Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 12 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 12

O Grau de Resistência

 

BASTOGNE

1°-13 de janeiro de 1945

 

Durante o cerco, a Companhia E ficara na defensiva, segurando o inimigo. A maior desvantagem de terem ficado na defensiva num bosque foi o fato de que os pinheiros e seus galhos aumentavam a capacidade de destruição dos projéteis de artilharia. Mas, sob outros aspectos, o fato de terem ficado na defensiva proporcionou-lhes algumas vantagens decisivas. Perto do Ano-Novo, a neve tinha chegado a pouco mais de 30 centímetros de altura em alguns lugares, e sua superfície congelara, tornando-se escorregadia. Mesmo os mínimos movimentos da infantaria eram feitos sob a mais penosa das condições. Para avançar, o soldado tinha de chafurdar através da neve, além de ter de curvar-se e desviar-se para evitar a derrubada de neve de galhos e, com isso, revelar sua posição. A visibilidade no solo limitava-se a alguns metros. O combatente tinha pouco contato com a tropa à esquerda e à direita e não conseguia ver a posição de uma metralhadora ou de uma trincheira até que estivesse praticamente em cima delas. Não havia estradas, casas ou pontos de referência no bosque. Desse modo, uma força em avanço informava sua posição pelo rádio apenas com base em estimativas. Os esquadrões em operação de ataque tinham de mover-se orientando-se apenas por meio de bússola, até que topassem com alguém, amigo ou inimigo. Caixas de munição eram carregadas para as trincheiras nos serviços de suprimento, como sempre, mas, nesse caso, a tropa não tinha o menor sentido de direção.

A realização de ataques em campos de pasto abertos era também assustadora. Havia apenas uma estrada, que formava o eixo Noville-Foy- Bastogne e estava coberta por uma camada de neve, com outra, de gelo fino e transparente, por baixo. Os Germans 88 tinham a mira assestada na estrada, que estava minada também. Mas a alternativa à opção de atacar pela estrada era atravessar os campos, que não ofereciam nenhuma proteção.

O bosque cultivado que tinha servido como abrigo à Companhia E durante 12 dias era chamado de Bois Jacques. Ele se estendia por alguns quilômetros à direita (Leste) da companhia e avançava para além da estrada de ferro. À frente dela (Norte), um campo aberto e inclinado descia até a vila de Foy. Os alemães tinham o controle do setor nordeste do Bois Jacques. A posição deles tinha a forma de cunha voltada para as fileiras da 101ª; era o ponto mais próximo de Bastogne ocupado por eles, a apenas 3 quilômetros de distância da cidade. Antes que a 101ª pudesse empreender uma ofensiva, seus membros teriam de expulsar os alemães do Bois Jacques e tomar Foy. O objetivo seguinte seria o altiplano ao redor de Noville.

O Ano-Novo foi tranqüilo, mas, à noite, o comando da divisão incumbiu o 2º Batalhão do 506° da tarefa de atacar e varrer o inimigo do Bois Jacques, e alguns aviões alemães lançaram bombas contra a Companhia E. O sargento Toye foi atingido por um estilhaço no pulso. Esse foi seu terceiro ferimento; ele tinha sido ferido na Normandia e, depois, na Holanda. Como fosse um ferido em condições de andar, o socorrista o enviou ao posto de socorro para ser atendido. Antes de partir, Toye informou isso ao sargento Malarkey, que disse, antes de ele ir: — Seu filho da mãe sortudo!

Para realizar o ataque, ao amanhecer de 2 janeiro o batalhão deslocou-se para a estrada de ferro, à direita; o 1º Batalhão, então na reserva do regimento, ocupou a antiga posição do 2º Batalhão. O 2º Batalhão formou linhas de escaramuça no eixo rodoviário Foy-Bizory, ficando de frente para o bosque denso, a Nordeste, aguardando a ordem para partir. (Esse foi o mesmo lugar do qual o 1º Pelotão partira em missão de patrulha em 22 de dezembro.) Um batalhão do 501° ficou no flanco direito do 2º Batalhão. Ele faria ataques como unidade de apoio.

Winters deu o comando: — Vamos lá! — A tropa iniciou o avanço. O movimento através daquele bosque denso era um processo exaustivo na melhor das circunstâncias, ainda mais quando se carregavam fuzis, metralhadoras, morteiros, granadas, facas, munição e rações. O esforço para avançar através dele provocava suor intenso, o que não era problema até que o soldado parasse; depois de alguns minutos de parada, porém, a umidade por baixo das roupas podia gelar o corpo até os ossos.

Logo depois da entrada no bosque, os pelotões perdiam o contato entre si, ou até mesmo os esquadrões e, às vezes, um soldado com outro. A neve e as árvores abafavam todo ruído. Com isso, até mesmo o barulho metálico de equipamentos, sinal de que os combatentes de ambos os lados estavam avançando com você, era inaudível. A sensação de isolamento combinava-se com o estado de tensão e criava uma penosa expectativa de uma reação inevitável do inimigo.

De repente, tiros de metralhadora diretamente à frente da Companhia E caíram sobre ela. Simultaneamente, projéteis de artilharia de apoio americana começaram a sibilar por sobre a cabeça da tropa. A artilharia alemã revidou imediatamente, mas não como fogo de contrabateria; os projéteis alemães estavam caindo entre os pára-quedistas e sobre eles. Tão rapidamente quanto haviam começado, os disparos cessaram. Segundo a análise do sargento Christenson, “a densidade do bosque causou perplexidade e confusão entre os Krauts, cuja visibilidade não era melhor do que a nossa. Tivessem eles sabido que dois batalhões estavam avançando em direção à posição deles em gigantescas linhas de escaramuça, o bombardeio e o fogo de metralhadora teriam sido muito mais intensos”.

O avanço foi retomado. Novamente, iniciaram-se os disparos de metralhadora quando os elementos da vanguarda começaram a topar os POs dos alemães. A artilharia americana voltou a atirar, lançando uma rajada após a outra. O tiro de revide dos alemães intensificou-se. Ouviam-se gritos de “Fui atingido!” e de pedidos da ajuda de socorristas em toda a linha de ataque. Apesar disso, o avanço continuou. Os combatentes lançavam granadas e disparavam seus fuzis contras os alemães em retirada pelo bosque.

