Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 10
Descansando, Recuperando-se e Ressuprindo-se
MOURMELON-LE-GRAND
26 de novembro-18 de dezembro de 1944
Às 4 horas do dia 26 de novembro, a Companhia E chegou ao quartel de Mourmelon, nas cercanias da vila de Mourmelon-le-Grand (perto do vilarejo de Mourmelon-le-Petit), situado a uns 30 quilômetros de Reims, conhecida como a capital do champanhe e também por conta de sua famosa catedral gótica. Então, a vila de Mourmelon contava pelo menos 1.998 anos como praça de guerra — Júlio César e suas legiões romanas a haviam usado como área de estacionamento em 54 a.C. O exército francês teve quartéis lá durante centenas de anos e ainda faz isso, na década de 1990. Localizada na planície entre o rio Marne, ao Sul, e o rio Aisne, ao Norte, no tradicional eixo de invasão que se estende em direção a Paris (ou em direção ao Reno, dependendo de quem estivesse na defensiva), Mourmelon ficava numa área que testemunhou muitas batalhas através dos séculos. Pouco tempo antes, entre 1914 e 1918, a região tinha sido arrasada. As crateras abertas pela artilharia e as trincheiras da guerra mundial anterior estavam em toda parte. Os recrutas americanos tinham lutado perto dali em 1918, em Château-Thierry e Belleau Wood.
A passagem de serviço na linha de frente para o de praça de guerra foi rápida. A maior novidade do primeiro dia de estacionamento foi o banho quente e a oportunidade de lavar roupas. No segundo dia, a companhia fez um exercício de marcha; no dia seguinte, simulou uma formação de retirada regular com tiros de canhão, e depois houve inspeção de tropas. Em 30 de novembro, a correspondência finalmente alcançou a tropa, aumentando-lhe 100% o moral.
Talvez muitos achem que, depois de mais de dois meses na linha de frente, os pára-quedistas iriam querer dormir durante uma semana. Mas, após uma ou duas experiências desse verdadeiro milagre que é uma noite de sono para o soldado, os rapazes precisaram de um meio para poder gastar sua energia e de uma forma incomum para liberar a tensão acumulada. Em 1º de dezembro, todos conseguiram licença para distrair-se em Reims. Foi o caso também dos membros da 82ª DIA, estacionada perto dali. A mistura era explosiva. Embora Reims estivesse cheia de membros da polícia do exército, já que era o local do QG de Eisenhower, havia muita bebida e, portanto, muitos bêbados e homens inclinados a envolver-se em brigas.
— Por que aquela águia está gritando? — costumava perguntar a um dos colegas um membro da 82ª quando deparavam algum soldado que trouxesse ao ombro a insígnia da Screaming Eagles.
— Socorro! Socorro! Socorro! — era a resposta. E começava a briga. Em 4 de dezembro, todas as licenças para Reims foram suspensas, pois, nas palavras de um soldado, “os rapazes não se comportam na cidade”.
A divisão tentava gastar um pouco o excesso de energia com a realização de marchas de 5 quilômetros, paradas e muitos exercícios físicos. Organizava também jogos de beisebol, basquete e futebol americano. Ela pegou emprestado equipamento de futebol americano da Força Aérea, trazido de avião da Inglaterra, e organizou uma peneira para uma partida entre os melhores dos melhores entre os membros do 506° e do 502° e que ela chamou de Champanhe Bowl de Natal; os escolhidos para formar os times praticavam durante três ou mais horas por dia. Como outras formas de entretenimento, a divisão montou três cinemas e abriu um clube da Cruz Vermelha. A comida era excelente.
Vários dias após a chegada a Mourmelon, a tropa recebeu o pagamento no salão do rancho, no fim do jantar. O sargento Malarkey pegou o soldo e, quando estava prestes a sair, viu uma partida de dados a valer em andamento. Um jogador sortudo tinha conseguido acumular um volumoso maço de notas. Malarkey achou que o lançador não podia continuar a ganhar indefinidamente. Confiante na sorte, fez uma aposta contra ele.
Poucos minutos depois, ele tinha perdido seus três meses de salário. E deixou o refeitório achando-se um idiota — não por ter apostado, mas por ter perdido tudo sem que tivesse lançado os dados uma vez sequer.
De volta ao alojamento, topou com Skip Muck. Havia um jogo de dados em andamento ali também. Malarkey perguntou a Muck se ele pretendia participar do jogo; não, respondeu Muck, pois estava cansado de ficar sem dinheiro o tempo todo. Além disso, ficara apenas com 60 dólares depois de pagar suas apostas de jogos anteriores. Logo em seguida, Malarkey o convenceu a emprestá-lo os 60 dólares e entrou no jogo. Quinze minutos depois, tinha acumulado um bolo de cédulas de francos franceses, libras esterlinas, dólares americanos, francos belgas e florins holandeses. (Eram acaloradas as discussões envolvendo taxa de câmbio entre os participantes; a maioria desses homens detestava matemática quando esteve na escola e tinha sido reprovada nessa matéria, mas, não se sabe como, acabavam conseguindo entender-se a respeito da taxa.)
