Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 18
“A Vida de Sonhos do Soldado”
ÁUSTRIA
8 de maio-31 de julho de 1945
No fim da tarde de 8 de maio, Winters recebeu ordens para preparar o 2º Batalhão para partir à noite rumo a Zell am See, Áustria, cidade situada a cerca de 30 quilômetros de Berchtesgaden, onde a unidade realizaria serviço de ocupação. Às 22 horas, o comboio partiu, com os faróis altos. Na traseira, a tropa continuava a festa, bebendo, cantando, jogando. Quando, de manhã, o comboio chegou a Zell am See, a tropa estava suja, com a barba por fazer e as calças e camisas de serviço do exército imundas.
Havia soldados alemães em toda parte. Zell am See era o último ponto ao Sul para o qual fora possível às Wehrmacht se retirarem; além, ficavam os picos dos Alpes, e, mais adiante, a Itália. Todos os desfiladeiros estavam bloqueados pela neve. A tropa fora informada de que havia por volta de 25 mil soldados alemães armados na área de responsabilidade do 2º Batalhão, que tinha menos de 600 homens.
O disparidade na aparência era quase tão grande quanto a disparidade numérica. Os soldados do exército conquistador pareciam desleixados, amadores, indisciplinados; os soldados do exército vencido eram elegantes, com uma aparência militar impressionante e uma disciplina patente. Winters teve a impressão de que os soldados alemães e os civis austríacos devem ter se perguntado, enquanto fitavam, fascinados, os primeiros soldados americanos a chegar à região, como fora possível terem sido derrotados por esses homens.
Winters estabeleceu o QG do batalhão na vila de Kaprun, 4 quilômetros ao sul de Zell am See. O vale em que se situava era uma das mais famosas estâncias de veraneio de montanha do mundo, muito apreciada principalmente pelos alemães ricos. As
acomodações, que iam dos Zimmer frei {85} nas chácaras ao conforto de hotéis de luxo, eram estupendas. Todos os quartos estavam ocupados por soldados alemães feridos. Mas eles tiveram de sair, de forma que fossem enviados de caminhão ou trem para cercados de prisioneiros na região de Munique. Os americanos se instalaram nos quartos.
O trabalho deles era manter a ordem, recolher todos os soldados alemães, desarmá-los e enviá-los para campos de prisioneiros. Winters começou a trabalhar na manhã de 9 de maio, logo depois de chegar. Ele ordenou que levassem à presença dele o comandante geral alemão da região.
— Eu tinha 27 anos de idade — conta-nos Winters —, e, como todos os soldados, estava usando calças e um casaco de serviço de campanha sujo e muito surrado e trazia um balde na cabeça como capacete. Eu me senti um tanto ridículo em dar ordens a um coronel alemão 20 anos mais velho do que eu e que estava usando um uniforme de campanha limpo, com todas as suas medalhas cobrindo-lhe o peito.
Mesmo assim, Winters transmitiu as ordens. Ele ordenou que o coronel providenciasse que recolhessem todas as armas existentes na região e que as empilhassem no aeroporto, na escola e no pátio da igreja. Permitiu que os oficiais levassem armas à cintura e que a polícia militar alemã continuasse com suas armas. Depois, disse que, no dia seguinte, inspecionaria os campos, as tropas e as cozinhas alemães.
Na manhã seguinte, 10 de maio, Winters e Nixon foram inspecionar três locais de jipe, onde havia uma verdadeira montanha de armas. Winters viu então que tinha cometido um erro quando disse “todas as armas”. Ele se havia referido a armas militares, mas o coronel tomara suas ordens ao pé da letra. Entre outras, havia uma coleção fantástica de espingardas de caça, fuzis, facas de caça, armas antigas de todo tipo, bem como todo o estoque de armas de uma divisão militar inteira. Parecia o suficiente para iniciar a 3ª Guerra Mundial.
Quando inspecionou os campos e as cozinhas, Winters achou tudo muito bem organizado. A tropa estava enfileirada para revista, exibindo um capricho de desfile militar na aparência, limpa, bem-vestida, em excelente forma física. As cozinhas estavam em ordem; os cozinheiros viam-se às voltas com enormes caldeiras de sopa de batata ao fogo.
Dali por diante, Winters passou a tratar com um oficial de estado-maior alemão que falava inglês, que comparecia todas as manhãs ao seu QG para apresentar relatórios e receber ordens. Não houve problemas; nas palavras de Winters, “nós os deixávamos à vontade; eles nos respeitavam”. O oficial de estado-maior alemão tinha o costume de contar histórias sobre seu turno de serviço na frente de batalha na Europa Oriental e os combates contra a 101ª em Bastogne. “Nossos exércitos deveriam unir forças e varrer o exército soviético do mapa”, ele disse a Winters.
— Não, obrigado — Winters respondeu. — Tudo o que quero é sair do exército e voltar para casa.
Isso era o que quase todos queriam, tanto quanto os soldados alemães. Mas, antes que algum deles pudesse ser solto, tinha de passar por uma triagem. Os acampamentos alemães estavam cheios de nazistas, muitos dos quais tinham passado a usar uniformes de recruta para impedir sua identificação. (O mais notório deles foi Adolf Eichmann, que usou um uniforme de recruta da Luftwaffe num campo perto de Berchtesgaden. Ele conseguiu fugir antes de ser identificado, foi para a Argentina com a família e viveu sem problema até 1960, quando agentes israelenses descobriram seu paradeiro, capturaram-no numa ousada operação de seqüestro, levaram-no para Israel a fim de que pudesse ser julgado e enforcaram-no.)
O tenente Lipton estava servindo como líder de um pelotão de metralhadoras na Companhia do QG do 2º Batalhão. Winters o incumbiu de supervisionar um campo com várias centenas de prisioneiros. Um desses prisioneiros era Ferdinand Porsche, projetista da Volkswagen e dos tanques Panther e Tiger. Em meados de maio, Lipton libertou cerca de 150 prisioneiros. O oficial alemão de patente mais alta, um coronel, pediu permissão para fazer-lhes um discurso antes que partissem. Lipton deu-lhe a permissão.
