Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 8
“A Rodovia do Inferno”
HOLANDA
17 de setembro-1º de outubro de 1944
Era um belo dia de fim de verão no Noroeste da Europa, com um céu muito azul, sem nuvens e vento. O ataque aéreo dos Aliados foi uma surpresa para os alemães; não havia aviões da Luftwaffe para enfrentar sua frota aérea. Assim que alcançaram o território holandês, houve algum fogo antiaéreo, que se intensificou quando estavam a cinco minutos da ZS, mas não houve rompimento da formação nem manobras de evasão por parte dos pilotos como houvera nos céus da Normandia.
O pessoal da Easy aterrissou exatamente no local programado. Tal foi o caso também de praticamente todas as outras companhias da divisão. A aterrissagem foi suave, em campos de cultivo que tinham acabado de ser arados. Aliás, essa foi a mais suave da história da Easy, de acordo com a lembrança de seus membros. “Foi o campo de aterrissagem mais perfeitamente plano que já vi. Basicamente, a Holanda é apenas um grande, glorioso campo de salto”, escreveu Webster na carta enviada aos pais. A história oficial da 101ª dá conta de que essa foi “a aterrissagem mais bem-sucedida da Divisão,
tanto entre as de treinamento quanto entre as de combate”. {38}
O único problema em que Winters conseguiu pensar foi a necessidade de os soldados saírem da ZS o mais rapidamente possível para evitar serem atingidos por equipamentos lançados no salto e pelos pára-quedistas aterrissando. — Estava simplesmente chovendo equipamento — ele disse. — Capacetes, armas, fardos. — Malarkey lembrou-se de que saiu correndo do campo em demanda do ponto de ligação das tropas (indicado por granadas de fumaça). De repente, ele ouviu um barulho que parecia vir do céu; ele olhou para cima e viu que dois planadores haviam colidido e mergulhavam em direção ao solo. Não havia alemães na área; a companhia se reuniu rapidamente e partiu em direção ao seu objetivo.
O objetivo era a ponte sobre o Canal de Wilhelmina, em Son. A rota era uma estrada que se estendia em sentido norte-sul e que ligava Eindhoven a Veghel, a Nijmegen e a Arnhem. A estrada tinha uma parte da pavimentação feita de asfalto e outra de tijolos e era larga o bastante para a passagem de dois carros lado a lado, mas muito estreita para dois caminhões. Assim como a maioria das estradas na Holanda, eleva-se a um metro ou pouco mais do nível dos campos circundantes, o que permitia que qualquer coisa que se movesse sobre ela tivesse o horizonte em perspectiva.
A estrada era fundamental para a Operação MARKET-GARDEN. A tarefa das tropas aerotransportadas americanas era assumir o controle da estrada e de muitas de suas pontes, de modo que abrissem caminho para o XXX Corpo de Exércitos Britânico, com a Divisão Blindada da Guarda Nacional Britânica na vanguarda, em seu planejado avanço para Arnhem e, conseqüentemente, a travessia do rio do Baixo Reno.
A Companhia aterrissou a 30 quilômetros atrás da linha de frente e a uns 15 quilômetros ao norte de Eindhoven. O objetivo inicial do 506° era Son, depois Eindhoven, o que determinava que a marcha inicial deveria ser para o Sul. O regimento partiu, com o 1º Batalhão atravessando o campo a oeste da estrada, o 2º Batalhão seguindo pela estrada e o 3º Batalhão na reserva. A ordem de marcha do 2º Batalhão tinha a Companhia D na vanguarda, seguida pela Companhia E e pela Companhia do QG atrás dessa unidade e a Companhia F na retaguarda.
A coluna entrou em Son. Os habitantes se haviam alinhado nos dois lados da estrada, como se para assistir a uma parada. Diferentemente da Normandia, onde a população, em sua maioria, preferiu manter-se longe das vistas das tropas, os holandeses ficaram exultantes com o fato de que estavam sendo libertados. O pároco, Hussen, de Son, distribuiu charutos. Viam-se bandeiras alaranjadas, proibidas pelos ocupantes alemães, expostas nas janelas. O povo dava maçãs e outras frutas aos pára-quedistas que passavam. Balconistas de bares espichavam barris e distribuíam copos de cerveja. Os oficiais tiveram muito trabalho para fazer com que a tropa continuasse a avançar.
Ao sair dos arrabaldes de Son, a menos de um quilômetro da ponte, a coluna sofreu um ataque de um German 88 e de uma metralhadora, cujos disparos eram feitos ao longo da estrada. Não houve baixas. A Companhia D cobriu o lado direito da estrada, e a Companhia E, o esquerdo. Os americanos avançaram, disparando fuzis e lançando projéteis de morteiro, o que silenciou o inimigo. Mas os alemães tinham feito o seu trabalho, atrasando o avanço p tempo suficiente para terminar seus preparativos de destruição da ponte.
Quando os primeiros elementos do avanço americano estavam a mais ou menos 25 metros da ponte, ela explodiu bem diante de seus rostos. Seguiu-se uma saraivada de pedaços de madeira e pedra. Winters, com Nixon ao lado dele, jogou-se ao chão, enquanto choviam grandes pedaços de madeira e pedras enormes em toda parte. Winters pensou consigo mesmo: “Que maneira infernal de morrer em combate!”
O coronel Sink ordenou que o 2º Batalhão fizesse tiro de proteção enquanto o 1º Batalhão tentasse achar um meio de atravessar o canal. O cabo Gordon Carson, da Easy, avistou alguns barcos a remo cheios d’água na margem oposta e decidiu agir imediatamente. Tirou toda a roupa e correu, mergulhou na água, atravessou o canal a nado e buscou um barco, com o qual foram transportados alguns membros do 1º Esquadrão até mais ou menos o meio do canal antes de afundar. Outros membros do 1º Batalhão, mais práticos, arrancaram as portas de um celeiro que havia ali perto e, com a ajuda do sargento Lipton e de vários membros da Companhia E, apoiaram-nas sobre a estacaria da ponte. Os alemães da retaguarda, com a missão cumprida, retiraram-se. Engenheiros do regimento aperfeiçoaram a passarela improvisada como ponte de travessia de tropas sobre o canal, mas ela era tão frágil que permitia a passagem de apenas alguns soldados por vez. O batalhão levou horas para atravessar o canal.
