Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 9
A Ilha
HOLANDA
2 de outubro-25 de novembro de 1944
A Companhia E, assim como todas as unidades das divisões aerotransportadas americanas, tinha sido treinada como uma unidade de tropas de assalto leve, com ênfase em mobilização rápida, manobras ousadas e combate com armas de fogo portáteis. Ela tinha sido empregada para atuar dessa forma na Normandia e durante os dez primeiros dias na Holanda. Do início de outubro até quase o fim de novembro de 1944, porém, ela participou de uma guerra estática, de trincheira, mais característica da 1ª Guerra Mundial do que da 2ª Guerra.
A área na qual ela combateu era uma “ilha” de 5 quilômetros de largura, que ficava entre o Baixo Reno, ao Norte, e o rio Waal, ao Sul. As cidades de Arnhem, no Baixo Reno, e Nijmegen, no Waal, assinalavam o limite oriental das linhas da 101ª; as pequenas cidades de Opheusden, no Baixo Reno, e Dodewaard, no Waal, eram o limite ocidental. Os alemães controlavam o território setentrional, do Baixo Reno, e o ocidental, do eixo Opheusden-Dodewaard.
A Ilha era uma área agrícola plana, abaixo do nível do mar. Os diques de 7 metros de altura que havia ali eram largos o bastante no topo para serem usados como estradas de duas pistas e reter as águas das cheias. Os lados dos diques eram íngremes em certos pontos, mas, em sua maior parte, apresentavam inclinações de variação tão gradual que os faziam ter 60 metros ou mesmo pouco mais de 90 metros de largura na base. Entrecortando toda a área, havia inúmeros regos de escoamento. Colinas elevavam-se do lado norte do Baixo Reno, o que dava aos alemães grande vantagem no avistamento de artilharia inimiga. Aparentemente, eles tinham munição ilimitada (o coração industrial alemão ficava a apenas 50 quilômetros do rio Reno), o suficiente, enfim, para permitir que disparassem 88s profusamente contra pessoas isoladas e surpreendidas em campo aberto. Todo movimento na Ilha ocorria à noite; durante o dia, a tropa ficava nas trincheiras, em postos de observação ou em casas e celeiros. O tempo outonal no noroeste da Europa estava péssimo, como sempre: frio, úmido, chuvoso, cenário ideal para um filme da 1ª Guerra Mundial.
Havia regimentos inteiros de artilharia britânica na Ilha, lançando fogo contra o inimigo em apoio à 101ª. Isso fez com que as batalhas na Ilha fossem verdadeiros duelos entre as artilharias de ambas as partes, nos quais o principal papel da infantaria americana era estar preparada para repelir qualquer assalto de forças terrestres alemãs e servir como unidade observadora de artilharia avançada. Patrulhas partiam em missão todas as noites, para explorar e reconhecer as posições do inimigo e manter contato com ele. De um modo geral, porém, a Easy e as outras companhias da 101ª mantiveram-se firmes em suas posições e enfrentaram o inimigo da melhor forma possível, tal como seus ancestrais tinham feito em 1918. A impossibilidade da tropa de fazer algo contra o fogo da artilharia inimiga aumentava o sentimento de frustração generalizado e insuperável.
Mas, logicamente, aquilo não era 1918. Na Ilha, os membros da Easy viram aviões a jato em ação. Ficavam observando os vapores dos V-2ºs primeiros mísseis balísticos de alcance médio do mundo, quando passavam por sobre suas cabeças, a caminho de Londres. Aliás, tal como tinha sido o caso dos soldados na linha de frente da Europa entre 1914 e 1917, eles combateram sem o apoio de tanques, já que estes seriam alvos muito fáceis na Ilha.
As rações reforçavam a idéia de que a Easy participava de um filme da 1ª Guerra Mundial, em vez de uma batalha real, em 1944. A companhia obtinha suas rações dos britânicos, e elas eram péssimas. De acordo com o cabo Gordon, as britânicas 14-em-ls “sustentam a vida, mas o moral não”. Os itens mais detestados eram carne enlatada e
pudim Yorkshire{43}, bem como sopa de rabada, que a tropa chamava de “ossos boiando em graxa”. A maioria da tropa costumava jogar tudo que havia nas 14-em-ls numa panela grande e acrescentava todas as ervas e legumes que conseguisse filar de propriedades rurais, com os quais faziam uma espécie de ensopado. Felizmente, havia frutas frescas em abundância, principalmente maçãs e peras. As vacas urgentemente necessitadas de ordenha eram aliviadas do leite que lhes pejava e intumescia as tetas, e isso ajudava, mas não havia café, e a tropa enjoou logo do chá.
Mas o pior de tudo eram os cigarros britânicos. O cabo Rod Bain os considerava “uma espécie de mistura de pequena porção de tabaco e uma quantidade intragável de palha”. O que mais apreciavam era a ração diária de rum britânico. A segunda coisa mais desejada era achar rações alemãs. Os biscoitos eram duros como concreto, mas a carne em conserva e o queijo Limburger eram saborosos e nutritivos.
Tal como ocorrera com as cidades da França de ambos os lados da linha de frente na Europa na 1ª Guerra, os habitantes da Ilha foram evacuados (e a Holanda é o país de maior densidade demográfica do mundo). Isso deu à tropa oportunidades quase ilimitadas para saques, oportunidades que foram prontamente aproveitadas. “Os civis vivem sob a apreensão de que somente alemães e russos vasculham suas gavetas, armários e galinheiros, mas todos os soldados que conheço adquiriram o hábito de fazer isso”, escreveu Webster. Relógios de pulso, relógios de parede, jóias, pequenas (e grandes) peças de mobília e, logicamente, bebidas desapareciam rapidamente — mas o que havia sobrado, pois os britânicos já tinham pilhado as casas da região.
No que diz respeito à sua estagnada linha de frente, os combates ali se pareciam muito com os da 1ª Guerra Mundial. A Easy passou quase dois meses lá, em combates diários. Ela empreendeu quase 100 missões de patrulha. Repeliu ataques. Usou uma quantidade incrível de munição. Sofreu baixas. Mas, quando, finalmente, foi substituída, repassou à unidade que a substituiu posições da linha de frente que não representavam um centímetro de avanço sequer.
A companhia chegou à Ilha em 2 de outubro, de caminhão, através da magnífica ponte de Nijmegen (ainda de pé) que tinha sido capturada pela 82ª no dia 20 de setembro, às 20 horas. Assim que atravessaram o Waal, os caminhões transportaram a tropa por mais uns 15 quilômetros, passando por dezenas de peças de artilharia britânicas camufladas, em demanda do vilarejo de Zetten.
Eles chegaram à noite, para substituir a 43a Divisão Britânica. O 506° RIP estava assumindo o controle de uma faixa de linha de frente que estivera sob a defesa de uma divisão inteira. Ela tinha quase 10 quilômetros de largura. O 2º Batalhão do 506° ficou na extremidade direita (oriental) da linha, enquanto a Easy posicionou-se na extremidade esquerda, com o 501° RIP à sua direita. A Easy tinha de cobrir quase 3 quilômetros com apenas 130 fuzileiros.
Soldados britânicos encontraram-se com a companhia em Zetten e escoltaram os elementos da vanguarda até as novas posições deles. — Como estão as coisas aqui? — perguntou Webster.
— Isto aqui é um verdadeiro buraco do inferno, chapa — foi a resposta. As inúmeras crateras produzidas por projéteis de canhões de 105 milímetros e 88s davam a Webster, que duvidara da sinceridade do soldado britânico, a impressão de que tinham acabado de serem abertas. Depois de três horas de marcha, a patrulha alcançou seu objetivo, um aglomerado de casas situadas ao lado de um enorme dique. O Baixo Reno ficava do outro lado do dique, separado deste por cerca de um quilômetro de terras planas alagadas e cobertas de relva. A área estava cheia de animais mortos, casas incendiadas e fitas de metralhadora e caixas de munição vazias. Era uma terra de ninguém.
