Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 3 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 3

“O Serviço da Ordenança Encarregada da Latrina”

 

ALDBOURNE

Setembro de 1943-março de 1944

 

O Samaria era um antigo navio hindu usado no transporte de correspondência e passageiros transformado em navio de transporte de tropas. Originalmente construído para transportar mil passageiros, ele transportou 5 mil membros do 506°. O excesso de passageiros gerou um ambiente de péssimas condições de acomodação e conforto. A água fresca foi muito racionada; a tropa podia beber, conforme estipulado, a intervalos de 15 minutos, de um total de uma hora e meia por dia. Nos chuveiros, a água era salgada e fria. A tropa tinha de usar as jaquetas salva-vidas o tempo todo, e suas cartucheiras com os cantis presos a elas, o que fazia que os soldados trombassem um no outro constantemente. Dormiam sem tirar as roupas. Havia uma cama para cada dois homens, o que os obrigava a alternarem-se no uso dela, com noites de sono passadas ou no convés, ou num corredor, ou em qualquer espaço que conseguissem achar e pudessem deitar-se. A fedentina era simplesmente insuportável.

Havia duas refeições por dia. Christenson nos fala de seu primeiro café da manhã.

— Acho que não conseguiríamos parar na descida das escadas para o salão do rancho, situado no convés inferior, escadas que eram escorregadias, sujas de graxa, e, quando finalmente chegávamos lá embaixo, o fedor era quase insuportável. Eles nos serviam a comida tirando-a de grandes panelas, cheia de peixe cozido e tomate. Os cozinheiros trajavam roupas brancas, mas sujas, com mancha sobre mancha, indicando que não as trocavam havia dias. — A tropa comia essa lavagem porque a fome apertava; para Webster, o salão do rancho tinha “os ares de um hospício flutuante”.

As refeições serviam, pelo menos, para quebrar a rotina, que consistia em andar pelos deques, passar algum tempo debruçado na amurada, observando o comboio, ou jogar a valer. O jogo era prática constante: pôquer, vinte-e-um e dados. Grandes quantias mudavam constantemente de mãos. Carson ganhou 125 dólares numa noite e perdeu tudo no dia seguinte. Os soldados tentavam ler, mas tinham poucos livros bons. O capitão Sobel tentou iniciar e dirigir uma sessão de ginástica, mas o espaço era insuficiente, e a ocasião se tornou mais uma piada produzida pelo oficial.

Em 15 de setembro, o Samaria atracou no cais de Liverpool. No dia seguinte, um trem levou a tropa para o sul. Caminhões pegaram os soldados na estação de Osbourne St. George e os levaram para o seu novo lar. Eles cobriram os últimos 2 quilômetros marchando, quando já havia anoitecido, com simples lanternas para enxergarem o caminho; o blecaute de guerra deu aos combatentes a impressão de que estavam em zona

de combate. Eles foram para os seus alojamentos Nissen {15}, que eram aquecidos com fogões bojudos, de duas bocas, e, depois de receberem fronhas, além de cobertores de lã grossos e pesados, mostraram-lhes a palha que poderiam usar para transformar em travesseiros. Em seguida, foram dormir.

Webster disse em seus escritos que, quando acordou na manhã seguinte:

“Achei que tinha desmaiado num cenário cinematográfico de Hollywood. Em toda parte, havia casinhas de contos de fada com telhados de colmo e roseirais nas laterais. Cavalos robustos sacudindo crinas longas transitavam por vielas serpeantes e pavimentadas com pedras arredondadas. Uma praça com um gramado amplo estendia-se de um dos lados de uma igreja normanda antiga, cinzenta, marcada pela exposição ao tempo, e cujo relógio assinalava as horas como o Big Ben, e cinco estabelecimentos públicos antigos, com suas placas balouçando ao sabor da brisa, nos davam as boas-vindas à terra da cerveja suave e amarga.” Eles estavam em Aldbourne, Wiltshire, perto de Hungerford, não muito longe de Swindon, a uns 140 quilômetros a oeste de Londres. Seria o lar da Companhia E durante quase nove meses, de longe o lugar em que ela mais tempo ficou.

Aldbourne era diferente de Toccoa, Benning e Bragg em muitos aspectos. Esses centros em que os membros da Easy tinham ficado eram instalações auto-suficientes, isoladas, totalmente militares. Em Aldbourne, eles ficaram no meio de um vilarejo inglês, onde as pessoas eram conservadoras, aferradas a tradições, e estavam apreensivas com todos esses jovens ianques em seu ambiente. O risco de conflitos era grande, mas o exército criou um excelente programa de orientação, que funcionou bem. No início dessa primeira manhã e durante a maior parte da semana, os soldados foram submetidos a preleções detalhadas sobre os costumes, os modos, os hábitos dos ingleses. Tão disciplinados como eram, assimilaram rapidamente a idéia básica de que deveriam poupar suas energias para Swindon, Birmingham ou Londres; em Aldbourne, deveriam tomar sua cerveja nos bares locais pacificamente, tal como os britânicos.