Malarkey seguiu com o dinheiro para o clube dos recrutas e entrou num jogo do qual participavam cerca de 20 jogadores. Ele pegou 60 dólares e casou sua aposta — a quantia que ele tinha pegado emprestado de Muck. E ganhou. Lançou os dados e ganhou outra vez. E outra. E mais outra. No último lance, estava com 3 mil dólares. E ganhou de novo.
Ele ficou receoso de sair do jogo com mais de 6 mil dólares, quantia que era quase o pagamento da companhia inteira. Então, resolveu pôr as notas de franco de maior valor nos bolsos e continuou no jogo até perder todo o dinheiro americano, britânico, holandês e belga. Quando voltou para o alojamento, devolveu a Muck os 60 dólares e deu-lhe uma gratificação de 500 dólares. Ainda lhe restaram 3.600 dólares.
Os soldados foram postos para trabalhar na melhoria dos alojamentos. Seus ocupantes mais recentes então tinham sido duas divisões de infantaria alemãs e vários esquadrões de cavalaria leve. Ordens do dia alemãs, pôsteres de propaganda ideológica e coisas semelhantes cobriam as paredes. Eles removeram tudo, limparam o estrume de cavalos, restauraram beliches e repararam latrinas e estradas. “E, entremeando todas as tarefas”, informava o Currahee, o álbum de recortes do 506°, “havia a expectativa da folga em Paris. De manhã à noite e a qualquer lugar que se fosse, era só no que se ouvia falar.”
De acordo com a política da divisão, somente uma companhia de cada vez poderia ir a Paris, e não membros de várias unidades ao mesmo tempo. Os membros das companhias que iam lá voltavam com histórias que superavam as que seus pais lhes contaram depois de visitar Paris na 1ª Guerra. Os que ficavam esperando a vez discutiam o tempo todo o que fariam quando chegassem à cidade.
Entre os que fizeram a visita, houve alguns casos de puro e simples desperdício da folga. Dick Winters foi um dos que conseguiram licença; ele foi para Paris, pegou o metrô e seguiu até o fim da linha. Lá, descobriu que tinha pegado o último trem do dia. E tinha anoitecido. A cidade estava sob regime de blecaute. Ele voltou a pé para o hotel e só chegou lá depois da meia-noite. No dia seguinte, voltou para Mourmelon de trem.
— Essa foi minha grande noite em Paris.
O praça Bradford Freeman, de Lowndes County, Mississípi, obteve sua licença também. Ele nos fala do dia de folga que passou na Cidade Luz:
— Não achei interessante o que vi. E voltei para o acampamento. Eles não pareciam ter pressa em visitar Paris, já que a impressão geral era de que os pára-quedistas ficariam no estacionamento até que o tempo bom, propício à retomada da campanha, retornasse na primavera. A expectativa deles era de que, quando o tempo melhorasse, saltariam na Alemanha, no outro lado do Reno. Ela foi reforçada quando o general Taylor voltou de avião para os Estados Unidos com o intuito de participar de conferências que tratavam das propostas de mudanças envolvendo a organização e o equipamento das divisões aerotransportadas americanas. E se transformou em certeza no dia 10 de dezembro, quando o assessor de Taylor, o general-de-brigada Gerald Higgins, seguiu de avião para a Inglaterra com cinco oficiais superiores da 101ª para dar uma série de palestras sobre a MARKET-GARDEN. O comando foi passado para o general-de-brigada Anthony McAuliffe, o comandante da artilharia da divisão.
Os veteranos estavam voltando do hospital, e novos recrutas chegavam. Buck Compton voltou para a companhia, depois de recuperar-se do ferimento que sofrera na Holanda. O tenente Jack Foley, que havia sido engajado como substituto na última semana das tropas na Holanda, tornou-se assistente de líder do 2º Pelotão, comandado pelo tenente Compton. Os combatentes, nas palavras de Foley, “eram uma mistura de experientes veteranos, alguns dos quais contando apenas a campanha na Holanda em seu histórico de guerra, e, logicamente, de substitutos inexperientes”.
