Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 13 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 13

ATAQUE

 

NOVILLE

14-17 de janeiro de 1945

 

— Quando a ordem de ataque chegou, fiquei irritado — revelou Winters. — Não conseguia acreditar que, depois daquilo pelo qual tínhamos passado e fizéramos, depois de todas as baixas que sofrêramos, eles iam nos enviar para uma operação de ataque. Tinha o sabor de um afago no ego para o general Taylor, uma jogada para mostrar a Eisenhower que, agora que Taylor estava de volta, seus soldados iriam tirar o traseiro da cadeira e seguir para um ataque.

Não é uma observação justa no que diz respeito ao general Taylor. O ataque fazia parte de uma ofensiva geral planejada para fazer as forças aliadas avançar para o Norte e estabelecer contato com o I Exército Americano, de modo que os tanques alemães ficassem encurralados na ponta do saliente. Ou quantos deles restassem, depois da indecisão de Monty em relação ao cometimento de uma contra-ofensiva. Os alemães tinham começado a fazer a retirada de seus tanques. Podia-se esperar deles um combate com tudo o que eles tinham para manter a rota de fuga aberta.

Quanto à idéia de pôr uma companhia tão estropiada quanto a Easy num ataque frontal através de um campo coberto de neve em plena luz do dia, ela não surgiu porque Taylor estivesse em busca de glória, mas porque Eisenhower precisava de soldados. Ele não tinha forças de reserva para empregar no ataque, mas aquele era o momento de atacar, e ele tinha de atacar com o que havia nas linhas de combate. Ou seja, a Easy estava pagando o preço da política de mobilização limitada. Simplesmente não havia tropas suficientes para empregar nos combates.

Depois da queda de Foy, a Easy e outras companhias do 2º Batalhão foram postas na reserva do regimento, ao sul da vila. Às 4hl5 do dia seguinte, 14 de janeiro, os alemães lançaram um contra-ataque a Foy com seis tanques e uma companhia de infantaria. Mas foram rechaçados, embora, em seguida, outro ataque, com 14 tanques e um batalhão, tivesse forçado o 3º Batalhão do 506° a sair de Foy. A Easy foi alertada, mas, com a ajuda da artilharia do 3º Batalhão, conseguiu organizar seu próprio e bem-sucedido contra-ataque e, às 9h30, estava de volta à vila.

Essas operações foram executadas sob péssimas condições. Outra frente fria tinha passado pela região. A média da temperatura diária era de quase 8 graus negativos; à noite, a temperatura despencava para quase 18 graus abaixo de zero. A neve caía quase que diariamente. Era difícil para a divisão levar suprimentos até a estrada Bastogne-Foy por causa de nevascas e necessidades alhures. Como resultado disso, os membros da Companhia E ficaram numa situação tão ruim quanto a que enfrentaram durante a primeira semana do cerco. Não havia comida suficiente, nem galochas, cobertores e sacos de dormir. Lençóis eram usados como camuflagem.

Além disso, o terreno que a companhia tinha pela frente era difícil. A unidade precisava atravessar um campo aberto para chegar a Noville e varrer o inimigo de um bosque denso. Os alemães tinham o controle do planalto, e as resistentes edificações belgas de Noville serviam como posições para atiradores de elite e metralhadoras alemães, além de esconderijo para os tanques inimigos.

O coronel Sink disse a Winters que o 2º Batalhão teria a honra de liderar o ataque a Noville. Ele deveria partir às 12 horas do dia 14 de janeiro, deslocando-se do bosque ao sul de Foy para uma área à esquerda (a Oeste), tentar ocupar o vilarejo de Recogne e depois empreender um ataque, através de um campo aberto e coberto de neve, contra Cobru, outro povoado, distante cerca de um quilômetro de Noville. À esquerda de Winters, o 1º Batalhão deveria seguir para o Norte e passar pelo bosque para livrá-lo do inimigo.

