Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 17 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 17

Bebendo o Champanhe de Hitler

 

BERCHTESGADEN

l°-8 de maio de 1945

 

A companhia deixou Munique e, nos dois primeiros dias de maio, seguiu viagem para o Sul, movendo-se lentamente através do fluxo de soldados alemães que marchavam na direção oposta. Quase sempre, maior era o número de soldados alemães seguindo para o Norte com suas armas que o de americanos viajando para o Sul. — Olhávamos uns para os outros com grande curiosidade — disse Winters. — Tenho certeza de que ambos os exércitos queriam a mesma coisa — deixe-me em paz. Tudo que eu quero é que isto acabe logo e voltar para casa.

Em 3 de maio, o coronel Sink recebeu ordens para fazer com que o 506° estivesse preparado para partir às 9h30 do dia seguinte. Objetivo: Berchtesgaden.

Berchtesgaden era como um ímã que atraía tropas de todos os exércitos do sul da Alemanha, da Áustria e do norte da Itália. Ao sul de Salzburg, Berchtesgaden, cidade das montanhas da Baviera, era o Valhala dos deuses, das autoridades e dos empresários nazistas. Hitler tinha uma casa lá e uma fortaleza no topo de uma montanha chamada Aldershorst (Ninho da Águia), a mais de 2.400 metros de altitude. Graças a uma obra de engenharia rodoviária notável, os carros podiam chegar a um estacionamento situado a algumas centenas de metros do Aldershorst. Lá, um túnel levava ao centro da montanha, onde havia um elevador que conduzia ao Aldershorst. As paredes do elevador eram folheadas a ouro.

Foi a Berchtesgaden que os líderes europeus tinham ido no fim da década de 30 para serem humilhados por Hitler. Daladier, da França, Mussolini, da Itália, Schuschnigg, da Áustria, Chamberlain, da Grã-Bretanha, e outros. Eles temiam Hitler, já que ele tinha o mundo nas mãos. Agora que Hitler estava morto, esse temor já não existia, mas isso serviu apenas para realçar o fascínio por Hitler e seu refúgio favorito, que parecia guardar uma das chaves de acesso ao seu caráter.

Foi em Berchtesgaden que o mais alto escalão da liderança nazista se refugiara, para ficar perto do Führer. Himmler, Goering, Goebbels, Martin Bormann tinham casas na região. Havia ali um fabuloso condomínio de apartamentos para os membros das SS.

Foi para Berchtesgaden que a maior parte do produto dos saques feitos pelos nazistas em toda a Europa tinha sido levada. O lugar estava abarrotado de dinheiro, tanto na forma de ouro quanto em moeda corrente de uma dúzia de países, além de tesouros artísticos (somente a coleção de Goering contava com cinco Rembrandts, um Van Gogh, um Renoir e muito mais). Estava cheio também de bebidas finas, jóias e carros magníficos.

Portanto, Berchtesgaden era, de fato, um ímã por dois motivos: o abrigo simbólico da louca ânsia de Hitler pelo poder e o melhor da Europa em matéria de pilhagem. Todos queriam chegar lá — os franceses avançando lado a lado com a 101ª, os britânicos vindo da Itália, os líderes alemães que queriam recuperar seus objetos de valor e todos os militares americanos presentes na Europa.

A Companhia E foi a primeira a chegar lá.

Em 4 de maio, a 101ª partiu em comboio pela auto-estrada que ligava Munique a Salzburg, com o 2º Batalhão na vanguarda. Os americanos passaram por Rosenheim e pelo lago Chiem. Em Siegsdorf, viraram à direita e seguiram pela estrada que levava direto a Berchtesgaden. Depois de percorrer cerca de 14 quilômetros de estrada, encostaram nas últimas fileiras da 2ª Divisão Blindada Francesa, a primeira divisão a entrar em Paris, com seu famoso comandante, o general Jacques Philippe Leclerc.

