Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 16 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 16

Conhecendo o Inimigo

 

ALEMANHA

2-30 de abril de 1945

 

As reações dos membros da Companhia E em seu contato com o povo alemão dependeram de seus diferentes preconceitos e de suas experiências. Alguns encontraram motivos para reforçar seu ódio; outros adoraram o país e seu povo; quase todos acabaram mudando de idéia em relação a eles; todos ficaram fascinados.

A história mais corriqueira da impressão que o recruta americano teve em seu contato com os povos estrangeiros durante a 2ª Guerra Mundial é mais ou menos assim: ele achou os árabes desprezíveis, mentirosos, ladrões, sujos, feios, sem nenhum traço de personalidade compensador. Os italianos eram mentirosos, ladrões, sujos, mas maravilhosos, com muitas características compensadoras, embora os considerassem indignos de confiança. Os camponeses franceses eram carrancudos, lerdos e ingratos, ao passo que os parisienses eram gananciosos, astutos, indiferentes ao fato de enganar alemães ou americanos. O povo britânico era corajoso, engenhoso, graciosamente antiquado, tedioso. Os holandeses eram considerados, como foi dito, simplesmente encantadores em todos os aspectos (mas o soldado comum nunca esteve na Holanda; apenas as tropas pára-quedistas).

A conclusão dessa experiência, pois, é esta: surpresa das surpresas, o recruta achava que o povo de que ele mais gostou, com o qual ele se identificou mais, com o qual mais gostou de conviver, foi o alemão. Limpos, trabalhadores árduos, disciplinados, educados, com estilo de vida e gostos de classe média (muitos recrutas notaram, até onde lhes foi possível, que os únicos povos do mundo que consideravam necessários uma privada com descarga e papel higiênico macio eram os alemães e os americanos), os alemães pareceram a muitos soldados americanos pessoas “iguais a nós”.

Além disso, os recrutas viram, e aprovaram isto, que os alemães começavam a recolher o entulho na manhã seguinte aos combates, ao contrário dos franceses, entre os quais não viram ninguém se importar em limpar a bagunça provocada pela guerra. Obviamente, viram também com bons olhos as jovens alemãs e a ausência de competição no que diz respeito a elas por parte dos rapazes alemães. Eles adoraram a comida e a cerveja alemãs. Mas adoraram, sobretudo, os lares alemães.

Eles ficaram em muitas casas, do Reno à Baviera e à Áustria, às vezes em uma casa diferente a cada noite. Invariavelmente, encontravam água encanada e aquecida, luz elétrica, privadas e papel higiênico decentes, carvão para os fogões.

“Baixar a guarda em sua própria casa era um sensação sem igual no exército. Deixávamos a negra e hostil escuridão para trás quando abríamos a porta. Além das cortinas de blecaute, havia luz e, quando pendurávamos nossos fuzis no cabide para chapéus e tirávamos a capa de chuva, ouvíamos a conversa descontraída na cozinha, e isso nos transmitia calma e bem-estar. Um bule de café esquentando no fogão — bastava que nos servíssemos. Reese falava do caso que tivera em Londres, enquanto Janovek, Hickman, Collette e Sholty jogavam vinte-e-um. Lavávamos as mãos na pia. Isso era um lar. Era o nosso meio. Um grupo pequeno, sociável, limpo, numa casa bem-iluminada, uma xícara de café — o paraíso”, Webster escreveu.

Melhor que isso era o fato de que os combatentes não estavam sendo atacados pelo inimigo, nem estavam atacando. Não admira que tantos deles gostaram muito dos alemães. Mas, como observou Webster, “ao explicar a afeição superficial dos recrutas pelos alemães, talvez seja bom ressaltar o conforto que eles não tiveram em nenhum outro lugar no exército, exceto no território inimigo”.

As experiências dos membros da Companhia E na Alemanha mostram que, durante a guerra, a situação do povo alemão foi bem melhor do que a dos britânicos, franceses, belgas e holandeses. Logicamente, nas grandes cidades alemãs o que havia em

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meados de abril de 1945 era um verdadeiro Götterdämmerung? mas, no campo e

nos vilarejos, nos quais, embora houvesse sempre alguma destruição nos principais cruzamentos rodoviários, de um modo geral as casas estavam intactas, ainda com todo o conforto que a maioria das pessoas achava que, em 1945, existia apenas nos Estados Unidos.

Nem todos os recrutas, porém, foram seduzidos pelos alemães. Webster entrou na Alemanha com uma idéia fixa: ele não gostava de alemães, achava que todos eram nazistas, mas decidiu considerar propaganda as histórias sobre campos de concentração e outras atrocidades. Pelo menos no semblante, o povo alemão lhe pareceu “muito insensível”. Para ele, os franceses estavam “morrendo e apodrecendo”, mas os alemães eram apenas um “tigre ferido, lambendo as próprias feridas, descansando, com um ódio abrasador no peito, preparando-se para atacar novamente. E eles atacarão”.