Para cobrir o seu setor da linha de frente, ao longo do lado sul do dique, Winters pôs nela o 2º e o 3º Pelotões e deixou o 1º Pelotão na reserva. Ele não tinha efetivo suficiente para defender a linha a contento. Desse modo, estabeleceu postos avançados ao longo do dique em pontos que considerou os mais prováveis de sofrer tentativas de infiltração do inimigo. Ele se manteve em contato com os postos avançados via rádio, telefone e patrulhas. Além disso, enviou patrulhas de três soldados à margem do rio, para observar eventuais movimentações do inimigo e para que atuassem como observadores de artilharia avançados. Ele montou seu posto de comando em Randwijk.
Às 3h30 do dia 5 de outubro, Winters enviou o sargento Art Youman em missão de patrulha, com ordens para ocupar um posto avançado num edifício perto do moinho na margem sul do dique. Na companhia de Youman, estavam os praças James Alley, Joe Lesniewski, Joe Liebgott e Rod Strohl. O edifício ficava à beira de uma estrada que ligava o Sul ao Norte, ponto em que havia uma estação de barcas, que faziam transporte regular até o vilarejo de Nijburg, ao Sul.
Quando a patrulha alcançou a estrada, Youman disse a Lesniewski que fosse até o topo do dique para observar as redondezas. Quando chegou ao topo do dique, Lesniewski viu algo inesperado, a silhueta de uma metralhadora alemã montada no ponto em que a estrada, vindo da estação de barcas, cruzava o dique. Atrás da metralhadora, ele conseguiu divisar, na escuridão, o vulto de um alemão que se preparava para lançar uma granada de mão na patrulha de Youman, posicionada na base sul do dique.
Os outros membros da patrulha ouviram vozes de alemães vindas do lado norte do dique. Liebgott, que estava rastejando, gritou: — É você, Youman?
O alemão lançou uma granada enquanto Lesniewski dizia algo em sinal de advertência. Nisso, outros alemães lançaram granadas também por sobre o dique. Lesniewski foi atingido no pescoço por um estilhaço. Alley foi jogado ao chão por uma explosão, que lançou estilhaços em todas as direções e que lhe causaram 32 ferimentos no lado esquerdo do corpo, do rosto, do pescoço e do braço. Strohl e Liebgott sofreram ferimentos leves; o rádio de Strohl foi destruído.
Eles tinham deparado uma companhia inteira de soldados das SS. Ela tinha atravessado o rio de barca nessa noite e estava tentando infiltrar-se pelo sul do dique, para realizar um assalto diversionário, em apoio de um ataque maior da 363a Divisão de Volksgrenadier, que estava programado para ser lançado ao amanhecer contra o flanco esquerdo do 506° em Opheusden. Embora a patrulha não soubesse disto, outra companhia das SS tinha atravessado o dique e estava livre para agir atrás das linhas americanas. E, embora a divisão ainda não soubesse disto também, o ataque contra o 1º e o 2º Batalhões do 506° era muito mais do que um simples contra-ataque local; o objetivo alemão era livrar a Ilha inteira das tropas aliadas.
Depois da escaramuça com a primeira companhia das SS, a patrulha da Companhia E retirou-se. O caminho de volta ao posto de comando de Winters tinha um quilômetro. — Vamos, Alley — Strohl dizia o tempo todo. — Temos que tirar nossos traseiros daqui.
— Estou indo, estou indo — respondia um Alley coxeante.
Às 4h20, Strohl chegou ao posto de comando e relatou a penetração dos
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alemães. Winters organizou uma patrulha imediatamente, com um esquadrão e
metade do 1º Pelotão, que estava na reserva, mais o sargento Leo Boyle, do quartel-general, com um rádio.
O sargento Talbert voltou correndo para o estábulo em que seus homens estavam dormindo. — Acordem! Todos vocês! — disse aos gritos. — Os Krauts romperam a linha! Vamos, porra, saiam da cama. — Webster e os outros se esforçaram por levantar-se, pegaram seus fuzis e saíram.
Winters e sua patrulha de 15 homens avançaram rapidamente, ao longo do lado sul do dique. Enquanto se aproximavam da companhia das SS, ele viu balas traçantes partindo em direção ao Sul. Esses tiros não faziam sentido para ele; ele sabia que não havia nada naquela direção e achou que os alemães deviam estar nervosos e confusos. Ele resolveu interromper o avanço da patrulha e fazer ele mesmo o reconhecimento.
Depois de deixar a patrulha sob o comando do sargento Boyle, ele rastejou até o topo do dique. Do outro lado (norte), viu que havia um canal de escoamento de um metro de profundidade, que se estendia paralelamente ao dique. Poderia servir como cobertura para uma aproximação da estrada. Ele voltou para a patrulha, ordenou que dois de seus homens continuassem onde estavam, como proteção de retaguarda e do flanco direito, e conduziu o restante deles até o topo do dique, de onde seguiram para a trincheira, no lado norte. Então, o grupo avançou cautelosamente pelo canal em direção à estrada.
Quando estava a 200 metros da estrada, Winters interrompeu o avanço da patrulha novamente e avançou sozinho um pouco, para avaliar a situação. Quando se aproximou da estrada — que se elevava a um metro ou mais do nível do solo —, pôde ouvir vozes, que vinham do outro lado. Ao olhar para a direita, viu a silhueta de soldados alemães de pé no topo do dique, ao lado da posição da metralhadora, em contraste com o céu noturno. Eles estavam usando longos sobretudos de inverno e os inconfundíveis capacetes de aço alemães. Winters estava a uns 25 metros deles, no canal de escoamento. Ele pensou consigo mesmo: “Tal como no filme Sem Novidades no Front.”
Ele voltou para a patrulha, explicou a situação e emitiu ordens. — Temos de subir lá de rasto sem fazer nenhum barulho, nos mantermos agachados e nos apressarmos. Não teremos a cobertura da noite a nosso favor durante muito tempo.
A patrulha alcançou um ponto em que ficou a 40 metros da metralhadora, no topo do dique. Winters se aproximou de cada um dos homens e indicou-lhes particularmente o alvo cochichando-lhes aos ouvidos que podiam ser os fuzileiros ou a guarnição da metralhadora. Winters disse a Christenson em voz baixa que montasse sua metralhadora calibre 30 e concentrasse os disparos na MG 42, metralhadora alemã. Atrás de Christenson, o sargento Muck e o cabo Alex Penkala montavam o morteiro de 60 milímetros.
Após dar um passo para trás, Winters emitiu a ordem: — Preparar, apontar, fogo! — num tom de voz baixo, calmo, como se estivesse num estande de tiro passando instruções. Doze fuzis foram disparados simultaneamente. Todos os sete fuzileiros alemães tombaram. Christenson abriu fogo com sua metralhadora; ele estava usando balas traçantes e viu que seus disparos estavam muito altos, mas, quando baixou a mira, Muck e Penkala acertaram em cheio a metralhadora alemã com um tiro de morteiro. O sargento Boyle ficou “pasmo com o fogo pesado e preciso que lançamos contra o inimigo”. Depois, ele disse a Lipton que esses haviam sido os melhores disparos que tinha visto.
A patrulha começou a atrair alguns tiros de fuzil da estrada que ligava o dique à estação de barcas. Winters a conduziu de volta pelo canal por cerca de 200 metros, até o ponto em que o canal se coligava a outro, que se estendia perpendicularmente a ele, do dique até o rio. Fora do alcance do fogo alemão, ele pegou o rádio de Boyle e contatou o tenente Welsh.
— Envie o restante do 1º Pelotão — ordenou — e o setor de metralhadoras leves da Companhia do QG engajado à Companhia E.
Enquanto a patrulha esperava a chegada de reforços, o sargento William Dukeman ficou de pé para ordenar que a tropa se espalhasse (nas palavras de Gordon Carson, ao lembrar do incidente, ele disse que “os homens chegarão num minuto”). Três alemães, escondidos numa galeria de esgoto que corria por baixo da estrada, arremessaram uma granada de fuzil. Dukeman deu um suspiro e tombou para frente como um tronco de árvore. Ele foi o único a ser atingido; um pedaço de aço perfurou-lhe a omoplata e saiu pelo coração, matando-o. Os sobreviventes abriram fogo com seus fuzis contra os alemães no esgoto e os mataram por sua vez.