Provavelmente, a 2ª Divisão Blindada estivera no flanco direito da 101ª americana na semana anterior, mas os americanos não tinham conseguido acompanhá-la. Em dado momento, os franceses estavam perto deles; noutro, já não estavam. Até onde os americanos puderam saber, os franceses iam saqueando as regiões da Alemanha pelas quais passavam. Quando enchiam de pilhagem um ou dois caminhões, eles a enviavam para a França. Agora, estavam ansiosos por chegar a Berchtesgaden, distante deles apenas uma hora ou mais nas montanhas ao Sul, de carro. Mas os franceses tiveram seu avanço interrompido pela destruição de uma ponte que se estendia sobre um desfiladeiro profundo. Eles não tinham equipamento de reparo ou de construção de pontes, e alguns fanáticos das SS resistiam no lado sul do desfiladeiro, usando armas automáticas e morteiros.

A Companhia E e o restante do 2º Batalhão começaram a misturar-se aos franceses, com todos posicionados aqui e ali enquanto observavam um tiroteio inútil, de disparos feitos de longa distância, e aguardavam a chegada dos engenheiros da 101ª. Winters perguntou a Sink se ele queria enviar um pelotão numa operação de ataque de flanco contra a barricada alemã. — Não — respondeu Sink —, não quero que ninguém se fira.

Foi uma decisão sensata. Não havia sentido em sofrer baixas a essa altura da guerra. Mas Berchtesgaden estava logo depois da barricada alemã, quase ao alcance das mãos. Sink acabou mudando de idéia. — Leve o 2º Batalhão de volta para a auto-estrada — ordenou a Winters —, e veja se consegue atacar essa barricada de flanco e chegar a Berchtesgaden. — Caso Winters conseguisse fazer isso, Sink queria que ele lhe reservasse o famoso Hotel Berchtesgaden para servir de QG do regimento.

Winters conduziu o batalhão até a auto-estrada pelo mesmo caminho que tinham trilhado e depois seguiu para Bad Reichenhall, a Leste, onde outra ponte destruída fez os americanos interromper o avanço durante a noite. Na manhã seguinte, 5 de maio, com a Companhia E encabeçando a coluna, o 2º Batalhão avançou até Berchtesgaden sem encontrar resistência e tomou a cidade sem fazer um único disparo.

O lugar era como um conto de fadas. As montanhas cobertas de neve, as florestas de um verde-escuro, o murmúrio de córregos gelados, as casas vistosas e de bom gosto, as vestes típicas e coloridas dos nativos eram um deleite para os olhos. A comida, as bebidas, as acomodações e um grande número de jovens fardadas da Luftwaffe e das Wehrmacht, além de criados de vários tipos, eram um alívio para o corpo.

A exigência de acomodações foi a primeira ordem das forças de ocupação. Winters e o tenente Welsh foram para o Hotel Berchtesgaden. Quando passaram pela porta principal do hotel, ainda conseguiram ver as costas do pessoal do serviço saindo de cena. Eles seguiram para o restaurante principal, onde viram um garçom guardando uma enorme baixela de prata numa caixa de mais de um metro de comprimento e forrada de veludo.

Nem precisaram emitir ordens. Winters e Welsh simplesmente caminharam na direção do homem, que se retirou. Os americanos dividiram a prataria entre si. Quarenta e cinco anos depois, ambos ainda usam a prataria do Hotel Berchtesgaden em suas casas.

Depois de obter do lugar aquilo que mais desejavam, Winters reforçou a guarda no hotel “para impedir mais saques”, nas palavras ditas por ele — com a cara mais séria do mundo — em uma de nossas entrevistas. Mas ele se autocensurou por isso.

— Que idiota eu fui por não ter aberto as portas do hotel para o 2º Batalhão. — Quando o QG do regimento e depois o da divisão chegaram, levaram tudo que puderam carregar.