— O discurso dele foi longo e bom — afirma Lipton. — Ele disse a eles que a Alemanha tinha perdido a guerra, que tinham sido bons soldados, que estava orgulhoso deles e que deveriam voltar para seus lares e reconstruir suas vidas. Disse também que todos eram necessários à reconstrução da Alemanha. Quando terminou, a tropa o aplaudiu ruidosamente. — E partiu.
Outros oficiais alemães de alta patente, homens que tinham bons motivos para ter receios de que seriam acusados de crimes de guerra, estavam escondidos nas montanhas. Deslocados de guerra falaram a Speirs sobre o nazista que tinha sido o comandante dos campos de escravos da região e havia cometido muitas atrocidades. Ele investigou, fez perguntas e acabou se convencendo de que os deslocados estavam dizendo a verdade. Investigações mais profundas revelaram que esse homem estava morando numa pequena fazenda nas redondezas.
Speirs solicitou a presença de seu primeiro-sargento, Lynch. Ele explicou a situação e depois deu a ordem: — Pegue Moone, Liebgott e Sisk, achem-no e matem-no.
Lynch reuniu a tropa, explicou-lhe a missão, providenciou uma viatura de armamentos e partiu montanha acima. Durante a viagem, Moone ficou pensando na situação difícil em que se encontrava. Estava certo de que o capitão Speirs não tinha a autoridade para ordenar a execução com base no testemunho dos deslocados de guerra. Mas Speirs era o comandante da companhia, e Moone era apenas um recruta cumprindo ordens. “Não vou fazer essa besteira. Se alguém tiver de cumprir essa execução, não serei eu”, disse consigo mesmo.
Eles chegaram à fazenda e, sem esforço, tomaram o nazista como prisioneiro. Liebgott o interrogou durante 30 minutos e depois declarou que não podia haver dúvida: aquele era o homem que estavam procurando e era culpado do que estava sendo acusado. Os americanos levaram o sujeito sob a mira de armas para a viatura de armamentos e partiram. A certa altura do caminho, Lynch parou ao lado de uma ravina. Nisso, eles cutucaram o alemão com as armas, de forma que ele saísse do veículo. Liebgott sacou a pistola e deu dois tiros nele.
O prisioneiro desatou a gritar, virou-se e começou a subir a montanha. Lynch ordenou que Moone o matasse.
— Mate-o você — respondeu Moone. — A guerra acabou.
Skinny Sisk adiantou-se, mirou o M-1 no homem em fuga e o matou.
* * *
Depois que os prisioneiros e os deslocados de guerra foram submetidos a uma triagem e removidos da região, a tarefa seguinte foi separar e recolher todo equipamento alemão capturado e o equipamento do exército americano que não fosse mais necessário, em razão do fim dos combates. Quando o material foi recolhido e catalogado, comboios de caminhões o levaram para depósitos na França.
Os oficiais tiveram ordens para devolver o mapa de seda de fuga da França que tinham recebido antes das operações de salto na Normandia, pois, do contrário, seriam multados em 75 dólares. Uma vez que esses mapas eram quase sagrados para os veteranos do Dia D, a desobediência à ordem foi geral. Quando recebeu a notificação para o pagamento da multa, Winters respondeu pelo batalhão inteiro, imitando o general McAuliffe em sua maneira singular de recusa de rendição ao oficial do exército alemão: — Neca. — O intendente do regimento, o capitão Herbert Sobel, desistiu de continuar cobrando a multa.
Em face da ausência de resistência — em verdade, por causa do entusiasmo dos alemães e dos austríacos com a presença dos Aliados —, lá pelo fim da terceira semana de maio havia pouco trabalho de fato a ser feito pelos americanos. Todo o serviço de cozinha, toda lavagem de roupa, limpeza de acomodações ou tarefas de construção eram feitos pelos habitantes locais ansiosos por ganhar algum dinheiro ou receber alimento ou cigarros. As horas estavam pesando muito no espírito dos jovens soldados, ansiosos pelo retorno ao lar.
Winters providenciou a construção de uma pista de atletismo, uma quadra de tênis e um campo de beisebol; depois, um campo de provas para fuzileiros. Competições entre companhias, batalhões e regimentos foram organizadas em todo o TOGE. Além disso, Winters os submetia diariamente a marchas em formação compacta.
Alguns soldados adoravam isso. Para os atletas sérios, os que nutriam esperanças de se tornar atletas universitários ou se profissionalizar no futuro, era uma maravilhosa oportunidade para treinar. Eles eram dispensados de todos os serviços, dormiam num dormitório reservado exclusivamente para atletas e passaram a treinar ou competir todo dia. Para os poucos que pretendiam continuar no exército e seguir carreira, era uma chance de praticar a profissão.
Mas, para a maioria, tanto para recrutas quanto para militares de carreira, a ocasião era entediante. Eles fugiam disso de quatro maneiras: como turistas nos Alpes, caçando, bebendo e cortejando mulheres. O Zeller See, um lago com cerca de 4 quilômetros de comprimento e 2 de largura, era de uma beleza de tirar o fôlego e muito agradável para nadar nos dias longos e ensolarados do fim de maio e início de junho. “Meu calção de banho está sendo muito usado”, disse Webster na carta enviada à mãe em 20 de maio. “A senhora poderia fazer o favor de enviar-me um de Abercrombie e Fitch com cores bem alegres o mais rapidamente possível? Número 32, bermuda de preferência, sunga não.”
Na montanha atrás de Kaprun havia um chalé de esquiadores. O teleférico que levava os hóspedes até o chalé fora destruído, mas podia-se chegar lá seguindo por uma trilha. Winters criou um programa para que os pelotões se revezassem no uso das acomodações do chalé a cada três dias. No chalé, havia empregados e cozinheiros austríacos, instrutores de esqui e guias de caça. As condições para a prática de esqui eram fabulosas; muito boas também eram as ocasiões de caça aos cabritos monteses.
