Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 11
“Eles nos Cercaram — Esses Coitados”
BASTOGNE
19-31 de dezembro de 1944
Em 19 de dezembro, a Easy foi para a linha de fogo ao sul de Foy como parte do anel de defesa de Bastogne. Aliás, ela foi um dos postos de suprimento no anel. Dentro do anel, estavam a 101ª DIA, o Comando de Combate B da 10a Divisão Blindada, além do 463° Batalhão de Artilharia de Campanha. Os alemães lançaram contra essa força nada menos que 15 divisões, quatro delas blindadas, apoiadas por artilharia pesada.
O combate foi furioso e de alto custo. Nos dias 19 e 20, o 1º Batalhão do 506°, apoiado pela Equipe Desobry da 10ª Divisão Blindada, travou combate com a 2ª Divisão de Panzer em Noville, a nordeste de Foy. Quando, no dia 19, o batalhão se retirou, tinha perdido 13 oficiais e 199 recrutas (de cerca de 600). Juntamente com a Equipe Desobry, ele destruíra pelo menos 30 tanques do inimigo e causara-lhe entre quinhentas e mil baixas. Porém, o mais importante de tudo é que deteve o inimigo por 48 horas, enquanto a defesa era estabelecida em torno de Bastogne.
A Easy e outras companhias precisavam muito desse tempo, já que a situação no perímetro da defesa era instável e confusa. O lado esquerdo da Easy ficava voltado para o eixo Bastogne-Noville e se ligava ao 3º Batalhão, do outro lado. A Companhia Dog, posicionada no flanco direito do 2º Batalhão, tinha seus membros distribuídos até a estação ferroviária de Halt, mas não estabeleceu contato com o 501° RIP. Winters preocupava-se com o fato de que talvez o batalhão não estivesse na posição certa; ele enviou Nixon de volta ao QG do regimento para confirmar isso; Nixon voltou dizendo que o batalhão estava no lugar esperado.
A posição da Companhia E era num bosque que dava vista para um campo de pasto que se inclinava na direção da vila de Foy, distante dali cerca de um quilômetro. As árvores eram pinheiros, que tinham de 20 a 25 centímetros de diâmetro, enfileiradas. A tropa abriu trincheiras para formar uma Linha de Resistência Principal (LRP), que se estendia alguns metros pelo bosque adentro, com postos avançados na beira. Winters estabeleceu o QG do batalhão logo atrás da companhia, na borda sul do bosque. A primeira noite na LRP foi tranqüila, pacífica mesmo; o combate ocorria ao Norte, em Noville, a 4 quilômetros dali.
Ao amanhecer do dia 20 de dezembro, uma neblina pesada caiu sobre o bosque e os campos. Winters se levantou e olhou em volta. À esquerda, viu um soldado alemão com seu longo sobretudo invernal surgir do bosque. Ele não tinha fuzil, nem mochila. Ele caminhou até o centro de uma clareira. Dois homens que acompanhavam Winters levaram seus fuzis ao ombro, mas ele lhes fez sinal para que não atirassem. Os americanos ficaram observando o alemão e o viram tirar o sobretudo, arriar as calças, agachar-se e defecar. Quando ele terminou, Winters bradou, usando o melhor de seu
alemão: ‘“Kommen sie hier!”{54} O soldado pôs as mãos ao alto e caminhou até eles para se render. Winters examinou-lhe os bolsos; tudo o que ele tinha eram algumas fotografias e a ponta de uma bisnaga de pão de centeio duro.
— Imagine só — Winters observou. — Nas primeiras horas da manhã, um soldado alemão sai para dar uma cagada, perde-se no bosque, atravessa nossas linhas, passa pelo posto de comando (PC) da companhia e acaba indo parar atrás do posto de comando do batalhão! Uma senhora linha de defesa aquela que estabelecemos naquela primeira noite!
Não foram somente os soldados alemães que se perderam nesse dia. O socorrista Ralph Spina e o praça Ed “Babe” Heffron voltaram a Bastogne para arranjar alguns suprimentos médicos. No posto de socorro, Spina conseguiu parte daquilo de que precisava (a 101ª já estava ficando sem suprimentos médicos, um problema grave). Os dois membros da Companhia E conseguiram uma refeição quente e, embora odiassem a idéia de afastar-se do fogão, com a noite chegando, partiram de volta para a linha.
Heffron sugeriu que pegassem um atalho através de um bosque. Spina aceitou a sugestão. Heffron seguiu na frente. De repente, ele caiu num buraco. Houve um grito de surpresa. Em seguida, ouviram uma voz soar alto por baixo de Heffron: — Hinkle,
Hinkle, ist das du?{55}
Heffron saiu rapidamente da trincheira e voltou correndo por onde viera, gritando: — Hinkle é o seu rabo, seu Kraut! — Ele e Spina conseguiram reorientar-se e acabaram achando o posto de comando da Companhia E.
(Spina, lembrando-se do incidente, disse: — Até hoje, toda vez que me encontro com Babe, pergunto a ele como Hinkle tem passado ou se ele o tem visto ultimamente.)
Os socorristas eram os soldados mais populares, respeitados e admirados na companhia. Suas armas eram kits de primeiros socorros; sua posição na linha de combate era qualquer lugar em que houvesse o chamado de socorro de um soldado ferido. O tenente Foley fez um elogio especial ao praça Eugene Roe.