Estava escurecendo. Sink foi informado de que o avanço da Divisão Blindada da Guarda Nacional Britânica tinha sido detido por 88s a alguns quilômetros ao sul de Eindhoven, e ele ignorava as condições da defesa alemã na cidade. Diante disso, ordenou o interrompimento do avanço durante a noite.
Os líderes de pelotão estabeleceram postos avançados. Os que não estavam de serviço dormiram em montes de feno, telheiros, em qualquer coisa que puderam achar e na qual julgaram poder dormir. Os praças Hoobler e Webster, do 2º Esquadrão do sargento Rader, 1º Pelotão, acharam uma fazenda. O fazendeiro holandês os recebeu bem. Ele os conduziu pelo estábulo, já ocupado pela Companhia do QG (“Vocês os matam, nós os pilhamos” era o mote dela), cujos membros não gostaram da presença deles. Seguiram para a cozinha da fazenda, na qual o holandês lhes deu meia dúzia de potes cheios de carne, pêssegos e cerejas em conserva. Por sua vez, Hoobler deu a ele alguns cigarros, e Webster ofereceu-lhe uma barra de chocolate. Ele acendeu e tragou o cigarro avidamente — o primeiro cigarro decente que desfrutava depois de cinco anos —, mas guardou o chocolate para o filho, que nunca tinha comido aquilo. Foi ali que Webster descobriu que gostava mais dos holandeses do que dos britânicos ou dos franceses.
Na manhã seguinte, a marcha foi reiniciada, com o 2º Batalhão seguindo atrás do 1º Batalhão na estrada para o Sul. Nas cercanias de Eindhoven, cidade de 100 mil habitantes, que lhes assomou abruptamente do solo rico e escuro enquanto avançavam, o coronel Sink espalhou o regimento, enviando o 2º Batalhão para a esquerda, com a Easy posicionando-se no flanco esquerdo. Em dado momento, Winters ordenou pelo rádio: — Tenente Brewer, providencie missões de reconhecimento e siga adiante. — Brewer espalhou os membros do 1º Pelotão tal como aprendera nos manuais de guerra, enviando grupos de reconhecimento para a linha de frente, sem aglomeração, com movimentação rápida. Em seu avanço, o pelotão passou por hortas e campos recém-arados em demanda das casas nos arrabaldes da cidade.
Mas Brewer cometeu um erro. Ele ficou na linha de frente, com a maleta de mapas ao lado e os binóculos pendurados no pescoço, indicação óbvia de que era um oficial. O pior de tudo é que ele tinha mais de 1,80 metro de altura. Gordon achou que ele parecia um marechal-de-campo participando de uma parada. Ele era um alvo perfeito
— Volte. Recue. Recue! — Winters gritou pelo rádio, mas Brewer não pôde ouvi-lo. E continuou a avançar. Todos os membros da companhia, todos os participantes da batalha, conseguiram antever o que ocorreria.
De repente, ouviu-se um estampido. Um atirador de elite tinha disparado de uma das casas. Brewer tombou “como uma árvore derrubada por um madeireiro exímio”. Ele fora atingido na garganta, num ponto logo abaixo do queixo. Gordon e alguns recrutas correram até ele, embora tivessem ordens para continuar a avançar e deixar os feridos para os socorristas. Eles olharam para Brewer, estendido no chão, sangrando profusamente.
— Ora, droga, esqueçam-no — um deles disse. — Ele vai, ele vai morrer. E reiniciaram o avanço, deixando Brewer estendido no chão.
Ele ouviu tudo e jamais se esqueceu disso. Jamais deixou que os companheiros se esquecessem disso depois que se recuperou e voltou para a companhia.
Depois disso, houve apenas pequena e esparsa resistência, principalmente de atiradores de elite. O 506° entrou em Eindhoven sem maiores dificuldades. Os holandeses haviam saído às ruas para dar-lhes as boas-vindas. Muitos deles falavam inglês.
— Que bom que vocês vieram! — clamavam. — Estamos felizes por terem vindo! Esperamos tanto! — E pegaram cadeiras, chá quente, leite fresco, maçãs, peras, pêssegos. Bandeiras e braçadeiras cor de laranja escondidas durante anos passaram a ser ostentadas em todas as casas e nas mangas das camisas da população. Os aplausos eram quase ensurdecedores; os soldados tinham de gritar uns para os outros para poder ouvir. “Foi uma das demonstrações de gratidão mais sinceras que qualquer um de nós veria”, Webster escreveu, “e isso nos deixou muito felizes.” Eles precisaram da maior parte do restante do dia para passar pela multidão e depois tratar de ocupar as pontes sobre o rio Dommel. Mas isso não os atrapalhou, pois os tanques britânicos apareceram somente nas últimas horas da tarde. Eles pararam imediatamente, cumpriram tarefas de manutenção e depois prepararam chá.
Winters cuidou de estabelecer postos de observação avançados. Os que não estavam de serviço juntaram-se à comemoração. Eles posaram para fotos, trocaram
autógrafos entre si (uns assinavam “Monty”{39}; outros, “Eisenhower”), tomaram uma ou duas doses de conhaque, fizeram ótimas refeições de legumes frescos, vitela assada, molho de maçã e leite. Os civis continuaram a assediá-los como se eles fossem estrelas do cinema. Winters ainda meneia a cabeça quando se lembra disso: — Foi simplesmente inacreditável.
A companhia passou a noite em trincheiras feitas às pressas em Tongelre, um subúrbio no lado leste de Eindhoven. Na manhã do dia 19 de setembro, Winters recebeu ordens de marchar para o Leste, para Helmond, de forma que ampliasse o trecho de Eindhoven do corredor e estabelecesse contato com o inimigo. Um esquadrão
de tanques Cromwell dos Hussardos {40} acompanhou a Easy. Alguns dos combatentes seguiram na traseira dos Cromwells. “Os tanques”, escreveu Webster, “falharam, estrepitaram, retiniram e rangeram metalicamente em sua arrancada e movimento costumeiros quando partimos.”
Winters encabeçou uma marcha forçada para Nuenen, cerca de 5 quilômetros à frente, e não encontrou oposição, mas, sim, mais uma vez, holandeses ovacionando, oferecendo-lhes comida e bebida. Webster comentou que Vincent van Gogh tinha nascido no vilarejo. — Quem é o sujeito? — Rader perguntou.
