrás de beliches ou de pé entre as roupas que penduravam em ganchos. Além de servir de acomodação e esconderijo, todas as baias tinham um fogão, uma porta grande, espessa e à prova de som, e um pé-direito alto e arejado. Havia espaço suficiente para pendurar uniformes e mochilas e ainda para jogar pôquer ou dados.

Como forma de entretenimento, a tropa podia ouvir a rádio da Rede de Radiodifusão das Forças Armadas (RFA). Ela irradiava das 7 às 23 horas, com uma retransmissão ocasional do programa de Bob Hope, além de transmitir noticiário de hora em hora da BBC e sessões de swing. Os soldados gostavam muito mais de ouvir música do que os noticiários da BBC, embora tivessem de ouvir as exortações do

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SHAEF para que se mantivessem limpos, batessem continência mais

freqüentemente ou que evitassem brigas entre si. (“Lembrem-se, soldados: se estiverem procurando briga, esperem pelos alemães!”)

 

Quando não gostavam da música que tocava na RFA, podiam recorrer à rádio

alemã e ouvir o programa de Axis Sally {34} {35} e Lord Haw Haw. Esses propagandistas tocavam músicas populares em suas rádios, entremeadas de mensagens tão malfeitas que sempre provocavam o riso entre os soldados americanos.

Além do rádio, tinham também duas sessões de cinema semanais, geralmente de filmes de faroeste, que, raramente, eram lançamentos. Ocasionalmente, um show da

United Service Organizations (USO) {36} aparecia na região, mas, geralmente, as grandes estrelas atinham-se a Londres.

Glenn Miller era uma exceção. “A grande atração do verão”, nas palavras de Malarkey, apareceu em 25 de julho, ocasião em que ele foi um dos seis membros da companhia a comprar um bilhete para um concerto feito por Miller e sua Army Air Force Band em Newbury. Quarenta e sete anos depois, Malarkey ainda se lembrava do programa; Miller iniciou a apresentação com Moonlight Serenade (de acordo com Malarkey, “o tema musical mais provocador de reflexões de todos os tempos”), seguida de In the Mood.

Nos fins de semana, quando não estavam numa área de manobras ou sob alerta, a tropa recebia licença. Malarkey e More subiam na motocicleta e seguiam para o litoral sul — Brighton, Bournemouth ou Southampton — para nadar ou bronzear-se. Ao voltar de um desses passeios, receberam uma mensagem do capitão Sobel. Ele queria que Malarkey e More soubessem que ele sabia que eles tinham a motocicleta e que ela era roubada, mas que não faria nada a respeito disso, embora pretendesse confiscá-la na próxima vez em que a companhia travasse combate com o inimigo. Malarkey achou que a atitude razoavelmente sensata de Sobel resultou de seu desejo de evitar um confronto com o capitão Winters.

Coisa que eles não consideravam tão agradável quanto os alojamentos, o rádio ou os fins de semana era o treinamento. “Tive a impressão de que estávamos sendo punidos por irmos para a Normandia”, escreveu Webster. Eles eram submetidos a uma cansativa e enfadonha série de desfiles, inspeções, preleções sobre problemas de campanha e de combates noturnos e idas ao campo de tiro.

Winters tinha contrabandeado alguma munição da Normandia de volta para Aldbourne. Ele a usava para fazer os substitutos terem uma idéia mais realista de um avanço contra o inimigo sob tiro de proteção. A idéia era arriscada, principalmente, claro, para a tropa participante de manobras, mas também para o próprio Winters, já que isso não era permitido, e, se alguém se houvesse ferido, a culpa teria sido dele. Mas ele achava que o risco valia a pena, pois tinha aprendido em 6 de junho em Brécourt Manor que a chave de um ataque bem-sucedido era estabelecer uma base de tiro boa e constante e depois avançar diretamente sob a cobertura dela. Realizada corretamente, a operação teve um desfecho com poucas baixas.