Winters escolheu uma das casas dos oficiais nazistas, situada na encosta de um vale nas redondezas de Berchtesgaden, para instalar o QG do batalhão. Ele ordenou ao tenente Cowing, o chefe de seu S-4, que fosse até a casa e informasse aos ocupantes que tinham 15 minutos para abandoná-la. Cowing era um oficial substituto que se havia engajado na unidade em meados de fevereiro, em Haguenau. Ele não fora endurecido pelos rigores dos combates e voltou alguns minutos depois para informar a Winters que “as pessoas disseram que não, não vão sair”.

— Siga-me — tornou Winters. Ele se dirigiu à porta da frente, bateu e, quando uma mulher atendeu, anunciou: — Nós vamos entrar. Agora! — E ele e seu estado-maior fizeram exatamente isso, enquanto os alemães sumiam do lugar.

— Eu me senti culpado por isso? — Winters perguntou-se na entrevista. — Fiquei com um peso na consciência por ter tomado aquela bela casa? Não! Tínhamos nos acomodado em trincheiras na Normandia, ficáramos mergulhados na lama na Holanda e enfrentamos a neve em Bastogne. Apenas alguns dias antes, víramos um campo de concentração. Essas pessoas eram a causa de todo aquele sofrimento. Eu não tinha nenhuma simpatia pelo problema delas, tampouco achava que lhes devia uma explicação.

Os recrutas também não tiveram o menor problema, físico ou psicológico, em tomar os alojamentos de membros das SS, um condomínio de apartamentos de estilo alpino que era a última palavra em matéria de design, encanamento e decoração de interiores. Os oficiais e os sargentos conseguiram suntuosas casas de oficiais nazistas nas encostas das montanhas que davam vista para Berchtesgaden.

Winters montou guarda em torno da cidade, principalmente para orientar o tráfego e recolher as tropas alemãs que se rendiam, e enviá-las para cercados de prisioneiros de guerra na retaguarda. O praça Heffron estava no comando de um posto de controle de uma encruzilhada quando um comboio de 31 viaturas desceu a montanha. Na dianteira, seguia o general Theodor Tolsdorf, comandante do LXXXII Corpo de Exércitos. Ele era um tremendo figurão, um prussiano de 35 anos de idade que quase batera o recorde de promoções nas Wehrmacht. Ele se ferira 11 vezes e era conhecido entre seus homens como Tolsdorf, o Louco, por causa da temeridade em relação à própria vida e à de seus subordinados. Mas o fato de maior interesse para a Companhia E no que diz respeito a ele era que esse oficial estivera no comando da 340a Divisão de Volksgrenadier em 3 de janeiro, nos encarniçados combates no Bois Jacques e nas cercanias de Foy e Noville.

Tolsdorf esperava poder entregar-se com todas as honras e depois ter permissão de viver num campo de prisioneiros com certa classe. Seu comboio estava carregado de pertences pessoais, bebidas, charutos e cigarros, além de muitas acompanhantes. Heffron foi o primeiro americano com o qual Tolsdorf topou. Ele parou o comboio; Tolsdorf disse que desejava render-se; Heffron solicitou a presença de um segundo-tenente, que estava próximo; Tolsdorf recusou-se a falar com o tenente e pediu que ele fosse em busca de um oficial de um posto à altura da patente dele; enquanto isso, Heffron aproveitou a oportunidade para saquear a Luger e a maleta do general Tolsdorf. Na maleta, ele achou algumas Cruzes de Ferro e 500 fotografias pornográficas e pensou consigo mesmo: “Um garoto de South Philly fazendo um general alemão render-se; isso é bom demais.”