Numa parte mais baixa da montanha, havia cervos, centenas deles, já que essa era uma excelente área de caça da aristocracia européia. A 101ª estava na extremidade final da via de distribuição de alimentos. O pessoal dos portos de Cherbourg e Le Havre era o primeiro a tirar a sua parte ao longo da via, e todos tinham namoradas civis para manter e um florescente mercado negro para tentá-los. Com isso, não chegava comida suficiente aos Alpes. Os pára-quedistas resolveram formar grupos de caça de cervos; a carne de veação tornou-se elemento básico na alimentação deles. O praça Freeman conseguiu uma espingarda de caça Browning e com isso suplementou a veação com codorna e carne de outros pássaros.
“Garotas, mulheres, matronas, vadias, moderninhas, mocinhas, prostitutas, beldades, frauleins, mademoiselles: era isso que os rapazes queriam”, Webster escreveu. E ele fala do resultado disso: “Os cozinheiros tinham amantes; os galãs do pelotão estavam freqüentando o celeiro; McCreary tinha uma mulher casada na cidade; Reese instalou a amante numa casa particular; Carson alimentava uma loura polonesa educada, bela e sofisticada (com a qual ele se casou depois); o pessoal do estado-maior do pelotão visitava um campo de deslocados de guerra todas as noites; e, em Zell am See, cidade natal das mais belas mulheres da Europa, os jovens acompanhados de louras bronzeadas realizavam seus sonhos — depois de falar sobre mulheres durante três anos, agora eles tinham o que desejavam. A política de não-confraternização fracassou totalmente.”
Para os que quiseram e estavam em condições de tê-las, Londres, Paris, a região ao longo do Ruhr tinham lá as suas mulheres, mas, nas palavras de Webster, “na Áustria, onde as mulheres eram mais limpas, mais louras, mais bem-feitas de corpo e mais propensas a aceitar galanteios do que em qualquer outra parte da Europa, os recrutas tiveram seus dias de glória”.
O fluxo de bebidas era interminável. “Desde que saímos de Berchtesgaden, tomamos um porre toda noite. Dois dias atrás, pilhamos um armazém das Wehrmacht embalados pelo consumo de algumas caixas de gim — 48 garrafas ao todo. Portanto, o pacote com laranja em pó que vocês me enviaram foi muito oportuno”, disse Webster na carta enviada aos pais em 28 de maio.
O capitão Speirs tinha emitido apenas uma ordem com relação à bebida — nada de bebedeiras fora do quartel. Essa ordem era rigorosamente cumprida pela atuação dos sargentos, que não queriam saber de incidentes com jovens soldados bêbados em serviço de guarda ou simplesmente andando pelas ruas e pelas montanhas. Nos alojamentos, porém, a tropa tinha liberdade para beber tudo que conseguisse arranjar. A maioria bebia mais do que isso.
O esquadrão de Webster tinha sempre à mão uma jarra cheia de chá com gelo e gim. Todas as noites, ele escreveu, “lá pelas 20 horas, Matthews já estava gaguejando e enrolando a língua; Marsh ficava gabando-se de seu esquadrão e quanto seus homens eram obedientes; Sholty permanecia sentado tranqüilamente na cama, sorrindo; Winn ria, gritava e falava sobre Bastogne; McCreary vangloriava-se da própria coragem (‘Amigo, este pelotão não tem ninguém mais corajoso do que eu), sem nenhuma modéstia, embora dissesse a verdade; Gilmore passava roupas freneticamente, manifestação singular e muito bem-vinda de seu alto-astral; Hale esvaziava o copo e tornava a enchê-lo; Chris, que nunca brigava com ninguém, recostava-se a um canto em frio silêncio; a essa altura, Rader tinha apagado, sentado na cadeira; e eu, que também apagara educadamente, sem brigar com ninguém, estava em sono profundo”.
Os rapazes se livravam da ressaca com um pouco de natação à tarde ou uma partida de softball. Winters era abstêmio e não tinha nada contra nem a favor do consumo de bebidas; seus dois melhores amigos, Welsh e Nixon, eram beberrões. Ele jamais ralhou com alguém por embriagar-se fora do serviço. Como contraponto às ocasiões em que se sentia tentado a fazer isso, era lembrado todas as tardes da razão pela qual esses excessos aconteciam. Os rapazes usavam bermudas e nada mais para jogar softball sob o sol quente. Quase todos tinham pelo menos uma cicatriz. Alguns tinham duas, três ou até quatro cicatrizes no tórax, nas costas, nos braços ou nas pernas.
— E considere o fato — ele concluiu — de que, em Kaprun, observei somente os soldados que não tinham sofrido ferimentos graves.
Houve outra coisa que lembrou o preço que a Companhia E e as outras unidades tinham pago para chegar aonde estavam. Às 22 horas do dia 5 de junho, a tropa comemorou o primeiro aniversário do salto que fez na Normandia. Webster ficou impressionado com o contraste da situação. Um ano antes, também às 22 horas, “meu coração parecia o tambor de Gene Krupa, e meu estômago estava doendo e muito vazio... Agora, estou instalado numa casa aconchegante nos Alpes austríacos. Tenho um grande copo de chá com gelo e gim numa das mãos e a caneta na outra. Muitos dos rapazes que decolaram daquele aeroporto de Devonshire estão mortos, enterrados em cemitérios encantadores em Ste.-Mère-Eglise, Son e na Bélgica, mas ainda estou aqui e muito grato por isto. Nesta noite, lembraremos deles de uma maneira que achariam muito apropriada — com uma festa animada e barulhenta”.
Os oficiais estavam tendo a sua festa também. Speirs tinha conseguido algumas caixas de excelente conhaque, que saboreou em seus aposentos com uma bela deslocada de guerra polonesa e seu filho pequeno. O coronel Sink deu festas memoráveis em seu QG, o Hotel Zell. Certa noite, ele convidou todos os 506 oficiais a reunir-se com o general Taylor e seu estado-maior. Foi uma farra. O coronel Strayer, que, segundo o tenente Foley, “bebia muito às vezes”, empolgou-se um pouco e acabou se envolvendo numa briga com um general. Foi quando o tenente Foley e outros mais tiveram uma brilhante idéia. Eles foram até o estacionamento e tiraram a maior parte da gasolina da Mercedes de Taylor (o carro pertencera a Hitler). Acharam que seria muito engraçado quando ele ficasse sem gasolina no caminho de volta para Berchtesgaden no meio da noite.