Os exercícios de treinamento eram necessários para fazer os substitutos da companhia (quase metade da unidade era composta de recrutas a essa altura, que tinham acabado de chegar dos Estados Unidos, depois de completar o curso na escola de pára-quedismo) sentirem a impressão resultante de tiros feitos com munição real e ajudá-los a integrar-se à companhia. Mas, necessários ou não, eles eram odiados. Ainda assim, comparado com a experiência de 1943 em Aldbourne, o verão de 1944 foi uma festa. Malarkey explica isso:

— Não estávamos mais sujeitos à disciplina e à vingatividade de

Herbert Sobel e do sargento Evans. Com Dick Winters, justiça e compaixão substituíram a insensatez de seu antecessor. O espírito de equipe da companhia aumentou muito.

Ajudava o moral do pessoal o fato de que, por mais rigoroso que o programa de treinamento fosse, a Easy estava passando o verão em Aldbourne, em vez de na Normandia. “Agradeço a Deus e ao general Eisenhower o fato de que voltamos para a Inglaterra”, disse Webster na carta que escreveu aos pais, “toda vez que penso nos rapazes do Pacífico, vivendo em florestas e em ilhas áridas, e nos membros da infantaria na França, lutando duramente para seguirem adiante, sem música nem nenhum tipo de diversão, até serem mortos ou feridos.” Todos os soldados presentes em Aldbourne tinham perfeita consciência de que a 4ª Divisão de Infantaria, cujos membros foram seus parceiros no Dia D, ainda estava na linha de combate, sofrendo baixas, dormindo em trincheiras, alimentando-se de rações K, sem jamais tomar banho.

Os boatos eram freqüentes. Em 10 de agosto, o próprio Eisenhower inspecionou a divisão, o que convenceu a todos de que o próximo salto de uma missão de combate viria logo em seguida, convicção reforçada no dia 12 de agosto, no qual equipamentos novos em folha foram distribuídos. Uns diziam ter certeza de que seria no Pacífico Sul; outros achavam que seria na Índia; outros diziam que seria em Berlim.

Esses rumores eram ridículos, logicamente, mas o que os alimentava era o fato de que a divisão fizera planos para 16 operações naquele verão, e todos eles foram cancelados. O problema foi que, até o fim de julho, a linha de frente na Normandia não tinha avançado quase nada, praticamente; então, o I Exército, comandado por Bradley, rompeu o cerco inimigo em St.-Lô; o III Exército, comandado por Patton, seguiu para a Normandia, e as forças terrestres americanas ocuparam as zonas de salto antes que os pára-quedistas conseguissem terminar seus planos e realizar o salto.

Em 17 de agosto, a Easy foi alertada e orientada para saltar perto de Chartres, para erguer barreiras de modo que interrompessem o fornecimento de suprimentos e reforços aos alemães na Normandia e bloqueassem sua rota de fuga. A companhia, juntamente com o restante do batalhão, foi levada de ônibus para a praça de armas, no aeródromo de Membury, fora do perímetro urbano de Aldbourne. Receberam como refeição bife e ovos, frango frito, pão branco, leite e sorvete. Depois, checaram suas armas e seu equipamento, receberam instruções, discutiram o objetivo a alcançar.

Os recrutas estavam excitados, tensos, ávidos, nervosos. Os veteranos estavam preocupados. “Detesto pensar na idéia de partir novamente”, escreveu Webster em seu diário. O que mais o preocupava era a idéia de ser morto enquanto estivesse descendo com o pára-quedas, com seu corpo balouçando impotente no ar, ou de ficar preso numa árvore ou num poste telefônico e ser atacado de baioneta ou com arma de fogo antes que pudesse livrar-se do arnês. Ele tinha conseguido uma pistola automática .45, mas a arma não era páreo para uma metralhadora. Ele achava que, se conseguisse completar o salto sem problema, teria como enfrentar o que viesse depois.

Em conversa com os veteranos à volta dele no aeródromo, ele percebeu que “os rapazes não estão tão entusiasmados ou ansiosos por terminar logo a missão quanto estavam antes da Normandia. Ninguém quer combater mais”.