— Ele estava lá quando se precisava dele, e como ele chegava “lá” ninguém sabia. Ele jamais foi reconhecido por sua bravura, pelo atendimento heróico que prestava aos feridos. Eu o indiquei para receber a condecoração de uma Estrela de Prata depois de um tiroteio devastador, no qual os feitos dele foram notáveis. Talvez eu não tenha usado as palavras corretas ou me expressado bem; talvez o tenente Dike não tenha aprovado a indicação, ou pode ser que ela tenha sido rejeitada ao longo do trâmite concessionário. Não sei. Tudo que sei é que, além dos que lutaram contra a neve e o frio e nos muitos ataques através de campos abertos e em bosques, se existe alguém que merece tal medalha, esse alguém era o nosso socorrista, Gene Roe.
Em 20 de dezembro, o que restou do 1º Batalhão do 506° e da Equipe Desobry se retirou de Noville e seguiu para a reserva. A Companhia E ficou aguardando um ataque que não veio; os prejuízos causados pelo 1º Batalhão foram tão grandes que os alemães lançaram seus ataques em outros setores do perímetro defensivo. A Companhia E sofreu bombardeios de artilharia e de morteiros, mas nenhum ataque de infantaria.
Em 21 de dezembro, nevou, neve suave, seca. E não parou: 15 centímetros, 30 centímetros. A temperatura caiu bem abaixo de zero, o vento aumentou, mesmo no bosque. Os soldados sentiam frio como jamais haviam sentido em suas vidas. Tudo que tinham como agasalho eram suas botas de pára-quedista e fardamento de batalha, com sua jaqueta de trincheira. Nada de meias de lã, nada de longas ceroulas. Alguns mensageiros foram até Bastogne e voltaram com sacos de farinha e lençóis, que agasalhavam um pouco e serviam como camuflagem. Nas trincheiras e nos postos avançados, os combatentes envolviam o corpo em cobertores e enchiam as botas de estopa. A estopa sorvia a neve, as botas ficavam encharcadas, as meias umedeciam, o frio chegava até os ossos. Tremer de frio era tão comum quanto respirar. Os soldados pareciam as tropas de George Washington em Valley Forge, à exceção do fato de que o inimigo estava atirando contra eles, de que não tinham cabanas e de que não podiam nem
pensar em ter fogueiras para se aquecer.{56}
O coronel Ralph Ingersoll, oficial do serviço de inteligência do I Exército, nos fala do frio penetrante: — Num giro de viatura pelas Ardenas, usei roupas íntimas de lã e um uniforme também de lã, um macacão e uma jaqueta de campanha das unidades blindadas com punhos de elástico, uma suéter, um cachecol, uma capa de campanha impermeável e densamente forrada, dois pares de grossas meias de lã e botas de combate com galochas por cima — e não consigo lembrar-me de ter me sentido agasalhado.
Para os membros da Companhia E, sem meias decentes e galochas, com os pés sempre frios e úmidos, o pé-de-trincheira tornou-se um problema rapidamente. O cabo Carson lembra-se de que lhe haviam ensinado que o pé-de-trincheira podia ser evitado fazendo-se massagem nos pés. Assim, em certa ocasião, ele tirou as botas e começou a massageá-los. Nisso, o inimigo disparou um projétil que atingiu uma árvore cujos galhos ficavam acima de sua trincheira. Lascas de madeira rasgaram-lhe os pés e perfuraram sua coxa. Ele foi evacuado para Bastogne.
No hospital montado na cidade, “olhei em volta e jamais vi tantos homens feridos. Chamei um socorrista e disse a ele: ‘Ei, por que temos tantos feridos aqui? Ninguém está sendo evacuado?’”
— Você não soube? — respondeu o socorrista.
— Não soube de nada.
— Eles nos cercaram — esses coitados.
O general McAuliffe providenciou para que os feridos tivessem bebida alcoólica para aliviar-lhes o sofrimento. Um socorrista deu a Carson uma garrafa de crème de menthe.
— Eu nem sequer sabia o que era aquilo, mas até hoje gosto de crème de menthe.
A Luftwaffe bombardeou a cidade à noite. Carson lembra-se de que ficou de quatro para se proteger da concussão e do que sentira por isso.
— Agradeço a Deus por aquele capacete. Eu já tinha tomado a metade daquele crème de menthe. Ficou tudo verde no meu capacete.
Durante a maior parte do tempo, tudo o que os membros da Companhia E tiveram para comer foram rações K, e apenas uma quantidade insuficiente delas tinha sido distribuída em Mourmelon. Os cozinheiros da companhia tentavam levar-lhes refeições quentes ao anoitecer, mas, quando chegavam às trincheiras, a comida estava fria. Elas consistiam, principalmente, de feijão-branco, que, de acordo com o sargento Rader, “causava ânsia de vômito que era difícil de controlar”. O cozinheiro Joe Domingus achou um pouco de manteiga e fubá, com os quais fez bolinhos fritos, que também chegavam às trincheiras duros como pedras por causa do frio. A tropa misturava com neve o conteúdo do pacotinho de limonada de suas rações K para fazer sobremesa.