Aprenderam também a consumir o que os britânicos consumiam então: leite e ovos em pó, damasco e batata desidratados, carne de cavalo, couve-de-bruxelas, nabo e repolho. Os produtos da cooperativa militar eram racionados: quatro maços de cigarro por semana, além de três barras de chocolate, uma caixa de chicletes, um sabonete, uma caixa de fósforos, uma caixa de lâminas de barbear.

Sobel continuou o mesmo. No primeiro fim de semana, a tropa recebeu licença para ir a Swindon e participar de um baile sábado à noite lá. Sobel estabeleceu uma norma: nenhum soldado tiraria a camisa quando estivesse dançando. O praça Tom Burgess, jovem de fazenda da região central de Illinois, começou a suar enquanto dançava trajando uma camiseta de algodão por baixo da camisa. Diante disso, ele tirou a camisa.

No domingo de manhã, Sobel chamou Burgess a seu escritório. — Burgess, soube que você esteve dançando num baile na cidade, na noite de sábado, sem a camisa.

— É verdade, capitão Sobel — tornou Burgess —, mas examinei os regulamentos do exército e vi que está bem claro que você pode tirar a camisa se tiver por baixo uma camiseta de algodão e estiver movimentando-se ou dançando ou fazendo outra coisa qualquer.

Sobel o olhou de cima a baixo.

— Vou lhe dizer o que farei, Burgess. Você usará sua camisa por cima do uniforme de faxina durante a semana inteira; e dormirá com ela todas as noites.

Burgess usou a camisa durante o dia, mas achou que Sobel não procuraria saber se ele iria fazer isso à noite. Assim, em vez de usá-la, pendurou-a numa das extremidades da cama. No sábado seguinte, foi ao escritório de Sobel para tratar de obter licença e poder ir ao baile. Sobel olhou-o de cima a baixo outra vez.

— Burgess — ele disse —, essa camisa não me dá a impressão de que você dormiu com ela no corpo a noite inteira. — Ele não conseguiu a licença.

Eles estavam na Inglaterra para os preparativos da invasão da Europa, não para dançar, e o programa de treinamentos era intenso. Malarkey teve a impressão de que havia voltado para Toccoa. Seis dias por semana, de oito a dez horas por dia, eles ficavam no centro. Faziam excursões de 24,28,33 e 40 quilômetros, realizavam operações noturnas, passavam um hora, diariamente, fazendo exercícios de combate de luta corpo-a-corpo e recebiam instrução em interpretação de mapas, de primeiros socorros, de guerra química e de uso e características de armas alemãs. Empreenderam uma excursão de 40 quilômetros com equipamento de campanha completo em 24 horas e, alguns dias depois, outra excursão de 40 quilômetros, dessa vez com mochila de campanha, em 12 horas. Houve cursos especiais sobre armadilhas, remoção de minas, comunicações e assuntos correlatos.

Uma vez por semana mais ou menos, eles saíam para pôr em prática o que aprenderam num programa de exercícios com duração de dois a três dias. Os problemas eram criados não apenas para dar-lhes um conhecimento prático dos mecanismos de combate, mas também para ensinar-lhes a coisa mais simples que o infante tinha de saber: como amar o solo, como usá-lo em benefício próprio, como o tipo de terreno dita a tática a ser adotada e, sobretudo, como viver nele e dentro dele durante dias seguidos sem prejuízo para a eficiência do corpo. Os oficiais ressaltavam a importância de coisas como essas, que seriam a diferença entre viver e morrer, que a tropa deveria pô-las em prática correta e instintivamente na primeira vez em que isso fosse necessário, já que não haveria a segunda vez.

Assim, os membros da Companhia E chegaram a conhecer relativamente bem o interior da Inglaterra. Em operações de manobra de instrução, atacaram cidades, colinas e florestas. Abriram um número incontável de trincheiras individuais e dormiram nelas e aprenderam a fazer isso suportando chuva, frio e fome.

De volta ao campo no início de dezembro, a companhia se entrincheirou numa colina alta, escalvada e exposta a intempéries. Os líderes de pelotão disseram à tropa que fizesse trincheiras individuais profundas, tarefa difícil num solo rochoso. Logo depois, uma equipe de combate blindada composta de tanques Sherman atacou. “Subiram a montanha rugindo contra nós como um monstro primitivo”, Webster escreveu em seu diário, “pararam, viraram-se e lançaram toda a carga sobre nós. Um deles atacou minha posição. Minha trincheira não era funda o suficiente para uma das lagartas passar seguramente por cima de mim. Então, gritei desesperadamente: ‘Desvie, desvie!’ Foi o que ele fez. O tanque passou escarranchadamente pela trincheira.” Em seu diário, Carson descreveu o incidente com as seguintes palavras: “Foi a primeira vez que um tanque passou por cima de mim numa trincheira; pavoroso.”