Winters, enquanto esperava a chegada do restante do pelotão, saiu ao campo que separava as duas linhas para ficar só e avaliar a situação. Três fatos o preocupavam: o inimigo estava atrás de um boa e sólida barreira de estrada, enquanto seus homens estavam num canal raso, sem nenhuma rota de fuga segura; o inimigo estava em uma posição em que poderia aproximar-se da patrulha pelo flanco direito e pegá-la em campo aberto; e não havia nada ao sul da barreira que pudesse impedir que os alemães seguissem pela estrada sem sofrer o ataque do posto de comando do 2º Batalhão, em Hemmen. Em face das circunstâncias, ele chegou à conclusão de que não tinha escolha, a não ser atacar. Eles estavam em plena luz do dia.
Ao voltar para a patrulha, viu que os reforços tinham chegado. Agora, ele tinha quase 30 homens. Reuniu-se com os tenentes Frank Reese e Thomas Peacock e o sargento Floyd Talbert e emitiu suas ordens:
— Talbert, siga com o 3º Esquadrão para a direita. Peacock, leve o 1º Esquadrão para a esquerda. Eu seguirei com o 2º Esquadrão por entre as colunas. Reese, posicione suas metralhadoras entre nossas colunas. Quero fogo de cobertura até que alcancemos aquela rodovia. Em seguida, suspendam fogo, avancem e juntem-se a nós. — Ele ordenou que Talbert e Peacock fizessem que seus homens calassem as baionetas.
Quando seus subordinados partiram para executar suas ordens, Winters reuniu o pessoal do 2º Esquadrão e explicou o plano. O praça Hoobler estava de pé à direita dele. Quando Winters disse: — Calem suas baionetas — Hoobler engoliu seco. Winters viu seu pomo-de-adão subir e descer. A adrenalina nele estava a mil.
— Minha taxa de adrenalina estava lá em cima também — revelou Winters. A um sinal dele, as metralhadoras começaram a criar uma base de tiro, e todas as três colunas iniciaram, o mais rapidamente possível, a travessia dos 200 metros do campo plano, mas alagadiço, que havia entre elas e a estrada, fazendo o melhor para manterem-se agachadas.
A essa altura, Winters não tinha certeza de quantos alemães havia no outro lado da estrada que ligava o dique à estação de barcas, estrada elevada o bastante para bloquear-lhe a visão. Tampouco os alemães sabiam que os americanos estavam chegando; depois de haver perdido seus operadores de metralhadora e seus fuzileiros no primeiro confronto, eles cometeram o erro imperdoável de ter deixado de criar um posto de observação avançado na estrada ou em cima do dique.
Seguindo na vanguarda da coluna, Winters foi o primeiro a alcançar a barreira da estrada e a escalou. Bem na frente dele, a apenas alguns metros de distância, estava uma sentinela alemã com a cabeça abaixada, procurando desviar-se dos tiros da metralhadora de Reese. À direita dele, Winters avistou pelo canto do olho um grupo de alemães, mais de 100 deles, compactamente reunidos, deitados no cruzamento do dique com a estrada. Eles estavam com a cabeça abaixada também para evitar os tiros da metralhadora. Todos estavam usando seu longo sobretudo de inverno e traziam nas costas as mochilas de campanha. Todos estavam de frente para o dique; Winters estava atrás deles. Os inimigos encontravam-se a apenas 15 metros de distância.
Winters virou-se e tornou a descer pela barreira ocidental da estrada, tirou o pino de uma granada de mão e a lançou na direção da sentinela solitária. Num ato simultâneo, a sentinela lançou também uma granada de mão contra ele. No instante em que Winters arremessou a granada, percebeu que tinha cometido um grande erro; ele se havia esquecido de tirar a fita adesiva em torno da alça da granada, que costumava pôr nesses artefatos para evitar acidentes.
Antes que a granada de mão alemã explodisse, Winters tornou a escalar a barreira e alcançar o leito. A sentinela estava agachada, cobrindo a cabeça com os braços, esperando que a granada de Winters explodisse. O alemão estava a apenas pouco menos de 3 metros de distância. Winters atirou nele com o seu M-1 da cintura.
O tiro sobressaltou a companhia inteira. Os soldados das SS começaram a levantar-se e voltar-se para Winters, em massa. Ele virou-se rapidamente para a direita e abriu fogo contra a massa compacta.
Winters nos dá uma descrição do que aconteceu em seguida:
— Os movimentos dos alemães pareciam irreais para mim. Quando se levantaram, tudo me pareceu lento demais; quando se voltaram para olhar para mim por sobre os ombros, seus movimentos foram lentos; quando começaram a erguer seus fuzis para disparar contra mim, fizeram isso lenta, lentamente. Eu esvaziei o primeiro pente [oito tiros] e, ainda de pé no meio da estrada, pus um segundo pente na arma e, ainda atirando da cintura, esvaziei esse pente na massa.
Tombaram alguns alemães. Outros começaram a mirar seus fuzis em Winters. Outros se puseram a correr dele. Mas todos os seus movimentos eram estabanados, dificultados por seus longos sobretudos. Winters tornou a descer pela barreira ocidental da estrada. Quando olhou para a direita, viu Talbert correndo agachado e seguindo na frente da coluna. Ela ainda estava a 10 metros da estrada. A coluna de Winters, avançando pelo meio, se esforçava para vencer o campo. A coluna de Peacock, à esquerda, estava a 20 metros da estrada, atrapalhada em seu avanço pelo arame farpado estendido através do campo.
Winters pôs um terceiro pente no M-1 e começou a atirar, acertando um ou dois alvos, e depois voltou a descer a barreira. Os alemães estavam fugindo o mais rapidamente e da melhor forma possível quando as outras colunas americanas alcançaram a estrada.
— Atirem à vontade — bradou Winters.
Eram alvos incertos. Os alemães estavam fugindo. Os fuzileiros da Companhia E atiravam neles sem sofrer revide. — Acertei um! — Webster ouviu Hoobler gritar. — Ah, acertei outro! — Segundo Webster: — Hoobler estava em seu elemento; ele adorava isso.
Um grupo de alemães se separou da massa principal e escondeu-se entre gramíneas de grande altura. Christenson os avistou. — Alguém aqui fala alemão? — perguntou. Webster se apresentou. — Heraus! — exclamou. — Schnell! Hände hoch!
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Schnell! Schnell! — Um após o outro, 11 alemães saíram do meio do mato.
Robustos, frios, alegaram que eram poloneses. Christenson os levou para a retaguarda.
Webster voltou para a estrada para engrossar os tiros contra o inimigo. Nisso, um alemão voltou-se para atirar. “Algo que me pareceu um golpe de bastão de beisebol atingiu minha perna direita”, escreveu Webster, “me fez girar e me derrubou.” Tudo em que pôde pensar foi: “Eles me acertaram!”, o que, naquela situação, pareceu-lhe “um clichê irrelevante e sem graça”. (Como todo escritor, ele ia fazendo a descrição dos acontecimentos à medida que iam ocorrendo.)
Foi um ferimento relativamente leve. A bala entrou por um lado da batata da perna de Webster e saiu pelo outro, sem atingir nenhum osso. Um ferimento de um milhão dólares. Consegui, pensou consigo mesmo. Quando o socorrista Eugene Roe chegou para atendê-lo, Webster tinha um grande sorriso no rosto. Roe fez um curativo nele e disse a Webster que se retirasse. Webster deu seus boldriês a Martin, “que continuava calmo e despreocupado; ele era a pessoa mais calma e destemida que conheci”, e suas granadas a Christenson, mas ficou com a pistola e o M-1 e seguiu mancando para a retaguarda.
Winters avistou mais soldados alemães a uns 100 metros de distância, a companhia das SS que havia passado despercebida, vindo por sobre o dique do lado sul. Eles se juntaram aos colegas em apressada retirada para o Leste, para longe dos tiros da Companhia E. Isso tornou o alvo maior. O tenente Reese tinha levado as metralhadoras para a linha de fogo a essa altura; o praça Cobb montou a sua e começou a disparar contra os alemães em debandada.
Os sobreviventes alemães alcançaram um grupo de árvores, onde havia outra estrada que levava ao rio. Winters ficou observando-os virar para a esquerda e começar a seguir por essa estrada em direção ao rio.