Embora involuntariamente, Webster sentiu-se atraído pelo povo. “Os alemães que vi até agora me impressionaram como pessoas limpas, eficientes e honestas”, afirmou na carta enviada aos pais em 14 de abril. Eram religiosos praticantes. “Na Alemanha, todos saem de suas casas e trabalham e, ao contrário dos franceses, que não parecem inclinados a sequer levantar um dedo para se ajudarem, os alemães enchem de terra as trincheiras que seus soldados tenham aberto em seus campos. Eles são mais limpos, mais

progressistas e mais ambiciosos do que os ingleses ou os franceses.”{78}

As ordens vindas dos altos escalões de mando determinavam que o soldado deveria assumir uma atitude de não-confraternização. Os recrutas não deveriam conversar com nenhum alemão, mesmo que fossem crianças, exceto nas situações de assuntos oficiais. O cumprimento dessas ordens absurdas, ordens que iam tão flagrantemente contra a natureza humana, era impossível. Os oficiais, principalmente os que odiavam os alemães, tentavam fazer isso mesmo assim. Webster ria-se da intensidade dos sentimentos do tenente Foley. Ele escreveu que Foley “tinha se tornado tão radical no cumprimento da política de não-confraternização que ordenou que livrassem os campos de todas as guimbas de cigarro (ou seja, que fossem destruídas e que espalhassem as sobras pelo solo) de modo que os alemães não usufruíssem o mínimo que fosse do tabaco americano”.

Webster lembrou-se também da ocasião em que ele e Foley estavam escolhendo casas para pernoitar. “Quando seguimos para o quintal, com o objetivo de fazermos uma inspeção mais detalhada, deparamos um espetáculo horrível para Foley, que acendeu nele todo o fervor de não-confraternização: dois infantes conversavam

amigavelmente com duas Fräulein.{79} Indescritível, escandaloso, antimilitar, proibido. O tenente Foley os repreendeu duramente e fez sinal para que seguissem o caminho deles. Com a aparência resignada de pessoas que reconhecem a futilidade da política de não-confraternização, os galantes soldados retiraram-se, contrariados.”

Vale a pena fazermos uma pausa aqui para vermos os americanos como conquistadores, pelo exemplo relativamente diminuto da Companhia E. Seus membros obtinham o que quisessem, mas não estupravam, roubavam, pilhavam, incendiavam propriedades em seu avanço pela Alemanha. Embora não respeitassem o direito de propriedade, no sentido de que exigiam alojamento para passar a noite sem compensação, pelo menos, quando os alemães voltavam para suas casas depois que os soldados partiam, elas estavam mais ou menos intactas. Logicamente, houve alguns estupros, alguns casos de maus-tratos contra alemães e alguns saques. É fácil dizer que outros exércitos invasores na 2ª Guerra, talvez a maior parte dos soviéticos, mas também os japoneses e os alemães, tenham agido diferentemente.

A esse respeito, Webster nos conta uma história muito relevante.

— Reese, que estava mais inclinado a procurar mulheres do que negociar a obtenção de ovos, e eu fizemos outra expedição até um vilarejo maior a uns dois quilômetros a Oeste, localidade em que não havia recrutas. Assim como McCreary, Reese costumava ser impaciente com galinhas, mas tinha grande interesse por um rabo-de-saia; independentemente de idade e aparência, ele me dizia: “Veja que beleza aquela. Amigo, aquilo é uma doçura. Caramba, uma espécime e tanto!” Mas, como eu era tímido e aquelas jovens pareciam invariavelmente tão sociáveis quanto um bloco de gelo, não liguei para os anelos sensuais dele. Além do mais, as Fraus não podiam ser amigáveis em público, onde os vizinhos pudessem vê-las. Talvez dentro de casa ou à noite. Acabamos chegando a uma fazenda, onde uma jovem camponesa de seios fartos nos cumprimentou. Reese sorriu. Depois que peguei alguns ovos, Reese, que continuava piscando para ela, deu-lhe um cigarro e uma barra de chocolate, e, enquanto o amor florescia no jardim da ração D [um novo pacote de comida recém-distribuído então] e cigarros Chelsea, saí de costas pela porta e fiquei esperando ao sol. Nada feito, Reese disse depois. Voltei para o alojamento com o capacete cheio de ovos; Reese voltou com o coração partido. Mas o lugar era, nas palavras dele, “uma região boa para confraternização”. Ele tentou confraternizar-se novamente antes das seis, antes do toque de recolher. Não teve sorte.

Se Reese fosse um soldado soviético, alemão ou japonês, talvez esse pequeno incidente teria tido outro rumo.

A companhia seguiu de caminhão de Mourmelon para o bolsão de resistência do Ruhr. A 101ª tomou posições na margem ocidental do Reno, de frente para Düsseldorf. O setor do 2º Batalhão ia de Stürzelberg, ao Norte, a Worringen, ao Sul, com a 82ª DIA posicionada no flanco direito do batalhão. A 82ª estava de frente para Colônia.

Era mais uma posição de ocupação do que uma linha de frente. Os pelotões mantinham postos avançados na margem do rio, enquanto o restante da tropa se alojou nas casas de várias vilas. Houve algum fogo de artilharia, de ambos os lados, mas não muito. Não houve tiros de armas leves.

Os soldados se revezavam nos postos avançados todas as noites. Foi ali que o praça O’Keefe começou sua experiência real de combatente. Certa noite, ele estava num posto de observação avançado, numa trincheira recém-aberta, ao lado do dique, com o praça Harry Lager, que também tinha acabado de engajar-se na companhia, em Mourmelon. De repente, ouviram bum, bum, bum. Foi quando O’Keefe disse a Lager, em voz baixa: — Fique na trincheira, mas deixe espaço para que eu possa pular dentro dela rapidamente. Vou lá em cima naquele dique para ver se consigo saber o que está se aproximando.

— Não consegui ver nada, mas o barulho estava praticamente no pé de meus ouvidos. De repente, a ponta do canhão de um pequeno tanque assomou em meio à neblina. Aí, gritei: “Pare; quem vem lá?”, mas disse isso já preparado para voltar às pressas para a trincheira — conta-nos O’Keefe, lembrando-se do incidente.