Depois de Nuenen, a festa acabou. Os alemães se haviam recuperado da surpresa e estavam começando a organizar contra-ataques. — Tanques alemães! Tanques alemães! — Webster ouviu o praça Jack Matthews gritar.
“Ó meu Deus!”, Webster disse consigo mesmo enquanto ele e outros pulavam dos Cromwells para se atirar numa vala. A menos de 400 metros de distância, o primeiro de uma coluna de tanques alemães “avançou pelos arbustos como uma besta do inferno”.
A 107ª Panzerbrigade, antes estacionada em Helmond, estava avançando para Oeste, na direção de Nuenen, com cerca de 50 tanques — “mais do que tínhamos visto antes”, disse Winters. O sargento Martin viu um tanque alemão parcialmente oculto por uma cerca a uns 100 metros de distância. Um tanque britânico vinha se aproximando. Martin voltou para ele correndo, subiu a bordo e disse ao comandante que havia um tanque inimigo logo abaixo, à direita. O tanque continuou a avançar. Martin advertiu o comandante de que, se ele continuasse a avançar, a guarnição do tanque alemão o veria logo adiante.
— Não o estou vendo, meu rapaz — o comandante respondeu —, e, se não posso vê-lo, não tenho como atirar nele.
— Você o verá logo, tenha certeza disso — tornou Martin em voz alta, saltou do tanque e se afastou.
O tanque alemão mandou fogo. O projétil penetrou a blindagem do tanque britânico. As chamas irromperam e se alastraram. A guarnição saiu às pressas pela escotilha. O atirador foi o último a sair; ele tinha perdido as pernas. O tanque, agora inteiramente tomado pelas chamas, continuou a avançar sozinho, forçando Bull Randleman a deslocar-se na direção do inimigo para evitar ser atropelado por ele. Um segundo tanque britânico avançou. Ele também foi atingido. Ao todo, quatro dos tanques britânicos foram tirados de combate pelos Germans 88. Os dois tanques restantes deram meia-volta e trataram de retornar para Nuenen. A Companhia E os acompanhou na retirada.
O sargento Rogers tinha sido ferido e sangrava intensamente. — Parece que eles pintaram você um pouco, não é, Paul? — gracejou Lipton.
— Rogers soltou uma série de palavrões durante um minuto — disse Lipton ao recordar-se da ocasião. — Muito incomum no caso dele.
O tenente Buck Compton foi atingido nas nádegas. O socorrista Eugene Roe correu em auxílio de Compton. Malarkey, o praça Ed Heffron e outros mais acorreram para ajudar também.
Quando Heffron fez menção de ajudar, Compton olhou para cima e resmungou:
— Ela sempre dizia que meu enorme traseiro acabaria me atrapalhando.
E depois passeou o olhar entre os cinco combatentes reunidos em volta dele.
— Saiam daqui — ordenou Compton. — Deixem os alemães cuidarem de mim.
Ele era um homem corpulento, e os disparos eram tantos que os soldados tiveram vontade de fazer isso mesmo. Mas Malarkey, Guarnere e Joe Toye arrancaram uma porta do anexo de uma fazenda e puseram Compton deitado nela de bruços. Em seguida, com ele em cima da porta, arrastaram-no pelo rego da beira da estrada até um dos tanques britânicos em retirada e o puseram de bruços na traseira da viatura.
A bala que feriu Compton entrou pela parte lateral de sua nádega esquerda, saiu, alcançou a nádega direita e saiu por ali também. Lipton olhou para ele e não conseguiu evitar o riso. — Você é o único sujeito em minha vida que vi ser atingido por uma bala e ficar com quatro buracos — ele disse a Compton.
— Se eu pudesse sair deste tanque, eu o mataria — resmungou Compton, tomado de raiva.
Outros combatentes inspiraram-se no que os colegas tinham feito com Compton e subiram também na traseira dos tanques em retirada. Strohl e Gordon, que haviam estado num dos flancos, Strohl com um morteiro, e o colega com sua metralhadora, tiveram de atravessar um campo aberto para voltar a juntar-se à unidade. O peso das armas atrasou os passos deles. A areia do solo, atingido pelas balas, voava pelos ares próximo aos pés deles. Havia entre eles e a estrada uma cerca de quase um metro de altura. — Nós a transpomos como se fôssemos dois cavalos — comentou Strohl. Seguros do outro lado, eles pararam para tomar fôlego.
— Nós jamais faremos isso novamente — observou Strohl.
— Na verdade, acho que nós não fizemos isso — replicou Gordon. Eles trataram de seguir para os tanques e os alcançaram. Gordon subiu na traseira de um deles. Mas Strohl estava exausto. Ele estendeu a mão; Gordon a agarrou quando Strohl deu mostras de que iria desmaiar. Gordon guindou-o a bordo e o pôs em segurança.
Randleman, que estivera na vanguarda, foi atingido no ombro e viu-se obrigado a separar-se do esquadrão. Ele seguiu para um estábulo. Um soldado alemão veio correndo atrás dele. Randleman atacou o inimigo com sua baioneta, matou-o e o cobriu com feno. Em seguida, cobriu-se com feno também para esconder-se.
Assim que chegou à cidade, a tropa conseguiu abrigo nos edifícios, que usou como cobertura para mover-se e estabelecer algo que se parecesse com fogo de revide. A Companhia E conseguiu deter os alemães, mas não pôde fazê-los recuar. O sargento Chuck Grant e muitos outros foram alvejados. O praça Robert Van Klinken foi morto por uma rajada de metralhadora quando tentava avançar correndo com uma bazuca. O praça James Miller, um substituto de 19 anos de idade, morreu quando uma granada de mão explodiu à altura de seus rins.
O praça Ray Cobb teve uma crise de tremedeira. Webster ouviu o sargento Martin consolando-o “como uma mãe conversando com o filho assustado por um pesadelo: ‘Está tudo bem, Cobb, não se preocupe. Não vamos voltar lá. Relaxe, Cobb, acalme-se’”.
Martin correu para os lados de um Cromwell, escondido atrás de um edifício. Ele apontou para o campanário de uma igreja e pediu que o comandante o destruísse, já que os alemães o estavam usando como posto de observação.