Em seguida, pôs-se ao rádio e solicitou fogo de artilharia. Os canhões britânicos começaram a martelar o corpo principal da força alemã em retirada. Winters teve vontade de descer até o rio pela estrada em que estava, para deter os alemães ali, mas 35 combatentes tinham poucas chances contra cerca de 150 sobreviventes alemães. Ele se pôs ao rádio novamente para pedir apoio ao QG do batalhão. O QG prometeu enviar um pelotão da Companhia Fox.
Enquanto aguardava reforços, Winters fez a contagem da tropa e a reorganizou. Ele tinha um homem morto (Dukeman) e quatro feridos. Onze alemães haviam se rendido. Liebgott, levemente ferido no braço, era baixa que podia andar. Winters ordenou que ele levasse os prisioneiros para o posto de comando do batalhão e depois procurasse tratamento com o Dr. Neavles.
Pouco depois, lembrou-se de que Liebgott, bom combatente, tinha a fama de “ser muito duro com os prisioneiros”. Além disso, ouviu Liebgott responder à sua ordem com as palavras: — Ah, ótimo! Eu cuido deles.
— Temos 11 prisioneiros — Winters disse a ele —, e quero 11 prisioneiros entregues ao batalhão. — Liebgott começou a dar sinais de que teria um acesso de raiva. Winters baixou seu M-1 até a cintura, tirou o dispositivo de segurança, apontou-o para Liebgott e disse: — Liebgott, jogue toda a sua munição no chão e esvazie o fuzil. — Liebgott xingou e resmungou, mas obedeceu à ordem.
— Agora — prosseguiu Winters — você pode pôr uma bala no fuzil. Se matar um prisioneiro, o restante saltará em cima de você. — Winters percebeu que um oficial alemão ficara andando de um lado para o outro, obviamente nervoso e preocupado com a euforia de Liebgott quando ele recebeu a incumbência. Ficou claro que o oficial entendia inglês; quando ele ouviu as outras ordens de Winters, relaxou.
Liebgott levou todos os 11 prisioneiros para o QG do batalhão. Winters confirmou isso junto a Nixon horas depois.
O sistema de travessia de barcas que os alemães tinham usado com o objetivo de ir para o lado do rio em que estavam, e de que precisariam agora para voltar para o outro, ficava no fim da estrada em que a Companhia E estava. Winters queria chegar lá antes deles. Quando o pelotão da Companhia Fox chegou, trazendo mais munição, Winters a distribuiu e em seguida deu novas ordens. Ele estabeleceu uma base de tiro com metade dos cerca de 60 homens sob seu comando e depois fez a outra metade avançar 100 metros, parar e estabelecer sua própria base de tiro e passar à frente do primeiro grupo posicionado na estrada. Ele pretendia repetir a manobra nos cerca de 600 metros de extensão do rio.
A cerca de 200 metros do rio, a unidade de Winters deparou alguns galpões industriais. A artilharia alemã tinha começado a trabalhar. As tropas das SS, desesperadas para alcançar a estação de barcas, prepararam um ataque com 75 homens contra o flanco direito dos americanos. Winters percebeu que tinha exagerado. Era hora de retirar-se, para que pudessem combater outro dia. A unidade voltou para o dique.
Assim que os últimos homens cruzaram o dique, os alemães atacaram com uma terrível concentração de fogo de artilharia no ponto em que ele era cortado pela estrada. Eles enquadraram o alvo perfeitamente. Os pára-quedistas espalharam-se para a esquerda e para a direita, mas não antes de sofrerem muitas baixas.
Winters pegou o rádio e contatou o QG do batalhão para pedir socorristas e ambulâncias. O Dr. Neavles foi até o rádio para saber o número de baixas.
— Dois times de beisebol — respondeu Winters.
Neavles não sabia nada sobre esporte. Ele pediu que Winters o informasse em linguagem clara.
— Saia desse rádio para que eu possa pedir mais apoio da artilharia — tornou Winters, aos berros — senão, precisaremos de uma quantidade suficiente para três times de beisebol.
Nisso, Boyle “ouvi[u] projéteis de morteiro se aproximando. Podia-se ver que cairiam perto”. Boyle não estava conseguindo mover-se muito rapidamente, já que estava exausto, como resultado da recuperação insatisfatória do ferimento que sofrera na Normandia. — Fui jogado para a frente no dique. Um projétil atingiu um ponto à esquerda logo atrás de mim, e um estilhaço rasgou-me a perna esquerda, da coxa até o joelho, e foi isso. Um golpe terrível, mas nenhuma dor. — Pouco antes de perder a consciência, Winters deu-lhe um tapinha no ombro e disse-lhe que eles cuidariam dele.
Guarnere e Christenson arrancaram uma das pernas das calças dele e aplicaram sulfa em pó no horrível ferimento (quase toda a carne no lado esquerdo da coxa de Boyle tinha sido arrancada). Em seguida, deram-lhe morfina e providenciaram para que padioleiros o levassem para a retaguarda.
Webster estava tentando atravessar, sozinho, um campo aberto para chegar a um posto de socorro. Ele avançava agachado por um caminho marcado pela passagem do gado, de uma forma mais retraída do que costumava fazer nos treinamentos, vencendo poças de lama e esterco de vaca. A certa altura do avanço, teve as calças rasgadas numa cerca de arame farpado. Após vencer o obstáculo, arriscou-se a ficar de pé e cobrir mancando os quase 100 metros que o separavam de um lugar seguro. Um observador alemão o viu e solicitou disparos de 88. Três explosões, uma em cada um dos lados dele, outra atrás, fizeram Webster ficar “apavorado e ciente” da realidade do perigo. Ele conseguiu sair do campo antes que o 88 acertasse o alvo.
Alguns membros da Companhia F o ajudaram a alcançar um cruzamento rodoviário. Dois socorristas num jipe, que voltavam do dique, recolheram-no, puseram-no no capô e “disseram-me que relaxasse.
Avisaram-me que iam correr, pois o homem na traseira, sobre a maca, o sargento Boyle, estava gravemente ferido e necessitando de atendimento médico urgente”.
Ao todo, os dois pelotões das Companhias Easy e Fox sofreram 18 baixas nesse bombardeio da artilharia alemã. Não houve baixa fatal.
Winters criou fortificações para cobrir o lugar em que a estrada atravessava o dique. O capitão Nixon apareceu. — Como estão indo as coisas? — perguntou.
Pela primeira vez desde que os combates tinham começado, Winters se sentou. — Dê-me um pouco d’água — ele disse. Quando esticou o braço para pegar o cantil de Nixon, viu que sua mão estava tremendo. Ele estava exausto.
E Christenson também. Ele não conseguia entender a situação, até fazer as contas. Viu que tinha usado um total de 57 pentes de M-1, ou seja, que havia feito 456 disparos. À noite, enquanto tentava manter-se acordado em seu posto de observador avançado e procurava acalmar-se, depois de tanta agitação, Christenson urinou 36 vezes.
Com 35 homens, um pelotão da Companhia E tinha posto em debandada duas companhias alemãs com cerca de 300 soldados. As baixas americanas (incluindo as da Companhia Fox) foram de um morto e 22 feridos. As baixas alemãs foram de cinqüenta mortos, onze prisioneiros e por volta de cem feridos.
Tempos depois, Winters reconheceu que ele e seus homens tinham tido “muita, muita sorte”. Numa análise que fez da situação, disse que a principal causa do sucesso deles foi a baixa qualidade da liderança dos alemães. Estes tinham deixado os membros do 1º Esquadrão ficar sentados no campo enquanto aguardavam a chegada de reforços. Eles tinham se reunido numa massa grande e compacta, algo injustificável na opinião de Winters. Haviam se deixado imobilizar pelos disparos de duas metralhadoras enquanto as três colunas da Easy atravessavam correndo os quase 200 metros do campo para atacá-los com baionetas. Tinham reagido muito lentamente quando Winters atirou neles da estrada. Deixaram de estabelecer uma base de tiro bem-organizada quando o tiroteio começou.