— Somos apenas dois britânicos e estamos perdidos — tornou um dos ocupantes do tanque. O’Keefe ordenou que o homem saísse de lá para ser inspecionado. Um sargento britânico saiu do blindado, dizendo: — Meu Deus, ianque, estamos felizes por vê-lo! Partimos daquele maldito dique à meia-noite e não conseguimos achar a saída.

— O que está provocando esse barulho? — perguntou O’Keefe.

— Ah, isso — respondeu o britânico. — É uma de nossas lagartas. Ela partiu-se. Podemos nos deslocar a apenas 2 quilômetros por hora. A lagarta gira, mas golpeia o solo a cada rotação. — O’Keefe sugeriu ao sargento que fizesse seu colega de guarnição seguir na frente do tanque, a pé, pois, do contrário, eles poderiam sofrer um ataque no próximo posto de controle. O sargento respondeu que faria isso. O’Keefe voltou para a trincheira e ficou contente com o fato de que Lager mantivera-se atento, dando-lhe cobertura o tempo todo com o M-1. O pequeno incidente fez que Lager e 0’Keefe passassem a ter confiança em si mesmos e um no outro. Chegaram à conclusão de que tinham pegado o jeito da coisa.

Em outra noite e noutro lugar ao longo do rio, O’Keefe se encontrava num posto avançado com um novo recruta, o praça James Welling. Oriundo da Virgínia Ocidental, Welling tinha 30 anos de idade, o que praticamente o tornava o membro mais velho da companhia. O’Keefe era o mais jovem membro da unidade. Embora Welling tivesse acabado de engajar-se na companhia, ele era um combatente veterano que tinha sido ferido na Batalha das Ardenas, se havia oferecido como voluntário para integrar a tropa pára-quedista depois de receber alta de um hospital na Inglaterra, fizera num único dia todos os cinco saltos que o habilitavam como pára-quedista e agora era membro da 101ª.

No posto avançado, eles estavam em pé dentro de uma trincheira quando viram uma carreta de 10 toneladas avançando com certa velocidade pela estrada. — Pare! — O’Keefe gritou, três vezes. Ninguém o ouviu. Um comboio de nove caminhões, colados na traseira um do outro, passaram por ele, fazendo grande barulho.

— O que você faz quando grita “Pare!” e percebe que ninguém o ouvirá? — perguntou O’Keefe a Welling.

— Praticamente, não há nada que se possa fazer — ele respondeu. Meia hora depois, os caminhões voltaram, a toda velocidade, com a diferença de que eram oito deles agora.

— Jim, o que é aquilo na estrada? — O’Keefe perguntou.

— Não sei; ninguém disse o que é.

Quinze minutos depois, o capitão Speirs apareceu, “louco de raiva”, e dirigiu-se a Welling aos berros. — Por que você não parou aqueles caminhões? A ponte lá embaixo foi destruída, e agora um deles está pendurado lá! — Uma vez que ouvira várias histórias sobre o temperamento de Speirs, O’Keefe esperou pelo pior. Mas Welling replicou imediatamente aos berros também:

— Como, porra, iríamos parar nove caminhões avançando a toda velocidade? E por que alguém não disse a nós que a ponte tinha sido destruída? Ora, nem sabíamos que havia uma ponte lá.

— Onde está o outro guarda? — indagou Speirs.

O’Keefe apareceu de entre as sombras com o M-1 posicionado à altura da cintura, apontado para o oficial, e disse, tão ameaçadoramente quanto possível: — Aqui, senhor. — Speirs resmungou e se retirou.

Uma noite ou mais depois, um jipe apareceu, com as luzes apagadas. Welling gritou: — Pare! — O jipe levava o capitão Speirs, outro capitão e um major no banco traseiro. Welling falou a senha. Speirs deu a contra-senha num tom de voz despreocupado. Welling não conseguiu entender o que ele dissera e repetiu o pedido de senha. Speirs respondeu da mesma maneira; mais uma vez, Welling não conseguiu ouvi-lo bem. Tenso e um tanto confuso, O’Keefe mirou o M-1 contra as costas do major. Ao fazer isso, ele olhou bem e viu que era Winters.

Welling fez o pedido de senha pela terceira vez. O capitão que estava na direção do jipe percebeu finalmente que Welling não tinha ouvido e gritou a contra-senha. Speirs saltou do jipe e começou a xingar Welling.

Welling cortou-lhe a palavra. — Quando digo “Pare!”, você tem que parar! Quando dou a senha, espero ouvir a contra-senha. — Quando Speirs começou a dizer o que faria com Welling, Winters o interrompeu. — Vamos, capitão — disse em voz baixa. Quando o jipe ia saindo, Winters disse a Welling em voz alta: — Bom trabalho.

* * *

Houve missões de patrulha através do Reno, operações raramente perigosas, a não ser pela forte correnteza, com o rio em cheia, ocasião em que chegava a ter 350 metros de largura. Quando, em 8 de abril, Winters recebeu ordens para enviar uma patrulha ao outro lado do rio, resolveu controlar a operação de um posto de observação para evitar que alguém se ferisse. Winters definiu os objetivos e controlou a concentração do fogo de cobertura da artilharia e depois monitorou o avanço da patrulha passo a passo pela margem oriental do rio. O tenente Welsh, do S-2 do batalhão, o acompanhou e ficou enojado com os limites de segurança que Winters insistiu em estabelecer. — Participamos de uma dessas patrulhas — lembrou-se Winters — e não achamos nada. Todos retornaram em segurança.