Na linha de frente, os dias eram horríveis, e as noites, ainda piores. Os bombardeios não eram contínuos, os tiros de metralhadora feitos contra os americanos eram esporádicos, mas os atiradores de elite atuavam o dia inteiro. À noite, o silêncio sinistro era interrompido pelos enervantes e arrasadores morteiros do inimigo, seguidos pelos gritos dos feridos e de tomada de posições como preparativo para o lançamento de um ataque. Em seguida, o silêncio sinistro voltava a imperar.
A cada duas horas, os sargentos de pelotão acordavam dois combatentes na trincheira e os levavam até o posto de comando para render os soldados de serviço.
— As idas até o PC eram sempre sinistras — avalia Christenson. — Você olhava para todas as silhuetas com desconfiança, receoso de todos os ruídos. Relutante, você se aproximava do PC. As silhuetas dos combatentes em suas posições não permitem que os reconheçamos... São alemães? O suspense é sempre o mesmo... Por fim, você reconhece um capacete americano. Sentindo-se um tanto ridículo, mas também aliviado, você se vira e volta para a linha principal, apenas para repetir todo o processo duas horas depois.
Nas trincheiras, os soldados tentavam dormir um pouco, mas isso era entre difícil e impossível, em razão da exigüidade do espaço (geralmente, elas tinham 1,82 metro de comprimento por 60 centímetros de largura, com pouco mais de 90 centímetros ou 1,21 metro de profundidade, para dois soldados). Pelo menos, o fato de ficarem juntos ajudava os combatentes a se aquecer. Heffron e o praça Al Vittore conseguiram dormir a segunda noite inteira. Heffron acordou quando o praça Vittore jogou a pesada perna sobre o corpo dele. Quando Vittore começou a alisar o tórax de Heffron, este lhe deu uma cotovelada no estômago. Vittore acordou e exigiu um explicação para o que estava acontecendo. Quando Heffron começou a soltar o verbo nele, Vittore sorriu e disse que estivera sonhando com a esposa.
— Al — replicou Heffron —, não posso ajudá-lo, já que estou com botas de combate, calças de pára-quedistas e o casaco de campanha, e não consigo tirá-los.
Em outras trincheiras, a tropa conversava para aliviar a tensão. O sargento Rader e o praça Don Hoobler eram da mesma cidade, situada às margens do rio Ohio.
— Don e eu conversávamos a noite inteira sobre o lar, nossas famílias, pessoas e lugares, e nos perguntávamos o que estávamos fazendo num apuro como aquele.
Spina lembra-se de que conversava com o colega de trincheira sobre “política, sobre problemas mundiais e também sobre os problemas de nosso país. Desejosos de poder tomar um drinque ou comer uma refeição quente, de preferência nessa ordem. Conversávamos sobre o que faríamos quando voltássemos para casa, sobre uma viagem a Paris dali a algumas semanas, para a farra. Mas falávamos principalmente de casa”.
O sargento Toye, de volta do hospital, não gostava do silêncio noturno entre os intervalos dos ataques de morteiro. Para quebrar o silêncio, ele cantava. I’ll Be Seeing You era a favorita dele. Heffron dizia a ele que parasse com aquilo, pois os Krauts o ouviriam com certeza. Toye continuava a cantar. De acordo com Heffron, “Joe era muito mais soldado do que cantor”.
Ficar nas trincheiras da linha de combate era ruim; ficar no posto de observação (PO) era pior, mas participar de uma missão de patrulha à procura de combates era pior que tudo. No entanto, isso tinha de ser feito. Foi a incapacidade do VIII Corpo de Exércitos de realizar missões de patrulha agressivas, em razão de sua insuficiência de efetivo, que resultou na surpresa de 16 de dezembro, quando os alemães atacaram com uma força muito maior do que alguém entre os Aliados conseguira prever.
Em 21 de dezembro, o tenente Peacock enviou o sargento Martin a várias trincheiras do 1º Pelotão. Com todas elas abrigando um sargento e um cabo, Martin anunciava: — Quero que todos os graduados voltem para o PC — agora.
Os combatentes se reuniram. O tenente Peacock, o líder do pelotão, tenso como sempre, acabou com as reclamações: — Descansar. O batalhão quer que um pelotão participe de uma missão de patrulha, e nós fomos o pelotão escolhido — anunciou e fez uma pausa. Ninguém disse nada. Peacock prosseguiu: — Sabemos que os Krauts estão no bosque na frente de nossa LRP, mas ignoramos quantos eles são ou onde estão situados sua LRP e seus POs. Nossa missão será obter essas informações e fazer alguns prisioneiros, se possível.
Nisso, lançaram sobre ele uma saraivada de perguntas. — Qual o plano de ataque? — perguntou o sargento Christenson, líder do 1º Esquadrão.
— Como os esquadrões serão posicionados? — perguntou o sargento Muck, do esquadrão de morteiros.
— O que acontece quando perdemos contato naquele bosque? — indagou o sargento Randleman, líder do 2º Esquadrão.
Peacock não tinha resposta pronta. — Vocês saberão mais a respeito do que faremos quando alcançarmos o bosque — foi tudo em que pôde pensar para dar como resposta. “Filho da mãe”, pensou Christenson consigo mesmo. Vai ser outra operação confusa, sem o mínimo de informação.
— Partiremos às 13 horas — Peacock disse por fim.