Rumores esperançosos chegaram a circular entre eles por conta do fato de que, já que Patton estava atravessando rapidamente a França, que os Aliados realizavam uma ofensiva na Itália, que o Exército Vermelho seguia avançando implacavelmente na linha de frente da Europa Oriental e que o alto comando das Wehrmacht caíra em estado de crise e confusão depois do atentado, em 20 de julho, contra a vida de Hitler, a Alemanha poderia sucumbir a qualquer momento. A maioria da tropa teria ficado muito contente com um acontecimento desses, mas Webster não ficou e disse na carta enviada aos pais:

“Não consigo entender por que vocês nutrem a esperança de que a guerra termine logo. A menos que levemos os horrores da guerra para dentro da própria Alemanha, a menos que combatamos em suas próprias cidades, que façamos explodir suas próprias casas, que invadamos suas adegas, que matemos seu gado para conseguir alimento, a menos que emporcalhemos suas ruas com corpos alemães em horrível estado de putrefação, tal como fizeram na França, os alemães tornarão a se preparar para a guerra, inconscientes de seus horrores. A derrota deve ser levada para dentro da própria Alemanha antes que essa confusão possa ter um fim; uma vitória rápida agora, uma derrocada súbita, deixará o interior do país relativamente intacto e seu povo sedento de vingança. Desejo que a guerra termine tão rapidamente quanto o desejam todos, mas não quero que o núcleo de outra guerra permaneça intacto.”

O dia 19 de agosto foi o Dia D para Chartres. Estava programado para ser um dia de salto diurno. Nos primeiros clarões do dia, os soldados em toda a Membury começaram a acordar, depois de uma noite mais ou menos insone, passada principalmente em seus beliches, com muito suor, imaginando todo tipo de possibilidades. Eles se vestiram em silêncio. Estavam psicologicamente distantes e abatidos. Ninguém tinha cortado os cabelos à Ia mohawk. Não se ouviram gritos de “Mãe, se você já rezou por mim, reze agora também”.

Mas, de repente, ouviram boas notícias pelo rádio! Os tanques do III Exército, comandado por Patton, tinham acabado de tomar a região da zona de salto em Chartres! O salto estava cancelado! A tropa começou a gritar, a pular, a rir de alegria. Abençoou Patton e seus operadores de tanque. Comemorou e dançou. À tarde, voltou para Aldbourne.

Na manhã de domingo, dia 28 de agosto, o 506° providenciou um ofício religioso em homenagem aos soldados mortos na Normandia. Quando se anunciou que a tropa teria de abrir mão da manhã de domingo, houve muitos resmungos e queixas; um dos pára-quedistas chegou a dizer que homenagearia os mortos no sábado de manhã ou mesmo durante uma segunda-feira inteira. Contudo, não faria isso de jeito nenhum em suas horas de folga. Mas foi apenas conversa de um soldado exercendo seu direito inalienável de reclamar. Ele acabou pondo seu melhor uniforme e foi juntar-se aos outros.

A Companhia E foi levada de ônibus para o QG do regimento na propriedade de Lorde Wills em Littlecote, nas cercanias de Chilton Foliat, onde se juntou a outras companhias num campo de relva macia e pujante. Uma banda de música tocou a marcha fúnebre numa cadência tão lenta que todos erraram o passo, mas, assim que o regimento se posicionou, com 2 mil jovens guerreiros americanos espalhados como um sólido tapete marrom pelo gramado, diante do grandioso castelo, formou-se uma cena inspiradora.