A maioria da missões de patrulha foi igualmente malsucedida. Malarkey nos fala do caso de um oficial substituto que partiu em missão de patrulha, atravessou o rio, avançou vários metros terra adentro, atraiu o fogo de um único fuzileiro inimigo, informou pelo rádio que tinha deparado forte resistência e retirou-se para território amigo, para o alívio e, ao mesmo tempo, a indignação de seus homens.

Alguns dias depois, as coisas não funcionaram tão bem. O líder da patrulha era o major William Leach, que tinha acabado de ser promovido e fora feito membro do S-2 do regimento por Sink. Haviam zombado muito dele em Mourmelon quando chegou o informe de sua licença: — Quando você chefiará uma missão de patrulha, Leach? — seus colegas oficiais perguntaram. Ele nunca tinha participado de combates e, conseqüentemente, não tinha medalhas. Tido por Winters como “bom oficial do estado-maior, que ascendera a hierarquia militar por conta de sua personalidade e tato social”, Leach queria fazer carreira fora do exército. Para isso, achava que precisava de uma condecoração.

Na noite de 12 de abril, Leach partiu em missão como líder de uma patrulha de quatro membros do S-2 do QG do regimento. Mas ele cometeu um erro fatal: deixou de informar a alguém que realizaria a tal patrulha. Os membros da Companhia E de serviço no posto avançado ouviram o barulho produzido na água pelo movimento do barco que a patrulha estava usando para atravessar o rio. No que diz respeito a eles, estavam treinados para considerar a presença de qualquer barco no rio uma operação de transporte de tropas inimigas, a não ser que tivessem sido previamente informados de que uma patrulha americana seria iniciada em tal e tal hora. Portanto, abriram fogo contra o barco; logo depois, as metralhadoras engrossaram os disparos. Os tiros destroçaram o barco e atingiram todos os homens a bordo, inclusive Leach. Ignorando os gritos deploráveis dos feridos, que iam se afogando no rio, os operadores de metralhadora continuaram a lançar rajadas contra eles até seus corpos começarem a boiar rio abaixo. Os corpos foram recolhidos alguns dias depois num trecho do rio a jusante. Na opinião da companhia, Leach e quatro soldados tinham “morrido de uma forma perfeitamente evitável e injustificável porque ele cometera um erro gritante e imperdoável”.

Nesse dia, a companhia recebeu a notícia de que o presidente Roosevelt tinha morrido. Winters escreveu em seu diário: “O sargento Malley [da Companhia F] — notícia boa — tornou-se primeiro-sargento. O presidente morreu — notícia ruim.”

“Sempre achei que teríamos Roosevelt conosco”, Webster disse em carta enviada aos pais, “como temos os lírios na primavera e na Páscoa, e, agora que ele partiu, sinto-me um tanto perdido.”

Eisenhower ordenou que todos os comandantes de unidades providenciassem um pequeno culto em memória de Roosevelt no domingo, dia 14 de abril. Todos os pelotões da Companhia E fizeram um culto em separado. O tenente Foley, “que nunca morrera de amores por Roosevelt”, reuniu seu pelotão. Ele tinha um Missal de São José no bornal de provisões; ele o folheou, escolheu uma prece e a leu em voz alta para os soldados. Mais tarde, alegou que tinha sido “o único homem que sepultara Franklin D. como católico”.

De um modo geral, o tempo que a Easy passou no Reno, defendendo o vale do Ruhr, foi tedioso. “O tempo se arrastava tão penosamente”, escreveu Webster, entediado, “que começamos a ter inspeções diárias de fuzis. Afora isso, não fazíamos nada, senão montar guarda nas encruzilhadas à noite e ouvir durante o dia uma breve preleção do tenente Foley sobre os últimos acontecimentos.” Com o grande vigor que tinham e o pouco que as circunstâncias estavam exigindo deles, os combatentes voltaram-se para os esportes. Eles acharam algumas raquetes e bolas e resolveram jogar

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tênis numa quadra no quintal de uma propriedade ou softball num campo

próximo.

Webster não era nenhum atleta, mas era muito curioso. Um dia, realizou “o maior desejo de sua vida”, quando ele e o praça John Janovek escalaram a chaminé de 76 metros de altura de uma fábrica. Quando chegaram ao topo, tiveram uma grandiosa vista da região situada além do rio. Para Webster, “o Ruhr parecia totalmente sem vida”, embora “para onde quer que olhássemos, víamos fábricas, fundições e usinas siderúrgicas, de açúcar e de laminados de aço. Parecia Chicago, Pittsburgh e St. Louis descentralizados”.

Em 18 de abril, toda resistência alemã que havia no vale do Ruhr acabou. Mais de 325 mil soldados alemães se renderam.

A Easy foi encarregada de policiar um campo de deslocados de guerra em Dormagen. Havia no campo poloneses, tchecos, belgas, holandeses, franceses, russos e pessoas de outras nacionalidades de diferentes partes da Europa ocupada pelos nazistas, dezenas de milhares delas. Elas viviam num alojamento comunitário, separadas por sexo, espremidas, praticamente mortas de fome em muitos casos e representadas por todas as faixas etárias. Assim que foram libertadas, seu primeiro impulso foi compensar a necessidade de descanso e diversão, o que muito lamentavelmente lhes faltara nos últimos anos anteriores à sua libertação. Webster conta que era causa de satisfação para elas o fato de que “não estavam fazendo nada. Elas tinham trabalhado arduamente para os alemães e comido pouco. Agora, descansariam”.