Depois de avançar entre 800 e 900 metros (os membros da Companhia E chamam essa ocasião de “ataque de mil metros”), os combatentes chegaram a um estrada que atravessava o bosque e cuja pavimentação era com toras de árvore. A maioria deles parou ali, mas outros seguiram alguns metros bosque adentro pelo outro lado para verificar se havia alemães escondidos lá. Christenson estava de pé na estrada com alguns de seus homens do 1º Pelotão quando, de repente, à direita, viu a mais improvável das cenas: um soldado alemão, montado a cavalo, saindo do bosque.

O fato é que, quando os americanos o viram, ele os viu também. Ele virou o cavalo às pressas e tratou de retirar-se. O cabo Hoobler fez três disparos rapidamente, sorriu e começou a pular, gritando: — Eu o acertei! Acertei! — Por outro lado, Christenson percebeu que nutrira no íntimo o estranho desejo de que o cavaleiro conseguisse fugir.

Do outro lado da estrada, à esquerda, o praça Ralph Trapazano gritou: — Ei, Chris, peguei um alemão. — Christenson seguiu na direção dele, avançou 5 metros além do lugar em que estava e entrou no bosque, com o seu fuzil em posição de atirar e sem o pino de segurança. Ele se aproximou do alemão pelo lado direito. — Deparei um soldado das SS muito forte, vestindo a jaqueta de camuflagem, com a submetralhadora na mão esquerda e os braços abaixados. Mas sua arma estava apontada para Trap. Este estava deitado de costas com o M-1ªpontado para o peito do Kraut. Não havia o menor sinal de medo no rosto do soldado das SS.

Christenson apontou seu M-1 para o peito do alemão e disse a ele, em seu alemão aprendido na escola, que largasse a arma. O alemão olhou Christenson nos olhos e viu que ele tinha mesmo a intenção de atirar. Depois, olhou para o fuzil de Christenson e notou que ele estava começando a pressionar o gatilho. Nisso, ele largou a submetralhadora e levantou as mãos.

— Na próxima vez em que você ficar frente a frente com um filho da mãe arrogante como este, atire no maldito — Christenson sugeriu a Trapazano.

Até então, a Companhia E teve sorte. À sua direita, o 501° sofrera uma investida do inimigo quando estava atacando. O 26° Regimento de Granadeiros das SS Panzer da 12ª Divisão das SS (Hitlerjugend) atacou-o com tanques, artilharia e infantaria, causando-lhe muitas baixas. No flanco esquerdo da Easy, tanques e infantaria da 9a Divisão das SS arremeteram contra as outras companhias do 502°. Mas, no setor da Easy, as coisas estavam relativamente tranqüilas.

A noite estava chegando. Espalhou-se pelas fileiras a ordem de entrincheiramento. A tropa era fustigada por fogo esporádico de metralhadoras e barragens de artilharia ocasionais, o que a induziu a cortar galhos das árvores mais próximas e a cobrir as trincheiras com eles. Isso era perigoso e difícil, pois implicava a necessidade de o soldado se expor. Quando tiros de metralhadora ou de artilharia recomeçavam, estourava uma corrida louca e desesperada em demanda das trincheiras, com a adrenalina correndo a mil pelo corpo dos combatentes. Quando terminava de abrir sua santa e protetora trincheira, o soldado estava exausto, com as roupas e o corpo encharcados de suor. Então, ele se sentava, para se refrescar, e o frio aumentava, aumentava, até ele começar a tremer.

— Quando você ficava convicto de que seu corpo não podia suportar mais — comentou Christenson —, descobria que ele podia.

Hooble ficou exultante depois que matou o cavaleiro. Ele ia de posição em posição, com as mãos no bolso, procurando matar o tempo com qualquer um que estivesse disposto a conversar. No bolso direito, trazia uma Luger que tinha recolhido do campo de batalha. De repente, um tiro. Ele disparou a Luger acidentalmente. A bala perfurou sua coxa direita e rompeu a artéria principal. Tomado de enormes dores, Hoobler ficou rolando no chão, pedindo ajuda aos gritos. O praça Holland, o socorrista do 1º Pelotão, tentou fazer um curativo no ferimento. Dois soldados carregaram Hoobler até o posto de socorro, mas ele morreu logo depois de chegar lá.

A noite era de muito frio e aparentemente interminável. A luz do dia chegou lentamente. Não havia fogueira. O sargento Martin apareceu caminhando entre as fileiras do 1º Pelotão. Embora tivesse a reputação de alguém que raramente erguia o tom de voz e jamais dava ordens com rispidez, dessa vez ele disse asperamente, como que mordendo as palavras: — Quero que todos os graduados do 1º Pelotão estejam no PC em dez minutos.

Os sargentos Rader, Randleman, Muck e Christenson e os cabos Robert Marsh e Thomas McCreary reuniram-se no PC. Martin sugeriu que todos se sentassem. Os tenentes Stirling Horner, Peacock e Foley estavam lá. Horner falou primeiro: — Ao seu comandante de pelotão, o tenente Peacock, foi concedida uma licença de 30 dias nos Estados Unidos. Ele parte hoje. — Ele explicou que o relações-públicas do QG da divisão achara que seria uma grande idéia enviar aos Estados Unidos um oficial de cada um dos regimentos envolvidos na defesa heróica de

Bastogne para participar de uma campanha de venda de bônus de guerra e outros objetivos publicitários. O coronel Sink decidiu realizar a seleção fazendo um sorteio. O capitão Nixon ganhou, e Peacock foi o segundo sorteado no 506°. Nixon disse que já tinha visitado os Estados Unidos e que não queria ir. Com isso, Peacock foi no lugar dele.

Todos voltaram os olhos para Peacock, que disse, gaguejando: — Tenho certeza de que ganhei esta licença por causa do grandioso trabalho que vocês fizeram na Holanda e aqui, e a única coisa que posso dizer é obrigado.

O sargento McCreary subiu na tribuna, correu até Peacock, apertou-lhe a mão efusivamente e disse: — Puxa, fico contente em saber que você vai para casa, tenente! Esta é a melhor notícia que tivemos depois que partimos de Mourmelon.