Houve muito trabalho noturno, lembra-se Gordon. — Cruzávamos campos, escalávamos cercas, atravessávamos desfiladeiros, florestas e rios. — Nisso, os membros dos esquadrões e dos pelotões, já familiarizados uns com os outros, passaram a conhecer-se profundamente. — Eu podia ver uma silhueta à noite — prosseguiu Gordon — e dizer quem era. Eu podia fazer isso observando a maneira pela qual o sujeito usava o quepe, como o capacete lhe caía na cabeça, como ele levava o fuzil na bandoleira. — A maior parte do que eles aprenderam no treinamento mostrou-se valiosa nos combates, mas foi a intimidade, a confiança total, a camaradagem que desenvolveram naquelas noites longas e frias da Inglaterra que se mostraram inestimáveis.

A tropa fez saltos regulares, com equipamento completo, para aprender a usar os tirantes e ser levada para campos cultivados, abertos, em vez de aterrissar numa sebe, numa estrada, num poste telefônico, num muro de pedra ou numa floresta. Nos C-47s, no ar frio e úmido inglês, seus pés estavam dormentes quando a luz verde se acendeu. Com isso, quando chegaram ao solo, sentiram comichões e queimações nos pés, em razão do impacto da aterrissagem. Um dos principais objetivos dos saltos era fazer o combatente aprender a recolher o pára-quedas rapidamente depois de aterrissar, o que não foi muito fácil para o 2º Pelotão da Easy no primeiro salto, considerando-se que ele aterrissara a 40 quilômetros da zona de salto (ZS).

Houve tensão. Membros da 82ª DIA, estacionada nas proximidades, ficaram de demonstrar aos pára-quedistas da 101ª como tinham sido os combates no Norte da África, na Sicília e na Itália. Os oficiais eram os que mais sentiam a pressão da proximidade dos combates, não mais, porém, do que Sobel. — Via-se isso na atitude dele. — observou Winters. — Ele estava se tornando mais amargo e sádico. Estava chegando a um ponto insuportável.

Em suas recordações do fenômeno, o sargento Earl Hale disse que “corria uma aposta para se saber quem acertaria Sobel”. Este tinha pegado uma jaqueta de pele de carneiro da Força Aérea, da qual sentia orgulho e a qual ele vestia em campanha, o que o fazia atrair muita atenção. Tipper lembra-se de que, quando a companhia estava treinando no campo de provas com munição de verdade, atirando contra alvos fixos, “Sobel sentiu que alguns tiros passaram perto dele. Mais de um deles foi disparado de trás e dos lados, de modo que Sobel ouvisse o estampido bem próximo à cabeça. Ele se jogava abruptamente ao chão, fazia um arremedo de meia-volta rápida e breve, gritava algo e atirava-se ao solo outra vez. Havia muita risada e gesticulação entre os homens. Não consigo acreditar que Sobel achava que o que estava acontecendo era acidental, mas talvez ele sim. De todo modo, ele continuou a levantar-se de um salto, atirar-se ao solo e correr de um lado para o outro, como se tudo aquilo fosse normal”.

A tropa continuava a pregar peças em Sobel. O praça George Luz conseguia imitar vozes. Certa noite, a Companhia E encabeçava o batalhão numa marcha pelo campo. As cercas de arame farpado continuavam a retardar o avanço deles. Sobel seguia na frente.

— Capitão Sobel — vibrou de súbito no ar a voz disfarçada do praça —, qual é o problema?

— Arame farpado — respondeu Sobel, achando que estava falando com o major Oliver Horton, o subcomandante do batalhão.

— Corte essa cerca — exclamou Luz, continuando a imitar a voz de Horton. — Sim, senhor — tornou Sobel, e ordenou que levassem cortadores de arame farpado para a linha de frente.

Na manhã seguinte, um grupo de fazendeiros de Wiltshire procurou o coronel Strayer. Queixaram-se veementemente do corte feito nas cercas. Suas vacas estavam pastando livremente pelo campo. Strayer mandou chamar Sobel.

— Por que você cortou as cercas?

— Recebi ordens para cortá-las, senhor!

— De quem?

— Do major Horton.

— Não é possível. Horton está de licença em Londres. — Sobel foi duramente repreendido, mas nunca conseguiu saber quem o tinha enganado e, portanto, não pôde retaliar.