Os substitutos, jovens com 18 e 19 anos de idade vindos direto dos Estados Unidos, ficaram espantados. Embora os veteranos fossem apenas um ou dois anos mais velhos do que eles, pareceram assustadores aos recrutas. Eles haviam sido instruídos para entregar a munição quando saíram da Holanda, mas quase nenhum deles fez isso. Circulavam por Camp Mourmelon com granadas de mão penduradas no cinto, pentes de munição no arnês, e traziam suas facas de campanha presas à cintura (sem permissão). Aos recrutas, pareciam um bando de assassinos da Legião Estrangeira. Aos veteranos, os recrutas pareciam “molengas”. O tenente Dike, comandante de companhia, Welsh, Shames, Foley, Compton e outros oficiais empenharam-se em integrar os recrutas às unidades, para fazê-los alcançar o padrão de equipe e capacidade individual da Easy, mas isso foi difícil, já que os veteranos não conseguiam levar a sério as manobras de instrução.
No fim da segunda semana de dezembro, a companhia tinha recuperado os 65% de seu efetivo de recrutas. Seu contingente de oficiais era de 112,5%, com Dike no comando, Welsh no posto de subcomandante e dois tenentes por pelotão, além de um na reserva. Em outras palavras, os comandantes da divisão achavam que as baixas no combate seguinte seriam as mais altas entre os graduados. Welsh era então o mais velho oficial da companhia e não estivera em Toccoa. Apenas Welsh e Compton haviam estado na Normandia com a Easy; Welsh, Compton, Dike, Shames e Foley haviam passado algum tempo na Holanda.
Eram os graduados que davam continuidade à companhia e mantinham-na coesa. Entre os graduados que tinham começado em Toccoa como soldados estavam Lipton, Talbert, Martin, Luz, Perconte, Muck, Christenson, Randleman, Rader, Gordon, Toye, Guarnere, Carson, Boyle, Guth, Taylor, Malarkey e outros. O fato de que muitos oficiais de Toccoa estavam no 506° ou no estado-maior do 2º Batalhão ajudava a Easy a manter a coesão da unidade. Entre eles, estavam o major Hester e o capitão Matheson (S-3ºperações e treinamento, e S-4, setor de logística e suprimento do batalhão) e os capitães Winters e Nixon (subcomando e S-2, inteligência do estado-maior do batalhão). De um modo geral, porém, e depois de meio ano de combate, a Easy recebeu novos oficiais e novos soldados. Mas seu núcleo, formado pelos graduados, ainda era composto pelos homens de Toccoa que tinham subido e descido o monte Currahee nos dias quentes de agosto de 1942 na companhia e sob as ordens de Sobel.
Muitos dos soldados com os quais eles tinham subido o Currahee correndo estavam no hospital, na Inglaterra. Alguns deles jamais correriam novamente. Outros, com ferimentos apenas no corpo, estavam em vias de recuperação. No Hospital Geral americano da 110a, situado nas cercanias de Oxford, três membros do 1º Pelotão, da Companhia E, estavam na mesma enfermaria. Webster, Liebgott e o cabo Thomas McCreary tinham sido feridos em 5 de outubro: Webster, na perna; Liebgott, no cotovelo; e McCreary, no pescoço. Webster andava às voltas com a arte de escrever: em seu diário, ele fez uma descrição dos colegas: “Liebgott, 55 quilos, ex-motorista de táxi de São Francisco, era o mais magro e, quando não se tratava de dinheiro, o mais engraçado da Companhia E. Ele tinha a qualidade especial de ser um dos poucos judeus entre os pára-quedistas. Além disso, tanto ele quanto McCreary, antiquadões na faixa dos 30 anos, eram os coroas da companhia. McCreary era um sujeito alegre e bem-humorado, que, nas palavras dele, tinha sido criado com uma mamadeira de cerveja e havia sido educado no ‘Motor Inn’, em Pittsburgh.”
De acordo com Webster, “o lugar mais alegre no hospital da 110a era a enfermaria dos amputados, onde a maioria dos jovens, sabendo que a guerra tinha terminado para eles, riam, contavam piadas e falavam sobre a família”. Webster estava certo quando disse “a maioria”, em vez de “todos”, já que alguns dos que tinham sofrido o chamado “ferimento de um milhão de dólares” não teriam dado um centavo sequer para consegui-lo. Leo Boyle, internado em outra enfermaria do hospital da 110a, disse numa carta enviada a Winters: “Prezado senhor, agora que cheguei até aqui, que se dane se sei escrever ou não!
Depois de duas experiências, posso dizer que não é o trauma do ferimento em si que você carrega consigo mesmo. É a consciência de que você ficará fora do quadro (combate) durante algum tempo — em meu caso, durante longo tempo.
Não tenho esperança de poder estar de pé antes do Natal. Mas tenho certeza de que ficarei bom algum dia, como se fosse uma nova pessoa Não sofri lesão óssea, apenas muscular e tecidual, e tenho uma grande área difícil de enxertar.