— Sinto muito, soldado. Não podemos fazer isto — o comandante respondeu. — Temos ordens para não destruir propriedades em demasia. País amigo, sabe.
Os alemães continuavam a pressionar. O objetivo deles era alcançar a rodovia que ligava Eindhoven a Nijmegen — a “Rodovia do Inferno”, tal como a 101ª a apelidara — e atravessá-la. Mas eles não conseguiram atravessar Nuenen.
Winters tinha decidido retirar-se aproveitando a escuridão da noite, mas, antes de ceder terreno, queria fazer um prisioneiro para interrogá-lo. Ele pediu que alguém se apresentasse para uma missão de patrulha. Ninguém se ofereceu.
— Sargento Toye — demandou em voz alta.
— Sim, senhor. Às ordens.
— Preciso de dois voluntários.
Toye escolheu o cabo James Campbell e um praça, e partiram. Eles tropeçavam em corpos de britânicos e americanos enquanto avançavam na direção de um bosque próximo. De repente, um soldado alemão disparou contra eles. Nisso, Toye disse à tropa que ficasse onde estava. Ele entrou rastejando no bosque, contornou a posição do alemão, pôs-se atrás dele e encostou levemente a ponta da baioneta nas costas do inimigo. O soldado alemão não deu trabalho a Toye. Fazendo o alemão seguir na frente dele, Toye voltou através do bosque e entregou o prisioneiro.
A companhia retirou-se para Tongelre. Winters notou que o povo holandês, que de manhã ficara aplaudindo e comemorando a chegada deles, estava fechando as janelas, recolhendo as bandeiras, parecendo triste e deprimido, movido pela certeza de que os alemães iam reocupar Eindhoven. — Nós estávamos nos sentindo muito mal também — observou Winters. — Pois estávamos voltando para a cidade.
Depois de providenciar para que seus homens se acomodassem e se alimentassem, Winters foi ao QG do batalhão. Lá, encontrou o tenente-coronel Strayer e seu estado-maior rindo muito, fazendo uma baita refeição, em clima de descontração. Strayer viu Winters chegar, virou-se e, com um grande sorriso, perguntou-lhe: — Como foi o dia hoje, Winters?
Com os lábios cerrados, Winters respondeu:
— Sofri 15 baixas hoje e levei uma tremenda surra. — A conversa no recinto foi interrompida abruptamente.
A Easy teve folga nesse dia. A companhia dormiu em Tongelre. Portanto, assistiu, em vez de ser o alvo dela, a uma missão de bombardeio da Luftwaffe contra a coluna de suprimentos dos britânicos em Eindhoven. Uma vez que os Aliados não tinham armas antiaéreas na cidade, os alemães puderam lançar foguetes sinalizadores noturnos fumígenos, de um amarelo vivo, e depois fizeram uma aproximação após a outra e despejaram suas bombas. A cidade foi duramente atingida. Mais de 800 habitantes ficaram feridos, e 227 morreram.
Na manhã seguinte, Strayer levou suas duas outras companhias para Nuenen. Lá, encontraram o sargento Randleman defendendo o forte. Os tanques alemães tinham saído da cidade e seguido para o Noroeste, em direção a Son. A Companhia E montou defesas cerradas em torno de Eindhoven e ficou lá por dois dias.
Na manhã do dia 22 de setembro, Winters recebeu ordens para pôr seus homens em caminhões. O 506° iria para Uden, pela Rodovia do Inferno, para defender a cidade contra um ataque de Panzer que, segundo a resistência holandesa, procederia de Helmond. A Companhia do QG, com o tenente-coronel Charles Chase (o subcomandante do 506°) no comando, acompanhou a Easy e três tanques britânicos como destacamento precursor. Havia caminhões suficientes apenas para cerca de 100 membros da Companhia do QG, além de um pelotão da Easy. Winters, o tenente Welsh e o capitão Nixon juntaram-se ao comboio.
Os caminhões atravessaram Veghel e entraram em Uden sem encontrar resistência. Winters e Nixon subiram até o topo da torre da igreja para dar uma olhada nas redondezas. Quando chegaram ao campanário, a primeira coisa que viram foram tanques alemães seguindo pela rodovia que liga Veghel a Uden. Em seguida, Winters viu uma patrulha vindo em direção a Uden. Ele desceu as escadas correndo, reuniu o pelotão e disse: — Soldados, não temos motivos para alegria. A situação é normal; estamos cercados. — Ele tratou de organizar um ataque. Depois, partiu de encontro à patrulha alemã e a atingiu duramente, fazendo com que recuasse. O coronel Chase disse a Winters que montasse um sistema de defesa. A Easy, com a ajuda da Companhia do QG, montou bloqueios em todas as estradas que levavam a Uden.
Winters disse ao sargento Lipton que pegasse todos os soldados que pudesse achar, independentemente da unidade, e os pusesse na linha de frente. Lipton viu dois soldados britânicos passando. Ele segurou um deles pelo ombro e ordenou: — Vocês dois, venham comigo.
O sujeito olhou Lipton de cima a baixo calmamente e disse: — Sargento, é assim que você se dirige a oficiais no exército americano? — Lipton olhou mais atentamente para ele e viu que, em seu uniforme de combate britânico, havia uma insígnia de major. — Não, senhor — tornou ele gaguejante. — Desculpe-me. — O major lhe sorriu por um dos cantos da boca e se afastou.
Os alemães não atacaram. Tivessem eles sabido que havia menos de 130 homens em Uden e apenas três tanques, certamente teriam invadido a cidade, mas é óbvio que o rápido contra-ataque que Winters lançara contra a patrulha deles convenceu os alemães de que Uden estava sendo defendida por um efetivo enorme. Ainda que não tenham sido essas as razões deles, o fato é que deslocaram o foco do ataque de Uden para Veghel.
Winters e Nixon subiram ao campanário outra vez. Lá, tinha-se uma visão perfeita de Veghel, ao Sul, distante uns 6 quilômetros dali. — Foi fascinante — observa Winters — ficar atrás das fileiras alemãs, observar os tanques se aproximarem de Veghel, os aviões da força aérea lançando ataques ferozes e intensos em vôos rasantes, em meio a um tiroteio terrível. — Os membros da Easy que estavam em Veghel lembram-se da ocasião como uma situação infernal, como o bombardeio mais intenso que sofreram.