O capelão McGee fez um discurso em que disse que os mortos eram verdadeiros heróis, que valia mesmo a pena morrer pelos Estados Unidos, que os que tinham tombado não tinham morrido em vão, e assim por diante. Mas a tropa ficou mais impressionada com a prece do regimento, composta pelo tenente James Morton e lida pelo capelão:

“Deus Todo-Poderoso, ajoelhamo-nos diante de Ti e pedimos que faças de nós o instrumento de Tua ira para a derrota das forças malignas que trouxeram morte, miséria e degradação aos povos da Terra... Sê conosco, Deus, quando saltarmos de nossos aviões no abismo escuro e de pára-quedas descermos à Terra em meio ao fogo inimigo. Dá-nos vontade férrea e toda coragem quando sairmos do arnês de nossos pára-quedas para pegar em armas e combater. Pai, as legiões do mal são muitas; abençoa nossas armas para que as encontremos e derrotemos em Teu nome e em nome da liberdade e da dignidade do homem... Faz com que nossos inimigos que vivem pela espada abandonem a violência para que não pereçam pela espada também. Ajuda-nos a servir-Te bravamente e sermos humildes na vitória.”

O general Taylor discursou em seguida, mas seu discurso foi abafado pela formação de C-47s que passou bem acima deles. Em seguida, fizeram a leitura em voz alta da lista de mortos e desaparecidos em combate. A lista parecia não terminar nunca — havia 414 nomes nela —, e cada um deles fez os sobreviventes de esquadrão, de pelotão, de companhia inspirarem profundamente. Toda vez que ouvia o nome de um soldado que conhecia, Webster pensou na “família dele, sentada em silêncio num lar que jamais estaria completo novamente”. A leitura dos nomes cessou abruptamente, com a citação do nome de um praça que começava com a letra Z. O regimento saiu marchando do campo entoando “Avante, soldados de Cristo”.

A 101ª Divisão Aerotransportada fazia parte agora do I Exército Aerotransportado dos Aliados, que incluía a 17ª, 82ª e 101ª Divisões Aerotransportadas (juntas, essas unidades americanas formavam o XVIII Corpo de Exércitos Aerotransportados), a 1ª Brigada Pára-quedista Polonesa e a 1ª e a 6ª Divisões Aerotransportadas Britânicas, além da 52ª Lowlanders (divisão aerotransportada escocesa). O general Matthew Ridgway comandava o XVIII Corpo de Exércitos; o general Lewis Brereton comandava o I Exército Aerotransportado. O general Taylor continuava no comando da 101ª; o general James Gavin comandava a 82ª. Todos esses generais, e seus subordinados mais experientes, estavam ávidos por fazer o I Exército entrar em combate, mas, toda vez que criavam um plano, instruíam a tropa, transportavam-na para suas praças de guerra e faziam preparativos para embarcar, as forças terrestres ocupavam a região da zona de salto visada, e a missão era cancelada.

Isso aconteceu outra vez no fim de agosto. No dia 30, à meia-noite, Taylor ordenou que as companhias entrassem em forma. A tropa recebeu ordens para arrumar as mochilas, de modo que pudesse partir às 8 horas para Membury.

No aeródromo, em meio a todas as outras atividades, o câmbio de moedas correu solto; libras esterlinas eram trocadas por francos belgas. Com isso, a tropa sabia de seu objetivo antes mesmo de receber instruções sobre a missão (“É uma pena”, oficiais intendentes diziam aos que não tinham cédulas de libra esterlina).

A ZS era perto de Tournai, Bélgica, do outro lado da fronteira, em frente da cidade francesa de Lille. O objetivo era abrir caminho para o II Exército Britânico em seu avanço através do Canal de Escaut em direção à Bélgica. Seguiram-se dois dias de intenso repasse de instruções, preparativos frenéticos e comida de excelente qualidade. Mas, em 2 de setembro, a Divisão Blindada da Guarda do II Exército Britânico capturou Tournai, e a operação foi cancelada. A tropa experimentou um alívio igual ao que teve quando o salto em Chartres foi cancelado, mas a determinação do alto comando de fazer com que os pára-quedistas entrassem em combate era tão evidente para eles que, já nos ônibus que os levavam de volta para Aldbourne, comentaram entre si que chegaria a ocasião em que não voltariam do aeroporto.

