Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 2 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 2

“De Pé e Preparem-se”

 

BENNING, MACKALL, BRAGG, SHANKS

Dezembro de 1942-setembro de 1943

 

Benning era, quanto possível, mais penoso do que Toccoa, principalmente um lugar conhecido como “Frigideira”, onde era feito o treinamento de saltos. O local era a área de estacionamento do regimento, no qual havia pequenas cabanas de madeira assentadas sobre solo arenoso, sem preparo. Mas Benning era um alívio bem-vindo para os membros da Companhia E, no sentido de que estavam recebendo treinamento realista para tornarem-se pára-quedistas, em vez de gastarem seu tempo de vigília fazendo exercícios físicos.

O curso de pára-quedismo começava com treinamento físico (estágio A), que era seguido pelos estágios B, C e D, cada um deles com duração de uma semana, mas o 506° pulou o estágio A. Isso aconteceu porque o 1º Batalhão chegou antes dos outros, passou pelo estágio A e causou constrangimento aos sargentos da escola de pára-quedismo que foram designados para liderar as sessões de ginástica e corridas. Os graduados de Toccoa riam dos sargentos. Nas corridas, começavam a correr de trás para a frente, desafiavam os sargentos a aceitar disputas e perguntavam a eles — depois de algumas horas de exercícios, que deixavam os sargentos ofegantes — quando terminariam o aquecimento e começariam a fazer exercícios de verdade. Depois de dois dias de abusos como esses, os sargentos disseram ao comandante que o pessoal do 506° estava em condições físicas muito melhores do que eles. Com isso, todas as companhias do 506° foram logo para o estágio B.

Durante uma semana, a companhia seguiu em marcha acelerada todas as manhãs para os galpões de dobragem de pára-quedas, no qual a tropa aprendia a dobrar e embalar seus pára-quedas. Os pára-quedistas voltavam correndo para almoçar na Frigideira e depois passavam a tarde saltando sobre pilhas a partir das portas de simulacros de fuselagem de avião situados a 1,20 metro do solo, adestrando-se no controle do pára-quedas com o arnês suspenso a certa altura ou saltando de torres de 10 metros de altura presos ao pára-quedas suspenso por um cabo de aço.

Na semana seguinte, no estágio C, os soldados fizeram saltos livres e controlados de torres de quase 80 metros de altura. Uma dessas torres tinha assentos, amortecedores de choque e cabos-guia de pára-quedas; as outras tinham quatro pára-quedas que se soltavam do dispositivo que os prendia quando eles alcançavam o leque de suspensão. A partir daí, todos passaram a fazer vários saltos durante o dia e um à noite.

O estágio C tinha também, como principal componente do treinamento, uma máquina de ventilação potente, que criava um vendaval artificial ao nível do solo para forçar o deslocamento tanto do pára-quedas quanto do pára-quedista, de modo que o ensinasse a controlar e recolher o velame depois de aterrissar.

Após uma semana nas torres, os alistados estavam prontos para o estágio D, de exercícios práticos, consistentes de cinco saltos de um C-47, que daria as asas de pára-quedista aos que completassem o processo de formação. Os soldados embalavam seus pára-quedas na noite anterior, examinavam-nos e tornavam a embalá-los; examinavam-nos novamente e os embalavam, isso até depois das 23 horas. O toque de alvorada era às 5h30. Eles seguiam marchando para os hangares em Lawson Field, cantando e clamando, tomados de ansiedade e emoção. Punham os pára-quedas e depois sentavam-se em fileiras de bancos para aguardar a chamada e seguirem para os C-47s. Na ocasião, caçoavam uns dos outros, contavam piadas, fumavam muito, riam nervosamente, faziam visitas freqüentes à latrina e checavam várias vezes o pára-quedas principal e o de reserva, preso ao tórax.