Na manhã do dia seguinte, domingo, o coronel Sink emitiu uma ordem para uma reunião especial com os oficiais. Eles se reuniram no lado de fora do hotel. Sink os censurou duramente. Ele disse que o comportamento deles fora vergonhoso. Ele os repreendeu principalmente por causa da briga e da peça que pregaram em Taylor. Ele tinha acabado de falar com o general Taylor ao telefone, cujo carro ficara sem gasolina e o fizera esperar sentado durante horas enquanto seu motorista procurava um galão de gasolina. Foley, que não admitiu a própria culpa, contou que “Sink não dava a mínima ao fato de que nós, recrutas, estávamos lá para ouvi-lo, e também nem se incomodou com o fato de que alguém o estivesse ouvindo ralhar conosco”.
Sink jamais ficava contrariado durante muito tempo. Uma semana depois, ele organizou uma grande comemoração de 4 de Julho. Mas, no dia 4, choveu, e também no dia 5. Tudo bem. O dia 6 foi um belo dia, e a comemoração começou. Foi o dia do “Sink no seis”, disse a tropa, espirituosamente.
Eles organizaram também eventos esportivos de toda espécie. Planadores cruzaram o lago, aproveitando as correntes de ar da montanha. O Comando do Transporte Aéreo de Tropas emprestou um C-47 ao regimento para participar das comemorações à tarde, e 12 pára-quedistas saltaram no lago. A comida e a bebida abundavam. No parque, músicos, usando bermudas de couro típicas, tocaram melodias monótonas. A tropa pediu que tocassem música popular americana, mas os austríacos não tinham muito jeito para isso. Todos dançaram. Todas as jovens usaram braçadeiras de deslocadas de guerra (a política de não-confraternização aplicava-se somente aos alemães e aos austríacos; os DGs não precisavam usá-las; as braçadeiras que as DGs usaram para distingui-las das demais foram distribuídas generosamente entre as jovens das montanhas locais), mas, nas palavras do tenente Foley, “nenhum deslocado de guerra participou das comemorações”.
Clima de montanha, prática de esportes à vontade, mulheres e bebida, serviços leves, boa caça e um coronel severo, mas que todos adoravam, Zell am See era, na opinião de Webster, “a vida de sonhos do soldado”.
Esse deveria ter sido o melhor verão de todos para os membros da Companhia E. Mas, transcorridas as primeiras semanas, a maioria passou a detestá-lo. Eles ficaram frustrados com a burocracia do exército, e, entediados, passaram a beber em excesso e desejaram voltar para casa.
A volta para casa dependia da conquista de pontos, o que se tornou, praticamente, o único assunto das conversas e causou muito ressentimento. O sistema de pontuação criado pelo exército dava pontos ao soldado pelos meses de serviço ativo, pela participação em campanhas, por medalhas, pelo fato de ser casado. A pontuação mágica era 85. Os que a alcançassem ou fossem além dela conquistavam o direito de embarcar imediatamente para casa e de dispensa do serviço militar. Aqueles cuja pontuação ainda estivesse abaixo disso tinham de permanecer na divisão, talvez até o Grande Salto na China ou no Japão.
Assim, pela primeira vez em sua carreira militar, os oficiais e a tropa passaram a preocupar-se seriamente com a conquista de medalhas. Uma Medalha de Bronze valia cinco pontos. O sistema hierárquico e burocrático do exército tinha, inevitavelmente, os seus favoritos. O tenente Foley lembrou-se do caso de “um ajudante do regimento que conseguiu uma Medalha de Bronze por — de acordo com os boatos — ter escolhido o Hotel Zell para ser o QG de Sink”.
Já os combatentes se sentiram enganados de outra maneira: entre os pára-quedistas, fora quase impossível a conquista de uma medalha que não fosse a Purple Heart. “Na 101ª, por exemplo”, escreveu Webster, “apenas dois soldados tinham sido condecorados com a Medalha de Honra — um praça e um tenente-coronel do 502° — e ambos morreram em combate. O major Winters, que tinha conquistado uma legitimamente num confronto com uma bateria alemã na Normandia, usava a única Cruz de Serviços Notáveis no 2º Batalhão. Na Companhia E, o capitão Speirs e mais dois ou três tinham a incontestável Estrela de Prata, e cerca de 12 combatentes ostentavam no peito Estrelas de Bronze. Purple Hearts havia muitas, mas não eram condecorações, e sim apenas uma insígnia: de infantaria.”
A maioria dos membros da Companhia E tinha como condecoração somente as quatro estrelas em sua fita do TOGE, indicativa da presença do soldado no teatro de operações apenas como elemento administrativo, que jamais deixou a base para combater. “Vejam o caso de MacClung, por exemplo”, protestou Webster. “Ele era tranqüilo, magro e sem atrativos. Ninguém ligava para ele. Mas seus amigos do 3º Pelotão juraram que o Velho Lung tinha matado mais alemães do que qualquer outro membro do batalhão o havia feito. MacClung era capaz de como que farejar a presença de alemães; ele os caçava; ele os perseguia em ataques matutinos e em patrulhas noturnas; ele se esforçava para matá-los; arriscou-se mais e se ofereceu como voluntário para participar de mais operações perigosas do que qualquer outro membro da Companhia E. MacClung combateu todos os dias na Normandia, na Holanda e em Bastogne, e o que ele tem para mostrar como prova disso? Uma fita do TOGE e quatro estrelas de combatente.”
Tal foi o caso também do sargento Shifty Powers. Soldado tão bom quanto qualquer outro da 101ª, ele não ganhou nenhuma medalha, nenhuma Purple Heart nem, portanto, pontos suficientes. Mas as queixas aumentaram tanto que o general Taylor resolveu fazer um sorteio em cada uma das companhias; o sorteado de cada uma dessas unidades visitaria o lar num sistema de rodízio. Powers não queria participar do sorteio. — Ora, Paul — ele disse ao sargento Rogers —, nunca ganhei nada em minha vida. — Mas Rogers o persuadiu a participar, e ele foi sorteado.