Todos estavam fazendo saques num ritmo frenético. Os soldados alemães estavam em toda parte — membros do exército, das Waffen SS, da Luftwaffe, oficiais, graduados, praças —, procurando alguém para se render, e as Companhias Dog, Easy e Fox, do 506° Regimento, foram as primeiras a chegar até eles. Desses soldados, Webster disse na carta enviada aos pais, em 13 de maio, “conseguimos pistolas, facas, relógios de pulso, casacos forrados de pele, jaquetas de pára-quedista camufladas. A maioria dos alemães encara tudo isso com muito bom humor, mas, de vez em quando, deparamos um ou outro sujeito que se recusa a ser aliviado do excesso de peso que é o seu relógio. Uma pistola apontada para o rosto, porém, persuade qualquer um. Agora tenho uma Luger, duas pistolas automáticas P-38, uma submetralhadora Schmeissere, dois macacões de pára-quedista, um casaco camuflado, várias bandeiras nazistas com cerca de um metro de comprimento por 60 centímetros de largura e um relógio de pulso”.

O Ninho da Águia fora totalmente destruído pela Força Aérea do Exército.{84} O elevador que dava acesso a ele tinha sido desativado. Mas, para os soldados que tinham subido e descido o Currahee inúmeras vezes, a escalada até o topo era mais passeio que desafio. Alton More foi um dos primeiros a chegar lá. Em meio aos escombros, ele achou dois álbuns de fotografia de Hitler cheio de fotografias de políticos europeus famosos que tinham sido hóspedes do ditador. Um oficial da companhia exigiu que More lhe entregasse o álbum. More recusou-se a fazer isso. O oficial ameaçou levá-lo à corte marcial.

More fazia parte do pelotão de Malarkey. Este correu até o QG do batalhão para falar com Winters e explicar a situação. Winters disse ao seu motorista de jipe que “levasse Malarkey de volta para o alojamento e retornasse com o praça More e todo o equipamento”. Quando More chegou, Winters o levou de carro para o QG do batalhão. Desse modo, More pôde levar os álbuns para Casper, Wyoming.

Com os alojamentos providenciados e depois de ter pilhado mais do que podiam carregar ou mais do que poderiam ter a esperança de levar para casa, a próxima coisa de que esses jovens americanos precisavam eram veículos motorizados. Sem problema. Nos estacionamentos na cidade e ao redor dela havia caminhões militares alemães, sedas, Volkswagens e outros mais, enquanto, espalhados pela cidade e nas garagens anexas a casas nas montanhas, havia automóveis de luxo. O sargento Hale conseguiu um carro de bombeiro Mercedes, com sino, sirene, holofote giratório azul e tudo mais. O sargento Talbert pegou um dos carros dos assessores de Hitler, com portas e janelas blindadas. O sargento Carson ficou com o carro de Hermann Goering, “o carro mais bonito que já vi. Éramos os Reis da Estrada. Encontramos o capitão Speirs. Ele assumiu a direção imediatamente, e lá fomos nós; passamos por Berchtesgaden, seguimos pelas estradas das montanhas e atravessamos o interior do país, com suas fazendas de cartão-postal”.

Quando, nos dias 7 e 8 de maio, mais oficiais chegaram a Berchtesgaden, foi mais difícil para os capitães se apossarem de um Mercedes. Speirs recebeu ordens para entregar o seu ao regimento. Carson e Bill Howell estavam perto do carro quando Speirs deu a triste notícia.

Carson perguntou a Howell se ele achava que as janelas do carro eram realmente à prova de bala. Howell tinha dúvidas a respeito disso também. Assim, eles recuaram uns 10 metros da janela traseira esquerda, miraram seus M-1s contra ela e atiraram. A janela quebrou-se em mil pedaços. Eles recolheram os cacos e se retiraram assim que um capitão do regimento foi pegar o carro.

Antes de entregar o seu Mercedes, Talbert fez também algumas experiências. Ele chegou a informar a Winters que as janelas eram à prova de bala, mas, acrescentou, se usassem munição de perfuração de blindagem, elas não resistiriam. Winters agradeceu-lhe pelo teste, concordando com ele que não era possível saber quando esse tipo de informação poderia ser útil.

Os soldados fizeram outro teste. Eles drenaram a água do radiador do Mercedes, para ver se ele conseguia rodar sem ela. No caso de um terceiro carro de luxo, decidiram ver se ele conseguia ficar inteiro ao cair de uma altura de 30 metros antes de entregá-lo aos oficiais. Desse modo, jogaram-no num precipício.