E, senhor, cuide-se (e faça isso mais do que faz exercícios), pelo motivo de que existem poucos como o senhor e, certamente, nenhum que possa substituí-lo.”
Ele disse ainda que Webster, Liebgott, Leo Matz, Paul Rogers, George Luz e Bill Guarnere, todos internados também durante mais ou menos tempo no hospital da 101ª, tinham ido visitá-lo.
Quarenta e quatro anos depois, Boyle escreveu: “Jamais me conformei totalmente com a separação que sofri da vida de pára-quedista — separado que fui de meus amigos, sem jamais poder saltar novamente. Eu era ‘ligado’ a essa vida ou viciado nela. Senti-me enganado e fiquei quase invariavelmente irascível e mal-humorado por causa disso nos 12 meses de recuperação que passei nos hospitais.”
Liebgott requereu, e obteve, uma dispensa do serviço e depois a permissão para voltar. Foi o caso também de McCreary, Guarnere e outros. Como foi dito, isso não era porque ardia neles o desejo de combater, mas porque sabiam que teriam de lutar com outros e queriam que esses fossem os membros da Companhia E. “Se eu tivesse escolha”, disse Webster em carta enviada aos pais, “jamais voltaria a combater. Mas, por não ter escolha, voltarei para a Companhia E e me prepararei para outro salto. Se eu morrer, espero que seja rápido.” Em outra carta, ele disse: “Saber que não se tem como fugir disto, que teremos de saltar na Alemanha e que depois seremos levados direto para o Pacífico, a fim de lutar na China, deixa-nos sem motivo para ser otimistas. Como a infantaria, nossa única saída é ser ferido ou evacuado.”
Webster foi levado para uma enfermaria de reabilitação. Depois, no fim de dezembro, para o 12° Posto de Substituição, em Tidworth, Inglaterra. Esse posto, tal como o 10°, era notoriamente conhecido no TOGE pelo sadismo de seu comandante, sua ineficiência, seu ambiente mesquinho, sua sujeira, sua péssima comida e suas condições gerais, que praticamente em nada superavam as de uma prisão do exército. Era óbvio que o exército queria tornar as coisas tão ruins que os veteranos recuperados de seus ferimentos, ou pelo menos em parte, ou capazes de andar sem ajuda, achariam melhor voltar para a linha de combate. Jim Alley, ferido na Holanda, recuperou-se num hospital na Inglaterra, deixou o 12° Posto de Substituição sem autorização e pegou carona para Le Havre e depois para Mourmelon, aonde chegou em 15 de dezembro. Guarnere e outros fizeram o mesmo.
Webster não. Havia muito que ele tinha adotado como preceito pessoal em sua vida de militar jamais fazer algo voluntariamente. Ele era intelectual, bem como observador e cronista dos fenômenos presentes na vida de soldados profissionais. Ele era um dos únicos soldados originários de Toccoa que não se tornou graduado. Vários oficiais quiseram fazer dele líder de esquadrão, mas ele recusou a oferta. Ele estava ali para cumprir seu dever e o cumpriu — jamais desapontou um amigo em combate, na França, na Holanda ou na Alemanha —, mas nunca se apresentava como voluntário para nada e rejeitava promoções.
A euforia era grande em Mourmelon. Agora que a Easy estava num estacionamento mais ou menos permanente, a tropa podia contar com a chegada de mais correspondência e nutrir a esperança de que caixas de presente de Natal chegariam até ela. Dominava no ambiente a expectativa da folga em Paris; com um pouco de sorte, a Easy poderia estar em Paris na véspera do Ano-Novo. Havia também a proximidade do Champanhe Bowl, programa para o Natal, com uma ceia de peru logo em seguida. Já então eram pesadas as apostas envolvendo o vencedor dessa partida de futebol, e as sessões de treinamento iam ficando cada vez mais longas e duras.
O futuro depois do Natal parecia muito promissor, do ponto de vista de uma companhia de fuzileiros no meio da maior guerra de todos os tempos. Não haveria combate para a Easy até pelo menos os meados de março. Depois, viria o salto em território alemão e, em seguida, a transferência para o Pacífico, com o objetivo de travar combate na China ou de realizar um salto no Japão. Mas tudo isso ainda estava muito distante. A Easy tratava era de preparar-se para o Natal.
Os sargentos tinham os próprios alojamentos em Mourmelon. Na noite de 16 de dezembro, Martin, Guarnere e alguns outros conseguiram uma caixa de champanhe e a levaram para os alojamentos. Eles não estavam acostumados com a bebida espumante. Martin incumbiu-se de abrir algumas garrafas; os outros sargentos estendiam o braço com o caneco na mão e o deixavam encher até a beira.