Winters não gostou das ordens. Ele teria de atravessar 2 quilômetros de campo aberto e coberto de neve para chegar a Cobru. O dia estava ensolarado. Por que atacar ao meio-dia? Se tivesse sido possível, Winters teria preferido esperar o amanhecer do dia seguinte para atravessar o campo. Mas Eisenhower queria ação, Monty queria ação, Taylor queria ação, Sink queria ação. Assim, o QG do 2º Batalhão e as Companhias Easy, Dog e Fox teriam de agir.

Havia um terraço de topo de encosta que se estendia para sudoeste a partir de Noville, perto de Recogne. Winters viu que, se fizesse seus homens avançar diretamente para esse terraço, eles ficariam cada vez mais protegidos à medida que se aproximassem de Noville. Ele fez que o batalhão formasse uma fila indiana para atravessar a neve, movimento perigoso, mas rápido.

Quando a Easy e o restante do 2º Batalhão partiram, o 1º Batalhão fez o mesmo, pela esquerda. Os tanques alemães em Noville avistaram o 1º Batalhão e dispararam alguns projéteis de 88. Mas eles não viram o 2º Batalhão marchando em direção a Noville ao abrigo do terraço.

Winters olhou para a esquerda. Os 88s estavam destroçando o 1º Batalhão.

— Os soldados voavam pelos ares — descreveu Winters. — Anos depois, no filme Doutor Jivago, vi soldados atravessando campos cobertos de neve, sendo alvos de tiros de canhão disparados da borda do bosque, e homens voando pelos ares. Essas cenas me pareceram muito reais.

A Companhia E estava tendo seus próprios problemas. Metralhadoras alemãs em Noville abriram fogo contra a companhia numa bacia de drenagem e num riacho, que atrasaram o avanço dos americanos e os fizeram ficar expostos. Speirs ordenou a montagem de duas metralhadoras para responder ao fogo inimigo. Quando os operadores de metralhadora americanos disparavam uma rajada, um grupo de oito ou dez combatentes atravessava o riacho correndo.

O riacho era tão estreito que a maioria da tropa podia vencê-lo de um salto. Mas o praça Tony Garcia caiu no riacho, já que estava carregando um saco de munição com seis projéteis de morteiro. Ele ficou encharcado. Quando o grupo dele alcançou Noville, “minhas roupas tinham congelado, produzindo estalos quando eu caminhava. Isso me poupou de participar, porém, de uma missão de patrulha planejada para o estabelecimento de contato com uma de nossas unidades. O sargento do pelotão disse que eu poderia ser ouvido durante o avanço até Berlim e que eu ficasse por ali

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mesmo”.

Por volta das 15h30, o batalhão tinha atravessado o campo e se encontrava protegido pelo talude do terraço. Quando anoiteceu, seus homens tinham avançado até uma bacia a sudeste de Cobru.

Speirs fez uma reunião com os oficiais e o primeiro-sargento Lipton. Ele esboçou o plano de ataque para a manhã seguinte, pelo qual eles seguiriam dali para Noville, com o 2º Pelotão à esquerda e o 3º à direita. O plano contava com a vinda de tanques amigos pela direita, como força de apoio na estrada Foy-Noville. Depois da reunião, Speirs ordenou a Lipton que liderasse o 2º Pelotão no ataque.

Lipton reuniu o 2º Pelotão para instruir a tropa. Winters ficou a um canto, ouvindo. Lipton disse a eles que a distância que os separava da cidade era de aproximadamente 800 metros, que eles deveriam mover-se rapidamente para vencer a estrada e alcançar o abrigo proporcionado pelas edificações, que deveriam livrá-las da presença do inimigo num trabalho de equipe usando fuzis e granadas, que o pessoal dos morteiros deveria estar preparado para lançar projéteis contra fortificações alemãs, que os operadores de metralhadora deveriam estabelecer uma base de tiro como apoio, que deveriam evitar ajuntamentos e assim por diante. O único comentário de Winters foi que a distância que os separava da cidade era, na verdade, de quase um quilômetro.