Ao contrário deles, a Easy fez quase tudo corretamente. Winters chamou isso de “o ponto alto de todas as ações da Companhia E na guerra inteira, e melhor do que no Dia D, pois demonstrou, de um modo geral, a superioridade da Easy em todos os aspectos da tática de infantaria: patrulhamento, defesa, ataque sob a cobertura de uma base de tiro, retirada e, principalmente, pontaria superior no uso de fuzis, metralhadoras e morteiros”.
Entretanto, podemos dizer mais sobre ela. Por exemplo, a boa forma física dos membros dessa companhia era inigualável. Eles gastavam mais energia do que um boxeador peso-pesado numa luta de 15 rounds pelo título, e muito mais; gastavam mais energia que um jogador de futebol americano gasta em três partidas consecutivas, cada uma com duração de 60 minutos. Notável também era o sistema de comunicação da companhia, com mensagens de rádio, mensageiros e sinalização com as mãos usados eficientemente. Os avanços e retiradas puseram em prática o treinamento a que seus membros tinham sido submetidos em Toccoa e foram feitos exatamente como rezam os manuais de guerra. A evacuação dos feridos era feita também com a mesma e tranqüila eficiência. A coordenação das ações com a artilharia britânica era excelente.
Tal era o caso de Winters. Ele tomava uma decisão acertada após a outra, às vezes instintivamente; doutras, depois de cuidadosa deliberação. A melhor delas foi a decisão de que atacar era sua única opção. Ele tinha não apenas inteligência, mas também um espírito de liderança singular. — Sigam-me — era sua palavra-chave. Ele mesmo matou mais alemães e correu mais riscos do que qualquer outro.
Mas, por melhor que a Companhia E, uma das companhias do 506°, fosse — e não existia companhia de infantaria melhor do que ela no exército —, não havia nada que ela pudesse fazer contra o terror dos campos de batalha: a artilharia moderna. A Companhia E tinha de atravessar o dique para chegar a seu objetivo. Ela não podia ficar no campo aberto, pois seria massacrada. Porém, quando atravessou o dique, a unidade ficou exposta à artilharia alemã, que tinha o campo sob mira. Alguns minutos de terror total, e a companhia sofreu mais baixas do que nos recontros que teve com as centenas de fuzileiros alemães horas antes.
“A artilharia é uma coisa terrível”, escreveu Webster. “Deus, eu a odeio.”
O Escritório de Relações Públicas da 101ª Divisão Aerotransportada deu ampla cobertura à atuação da companhia, usando a linguagem típica dos tempos de guerra: “A ordem de Winters tinha de ser, e foi, para um ataque de baionetas. Como resultado dessa ordem ousada, duas companhias das SS foram duramente castigadas e forçadas a retirar-se, sem que conseguissem uma oportunidade para iniciar seu ataque, que estava programado para começar justamente naquela hora.”
Uma vez que a 363a Divisão de Volksgrenadier lançou um grande ataque em Opheusden contra o flanco esquerdo do 506° no amanhecer desse dia, a pequena batalha no dique pode ter sido fundamental. Tivessem as companhias das SS continuado no lado sul do dique sem topar resistência, teriam conseguido atacar o QG do regimento justamente no momento em que o coronel Sink tivesse de concentrar sua atenção em Opheusden.
Sink reconheceu a boa atuação do pelotão da Easy. Ele emitiu uma Ordem Geral na qual citou a bravura em combate do pelotão da companhia. Depois de descrever o ataque com baionetas, ele disse na Ordem-”Com esse ato de bravura e essa manobra habilidosa contra uma força numericamente superior”, o pelotão “causou pesadas baixas ao inimigo” e anulou a tentativa dele de atacar o QG do batalhão a partir da retaguarda.
Alguns dias depois do ataque de baionetas, o coronel Sink fez uma visita a Winters. — Você acha que pode sair-se bem no batalhão? — ele perguntou, dando a entender que estava pensando em tornar Winters o subcomandante do 2º Batalhão. (O major Oliver Horton tinha morrido na batalha de Opheusden em 5 de outubro.)
Winters, então com 26 anos e meio de idade, capitão e comandante de uma companhia havia apenas três meses, engoliu seco e respondeu: — Sim, senhor. Sei que posso comandar nosso batalhão no campo de batalha. O combate não me preocupa. A administração sim. Nunca tive experiência com administração.
— Não se preocupe — assegurou-lhe Sink. — Cuidarei dessa parte. — Em 9 de outubro, ele tornou Winters o subcomandante do 2º Batalhão.
O substituto de Winters no comando da Companhia E não se mostrou à altura do antecessor. Ele veio de outro batalhão. O praça Ralph Stafford foi contundente na descrição que fez dele: “Realmente, ele era um fiasco.
Ele não apenas não sabia o que fazer; não se preocupava em aprender. Ficava na cama, não fazia inspeções e mandava buscar mais ameixas.” Ele foi substituído logo.
Outros oficiais substitutos fracassaram também. — Indecisão era o nome dele... Nos combates, ele ficava totalmente desorientado e congelava. Nós, os graduados do pelotão, assumíamos o comando e fazíamos o trabalho; e ele jamais reclamava, pois reconhecia a própria incapacidade para comandar sob pressão — comentou Christenson a respeito de um deles.
Webster escreveu sobre um líder de pelotão na batalha de Nuenen: “Nunca o vi combater. Ele nunca vinha para a linha de frente. Não agia à altura de suas responsabilidades; os veteranos do pelotão jamais o perdoaram. Um recruta fracassar numa situação grave era ruim, mas num oficial, do qual se esperava que liderasse seus homens, isso era imperdoável.”
Malarkey contou que, nesse combate, Guarnere “repreendeu acerbamente certo oficial que cuidava de preservar-se do perigo, como se fosse avestruz, a esconder a cabeça na terra, dizendo-lhe que deveria estar liderando o pelotão... Mais tarde, esse mesmo oficial foi visto num posto de socorro com um tiro na mão, suspeito de ter ele mesmo causado o ferimento”.
Uma mistura de novos oficiais e soldados que não tinham sido treinados pelos padrões do grupo original de Currahee, os rigores dos ataques constantes da artilharia inimiga e o perigo das patrulhas noturnas estavam minando as forças da Companhia E. As doenças pioraram a situação.
Paul Fussell nos dá uma descrição dos dois estágios de racionalização pelos quais o combatente passa — isso não pode ocorrer comigo; e, depois: isso pode ocorrer comigo, a não ser que eu seja mais cuidadoso — seguido por um estágio de “percepção exata da realidade: vai acontecer comigo, e somente a minha ausência [da linha de frente]
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pode evitar isso”. Alguns nem chegam a ter essa percepção; para outros, isso
ocorre quase imediatamente. Quando ocorre com um membro de uma companhia de fuzileiros na linha de combate, é quase impossível fazê-lo ficar lá e cumprir o seu dever. Sua motivação tem de ser interior. A amizade é, de longe, a maior das motivações — ele não quer desapontar os amigos, não quer parecer covarde aos olhos dos homens que ele preza e respeita mais que quaisquer outros. A disciplina não consegue fazer isso, pois implica punição, e não existe punição pior que o exército possa aplicar num soldado da
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linha de frente que a de pô-lo ali.
Uma das causas disso é o que Glenn Gray chama de “a tirania do presente” na trincheira. O passado e, o mais importante, o futuro não existem. Ele explica dizendo que há “mais tempo para pensar e mais solidão nas trincheiras na linha de frente do que na segurança do lar e que o tempo não é medido com relógios e calendários, mas de
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diferentes formas”. Para o soldado sob o fogo inimigo e que chegou ao limite de
resistência, até mesmo a mais tétrica cela de prisão militar parece aconchegante. O que importa é que o minuto seguinte chegue logo.