Eram suas repreensões, seu tolo “Eia, Silver!”, seu trato desajeitado com problemas táticos que mais irritavam os oficiais, os graduados e os alistados da companhia do que sua mesquinhez. A insatisfação aumentava dia após dia, e, principalmente os sargentos Myron “Mike” Ranney, jovem de 21ªnos de idade, de Dakota do Norte, do 1º Pelotão, e “Salty” Harris, do 3º Pelotão, queixavam-se do perigo potencialmente desastroso que havia no fato de Sobel liderá-los nos combates. Os graduados estavam perfeitamente conscientes de que estavam numa situação extremamente perigosa e desafiadora. Agir os tornaria passíveis de acusação de insubordinação ou motim em tempo de guerra; deixar de agir poderia levar a companhia inteira à morte.

Ranney, Harris e outros graduados tinham a esperança de que os líderes de pelotão levassem o problema ao coronel Sink ou que este tomasse conhecimento da situação por si mesmo e que, depois, afastasse Sobel discretamente. Mas isso parecia ingenuidade. Como jovens oficiais, cuja responsabilidade era apoiar seu comandante, poderiam procurar o coronel para queixarem-se do comandante? E de que se queixariam? A Companhia E continuava a encabeçar as operações do regimento, nos campos, nos quartéis, nas competições atléticas. Como os graduados poderiam esperar que o coronel Sink fizesse outra coisa que não fosse apoiar seu comandante de companhia diante da dissensão e da pressão de um grupo de sargentos e cabos? Esses homens estavam preparando-se para travar combate com o mais temido exército do mundo, não para disputar uma partida de um jogo qualquer ou enfrentar um debate.

Assim, os resmungos continuaram, e Sobel e o primeiro-sargento Evans permaneceram isolados, mas ainda no comando.

* * *

Licenças de fim de semana e o excelente sistema ferroviário britânico serviram para quebrar um pouco a rotina tensa na tropa. A Inglaterra do fim de outono e início de inverno de 1943 foi um país das maravilhas para os jovens americanos. A maioria dos jovens britânicos da idade deles estava na Itália ou em centros de instrução longe dos lares. Com isso, havia mulheres jovens solitárias, entediadas e descompromissadas em toda parte. Os soldados americanos eram bem pagos, bem mais que os britânicos, e os pára-quedistas tinham os 50 dólares adicionais mensais. A cerveja era barata e abundante, e, uma vez fora de Aldbourne, todas as restrições deixavam de existir. E eles estavam preparando-se para matar ou morrer. Em sua maioria, tinham 20 ou 21ªnos de idade.

Webster nos fala disso no registro que fez no dia 23 de outubro em seu diário: “Não gosto do exército, mas a maioria dos membros desta unidade considera isto aqui verdadeiras férias. Rapazes que haviam estado trabalhando em sua terra natal entram para o exército e se sentem libertos de todas aquelas responsabilidades. Todos eles admitem que nenhum deles jamais tomou drinques tão bons no lugar de onde vieram.”

O ambiente emocionante da época, a multiplicidade de impressões que experimentavam constantemente, o desejo desesperado de fugir um pouco dos rigores dos treinamentos, a idéia da proximidade dos combates e a mesquinhez de Sobel combinaram para fazer desse um tempo inesquecível e levar a maioria da tropa a aproveitá-lo ao máximo. “Londres para mim era um tapete mágico”, escreveu Carson. “Por quaisquer de suas ruas que transitássemos, víamos todos os uniformes do Mundo Livre. A juventude e o vigor deles vibravam e contagiavam o ambiente de todos os parques e bares: Piccadilly, Hyde Park, Leicester Square, Trafalgar Square, Victoria. O uniforme dos canadenses, dos sul-africanos, dos australianos, dos neozelandeses, dos franceses, dos poloneses, dos belgas, dos holandeses e, logicamente, dos ingleses e dos americanos estavam em toda parte.

Esses dias me marcaram, pois, mesmo com 21ªnos então, eu sabia que estava vendo algo que jamais ocorreria outra vez e que estava fazendo parte disso. A Londres do tempo da guerra era um mundo à parte.”

Houve bebedeiras, envolvimento com prostitutas, brigas. Alguns britânicos de mais idade e de índole observadora queixavam-se disso: “O problema com vocês ianques é que ganham muito, fazem muito sexo e estão aqui conosco.” (Ao que os ianques respondiam: “O problema com vocês britânicos é que ganham mal, gostam pouco de sexo e estão com Eisenhower.”)