Quando a reunião terminou, a tropa ouviu motores de tanques sendo ligados, e esses veículos começarem a mover-se. Não era possível determinar se eram alemães em retirada ou americanos chegando à estrada Foy-Noville.

Winters lembra-se dessa noite como a mais fria de sua vida. Havia pouco abrigo; apenas trincheiras abertas às pressas. Os soldados tinham suado muito para chegar a Cobru. Tremeram de frio a noite inteira. Eles se deitavam e adormeciam, mas acordavam tremendo de frio por causa das roupas, que congelavam. A maioria desistiu de tentar dormir. A situação ficou tão grave que, a certa altura, Winters pensou em ordenar a realização de um ataque noturno, mas acabou desistindo da idéia por causa do perigo de eles atirarem uns nos outros em meio à confusão.

Lipton estava apreensivo com a tarefa de liderar o 2º Pelotão num ataque sem saber o que encontraria pela frente. Com isso, decidiu avançar com um operador de rádio para explorar a situação em Noville. Os dois toparam com um celeiro nos arrabaldes do vilarejo, entraram por uma porta traseira e seguiram tateando até uma porta que dava para um pátio perto da estrada principal, que levava a Noville. Estava tudo tranqüilo. Lipton chamou Speirs pelo rádio para dizer ao comandante onde ele estava e pedir permissão para explorar a cidade. Ele disse que podia ver alguns tanques Sherman mais adiante e perguntou se Speirs sabia se os blindados americanos já tinham tomado a cidade. Speirs respondeu que não sabia e disse a Lipton que desse uma olhada.

Lipton avançou silenciosamente para os tanques. Eles estavam fora de combate. Havia corpos americanos congelados e espalhados ao redor deles. Eles tinham sido deixados lá quando a Equipe Desobry se retirou de Noville, em 20 de dezembro, quase um mês antes. Os alemães ainda controlavam a cidade. Lipton e seu operador de rádio se retiraram.

As forças de ataque partiram ao amanhecer do dia 15 de janeiro. Houve resistência, a mais forte no lado direito da estrada, contra o 3º Pelotão. O 2º Pelotão chegou rapidamente ao centro de Noville e aos Shermans destruídos. O 3º Pelotão entrou num edifício parcialmente destruído e estabeleceu um PC. Nisso, chegou uma mensagem pelo rádio: “Viaturas blindadas amigas à direita.”

Quando o tenente Shames e o sargento Alley receberam a mensagem, ouviram o movimento de tanques do lado de fora. Ansioso por ter diante dos olhos a bela cena da chegada dos tanques pela estrada, Alley disse a Shames que estabeleceria contato com eles. Shames resolveu juntar-se a ele. Eles passaram por vários edifícios destruídos e contornaram uma esquina para chegar à estrada principal. Mais adiante, entre dois edifícios, com uma parte dele oculta, estava o tanque que eles procuravam.

Alley se aproximou e se pôs ao lado do tanque. O comandante do tanque estava de pé na torre de tiro olhando para o outro lado. Assim, Alley disse-lhe em voz alta, em meio ao barulho do motor: — Venha por aqui. — O comandante do tanque se virou, e Alley viu que tinha achado que o tanque alemão era um tanque americano. O alemão esbravejou, entrou no tanque e começou a girar a torre de tiro em direção a Alley e Shames.

Eles não trocaram entre si uma palavra sequer. Em vez disso, trataram de fugir tão rapidamente que quase jogaram neve na cara do alemão, com a força de tração que aplicaram aos pés para iniciar a fuga. O tanque foi atrás deles. Os americanos contornaram uma esquina correndo. De repente, Shames viu uma janela aberta e mergulhou de cabeça através dela. Alley interrompeu a corrida uns 3 metros além de Shames e jogou-se por uma porta com o fuzil pronto para disparar contra os infantes que, com certeza, pensou, estariam com o tanque.