Sem entender nada, Peacock corou. Ele disse que não sabia o que dizer, que elogios vindos de um dos soldados eram os maiores que ele podia receber. Os sargentos sorriram uns para os outros. Eles estavam sentindo-se tão felizes quanto Peacock, como se fossem eles mesmos que estivessem indo. Os graduados achavam que ele tinha carregado sua cruz pela Holanda e pelas Ardenas. — Ninguém se esforçou mais do que Peacock — declarou Christenson —, mas era um serviço para o qual ele não fora feito.

Peacock anunciou que o tenente Foley assumiria o comando do pelotão. Depois, ouviram dele um animado “Boa sorte a todos vocês”, e ele se foi.

Quando Peacock partiu, o capelão John Maloney levou Joe Toye de volta do posto de socorro de Bastogne em seu jipe para a linha de frente. Ele deixou Toye à beira da estrada. Quando Toye começou a atravessar o campo em direção à linha, Winters o viu, com o braço numa tipóia.

— Aonde você está indo? — Winters perguntou. — Você não precisa voltar para a linha.

— Quero ficar com os meus amigos — Toye respondeu e continuou caminhando.

À tarde, dia 3 de janeiro, Winters tirou da vanguarda o 2º e 3º Pelotões, além de uma equipe de bazuca subordinada à 10a Divisão de Blindados. Ele deixou o 1º Pelotão, subordinado temporariamente à

Companhia D, que, como a maioria das companhias da 101ª, tinha perdido 50% ou mais de seu efetivo e precisava ajudar a manter a LRP. O 2º e 3º Pelotões começaram a marchar de volta para sua antiga posição no setor do bosque voltado para Foy.

Eram cerca de 15h30. As unidades da vanguarda resolveram tomar um atalho através de um campo aberto para chegar às trincheiras antes de anoitecer. As outras unidades seguiram o mesmo caminho. Mas os alemães as viram.

Quando a tropa entrou no bosque, percebeu imediatamente que os alemães tinham assestado a mira de sua artilharia na posição dela. Havia buracos abertos pela explosão de projéteis e galhos arrancados e despedaçados das árvores em meio às trincheiras. Os buracos eram grandes e indicavam o emprego de artilharia pesada, provavelmente canhões de 170 milímetros. Ninguém teve de dar ordens; todos os combatentes começaram a trabalhar imediatamente para reforçar a cobertura de suas trincheiras.

O sargento Lipton pegou um machado e correu até as árvores menores mais próximas, situadas a 50 metros de sua trincheira. De repente, ouviu canhões alemães abrir fogo a certa distância. Não houve tempo para voltar para sua trincheira. Assim, ele pulou dentro de uma pequena trincheira que alguém tinha começado a abrir e depois abandonara. Ela era tão rasa que, mesmo com Lipton deitado colado ao chão, a cabeça dele ficou acima do nível do solo. Desse modo, ele viu os primeiros projéteis explodir entre as árvores.

O barulho era ensurdecedor e terrível. O solo estremecia e elevava-se, como se num terremoto. Os soldados da equipe de bazuca não tinha trincheiras; dois deles foram mortos imediatamente, e outros mais se feriram.

O sargento Joe Toye estava em campo aberto, bradando ordens a seus homens para que procurassem proteger-se.

— Eles sempre diziam que, se você conseguisse ouvir os projéteis chegando, conseguiria sair-se bem — relatou o sargento. — Eu não ouvi o projétil chegar. — Ele explodiu logo acima dele. Estilhaços, lançados em todas as direções, arrancaram sua perna direita e o atingiram no estômago, no peito e em ambos os braços. (O estilhaço que lhe penetrou a região do tórax foi removido depois em duas operações separadas, na última das quais ele foi extraído pelas costas.)

O bombardeio cessou tão subitamente quanto começara. Tinha sido o pior bombardeio sofrido pela Easy na guerra. No bosque inteiro, ouviam-se os combatentes pedindo a assistência de um socorrista. Lipton voltou correndo para a trincheira, a fim de pegar seu fuzil, movido pela expectativa de sofrer um ataque de infantaria. De repente, ouviu alguém gemendo na trincheira ao lado; uma árvore com 40 centímetros de diâmetro tinha caído sobre ela. Lipton tentou removê-la, mas não conseguiu. A ajuda chegou. Os soldados escavaram em torno da árvore, e o praça Shep Howell saiu de lá sorrindo.

Toye pediu ajuda; ele queria que alguém o arrastasse para dentro de sua trincheira. O sargento entrou na trincheira de Toye primeiro e depois começou a puxá-lo para dentro.

O bombardeio recomeçou. Os alemães tinham planejado bem. Como haviam previsto, a pausa nos disparos tinha feito os americanos sair das trincheiras para ajudar os feridos. Inopinadamente, um projétil explodiu acima de Guarnere. Estilhaços atingiram-lhe a perna direita, retalhando-a. Alguns minutos depois, o bombardeio cessou.

Lipton saiu da trincheira. O tenente Dike gritou o nome dele.

— Ainda posso ouvir a voz possante dele — relembra-se Lipton. — Ele estava a uns 25 metros de distância, sem o capacete e desarmado. “Sargento, Lipton”, ordenou-me, em voz alta, “organize as coisas aqui, que vou buscar ajuda.” Com isso, partiu.

Lipton começou a reunir os soldados que não tinham sido atingidos.

— Alguns deles estavam a ponto de sofrer uma crise de nervos; outros estavam surpreendentemente calmos.

Ele ordenou que alguns deles cuidassem dos feridos e que outros se organizassem para enfrentar o ataque da infantaria inimiga, já que tinha certeza de que ela viria. Depois, ele foi ver como Guarnere e Toye estavam.

Quando se aproximou deles, Lipton olhou para Guarnere. Este olhou para cima e disse: — Lip, eles pegaram o velho Guarnere desta vez. — Nisso, Malarkey chegou. Segundo ele, Guarnere e Toye estavam conscientes e calmos, sem gritar.

— Dê-me um cigarro, Malark — disse-me Joe. E eu acendi um cigarro para ele.

Houve uma pausa em nossa entrevista. Eu pedi que ele prosseguisse.

— Não quero falar sobre isso — tornou Malarkey. Outra pausa, e depois ele prosseguiu. — Joe deu uma tragada, olhou para mim e perguntou: “Meu Deus, Malark, o que um homem tem que fazer para ser morto aqui?”