“Merda”, pensou Christenson. “Estamos sendo liderados pelo Senhor Indecisão em pessoa; penetrar nas linhas alemãs sem um bom plano é um erro tático tremendamente grosseiro.” Mas, quando ele se juntou ao seu esquadrão, guardou seus pensamentos para si mesmo. Ele disse à tropa que pegasse munição e estivesse preparada para partir às 13 horas.
Às 12 horas, o 1º Pelotão recuou alguns metros da LRP e reuniu-se em torno do capelão Maloney, que tinha iniciado a comunhão. Ele anunciou que estava ministrando a remissão de pecados. Depois de dar a hóstia aos soldados que quiseram recebê-la, desejava-lhes “boa sorte”.
Pouco antes das 13 horas, o pelotão se reuniu no bosque atrás da LRP. De repente, Peacock olhou para Christenson “como um coelho assustado”. Ele não tinha ordens especiais para dar nem apresentou nenhum esclarecimento sobre um possível plano. Ele simplesmente anunciou: — É isso aí, pessoal, vamos lá.
O pelotão seguiu para a extremidade do flanco direito do batalhão, ao longo da estrada de ferro. Ele atravessou a posição da Companhia D e começou a avançar em direção aos alemães, com a estrada de ferro à direita e o bosque à esquerda. Seu avanço era lento, em coluna, com paradas freqüentes. Quando estavam a uns 200 metros além da LRP, Peacock chamou os graduados e lhes transmitiu suas ordens: cada um dos esquadrões deveria formar colunas de dois homens, ombro a ombro, despachar dois batedores na frente e seguir para o bosque até que o contato fosse feito.
O pelotão lançou-se rapidamente bosque adentro. Logo depois, as colunas perderam contato entre si, e os esquadrões, com os batedores. A neve estava fofa e não produzia ruído. O silêncio era total. Mas foi interrompido pela rajada de uma metralhadora alemã. O praça John Julian, batedor do 2º Esquadrão, foi atingido no pescoço, e o praça James Welling, batedor do 3º Esquadrão, também foi ferido.
Os operadores de metralhadora da Easy montaram suas armas e prepararam-se para revidar. O praça Robert Burr Smith, do 1º Esquadrão, abriu fogo, lançando uma rajada de metralhadora na direção da base de tiro do alemães. Quando fez uma pausa, os alemães revidaram, outra rajada. Nisso, Christenson chamou Martin aos gritos. Não houve resposta. Randleman. Também não. Peacock. Nada. A resposta que recebeu foi apenas mais disparos das armas alemãs.
“O 1º Pelotão foi dizimado!”, pensou Christenson. Ele gritou novamente. Bull Randleman avançou pelo bosque para responder-lhe. — Você viu Martin ou Peacock? — Randleman respondeu que não. Outra rajada de metralhadora entre as árvores.
— Temos que fazer algo — advertiu Randleman. Ele se juntou a Chris nas chamadas a Martin. Nenhuma resposta. — Vamos dar o fora daqui — Chris sugeriu. Bull concordou com ele. Eles deram a ordem à tropa e bateram em retirada para a estrada de ferro. Lá, encontraram Martin. Peacock e o restante do pelotão.
A missão de patrulha não tinha tido muito sucesso. O 1º Pelotão descobrira a LRP dos alemães e soube que os POs destes estavam escassamente guarnecidos e dispersos, mas ele havia tido uma baixa fatal (Julian) e uma por ferimento e não tinha conseguido fazer um prisioneiro. A unidade passou a noite tremendo de frio nas trincheiras, comendo feijão frio e bolinhos fritos, perguntando-se se o tempo melhoraria, de forma que a 101ª pudesse ser reabastecida por via aérea.
Os dias seguintes foram quase a mesma coisa. A Companhia E enviava missões de patrulha, e os alemães faziam o mesmo. Ataques ocasionais com morteiros. Fogo de metralhadora esporádico. Frio cortante. Suprimentos médicos inadequados. Comida fria e insuficiente. A tremedeira constante provocava gasto de energia, que não era reposta. Os soldados não tinham períodos de sono satisfatório. Os graduados quase não dormiam. A situação era de sobrevivência ou morte, e as reações eram lentas, em razão dos membros quase congelados.
A explosão de projéteis entre as árvores lançava uma chuva de lascas, galhos, troncos e metal sobre as trincheiras. Para proteger-se, a tropa tentou cobri-las com troncos de árvore, mas, já que não tinha machados, a tarefa era muito difícil. Um dos soldados resolveu o problema pondo um ou dois “presuntos” alemães sobre sua trincheira.
Contudo, o fato mais inquietante era a incapacidade da artilharia americana para revidar o bombardeio alemão ou anular as ações do inimigo. Os homens do PO da Companhia E ficavam observando com inveja os caminhões e tanques alemães chegar à linha de frente e depois se retirar, trazendo projéteis e comida, de que os americanos sentiam tanta falta. Em Bastogne, os americanos tinham muitas armas, inclusive obuses de 105 e 155 milímetros. Eles foram usados durante os primeiros dias do cerco, com disparos feitos em todas as direções, para deter as tentativas dos alemães de atravessar a LRP. Mas, lá pelo vigésimo terceiro dia, os americanos ficaram praticamente sem munição. Winters lembrou-se da ocasião em que lhe disseram que, da munição da única peça de artilharia que cobria o eixo formado pela estrada Foy-Bastogne — seu flanco esquerdo —, restavam apenas três projéteis. Eles estavam sendo poupados para o caso da necessidade de enfrentar um ataque de tanques alemães lançado pela estrada. Ou seja, nem a Easy nem o 2º Batalhão tinham apoio de artilharia. E isso num momento em que a munição dos membros da companhia chegou a ser reduzida a apenas seis projéteis por morteiro, uma cartucheira por fuzileiro e uma caixa de balas para cada metralhadora.