* * *

A Companhia E estava ganhando mais oficiais, de modo que passasse a ter dois tenentes por pelotão, em razão da expectativa de sofrer baixas quando os combates começassem. Um desses então recém-chegados era o segundo-tenente Lynn “Buck” Compton. Nascido no último dia do ano de 1921, em Los Angeles, ele foi apanhador de elite da equipe de beisebol da UCLA e atuou como jogador de futebol americano por essa mesma universidade no jogo de 1º de janeiro de 1943, no Rose Bowl. Quando se formou pela EAO, foi para o Forte Benning. Depois de terminar o curso na escola de pára-quedismo, juntou-se à Companhia E em Aldbourne, em dezembro. “Lembro-me de ter sentido um pouco de inveja daqueles que haviam estado em Toccoa”, escreveu anos depois, “e me senti como que ‘deslocado’ como novo membro da companhia.”

Compton aprendeu rapidamente que o tenente Nixon, agora no serviço de inteligência do batalhão, tinha antipatia por “atletas”. Nixon encarregou Compton do treinamento físico dos membros do batalhão, o que, na prática, significava que Compton tinha de encabeçar o batalhão em corridas de longa distância, o único oficial que tinha de fazer isso. Talvez como resultado de sua experiência, ou por causa de seu passado de atleta, ou talvez porque gostasse de apostar, Compton tinha um relacionamento próximo com os graduados e com alguns dos alistados. Próximo demais, achavam alguns oficiais. Ele foi pego jogando dados com alguns dos soldados e acabou sofrendo uma repreensão do subcomandante, tenente Winters.

Às 11 horas do dia 30 de outubro, o tenente-coronel Strayer faria uma inspeção na Companhia E. Sobel deu ordens ao tenente Winters para que inspecionasse a latrina às 10 horas. Alguns minutos depois, por volta das 9h30, Strayer disse a Winters que censurasse a correspondência dos alistados. Essa era uma tarefa que não podia ser feita no quartel. Desse modo, Winters pegou sua bicicleta e seguiu para os seus aposentos, um pequeno quarto numa casa particular em Aldbourne. Às 10 horas, ele estava de volta. Estacionou a bicicleta fora dos alojamentos e entrou para inspecionar a latrina. Para sua surpresa, Sobel estava lá, fazendo ele mesmo a inspeção.

Sobel passou por Winters, cabisbaixo, sem revelar nenhum sinal de que tinha visto o subcomandante. Atrás dele, vinha o praça Joachim Melo, sumamente contrariado, carregando um esfregão, totalmente ensopado, sujo, barba crescida, cabelos despenteados. Sobel saiu sem dizer uma palavra sequer. Winters inspecionou a latrina e viu que Melo tinha feito um bom trabalho.

Às 10h45, Winters entrou na sala de ordens com o objetivo de preparar-se para a formação da companhia. Com uma ponta de sorriso nos lábios, o primeiro-sargento Evans lhe entregou um documento datilografado. O documento dizia:

Companhia E, 506° RIP, 30 de out. de 1943

Assunto: Punição de acordo com o A[rtigo de] G[uerra]

Ao: Primeiro-Tenente R. D. Winters

1. Indique, por meio de aposição de assinatura abaixo, se prefere ser punido de acordo com o AG ou ser submetido a julgamento por uma Corte Marcial por ter deixado de inspecionar a latrina às 9h45 nesta data, conforme ordenado por mim.

[Assinado, com muito floreio] Herbert M. Sobel, capitão, comandante.

Winters foi procurar Sobel.

— Capitão — ele disse depois de bater continência e pedir permissão para falar —, a ordem recebida foi para inspecionar a latrina às 10 horas.

— Mudei o horário para as 9h45.

— Ninguém me disse isso.

— Eu telefonei e enviei um mensageiro. — Winters mordeu os beiços. Não havia telefone em sua sala, e nenhum visitante tinha ido lá.

Era a hora da inspeção. Strayer passou pelas fileiras e pelos alojamentos. Tudo, inclusive a latrina, pareceu satisfatório. Nesse ínterim, Winters tinha tomado uma decisão com respeito à resposta que daria a Sobel. Na parte inferior da folha datilografada, ele escreveu à mão:

Assunto: Punição de acordo com o AG 104 ou Julgamento por Corte Marcial.

Ao: Capitão H. M. Sobel

1. Solicito ser submetido à Corte Marcial por ter deixado de inspecionar a latrina às 9h45 nesta data. Tenente R. D. Winters, subcomandante, Comp. E

Sobel respondeu-lhe no dia seguinte:

1. Todas as licenças de 48 horas lhe serão negadas até 15 de dezembro de 1943.

2. De acordo com a norma delineada no Manual de Corte Marcial, você mesmo deverá tomar a inisiativa [iniciativa; é evidente que o sargento tinha dificuldade com datilografia ou ortografia] de criar seu próprio documento de apelação, com as razões para a objeção e também o requerimento [para ser submetido] a julgamento por corte marcial.