O embarque era de 24 deles por aeronave. Com apenas uma ou duas exceções, era a primeira vez que subiam num avião. Quando o C-47 atingia 1.500 pés de altitude, começava a voar em círculos. A luz vermelha se acendia; o mestre de saltos, um sargento instrutor, clamava: — De pé e preparem-se. — Todos os homens prendiam o cordão que sai da capa do pára-quedas principal ao que se estende pelo meio do teto da fuselagem.

— Chamada para a checagem do equipamento! — gritava o mestre de saltos.

— Número 12 OK!

— Número 11 OK! — E assim por diante.

— Aproxime-se da porta e fique lá!

O primeiro homem aproximava-se da porta aberta. Antes do salto, todos recebiam ordens para fixar o olhar no horizonte, em vez de no solo, por motivos psicológicos óbvios. Eram ensinados também a pôr as mãos na borda externa da porta, nunca na do lado interno. Com as mãos segurando a parte externa da porta, não havia nada que prendesse o sujeito ao avião, e o menor contato, ou mesmo a sensação de que o pára-quedista do salto seguinte o estivesse pressionando a saltar, era suficiente para fazê-lo sair do avião. Nas palavras de Gordon, se porventura ele empacasse, pondo as mãos no lado interno da porta, “12 homens atrás dele não conseguiriam empurrá-lo para fora do avião se ele não quisesse mesmo ir. Era o poder do medo”. Quando o mestre de saltos via um pára-quedista pôr as mãos do lado de dentro, ele o puxava para trás e deixava os outros saltarem.

A maioria deles, de acordo com Gordon, “estava tão preparada e envolvida nisso que quase teria saltado do avião sem pára-quedas. A situação era mais ou menos essa”. De um modo geral, 94% dos membros do 506° foram aprovados, o que estabeleceu um recorde que ainda vigora.

No primeiro salto, os pára-quedistas saltaram um de cada vez. Assim que chegava à porta, o mestre de saltos dava-lhe um tapinha na perna. E lá ia ele.

— Eu me aproximava da porta e saltava num vácuo enorme, de tirar o fôlego — descreve Webster. — Meu coração me vinha à boca; na mente, um branco total. — O cordão de abertura semi-automática preso ao gancho do cabo de ancoragem tirou a capa traseira do pára-quedas principal; o cadarço de abertura, preso ao ápice do velame, puxou este para fora e depois rompeu-se. A rajada de vento provocada pela queda livre inflou o pára-quedas, e ele sentiu o impacto terrível da abertura.

— Dali em diante, os saltos foram divertidos. Eu descia suavemente, oscilando, ou, como diriam os civis, balançando de um lado para o outro e olhando em volta, cheio de contentamento. O céu estava tomado de pára-quedistas muito bem-humorados, gritando uns para os outros.

* * *

Ficar de pé, parado naquela porta, era um momento de pura e ostensiva verdade. Homens que se haviam destacado no treinamento, homens que, depois, ganharam medalhas por bravura em combate como simples soldados de infantaria, congelaram. Às vezes, era-lhes concedida uma segunda chance, ou no mesmo vôo, depois que os outros tivessem saltado, ou no dia seguinte. Porém, geralmente, quando o pára-quedista congelava diante da porta uma vez, ele jamais saltava.

Dois membros da Companhia E congelaram. Recusaram-se a saltar. Um deles, o praça Joe Ramirez, foi empurrado para a parte traseira do avião, mas, depois que todos tinham saltado, ele disse ao mestre de saltos que queria saltar. O avião circundou o campo. Na segunda volta, ele saltou. — Fazer isso requeria mais coragem do que saltar logo na primeira vez — observou o praça Rod Strohl.