Foi uma batalha desesperadora, a maior de que o 506° tinha participado. Foi decisiva também. “A travessia que o inimigo fez da estrada não significou simplesmente que houvesse atravessado a pé uma faixa de asfalto”, informam os registros históricos da divisão. “Essa estrada estava cheia de veículos de transporte britânicos de todo tipo. A travessia da estrada significou fogo e destruição para os veículos que foram surpreendidos. Significou o congestionamento de toda a extensão da estrada com veículos que, de um momento para outro, não tinham para onde ir. Para a tropa em Nijmegen e Arnhem, a travessia que o inimigo fez foi como cortar uma artéria. O produto da vida — alimentos, munição, suprimentos médicos deixaram de fluir para o
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norte.”
Webster estava em Veghel. Quando os tiros da artilharia alemã começaram a chegar, ele se abrigou num porão, na companhia de meia dúzia de membros da Easy, além de alguns civis holandeses. “Foi uma situação muito deprimente”, ele escreveu, “ouvir os civis gemer, gritar, entoar hinos e rezar.”
O praça Don Hoobler estava com o 3º Esquadrão, 1º Pelotão, escondido numa passagem. Ele resolveu fazer uma brincadeira com o praça Farris Rice imitando com perfeição o ruído sibilante de um projétil em queda. Rice se atirou de cara no chão. Isso fez Hoobler cair na gargalhada: — Ah! Ah! Ah! Ah! Cara, desta vez eu peguei você!
— Merda, Hoobler, isso não se faz.
Vrrruuummm... BUM! Um projétil explodiu perto deles. Hoobler parou de rir.
O coronel Sink chegou num jipe, saltou rapidamente e começou a dar ordens em voz alta, a torto e a direito. Ele pegou os membros da Easy e os das Companhias D e F para estabelecer um sistema defensivo no perímetro urbano e deu ordens para que atirassem em tudo que se movesse.
Webster e os outros saíram do porão e foram para um pomar. Webster e o praça Don Wiseman começaram a trabalhar duramente para fazer uma trincheira com cerca de 60 centímetros de largura, quase 2 metros de comprimento e 1,20 metro de profundidade. Eles queriam que ela fosse mais profunda, mas a água começou a brotar.
Ficar preso e sem poder fazer praticamente nada no meio de intenso fogo de artilharia é uma experiência infernal, é experimentar o que os combates têm de pior. Os projéteis vinham de três em três. “Wiseman e eu ficamos encolhidos e xingando em nosso buraco. Toda vez que ouvíamos um projétil vindo para o nosso lado, fechávamos os olhos e enfiávamos a cabeça entre as pernas. Toda vez que os projéteis explodiam e nada nos acontecia, levantávamos a cabeça e sorríamos um para o outro.
Sentia-me mal por dentro. Eu disse que daria um pé para sair daquele lugar. Sentimos o cheiro repulsivo de pólvora quando uma densa nuvem de fumaça envolveu nossa trincheira. Um sinistro pedaço de aço quente de uns 3 centímetros quadrados caiu no colo de Wiseman. Ele sorriu.
Mais três. E depois mais três, e mais três. Não admira que os soldados acabem tendo fadiga de combate.” Webster disse depois noutra carta enviada aos pais: “A artilharia nos tira a alegria de viver.”
As coisas se acalmaram o suficiente para que o pessoal da intendência aparecesse com um pouco de ração britânica. Webster pediu aos gritos que Hoobler jogasse uma lata para ele. Hoobler estava sentado fora da trincheira, rindo e pilheriando, fazendo um piquenique com outros quatro ou cinco soldados. — Venha buscá-la — tornou ele. — Os 88s deram um tempo.
Nisso, o projétil de um 88 explodiu perto deles. Hoobler pulou para dentro da trincheira, acompanhado dos colegas, que se empilharam em cima dele.
A tropa passou a noite nas trincheiras. Chuviscava, e o ar estava gelado. Os soldados ficaram sentados com a cabeça entre os joelhos, com as capas de chuva sobre os ombros, e dormiram da melhor maneira possível.
Quando voltaram para Uden, Winters e Nixon perderam sua vista privilegiada. Um atirador de elite alemão os avistou e abriu fogo. Um de seus tiros atingiu o sino do campanário. O som metálico e ressonante, mais a surpresa, fez com que os dois oficiais descessem as escadas quase voando. — Acho que nossos pés não tocaram nos degraus mais de duas ou três vezes — declarou Winters.
Ele estabeleceu seu posto de comando numa loja no entroncamento rodoviário na parte sul da cidade. Os donos, a família Van Oer, que morava lá, lhes deram as boas-vindas e depois desceram para o porão. Winters ordenou a seus homens que arredassem os móveis e os tapetes e depois levaram para dentro da casa as metralhadoras, munição, coquetéis Molotov e explosivos e prepararam-se para defender-se de ataques. Seu plano, caso os alemães viessem com tanques, era lançar cargas de explosivos plásticos C4 e coquetéis Molotov contra os tanques das janelas do segundo andar — uma forma de defesa contra tanques à Ia soviéticos.
Com a posição estabelecida, Winters foi para a outra extremidade da cidade, para o setor noroeste. No lado esquerdo da estrada que entrava na cidade, havia um solar, com uma taverna do outro lado. Winters disse a
Welsh que pusesse o bloqueio de estrada entre os dois edifícios, reforçado atrás por um dos tanques britânicos, e que ele estabelecesse o posto de comando no solar.
Winters inspecionou as condições dos outros bloqueios e depois, às 22 horas, voltou para o setor noroeste da cidade para dar uma olhada ao redor. O tanque britânico estava onde se esperava que estivesse, mas não havia ninguém nele ou perto dele. Também havia membros da Companhia E no bloqueio. Muito agitado, Winters correu até o solar e bateu à porta. Uma empregada atendeu. Ela não falava inglês, e ele não falava holandês, mas ela conseguiu entender que ele queria ver “os soldados”. Ela o conduziu por um corredor e abriu uma porta que dava para uma sala de estar grande e luxuosamente mobiliada.
— A cena que me surpreendeu os olhos me deixou mudo — conta Winters. — Sentados no piso, na frente de uma fogueira grande e chamejante de um lareira, havia uma bela jovem holandesa, fazendo uma refeição de presunto e ovos com um tenente britânico. — Ela sorriu para Winters. O tenente virou a cabeça e perguntou:
— Meu tanque ainda está lá fora?