— Ei, chapa — queixou-se Christenson —, pelo amor de Deus, isto é refrigerante!
Eles beberam um dos melhores champanhes do mundo como se fosse refrigerante, com resultados inevitáveis. E veio a briga:
— Tenho de admitir que participei dela — Martin confessou —, e destroçamos todos aqueles beliches, e, com seus pregos expostos, furei o pé. Olha, foi uma verdadeira guerra aquilo lá.
O primeiro-sargento Carwood Lipton foi até os alojamentos, deu uma olhada e começou a gritar:
— Esperamos de vocês o comportamento de líderes. Um grupo de sargentos fazendo uma bagunça destas. — Ele os fez limpar a sujeira antes de deixar que fossem dormir e ficassem livres do efeito da bebida.
Nessa mesma noite, Winters e Nixon eram os únicos oficiais do estado-maior do QG do batalhão. Os outros tinham ido para Paris. O soldado Joe Lesniewski foi ver um filme num dos cinemas de Mourmelon, cuja estrela principal era Marlene Dietrich. Gordon Carson tratou de ir dormir cedo, já que tinha um treinamento para a partida de futebol na manhã seguinte.
Winters e Nixon souberam pelo rádio que todas as licenças haviam sido canceladas. No cineteatro, as luzes foram acesas, e um oficial subiu ao palco para anunciar que os alemães tinham rompido a linha de defesa americana nas Ardenas. Nos alojamentos, Carson, Gordon e outros foram acordados pelo guarda dos alojamentos, que acendeu as luzes e relatou a ruptura. — Cale-se — tornaram os colegas, aos gritos. — Cai fora daqui! — Isso era problema do VIII Corpo de Exércitos, do I Exército. Eles voltaram a dormir.
Mas, de manhã, quando a companhia entrou em forma, depois da alvorada, o tenente Dike disse a eles: — Depois do rancho, continuem firmes. — Ele não ia levá-los para treinar, como de costume. Com essa ordem, ele quis dizer “estejam a postos”. Dike disse a eles que matassem o tempo limpando os alojamentos. Obviamente, o que estava acontecendo nas Ardenas acabaria mesmo sendo problema da 82ª e da 101ª DIA.
Hitler lançou sua última ofensiva em 16 de dezembro, nas Ardenas, numa escala muito maior do que a ofensiva de 1940, no mesmo lugar e contra o exército francês. Ele conseguiu surpreender totalmente o inimigo. O Serviço de Inteligência Americano nas Ardenas calculou que as forças alemãs que enfrentariam o VIII Corpo de Exércitos eram de quatro divisões. Em verdade, por volta do dia 15 de dezembro, as Wehrmacht tinham 25 divisões no maciço de Eifel, do outro lado das Ardenas. A surpresa lograda pelos alemães é comparável à da Operação Barbarossa, em junho de 1941, ou à do ataque a Pearl Harbor.
Essa surpresa foi conseguida, tal como ocorre com a maioria das operações militares dessa espécie, porque a ofensiva não fazia sentido. Foi tola a idéia de Hitler de usar todo o seu efetivo de blindados numa ofensiva que não tinha nenhum objetivo estratégico genuíno, ofensiva que ele não tinha como manter, a menos que suas guarnições de tanques tivessem a grande sorte de capturar importantes depósitos de combustíveis americanos intactos.
Essa surpresa foi lograda, tal como ocorre com a maioria das operações militares dessa espécie, porque os defensores estavam tomados de um excesso de confiança grosseiro. Mesmo depois do fiasco da operação MARKET-GARDEN, os Aliados acreditavam que os alemães estavam praticamente acabados. No QG de Eisenhower, os oficiais tratavam de pensar no que os exércitos aliados poderiam fazer aos alemães e não no que os alemães poderiam fazer a eles. A idéia dominante era que, se conseguíssemos fazê-los sair de trás da Linha Siegfried, terminaríamos o trabalho. Essa idéia predominava do alto comando aos recrutas. O sargento George Koskimaki, membro da 101ª, escreveu em seu diário em 17 de dezembro: “Foi outro domingo tranqüilo... O rádio anunciou um grande ataque alemão contra as fileiras do I Exército. Isso vai acabar
com o que resta das forças alemãs.”{52}
A surpresa ocorreu, tal como ocorre com a maioria das operações militares desse tipo, porque as forças ofensivas fizeram um bom trabalho de ocultação e dissimulação. Os alemães reuniram dois exércitos no maciço de Eifel sem que o Serviço de Inteligência dos Aliados os visse uma vez sequer. Por meio de judicioso emprego que fizeram das comunicações via rádio, induziram o G-2 de Eisenhower a fixar a atenção nas Ardenas, à espera de um possível contra-ataque alemão (ninguém entre os Aliados pensou um minuto sequer na idéia de que uma contra-ofensiva alemã fosse possível). Seis meses antes, na véspera do Dia D, Eisenhower e seus oficiais conseguiram fazer uma interpretação quase perfeita da ordem de batalha alemã na Normandia. Já em dezembro, na véspera do ataque alemão, a interpretação que Eisenhower e seus oficiais conseguiram fazer da ordem de batalha dos alemães foi grosseira e imprecisa.