Winters ferveu de raiva durante três dias. Até onde sua capacidade de dedução pôde chegar, achou que talvez Sobel estivesse querendo dizer: “Olhe, não seja tolo. Aceite a punição e esqueça a corte marcial.” Sobel sabia que a “punição” era indiferente para Winters, já que este passava os fins de semana no posto, lendo ou praticando esportes. Mas Winters estava farto. Ele queria forçar uma crise. A competição que nunca tivera, entre ele e Sobel, pela liderança da Companhia E, tinha de ser iniciada. A companhia não era grande o bastante para os dois.

Em 4 de novembro, Winters apresentou a apelação conforme o Artigo de Guerra 104. Sobel fez um “indosso” [erro de Evans] no dia seguinte:

1ª punição para a infração acima imposta pelo abaixo-assinado não será suspensa por ele.

2. Quando recebeu de um oficial superior a mim a incumbência de realizar uma tarefa [a ordem de Strayer de censura da correspondência dos alistados], você deveria ter delegado a outro oficial a tarefa de inspeção da latrina e não adiar isso a tal ponto que não houvesse tempo para a tomada de medidas corretivas, antes da chegada do general, ocorrida dez minutos depois.

E apôs no documento a assinatura floreada.

Enquanto isso, o requerimento de Winters para ser submetido a uma corte marcial estava causando um problema que não era tão engraçado quanto pareceu ao estado-maior do 2º Batalhão. Os oficiais pegaram o manual de corte marcial e o estudaram intensamente para tentar achar um meio de poupar-se essa situação constrangedora. Acabaram conseguindo isso, e Strayer suspendeu a punição e declarou o encerramento do caso — nada de corte marcial.

Mas Sobel não desistiu. No dia seguinte, 12 de novembro, Evans entregou a Winters outra ordem datilografada:

Assunto: Omissão na Orientação da Ordenança Encarregada da Latrina

Para: Primeiro-Tenente R. D. Winters

1. Queira informar, por meio do endosso deste documento, a razão pela qual deixou de passar orientação ao praça J. Melo quanto aos deveres dele como encarregado de manutenção da latrina.

2. Queira informar também por que ele teve permissão de entrar em serviço, às 10h30, sem fazer a barba.

“Desisto”, disse Winters consigo mesmo. “Vá em frente e fuzile-me.” Nesse estado de espírito, ele respondeu, endossando o documento.

1. Justificativa pela qual deixei de passar orientações ao praça J. Melo quanto aos deveres dele como ordenança da latrina: Nenhuma.

2. Justificativa pela qual ele teve permissão de entrar em serviço, às 10h30, sem fazer a barba: Nenhuma.

No dia seguinte, Strayer decidiu, para o bem da Companhia E (na qual, naturalmente, o confronto longamente aguardado entre Sobel e Winters era o assunto dominante das conversas nos alojamentos), transferir Winters da Easy. Strayer tornou-o o oficial do rancho do batalhão.

Isso foi um insulto para Winters, na opinião dele: “Você dá um serviço desse a um sujeito que não consegue fazer nada direito.”

Com Winters fora da companhia, Sobel ainda no comando e os combates aproximando-se, os graduados ficaram alvoroçados. Os sargentos Ranney e Harris convocaram uma reunião. Com exceção de Evans e um ou dois mais, todos os graduados da Companhia E compareceram. Ranney e Harris propuseram que apresentassem um ultimato ao coronel Sink: ou Sobel era substituído, ou eles desertariam. Ressaltaram que todos teriam de agir conjuntamente, sem dissidência nem nenhum líder identificável.

Essa proposta extremada gerou muitos comentários, muitas perguntas, grande preocupação, mas, por fim, o grupo concluiu que entrar em combate sob o comando de Sobel era impensável. A única maneira pela qual acharam que poderiam fazer Strayer e Sink ver quanto estavam contrariados com essa idéia era entregar as divisas. Cada um desses oficiais redigiu seu próprio pedido de exoneração. O de Lipton foi feito nestes termos: “Venho, por meio deste, informar que estou entregando minhas divisas. Não quero mais ser graduado da Companhia E.” Lipton era SO (sargento de ordenança, o sargento que dormia na sala da ordenança para resolver qualquer problema que surgisse à noite, para acordar a tropa de manhã etc.) nessa noite. Ele recolheu as exonerações e as pôs na cesta de chegada de circulares e outros documentos de Sobel.

Em seguida, os graduados trataram de passar a pensar no que fariam e acabaram decidindo consultar-se com Winters. Este foi convidado a comparecer à sala da ordenança, onde, ao chegar, Ranney disse a ele o que o grupo tinha feito.

— Não façam isso — disse Winters. — Nem pensem em fazer isso. Isso é motim.