Winters explodiu de raiva. O tenente tratou de se mexer. Winters voltou à rua para procurar Welsh e seus homens.
— Onde será que o Harry está? — Ele olhou para a taverna do outro lado da rua, e a pergunta respondeu por si mesma. Ele foi lá e deparou Welsh e seus homens dormindo em cima do balcão do bar.
— Harry e eu discutimos a situação sem conflitos — disse Winters. — Satisfeito com o fato de que podíamos ter um bom bloqueio de estrada e que eu podia ter uma boa noite de sono sem ter de preocupar-me com o rompimento do bloqueio, eu saí.
Em Veghel, os alemães continuaram a atacar durante a noite e estenderam os ataques até a manhã. Mas, por fim, aviões e tanques britânicos conseguiram repeli-los. O 506° partiu novamente e chegou a Uden na tarde do dia 24 de setembro. Os membros da Companhia E que tinham ficado encurralados em Veghel acharam que a pequena força isolada em Uden tinha sido aniquilada; da mesma forma, os colegas em Uden acharam também que o restante da companhia em Veghel tinha sido aniquilado. Quando os dois grupos se reuniram e souberam que a companhia inteira se havia saído muito bem no enfrentamento do inimigo, a alegria foi geral.
A companhia se preparou para passar a noite em Uden. Os soldados que haviam estado lá ficaram pasmos quando os colegas que tinham sofrido o bombardeio em Veghel fizeram trincheiras com pouco mais de 1,20 metro de profundidade; eles tinham feito um buraco no solo de apenas 15 centímetros de profundidade e não se importaram em ir além disso. Os oficiais conseguiram alojamento nas casas de Uden. O tenente Peacock, 1º Pelotão, foi à trincheira de Webster e disse a ele que o acompanhasse. Webster saiu de lá, e os dois seguiram a pé para o alojamento de Peacock, em cima de uma loja de bebidas na praça da cidade.
— Pegue aquela vassoura e varra este recinto — Peacock ordenou.
— Sim, senhor — Webster respondeu, pensando consigo mesmo: “Que tipo de homem é este? Preferiria morrer de fome como mendigo comum a ser um soldado raso do exército.”
Os alemães tinham perdido Uden e Veghel, mas estavam longe de entregar os pontos. Na noite do dia 24 de setembro, atacaram a Rodovia do Inferno procedentes do Oeste, um trecho dela ao sul de Veghel, e conseguiram estabelecer um saliente que cortava a rodovia. Mais uma vez, a estrada tinha sido bloqueada.
Mas ela tinha de ser desbloqueada. Embora o objetivo estratégico da MARKET-GARDEN tivesse sido perdido a essa altura (em 20 de setembro, os alemães tinham retomado a ponte em Arnhem do coronel John Frost, comandante de um batalhão da 1ª Divisão de Blindados Britânica, e a divisão, como um todo, tinha sido posta na defensiva, e a Divisão de Blindados da Guarda Britânica tinha sido detida em 22 de setembro a uns 5 quilômetros ao sul de Arnhem), ainda era fundamental manter a estrada aberta. Dezenas de milhares de soldados dos Aliados dependiam totalmente dela para receber suprimentos. As unidades ao norte de Veghel incluíam a 101ª, em Uden, e a 82ª, em Nijmegen, ambas americanas, a 1ª Divisão Aerotransportada, estacionada ao norte do Baixo Reno, nas cercanias de Arnhem, a Divisão de Blindados da Guarda e a 43a Divisão de Wessex, todas britânicas, o regimento de pára-quedistas polonês e os regimentos britânicos 4o Dorset e 2° Household Cavalry, todos eles estacionados entre Nijmegen e Arnhem. Se a 101ª não conseguisse retomar o controle da estrada e mantê-la desimpedida, aquilo que já era uma grande derrota se transformaria num desastre irremediável, de proporções catastróficas.
O general Taylor ordenou que o coronel Sink destruísse o saliente alemão ao sul de Veghel. Às 24h30 do dia 25 de setembro, Sink ordenou que seus batalhões se preparassem para partir. Às 4h45, o 506° iniciou a marcha, sob chuva intensa, do sul de Uden, em direção a Veghel. A ordem de marcha tinha o 1º Batalhão seguindo à direita, o 3º Batalhão à esquerda, com o 2º Batalhão na reserva. Por volta das 7 horas, a tropa, cansada, atravessou Veghel. Às 8h30, o 1º e o 3º Batalhões iniciaram o ataque contra o saliente. Inicialmente, o avanço correu bem, mas logo o fogo de artilharia e morteiros alemães aumentou. Tanques alemães, Tiger Royals com 88s novos em folha, entrincheirados ao longo da estrada, engrossaram o fogo inimigo com tiros de metralhadora e disparo de projéteis. Eles receberam o apoio do coronel von Heydte, comandante do 6º Regimento Pára-quedista, o velho inimigo da Easy nas batalhas em Ste.-Marie-du-Mont e Carentan. A concentração de forças na estreita linha de fogo era tremendamente mortífera. Por volta do meio-dia, os batalhões foram forçados a interromper o avanço e entrincheirar-se.
Sink ordenou que o tenente-coronel Strayer providenciasse para que o 2º Batalhão fizesse uma operação de aproximação pelo flanco esquerdo. Ela seria apoiada pelos tanques Sherman britânicos. Havia um bosque de pinheiros de altura mediana ao longo do lado esquerdo (a leste) da rodovia que poderia servir de anteparo às manobras de flanqueio. A Companhia E seguiu na frente do batalhão.
O primeiro ataque da Companhia E na Holanda tinha sido feito no Sul, com o objetivo de avançar para Son e depois Eindhoven. O segundo tinha sido feito no sentido leste, com Nuenen como objetivo. O terceiro tinha sido ao Norte, com vistas à entrada em Uden. Agora, ela atacaria a Oeste, completando a série de ataques em todas as direções. É assim que as tropas sitiadas devem combater. Foi assim que a divisão de pára-quedistas tinha sido treinada para combater.
Nixon juntou-se a Winters na exploração do terreno. Eles encontraram um caminho firme e sólido na margem do bosque que facultava tração aos tanques. Tudo muito bom até então, mas o bosque ficava a 350 metros da rodovia, deixando terreno aberto, sem cobertura nem meio de defesa para o ataque final.