Além disso, os Aliados deixaram-se enganar profundamente quanto à vontade de lutar dos alemães, à situação de seus equipamentos bélicos, à ousadia de Hitler e à capacidade dos oficiais alemães em manobras ofensivas (os generais americanos no acampamento dos Aliados não tinham nenhuma experiência em operações de defesa contra ofensivas alemãs).
O resultado disso foi a maior das batalhas na linha de frente da Europa Ocidental na 2ª Guerra e o maior de todos os confrontos experimentados pelo exército americano. As perdas humanas foram assustadoras: dos 600 mil soldados americanos envolvidos, quase 20 mil foram mortos, outros 20 mil foram capturados e 40 mil foram feridos. Duas divisões de infantaria foram aniquiladas; numa delas, a 106ª, 7.500 soldados se renderam, a maior rendição em massa na guerra contra a Alemanha. Quase 800 tanques americanos Sherman e outras viaturas blindadas foram destruídos.
A batalha começou no amanhecer frio e nevoento de 16 de dezembro. Os alemães lograram rupturas em muitos pontos nas fileiras escassamente defendidas do VIII Corpo de Exércitos. Hitler contara com o mau tempo para anular a maior vantagem dos Aliados, o poderio aéreo (em terra, tanto em número de homens quanto em veículos blindados, os alemães superavam os americanos). Hitler contava também com o fator surpresa, que foi alcançado, como disse, e com uma reação lenta por parte dos americanos. Ele calculou que Eisenhower levaria dois ou três dias para conhecer a magnitude do esforço que os alemães estavam fazendo, mais dois ou três para persuadir seus superiores a deslocar as forças ofensivas dos Aliados do norte e do sul das Ardenas e depois mais dois ou três para começar a receber reforços significativos para a batalha. A essa altura, ele esperava que as forças blindadas alemãs estivessem em Antuérpia.
Mas suas últimas suposições estavam erradas. Na manhã do dia 17 de dezembro, Eisenhower tomou decisões críticas para a batalha inteira e fez isso sem consultar ninguém fora de seu corpo de assessores. Ele determinou que os cruzamentos rodoviários da cidade de Bastogne eram pontos que deveriam ser defendidos a qualquer custo. (Bastogne fica numa área relativamente plana na região predominantemente acidentada e montanhosa das Ardenas, razão pela qual as estradas da região convergem para aquela cidade.) Por causa de suas ofensivas no norte e no sul das Ardenas, Eisenhower não dispunha de nenhuma reserva estratégica, mas tinha a 82ª e a 101ª, unidades que estavam descansando e ressuprindo-se, e das quais, portanto, ele podia dispor. Então, ele decidiu usar os pára-quedistas para tapar os buracos em suas fileiras e defender Bastogne.
Eisenhower acabou de vez com as suposições de Hitler pondo em jogo sua arma secreta. Numa época em que a maior parte do exército alemão ainda era movida a tração animal, os americanos tinham milhares e milhares de caminhões e carretas na França. Eles estavam sendo usados para transportar tropas, material bélico e gasolina das praias da Normandia para a frente de batalha. Eisenhower ordenou que interrompessem tudo que estivessem fazendo e começassem a levar reforços para as Ardenas.
O cumprimento dessa ordem só pode ser considerado incrível. Só em 17 de dezembro, 11 mil caminhões e carretas transportaram 60 mil soldados, além de munição, gasolina, medicamentos e outros materiais, para as Ardenas. Na primeira semana de batalha, Eisenhower conseguiu levar 250 mil soldados e 50 mil veículos para a batalha. Essa operação foi uma mistura de mobilização e vingança. Foi um cometimento sem precedentes na história das guerras. Nem mesmo no Vietnã, nem mesmo na Guerra do Golfo, em 1991, o exército americano conseguiu mobilizar tantos soldados e tantos equipamentos tão rapidamente.
A Companhia E teve o seu papel nesse drama gigantesco graças ao Corpo de Transportes e seus motoristas, a maioria deles soldados negros do famoso Red Ball Express. Às 20h30 do dia 17 de dezembro, as ordens de Eisenhower para que a 82ª e a 101ª seguissem para o norte, em demanda de Bastogne, chegaram ao QG das divisões. Elas foram repassadas aos regimentos, batalhões e companhias — preparem-se para o combate, os caminhões chegarão pela manhã; vamos partir.