Os padioleiros levaram Guarnere primeiro. Quando estava sendo carregado, ele disse a Toye: — Eu disse que voltaria para os Estados Unidos antes de você!

O tenente Buck Compton comandava o 2º Pelotão. Ele era muito ligado a seus homens, ligado até demais na opinião dos oficiais.

— Compton era um grande amigo meu — observou Malarkey. — Ele não gostava do símbolo de status no exército. Ele era mais amigo dos alistados do que dos oficiais. — Seus laços de amizade mais fortes eram com Guarnere e Toye.

Quando ele saiu da trincheira, Compton viu que ele tinha ferimentos pelo corpo inteiro. Os feridos mais próximos eram seus amigos Guarnere e Toye, com suas pernas como que penduradas em seus corpos e seu sangue tingindo de vermelho a neve em torno deles.

Compton começou a correr para a retaguarda, pedindo aos gritos a presença de socorristas ou algum tipo de ajuda. No posto de socorro, acabou se acalmando; descobriu-se que ele era um caso grave de pé-de-trincheira. Ele foi evacuado.

Compton tinha ganho uma Estrela de Prata em Brécourt Manor em 6 de junho de 1944. Mais tarde, na Normandia, ele fora ferido, e depois também na Holanda. Ele resistira a tudo que os alemães lançaram contra ele de 17 de dezembro a 3 de janeiro. Mas a cena de dizimação de seu pelotão, de seus dois amigos despedaçados, o abalou.

Com a viagem de Peacock, com Dike fora de combate, com a ausência de Compton, oficial substituto que se havia apresentado no posto de socorro com pé-de-trincheira (mal que, a essa altura, afetava quase todos os membros da companhia), e também outro, sobre o qual pesava a suspeita de que tinha dado um tiro na própria mão, o comandante do batalhão teve de passar a preocupar-se com o problema da resistência do combatente. Winters falou de seus sentimentos em relação a isso numa entrevista:

— Eu tinha chegado a um estado em Bastogne no qual tinha certeza de que seria ferido. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria atingido. Esperava pelo menos que não fosse muito grave. Mas jamais me senti tomado pelo receio de que acabaria sofrendo uma crise de nervos. Apenas achava que mais cedo ou mais tarde sofreria um ferimento. Mas uma crise nervosa não.

Depois de refletir um pouco, ele prosseguiu.

— Mas você não vê pessoas à sua volta sendo feridas todo dia, todo dia, sem parar — sem saber quanto tempo isso durará. Isso vai durar para sempre? Será que voltarei para casa?

O oficial — ele acrescentou —, com o peso adicional de ter de tomar decisões constantemente, sob pressão e com a privação do sono e alimentação inadequada, não se surpreendia quando os soldados sofriam uma crise nervosa.

Era política do exército americano manter suas companhias de fuzileiros na linha de batalha durante longos períodos, continuamente no caso das companhias de divisões de infantaria, compensando perdas de efetivo com substitutos. Isso quer dizer que os substitutos iam para a batalha não com os soldados com os quais haviam treinado e embarcado para além-mar, mas com estranhos. Além disso, levava o veterano a ter como alternativa para livrar-se dos perigos que o ameaçavam somente a morte ou ferimento grave. Isso criava nele uma sensação de ver-se numa situação infindável e desesperadora, tal como assinalou Winters.

A guerra é um mundo às avessas. Estranhos fazem tudo para matá-lo; se conseguem fazer isso, longe de serem punidos por tirarem vidas, eles são recompensados, honrados, felicitados. Na guerra, a tropa fica entrincheirada durante o dia e faz seu trabalho à noite. A boa saúde é uma maldição; pé-de-trincheira, pneumonia, diarréia grave e incontrolável, uma perna quebrada são presentes inestimáveis.

Mas é limitada a capacidade do combatente de conseguir atuar eficientemente nesse mundo às avessas. Para alguns, a crise nervosa vem logo; psiquiatras do exército descobriram que, na Normandia, de 20% a 30% dos membros das companhias de fuzileiros sofreram algum tipo de distúrbio mental durante a primeira semana e fugiram ou foram tirados da linha (logicamente, muitos voltaram para suas unidades depois). Para outros, o colapso visível de suas forças nunca ocorria, mas a eficiência diminuía. As experiências do combatente em ação geram sentimentos mais fortes do que as que os civis podem imaginar, sentimentos de terror, pânico, ódio, tristeza, perplexidade, impotência, inutilidade, e todos esses sentimentos minavam as forças e o equilíbrio mental deles.

“Não existe o que se chama de ‘acostumar-se com os combates’”, os psiquiatras do exército declararam num relatório oficial em Combat Exhaustion. “Todos os momentos do combate impõem uma tensão tão grande que os combatentes acabam sofrendo um crise nervosa diretamente relacionada com a intensidade e duração de sua exposição... baixas psiquiátricas são tão inevitáveis quanto ferimentos de tiros e estilhaços de explosão durante a guerra... a maioria da tropa perdia a eficiência depois de 180 ou até mesmo 140 dias. O consenso era que o combatente atingia o ápice de eficiência nos primeiros 90 dias de combate, que, depois disso, sua eficiência começava a diminuir e que, daí por diante, ele ia ficando cada vez menos eficiente, até tornar-se

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inútil.”

Em 3 de janeiro de 1945, a Companhia E contava 23 dias de permanência na Normandia, 78 dias na Holanda e 15 dias na Bélgica, um total de 116 dias na guerra. Estatisticamente, a companhia inteira corria o risco de sofrer uma crise nervosa a qualquer momento.

Os alemães não completaram o ataque com uma investida de infantaria à noite, nem na manhã do dia seguinte. Os socorristas removeram os feridos. Os corpos dos mortos ficaram no mesmo lugar, congelados, por vários dias. O tenente Dike reapareceu. As coisas voltaram ao normal.

Em 5 de janeiro, a Companhia E voltou para a reserva do regimento, ao sul de Foy. Lá, dois homens, o comandante do batalhão e o primeiro-sargento da Companhia E, pensavam no mesmo problema: os oficiais da companhia.