Winters fez a companhia entrar em formação: despachou batedores, formou duas colunas de combatentes, espalhados, nada de aglomeração. Eles estavam a meio caminho do bosque quando os alemães abriram fogo com metralhadoras. Todos se atiraram ao chão.
Guarnere e Malarkey trataram de pôr seu morteiro de 60 milímetros em ação. Aos gritos, Guarnere indicou a distância e a direção; Malarkey era o operador do morteiro. Ele era o único homem no campo a essa altura que não estava deitado no chão. Seu primeiro disparo destruiu um ninho de metralhadora alemã.
Winters bradava ordens. Ele queria que as metralhadoras fossem postas em ação. As guarnições acharam uma pequena depressão no solo e montaram o canhão. Elas começaram a estabelecer uma base de tiro. Winters avistou um Tiger Royal com o casco desenfiado — apenas com a torre de tiro à vista — no outro lado da estrada e ordenou aos operadores de metralhadora que lançassem fogo contra ele.
Ao virar-se para a direita, Winters viu Nixon examinando o capacete, com um largo sorriso no rosto. A bala de uma metralhadora alemã da primeira rajada lançada pelo inimigo tinha perfurado a parte frontal do capacete dele e havia saído por um dos lados num ângulo de feição tal que deixara apenas uma marca de queimadura na testa dele. Não chegou nem mesmo a fazê-lo sangrar.
O fogo alemão era assaz intenso; Winters resolveu recuar com a companhia de volta para o bosque. Seu plano era manter a base de tiro com as metralhadoras enquanto os fuzileiros se retiravam do campo; quando os fuzileiros chegassem ao bosque, começariam a atirar para permitir que os operadores de metralhadora se retirassem também.
Quando Lipton alcançou Winters, na beira do bosque, Winters lhe disse: — Eles [os operadores de metralhadora] precisarão de mais munição. Leve alguma para eles. — Lipton correu até um tanque Sherman (todos os tanques estavam atrás do bosque, fora da vista dos alemães — para grande contrariedade dos membros da Easy). Os Shermans tinham metralhadoras de 30 milímetros, iguais às metralhadoras da Companhia E. Lipton pegou quatro caixas de munição com os britânicos. Ele deu duas ao sargento Talbert e ficou com duas. Ambos correram até o meio do campo, ao encontro dos operadores de metralhadora, que atiravam sem parar, largaram as caixas perto deles, fizeram alguns movimentos e depois voltaram correndo para a beira do bosque. — Os alemães não eram bons atiradores — avaliou Lipton. — Nós dois conseguimos voltar.
Assim que os pára-quedistas alemães começaram a lançar projéteis de morteiro contra as posições das metralhadoras, os fuzileiros da Easy entraram em ação, e os operadores conseguiram retirar-se.
Winters voltou correndo para os tanques. Ele subiu no tanque da vanguarda “para ficar cara a cara com o comandante”. Ele disse ao comandante que havia um Tiger Royal entrincheirado no outro lado da estrada. — Se você se puser atrás do aclive perto da beira do bosque, você ficará com o casco desenfiado e poderá atingi-lo. — Quando Winters desceu, esse tanque e outro à esquerda ligaram o motor e foram direto para o aglomerado de pequenos pinheiros e os derrubaram ao avançar.
Quando o primeiro tanque alcançou a borda do bosque, virou-se para a esquerda de modo que se posicionasse bem para disparar contra o Tiger. Mas, de repente, cabum! O Tiger disparou um 88 contra o tanque dos Aliados. O tiro atingiu o cano do canhão e depois ricocheteou na blindagem. Estava claro que o comandante tinha disparado às cegas, baseando-se nas árvores que estavam sendo derrubadas.
O comandante britânico tinha engatado a ré de seu tanque, mas, antes que conseguisse retirar-se, o Tiger atingiu-lhe com seu 88 bem no meio da torre de tiro. O projétil perfurou a blindagem. As mãos do comandante foram arrancadas. Ele tentou sair pela escotilha com os braços, mas sua própria munição começou a explodir. A explosão o matou e lançou seu corpo para fora do tanque. O restante da guarnição morreu dentro do blindado. O tanque ficou queimando durante a tarde inteira e até a noite, com sua munição explodindo intervaladamente.
O Tiger voltou seu 88 para o outro blindado e o tirou de combate com um tiro.
A Companhia E passou o restante do dia, e a noite inteira, sob uma chuva constante e detestável, varrendo a rodovia com tiros de morteiro. A Companhia do QG trouxe morteiros de 81 milímetros para aumentar o poder de fogo. A artilharia entrou em ação em Veghel, mas cautelosamente, já que membros do 502° RIP estavam atacando o saliente a partir do Sul.
Foi uma noite longa, angustiante e perigosa para a companhia, porém, para o S-2 (inteligência), chefiado pelo capitão Nixon, a noite foi boa. Ele achou uma garrafa de Schnapps e a bebeu sozinho. Ele sabia que tinha uma desculpa perfeita — o fato de quase ter perdido a vida à tarde, quando a bala lhe perfurou o capacete. Ele ficou muito bêbado e passou a noite cantando e rindo até apagar.
Nas primeiras horas do dia 26 de setembro, os alemães abandonaram o saliente. Assim que amanheceu, o 506° avançou pela estrada, sem encontrar resistência. Mais uma vez os pára-quedistas americanos ocuparam a área depois de um tiroteio feroz com os pára-quedistas alemães.
À tarde, debaixo de chuva, o regimento marchou de volta para Uden. A Companhia E chegou depois de escurecer, com a tropa exausta. Na tarde do dia seguinte, os soldados receberam correspondência pela primeira vez desde que tinham partido da Inglaterra, dez dias antes. Isso fortaleceu a impressão de que, pelo menos para os americanos, a campanha na Holanda havia terminado.
Essa suposição acabou sendo desfeita, mas era verdade que a fase ofensiva da campanha havia terminado. E fracassado também.