A felicidade, a cantoria e a benevolência que demonstravam ao prestar favores aos soldados as fizeram granjear a afeição dos membros da Companhia E. Serviço de rancho agora era coisa do passado. Nenhum membro da Easy jamais descascou uma batata sequer depois da libertação dessa gente, nem varreu um quarto, lavou pratos ou policiou a área. Para isso, havia sempre um deslocado de guerra, principalmente porque os americanos eram muito generosos no pagamento.

Vários foram os combatentes que passaram a ter como companhia um misto de filho e empregado. Luz praticamente adotou um garotinho franzino, chamado Muchik, que usava sapatos surrados e muito grandes para ele. Seus pais haviam morrido num dos campos de escravidão. Os olhos grandes e escuros e o jeito vigoroso e animado de Muchik foram irresistíveis para Luz. Ele arranjou uma espécie de uniforme para Muchik e o levou para um passeio pela Alemanha, ensinando-lhe os rudimentos do jargão indecoroso da vida militar enquanto passeavam. “Embora ordens rigorosas tivessem sido emitidas determinando que ninguém deveria andar na companhia de deslocados de guerra, alguns membros da tropa falavam um inglês muito rudimentar,

jamais apareciam nas formações e pareciam fazer muito serviço de rancho”{81}, informam os registros históricos da divisão.

Ou seja, o fato era que a Easy estava prestes a iniciar um passeio pela Alemanha em acomodações de primeira classe em todos os aspectos. Casas confortáveis para pernoites, excelente comida e bons vinhos, o privilégio de poder pegar quase tudo que quisessem, enquanto eram levados prazerosa e despreocupadamente por uma auto-estrada reservada para eles numa viatura com pneus de borracha, através de belas paisagens, com os emocionantes Alpes de um lado e, do outro, a dramática desintegração daquele que tinha sido o mais temido exército do mundo, acompanhados de ajudantes jovens para cuidar de todas as necessidades deles.

Exceto uma. Eles teriam adorado ter podido levar algumas das jovens deslocadas de guerra com eles, mas não se saíram melhor com elas do que se haviam saído com as jovens alemãs. Assim como os recrutas em toda parte, eles achavam que uma ração D e alguns Chelseas eram a chave de acesso ao coração das mulheres, mas tudo que conseguiam com isso era frustração.

A segunda geração de tchecos e poloneses da companhia foi o grupo de combatentes que ficou mais entusiasmado. Eles gastavam todo o tempo deles, dia e noite, usando suas parcas habilidades lingüísticas para cortejar as jovens camponesas baixas, peitudas e robustas das terras natais de seus pais. Porém, ao contrário das expectativas deles, as jovens, educadas por pais católicos no ambiente da Europa Central, eram castas.

Para Webster, o efeito do campo de deslocados de guerra serviu para aumentar o ódio que ele tinha pelos alemães. “Por que estas pessoas estão aqui?”, perguntou a si mesmo com respeito aos deslocados de guerra. Elas não tinham feito nada, não tinham motivação política, não haviam cometido nenhum crime e nada possuíam. Elas estavam lá porque os nazistas haviam precisado da força de trabalho delas.

“Aí estava a Alemanha e tudo o que ela representava”, concluiu Webster. “Os alemães tiraram essas pessoas de seus lares e as condenaram a trabalhar perpetuamente numa fábrica do Terceiro Reich. Crianças de colo e mulheres idosas, pessoas inocentes condenadas a viver em alojamentos atrás de arame farpado, a mourejar como escravas 12 horas por dia para um patrão sem sentimento ou consideração, a comer sopa de beterraba, batatas podres e pão de centeio. Esse era o Terceiro Reich, essa era a Nova Ordem: trabalhe até morrer. Com frieza e deliberação, os alemães escravizaram as populações da Europa.” Na opinião de Webster, “os alemães eram culpados, todos eles”.

O serviço de guarda do campo durou apenas alguns dias. De volta ao Reno, Winters instituiu um programa de treinamento que incluía revista, inspeção, ginástica e exercícios de marcha sob formação compacta, manobras táticas de esquadrão, leitura de mapas e assim por diante. O dia terminava com uma retirada. Era como se tivessem voltado para a instrução básica, do que se ressentiam muito.

Como sempre, no setor de um escalão de retaguarda, as patentes se impunham e faziam valer seus direitos, o que aumentava a distância entre os recrutas e os oficiais. O tenente Ralph D. Richey, oficial substituto zeloso e impetuoso, membro do S-1 do batalhão, era excepcionalmente chato. Um dia, ele resolveu fazer a companhia entrar em forma para uma inspeção. Então, uma senhora alemã passou inocentemente de bicicleta pelas fileiras. Richey ficou tão furioso com isso que desferiu um golpe na velha, que a fez cair da bicicleta. Ela começou a chorar; ele se lançou contra ela com uma saraivada de repreensões e ordenou que ela saísse dali. A tropa ficou enojada com a atitude dele.

No dia seguinte, a companhia fez uma marcha forçada a um ritmo de 8km/h, com o tenente Richey encabeçando-a. Os soldados arregaçaram as mangas e carregaram as armas o mais confortavelmente possível. Richey exasperou-se com isso também. Ele fez a companhia parar e a repreendeu duramente. — Jamais vi uma companhia tão desleixada como esta — bradou ele. — Esta companhia tem 120 soldados, e vejo que seus membros carregam os fuzis de 120 maneiras diferentes. E vocês ainda acham que são soldados!