Nas palavras de Winters, “eu olhava para os subalternos e os comandantes de minha companhia e rilhava os dentes. Basicamente considerados, nossos tenentes eram fracos. Eu não confiava neles. E o que posso fazer a respeito disso?” Ele sabia que, se, com muita sorte, conseguisse obter outros oficiais, eles seriam substitutos recém-chegados dos Estados Unidos, depois de haverem completado um treinamento corrido. Quanto ao comandante da companhia, Winters declarou categoricamente: — Dike foi enviado para a nossa unidade como um protegido de alguém do QG da divisão, e com isso ficamos com as mãos atadas. — Winters não via uma solução a curto prazo. Enquanto não lhe era possível achar uma, ele chegou à conclusão de que, “em situações difíceis, [devemos] conversar com os sargentos”.

Seu primeiro-sargento queria mesmo conversar. Além disso, Lipton solicitou uma conversa em particular. Winters disse que se encontrasse com ele à noite, no bosque, atrás do PC do batalhão.

No encontro, Lipton falou de sua preocupação pelo comandante da companhia. Ele descreveu as atitudes de Dike, ou a falta delas, detalhadamente. E terminou dizendo: — O tenente Dike vai levar muitos membros da Companhia E à morte.

Winters ouviu-o com atenção, fez algumas perguntas, mas guardou suas impressões para si mesmo.

E vieram os substitutos.

— Eu não conseguia acreditar naquilo — disse John Martin. — Eu não conseguia acreditar que eles nos dariam substitutos e nos poriam no ataque. Pensei: “Meu Deus, eles vão nos tirar daqui e nos dar algumas roupas ou algo assim.” Mas, não, eles nos deram alguns substitutos e disseram: “Vamos, rapazes, vamos partir.” E foi então que começamos a atacar.

Ele estava certo. O bosque forma um U em torno de Foy, com a vila bem no meio. No ataque de 3 de janeiro, os americanos tinham assumido o controle da parte direita do U. Depois disso, eles fariam um ataque na parte esquerda.

Em 9 de janeiro, a companhia participou de uma operação de limpeza na parte do bosque a oeste de Foy. A resistência foi pequena. A companhia alcançou seu objetivo e entrincheirou-se.

De repente, um projétil explodiu entre as árvores; depois, outro e mais outro. E continuaram a vir. O cabo George Luz foi surpreendido em campo aberto. Ele começou a correr em direção à sua trincheira. Nisso, o sargento Muck e o praça Alex Penkala disseram aos gritos que ele pulasse para dentro da trincheira deles, mas ele resolveu seguir para a sua mesmo e, ainda que com projéteis explodindo em toda parte e lascas, galhos e árvores inteiras caindo e voando em todas as direções, conseguiu alcançar seu objetivo e se entrincheirou.

Lipton estava dividindo uma trincheira com o sargento Bob Mann, o operador de rádio do QG da companhia. De repente, os alemães mandaram um recado. Um projétil falhado caiu a poucos metros da trincheira deles. Lipton olhou para ele, enquanto Mann acendia um cigarro. Lipton nunca tinha fumado, mas pediu um ao colega. Foi a primeira vez que ele fumou.

Luz foi verificar as condições de Muck e Penkala, os soldados que o tinham convidado para compartilhar a trincheira com eles. Ela tinha sido atingida em cheio. Luz começou a cavar freneticamente. Acabou encontrando alguns pedaços de corpos e uma parte de um saco de dormir.

Agora, a 101ª controlava todo o bosque que rodeava Foy do Leste, do Oeste e do Sul. Mas Foy, no fundo de um pequeno vale, não era o objetivo; Noville e o planalto eram o objetivo deles. O general Taylor queria prosseguir com o ataque de 9 de janeiro diretamente para Noville, mas, para isso, precisava do apoio de tanques, e, uma vez que estes podiam operar somente na estrada, ele teve de tomar Foy. A vila já tinha trocado de mãos quatro vezes.

O 2º Batalhão do 506° foi o escolhido para tomar Foy. Ele foi tirado da linha de combate a oeste de Foy e deslocado de volta para o sul da vila. Winters escolheu a Companhia E para empreender o assalto. A operação foi simples e brutal. Uma arremetida através de um campo aberto e coberto de neve medindo cerca de 200 metros e que se estendia até a vila, onde todas as janelas podiam ser um ninho de metralhadora, onde todos os alemães tinham proteção de alvenaria, era a única alternativa que tinham. Nenhuma sutileza, nenhuma manobra, apenas arremeter contra o inimigo e aproximar-se ao máximo dele para usar granadas e tirá-lo das edificações. A chave do sucesso da operação era atravessar o campo rapidamente. Se os combatentes forçassem o ataque, se o tiro de cobertura fosse intenso o bastante, seu sucesso seria relativamente fácil. Se eles parassem, o preço disso poderia ser alto.

A divisão ordenou que o ataque começasse às 9 horas. Winters não gostou do horário. Ele apresentou argumentos a favor de um ataque inicial leve, mas foram ignorados.

Winters ficou observando a Easy entrar em formação para o ataque. De pé, atrás dele, estava um líder de pelotão da Companhia Dog, o primeiro-tenente Ronald C. Speirs.

Speirs era um oficial de boa reputação. Sujeito de beleza máscula, esguio, relativamente alto, cabelos escuros, implacável, Speirs cultivava a imagem de líder e agia à altura disso. Um de seus colegas subalternos da Companhia D, o tenente Tom Gibson, o descreveu como “um líder de pelotão de fuzileiros enérgico, agressivo, corajoso e talentoso”. Seus apelidos eram “Faísca” (entre seus colegas oficiais) e “Sanguinário” (entre os recrutas). Ele tinha liderado um ataque de baionetas e ganhara a Estrela de Prata na Normandia.

Havia muitas histórias a respeito dele. A fábrica de rumores sobre o tenente Speirs prosperava. Não havia quem tivesse visto com os próprios olhos “a coisa” acontecer, mas constava que alguém tinha. Talvez fossem apenas histórias, mas os membros da Companhia E acreditavam nelas, ou pelo menos em parte.

Uma dessas histórias era sobre uma ocasião na Normandia em que Speirs teve um problema grave com bebidas em seu pelotão. Ele impôs a lei seca na unidade. Nada de vinho. Nenhuma gota. No dia seguinte, topou com um graduado bêbado. Ele deu uma ordem; o graduado o respondeu com insolência. Ele sacou a pistola e acertou um tiro no meio da testa do combatente.