Porém, no dia em que a neve parou de cair e o céu clareou, C-47s lançaram suprimentos, medicamentos, comida e munição. A artilharia americana voltou a entrar em ação, reduzindo a atividade diurna dos alemães e aumentando o moral na LRP. Rações K foram distribuídas, juntamente com munição. Mas as balas calibre .30 para as metralhadoras leves e os M-1s eram insuficientes para a necessidade da tropa, e as 24.406 rações K bastaram apenas para um ou dois dias. Além disso, a quantidade de cobertores lançada não foi suficiente para agasalhar toda a tropa.
Os oficiais ficavam atentos a sinais de quebra da resistência física e psicológica. Quando Winters percebeu que o praça Liebgott estava no limite, levou-o de volta para o PC para torná-lo seu mensageiro. Isso deu a Liebgott uma chance para descansar e ficar livre da tensão reinante na LRP. “O fato de você ficar mesmo que a apenas 50 metros de distância da linha de frente fazia enorme diferença na tensão”, Winters escreveu.
A tentação de permanecer no posto quando uma patrulha partia em missão era muito forte; e ainda mais forte era a tentação de se apresentar no posto de socorro com pé-de-trincheira ou os pés e as mãos congelados, ou como um caso extremo de diarréia. “Se todos os combatentes que tinham uma justificativa legítima para deixar a LRP e voltar para o posto de socorro de Bastogne se houvessem aproveitado dessa situação”, Winters escreveu, “simplesmente não haveria linha de frente. Nós teríamos uma linha de postos avançados.”
Era grande também a tentação de sair definitivamente da guerra por meio de um ferimento auto-infligido. A luz do dia aparecia somente às 8 horas. E a noite vinha às 16 horas. Durante as 16 horas de noite, era impossível, naquelas trincheiras congelantes (que, aliás, encolhiam à medida que a noite avançava e o solo congelava e se expandia), manter longe do pensamento a idéia de quanto era fácil dar um tiro no próprio pé.
Um pouco de dor — não muito num pé tão gelado que não se podia sentir a presença dele — e depois a evacuação para Bastogne, para um posto de socorro aconchegante, comida quente, uma cama, a fuga.
Nenhum membro da Companhia E se deixou levar por essa tentação, tentação que todos eles tiveram. Embora um deles tivesse chegado, sim, a tirar as botas e as meias para sofrer ulceração nos pés e conseguir sair dali. Mas, quanto aos outros, ou eles saíam de lá de forma legítima, ou não saíam. “Quando um soldado sofria um ferimento grave o bastante para ser evacuado, geralmente ele ficava muito feliz, e nós ficávamos felizes por ele também — ele conseguia uma passagem de ida para o hospital ou até mesmo, talvez, uma passagem de volta para casa — vivo.
Quando um deles morria — parecia ‘muito tranqüilo’. Seu sofrimento terminava”, escreveu Winters.
Às primeiras luzes da manhã da véspera de Natal, Winters fez a inspeção de sua LRP. Ele passou pelo cabo Gordon, “com a cabeça envolta numa grande toalha e o capacete por cima. Walter estava sentado na beira de sua trincheira, atrás de sua metralhadora leve. Ele dava a impressão de que estava congelado, com o olhar fixo e perdido no bosque à frente. Eu parei e voltei o olhar para ele, e, de repente, me ocorreu: ‘Caramba! Gordon amadureceu! Ele é um homem!’”
Meia hora depois, às 8h30, Gordon fez um pouco de café. Ele guardava pó de café na caixa de sua granada de mão “e eu derreti a neve com meu pequeno fogão a gás e fiz um excelente café”. Quando ele começou a bebericar, o pessoal dos postos de observação chegou com a informação de que uma força alemã estava tentando infiltrar-se nas fileiras da Companhia E. Seu líder de esquadrão, sargento Buck Taylor, disse a ele que fosse “para a metralhadora”.
Gordon tirou a neve de sua arma e da caixa de munição posta ao lado da metralhadora e disse ao seu ajudante, o praça Stephen Grodzki, que olhasse firme, que prestasse atenção nos detalhes. De repente, ouviu-se o estampido de um fuzil alemão. A bala entrou no ombro esquerdo de Gordon e saiu pelo direito. Ela atingiu sua medula espinhal, e ele perdeu os movimentos do pescoço para baixo.
Ele caiu na trincheira.
— O caneco caiu junto comigo, e a bebida quente derramou-se em meu colo. Até hoje, vejo a fumaça subindo.
Taylor e Earl McClung foram à caça do atirador de elite que atingira Gordon. Eles o acharam e mataram. Shifty Powers estava na trincheira seguinte. Tal como Shames previra, ele havia se recuperado totalmente. Shifty era da Virgínia, homem das montanhas, parcialmente descendente de índios. Quando jovem, passava horas caçando esquilos. Ele conseguia perceber o menor movimento que fosse na floresta. De repente, ele viu um alemão numa árvore, ergueu seu M-1 e o matou.