A Easy fez seu segundo salto à tarde, com os pára-quedistas saltando novamente um de cada vez. O salto seguinte foi uma seqüência rápida de tropas deixando o avião em massa, com o mestre de saltos gritando “Vai, vai, vai!” à medida que os 12 pára-quedistas do grupo de salto da vez se aproximavam da porta. Os grupos deixaram o avião vazio em 6 segundos, para o assombro do mestre de salto. Carson escreveu em seu diário: “Acho que estou ficando obcecado por saltos, pois, quando estou em terra, penso na emoção de saltar e sinto vontade de fazer isso outra vez. Quando sinto aquele impacto da abertura, grito com todas as minhas forças.”

O quarto salto foi na véspera do Natal. Nesse dia, a companhia obteve dispensa e teve um belo banquete com peru. Foi o primeiro Natal longe de casa para praticamente todos os membros da companhia. Carson escreveu: “Não parece ser dia de Natal; sem neve, sem árvore, sem presentes, sem pais e mães.”

Em 26 de dezembro, dia do último salto, todos os soldados receberam um certificado declarando que estavam “aptos a serem considerados, deste dia em diante, pára-quedistas qualificados”. Em seguida, veio o momento de maior orgulho para eles: o recebimento das asas de prata. Desse momento em diante, que jamais seria esquecido, cada um dos membros da Easy, cada membro do 506°, seria especial para sempre.

* * *

O coronel Sink organizou uma parada para o regimento e depois reuniu a tropa em torno dele. De pé numa plataforma, leu a ordem do dia (depois, os soldados receberam cópias impressas dela). “Vocês são membros de um dos melhores regimentos do Exército dos Estados Unidos”, declarou Sink, “e, conseqüentemente, do mundo.” Ele disse que os estava enviando a seus lares para uma licença de dez dias e os lembrou que “do soldado se esperam certas coisas — não apenas durante a licença —, e também a crença nos princípios pelos quais vocês governem suas vidas”. Eles deveriam caminhar com orgulho e porte militar, cuidar da aparência pessoal e “lembrar-se de nosso grito de guerra e mote: ‘Currahee’, e seu significado: ‘Resistir sem ajuda.’ Nós Resistimos sem Ajuda Juntos”.

Ele ordenou que os combatentes ficassem “longe da prisão” e os dispensou. Com suas asas de prata, botas polidas e as calças enfiadas nelas, lá foram eles. Quando chegaram em casa, foram alvo de admiração dos pais e dos amigos, obviamente por causa de sua boa forma física, mas ainda mais por conta da autoconfiança que haviam adquirido nos últimos seis meses. Tinham passado por um treinamento que três em cada cinco voluntários não conseguiram completar; tinham sobrevivido ao ódio e à hostilidade de Sobel; tinham saltado de um avião em vôo. Eram homens de escol.

E não tão de escol, porém, de modo que estivessem livres para ignorar as normas e os regulamentos do exército. O coronel Sink lhes havia ordenado que voltassem para Benning quando a licença terminasse, mas, com a deficiência dos sistemas de transporte aéreo, ferroviário e rodoviário nos Estados Unidos em janeiro de 1943, um número alarmante de membros do 506° se atrasou na reapresentação para o serviço.

O coronel Sink organizou outra parada para o regimento. Os pára-quedistas se apresentaram em seu uniforme classe A, ou de gala. Foram conduzidos, em marcha, por uma rua de terra, a um lote vazio atrás dos alojamentos dos cozinheiros. Sink bateu continência e em seguida deu o comando de “descansar”. Escutaram e observaram atentamente, em silêncio, enquanto o tenente lia uma lista de nomes, um de cada companhia, dos soldados que haviam sido os últimos a se apresentar.

— Soldado John Doe, Companhia E — disse o tenente, em voz alta. Um tambor, de pé ao lado do tenente, fez que seu instrumento rufasse suave e melancolicamente. Dois sargentos, portando submetralhadoras, aproximaram-se do praça Doe. Ele saiu da formação. Seu rosto estava pálido. Os sargentos, um de cada lado, escoltaram-no adiante. O tambor continuava a rufar. Pararam na frente do tenente. Este leu as ordens. O praça Doe estava sendo dispensado da unidade de pára-quedistas e seria transferido para uma unidade de infantaria.