Para a Easy, assim como para a 101ª, a 82ª e as unidades de infantaria e de blindados britânicas envolvidas na Operação MARKET-GARDEN, a experiência tinha sido desanimadora. Para a 1ª Divisão Aerotransportada Britânica, tinha sido um desastre. Seus 10.005 homens tinham aterrissado no lado norte do Baixo Reno no dia 17 de setembro. Em 26 de setembro, havia apenas 2.163 de seus homens para serem evacuados. Quase 8 mil deles tinham sido mortos, feridos ou capturados. Não tinha havido nenhum ganho estratégico ou tático para compensar essas perdas, agora que os Aliados tinham para defender um saliente que não levava a lugar nenhum. Era como um dedo fino apontado para a linha de frente alemã, cercado pelos três lados por uma força inimiga superior, dependente da vulnerável Rodovia do Inferno para a obtenção de suprimentos.
Dez dias antes, a euforia no acampamento dos Aliados era muito grande. Mais uma operação e a guerra terminaria, era o que todos achavam. Os alemães estavam recuando desde a retirada na Normandia, do início de agosto até meados de setembro. Os Aliados achavam que a coesão de suas unidades tinha acabado, que seus blindados estavam acabados, que sua munição havia acabado, que seu moral também tinha acabado. Essa suposição foi um dos maiores erros do serviço de inteligência na guerra.
Em verdade, nos meados de setembro, os alemães estavam muito próximos de realizar aquilo que ficou conhecido como o Milagre do Ocidente. Eles reuniram e recuperaram suas unidades, ressupriram-nas e reequiparam-nas com o necessário, providenciaram tropa substituta, estabeleceram um linha de defesa coesa. Eisenhower aprendeu com essa experiência. Em março de 1945, ele disse na carta enviada à esposa:
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“Nunca conto meus alemães antes que estejam em nossas prisões ou enterrados!”
A MARKET-GARDEN foi uma operação de alto risco que fracassou. Foi realizada em prejuízo de duas outras ofensivas possíveis que tiveram de ser adiadas porque Eisenhower desviou suprimentos para a MARKET-GARDEN. A primeira foi um ataque pelos canadenses nos acessos a Antuérpia, o maior porto da Europa e fundamental ao apoio de qualquer ofensiva lançada pelos Aliados através do Reno. Depois que a operação foi iniciada, o porto de Antuérpia ficou fechado e inoperante até o fim de 1944, o que fez com que a Força Expedicionária dos Aliados (FEA) combatesse com armas inadequadas durante o outono inteiro. A segunda ofensiva adiada foi a do III Exército, de Patton, ao sul das Ardenas. Patton acreditava que, se ele tivesse recebido os suprimentos que Monty providenciara para a MARKET-GARDEN, poderia ter cruzado o Reno no outono e depois teria o caminho livre até Berlim. Tenho dúvidas em relação a isso, mas nunca saberemos se teria sido possível ou não, pois nunca se tentou fazê-lo.
Até o fim da vida, Eisenhower insistiu em dizer que a MARKET-GARDEN era um risco que eles tinham de ter enfrentado. Em minhas entrevistas com ele, feitas entre 1964 e 1969, conversamos sobre a operação inúmeras vezes. Ele sempre acabava tocando no seguinte ponto: a primeira regra a observar na perseguição de um inimigo derrotado é nos mantermos no encalço dele, em contato com ele, pressioná-lo, explorarmos todas as oportunidades que aparecerem. O caminho mais curto para chegarmos à Alemanha era pelo norte, pelo terreno mais apropriado para operações ofensivas (assim que o Reno tivesse sido cruzado). Eisenhower achava que, considerando-se quanto haviam chegado perto do sucesso da operação MARKET-GARDEN, teria sido um crime para ele não ter tentado esse caminho.
Até antes de eu iniciar as pesquisas sobre a Companhia E, concordava com essa opinião dele. Agora, tenho dúvidas sobre isso. A Companhia
E era tão boa quanto qualquer outra companhia da FEA. Tinha conseguido vitórias maravilhosas na Normandia. Seu moral estava alto, a situação de seu equipamento era boa depois de lançado sobre o solo holandês. Tinha uma boa combinação de veteranos e recrutas, mãos experimentadas e soldados em plena forma. Seus oficiais eram hábeis e determinados, bem como corajosos. Os graduados eram notáveis.
Apesar disso, nos primeiros dez dias na Holanda, tal como Winters contou a Strayer na noite do ataque em Neunen, ela levou uma baita surra. Não conseguiu tomar a ponte em Son, fracassou em sua tentativa de atravessar Nuenen no caminho para Helmond e, pela primeira vez, foi forçada a retirar-se. Fracassou também em seu avanço para Uden, bem como em seu ataque inicial ao saliente alemão ao sul de Veghel.
As causas desses fracassos foram muitas. A primeira e mais crítica delas foi o fato de que, sob todos os aspectos, as forças de oposição alemãs eram maiores que as da companhia em efetivo e armamentos. Os pára-quedistas não tinham a artilharia nem a força humana necessárias para lançar um ataque contra os blindados alemães e serem bem-sucedidos. Segundo, esses soldados eram o melhor da tropa alemã, e entre eles estava o regimento de pára-quedistas de elite. O número de seus elementos não era maior do que o da Easy, mas esses homens combatiam tão bem quanto os americanos. Terceiro, a coordenação entre os tanques britânicos e a infantaria americana era ruim. Nem a Companhia E nem a Divisão Blindada da Guarda tiveram nenhum treinamento conjunto. Essa deficiência prejudicou a Easy em Nuenen, em Uden e também em Veghel. Em Brécourt Manor e em Carentan, na Normandia, a Easy tinha atuado eficientemente com tanques americanos. Na Holanda, não se saiu bem com tanques britânicos.
De um modo geral, o problema com a MARKET-GARDEN foi que ela era uma ofensiva para uma linha de frente pequena demais. O avanço em linha através do Reno era vulnerável a ataques pelos flancos. Os alemães perceberam essa vulnerabilidade e se aproveitaram dela com contra-ataques ferozes ao longo de toda a linha e a atingiram de todos os lados.
Considerando o passado, a idéia de uma força de várias divisões, composta de soldados britânicos, americanos e poloneses, que poderia ter sido suprida por uma rodovia, somente poderia ter sido aceita por líderes culpáveis por excesso de confiança. A Easy foi uma das cerca de 150 companhias que pagou o preço por esse excesso de confiança. Ela saltou na Holanda em 17 de setembro com 154 soldados e oficiais. Dez dias depois, estava reduzida a 132 homens.