Paul Rogers, o melhor amigo de Gordon, Jim Alley e outro membro do 3º Pelotão correram até a trincheira em que Gordon caíra. Eles o tiraram de lá e o arrastaram de volta para o bosque, tal como, nas palavras de Gordon, “se um gladiador estivesse sendo tirado da arena”. Num lugar protegido, eles o deitaram para examiná-lo. O socorrista Roe apareceu, deu uma olhada rápida e disse que o ferimento era grave. Roe aplicou morfina em Gordon e fez os preparativos para administrar plasma.
O sargento Lipton apareceu também para ver o que podia fazer.
— O rosto de Walter estava pálido como o de um defunto, e seus olhos estavam fechados — contou Lipton. — Ele parecia mais morto do que vivo.
Fazia tanto frio que Lipton teve a impressão de que o plasma fluía muito lentamente. Diante disso, ele pegou o frasco de Roe e o pôs debaixo do braço, por dentro das roupas, para aquecê-lo.
— Quando olhei para o rosto de Walter, ele abriu os olhos de repente. “Walter, como se sente?”, perguntei. “Lipton”, ele disse num tom de voz surpreendentemente forte, “você está pisando na minha mão.” Pulei para trás, olhando para baixo. Ele estava certo. Eu estava pisando na mão dele. Um jipe, chamado pelo rádio, veio e evacuou Gordon para o posto de socorro.
O ataque alemão continuou, intensificou-se e, finalmente, foi rechaçado, com pesadas baixas, graças à combinação do fogo de fuzil e metralhadora, morteiros e granadas da Easy, habilmente apoiado pela artilharia. Depois, Lipton contou 38 corpos de alemães mortos no bosque. O tenente Welsh foi ferido e evacuado.
Na tarde da véspera de Natal, os combatentes receberam os votos de feliz Natal do general McAuliffe. ‘“Que há de feliz em tudo isto?”, vocês perguntam”, ele disse na abertura do discurso. “Simplesmente isto: nós detivemos tudo que lançaram contra nós a partir do Norte, Leste, Sul e Oeste. Temos a identificação de quatro divisões de Panzer, duas divisões de infantaria e uma divisão aerotransportada alemãs... Os alemães nos cercaram, seus rádios anunciaram a nossa derrocada. O comandante deles exigiu nossa rendição nos seguintes e arrogantes termos.” (Seguiu-se a mensagem de quatro parágrafos “... ao comandante dos Estados Unidos da América do Norte na cidade sitiada de Bastogne” do “comandante alemão”, exigindo uma “rendição honrosa para poupar de aniquilação as tropas americanas sitiadas”, datada de 22 de dezembro.)
McAuliffe disse ainda no discurso: “O comandante alemão recebeu a seguinte resposta: ‘22 de dezembro de 1944. Ao comandante alemão: NECA! O Comandante Americano.’
Estamos dando ao nosso país e aos nossos entes queridos em casa um valioso presente de Natal, e ter o privilégio de participar deste valoroso feito de armas é o
mesmo que dar a nós mesmos um Feliz Natal. A. C. McAuliffe, comandante.”{57}
Os combatentes da linha de frente não estavam tão otimistas quanto o general McAuliffe. Eles comeram feijão-branco frio na ceia de Natal, enquanto o estado-maior da divisão teve uma ceia de peru, servido numa mesa com pano, uma pequena árvore de
{58}
Natal, garfos, facas e pratos.
Na LRP, o sargento Rader estava se sentindo péssimo com a idéia de pôr soldados de serviço no PO na véspera de Natal. Seu amigo de infância, o cabo Don Hoobler, lhe fez a seguinte sugestão: — Por que não assumimos aquele posto esta noite e deixamos a tropa dormir? Podemos dar isso a ela como uma espécie de presente de Natal. — Rader concordou com ele.
A ceia de Winters nessa noite consistiu de “cinco grãos de feijão-branco e um caneco de caldo de carne frio”.
Quando anoiteceu, eles foram para o PO. Estava muito frio lá, com um vento cortante, que dava a impressão de que a temperatura estava bem abaixo de zero.
— Passamos a noite falando de nossos lares — conta-nos Rader —, de nossas famílias, e sobre como elas estavam passando o dia de Natal. Don tinha certeza de que todos estavam numa igreja rezando por nós.
No dia de Natal, os alemães voltaram a atacar, mas, felizmente para a Companhia E, no outro lado de Bastogne. No dia seguinte, o III Exército, comandado por Patton, com o tenente-coronel Creighton Abrams, do 37° Batalhão de Tanques, na vanguarda, rompeu as fileiras alemãs. A 101ª não estava cercada mais; ela tinha agora contato terrestre com o depósito de suprimentos americano. Pouco tempo depois, os caminhões começaram a chegar com quantidades adequadas de comida, medicamentos e munição. Os feridos foram evacuados para a retaguarda.
O general Taylor voltou dos Estados Unidos. De acordo com Winters, ele inspecionou as linhas “muito animadamente. Suas instruções antes de partir foram: ‘Cuidado com aquele bosque lá na frente!’ Que merda ele acha que ficamos fazendo quando ele estava em Washington?”