Portanto, os oficiais obtiveram automóveis de luxo sem janelas nem água no carburador, ou verdadeiras “sucatas” (o Mercedes de Talbert “fundiu” o motor na tentativa de subir a ladeira que conduzia ao Ninho da Águia). Os combatentes acabaram ficando com caminhões, motocicletas, Volkswagens, viaturas de escolta e coisas semelhantes, o que foi bom o bastante para eles, já que, assim como o veículo, o combustível era gratuito. Os americanos simplesmente enchiam o tanque e partiam.

— Era uma sensação inigualável — observou Winters. — Você não pode imaginar quanto poder nós tínhamos. Podíamos pegar simplesmente tudo que quiséssemos.

Com a conquista de alojamentos e meio de transporte, o próximo objetivo foram as bebidas. Em todas as adegas havia algum vinho, mas a maior de todas foi descoberta por um dos poucos membros do batalhão que não bebia, o major Winters. Em 6 de maio, numa exploração solitária da região, ele achou os aposentos e o clube de Goering. Num dos quartos, deparou um general alemão morto, trajando uniforme de gala completo, com um tiro na cabeça, que a atravessou de orelha a orelha, e uma pistola na mão. Ele era um general de duas estrelas, identificado depois como Kastner.

Winters circulava pelo local, arrombando portas com o pé, quando, inopinadamente, “meu Deus! Nunca tinha visto algo assim antes”. Numa adega medindo 15 metros de comprimento por 10 de largura e com o teto abobadado, havia prateleiras e mais prateleiras de bebidas que iam do piso ao teto. Praticamente todas as grandes marcas do mundo estavam ali. A última estimativa dava conta de que a adega guardava 10 mil garrafas. Winters pôs dois guardas na entrada do clube de oficiais e outros dois na adega, e ordenou que ninguém bebesse mais, que todos os membros do batalhão se abstivessem de consumir bebida alcoólica durante sete dias.

— Ora, não sou idiota. Não se pode esperar que uma ordem dessas seja obedecida rigorosamente, mas a mensagem foi clara — controlem-se. Não quero saber de brigas por causa de bebedeiras! — explicou Winters em 1990, referindo-se à ordem inesperada.

À tarde, Nixon solicitou a presença do capitão Nixon. — Nix — ele disse —, fique sóbrio, que lhe mostrarei algo que você nunca viu na vida.

Na manhã seguinte, 7 de maio, Nixon apresentou-se a Winters, sóbrio, e perguntou-lhe: — O que era aquilo que você disse ontem que iria mostrar-me? — Winters pegou um jipe, e ambos seguiram para o clube dos oficiais. Quando Winters abriu a porta da adega, “Nixon achou que tinha morrido e havia ido para o paraíso”.

Ele deve ter tido certeza disso quando Winters lhe disse: — Pegue o que quiser e depois providencie para que cada companhia e QG de batalhão traga um caminhão e o encha de bebidas. Você manda.

Foi como a realização do sonho de um alcoólatra, a chegada a um paraíso indescritível. A primeira decisão de seu encargo foi escolher o que havia de melhor nesse acervo de bebidas que reunia grandes marcas de fama mundial e depois dar uma chance a seus amigos de pegar tudo que quisessem, para que aproveitassem com Nixon essa oportunidade perfeita para comemorar o fim da guerra e o fato de que ele ainda estava vivo.

Se quiser saber as conseqüências disso, veja a fotografia de Nixon na manhã de 8 de maio.

Para a companhia como um todo, a comemoração foi grandiosa e irresistível. Apesar das ordens de Winters e do revezamento de serviço da guarda do local, eles fizeram uma festa. E tinham de fazer mesmo: no dia 7 de maio, os alemães se renderam em Reims ao general Eisenhower, e correram rapidamente pela Europa a ordem para cessar fogo e a informação de que as cortinas de blecaute podiam ser removidas, para que a luz da paz pudesse irradiar-se. Notícias da rendição dos alemães, Winston Churchill disse, foram “o sinal para a maior explosão de alegria na história da humanidade”. E os membros da Companhia E não deixaram de providenciar para que Berchtesgaden participasse plenamente dessa festa.