O incidente fez Webster prorromper em indignada diatribe em seus escritos. “Eis aqui um homem que nos fez sentir vergonha de nosso uniforme, ralhando conosco por ficarmos à vontade numa marcha acelerada”, comentou. “Isso era o exército. Os oficiais são cavalheiros; faço o que eu quiser. Nada de contestação. Você é um recruta. Não pode pensar. Se você fosse bom nisto, seria um oficial. Aqui, carregue meu saco de dormir. Varra meu quarto. Limpe meu mosquetão. Sim, senhor. Por que não bateu continência? Você não me viu! Ora, volte e bata continência direito. Deus abençoe os tenentes. Privilégios acima de responsabilidades.”

Nem todos os oficiais eram como Richey. O capitão Speirs, apesar da fama e veemência, se importava com a tropa. Quando percebeu seu tédio, providenciou um passeio turístico a Colônia. Ele queria que os soldados vissem a cidade e os efeitos dos bombardeios aéreos (Colônia foi uma das cidades que mais sofreram bombardeios na Alemanha).

Duas coisas impressionaram muito a tropa. A primeira delas foi a extensão da destruição da cidade. Todas as janelas estavam quebradas, todas as igrejas tinham sido atingidas, todas as ruas vicinais estavam bloqueadas por entulhos. A magnífica catedral no centro da cidade tinha sido danificada, mas ficou de pé. A gigantesca estátua de Bismarck montado num cavalo manteve-se firme, mas a espada dele, apontando para a França, tinha sido decepada por um estilhaço.

Um grupo de membros da Companhia E seguiu para o Reno, onde começou a apontar para as ruínas grotescas da Hängebrücke, ou ponte levadiça, e a rir dela. Um casal de idosos alemães estava em pé ao lado dela. Para a vergonha dos americanos, os alemães começaram a chorar e a menear a cabeça. Todas as belas pontes deles tinham sido deformadas e destroçadas, e lá estavam os rapazes americanos rindo-se disso.

A segunda forte impressão não foi causada pela destruição, mas pela atitude do povo. O tenente Foley observou que “os habitantes, por livre e espontânea vontade, mostravam-se determinados a limpar e varrer as ruínas da guerra. Na maioria das ruas, viam-se pilhas uniformes de pedras de pavimentação aproveitáveis. Eles trabalhavam nas casas para remover escombros. As casas ainda estavam em péssimo estado, embora já dessem a impressão de que estavam quase prontas para ser reconstruídas. Impressionante” .

O dia 19 de abril foi um grande dia para a companhia. O quartel-mestre da divisão distribuiu 34 pares de meia por pelotão, ou um par para cada combatente em média, além de três garrafas de Coca-Cola (acompanhadas de ordens rigorosas para a devolução das garrafas) e duas de cerveja americana para cada um. A tropa recebeu o pagamento dos meses de fevereiro e março, na forma de Marcos Militares dos Aliados; esses foram os primeiros marcos da tropa, e ela recebeu ordens para trocar por marcos todo o dinheiro francês, britânico, holandês, belga e americano que tivesse.

Em 22 de abril, a companhia embarcou na versão alemã dos 48s, os vagões ferroviários franceses que transportavam 40 pessoas ou 8 cavalos. Os vagões tinham sido dedetizados, e seu piso recebera uma camada de palha. Cada um dos combatentes recebeu cinco rações K.

Eles partiram para a Baviera e os Alpes. Bradley tinha subordinado a 101ª ao VII Exército Americano. Seus objetivos eram Munique, Innsbruck e o Passo de Brenner. O propósito disso era ocupar os Alpes com tropas americanas antes que os alemães conseguissem criar um reduto lá, a partir do qual pudessem prosseguir com a guerra. O Ninho da Águia, fortaleza de Hitler em Berchtesgaden, era o suposto QG desse esforço de resistência desesperada e de onde os alemães iniciariam uma guerra de guerrilha contra as forças de ocupação do país. O maior receio de Eisenhower era que Hitler conseguisse instalar-se no Ninho da Águia, onde ficaria bem protegido e teria instalações de radiodifusão para poder falar ao povo alemão e continuar a resistência ou iniciar a guerra de guerrilha.

Mas o que aconteceu foi que os alemães não tinham planos concretos nem recursos suficientes para construir um reduto nas montanhas. Não nos devemos esquecer, porém, de que haviam transcorrido apenas quatro meses desde a época em que todos achavam que o exército alemão estava arruinado, mas acabaram sendo surpreendidos pela Batalha das Ardenas. Portanto, o receio ainda existia, mas o fato era que, em seu esforço de avançar para Berchtesgaden, a Easy estava 160 quilômetros atrás da linha de frente, numa posição de reserva, em que jamais fora ameaçada. A viagem da companhia pela Alemanha foi mais um passeio turístico do que uma manobra de combate.

Esse avanço começou com uma viagem de trem de 200 quilômetros por quatro países. Tão grande foi a destruição das forças aliadas imposta ao sistema ferroviário alemão que, para ir do Ruhr ao sul da Alemanha, era necessário passar pela Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França. Os fuzileiros viajaram em vagões abertos e dormiam, cantavam, balançavam as pernas sentados à porta e tomavam sol no telhado dos 48s. Popeye Wynn puxava coros intermináveis com o tema musical do TOGE, Roll Me over in the Clover.