(Winters tinha a sua opinião a respeito de Taylor. Numa entrevista, ele observou:
— ... e aí tivemos a visita do general Taylor, de volta de sua folga natalina em Washington...
— Isso não é justo. É? — interpus. — Bem, ele recebeu ordens para voltar e apresentar relatórios...
— Não quero ser justo — tornou Winters, cortando-me a palavra.)
A ruptura do cerco permitiu a chegada de jornais. Os membros da 101ª souberam que se haviam tornado um mito durante a batalha. Na história da divisão, constava que o mito “foi alimentado pela universalidade da imprensa e do rádio, de 10 mil mapas diários mostrando um foco de resistência em meio à contramaré humana da pior debandada de militares americanos dos tempos modernos. Ele foi alimentado também por uma nação preocupada e desejosa de encorajamento e esperança; durante várias manhãs, essa foi a perspectiva encorajadora que se lhes deparou aos olhos. E o Ministério da Guerra, mais cedo do que de costume, conseguiu identificar a divisão que estava dentro da cidade. Portanto, antes mesmo que o sanguinário mês dessa unidade na cidade terminasse, para o mundo os membros da 101ª se tornaram os Batidos Bastardos do Baluarte de Bastogne. Todos os elementos dramáticos estavam presentes ali — coragem em meio a sofrimento físico, frio e uma insuficiência de suprimentos quase fatal; uma exigência de rendição e uma carta de recusa com quatro letras; e amizade sincera... Coragem e amizade combinaram-se para formar um conjunto que os alemães
não conseguiram vencer.”{59}
Logicamente, o Comando de Combate B da 10a Divisão Blindada também estava em Bastogne, mas não foi identificado pela imprensa. E, obviamente, a 82ª DIA travou também uma batalha árdua e desesperada no setor norte das Ardenas, batalha que foi, no mínimo, tão significativa quanto a que havia sido travada em Bastogne. Mas ela não sofreu cerco e jamais ganhou a publicidade que a 101ª recebeu.
Ainda assim, a 101ª teve do que se queixar. A história da Batalha das Ardenas que se narra hoje dá conta de que George Patton e seu III Exército partiram em socorro da sitiada 101ª, como se ele fosse a cavalaria mobilizada para salvar colonos encurralados em seu anel de carroças. Nenhum membro da 101ª jamais concordou com a idéia de que a divisão precisara ser socorrida!
Com o rompimento do cerco, os membros da 101ª esperavam voltar para Mourmelon e desfrutar a bajulação do mundo e talvez comemorar o Ano-Novo em Paris. Mas a façanha heróica em Bastogne tinha sido um ato defensivo; para vencer a guerra, os Aliados teriam de retomar a ofensiva; os alemães haviam saído de suas posições físicas da Linha Siegfried e ficaram vulneráveis; Eisenhower queria aproveitar-se disso. Mas o problema de insuficiência de tropas nos meados de dezembro continuou inalterável no fim do mês. A dura realidade era que os alemães superavam numericamente os Aliados na frente de batalha da Europa Ocidental. Os Estados Unidos não tinham formado uma quantidade suficiente de divisões de infantaria para combater numa guerra com duas frentes. Isso era conseqüência da decisão tomada pelo governo antes da guerra de ser generoso com a liberação do uso de mão-de-obra na indústria e na agricultura e de abster-se de recrutar pais de família. Havia também escassez de projéteis de artilharia, provocada por uma decisão tomada em setembro — quando se achava que a guerra na Europa terminaria numa questão de semanas — de rebaixar a importância da produção de projéteis na lista de prioridades industriais. Para passar a uma ofensiva geral, tal como decidira fazer, Eisenhower precisava da 101ª e da 82ª na linha de frente.
Era uma questão de tempo. Eisenhower queria atacar antes mesmo da véspera do Ano-Novo, mas Monty, comandando as forças (todas americanas) no setor norte das Ardenas, mostrou-se indeciso, estremeceu e apresentou pretextos. Assim, não houve o ataque.
Para a Companhia E, isso significou a necessidade de ficar na linha. As condições melhoraram um pouco — a tropa recebeu galochas e ceroulas, e, de vez em quando, comida quente. Mas o frio continuou, a neve não foi embora, os alemães atacaram a companhia com fogo de morteiro e artilharia diariamente, missões de patrulha tiveram de ser montadas, e patrulhas alemãs rechaçadas.
Em 29 de dezembro, a Companhia E encontrava-se no mesmo bosque que ocupara durante nove dias. Com o tempo claro, a tropa em serviço no PO conseguia ver Foy e Noville lá embaixo, separadas por campos abertos e ao longo da estrada de cerca de 2 quilômetros ao norte.
Shifty Powers deixou um PO e foi apresentar um relatório ao primeiro-sargento Lipton. — Sargento — ele disse —, há uma árvore em Noville que não estava lá ontem. — Powers não tinha binóculos, mas Lipton sim. Ao usá-lo para verificar o que Powers relatara, Lipton não viu nada de estranho, mesmo depois que Powers lhe indicou com exatidão o local.