Os oficiais protestaram. Enquanto a discussão prosseguia, Sobel chegou. Todos emudeceram. Sobel não disse nada: apenas foi até sua mesa e pegou um livro. Quando ele se virava para sair, Ranney perguntou, calmamente: — Pois então, tenente Winters, o que faremos com relação à melhoria de nosso programa de atletismo? — Sobel não demonstrou nenhum sinal de preocupação. Apenas saiu.

Winters achou que não havia como Sobel não ter sabido do que estava acontecendo. — Ora, isso não tinha segredo nenhum. — Ranney tinha convidado Evans para participar da reunião; era praticamente certo que Evans tinha falado sobre ela com Sobel.

De fato, a essa altura o batalhão inteiro estava comentando as disputas de Sobel, primeiro com Winters, agora com seus oficiais subalternos. Sink precisaria ter sido cego, surdo e mudo para não tomar conhecimento disso. Além do mais, deveria ter ficado grato pelo fato de Winters ter dissuadido os graduados de apresentar-lhe um ultimato. Alguns dias depois, Sink foi até a Companhia E, convocou e reuniu todos os graduados e, nas palavras de Lipton:

— Ele nos repreendeu duramente. Disse-nos que tínhamos desgraçado nossa companhia e que poderia pôr todos nós na prisão militar durante anos. Mas, já que estávamos nos preparando para entrar em combate, disse que poderia considerar isso motim resultante de uma situação especial envolvendo o inimigo, o que nos poderia levar à morte por fuzilamento.

Felizmente para Sink, a 101ª DIA tinha acabado de criar uma escola de pára-quedismo na vila de Chilton Foliat, para qualificar, como pára-quedistas, médicos, capelães, pessoal de comunicações, observadores de artilharia avançada e outros soldados que saltariam no Dia D. Quem melhor que Sobel para administrar um campo de treinamento?

Sink enviou Sobel para Chilton Foliat e trouxe o primeiro-tenente Patrick Sweeney da Able Company para ser o subcomandante da Easy. Ele tornou o primeiro-tenente Thomas Meehan, de Baker, o comandante da Easy. E trouxe Winters de volta, como líder do 1º Pelotão. O sargento Ranney foi rebaixado a praça, e Harris foi transferido. A era Sobel na Companhia E tinha chegado ao fim.

Meehan era totalmente diferente de Sobel. Esguio, relativamente alto, elegante, tinha bom senso e competência. Era rigoroso, mas justo. E tinha boa voz de comando.

— Sob o comando de Meehan — declarou Winters —, tornamo-nos uma companhia normal.

O treinamento intensificou-se. Em 13 de dezembro, a companhia fez um salto noturno e perdeu seu primeiro soldado, o praça Rudolph Dittrich, do 1º Pelotão, devido a um defeito no pára-quedas. Pelotões e esquadrões estavam sendo despachados para o campo com o objetivo de realizar exercícios em que enfrentavam problemas durante três dias, com outros membros sendo postos em situação de comando, já que tenentes e sargentos foram considerados fora de condições de combate. “Imagine-me como líder de pelotão”, Carson escreveu em seu diário em 12 de dezembro. “Não, não pode ser.” Mas foi. Eles estavam aprendendo a ser criativos, o que envolvida a necessidade de aprender a viver dos frutos da terra. Era uma situação que envolvia “pesca” pelo arremesso de granadas de mão nos rios e a improvisação do almoço, que consistia na tentativa de achar cervos nas propriedades rurais que estivessem dispostos a “trombar” com a cabeça numa bala.

O dia de Natal foi de folga, com toda a carne de peru que a tropa conseguisse comer. A véspera de Ano-Novo transcorreu tranqüila. “Ficamos acordados, esperando o Ano-Novo”, escreveu Carson. “Pergunto-me o que ele nos trará, quantos de nós verão o ano de 1945.”

Em 18 de janeiro, o general Bernard Law Montgomery, comandante do 21° Grupo de Exércitos, ao qual a 101ª estava subordinada, foi a Chilton Foliat para uma inspeção. Ele passou o regimento em revista e depois disse à tropa para sair de forma e reunir-se em volta de seu jipe. Subiu no capô e disse aos soldados que eles eram muito bons. “Depois de ver o 506º”, observou, “sinto pena dos alemães.”

À medida que os dias foram tornando-se cada vez mais longos, o que significava a aproximação de boas condições de combate, em razão do clima, a tensão aumentava. Inevitavelmente, os jovens pensavam na morte. Poucos conseguiam expressar suas idéias e sentimentos a respeito disso, mas Webster lidava com o problema diretamente. Ele escrevia para a mãe, aconselhando-a a “parar de preocupar-se comigo. Entrei para o corpo de pára-quedistas para lutar. E pretendo lutar. Se necessário, morrerei lutando, mas não se preocupe com isso, pois nenhuma guerra pode ser vencida sem que jovens morram. As coisas valiosas são salvas apenas com sacrifício”.