Os exércitos dos Aliados continuaram a avançar através da França e da Bélgica. O alto comando do I Exército Aerotransportado ficou ainda mais ansioso pelo início dos combates. Suas melhores tropas estavam no TOGE, e ele tinha os melhores comandantes, o mais alto moral, uma capacidade de mobilização inigualável, equipamentos excelentes. Seus oficiais e seus soldados eram veteranos experientes que queriam outra chance para mostrar o que os pára-quedistas podiam fazer na guerra moderna. O I Exército Aerotransportado era, de longe, um dos maiores recursos de Eisenhower ainda sem emprego. Ele queria manter a força do avanço, queria aproveitar o momento para dar um golpe decisivo nos alemães antes que eles conseguissem recuperar-se de sua retirada da França, feita seis semanas antes. Quando Montgomery propôs o emprego do I Exército Aerotransportado numa operação complexa, ousada e perigosa, mas potencialmente decisiva, de travessia do Reno (do trecho austral do rio), Eisenhower concordou prontamente, o que contentou muito o alto comando do I Exército.

A operação recebeu o codinome de MARKET-GARDEN. O objetivo era fazer o II Exército Britânico, com a Divisão Blindada da Guarda Nacional Britânica na vanguarda, atravessar a Holanda e o Reno tomando a seguinte rota: Eindhoven-Son-Veghel-Grave-Nijmegen-Arnhem. Os tanques britânicos avançariam para o Norte por uma única estrada, seguindo pelo caminho aberto pelos pára-quedistas americanos e britânicos, que tomariam e defenderiam as muitas pontes entre o ponto de partida e Arnhem.

A 1ª Divisão Aerotransportada Britânica, reforçada pelos poloneses, estaria no extremo oposto da linha de avanço proposta, em Arnhem. A 82ª Divisão Aerotransportada conquistaria Nijmegen e a defenderia. A tarefa da 101ª era saltar ao norte de Eindhoven, com o objetivo de capturar a cidade e, ao mesmo tempo, avançar através de Son em direção a Veghel e a Grave, para abrir a extremidade sul da linha de avanço. A tarefa do 2º Batalhão do 506° RIP era tomar a ponte sobre o Canal de Wilhelmina, em Son, sem destruí-la, e depois juntar-se ao 3º Batalhão no ataque a Eindhoven, onde ele defenderia a cidade e suas pontes até que a Divisão da Guarda Britânica pudesse passar por lá e avançar.

Era um plano complicado, mas brilhante. O sucesso dependeria da execução do plano num sincronismo de quase uma fração de segundo, com ataques-surpresa, combates árduos e sorte. Se tudo funcionasse, a recompensa seria o avanço das forças blindadas britânicas para a planície setentrional alemã, do outro lado do Reno, com uma estrada aberta para o acesso a Berlim. Se a operação falhasse, o custo disso seria o desperdício dos recursos do I Exército Aerotransportado, o fracasso da abertura do porto de Antuérpia (Eisenhower teve de concordar em adiar o emprego de tropas necessárias à abertura desse porto para que pudesse montar a MARKET-GARDEN), uma crise de abastecimento em todo o TOGE e o prolongamento da guerra até o inverno de 1944-45.

Além de ter tido que adiar a abertura do porto de Antuérpia, Eisenhower teve de fazer Patton parar a leste de Paris, a fim de obter combustível suficiente para o II Exército Britânico, de modo que pudesse montar a operação MARKET-GARDEN. Em suma, a operação era como um jogo de dados, com os Aliados apostando todas as suas fichas.

Em 14 de setembro, a Easy voltou de ônibus para a praça de armas de Membury. No dia seguinte, a companhia recebeu instruções para a primeira missão. Foi algo tranqüilizante para a tropa. Disseram a ela que esse deveria ser o maior salto de pára-quedas da história, com a participação de três divisões. Seria um salto diurno. Diferentemente da Normandia, esse viria para os alemães como uma surpresa. O fogo antiaéreo do inimigo seria pouco intenso, e a resistência terrestre inicial dele quase inexistente.