Um das razões pelas quais Lipton teve dificuldade para localizar a árvore era que ela não estava sozinha; havia outras ao longo da estrada naquela área. Lipton ficou em dúvida, mas Powers insistia em dizer que ela não estava lá no dia anterior. Diante disso, Lipton estudou mais detidamente o local com os binóculos. E acabou vendo certo movimento perto da árvore e depois mais algum debaixo de outras árvores ao redor dela. Foi quando viu canos de canhões — aparentemente, de 88s, já que estavam mais voltados para o céu e que os 88s, além de serem usados como peça de artilharia terrestre, eram a arma antiaérea alemã mais comum. Lipton percebeu que os alemães estavam montando uma bateria antiaérea entre as árvores e haviam usado a árvore que Powers avistara como parte da camuflagem deles.
Lipton pediu a presença de um observador de artilharia avançado pelo rádio. Quando ele chegou, viu o que Powers e Lipton tinham visto. Ele pegou o rádio e entrou em contato com a guarnição de uma bateria de canhões de 105 milímetros em Bastogne. Quando fez a descrição do alvo, não teve o menor problema em obter autorização para lançar contra o inimigo todo o fogo possível da bateria, apesar da pouca quantidade de munição de projéteis de artilharia.
Para lograr um tiro certeiro, o observador usou seu mapa, conseguiu localizar a posição colimada e solicitou um disparo contra ela, que ficava a cerca de 300 metros das árvores, à direita. Um canhão fez o disparo e acertou o alvo. Depois, o observador voltou a atenção para um alvo a 300 metros à esquerda e pediu que todos os canhões da bateria assestassem a mira baseando-se nas mesmas coordenadas. Quando recebeu o informe de que estava tudo pronto, solicitou que todos os canhões fizessem vários disparos.
Os projéteis começaram a explodir profusamente ao redor dos alemães. Lipton ficou observando com os binóculos os esforços desordenados dos alemães para sair de lá, procurando salvar o que fosse possível de suas armas e ajudando a levar os feridos para a retaguarda. Uma hora depois, o lugar era um deserto.
— Isso tudo aconteceu — comentou Lipton, lembrando-se da ocasião — porque Shifty vira uma árvore situada a pouco mais de 1,5 quilômetro, mas que, no dia anterior, não estava lá.
A bateria de Germans 88 estivera sendo montada como parte da renovada pressão que os alemães estavam fazendo contra Bastogne. Depois de fracassados em seu plano original de travessia do rio Mosa, os alemães precisavam de Bastogne e da rede de estradas para manter sua posição nas Ardenas e estar preparados para a necessidade de uma retirada. Eles lançaram ataques furiosos contra o estreito corredor que conduzia à cidade a partir do Sul e aumentaram a pressão em todas as direções. No fim do ano, oito divisões alemãs, inclusive três divisões das SS Panzer, estavam combatendo na região de Bastogne. Patton e seu III Exército estavam atacando ao Norte, em direção a Bastogne; o I Exército Americano, sob o comando do general Courtney Hodges (que estava sob as ordens de Monty nessa época), tinha sido designado para lançar um ataque ao sul “a qualquer momento”. Se lograssem estabelecer contato a tempo, conseguiriam deter os alemães no saliente das Ardenas. Se os alemães conseguissem deter o avanço de Patton e tomar Bastogne, assumiriam o controle da rede de estradas, que lhes facultaria a fuga.
Esse era o quadro da guerra na véspera do Ano-Novo. À meia-noite, para comemorar a chegada do ano da vitória e para demonstrar quanto as coisas tinham mudado em Bastogne nos últimos dias, todos os canhões de Bastogne e todos os morteiros da LRP combinaram seu poder de fogo para lançar uma saraivada de projéteis de grande poder de destruição contra os alemães.
O cabo Gordon, juntamente com os mais de uma dúzia de feridos da Easy, foram evacuados para a retaguarda. Outros sete membros da companhia foram enterrados em covas rasas no bosque. A Easy tinha posto 121 soldados e oficiais nos caminhões na viagem de volta para Mourmelon 12 dias antes. Sua força de combate tinha sido reduzida para menos de cem soldados.
Gordon foi levado de ambulância para Sedan e depois transferido de avião para a Inglaterra, e, de lá, para um hospital no País de Gales. Ele estava intensamente sedado, imóvel, em estado alucinatório, e tinha sido engessado da cintura até o topo da cabeça; somente o rosto ficou sem gesso. Mas o gesso que o mantinha imobilizado impedia o tratamento de seus ferimentos, causados pela bala que entrou e saiu pelas costas dele. Por isso, o gesso foi tirado e substituído por um aparelho chamado prótese de tração cervical de Crutchfield. O aparelho era posto no paciente por meio de perfuração de dois pontos transversalmente opostos nos lados da cabeça, nos quais era inserido depois um par de pinças de aço em forma de arco. Um cordão preso a polias produzia tração e, ao mesmo tempo, impedia qualquer movimento, sem a necessidade de engessamento. Ele ficou deitado de costas, olhando para o teto, durante seis semanas. Paulatinamente, começou a voltar a sentir um pouco as extremidades dos membros.
O médico, major M. L. Stadium, disse a ele que, se o ângulo de trajetória da bala tivesse sido dois ou três graus maior em relação a ele, não teria sido atingido; em caso contrário, o ferimento teria sido fatal. Gordon achou que teve “sorte, muita sorte. O ferimento de um milhão de dólares”. Somente um combatente que esteve na linha de batalha em Bastogne poderia falar desse ferimento com essas palavras.