Assim que Powers foi sorteado, um soldado lhe ofereceu mil dólares por essa visita ao lar.
— Pensei nisso por um instante; mil dólares era muito dinheiro, mas, por fim, eu disse: “Não, acho que prefiro viajar mesmo.” — conta-nos Powers.
Powers pegou as coisas que havia pilhado, principalmente pistolas, providenciou sua documentação, pegou o pagamento e juntou-se aos dez outros sortudos para uma viagem até Munique. Ao fazer uma curva, o veículo em que ele estava foi atingido de frente por um dos caminhões de transporte de tropas. Com o impacto, Powers foi lançado para fora do veículo e por cima do caminhão, caiu na estrada, quebrou alguns ossos e sofreu um grave abalo. Outro dos soldados “sortudos” morreu. Powers foi levado para o hospital, onde ladrões roubaram todo o seu salário atrasado e seus suvenires. Posteriormente, foi levado para casa num navio-hospital, meses depois dos colegas que ele tinha deixado para trás.
A negligência e o descaso no controle do sistema de pontuação aumentavam a frustração de ver cozinheiros e pessoal administrativo obter os mesmos pontos que os infantes da linha de frente. Todos os soldados passavam horas computando seus pontos, mas o segredo do sucesso nesse particular era convencer o ajudante do comandante do regimento. Webster estava convicto de que tinha 87 pontos, mas seu registro indicava que ele tinha menos de 80.
O general Taylor tentou ajudar seus veteranos. Ele determinou que todos os soldados que tivessem servido na Normandia, na Holanda e na Bélgica ou que houvessem participado de duas dessas campanhas e que deixaram de participar de uma por causa de ferimentos receberiam uma Estrela de Bronze. Todos gostaram muito disso, logicamente, mas, temporariamente, isso causou mais frustração ainda, pois levava semanas, depois da decisão de Taylor, para que a medalha e a menção honrosa — e os cinco pontos fundamentais — chegassem.
Toda essa burocracia causava grande insatisfação com o exército e sua política. Aliciadores circulavam entre os oficiais e outros soldados, tentando persuadi-los a juntar-se ao exército regular. Quase ninguém fez isso. Webster expressou o sentimento da maioria de seus colegas soldados: “Odeio este exército com uma intensidade tão grande e imorredoura que jamais falarei bem dele enquanto eu viver”, desabafou na carta enviada aos pais. “Considero 90% do tempo que passei no exército um desperdício.” A única coisa em relação ao exército que ele admitia considerar positiva era que “aprendi a relacionar-me bem com as pessoas”. Quando Sink ofereceu um posto de oficial a Webster, este pensou no assunto durante um ou dois minutos e depois disse que preferia não aceitá-lo.
O que aumentava também os problemas de frustração e ódio em relação ao exército causado pelo sistema de pontuação era a combinação do excesso de bebida alcoólica, armas e veículos confiscados. Os acidentes automobilísticos foram tão perigosos para a 101ª na Áustria quanto o fora o exército alemão na Bélgica. Somente nas três primeiras semanas na Áustria, houve 70 acidentes, e outros mais nas seis semanas entre junho e julho. Vinte combatentes morreram, e quase 100 deles ficaram feridos.
Certa noite, o sargento Robert Marsh pegou de carro o praça John Janovek num posto de controle numa estrada vicinal para levá-lo de volta ao alojamento. Janovek seguiu viagem reclinado na porta do caminhão, a qual não era muito confiável. De repente, eles colidiram com uma tora de árvore. O praça perdeu o equilíbrio, caiu e bateu com a cabeça no chão. Marsh o levou às pressas para o posto de socorro do regimento em Zell am See, mas ele morreu no caminho por conta de uma fratura no crânio. O capitão Speirs juntou os poucos pertences dele, um relógio de pulso, sua insígnia de pára-quedista, sua carteira e seu cachecol de pára-quedista, e os enviou para os pais dele. “Ele tinha vencido muitas dificuldades”, escreveu Webster. “Havia saltado na Holanda e lutado na Bélgica e em Bastogne. Ele odiava o exército, e agora, quando a guerra terminou e a perspectiva dourada da volta ao lar estava à vista, ele morreu.”
E Marsh não tinha bebido. A Companhia E tinha orgulho de sua história no que diz respeito a serviços de guarda ou de guarnecimento de postos de controle com soldados sóbrios e responsáveis e que nunca dirigiam bêbados. Outras unidades não eram tão cuidadosas. O praça 0’Keefe lembrou-se da noite em que ficou num posto de controle com o praça Lloyd Guy num ponto equidistante do caminho que ligava Saalfelden a Zell am See.
— Uma viatura de oficiais sem capota vinha pela estrada em grande velocidade, sem contar com a possibilidade de ter de parar. Guy e eu pulamos na frente dela e a fizemos parar. O veículo levava dois homens usando uniformes alemães, ambos bêbados. “Porra, por que vocês nos pararam? Estamos do seu lado.”
Eles eram pára-quedistas, mas de outra companhia. Nós dissemos a eles: “Porra, vocês poderiam perder suas cabeças!”
Eles acabaram prometendo reduzir a velocidade ao retomar a viagem. Nós lhes dissemos que o posto de controle seguinte ficava a cerca de 17 quilômetros adiante, que se mantivessem atentos, pois logo se aproximariam dele, e que reduzissem a velocidade ao máximo quando chegassem lá. Eles prometeram ir com calma.
Mas, quando voltamos, soubemos que esses dois idiotas tinham passado direto e a toda velocidade pelo posto de Welling, mesmo com ele gritando “Parem! Parem!”. Depois da terceira advertência, Welling fez um disparo e atingiu o motorista. — Algum tempo depois, Welling visitou o soldado ferido no hospital; ele disse que não guardava rancor de Welling, que ele teria feito a mesma coisa.