Na praça de armas, no aguardo da hora de partir, houve muito jogo a valer dinheiro entre os soldados. Um dos recrutas, o praça Cecil Pace, era jogador fanático. Para vergonha dos veteranos, ele ganhou mil dólares no jogo de dados.

O coronel Sink fez ao regimento uma preleção preparatória. — Vocês depararão tanques britânicos — ele disse. — Alguns deles Shermans, e outros Cromwells. Não confundam os Cromwells com tanques alemães.

— E aquelas divisões da Guarda — são boas unidades. As melhores do exército britânico. Você não pode entrar para elas a menos que tenha ‘Sir’ antes do nome e uma árvore genealógica com um metro de altura. Mas não riam deles. São bons combatentes.

— Outra coisa — ele prosseguiu, esfregando o rosto. — Não quero ver nenhum de vocês circulando pela Holanda usando gorros de lã. O general Taylor pegou um membro do 506° usando um desses gorros na Normandia e me fez passar o diabo por causa disso. Bem, agora não quero mais passar o diabo e sei que vocês também não. Portanto, se tiverem de usar um gorro de lã, usem-no por baixo do capacete. E não deixem o general Taylor pegá-los sem o capacete.

— Sei que vocês, homens, podem sair-se bem. Portanto, sobre combate não preciso falar. Esta unidade é boa o bastante para receber uma Medalha Congressual de

Honra ao Mérito{37} na Normandia. Agora, vocês, veteranos, cuidem dos substitutos, e nós nos sairemos bem.

Webster registrou em seu diário que era sempre um prazer ouvir Sink falar, pois ele fazia uma abordagem sensata, realista, bem-humorada, a respeito da questão do combate. O general Taylor era o oposto dele; na opinião de Webster, Taylor tinha “uma atitude de líder de torcida feminina, repulsivamente otimista. O coronel Sink sabia que a tropa detestava combater. Até o fim da guerra, o general Taylor insistiu em achar que seus rapazes estavam sempre ávidos por matar alemães. Preferíamos o coronel Sink”.

Em 16 de setembro, o praça Strohl, que havia ficado no hospital desde o dia 13 de junho, conseguiu um dia de alta dos médicos. Ele pegou carona para Aldbourne, onde deparou o capitão Sobel, que estava levando bagagem para Membury. Sobel disse a Strohl que a companhia estava prestes a entrar em combate; Strohl respondeu dizendo que queria juntar-se a eles e pediu uma carona até o campo de aviação.

— Você será advertido por haver se ausentado sem permissão — avisou Sobel. Strohl argumentou que não achava que entraria em apuros se optasse por juntar-se à companhia e entrar em combate. Diante disso, Sobel disse a ele que subisse.

— Foi uma atitude estúpida — avaliou Strohl quatro décadas depois. — Eu estava fraco como um gatinho. — Mas ele não queria deixar os amigos entrar em combate sem ele. Ele tratou de equipar-se e embarcou num C-47.

Popeye Wynn, que tinha levado um tiro nas nádegas quando ajudava a destruir uma bateria em Brécourt Manor no dia 6 de junho, havia sido submetido a uma operação e recuperava-se num hospital no País de Gales quando lhe disseram que, se ele ficasse longe da companhia por mais de 90 dias, seria designado para servir em outra unidade quando o considerassem pronto para voltar a combater. Wynn não queria saber disso. Ele persuadiu um sargento que estava encarregado da liberação dos pacientes a enviá-lo de volta para Aldbourne na posse de documentos que declarassem que ele estava apto a realizar tarefas leves. Ele chegou no dia 1º de setembro, jogou os documentos fora e tornou a juntar-se ao 3º Pelotão.

Mas Wynn não estava totalmente recuperado. Durante o vôo para a Holanda, ficou de pé no fim da fila de salto, já que ainda sentia muitas dores no local da operação. Mas ele estava lá, onde queria estar, indo para o combate com os amigos da Companhia E.