Carson lembrou-se da ocasião em que, assim que a distribuição das bebidas de Goering começou, “ouvíamos o espocar da abertura de garrafas de champanhe o dia inteiro”. Quando a comemoração ganhou mais animação, o capitão Speirs começou a ficar mais preocupado com possíveis excessos. O sargento Mercier, lembrado pelo praça O’Keefe como “o mais profissional de nossos soldados”, entrou no espírito festivo do momento quando pôs um uniforme de oficial alemão completo, coroando a brincadeira com um monóculo no olho direito. Na ocasião, alguém teve a brilhante idéia de fazê-lo marchar até a sala da ordenança da companhia e entregá-lo como prisioneiro, sob a mira de um fuzil, ao capitão Speirs.

Mas alguém informou Speirs do que estava acontecendo antes de Mercier aparecer na sala. Quando os soldados puseram Mercier diante da mesa de Speirs, espetando-o ligeiramente com as baionetas, Speirs nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça. Um dos soldados bateu continência e declarou: — Senhor, capturamos este oficial alemão. Que devemos fazer com ele?

— Leve-o lá para fora e mate-o — Speirs respondeu, sem erguer os olhos.

— Senhor — exclamou Mercier —, por favor, senhor, sou eu, o sargento Mercier.

— Mercier, tire esse uniforme idiota — Speirs ordenou.

Logo depois, ele reuniu a companhia. Disse que notara que os soldados relativamente novos na unidade estavam comemorando em desproporção com a contribuição que tinham dado à consecução da vitória e que queria que moderassem sua atitude. Não queria mais, por exemplo, que fizessem disparos de arma de fogo, principalmente de armas alemãs, pois estas deixavam todos sobressaltados quando eram usadas.

Mas tentar parar a comemoração era como tentar deter uma correnteza. Nem mesmo Speirs pôde resistir a ela. No QG da companhia, ele e o sargento Carson sentaram-se na sala da ordenança e abriram várias garrafas de champanhe. Eles jogavam as garrafas vazias pelas portas francesas. Em pouco tempo, havia uma pilha de garrafas lá fora. Speirs e Carson foram até a varanda para tomar um pouco de ar fresco. Eles olharam para as garrafas.

— Você é bom com essa pistola .45? — perguntou Speirs. Carson disse que era.

— Vejamos se você consegue arrancar o gargalo de uma delas. — Carson mirou, disparou e despedaçou uma das garrafas. Speirs fez a sua tentativa, mas obteve o mesmo resultado. Em pouco tempo, eles estavam atirando sem parar.

O sargento Talbert chegou correndo, rosto afogueado, pronto para atirar nos transgressores da ordem emitida pelo comando da companhia. O primeiro que ele viu foi Carson. — Carson, vou arrancar seu traseiro por isso — bradou Talbert. Assim que ele começou a explicar que o capitão Speirs não queria saber de tiroteios, Speirs apareceu por trás de Carson com a .45 na mão, fumegante.

Depois de alguns segundos de silêncio, Speirs falou: — Desculpe, sargento. Eu provoquei isto. Esqueci minha própria ordem.

Enquanto isso, Webster, Luz e O’Keefe acharam a adega de Goering. Mas chegaram tarde; os outros membros da Easy já haviam estado lá, e Winters tinha retirado os guardas, abrindo as portas da adega para todos. Quando Webster, Luz e O’Keefe se dirigiam para o local no Volkswagen de Luz, viram um fluxo contínuo de caminhões alemães, Volkswagens e até mesmo carros blindados subindo a estrada sinuosa da montanha em demanda do clube dos oficiais.