O tenente tirou o distintivo do 506° do braço do praça, as asas de prata de seu peito, a insígnia de pára-quedista do quepe, e jogou tudo ao chão. Foi tão humilhante que os oficiais e a tropa ficaram xingando por entre os dentes. “Uma coisa mexeu conosco quase a ponto de explodirmos em louca rebeldia; um tenente desprezível, sem nenhum senso de decência ou bom gosto, ficou de pé ao lado do tambor, tirando fotografias de todos os companheiros que chegavam. Muito ruim ser humilhado diante dos amigos, mas ser fotografado em seu momento de desgraça — esse tenente tinha que ter sido fuzilado”, disse Webster na carta enviada à mãe.

Mas as coisas não pararam aí. Um jipe chegou, e um soldado jogou para fora as mochilas de campanha de Doe. Ele teve de tirar as botas, calçar sapatos comuns e passar a usar as calças como um membro de infantaria comum (“pernas certinhas”, nas palavras dos pára-quedistas). Ele pegou as mochilas e, seguido pelos soldados portando submetralhadoras, retirou-se marchando, tristemente, com o tambor rufando continuamente, num quadro de puro desconsolo. Isso se repetiu nove vezes.

Depois disso, o 506° quase não teve problemas com soldados voltando atrasados da licença.

No fim de janeiro, a Easy e o restante do 506° cruzaram o rio Chattahoochee em demanda da parte do Forte Benning situada no Alabama. Foi como ir da prisão para a liberdade. Os alojamentos eram confortáveis, e a comida, boa. Havia uma excelente cooperativa militar e um cinema. O treinamento concentrou-se em questões atinentes às atividades dos esquadrões, principalmente combates de porta em porta, o que era divertido, com muitas explosões, e nos quais faziam disparos de festim uns contra os outros, lançando granadas de fumaça. Os pára-quedistas fizeram seu sexto salto, o primeiro com fuzis.

As anotações no diário de Carson dão bem a idéia desses dias de inverno. Oito de fevereiro: “Ontem à noite, estávamos com os ânimos exaltados. Por isso, quase destruímos os alojamentos numa briga com travesseiros. Depois de 3 horas de luta, ficamos cansados e fomos dormir.” Onze de fevereiro: “[O cabo Joe] Toye, [o sargento George] Luz e eu [fomos] para Columbus. Telefonei para as garotas e fizemos uma festa, diversão e mais diversão. A certa altura da festa, deparei Betty, a chave do meu sucesso em Columbus. Por fim, tivemos que voltar para o alojamento, e cheguei aqui às 4h45.” Doze de fevereiro: “De volta a Chickasaw Gardens, em Columbus, e outra noite adorável. Betty e eu nos divertimos muito. Nos divertimos mesmo. Cheguei ao alojamento às 4h45 e entrei em serviço às 5h30 com apenas um olho aberto.”

Em março, “preparem-se; estamos partindo”. Camp Mackall, na Carolina do Norte, era um centro de instrução militar maravilhoso. Em 7 de novembro de 1942, ele tinha 62 mil acres de terreno baldio. Quatro meses depois, tinha 104 quilômetros de estradas pavimentadas, um hospital com 1.200 leitos, cinco cinemas, seis cervejarias gigantescas, um campo de aviação para todo tipo de tempo, com pistas de pouco mais de 1.500 metros de extensão e 1.750 edifícios. Os alojamentos tinham sistema de aquecimento; os beliches tinham colchões. O nome do centro era uma homenagem ao praça John T. Mackall, da 82ª Divisão de Infantaria Aerotransportada, o primeiro pára-quedista americano morto em combate na 2ª Guerra Mundial. Ele morreu em 8 de novembro, no dia do início das obras de construção, no norte da África. Camp Mackall era a casa do Comando Aéreo.