E consta que a moral da história é mais ou menos esta: “E ele jamais teve problema com bebidas depois disso.”

Outra dessas histórias que corria dava conta do incidente ocorrido na Normandia, quando Speirs caminhava por uma estrada sozinho e passava por dez prisioneiros de guerra alemães. Eles estavam sob guarda e trabalhando na abertura de uma trincheira de beira de estrada. Speirs resolveu parar, abriu um pacote de cigarros e deu um maço a cada um dos prisioneiros. Eles ficaram tão agradecidos que ele entrou na trincheira e deu-lhes o pacote inteiro. Então, ele estendeu o isqueiro e acendeu o cigarro de cada um deles. Depois, voltou para a estrada e os ficou observando fumar e conversar.

De repente e sem avisar, ele pegou a submetralhadora Thompson que sempre carregava e disparou contra o grupo. E continuou a crivar o local de balas até que todos os prisioneiros estivessem mortos. O guarda ficou assombrado. Speirs virou-se e foi embora.

Tom Gibson, que me contou essa história (eu a ouvi também de muitas outras fontes, embora ninguém tivesse visto isso acontecer), fez o seguinte comentário:

— Acredito firmemente que somente um combatente tem o direito de julgar outro combatente. Somente um fuzileiro de companhia sabe quanto é difícil manter a lucidez, cumprir seu dever e sobreviver com algo semelhante a dignidade. Você tem de aprender a perdoar os outros, e a si mesmo, por algumas das coisas que são feitas.

Gibson disse que tinha contado essa história várias vezes com o passar dos anos, sem jamais citar nomes, mas usando-a como exemplo daquilo que pode acontecer numa guerra.

— Todos sabemos que histórias de guerra parecem ter uma espécie de vida própria. Elas acabam crescendo, sendo embelezadas. Quer seus detalhes sejam precisos, quer não sejam, deve haver uma base de verdade em histórias como essas para que tenham começado a ser contadas — argumentou Gibson.

Winters não estava pensando em Speirs e em sua fama. Ele estava observando a Companhia E atacar. Speirs e outros oficiais de companhias não engajadas ficaram atrás dele. Winters tinha empregado as duas seções de metralhadora do QG numa operação de tiro de cobertura sobre os campos abertos que se estendiam ondulantemente diante deles

por cerca de 200 metros ao longo da fileira de árvores até o perímetro urbano.{61} Havia algumas árvores e alguns montes de feno dispersos no campo.

O tenente Foley, que liderara o 1º Pelotão no ataque, fez uma descrição da situação:

— Sabíamos que Foy não tinha sido testada no dia anterior nem fora explorada à noite. Nos dias anteriores, ficamos bem-informados das idas e vindas de caminhões e tanques. Testemunhamos muitos ataques e contra-ataques. Tínhamos visto a Companhia F ser destroçada em seu esforço para defender o lugar. Agora, ela era comandada por um segundo-tenente. Portanto, tínhamos o desconhecido pela frente.

A companhia partiu, em fileira dupla. O tiro de cobertura começou. Da vila, lançavam contra eles apenas alguns tiros esporádicos de fuzil. Apesar disso, “foi difícil o avanço da tropa através da neve em forma de escaramuça, mas a linha conseguiu manter uma boa formação e avançar com certa rapidez”, relatou Winters.

O 1º Pelotão, que seguia no flanco esquerdo, chegou a um lugar em que havia alguns currais e pequenas edificações. Foley examinou os barracões. Enquanto os membros do pelotão (apenas 22 deles) faziam o seu trabalho, três alemães foram vistos disputando afobadamente o refúgio de um dos barracões. Foley providenciou-lhe o cerco, derrubou-lhe a porta e depois disse com o melhor de seu alemão: — Saiam com as mãos para cima! — Não obteve resposta.

Foley tirou o pino de uma granada de fragmentação e a jogou dentro do barracão. Depois da explosão, os alemães apareceram, tremendo e sangrando. Um deles era primeiro-tenente, e os outros dois eram sargentos. Foley começou a interrogá-los a respeito do paradeiro de outros soldados alemães. Nisso, um dos sargentos alemães levou a mão para dentro do casaco aberto. Outro fez um movimento parecido. O

terceiro gritou: Dummkopf!{62}

Um dos homens de Foley anulou a ação dos alemães com uma rajada de submetralhadora.

— Não fizemos prisioneiros — comentou Foley —, mas ficamos com as pistolas escondidas nos casacos. — O pelotão tratou de apressar-se para juntar-se aos demais.

Dike olhou para a esquerda e não viu seu 1º Pelotão. Seus outros dois pelotões estavam avançando com regularidade e, embora sob o fogo do inimigo, não tinham sofrido baixas. Mas, à esquerda, Dike seguia desprotegido, ou pelo menos era o que ele achava. Ele tomara uma decisão desastrosa, do tipo que leva os combatentes à morte. Ele fez um sinal para que o 2º e 3º Pelotões se juntassem ao setor do QG da companhia, situado atrás de dois montes de feno.

Nas palavras de Winters, “de repente, a linha parou a cerca de 75 metros do perímetro da vila. Todos se agacharam atrás das medas e ficaram lá sem nenhuma causa aparente. Não obtive resposta do tenente Dike pelo rádio. A companhia parecia um bando de patinhos de tiro ao alvo sobre a neve”. Sua preocupação era saber durante quanto tempo ele conseguiria manter o tiro de proteção.

O 1º Pelotão alcançou a companhia, reunida atrás dos montes de feno. Foley aproximou-se de Dike para colher ordens, mas este não sabia o que fazer. Foley insistiu que algo tinha de ser feito; Lipton e os outros sargentos o apoiaram com firmeza.

Dike acabou criando um plano. Ele consistia em empregar o 1º Pelotão numa manobra de flanqueamento pela esquerda, para cercar a vila e lançar um ataque de uma das extremidades da linha. Enquanto isso, ele lançaria fogo de metralhadora e morteiro das medas contra o inimigo. Para isso, Dike disse que manteria os operadores de metralhadora e morteiros com ele, de forma que participassem do tiro de proteção. Portanto, 18 fuzileiros do 1º Pelotão partiram através da neve para tentar entrar em Foy pela extremidade oposta do setor do avanço.