O sargento “Chuck” Grant, combatente oriundo de Toccoa, era um californiano sorridente, atlético, de cabelos louros e sujeito respeitado — ele tinha destruído um 88 na Holanda — e estimado por todos. Certa noite, ele levou alguns praças de carro para um posto de controle a fim de fazer a troca de guarda. Quando chegaram lá, depararam certa agitação no lugar.
Um recruta bêbado, com uma pistola na mão, tinha aos pés dois alemães mortos por ele. O recruta havia parado a viatura e exigira gasolina de seus ocupantes, já que a dele tinha acabado. Mas ele não falava alemão, tampouco eles, por sua vez, falavam inglês. Por causa disso, ele achou que eles estavam resistindo e os matou.
Durante a discussão, um major britânico do serviço de inteligência passava de carro pelo local. Ele e seu sargento pararam o jipe e saltaram para ver o que estava acontecendo. O recruta bêbado apontou a pistola para eles e os advertiu que recuassem.
Nesse ínterim, em que Grant passava de carro pelo local também, o bêbado fez um disparo na direção dele, mas errou o alvo. O major tentou desarmar o soldado, porém este se virou para ele e o matou, e depois seu sargento. Grant lançou-se impetuosamente contra o agressor; o bêbado atirou nele e o atingiu no cérebro. Em seguida, fugiu.
Speirs tinha grande afeição por Grant. Quando soube o que acontecera, ele e o tenente Foley subiram no jipe, foram até o local, puseram Grant numa maca e partiram às pressas em demanda do posto de socorro do regimento. O médico do posto era uma desgraça, barba crescida, desleixado, com uma camisa muito manchada. Ele deu uma rápida olhada em Grant e disse que “não há esperança”.
— Besteira — retrucou Speirs, e pôs Grant de volta na maca e tornou a partir às pressas, dessa vez com destino a Saalfelden. Speirs soubera que havia alguns especialistas alemães lá. Um deles, de Berlim, era especialista em cérebro. Ele submeteu Grant a uma operação imediatamente e salvou a vida dele.
A notícia das mortes espalhou-se rapidamente pelos alojamentos. A Companhia E partiu em massa à procura do culpado. Acharam-no tentando estuprar uma jovem austríaca em Zell am See. Ele era um substituto que tinha acabado de engajar-se na Companhia I. Apesar da manifesta contrariedade de muitos da tropa, ele foi levado vivo para o QG da companhia.
Ele chegou a desejar que não o tivessem levado vivo para lá. Metade da companhia cercou-o, fez-lhe ameaças, chutou-o e jurou vingança. Antes que algo mais sério acontecesse, o capitão Speirs veio correndo do hospital, para intervir, pressuroso.
— Onde está a arma? — bradou Speirs contra o prisioneiro.
— Que arma?
Speirs sacou a pistola, virou-a na mão para segurá-la pelo cano e golpeou o sujeito na têmpora com a coronha. E começou a gritar: — Quando falar com um oficial, chame-o de “senhor” — e o golpeou novamente.
O recruta ruiu sobre uma cadeira, atordoado. O praça Hack Hansen, do 2º Pelotão, comandado por Grant, e amigo íntimo dele, irrompeu no recinto. E sacou a pistola. — Seu filho da mãe — disse. — Matei homens melhores do que você. — Nisso, pôs o cano da pistola contra o rosto do recruta. Quatro homens seguraram Hansen por trás e tentaram apartá-lo, enquanto gritavam que a morte era algo bom demais para um covarde como aquele, mas ele apertou o gatilho. A pistola falhou.
— Você deveria ter visto o semblante do sujeito — Gordon Carson observou.
Depois disso, eles surraram o soldado até ele desmaiar e em seguida o levaram para a prisão do regimento e o entregaram ao sargento da polícia militar. Quando ele recobrou os sentidos, o sargento o golpeou até que ele sangrasse.
Sink dirigiu-se ao QG da companhia. Quando chegou, perguntou ao sargento Carson: — Cadê o Speirs?
— No segundo andar, senhor.
Sink subiu e inteirou-se dos fatos com Speirs. A conversa durou quase uma hora. Depois, Sink partiu, e Speirs desceu.
— Como foi a conversa? — perguntou Carson.
— Muito difícil.
— Bem, mas o que ele disse?
— Disse que eu deveria ter matado o filho da mãe.
O fato de ele não ter feito isso foi surpreendente. Uma das explicações disso que obtive de alguns soldados dava conta de que Speirs talvez não tivera certeza de que o soldado que eles haviam prendido era o homem certo. Quando perguntei a Speirs sobre isso, ele respondeu:
— Quanto ao atentado contra a vida do sargento Grant, você está certo. Talvez eu tenha ficado em dúvida mesmo, pois nunca tive problema em agir sumariamente.
Mas eu me pergunto se não houve outro fator influenciador da atitude deles. Speirs não foi o único homem que teve a chance de matar o covarde. Grant teve uma oportunidade quando tudo começou. O soldado que achou o bêbado da Companhia I poderia tê-lo matado imediatamente, e quase todos os membros da companhia entrevistados por mim disseram que gostariam que isso tivesse sido feito. No entanto, muitos deles estavam no QG da companhia quando chegaram com o recruta e tinham suas pistolas na cintura, mas apenas um deles tentou matar o sujeito, e ele foi impedido de fazer isso por outros quatro.
Quase todos os combatentes naquele recinto tinham matado alguém. O sangue deles fervia. Seu ódio era grande, e sua frieza também. Mas o que chama a atenção no incidente não são os espancamentos com as armas e as surras, e sim o freio a que submeteram as próprias atitudes.
Eles estavam fartos de mortes.
Pouco tempo depois do incidente, o capitão Speirs enviou uma longa carta ao sargento Forrest Guth, que estava num hospital na Inglaterra e que havia enviado uma carta a Speirs em que expressava seu receio de ser transferido para outra divisão. Speirs gostava de Guth, achava que ele era um bom soldado e admirava a capacidade dele de manter todas as armas em excelente estado. Ele tinha especial admiração pelo fato de que Guth era capaz de pegar uma lima e trabalhar no mecanismo de disparo de um M-1 e torná-lo totalmente automático. (Winters ganhou uma dessas armas especiais de Guth. Ele a guardou e, quando partiu para a Guerra da Coréia, levou-a consigo. Infelizmente, Guth não conseguiu lembrar-se de como fazia isso.)