O último contingente de membros da Companhia E levava consigo um caixote, o qual encheu de garrafas. — Fiquei chocado ao ver que a maior parte do champanhe era nova e de qualidade medíocre — observou Webster. — Não havia nenhuma garrafa de conhaque Napoleão, e a champanhe era de uma safra do fim da década de 30. Fiquei desapontado com Hitler.

Webster deixou de levar em consideração o fato de que Nixon tinha chegado lá antes dele, que Nixon era um conhecedor de bebidas finas e que ele as tinha selecionado e enchido cinco caminhões com elas para ele e os outros oficiais bem antes de Webster, também um pretenso entendido do assunto, chegar.

— Nessa ocasião — comentou Nixon espirituosamente —, o homem de Yale [Nixon] fez valer sua condição de oficial sobre o jovem de Harvard.

Do lado de fora do clube, Webster, Luz e O’Keefe depararam um grupo de soldados franceses, que bebiam e gritavam “La guerre est finis! La guerre est finis!” enquanto faziam disparos com suas submetralhadoras para o alto, davam tapinhas nas costas dos americanos, pediam-lhes cigarros e ofereciam drinques a eles.

Os americanos distribuíram cigarros, apertaram mãos em toda parte e partiram o mais rapidamente possível em demanda do apartamento deles. E lá, escreveu Webster, “iniciamos uma festa sem igual, com a abertura e o derramamento de champanhe e a quebra de garrafas, acompanhados de risadas sonoras, gritos estridentes, receios e frases balbuciadas. — Mais um poco. Ei, eu abro ixo — é a minha vex. Não é uma maravia? Divetido. Enche. Cadê o Hitler? Temos que agradecer a Hitler, exe filho da mãe. Bershteshgaden, eu amo você.

— E assim foi o fim da guerra.

Todos na Europa comemoravam, os vitoriosos e os vencidos. Os que comemoravam mais intensamente eram os jovens fardados. Eles tinham sobrevivido; agora, viveriam. Eles tinham o melhor dos motivos para comemorar.

Na manhã do dia 8 de maio, O’Keefe e Harry Lager saíram à procura de ovos. Depois de algum tempo, depararam uma chácara numa clareira, com fumaça saindo da chaminé. Eles arrombaram a porta com os pés, invadiram-na impetuosamente com os fuzis prontos para atirar e quase mataram de susto dois desertores italianos, que se puseram de pé num pulo e congelaram de medo.

Havia uma garrafa de champanhe sobre uma mesa. Com um movimento rápido, o italiano mais próximo dela agarrou-a pelo gargalo, estendeu o braço bruscamente na direção de O’Keefe, cujo fuzil estava apontado diretamente para o estômago dele e lhe ofereceu um gole, dizendo — Pax!

A tensão se desfez. Eles fizeram um brinde à paz. Os americanos partiram, para continuar sua busca por ovos. Mais adiante, depararam uma cabana no bosque. “Ela estava muito bem situada”, escreveu O’Keefe. “Um homem beirando os 30 anos em trajes civis estava em pé na varanda. Quando nos aproximamos da escada que dava acesso a ela, ele desceu com um sorriso e disse, em inglês: — A guerra acabou. Ouvi a notícia no rádio.

Ele se mantinha aprumado, mas podia-se notar que tinha um problema na perna esquerda. Quando olhei para ela, ele explicou o que acontecera: — Eu era membro dos Afrika Corps, fui atingido gravemente por uma bala, e me enviaram para casa. Eu fui soldado.

Ele nos convidou para entrar e tomar um copo de vinho. Nós recusamos, mas ele disse: — Esperem! Vou buscá-lo —, e se foi. Ele reapareceu depois com três copos de vinho. Nós os erguemos para brindar quando ele disse: — Ao fim da guerra. — Repetimos o brinde e bebemos. Foi um gesto militarmente solene e digno.”

Eles acabaram conseguindo alguns ovos, voltaram para o apartamento e comemoraram o fim da guerra com ovos mexidos e o champanhe de Hitler.