O treinamento foi intensificado e ficou mais complexo. Agora, os saltos incluíam não apenas fuzis, mas também outras armas pequenas. O pára-quedista tinha de saltar com a bazuca numa única peça; tal era o caso também das metralhadoras leves (embora o tripé podia ser separado e levado por um segundo homem). Dois homens dividiam a tarefa de levar o morteiro de 60 milímetros e seu pedestal. Alimentos, munição, mapas, granadas de mão, explosivos de grande potência e outras coisas mais iam junto com os pára-quedistas. Alguns pára-quedistas estavam saltando com cerca de 45 quilos adicionais.

Depois dos saltos, havia dois ou três dias de exercícios na floresta, com ênfase na rápida movimentação das tropas, operando atrás das linhas inimigas como forças de grande magnitude. Ao anoitecer, mostrava-se aos líderes de pelotão sua localização no mapa e dizia-se a eles que estivessem em tal e tal lugar de manhã.

O capitão Sobel tomou o praça Robert “Popeye” Wynn seu mensageiro. Num desses exercícios, ele enviou Wynn pelo campo para localizar seus pelotões. Wynn conseguiu “perder-se” e passou a noite recuperando o sono perdido. De manhã, Sobel exigiu que Wynn lhe dissesse por que havia se perdido.

— Porque não enxergo no escuro — respondeu Wynn.

— É melhor que você aprenda a enxergar no escuro — devolveu Sobel, e enviou Wynn de volta para o esquadrão e o substituiu por Ed Tipper como mensageiro.

— Com minha ajuda — disse Tipper —, Sobel podia dar-se ao luxo de perder os mapas, a bússola e outros itens quando mais precisava deles. Ele estava recebendo “assistência” semelhante de outros e ficou ainda mais desorientado e perdido do que costumava ficar. Nossa esperança era que ele ficasse tão confuso que acabasse sendo substituído e que não tivéssemos de entrar em combate sob o comando dele.

“Seu fuzil é seu braço direito!”, Sobel costumava dizer a seus homens. “Deveria estar a seu alcance o tempo todo.” Numa noite de exercícios, ele resolveu ensinar uma lição a seus homens. Ele e o sargento Evans penetraram sorrateiramente na posição da companhia para roubar os fuzis dos soldados adormecidos. A missão foi bem-sucedida; pela manhã, Sobel e Evans tinham quase 50 fuzis. Com grande estardalhaço, Evans reuniu a companhia, e Sobel começou a dizer aos fuzileiros quanto eles eram uns combatentes de merda.

Enquanto ele vociferava, o comandante da Companhia Fox chegou, acompanhado de 45 de seus homens. Para grande constrangimento de Sobel, ficaram sabendo que ele e Evans haviam se perdido, entrado por engano na área de bivaque da Companhia Fox e roubado os fuzis deles.

Algumas semanas depois, Sobel feriu o pé num salto. Ele e o sargento Evans voltaram para o quartel, enquanto a companhia permaneceu no campo. O capitão e o primeiro-sargento procederam a uma diligência particular. Revistaram todos os armários, roupas e pertences pessoais dos membros da Companhia E. Examinaram bolsos, caixas abertas, folhearam cartas das namoradas e de familiares deles e confiscaram todos os itens que consideraram contrabando. — Não sei o que eles estavam procurando — comentou Gordon Carson. — Nessa época, não havia drogas.

Sobel divulgou em cartazes uma lista de identificação do contrabando, com o nome do infrator e a punição. Os fuzileiros voltaram do campo de exercícios, sujos e exaustos, e viram que tudo que consideravam pertences seus estava bagunçado, peças íntimas, meias, pastas e escovas de dente, tudo amontoado em cima dos beliches. Muitos objetos haviam desaparecido.