Na carta que enviou como resposta, Speirs revelou seu outro lado. Foi uma longa e expressiva missiva sobre os feitos da Companhia E desde que Guth fora enviado para o hospital, cheia do tipo de informação de que Guth mais gostava de saber: “Luz caiu da motocicleta e machucou o braço — nada sério, mas o sargento Talbert não gostou da idéia de ser o primeiro-sargento. Diante disso, dei-lhe o comando do 2º Pelotão, e o sargento Lynch (2º Pelotão) é o primeiro-sargento agora. O sargento Alley tomou um porre outra vez, e tivemos de rebaixá-lo. O tenente Lipton está de licença na Escócia e muito satisfeito. Não vejo a hora de conseguir licença e ir à Inglaterra para ver minha esposa e meu filho. O sargento Powers estava a caminho de casa, quando o caminhão dele capotou e ele fraturou o crânio. Ele está hospitalizado. O sargento Strohl (3º Pelotão) está a caminho de casa, nos Estados Unidos. Chuck Grant entrou na frente de uma bala disparada por um americano bêbado, e sua cabeça não está muito bem — ele está internado num hospital alemão perto daqui e vai se recuperando. O sargento Malarkey acabou de sair de uma longa internação hospitalar. O sargento Rhinehard chegou há pouco da Riviera. McGrath não sairá de licença — ele está fazendo economias.”
Speirs transmitiu a Guth os detalhes concernentes à Estrela de Bronze a que ele tinha direito por sua participação na campanha na Normandia,
Holanda e Bélgica e prometeu informá-lo a respeito disso assim que ela chegasse.
“Clark é armeiro atualmente — enviei Burlingame de volta para o pelotão dele; ele não conseguia manter seu gerador alemão funcionando! Temos eletricidade e água quente aqui na Áustria.
A propósito, você pode usar a ‘Medalha Congressual de Honra ao Mérito’ e as Folhas de Carvalho sobre ela, independentemente do traje que vestir — você a conquistou com a 101ª A/B.”
A companhia estava sendo desativada. O general Taylor ordenou que todos os soldados com alta pontuação e que ainda não tivessem feito uma visita ao lar fossem transferidos para o 501°, estacionado em Berchtesgaden. O 501° estava sendo desativado e seria usado como meio de transferência de volta para os Estados Unidos de todos os soldados da divisão com muitos pontos, de modo que pudessem ser dispensados. Outros da velha companhia estavam no hospital ou já tinham sido dispensados. Recrutas que haviam sido engajados em Mourmelon ou em Haguenau eram considerados veteranos agora.
O general Taylor fez uma viagem aos Estados Unidos; quando, no fim de junho, ele voltou, anunciou que a 101ª deveria ser transferida para o Pacífico, depois de uma licença invernal nos Estados Unidos. Enquanto isso, o Ministério da Guerra insistia na idéia de que a divisão deveria ser submetida a um regime de treinamento completo. Um dos aspectos críticos desse processo era a volta aos combates, já que mais de três quartos da divisão eram compostos de recrutas.
Portanto, treinamentos e ginástica tornaram-se a ordem do dia novamente, juntamente com a terminologia técnica do M-1 e com a terminologia e o funcionamento do BAR e do mosquetão. Marchas rodoviárias. Sinalização com armas e mãos. Táticas de esquadrão. Inspeção de quartéis. Inspeção de kits de ração. Cortesia, respeito e disciplina militares. Primeiros socorros e saneamento. Checagem de roupas. Leitura de mapas. Corridas com o fuzil. Uma semana de sólida instrução sobre triangulação geodésica. Treinamento no campo de tiros. “E lá foi ela”, Webster escreveu, “e eu também, cada vez mais enojado.”
O tenente Peacock voltou, mais “cocô de galinha” do que nunca. “Sofremos tanto pelo excesso de treinamentos”, Webster escreveu, “que os soldados que o conheceram na Holanda e em Bastogne não suportavam nem olhar para ele. Fiquei tão louco e exasperado com isso que, se tivesse menos de 85 pontos, eu me teria oferecido como voluntário para seguir direto para o Japão e combater, em vez de suportar mais um dia de instrução básica sob as ordens de Peacock.”
Nos meados de julho, todos os veteranos que tinham combatido na Normandia haviam partido, com exceção do longamente sofrido Webster, que ainda não tinha conseguido convencer o ajudante a aceitar sua pontuação. O coronel Sink fez um discurso de despedida aos soldados que tinham alcançado a pontuação necessária: “É com o coração dividido que o comandante do regimento vê a partida de seus excelentes oficiais e soldados. Ele está feliz por todos vocês. Vocês trabalharam, lutaram e conquistaram o direito de voltar para seus lares e seus amigos.
Lamento vê-los partir, pois vocês são amigos e colegas de armas.
A maioria de vocês foi duramente repreendida ou punida por mim uma vez ou outra. Espero que considerem isso apenas uma repreensão justa. Minha intenção jamais foi outra.
Eu disse a vocês que procurassem conquistar Medalhas Congressuais de Honra ao Mérito, e foi o que vocês fizeram. Elas sempre servirão para assinalar o valoroso serviço e a honra de vocês.
Que Deus os ponha a caminho de casa; que o mesmo Amigo que os conduziu pela mão na Normandia, na Holanda, em Bastogne e na Alemanha olhe gentilmente por vocês e os guarde até o último grande salto!”