O tanque virou a esquina e passou por Shames e Alley. Ele chegou ao local em que o 2º Pelotão realizava uma operação de limpeza das edificações, perto dos Shermans destruídos. Lipton e alguns de seus homens pularam para baixo dos Shermans, enquanto outros se lançaram atrás de paredes para se proteger. O alemão parou e, girando a torre de tiro, disparou um projétil contra cada um dos Shermans para impedir que alguém usasse seus canhões e atirasse contra o tanque dele enquanto ele seguisse adiante.

— Quando aqueles projéteis atingiram os Shermans, tivemos a impressão de que eles saltaram uns 30 centímetros acima do solo — observou Lipton.

O tanque saiu da cidade e seguiu para o norte, em busca de refúgio. Mas um caça P-47 o avistou, veio ao encontro dele num vôo rasante e lançou uma bomba contra o blindado, destruindo-o.

Alley foi procurar Shames. Ele ouviu gemidos e gritos de socorro. Quando chegou à janela através da qual Shames se lançara, olhou para dentro e caiu na gargalhada. Ele viu seu tenente preso entre armações de camas, molas e móveis amontoados num porão cuja existência Shames não percebera.

Lá pelo meio-dia, o 2º Batalhão tinha o controle de Noville e havia montado um sistema de defesa perimetral. A vila e as colinas que a rodeavam haviam sido o objetivo da 101ª desde 20 de dezembro. Finalmente, ela caiu nas mãos dos americanos.

“Ficáramos olhando para o norte de Noville de nossas posições nas cercanias de Foy desde o instante em que chegamos a Bastogne”, escreveu Lipton, “e tínhamos ficado convictos de que seria o nosso objetivo final na campanha de Bastogne.” Mas havia mais um ataque a fazer; o general Taylor queria que o 2º Batalhão seguisse para o Norte, na direção de Houffalize, para livrar o vilarejo de Rachamps da presença do inimigo.

Rachamps ficava num vale vicinal à rodovia, à direita (a Leste). Sua localização era no centro de uma área cujo solo ao redor apresentava ligeiro declive quando se via a cidade a distância, dando a impressão a quem atacava de que estava se deslocando da borda de um pires para o centro dele. O 2º Batalhão atacou do Sul e do Sudoeste, enquanto o 1º Batalhão desceu, pela esquerda, do norte do vilarejo. A tropa estava bem distribuída e avançou sem entraves. Os alemães ofereceram alguma resistência, principalmente de artilharia, com o emprego de projéteis carregados de fósforo branco. Mas, quando os membros do 506° chegaram aos arredores da vila, a maioria dos alemães que a defendiam fugiu. Quando os americanos entraram na vila, os alemães começaram a bombardeá-la.

O sargento Earl Hale foi um dos primeiros a entrar em Rachamps. Ele e Liebgott entraram num celeiro, onde surpreenderam seis oficiais das SS e os fizeram prisioneiros. Hale os pôs em fila com os narizes praticamente se tocando e disse a eles que, se ele e Liebgott fossem mortos, levariam os alemães com eles. Hale os ameaçou com sua submetralhadora para mostrar que estava falando sério.

Mas, de repente, um projétil explodiu lá fora. Hale estava em pé perto da porta. Ele foi atingido por um estilhaço e caiu. Um dos oficiais das SS tirou a faca da bota e cortou a garganta de Hale. Ele não conseguiu romper nenhuma artéria nem cortar a traquéia dele, mas cortou-lhe o esôfago. O sangue esguichou. Liebgott matou o oficial que o atacou e depois os outros. O socorrista Roe aplicou sulfa em pó no ferimento de Hale. Um jipe o evacuou para Luxemburgo, onde o médico, perplexo, cuidou dele. mas não pôde evitar que ele ficasse com o esôfago deformado. Por causa do problema de Hale, o esculápio lhe deu uma ordem médica por escrito declarando que ele não podia usar gravata. (Algum tempo depois, Hale foi parado por um general Patton irado, que o repreendeu pelo fato de que não estava usando gravata. Hale apresentou-lhe o documento triunfalmente e. dessa vez, deixou Patton mudo.)