Em fevereiro, os exercícios militares passaram a envolver grandes unidades, tal como a 101ª, e, aliás, a força de invasão inteira, de mais de sete divisões, iniciou ensaios para o ataque à Normandia.

Em 23 de março, o 2º e 3º Batalhões do 506° fizeram um salto combinado, de longe o maior do regimento até hoje. A ocasião serviu também como visita de inspeção do primeiro-ministro Winston Churchill, do Supremo Comandante das Forças Aliadas, Dwight D. Eisenhower, do comandante do I Exército Americano, Omar Bradley, do general Maxwell Taylor, comandante da 101ª (o general Lee sofreu um ataque do coração em fevereiro e foi forçado a voltar para os Estados Unidos) e de muitos outros figurões.

O salto foi um grande sucesso. Os C-47s vieram troando pelo céu em formação de Vs perfeitos. Churchill e os generais ficaram observando de uma tribuna de honra, construída especialmente para a ocasião. Os pára-quedistas começaram a saltar dos aviões, um grupo atrás do outro, mais de mil homens e seus pára-quedas enchendo o céu numa chuva de soldados aparentemente infindável. Assim que atingiam o solo, os combatentes desvencilhavam-se do pára-quedas, seguiam correndo para a zona de reunião de tropas e montavam suas armas sem esmorecer na rapidez com que o faziam. Os visitantes ficaram impressionados com a velocidade do movimento. “Os rapazes de Currahee” tinham causado grande impressão, alardeava o álbum de recortes do regimento.

Mais tarde, o regimento reuniu-se na frente da tribuna. Taylor convidou Churchill e Eisenhower para inspecionar a tropa. Eles o fizeram, parando ocasionalmente para fazer uma ou duas perguntas a um dos combatentes.

Eisenhower parou na frente de Malarkey. — Soldado, de onde você é? (Eisenhower conversou com milhares de alistados em inspeções como essas antes do Dia D; invariavelmente, sua primeira pergunta era: “De onde você é?”)

— Astoria, Oregon — Malarkey respondeu.

— O que você fazia antes da guerra? — Malarkey disse que era aluno da

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University of Oregon. Ike quis saber quem havia ganhado o jogo de futebol americano do último outono entre o Oregon e a Oregon State University e se Malarkey pretendia voltar para a universidade depois da guerra. Em seguida, voltou-se para Churchill e sugeriu que o primeiro-ministro fizesse uma pergunta.

— Bem, filho, que achou da Inglaterra? — Malarkey assegurou-lhe que gostou muito do país, já que sempre apreciara a literatura e a história inglesas. Churchill prometeu devolvê-lo aos Estados Unidos assim que possível.

— Essa foi — disse Malarkey — uma ocasião memorável. Manobras ainda maiores foram realizadas imediatamente após aquela à qual Churchill assistiu, com o propósito de entrosar os pára-quedistas, as unidades transportadas por planadores e as forças terrestres com as forças aéreas e os elementos navais. Foram feitos também exercícios em toda a região sudoeste da Inglaterra, com o maciço lançamento aéreo de tropa e equipamentos e operações anfíbias.

Numa dessas manobras, Guarnere ordenou aos praças Warren Muck e Malarkey que lançassem um projétil de morteiro num alvo branco de pouco menos de 2 metros quadrados, numa duna a cerca de 550 metros à frente deles. Malarkey fez um disparo, mas acertou um ponto muito distante do alvo. O segundo disparo, bem perto.

Nesse instante, alguns oficiais do estado-maior aproximaram-se, acompanhados pelo general Taylor. Um deles disse a Guarnere que ordenasse a seu esquadrão de morteiros que atirasse contra o alvo para fazer uma demonstração ao general.

Guarnere ordenou que Malarkey e Muck fizessem três disparos. Em rápida sucessão, eles puserem três projéteis no cano. Cabuuumm. O primeiro atingiu o centro do alvo. Cabuuumm, cabuuumm. Os outros dois caíram em cima do alvo destruído.

— Sargento, seu esquadrão é sempre certeiro assim? — Taylor perguntou.

— Sim, senhor — respondeu Guarnere —, meus garotos nunca erram.

O pessoal da 101ª pegou o trem de volta para os quartéis em Wiltshire e Berkshire. O general Taylor e seu estado-maior estavam perfeitamente conscientes de que havia muitos problemas a solucionar. Os jovens de Currahee tinham aprendido bem as lições sobre tática de unidades pequenas; agora, cabia aos generais adaptá-los bem às táticas empregadas nas grandes unidades.