Quase todos os soldados tiveram algo confiscado. De um modo geral, eram munição obtida sem permissão, roupas fora do regulamento ou pornografia. Latas de coquetel de frutas e pêssego em fatias, roubadas da cozinha, tinham sumido, juntamente com camisas caras, nenhuma delas jamais devolvidas. Um dos soldados estivera colecionando kits de higiene. Alguns preservativos eram aceitáveis, logicamente, mas 200 deles constituíam contrabando; eles foram incluídos na lista de Sobel como itens confiscados.

— Isso foi um ponto de mudança de opinião decisivo para mim — lembra-se Tipper. — Antes dessa investida de Sobel, eu tinha antipatia por ele, mas não odiava de fato o sujeito. Depois disso, passei a considerar Sobel meu inimigo pessoal e decidi que não lhe devia mais lealdade ou qualquer outra coisa. Todo mundo ficou fulo de raiva.

Diante do que aconteceu, passaram a correr comentários especulativos de quem mataria Sobel quando a companhia entrasse em combate. Tipper achou que tudo não passava de conversa, mas, “por outro lado, eu sabia que havia outros caras da Companhia E que falavam pouco, mas que, a meu ver, eram perfeitamente capazes de matar Sobel se tivessem oportunidade”.

No exercício de campanha seguinte, a Companhia E foi informada de que alguns de seus membros seriam designados para atuar como baixas simuladas, de modo que os socorristas pudessem praticar aplicação de bandagem em ferimentos, improvisação de engessamento e colocação de talas, evacuação de soldados em padiolas e assim por diante. Disseram a Sobel que ele deveria atuar como uma dessas baixas simuladas. Os socorristas aplicaram nele um anestésico real, abaixaram-lhe as calças e fizeram nele uma incisão de verdade, simulando uma apendicectomia. Costuraram a incisão e cobriram-lhe com bandagem e esparadrapo. Em seguida, desapareceram.

Sobel ficou furioso, muito naturalmente, claro, mas não conseguiu chegar a lugar nenhum em sua pressão por uma investigação. Ele não pôde contar com nenhum membro da Companhia E que conseguisse identificar os socorristas culpados.

* * *

A qualidade da forma física dos membros da Companhia E ficou evidente em Mackall quando o Ministério do Exército ordenou que Strayer, comandante do 2º Batalhão — já famoso pela marcha até Atlanta —, providenciasse uma demonstração do grau de seu condicionamento físico. O batalhão obteve nota 97. Uma vez que essa era a nota mais alta para um batalhão do exército, o coronel Jablonski, de Washington, achou que Strayer tinha forjado a nota. — Eles nos fizeram correr uma segunda vez, oficiais, soldados, o pessoal da intendência, cozinheiros, todos — e obtivemos nota 98 — conta Winters.

As promoções estavam chegando à Easy. Todos os três segundos-sargentos, James Diel, Salty Harris e Mike Ranney, eram membros originais da companhia que tinham começado como praças. Tal era o caso também dos terceiros-sargentos, Leo Boyle, Bill Guarnere, Carwood Lipton, John Martin, Elmer Murray, Bob Rader, Bob Smith, Buck Taylor e Murray Roberts. Carson passou a cabo. O tenente Matheson foi promovido a oficial do estado-maior do regimento, enquanto os tenentes Nixon, Hester e George Lavenson passaram ao estado-maior do batalhão. (Até o fim da guerra, todos os postos vagos no estado-maior do 2º Batalhão foram preenchidos por um oficial da Easy. As Companhias D, F e CQG não tiveram nenhum de seus oficiais transferidos para o batalhão. — Foi por isso que as comunicações entre o batalhão, o QG do regimento e a Companhia E eram sempre excelentes. Foi por isso também que a Companhia E parecia ser sempre convocada para missões decisivas — avalia Winters.)