— Eu não — disse Gordon. — Estou me preparando para jogar a partida de futebol no Natal.
— Não, você não vai jogar — tornou o tenente Dike. E os preparativos começaram num ritmo frenético. Mourmelon não tinha depósito de munição; a tropa ficara apenas com a munição que havia trazido da Holanda, mas agora não havia nenhuma. A Easy não tinha ainda todo o seu efetivo ou seu equipamento completo. Alguns soldados não tinham capacete (mas tinham capacete para jogar futebol americano, embora não fosse de aço). A companhia estava precisando de algumas metralhadoras e operadores. A tropa não tinha recebido roupas de inverno. Suas botas não eram forradas ou resistentes a intempéries. Não tinha também ceroulas de inverno ou meias de lã longas. Ela tratava de arranjar o que fosse possível, mas não conseguia muito. Até mesmos as rações K eram escassas. Desse modo, quando a Easy partiu de encontro às Wehrmacht para enfrentar a última e maior das ofensivas alemãs, a companhia estava estressada, inadequadamente equipada e insuficientemente armada.
Além disso, tinha saído no cumprimento de uma operação às cegas. Uma vez que nem mesmo o general McAuliffe sabia o destino da 101ª até então, obviamente o coronel Sink não tinha informações para repassar ao capitão Winters, que, por sua vez, não tinha como fazer isso em relação ao tenente Dike. Tudo que sabiam era que os alemães tinham provocado um enorme buraco na linha, que as forças americanas estavam em retirada, que alguém tinha de tapar esse buraco e que esse alguém era o Corpo de Exércitos Aerotransportados.
O tempo impossibilitava uma operação de salto, e, em todo caso, era de duvidar que fosse possível reunir um número suficiente de C-47s com bastante rapidez para suprir essa necessidade. Mas o Corpo de Transporte de Tropas, agindo com o máximo de presteza, reuniu seus caminhões espalhados por toda a França, principalmente na região entre Le Havre e Paris. A polícia do exército parava os caminhões, as tropas do Serviço de Intendência os descarregavam, e os motoristas — muitos dos quais havia muito que estavam na estrada e precisavam urgentemente de descanso — recebiam ordens de que deveriam seguir para o quartel de Mourmelon sem parar para nada.
A operação iniciou-se ao anoitecer do dia 17 de dezembro. Por volta das 9 horas do dia seguinte, os primeiros caminhões e as carretas começaram a chegar a Mourmelon. O restante dos 380 caminhões necessários ao transporte dos 11 mil soldados da 101ª chegou ao acampamento às 17h20. Em torno das 20 horas, o último combatente foi embarcado.
Pouco antes de a Easy partir, Malarkey entrou em pânico. Ele se lembrou de que tinha 3.600 dólares na pochete. Ele pediu ajuda ao tenente Compton; este o pôs em contato com um oficial-fiscal da divisão, que disse a ele que depositaria o dinheiro e que, se ele fizesse isso, Malarkey somente poderia reavê-lo quando fosse dispensado. Malarkey achou isso ótimo; ele entregou o dinheiro e pegou o recibo. Depois, subiu no caminhão feliz com a idéia de que, depois da guerra, poderia voltar para a University of Oregon sem ter de lavar pratos para poder estudar.
— Ficamos espremidos como sardinhas enlatadas — observou o praça Freeman.
O capitão Winters propôs uma imagem diferente:
— Você ficava como um animal lá dentro; eles nos espremiam na carreta como se ela fosse um vagão de transporte de gado.
Quando os caminhões partiram, Carson começou a pensar no treinamento para a partida de futebol, que ele aguardava com grande expectativa e satisfação, em contraste com a situação então, e começou a cantar What a Difference a Day Makes.
Os caminhões não tinham assentos, e muito pouco do que se poderiam chamar de amortecedores. Toda curva que eles faziam jogava os soldados de um lado para o outro; e toda irregularidade da estrada jogava estes para cima. Isso lhes castigava os rins — o alívio vinha somente quando os caminhões paravam para coligar o comboio — e as pernas. Os caminhões seguiram com as luzes acesas até alcançar a fronteira com a Bélgica, risco calculado assumido em prol da velocidade.
Enquanto os pára-quedistas transportados por caminhões estavam na estrada, o comando do VIII Corpo de Exércitos decidiu onde empregá-los. A 82ª iria para o setor norte da penetração, perto de St.-Vith. A 101ª seguiria para Bastogne.