O tenente Foley e o sargento Martin tinham apenas alguns minutos para planejar a rota que os levaria a uma posição de assalto. Eles escolheram um caminho que tinha, a cada 10 metros mais ou menos, uma árvore atrás da qual o combatente podia esconder-se. A fileira de árvores estendia-se a perder de vista.

Eles partiram, um após o outro. Em poucos minutos, atiradores de elite começaram a disparar, e ouviram-se gritos de “Socorrista!” de uma ponta à outra da linha. O pelotão revidou, mas não houve resultados aparentes. Foley foi até o ferido mais próximo.

— Seu nome era Smith, da Califórnia. Ele gemia e resmungava quando abri o kit de primeiros socorros, e, antes de eu conseguir achar o ferimento dele, ele começou a “confessar”. Imagine! E sua confissão foi que ele e outros dois amigos tinham topado com um fardo de ração e se apossaram dele. Ele consistia de barras de chocolate Hershey e maços de cigarro! Eu disse a ele que não estava morrendo quando rasguei uma das pernas de suas calças, apliquei sulfa em pó no ferimento e enfaixei-lhe a perna.

Martin disse ao praça Frank Perconte que se pusesse atrás de outra árvore e começasse a atirar contra os edifícios de lá.

— Assim, Frank se põe atrás de uma árvore cujo tronco era um pouco mais largo que sua cabeça, mas não largo o suficiente para o seu traseiro. E eles acertaram um tiro justamente ali.

(Horas depois, quando Lipton viu Perconte, ele estava estendido na neve em meio a uma poça de sangue, mas ainda consciente e forte. Lipton perguntou-lhe: — Perconte, qual a gravidade do ferimento? — Ele sorriu e respondeu: — Lip, que sorte, que sorte!)

Martin fez o praça Harold Webb deslocar-se para uma árvore e indicou-lhe onde atirar. Foley pôs-se ao rádio. — Estamos impedidos de avançar por causa dos disparos de um atirador de elite. Não conseguimos localizar o lugar de onde partem os disparos. Perdemos cinco homens. Você sabe de onde vêm os tiros? Informe-nos.

Alguém do PC da companhia retornou o contato para dizer que a primeira meda à direita de Foley poderia ser o ponto de onde estavam sendo feitos os disparos. Foley respondeu: — Varram aquele monte maldito — no exato momento em que seu pelotão começou a disparar contra ele.

Na opinião de Lipton, o tenente Dike tinha sofrido um “choque”. Ele “congelou” atrás dos montes de feno, não tinha um plano, não sabia o que fazer. Para Winters, que observava tudo, isso era óbvio.

— Ele tinha feito todo mundo se agachar na neve e ficar lá sem nenhum motivo aparente.

Winters ficou frustrado com a incapacidade dele de chamar Dike pelo rádio. — Mexam-se — ele gritava. — Não fiquem aí parados. — Nenhuma reação. A Companhia E estava sofrendo baixas que podiam ser evitadas. Tudo de que ela precisava era o empurrão de um líder para atravessar o último espaço aberto e entrar na cidade. Mas a liderança simplesmente não existia.

Winters pegou um M-1 e começou a atravessar o campo correndo na direção da companhia empacada e seu 1º Pelotão, preso a ela. Ele pretendia assumir o comando, fazer com que aqueles soldados se mexessem. Mas, enquanto se deslocava, ele pensou, meu Deus, não posso fazer isso. Estou no comando do batalhão. Não posso envolver-me nisso. Ele se virou e voltou correndo.

— E, enquanto eu me aproximava de onde tinha saído, deparei Speirs de pé, bem na minha frente. “Speirs! Substitua Dike, assuma o comando daquela companhia e providencie a retomada do ataque.”

Speirs partiu às pressas. Winters cuidou de voltar a atenção para o próprio dever. O tenente Foley nos dá uma descrição do resultado disso:

— Winters ordenou que os operadores de metralhadora preparassem uma base de tiro de proteção, de modo que nós [o 1º Pelotão] pudéssemos terminar o que tínhamos começado a fazer e que o pessoal dos morteiros concentrasse seu poder de fogo nos montes de feno. Um lançador de granadas fez vários ataques, e, quando os montes começaram a pegar fogo, os dois atiradores tornaram-se baixas.

O regimento pôs a Companhia I (25 homens) à direita, na linha de ataque. Mas o sucesso ou o fracasso dependiam da atuação da Companhia E. Esse era um teste decisivo para a unidade. Sua capacidade de combate tinha alcançado um ponto crítico. Nem os oficiais nem os combatentes estavam, de um modo geral, à altura dos padrões da companhia que tinha saltado na Normandia. Nenhum dos oficiais que haviam atuado como líderes no Dia D estava na companhia em 1945. Mais da metade dos recrutas eram novatos. O que restava do núcleo da velha companhia era composto então apenas pelos graduados. Eles eram os homens de Toccoa e tinham mantido a coesão da companhia desde a época em que Dike assumira o comando, na Holanda.

Eles viviam em estado de alerta máximo e grande tensão. E sobreviviam, combatiam e tentavam esconder suas impressões, sempre presentes no íntimo, impressões que John Keegan chama de produtos “de um dos maiores receios do homem: o medo dos ferimentos, da morte, de pôr em perigo a vida daqueles por cujo bem-estar ele é responsável. Eles experimentaram também algumas das mais violentas

paixões do homem: ódio, fúria e o desejo de matar”. {63}

Nessa torrente de paixão, pensamentos incontroláveis agitavam suas mentes. Eles tinham visto seus oficiais fugir, sofrer uma crise nervosa, simplesmente acovardar-se ou cair em mudez (como foi o caso do tenente Dike nesse momento de crise). Embora não tivessem a opção de fugir, tinham a opção de não liderar. Ninguém podia forçá-los a liderar.

Assim como não podiam forçar Dike a agir. Esses graduados eram homens de Toccoa, tudo que sobrara da Easy do quente verão de 1942 e do capitão Sobel. Eles tinham mantido a coesão da companhia durante um longo período de comando inepto e de pesadas baixas entre os recrutas.