No início de maio, o 1º Pelotão, de Winters, recebeu um novo segundo-tenente, Harry Welsh. O sujeito era um graduado indeciso. Em abril de 1942, ele se havia apresentado como voluntário ao posto de alistamento de pára-quedistas e tinha sido lotado no 504° RIP da 82ª DIA. Depois da escola de pára-quedismo, ele se tornou sargento. Três vezes. Era constantemente rebaixado a praça por causa de brigas. Mas era um sujeitinho durão, com óbvio potencial de liderança. Seu comandante de companhia percebeu isso e indicou Welsh como aluno da Escola de Aspirantes-a-Oficial (EAO).

Welsh foi lotado na Companhia E, 2º Batalhão, 506° RIP. Antes disso, ele quis voltar para o 504° RIP, mas a política do exército era enviar oficiais formados pela EAO para novas unidades, pois receavam que, se voltassem para sua unidade antiga, teriam um relacionamento muito familiar com seus colegas alistados. Sobel pôs Welsh no pelotão de Winters. Eles se tornaram grandes amigos em muito pouco tempo. Sua amizade se baseava em respeito mútuo resultante de uma mesma visão de liderança. Mas não perdiam de vista o fato de que eram “oficiais acima de tudo”, segundo as palavras de Welsh.

No fim de maio, os membros da Easy recolheram suas barracas e juntaram-se a outras companhias do 506° para pegar um trem parador com destino a Sturgis, Kentucky. No posto de recrutamento, garotas da Cruz Vermelha lhes deram café e rosquinhas, a última migalha de conforto que teriam durante um mês. E partiram em marcha para o interior, onde armaram pequenas barracas de campanha, abriram valas para servir de latrina e comeram o rancho favorito do exército para soldados em campanha: torradas com carne moída e creme de maionese, universalmente conhecidas

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como SOS .

A situação não era de combate real, mas o mais próximo disso a que o exército conseguiu chegar. As manobras realizadas no Kentucky, no Tennessee e em Indiana, de 5 de junho a 15 de julho de 1943, combinaram a participação de soldados transportados por aviões e aeroplanadores no maior exercício de movimentação aérea de tropas feito até hoje.

Em 10 de junho, o 506° RIP foi oficialmente incorporado à 101ª DIA, fato que fez desse dia a data mais importante de toda a história da 101ª. O reforço do 506° aumentou perceptivelmente o moral da 101ª, pelo menos de acordo com os membros da Companhia E.

As manobras, nas quais o Exército Vermelho enfrentaria o Exército Azul, abrangiam uma vasta área de colinas e montanhas numa região silvestre. A Easy fez três saltos. Christenson lembrava-se vivamente de um deles. Estava quente, sufocante, dentro do C-47, e as correntes de ar quente que subiam das colinas provocavam turbulência nos aviões. O cabo Denver “Bull” Randleman, posicionado atrás do grupo de salto e, portanto, longe da porta aberta da aeronave, começou a vomitar no capacete. O soldado que estava na frente dele resolveu dar uma espiadela e acabou perdendo o almoço também. O efeito correu pela fila inteira. Nem todos conseguiram vomitar no capacete; o piso ficou encharcado de vômito, e o avião começou a feder. Christenson, lá na frente, estava conseguindo evitar o vômito, mas por muito pouco. — Meu estômago estava a ponto de entrar em erupção... “Por que eles não acendem a luz verde? Até que enfim!” Lá atrás, gritos de — vai, vai! Merda, vai logo! —, e lá fui eu, lançando o corpo ao ar fresco e puro. Senti-me como se alguém tivesse passado uma varinha mágica pela minha cabeça e houvesse dito: “Christenson, você está ótimo.” E estava mesmo.

As manobras envolviam longas marchas noturnas, dificultosa travessia de rios, com uma verdadeira escalada da margem oposta, em que os soldados venciam dois metros e escorregavam um, superação de obstáculos na forma de rochas, cepos e raízes, abertura de caminhos a golpes de foice através de vegetação rasteira e cerrada. Ocasionalmente, tiveram também o prazer de saborear frango frito oferecido pelos habitantes das montanhas do Tennessee. Ao fim da sessão de instrução, terminavam cansados, sujos, cheios de coceiras pelo corpo.