No fim de julho, a divisão foi transferida em 48s para a França. A Companhia E aquartelou-se em Joigny, uma pequena cidade ao sul de Paris. Winters, Speirs, Foley e outros tiraram licença e foram para a Inglaterra. Em 6 de agosto, a bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima, o que pôs fim aos receios de outra campanha no Pacífico. Depois disso, houve uma profunda modificação na divisão aerotransportada, em que soldados com poucos pontos foram transferidos para a 17ª Divisão Aerotransportada, enquanto outros seguiram para a 82ª. A revista da 101ª, a Screaming Eagle, queixou-se de que “a unidade parece mais um posto de substituição do que uma divisão
militar”.{86}
Em 11 de agosto, o coronel Sink foi promovido a ajudante do comandante da divisão. Em 22 de agosto, o general Taylor deixou a 101ª, ou o que sobrou dela, para tornar-se superintendente em West Point. Logo depois disso, o 506° levantou acampamento e partiu, para juntar-se à 82ª DIA em Berlim. Segundo consta, o general Sink chorou quando seus rapazes partiram em marcha com destino ao posto de Joigny para embarcar e juntar-se à 82ª. Webster achou pertinente a reação dele, já que ele era “o coração e a alma de nosso regimento”. Em seus escritos em 1946, Webster disse: “A bela bandeira azul-escura de nosso regimento com o monte Currahee, um raio e seis pára-quedas bordados nela está enrolada em sua caixa, pegando poeira no Arquivo Nacional de Washington.”
Em 30 de novembro de 1945, a 101ª foi desativada. A Companhia E não existe mais.
A companhia tinha sido criada em julho de 1942, em Toccoa. Essencialmente, ela deixou de existir quase três anos depois em Zell am See, Áustria. Nesses três anos, os soldados tiveram mais experiências, suportaram mais situações difíceis e deram mais de si do que a maioria dos homens comuns consegue experimentar, suportar e dar de si em suas vidas.
Eles acharam o exército entediante, insensível e mesquinho e o odiavam. Eles consideravam a guerra uma coisa horrenda, destruidora e mortal. Qualquer outra coisa era melhor que o derramamento de sangue e o morticínio, a sujeira, os esforços físicos impossíveis de realizar — qualquer outra, exceto desapontar os amigos.
Ademais, na guerra, descobriram um senso de amizade que nunca tinham visto antes. Eles descobriram o altruísmo. Descobriram que podiam amar o outro na trincheira mais do que a si mesmos. Descobriram na guerra homens que amavam a vida, mas que eram capazes de perder a vida por eles.
Eles tiveram três colegas notáveis como comandantes de companhia: Herbert Sobel, Richard Winters e Ronald Speirs. Todos causaram enorme impressão, mas Winters, que estivera ligado à companhia do 1º ao 1.095° dia, foi o que causou a mais profunda de todas. Na opinião dos que serviram na Companhia E, essa foi a companhia de Dick Winters.
Os graduados eram os que mais sustentavam essa opinião. Os que serviram como cabos e sargentos nos combates tinham sido praças em Toccoa. Eles passaram seus três anos inteiros na Companhia E. Oficiais, com exceção de Winters, vinham e iam. Muitos dos oficiais continuaram indiretamente ligados à companhia, como membros do estado-maior do batalhão ou do regimento, mas somente Winters e os graduados estiveram presentes em todos os dias de existência da companhia ou escreveram-lhe a história nos combates (ou no hospital). Eles se mantiveram unidos, principalmente nos terríveis bombardeios nos bosques de Bastogne e naquele momento crítico do ataque em Foy, antes de Speirs substituir Dike. Os líderes reconhecidos pelos graduados, tanto formalmente como de fato, foram os primeiros-sargentos William Evans, James Diel, Carwood Lipton e Floyd Talbert.
Em 30 de setembro de 1945, o sargento Talbert encontrava-se num hospital no Fort Benjamin Harrison, Indiana. De lá, enviou uma carta a Winters. Como escritor, ele não era nenhum Webster, mas escreveu com o coração e falou em nome de todos os soldados que haviam servido na Companhia E.
Ele disse que gostaria que eles pudessem reunir-se para conversar, já que havia muitas coisas que queria dizer a Winters. “A primeira coisa que tentarei explicar é... Dick, você é querido e nunca será esquecido por nenhum soldado que serviu sob suas ordens, ou talvez eu deva dizer com você, pois era assim que você comandava a unidade. Para mim, você é o maior soldado que eu poderia desejar conhecer.
O homem pode conseguir coisas na guerra que são impossíveis de conseguir em outra situação. Acho que eu sempre fortalecia minha confiança em mim mesmo ou algo assim. Não sei por que lhe estou dizendo isto. Você já sabe de tudo.
Bem, vou ficando por aqui. Você é o melhor amigo que já tive e gostaria que tivéssemos sido amigos em outra situação. Você foi o meu modelo de soldado e minha força nos combates. O pequeno major que ambos conhecemos o resumiu em poucas palavras — ‘o soldado mais corajoso que ele conheceu’. Eu respeitava muito a opinião dele. Ele foi um grande soldado também, e eu dizia a ele que você era o maior de todos. Bem, agora sabe por que eu o acompanharia até o inferno. Quando eu estava com você, eu sabia que estava tudo sob controle.”
* * *
Tal como seus subordinados em relação a ele, Winters tinha seus soldados em alta conta. Em 1991, ele fez uma avaliação da história de sua companhia e de seu significado: “A 101ª DIA foi composta de centenas de companhias boas e coesas. Porém, a Companhia E, 506° RIP, se destaca de todas as outras por causa de um laço muito especial, que unia seus membros entre si.
Esse sentimento especialíssimo, íntimo, nasceu sob a tensão que o capitão Sobel provocava em Toccoa. Sob esse estado de tensão, a única forma pela qual a tropa conseguia sobreviver era manter-se unida. De vez em quando, os graduados tinham de unir-se e amotinar-se.
A tensão nos treinamentos foi seguida pela tensão na Normandia, em face do planejamento da principal missão de combate para o controle da Praia de Utah. Nos combates, a recompensa pelo trabalho bem-feito é a incumbência da missão difícil seguinte. E a Companhia E continuou a cumprir bem o seu dever nas campanhas na Holanda, em Bastogne e na Alemanha.
O resultado do compartilhamento de toda aquela tensão nos treinamentos e nos combates foi a criação de um laço de amizade entre os membros da Companhia E que durará para sempre.”