Gray acha que é por isso que os soldados fazem qualquer coisa para obter suvenires. Em Brécourt Manor, Malarkey foi correndo até um campo que estava sendo varrido por tiros de metralhadora para pegar o que achava que era uma Luger de um alemão morto. Na Holanda, no dia 5 de outubro, enquanto voltava mancando para a retaguarda, Webster avistou, num campo sob o fogo de um German 88, “um poncho de camuflagem alemão, um suvenir ideal”. Ele parou para “pegá-lo”. Gray explica o fenômeno: “Essencialmente, suvenires pareciam dar ao soldado alguma certeza em relação ao futuro, em relação a um tempo distante do ambiente destruidor do presente. Era como se representassem a garantia da sobrevivência dele.” É quase impossível pensar em algo que não seja a própria sobrevivência numa situação em que se está arriscado a morrer, o que explica o fenômeno oposto, o da coleta de suvenires — a atitude despreocupada do soldado para com seus pertences, sua atitude de indiferença em relação ao dinheiro. “Em campanhas de risco extremo”, Gray escreve, “os soldados aprendem mais facilmente do que os civis que tudo que é material é substituível, mas a
vida não.”{49}
Insubstituível é a amizade dos colegas, mas, para o substituto, recém-chegado, não existe amizade. Portanto, não há nada que o prenda ao seu posto. Gray conta a história de um desertor com o qual topou num bosque da França em novembro de 1944. O jovem era das montanhas da Pensilvânia; estava acostumado a acampar; ele estava lá havia algumas semanas e pretendia ficar ali até o fim da guerra. — Todos os homens que eu conhecia e com os quais treinei foram mortos ou transferidos — o desertor explicou. — Estou só... Os projéteis parecem cair cada vez mais perto, e não consigo suportá-los. — Ele implorou que Gray o deixasse ficar ali. Gray recusou-se a fazer isso. Disse que teria de levá-lo de volta, mas prometeu que ele não seria punido. O soldado disse que já conhecia a história; ele previa, com amargura, que “eles” simplesmente o poriam na linha de combate outra vez — e foi exatamente isso o que ocorreu quando
Gray o levou de volta.{50}
Na frente de batalha, não ocorre apenas o relaxamento na observância da disciplina rígida. Ordens também podem ser ignoradas, já que na supervisão não é exatamente onde está o perigo da morte. “Os veteranos aprenderam amargamente a ser independentes e a tomar suas próprias decisões”, Webster disse na carta enviada aos pais logo depois de ter sido ferido. “Certa vez, nosso tenente disse ao meu líder de esquadrão que pegasse seus oito homens e destruísse alguns canhões antiaéreos que estavam sendo disparados contra um grupo de planadores. Nove homens armados com fuzis para combater 88s e canhões de 40 milímetros! O sargento disse ‘sim’ (censurado). Baseando-se no próprio discernimento, ele salvou nossas vidas numa situação em que um novato agiria com temeridade. Esse mesmo tenente ordenou depois que dois soldados fossem explorar a posição alemã, mas eles, com uma visão mais clara da situação, foram (censurado).”
Os veteranos tentavam ajudar os substitutos, mas também evitavam conhecer-lhes o nome, já que esperavam que se fossem logo. Não que os veteranos não tivessem simpatia pelos recrutas. “Nossos novos colegas”, disse Webster numa carta enviada à família, “representantes do recrutamento militar, eram tão jovens e aparentavam tanto entusiasmo que achávamos um crime enviá-los para a batalha. Nós, pára-quedistas, obtemos os melhores homens do exército, mas é um destino terrível para alguém que nunca esteve longe de casa ou da escola vir para cá.”
Nenhum membro da Companhia E participara de combates antes de 6 de junho de 1944, porém, em outubro, todos os soldados que partiram de avião da Inglaterra na noite de 5 de junho e que ainda estavam vivos na Holanda tinham passado por dois saltos de missão de combate e duas campanhas. Muitos deles haviam se ferido; alguns dos feridos tinham saído do hospital sem autorização para voltar para a Holanda. Não porque amassem o combate, mas porque sabiam que, se não fossem à guerra com a Easy, seriam enviados para a batalha com estranhos, já que a única forma de um fuzileiro sair da guerra no TOGE era a morte ou sofrer um ferimento grave o bastante, que lhe fizesse perder um membro ou o tornasse inválido. Já que tinham de lutar, decidiam que isso tinha de ser feito com os amigos.
Raramente, os substitutos alcançavam esse grau de identificação. Além disso, uma vez que o exército estava acelerando o processo de treinamento de modo que pudesse fornecer tropas mais rapidamente para a batalha, os substitutos não tinham a qualidade dos combatentes originais de Currahee. Em Veghel, Webster viu um substituto chamado Max “gemendo e segurando firme a mão direita”.
— Ajudem-me! Ajudem-me! Alguém me ajude!
— Que há de errado? Foi atingido em outro lugar também?
— Não, não. É que dói.
— Por que você não se levanta e sai correndo daqui?
“Ele não conseguia fazer isso. Ele ficou tão traumatizado que só o que conseguia fazer era ficar lá gemendo... O trauma é uma coisa engraçada. Alguns jovens podem ter o próprio pé arrancado por uma explosão e voltar mancando para o posto de socorro movido por esforço pessoal, enquanto outros, como Max, empacam ao ver sangue e se recusam a ajudar a si mesmos. Dizem que o trauma é, principalmente, um fenômeno físico, mas me parece que a atitude mental do sujeito tem muito a ver com isso. Max não era agressivo, não era durão, não era bem-treinado”, comentou Webster.
Admirável não é o fato de que esses oficiais e esses combatentes ruíam diante de pressão, tensão e vulnerabilidade constantes, mas o fato de que, com muitos deles, isso não acontecia.
Com a transferência do substituto de Winters, o primeiro-tenente Fred “Moose” Heyliger assumiu o comando da companhia. Heyliger era um aspirante-a-oficial que tinha liderado o pelotão de morteiros da Companhia do QG do 506° na Normandia (onde ele foi promovido a primeiro-tenente) e na Holanda. Ele fizera parte da Companhia E nos Estados Unidos. Winters gostava muito dele, desde que o conhecera.
Heyliger era um bom comandante. Ele visitava postos de observação avançados à noite. Participava de missões de patrulha. Providenciava para que a tropa tivesse o melhor possível. Como os combatentes que ficavam nas trincheiras, ele jamais relaxava. A tensão estava sempre lá. Os membros de sua companhia estavam muito bem distribuídos, para impedir que patrulhas alemãs penetrassem a linha, e um possível perigo de outra ruptura do tamanho da de 5 de outubro estava em sua mente o tempo todo. Ele se desincumbiu bem de sua responsabilidade, suportou a pressão, cumpriu seu dever.
De acordo com o cabo Walter Gordon, “os britânicos são mestres na intriga. Não gostaria de tê-los num de meus flancos para lançar um assalto contra um objetivo qualquer, mas certamente aceitaria com prazer um plano deles para isso, pois são muito bons em planejamento”.
Ele estava se referindo ao “Resgate”, que foi feito à meia-noite do dia 22 para 23 de outubro. Uma semana antes, o coronel Dobey (que tinha o apelido de “O Louco Coronel de Arnhem”), da 1ª Divisão Aerotransportada Britânica, que havia fugido de um hospital alemão depois de ter caído prisioneiro, atravessou o Reno a nado e contatou o coronel Sink. Dobey disse a ele que havia 125 soldados britânicos, cerca de 10 combatentes da resistência holandesa procurados pelos alemães e 5 pilotos americanos escondidos com a resistência holandesa no lado norte do Baixo Reno. Ele queria trazê-los de volta e precisava de ajuda. Sink concordou em ajudar. Uma vez que o ponto de travessia cruzava a posição da Easy, Sink ofereceu Heyliger para comandar a patrulha de resgate. Ou, nas palavras de Gordon, “nós forneceríamos os soldados; os britânicos dariam a idéia e, acho, os curativos. Uma troca justa, segundo os padrões britânicos”.
Dobey entrou em contato com os combatentes holandeses do outro lado do rio via telefone (não se sabe por quê, mas os alemães nunca cortaram essas linhas). Ele fixou a noite de 22 para 23 de outubro como o dia da operação. O 81° Batalhão de AA-AT
dispararia projéteis traçantes por sobre o rio de seus canhões Bofor{51} para assinalar o local aonde os holandeses deveriam levar os homens à espera do resgate. Para diminuir a desconfiança dos alemães, o 81° fez esses disparos à meia-noite em vários dias antes da operação.