Portanto, esse era o teste. Em 1942ª questão era: pode um exército de cidadãos ser treinado e preparado de forma satisfatória para combater alemães numa campanha demorada no noroeste da Europa? Hitler não tinha sido o único que havia dito “não”. Mas a resposta que contava mesmo viria nos campos cobertos de neve da Bélgica em janeiro de 1945; para a Easy, o teste tinha começado.

Os sargentos estavam preparados para ele. O núcleo de Toccoa da companhia estava preparado para ser liderado e liderar. Nesse ínterim, Speirs chegou, ofegante. Ele conseguiu dizer a Dike, com dificuldade: — Estou assumindo o comando.

O sargento Lipton e outros o inteiraram da situação. Depois disso, ele começou a dar ordens, enviando o 2º Pelotão numa direção, o 3º Pelotão noutra, e fez que os morteiros começassem a trabalhar e as metralhadoras lançassem todo o seu poder de fogo contra o inimigo. E ele partiu, sem olhar para trás, confiante de que a tropa o seguiria. Ela o seguiu.

“Lembro-me dos campos amplos e abertos de Foy”, Speirs escreveu numa carta em 1991, “nos quais qualquer movimento atraía o fogo inimigo. Um German 88 disparou contra mim quando atravessei a área aberta sozinho. Isso me impressionou.”

Numa visita ao local em 1991ªcompanhado de Winters e Malarkey, Lipton lembrou-se da apressada travessia de Speirs. Lembrou-se também de que, quando eles foram para os anexos de uma fazenda em Foy, Speirs quis saber onde a Companhia I estava.

— Assim, ele simplesmente continuou correndo e atravessou as fileiras alemãs, saiu do outro lado, conversou com o comandante da Companhia I e voltou correndo. Caramba, isso foi impressionante.

Quando os pelotões sob o comando de Speirs partiram, o 1º Pelotão seguiu atrás deles. O sargento Martin fez uma inspeção de última hora. Ele percebeu que o praça Webb estava em posição de tiro atrás de uma árvore, sem se mover. — Vamos, Webb, vamos logo; saia daí, vamos! — Não obteve resposta.

— Bem, eles ainda estavam atirando. Diante disso, corri até a árvore, que era um pouco mais larga que uma mão. E pulei bem em cima dele, já que seria ruim pôr-me deitado ao lado. Quando o virei, vi que o tinham acertado bem no meio da testa.

A companhia arremeteu contra Foy. Seus combatentes atacaram com todas as armas de que uma companhia de fuzileiros dispunha: M-1s, submetralhadoras Thompson, bazucas, metralhadoras leves, morteiros e granadas. Eles tiveram o apoio da artilharia e fizeram um barulho tremendo, com balas ricocheteando nas edificações e explosões de granadas dentro delas, o ribombo dos disparos de morteiros e o estrondo dos projéteis quando atingiam o alvo, lançando pedaços de tijolos e poeira pelo ar.

Mesmo assim, a resistência foi intensa. Atiradores de elite alemães, superados na primeira arremetida, começaram a causar baixas. Havia um deles que ninguém conseguia localizar de jeito nenhum e que tinha interrompido com apenas dois tiros o avanço dos americanos numa esquina. Então, Shifty Powers, o sujeito que tinha passado a infância localizando esquilos na fronde das árvores das montanhas da Virgínia, exclamou: — Eu o localizei! — e atirou.

— Não fomos detidos mais — observa Lipton — e aí continuamos a atacar. Todos retomaram o avanço e o ataque com as armas. Embora fosse forte a resistência, os alemães — a 6ª Companhia do 10° Regimento de Panzergrenadier da 9ª Divisão Panzer — estavam apenas empreendendo uma operação de retaguarda para dar cobertura a uma retirada para Noville. Não obstante, lutaram tenaz e habilmente, sem pânico, para manter aberta a rota de fuga. Mas, quando Speirs avançou com seus homens e ameaçou obstruir a estrada atrás da posição alemã, três tanques Tiger trataram de retirar-se. O equivalente a um pelotão de infantes os tirou de ação. Cerca de 100 alemães, a maioria deles feridos, se renderam. A Companhia E tinha passado no teste de força de vontade. Ela tinha tomado Foy.

Lipton e Popeye Wynn foram dar uma olhada no lugar a partir do qual o atirador de elite alemão havia detido o avanço deles, o sujeito contra o qual Powers tinha disparado. Eles encontraram o atirador com uma bala bem no meio da testa.

— Sabe — Wynn comentou —, não vale a pena ficar atirando em Shifty quando ele tem um fuzil nas mãos.

Era o início da tarde. Uma equipe de cinegrafistas tinha chegado para filmar a vitória. No espinhaço do terreno à beira do bosque, Winters viu dois fotógrafos tirando fotografias dos padioleiros transportando os feridos do 1º Pelotão. — Quando o grupo atingiu um ponto a uns 25 metros do bosque, bem longe do perigo de serem notados, um fotógrafo baixou a câmera e correu para ajudar a carregar o soldado. Ele o segurou de tal forma que pudesse manchar de sangue o mais possível a manga e o peitilho de seu casaco novo, limpo e densamente forrado. Depois, esse sujeito se virou para o amigo, que ainda estava tirando fotografias, e começou a fingir que estava exausto, enquanto se esforçava para vencer os metros finais que o separavam do bosque. Quando chegou lá, encerrou a encenação imediatamente.

A noite, o coronel Sink convocou uma reunião no QG do regimento de todos os principais participantes do ataque. Sink iniciou a reunião com uma pergunta a Winters: — O que você fará em relação à Companhia E?

— Tirarei o tenente Dike do comando e porei o tenente Speirs no lugar dele — Winters respondeu.

Sink concordou com a decisão, e a reunião terminou. O tenente Foley concordou com ela também. “Estamos contentes em ver Dike partir, não apenas porque ele fracassou no comando do 1º Pelotão, mas até mesmo no bosque, quando o 2º Pelotão foi atingido com aquelas explosões entre as árvores, e ficou evidente que o ‘Foxhole

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Norman’ não nasceu para ser o nosso comandante”, ele escreveu.

Em pouco tempo ficou claro que Speirs, sim, era talhado para ser o comandante deles, que, aliás, já tinha demonstrado isso na arremetida contra Foy.