Os caminhões que transportavam a Easy pararam a alguns quilômetros de Bastogne. Os soldados saltaram — saíram pela retaguarda, segundo eles —, fizeram suas necessidades, relaxaram, resmungaram e formaram colunas para marchar até Bastogne. De onde estavam, podiam ouvir o tiroteio. — Lá vamos nós outra vez — disse o praça Freeman.
As colunas seguiram pelas beiras da estrada, em direção à linha de batalha; em dado momento, viram as tropas americanas derrotadas vindo na direção delas pelo meio da estrada, fugindo da frente de batalha desordenadamente, como uma turba em polvorosa. Muitos desses soldados tinham jogado fora seus fuzis, seus casacos, tudo que lhes fosse estorvo. Alguns estavam em pânico, cambaleantes, exaustos, e gritavam:
— Corram! Corram! Eles os matarão! Matarão vocês! Eles têm tudo, tanques, metralhadoras, poderio aéreo, tudo!
— Eles não sabiam o que estavam dizendo — ponderou o capitão Richard Winters. — Foi patético. Ficamos envergonhados.
Quando a Easy e as outras companhias do 2º Batalhão entraram e saíram marchando de Bastogne (seus habitantes lhes ofereceram café quente, não mais que isso), a preocupação dominante na mente dos soldados era a munição. — Onde está a munição? Não podemos lutar sem ela. — Eles conseguiram alguma com os combatentes em debandada. — Você tem munição? — perguntavam os pára-quedistas aos que não se revelavam vítimas de pânico total. — Claro, amigo, com todo prazer. (Gordon viu com ironia o fato de que, quando entregavam a munição, a tropa em retirada se eximia de qualquer obrigação de ficar e lutar.) — Ainda assim, a Easy marchou sem munição suficiente em direção aos estampidos da batalha.
Nas cercanias de Bastogne, lançados para o norte, os ribombos do fogo da artilharia aumentavam. Em pouco tempo, começaram a distinguir os tiros de armas leves. — Onde está essa porcaria de munição?
O segundo-tenente George C. Rice, do S-4 da Equipe Desobry do Comando de Combate B, 10a Divisão Blindada (que tinha ficado para trás em razão da forte pressão que sofrera de Noville a Foy), soube da falta de munição. Ele subiu em seu jipe e foi até Foy, onde encheu o veículo com caixas de granadas de mão e munição de fuzis M-1; depois partiu e encontrou a coluna quando ela saía de Bastogne. Quando distribuía o material enquanto os soldados passavam por ele, percebeu que a necessidade da tropa era muito maior. Ele voltou para o depósito de munição em Foy, achou um caminhão, encheu-o e ao jipe com armas e mais munição, voltou ao encontro da coluna e fez que seus homens as distribuíssem à vontade. Oficiais e soldados puseram-se de quatro para pegar os pentes de M-1. O barulho do tiroteio combinado com o pânico estampado no rosto dos soldados americanos em retirada deixou claro que eles precisariam de todas as balas que pudessem pegar. O tenente Rice providenciou para que elas continuassem a
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chegar até que todos os soldados tivessem tudo que pudessem carregar.
À medida que a Easy se aproximava de Foy, o barulho dos disparos ia aumentando. O 1º Batalhão do 506° estava lá na frente, em Noville, envolvido num combate feroz, tomando uma surra. O coronel Sink decidiu levar o 3º Batalhão para Foy e usar o 2º Batalhão para proteger seu flanco direito. A Easy entrou numa área de bosques e campos abertos, com seu flanco esquerdo voltado para o lado leste do eixo Bastogne-Foy-Noville. A Companhia Fox estava à sua direita, com a Dog na reserva.
Ribombos e estampidos tornavam-se mais intensos. Na retaguarda, ao sul de Bastogne, os alemães estavam prestes a cruzar a rodovia e fechar o cerco da região de Bastogne. A Easy não tinha o apoio de artilharia nem de forças aéreas. Sua comida, sua munição e outros equipamentos necessários eram escassos, e ela não tinha nenhuma roupa de inverno, embora a temperatura tivesse começado a cair para abaixo de zero. Mas, graças ao segundo-tenente Rice, ela dispunha de granadas e munição de M-1.
O Currahee fala sobre isso pela Easy, pelo 2º Batalhão, pelo 506°: “Não estamos lá muito contentes por estar aqui. Correm boatos de que os Krauts estão em toda parte e golpeando firme. Nem nos passa pela cabeça a idéia de uma retirada. Isso não existe mesmo. Portanto, você abre sua trincheira com cuidado e boa profundidade e espera, não pelo super-homem mítico, mas pelo inimigo que você derrotou duas vezes e derrotará novamente. Primeiro, você olha para a esquerda; depois, para a direita, para os colegas, que também se preparam. Você se sente confiante com o Bill ao lado, pois sabe que pode confiar nele.”