Na noite da operação, Heyliger, os tenentes Welsh e Edward Shames e 17 combatentes escolhidos por Heyliger seguiram em fila do dique para o rio, onde barcos infláveis britânicos tinham sido escondidos na noite anterior. Como sempre, a noite foi sombria, com uma garoa aumentando a obscuridade. Trêmula de frio, a tropa arrastou os barcos até a água. À meia-noite, os Bofors começaram a disparar os projéteis traçantes direto para o Norte. Os combatentes da resistência holandesa fizeram o sinal de V de vitória com lanternas de luz vermelha da margem setentrional. A tropa começou a atravessar o rio remando o mais silenciosamente possível.
Os combatentes fizeram a travessia com o coração acelerado, mas não houve incidente. Ao se aproximarem da margem, saltaram dos barcos e avançaram. Gordon posicionou a metralhadora para o flanco esquerdo; ele a montou e preparou-se para defender os colegas de um possível ataque. O cabo Francis Mellett montou sua metralhadora no flanco direito. O praça Stafford seguiu na parte da coluna que procurava estabelecer contato com os holandeses, com Heyliger indo logo atrás dele.
Stafford avançou silenciosamente. Não havia fogueiras, nem iluminação. O território era do inimigo, totalmente desconhecido para os americanos, e estava escuro como breu.
— O silêncio absoluto foi quase paralisante para mim — confessa Stafford ao lembrar-se do aspecto medonho da ocasião.
Stafford fez outro avanço cuidadoso. Nisso, um grande pássaro alçou vôo a não mais que uns 30 centímetros na frente dele.
— Cheguei a achar que meu coração havia parado de bater — ele acrescentou. — Destravei o dispositivo de segurança de meu M-1 e estava prestes a atirar quando o tenente Heyliger disse serenamente: “Calma.”
Eles continuaram avançando e logo depois encontraram os soldados britânicos. O primeiro que Stafford viu “abraçou-me e me deu sua boina vermelha, que ainda tenho”. Um brigadeiro britânico deu um passo adiante e apertou a mão de Heyliger, dizendo que ele era o melhor americano que ele tinha visto.
Heyliger fez sinal para os britânicos de forma que seguissem para os barcos em fila e pediu que fizessem silêncio. Mas eles simplesmente não conseguiram. O praça Lester Hashey lembrou-se de um que disse, em dado instante na operação de travessia: — Nunca pensei que ficaria contente em ver um maldito ianque. — O tenente Welsh, que estava no comando e ficara tomando conta dos barcos, exasperou-se com os britânicos, que diziam em voz alta: — Deus os abençoe, ianques — e disse a eles que todos seriam mortos se não se calassem.
Os britânicos embarcaram; Heyliger fez seus homens voltar para o rio à Ia eixo-badeixo; em pouco tempo, todos estavam prontos para partir. Gordon foi o último a voltar, e, na fila de barcos que atravessava o rio, “havia um clima de ansiedade e preocupação”, contou-me. Ele guardava no íntimo a certeza de que os alemães afundariam todos a qualquer momento. Mas não foram notados pelo inimigo. Por volta de lh30, todo o grupo estava seguro na margem sul e atravessando a terra de ninguém em demanda da linha de frente americana atrás do dique.
No dia seguinte, o coronel Sink fez uma menção honrosa pela coragem demonstrada na operação. Ele declarou que “a coragem e a calma demonstradas pela força de apoio foram fatores primordiais nessa operação bem-sucedida. Essa operação foi tão bem organizada e executada que o inimigo jamais soube que uma evacuação tinha sido feita.
Todos os membros dessa força de apoio recebem esta menção honrosa por sua agressividade, determinação, pronta obediência a ordens e dedicação ao dever. Seus nomes vêm a seguir”.
O nome de Gordon estava lá. Quando eu disse que ele deve ter ficado orgulhoso por ter se oferecido como voluntário para participar dessa operação arriscada e por tê-la executado bem, ele respondeu que a única razão pela qual participara dela foi que Heyliger o selecionara.
— Não foi uma operação formada por voluntários. Não estou dizendo que eu não me teria oferecido como voluntário; estou dizendo apenas que não fiz isso.
Em 28 de outubro, a área de responsabilidade da 101ª Divisão foi ampliada. O 506° transferiu-se para um trecho oriental da margem do rio bem na frente de Arnhem. A Easy ficou num setor da linha de frente perto da vila de Driel, ou seja, na extremidade leste do eixo de avanço dos Aliados em direção à Alemanha. Ela estava substituindo uma unidade britânica.
Enquanto a companhia se deslocava para suas novas posições, o sargento Lipton e Winters, o subcomandante do batalhão, conversaram com o comandante britânico. Ele disse que viu alemães movendo-se ao longo da rodovia que havia a Leste e que estavam abrindo trincheiras ali. (A Easy ainda estava no flanco direito do 506°, em Driel, num ponto em que a linha formava um ângulo reto com o outro segmento, o que fez com que um pelotão ficasse voltado para o norte; outro ficasse de frente para o Leste, e um terceiro na reserva.)
— Bem, quando você os vê, por que não atira neles? — Winters perguntou.
— Porque, quando atiramos neles, eles simplesmente revidam. Winters e Lipton olharam um para o outro em muda descrença. A Easy sempre tentava manter os alemães com a cabeça abaixada e na defensiva quando ia para a linha de combate.
Ela fez isso em Driel e manteve patrulhamento constante. A artilharia não parou de atirar. Os alemães tinham como vantagem o fato de que estavam ocupando um planalto ao norte do rio. Com isso, a movimentação da tropa de dia era impossível. Os pelotões da linha de fogo ficaram entrincheirados. Chovia o tempo todo. Ninguém conseguia ficar seco. Não havia como fazer a barba, como tomar banho, como relaxar. Uma vida muito dura.
Na retaguarda, nos postos de comando e um pouco mais atrás, as condições melhoraram um pouco. A artilharia era um problema, logicamente, mas havia comida quente e outras compensações. A tropa ouvia “Arnhem Annie”, um programa da propaganda nazista, no rádio. Nos intervalos das sessões de música americana, ela sugeria que os americanos atravessassem o rio e se entregassem, para viver em segurança, até que a guerra acabasse. O pessoal da intendência conseguia trazer exemplares da Yank e da Stars and Stripes para a tropa. O boletim noticioso da 101ª, The Kangaroo Khronicle, voltou a ser publicado. Os alemães lançavam panfletos com o título Por que Lutar pelos Judeus?. A Equipe de Interrogatório de Prisioneiros de Guerra do 506° também enviava por sistemas de alto-falantes convites de rendição aos alemães.
Mas o único efeito que a propaganda de ambos os lados conseguia era provocar boas gargalhadas.
Winters estava entediado. Para ele, ser subcomandante “foi uma decepção, uma grande decepção. Meu momento mais divertido no exército, a coisa mais satisfatória que fiz, foi quando fui comandante de companhia. A vida de subcomandante era difícil, pois você tinha de lidar com ambos os lados, com os soldados e com o capitão Sobel. Mas, como comandante de companhia, eu fazia minha festa particular. Ficava na linha de frente tomando muitas decisões ali mesmo, decisões importantes para o bem-estar da companhia, e providenciando para que o dever de todos pudesse ser cumprido”.
Como subcomandante de batalhão, “era um administrador e não tomava decisões de comando ou coisa desse tipo, mas apenas fazia recomendações ao comandante do batalhão, ao serviço de inteligência da unidade”.
Observei que talvez alguns soldados tivessem ficado aliviados com a mudança.
— Eu não fiquei — tornou Winters.
O 2º Pelotão, comandado pelo primeiro-tenente Harry Welsh, tinha ocupado o setor da linha que ficava de frente para o Leste. O posto de comando do tenente era num celeiro situado a uns 50 metros a oeste das linhas ferroviárias, onde os alemães tinham os postos de observação deles. O efetivo de seu pelotão tinha sido reduzido para duas dúzias de homens; mesmo que ele tivesse mantido metade dele sob alerta, isso o teria deixado com 12 homens para cobrir uma linha de combate de 1.500 metros. Com uma lacuna de mais de 200 metros entre postos avançados, era relativamente fácil para as patrulhas alemãs penetrar pela linha à noite. E elas faziam isso regularmente, não para montar um ataque — como os Aliados, os alemães tinham aceitado a situação de imobilidade, e suas fileiras estavam parcamente constituídas também —, mas para terem certeza de que os americanos não estavam recebendo reforços.