O trem passou a 40 quilômetros de Bastogne. “Os indícios ocasionais dos combates renhidos de três meses antes eriçavam os pêlos do pescoço de muitos veteranos de Bastogne. Mas, ao mesmo tempo, com a neve, o frio, a escuridão e árvores de aspecto agourento os únicos elementos presentes em suas recordações, eles ficaram surpresos com a beleza das terras ondulantes tapizadas pelo verde renovado, trazido pela

primavera”{82}, observaram os responsáveis pelo registro histórico oficial da divisão.

Eles voltaram a entrar na Alemanha e depois na região do Reno, em Ludwigshafen, onde desembarcaram do trem e foram transferidos para um veículo chamado DUKW: D [(d)ate — data, ano de criação — 1942], UK [(u)tility truc(k) — utilitário anfíbio com tração dianteira] e W [dual rear (w)heel axle drive — tração traseira

de eixo duplo] {83}. Os DUKWs vieram com a invasão do sul da França. Eram os primeiros que a Companhia E tinha visto. O DUKW era notável em todos os aspectos, mas, pelo fato de que era híbrido, nem a guerra em si nem o Ministério da Marinha foram fatores de estímulo a seu desenvolvimento. Apenas 21 mil deles foram fabricados durante a guerra.

O desejo dos combatentes da Companhia E era de que houvesse 210 mil desses veículos ou mesmo 2,1 milhões deles. O DUKW era capaz de transportar 20 fuzileiros totalmente equipados e com algum conforto. Podia fazer 5 nós em condições de navegação moderadas e alcançar 80km/h em terra rodando com pneus de tamanho extra. Era um veículo confortável, sem os solavancos da carreta de transporte de tropa de duas toneladas e meia ou a dureza barulhenta do jipe. Webster conta que o DUKW “sobe e desce suavemente, como um barco a vela sobre ondas tranqüilas”.

Eles atravessaram o Reno pela Ponte Ernie Pyle, uma ponte flutuante construída pelos engenheiros-oficiais, e seguiram para Munique. Passaram por Heidelberg, e Webster ficou fascinado com o lugar. “Quando vimos todos aqueles edifícios intactos e o calçadão fluvial, onde civis cordiais passeavam ao sol, senti vontade de ficar em Heidelberg para sempre.

As colinas verdejantes, o sol quente, o rio de águas refrescantes e convidativas, o ambiente aristocrático, oloroso e suave — Heidelberg era sinônimo de paraíso em todos os idiomas.”

Dali por diante, o comboio seguiu por caminhos tortuosos, pelas encostas de montanhas, tanto por estradas principais quanto por caminhos vicinais. “Ficávamos, o tempo todo”, escreveu Webster, “maravilhados com a beleza estonteante da Alemanha. Como disse um articulista no New Yorker, era uma pena desperdiçar a Alemanha com os alemães.”

No meio da tarde, Speirs despachava os sargentos Carson e Malarkey em missões de destacamento para estabelecer um PC da companhia nesse ou naquele vilarejo. A tarefa deles consistia em escolher a melhor casa e reservar o melhor quarto de dormir para o capitão Speirs.

Carson falava um alemão de ensino médio. Ele escolhia o lugar, batia à porta e dizia aos alemães que eles tinham cinco minutos para sair e que não deveriam levar nenhuma roupa de cama com eles. Dê mais cinco minutos a eles, Speirs lhe dissera, que levam tudo consigo.

Certa vez, o destacamento foi parar num condomínio de apartamentos de três andares, perfeito para ser usado como QG e acomodar a maior parte da companhia. Carson bateu às portas e disse aos ocupantes: Raus in fünf minuten. Eles saíram às pressas, chorando, lamentando-se, amedrontados.

— Bati numa das portas — conta Carson —, e uma senhora idosa atendeu. Olhei para ela, e ela me fitou. Meu Deus, era a imagem de minha avó. Nosso olhar se encontrou, e eu disse: “Bleib hier”, ou seja, a senhora pode ficar.

Malarkey continuou a história. — Então, Speirs finalmente aparecia, e você ficava sem vê-lo umas duas ou três horas. Ele era o pior saqueador que conheci. Ele não conseguia dormir de noite pensando que havia um colar ou algo do gênero por perto. — Na primeira oportunidade, ele enviava o saque para a esposa na Inglaterra. Ele precisava do dinheiro que conseguia com a venda; sua esposa tinha acabado de ter um filho.

Quase todos os membros da Companhia E, assim como quase todos os combatentes no TOGE, participavam de saques. Era um fenômeno da guerra. Milhares de homens que jamais tinham pegado algo de valor em suas vidas que não lhes pertencesse começaram a achar normal que tudo que desejassem podia ser deles. O saque era lucrativo, divertido, envolvia pouco risco e estava em perfeita conformidade com as práticas de guerra de todos os exércitos conquistadores desde a época de Alexandre, o Grande.

Lugers, insígnias nazistas, relógios de pulso, jóias, as primeiras edições de Mein Kampf, bebida alcoólica estavam entre os itens mais cobiçados. Qualquer coisa que pertencesse a soldados alemães e que fosse tirada deles era considerada jogo limpo; os que pilhavam pertences de civis recebiam o olhar de reprovação dos colegas, mas isso acontecia mesmo assim. Não se dava muito valor a dinheiro. O sargento Edward Heffron e o socorrista Ralph Spina surpreenderam meia dúzia de soldados alemães numa casa. Os alemães se renderam; Heffron e Spina pegaram os relógios deles, um belo par de binóculos e assim por diante. De repente, viram um cofre na estante. Spina o abriu; havia nele um maço de cédulas de pagamento das Wehrmacht. Os fuzileiros ficaram com o dinheiro. Nas palavras de Spina, “dois jovens de South Philly fizeram um verdadeiro assalto com um mosquetão e uma pistola”.