A fácil vitória em Rachamps mostrou quanto fora incontestável a valorosa atuação da 101ª DIA nas batalhas corpo-a-corpo que vencera, nas lutas que empreendera contra uma dúzia do melhor das divisões blindadas e de infantaria dos alemães. Os americanos tinham atravessado um mês sob condições muito piores do que as dos alemães, que desfrutavam de uma rota de ressuprimento desimpedida e movimentada. Cercada, a 101ª não recebeu suprimentos na primeira semana, e depois disso seus suprimentos foram insuficientes. Foram semanas que puseram à prova a alma de homens mal-alimentados, malprovidos de roupas e uniformes e precariamente armados. Foi guerra no que ela tem de pior, algo horrível de enfrentar. A 101ª, faminta, com frio, sem armamento adequado, combateu as melhores unidades que a Alemanha nazista conseguira criar nesse estágio da guerra. Essas tropas das Wehrmacht e das SS estavam bem-alimentadas, agasalhadas, cabalmente armadas e eram muito superiores em número à 101ª.

Foi um teste da força de exércitos, de determinação e de sistemas nacionais, um confronto do melhor dos nazistas com o melhor dos americanos e no qual todas as vantagens estavam do lado alemão. A 101ª não apenas resistiu ao ataque inimigo; ela prevaleceu sobre ele. É um épico nascido tanto daquilo que esse confronto revelou quanto daquilo que aconteceu. A derrota dos alemães na maior de suas ofensivas na 2ª Guerra no teatro de guerra da Europa — e a transformação dessa derrota numa grande oportunidade “para matar alemães a oeste do Reno”, nas palavras de Eisenhower — foi um feito de armas sublime. Com isso, os americanos estabeleceram superioridade moral sobre os alemães. Essa vitória não se baseou em equipamentos ou quantidade de armas, mas em trabalho de equipe, capacidade de coordenação, liderança e confiança mútua numa linha de frente que se estendia do QG de Ike até a Companhia E. Os alemães tinham pouca coisa parecida com essas qualidades. A superioridade moral assentava em métodos de treinamento melhores, em métodos de seleção para posições de comando mais criteriosos, enfim, principalmente na característica de um exército mais aberto, que era o reflexo de uma sociedade mais aberta. A democracia mostrou-se mais capaz do que a Alemanha nazista de produzir jovens que podiam ser transformados em excelentes soldados.

Que tipo de veteranos de grandes campanhas esses soldados alemães eram ficou evidente num pequeno incidente em Rachamps. O sargento Rader nos fala sobre isso:

— Quase matei um Kraut feito prisioneiro, pelo fato de que riu de mim quando cheguei à cidade, apenas porque alguém pegou meu M-1 e gritou: “Sargento, ele não tem lábios nem pálpebras!” Ele os tinha perdido na frente de batalha na União Soviética.

A batalha transformou a 101ª num mito. O mito que nasceu na Normandia, cresceu na Holanda e atingiu o auge em Bastogne. A 101ª DIA era a mais famosa e admirada de todas as 89 divisões que o exército americano tinha levado à 2ª Guerra Mundial. Desde então, seus membros usam a Screaming Eagles no ombro esquerdo com o maior orgulho.

Em Rachamps, Speirs estabeleceu o PC da companhia num convento. Era a primeira vez que o PC ficava num edifício desde que a Easy partira de Mourmelon, um mês antes. À noite, as freiras levaram para o grande salão um grupo de meninas com 12 e 13 anos de idade para cantar uma serenata para os membros da Companhia E. O programa incluía canções belgas e francesas, várias em inglês, e a marcha alemã “Lili Marlene”.