Depois de suas experiências em 5 de outubro, Winters ficou preocupado com essa situação de falta de solidez na linha de frente. Quando ouviu um membro da missão de resgate de 22-23 de outubro relatar a penetração das fileiras alemãs sem serem notados e classificar isso como algo “fantástico”, ele desdenhou o fato:
— Os alemães fizeram a mesma coisa conosco. Eles conseguiram passar por nossa linha de frente com duas companhias, e nós não disparamos um tiro sequer contra eles até que tivessem chegado ao dique. Portanto, que há de mais nisso?
Winters se sentia frustrado em seu novo posto. Ardia nele o desejo de combater, e ele ficava irritado com as penetrações dos alemães. Na tarde do dia 31 de outubro, contatou Heyliger por telefone para sugerir que, à noite, os dois fizessem uma inspeção dos postos avançados. Heyliger aceitou a sugestão. Às 21 horas, Winters chegou ao posto de comando da Easy. Heyliger telefonou para Welsh, a fim de informá-lo de que ele e Winters estavam seguindo para lá em visita de inspeção.
— Moose e eu seguimos pelo caminho que levava ao posto de comando de Welsh ombro a ombro praticamente — observou Winters —, já que ele tinha apenas cerca de l,80m de largura e era ligeiramente elevado. Em cada lado, havia uma barreira de mais ou menos um metro, em cuja base corria um canal de escoamento.
De repente, em meio à escuridão, soou uma ordem: “Halt!”
Heyliger era um homem calmo e despreocupado, um comandante que não perdia a calma à toa. Desse modo, quando Winters percebeu que ele respirou fundo, ficou tenso. Winters calculou que Heyliger tinha esquecido a senha.
Heyliger tentou dizer “Moose”, mas, antes que ele terminasse de fazer isso, bam, bam, bam — um M-1 cuspiu três balas de uma distância de quase 10 metros.
Heyliger caiu na estrada gemendo. Winters jogou-se para o canal do lado esquerdo da estrada. O receio deles era de que houvessem deparado uma patrulha alemã, pois os disparos do M-1 tinham sido tão rápidos que poderiam ter sido de uma pistola automática alemã. Em seguida, ouviu passos de alguém que se retirava correndo do local.
Winters voltou rastejando para o caminho, pegou Heyliger e puxou-o para um dos lados. Ele tinha sido atingido no ombro direito, um ferimento razoavelmente leve, e na perna esquerda, cujo ferimento era grave — a impressão que se tinha era de que a batata da perna dele havia sido arrancada. Winters tratou de enfaixar-lhe a perna.
Alguns minutos depois, Winters ouviu passos de alguém correndo na direção dele. Quando se moveu para pegar o fuzil, ouviu Welsh chamando em voz baixa: — Moose? Dick?
Welsh e dois de seus homens ajudaram a fazer um curativo em Heyliger. Aplicaram doses de morfina nele e o levaram para o posto de comando do batalhão. Quando chegaram lá, ele tinha perdido tanto sangue e havia recebido tantas doses de morfina que sua palidez deu a Winters a impressão de que ele não sobreviveria.
Mas ele sobreviveu. Uma semana depois, estava num hospital na Inglaterra. Enquanto ficou lá, foi promovido a capitão e recebeu a Cruz Militar Britânica por conta da missão de resgate bem-sucedida. Porém, para Heyliger, a guerra tinha terminado.
O soldado atirou em Heyliger porque tinha ficado tenso, com medo, inseguro. O incidente o deixou psicologicamente arrasado. Ele era veterano, e não um recruta. Winters decidiu não puni-lo. Logo depois, ele foi transferido.
Em 7 de novembro, Heyliger escreveu uma carta a Winters em sua cama de hospital. “Caro Dick: Estou deitado na cama, enfrentando a situação com tranqüilidade. Gostaria de agradecer-lhe por ter cuidado de mim na noite em que fui ferido. Certamente, foi um jeito ridículo de ser posto fora de combate.
Cheguei aqui limpinho da silva. Sem nada. Sei que você está com minhas asas e minha pistola, mas também sinto muita falta das roupas em meu colchonete de campanha e dos rolos de filme em meu bornal de provisões...
Meu Deus, Dick, eles engessaram meus ferimentos, e o fedor aqui é tanto que parece que um gato defecou em minha cama. Não tenho como livrar-me deste fedor.
Bem, são poucas linhas, mas é que meu braço direito está muito fraco. Dê lembranças minhas a todos.”
O substituto de Heyliger como comandante da Easy foi o primeiro-tenente Norman S. Dike, Jr. Ele veio do QG da divisão. Alto, esguio, boa aparência, era educado e falava num tom de voz militar. Causava boa impressão.
O posto de subcomandante punha Winters em contato diário com Nixon, que agora era do S-3. As diferenças que havia entre os dois não podiam ser maiores. Winters cresceu num lar de classe média; já o pai de Nixon era muito rico. Winters não saíra da Pensilvânia na adolescência; Nixon tinha morado em várias partes da Europa. Winters se formara numa faculdade modesta; Nixon havia estudado em Yale. Winters jamais bebia; Nixon era alcoólatra. Mas eles eram grandes amigos, pois tinham em comum a dedicação ao cumprimento do dever e uma capacidade notável para cumpri-lo. Todos os membros da Easy cuja entrevista faz parte deste livro disseram que Winters foi o melhor comandante que viram na vida e que Nixon foi o mais brilhante oficial de estado-maior que conheceram na guerra. De acordo com Winters:
— Era difícil fazer Nixon levantar-se de manhã.
Num dia de novembro, Winters quis partir cedo. Porém, como sempre, não conseguiram convencer Nixon a levantar-se. Winters foi até onde ele estava deitado, segurou-lhe pelos pés enquanto ele ainda dormia em seu saco de dormir e os apoiou sobre o ombro.
— Vai levantar ou não?
— Vá embora. Deixe-me em paz.
Nisso, Winters notou que a jarra estava com água até a metade. Ainda apoiando os pés de Nixon no ombro, ele pegou a jarra e começou a despejar o conteúdo no rosto de Nixon, que arregalou os olhos, horrorizado. — Não, não! — implorou. Tarde demais, o conteúdo tinha sido despejado. Somente então Winters percebeu que Nixon não havia ido lá fora para livrar-se da urina resultante da bebida que tinha ingerido, mas que usara a jarra para fazer isso.
Nixon gritou e xingou, mas depois começou a rir. Os dois resolveram ir a Nijmegen para investigar os rumores de que os oficiais estavam podendo tomar banho quente lá.
A campanha se arrastava penosamente. O frio, cada vez mais intenso, piorava a situação desagradável produzida pela chuva diária. Finalmente, no fim de novembro, unidades canadenses começaram a substituir a 101ª. A vez da Easy chegou na noite de 24 para 25 de novembro, quando se retirou da linha de frente. De manhã, a tropa embarcou em caminhões numa viagem de volta para a França com o intuito de descansar, reequipar-se, receber substitutos e tomar banho, coisa que os combatentes não faziam havia 69 dias.
A Easy tinha saltado em 17 de setembro com 154 oficiais e soldados. Ela saiu da Holanda com 98 membros, entre oficiais e combatentes. Os tenentes Brewer, Compton, Heyliger e Charles Hudson tinham sido feridos, além de 45 recrutas. Os membros da Easy mortos em combate foram William Dukeman, Jr., James Campbell, Vernon Menze, William Miller, James Miller e Robert Van Klinken. A companhia sofrera 65 baixas na Normandia. Com isso, seu total de baixas no fim de novembro foi de 120 (alguns desses soldados tinham sido feridos em ambas as campanhas), dos quais nenhum caiu prisioneiro de guerra.
Quando os caminhões tornaram a passar pela Rodovia do Inferno, os holandeses ladearam as ruas para ovacionar seus libertadores. — Dezessete de novembro — clamaram quando o comboio passou por Nijmegen, Uden, Veghel e Eindhoven.
Os membros da Easy não se sentiam como heróis libertadores. O sargento Lipton resumiu-lhes o sentimento: — Arnhem Annie dizia pelo rádio: “Vocês podem ouvir nossa música, mas não podem circular por nossas ruas.” Ela estava certa. Nós não entramos em Arnhem.