De volta ao apartamento, Heffron e Spina discutiram sobre o que fazer com o dinheiro enquanto esvaziavam uma garrafa de conhaque. De manhã, foram à missa na igreja católica e distribuíram o dinheiro entre os devotos, “mas não de algumas cédulas de grande valor, que dividimos entre nós”, Spina confessa. — Não estávamos tão bêbados assim a ponto de não ficarmos com nada.

Eles tomavam todos os veículos, de todos os tipos, particulares e militares. O praça Norman Neitzke, que iniciara sua experiência como combatente em Haguenau, lembrou-se da ocasião em que os membros de seu esquadrão, logo depois de saírem com uma ambulância alemã, viram que havia um médico alemão e uma gestante na traseira prestes a dar à luz. Os americanos abandonaram a ambulância.

Na manhã seguinte, o tenente Richey tomou a câmera de uma alemã que estava fotografando o comboio. Mas, em vez de ficar com ela, ele a jogou ao chão e atirou na câmera com sua pistola. Essa atitude o fez ganhar o apelido de “O Matador de Câmeras”.

O contato com o inimigo se intensificou quando o comboio seguiu para o Sudeste, mas não envolveu ações de combate. Os americanos começaram a ver pequenos grupos de soldados alemães, tentando render-se. Depois, grupos maiores. Por fim, a quantidade de alemães em uniformes cinza de campanha que apareceram querendo render-se foi maior do que qualquer um poderia ter imaginado.

A Companhia E estava no meio de um exército alemão em processo de franca dissolução. Seu sistema de ressuprimento estava arruinado. Tudo que os soldados alemães queriam era o acesso seguro a um cercado de prisioneiros de guerra. “Não conseguia refazer-me do assombro de ver alemães, que havia apenas algum tempo tinham sido tão difíceis de capturar, virem das colinas como cordeiros e se entregar”, escreveu Webster. Quando o comboio alcançou a auto-estrada que levava a Munique, a Leste, a estrada foi interditada e reservada ao tráfego das viaturas militares dos Aliados. Em sentido contrário dos veículos dos Aliados, seguiam os alemães, em marcha para o Oeste, em demanda do cativeiro. Gordon Carson contou que “a coluna de prisioneiros alemães, portando armas e munição, se estendia pelo canteiro a perder de vista. Ninguém parava para fazer-lhes a rendição. Nós simplesmente acenávamos”.

Webster achou a cena dos alemães marchando pelo canteiro “um espetáculo emocionante”. Eles avançavam “em grupos gigantescos. Vimos a cena inacreditável de dois recrutas vigiando cerca de 2.500 inimigos”. Nessa ocasião, os membros da companhia perceberam que o colapso das forças alemãs era completo e que, nessa primavera, elas não se recuperariam, como ocorrera no outono anterior.

Havia ainda alguma resistência esparsa e esporádica. Todas as pontes eram destruídas por engenheiros alemães quando os Aliados se aproximavam. De vez em quando, uma unidade fanática das SS fazia disparos de sua margem do rio. Era um perigo mais irritante que ameaçador. Quando isso ocorria, os americanos traziam para a vanguarda algumas peças de artilharia leve, expulsavam as tropas das SS do local e ficavam esperando os engenheiros consertarem a velha ponte ou construírem uma ponte nova.

Winters ficou impressionado com o fanatismo dos alemães, a disciplina que levava os engenheiros alemães a explodir suas próprias pontes quando a inutilidade da destruição delas era óbvia para qualquer idiota e com “toda a futilidade da guerra. Lá estava um exército alemão tentando render-se e seguindo a pé para o Norte pela auto-estrada, enquanto, ao mesmo tempo, outro grupo destruía as pontes para atrasar a rendição”.

Em 29 de abril, a companhia parou para pernoitar em Buchloe, no contra-forte dos Alpes, perto de Landsberg. Ali, seus membros viram um campo de concentração pela primeira vez. Era um campo de escravos, e não um campo de extermínio, um da meia dúzia ou mais que faziam parte do complexo de Dachau. Embora fosse relativamente pequeno e criado para produzir bens de guerra, era tão horrível que era impossível avaliar a enormidade do mal causado por ele. Prisioneiros com uniformes listrados, três quartos deles esfomeados e macilentos, milhares deles; corpos, pouco mais que esqueletos, às centenas.

Winters achou pilhas de queijo no porão de um edifício que ele estava usando como o PC do batalhão e ordenou que fossem distribuídos entre os prisioneiros dos campos. Ele entrou em contato com o regimento pelo rádio para descrever a situação e pedir ajuda.

A companhia ficou em Buchloe por duas noites. Portanto, estava presente na manhã em que o povo de Landsberg saiu às ruas, carregando ancinhos, vassouras e pás, e marchou em direção ao campo. Ocorre que o general Taylor tinha ficado tão indignado com a cena que decretou lei marcial e ordenou que todos entre 14 e 80 anos de idade fossem reunidos e enviados para o campo, para enterrar os corpos e limpar o local. As pessoas voltaram do campo à noite, ainda vomitando.

“A lembrança de homens macilentos e estuporados”, Winters escreveu, “que baixavam os olhos e a cabeça quando olhávamos para eles através do alambrado, como cães que se encolhem ao serem espancados e maltratados, imprime em nós sentimentos indescritíveis, que jamais se esquecem. O choque de ver essas pessoas atrás daquela cerca me fez dizer comigo mesmo: ‘Agora sei por que estou aqui!’”