Na manhã seguinte, 17 de janeiro, a 17ª DIA rendeu a 101ª DIA na linha de batalha. A Companhia E embarcou em caminhões e foi levada para a Alsácia. Os caminhões passaram com os combatentes pela mesma rodovia que tinham controlado durante quatro semanas e os levaram para Bastogne. Essa era apenas a segunda vez que a maioria deles veria Bastogne — a primeira fora em 19 de dezembro, quando atravessaram a cidade marchando, enquanto soldados americanos apavorados fugiam às pressas da arremetida alemã; a segunda, em 17 de janeiro, quando a cidade foi tomada.

Embora a tropa tivesse visto pouco de Bastogne, seu nome — e a experiência que ele lembrava — ficaria com eles para sempre. Dali por diante, toda vez que um combatente da Easy sentia frio, fome ou necessidade de dormir, ele procurava lembrar-se de Bastogne e de que tinha passado por coisas bem piores.

As perdas da Easy foram grandes. É impossível chegar a números exatos; na apressada movimentação para deixar Mourmelon, a lista de chamada da companhia não estava completa; substitutos chegavam individualmente ou como pequenos grupos e não eram adequadamente arrolados na lista; os feridos saíam da linha de tiro e voltavam alguns dias depois. Uma estimativa dá conta de que a Easy entrou na Bélgica com 121 oficiais e soldados, recebeu por volta de duas dúzias de substitutos e saiu de lá com 63 homens. Os membros da Easy mortos em combate na Bélgica foram o sargento Warren Muck, o cabo Francis Mellett e os praças A. P. Herron, Kenneth Webb, Harold Webb, Carl Sowosko, John Shindell, Don Hoobler, Harold Hayes, Alex Penkala e John Julian.

A melhor descrição do custo de participação da Companhia E na Batalha das Ardenas foi feita pelo praça Webster, que foi reengajado na companhia durante a viagem de caminhão para a Alsácia. Ele tinha sido ferido no início de outubro; agora, eles estavam nos meados de janeiro. Ele escreveu: “Quando vi o que restou do 1º Pelotão, quase chorei; de 40, sobraram apenas 11 soldados. Nove deles eram velhos combatentes que tinham saltado na Holanda, na Normandia ou em ambos os lugares: McCreary, Liebgott, Marsh, Cobb, Wiseman, Lyall, Martin, Rader e Sholty. Embora os outros dois pelotões estivessem mais bem supridos que o 1º, seu efetivo estava tão reduzido que, combinado com o 1º, ele não comporia um pelotão comum, e muito menos uma companhia.”

Além dos mortos e feridos, todos os combatentes presentes em Bastogne sofreram. Combatentes que escapavam de estilhaços e de balas eram baixas por alguma razão. Não havia soldados sem ferimentos em Bastogne. Nas palavras de Winters, “não tenho certeza se alguém que passou por ali não levava consigo as marcas da experiência ocultamente. Talvez esse seja o fator que ajuda a manter os membros da Easy tão fortemente unidos”.

Eles se conheciam de uma forma tão profunda que somente aqueles que combateram juntos em várias situações táticas conseguem conhecer-se, tal como somente os que suportaram juntos o extremo sofrimento resultante da combinação de frio, insuficiência alimentar e poucas horas de sono e vivendo sob tensão constante são capazes de se conhecer.

Eles conheceram o medo juntos. Não apenas o medo da morte ou de ferir-se, mas também o medo de que aquilo tudo não valia a pena. Glenn Gray escreveu: “O maior medo que tive em meus anos de guerra, medo que ainda me acompanha, era de que todos esses acontecimentos não tivessem sentido... Foram muitas as vezes em que escrevi em meus diários de guerra que, a menos que meu dia tivesse algum significado

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positivo para minha vida futura, ele não valia a dor que me custava.”

Eles venceram nas Ardenas porque se haviam tornado um grupo de irmãos. A companhia mantivera a coesão nesse momento crítico na neve, nas cercanias de Foy, porque o primeiro-sargento Lipton e seus colegas graduados, quase todos homens de Toccoa, tinham espírito de liderança, persistência e união. Apesar de um novo comandante, de novos oficiais e novos recrutas, o espírito da Companhia E estava vivo, graças aos sargentos. A atuação de Winters como subcomandante do 2º Batalhão e, geralmente, como comandante de fato dessa unidade (o tenente-coronel Strayer passou a maior parte do mês no QG do regimento, trabalhando para o coronel Sink como membro do setor de operações e treinamento — S-3) foi de grande ajuda. E Speirs estava mostrando-se um excelente comandante de companhia, capaz de tirar o melhor da unidade.

Esse espírito foi bem descrito por Webster. A essa altura, Webster tinha se ferido duas vezes e voltara para a linha de combate nas duas ocasiões. Ele não queria deixar que seus pais usassem a influência deles para tirá-lo das linhas de frente. Ele não aceitava nenhum posto ou responsabilidade na Companhia E. Ele era um intelectual de Harvard que se havia decidido a respeito de sua opinião sobre o significado da 2ª Guerra Mundial e mantinha-se fiel a ela.

Ele era um homem de livros e bibliotecas, leitor e escritor, sensível, judicioso, arguto, observador, ponderado e educado. E atiraram-no na mais liberal promiscuidade (espremido num caminhão aberto em viagens por estradas escorregadias de uma região montanhosa; períodos de sono em trincheiras na companhia de outros recrutas) com caipiras grosseiros, fazendeiros do Sul, mineradores, lenhadores, pescadores e outros tipos mais, que eram maioria entre os recrutas da companhia. Dos que haviam freqüentado a universidade, a maioria buscara especialização em administração comercial e pedagogia. Em suma, Webster foi posto no meio de homens com os quais não tinha nada em comum. Em sua vida de civil, ele não teria tido especial simpatia ou antipatia por esse ou aquele; ele simplesmente não os teria conhecido.

Apesar disso, foi nesse grupo de homens que Webster encontrou seus melhores amigos e saboreou ao máximo o senso de identificação com outras pessoas.

A descrição que ele faz da viagem para a Alsácia no caminhão com o seu pelotão merece uma citação completa:

“Patinhamos através da lama em direção aos caminhões e embarcamos. McCreary e Marsh acenderam cigarros. Martin fez uma piada de um oficial que passava. Perguntei o que tinha acontecido com Hoobler. Morto em Bastogne. Pobre Hoobler, que saiu da guerra dessa maneira, morto na neve. E os outros? Muck e seu amigo Penkala, que tinha a trincheira mais profunda em determinada posição, fora atingido em cheio por um projétil. Sowosko levou um tiro na cabeça no ataque a Foy. E assim por diante. Alguns substitutos que tinham chegado depois da campanha da Holanda tinham morrido também. Muitos soldados tinham sido evacuados por causa do pé-de-trincheira, e muitos deles, considerou McCreary. O pelotão já não era o mesmo.”

Webster achava que era. Ele percorrera um longo e complicado caminho pelos postos de substituição para reengajar-se à companhia, um tempo de frustração e solidão para ele entre soldados enfadonhamente parecidos e trajando uniforme cáqui. Agora ele estava em seu meio, de volta ao 1º Pelotão, de volta à Companhia E.

“Foi bom voltar para a companhia de colegas que eu conhecia e nos quais podia confiar”, ele escreveu. “Ouvir as conversas no caminhão me fez sentir-me bem e relaxado por dentro, como uma criança perdida que tivesse voltado para um lar radiante, cheio de amor, depois de vagar numa floresta escura e fria.”

Algumas cadeiras desse lar estavam vazias. Elas eram ocupadas pelos homens que tinham sido mortos ou gravemente feridos ou que haviam sofrido uma crise nervosa. Mas, como a reação de Webster indica, embora a Easy perdera muitos membros e ganhara outros, graças aos antigos oficiais da companhia então engajados no estado-maior de um batalhão ou de um regimento e aos graduados, a unidade continuou como um organismo íntegro.