No fim de julho, com o término das manobras, o 2º Batalhão do 506° recebeu uma condecoração do general-de-divisão William C. Lee, comandante da 101ª DIA, por “combate esplêndido e agressivo, tática inteligente e soldados obviamente bem-treinados”. O general Lee se disse ainda confiante em que “futuros testes darão mais provas de excelência nos treinamentos e em liderança”.

Então, a Easy transferiu-se de Sturgis para Camp Breckinridge, no Kentucky, onde havia alojamentos, ducha quente e outros luxos. Mas esse centro de instrução estava lotado, e, mais uma vez, as pequenas barracas de campanha foram usadas como dormitórios e o solo como travesseiro. Essa situação não durou muito, já que a maioria da tropa obteve licença de dez dias, e, logo depois que se reapresentou, a divisão inteira embarcou de trem para o Forte Bragg, na Carolina do Norte.

Ficou prontamente claro que Bragg era uma área de transição, já que a divisão se preparava com o intuito de seguir para além-mar. A comida era melhor; havia camas nos alojamentos, com duchas quentes e outras comodidades. Mas o bom mesmo foi a reaparelhamento total da tropa. Os soldados receberam novos trajes, novas armas, novos equipamentos. Passaram seus dias no campo de tiro, treinando em alvos com seus fuzis e metralhadoras.

Para onde estavam indo, leste ou oeste, para o teatro europeu, do Mediterrâneo ou do Pacífico? Ninguém sabia; corriam rumores de pelotão para pelotão; faziam-se apostas.

Nos fins de semana, os combatentes iam a Fayetteville para “tomar uns tragos”, no Town Pump, um dos bares locais. As brigas eram freqüentes. A maioria era iniciada pelos pára-quedistas, que agrediam violentamente os praças lotados em Bragg. Além disso, provocavam os soldados das unidades de planadores.

Os membros das unidades de planadores eram recrutas lotados no regimento transportado por planadores. Embora fossem pára-quedistas, não eram voluntários e recebiam tratamento do exército como soldados de segunda classe. Não recebiam os 50 dólares adicionais mensais, não tinham distintivos especiais, não usavam botas nem, logicamente, as dispunham como pára-quedistas voluntários. Alguns deles chegaram a criar cartazes com fotografias de planadores acidentados e incendiados, com o seguinte título: “Junte-se às unidades de planadores! Nada de adicional de vôo. Nada de adicional de salto. Mas nem um pouco de tédio!”

Alguns membros da Easy chegaram a ir ao campo de aviação de Bragg para fazer um vôo num planador. A experiência de aterrissar num daqueles caixotes de compensado serviu para convencê-los de que saltar de pára-quedas era um meio mais seguro de chegar ao solo. Quando o general Lee fez um vôo num planador, a aterrissagem acidentada causou-lhe a fratura de várias costelas. — Da próxima vez, uso um pára-quedas — avisou. — Nós lhe dissemos que fizesse isso! — clamaram os membros da unidade de planadores. (Em julho de 1944, esses homens finalmente passaram a ganhar os 50 dólares mensais, como adicional por risco de vida, e a usar uma insígnia especial.)

Em meados de agosto, a divisão se reuniu em formação de regimento. Uma banda tocou Over There, e garotas da Cruz Vermelha choraram quando os soldados seguiram para as 20 composições de trens que aguardavam para levá-los à guerra. Uma vez a bordo e algo acomodados, começaram as apostas no destino para o qual os trens seguiriam: se para o norte, em demanda de Nova York, e depois para a Europa ou para o Mediterrâneo, ou se para o Oeste, rumo à Califórnia, e depois para o Pacífico. Os trens seguiram para o norte, com destino a Camp Shanks, cerca de , 48 quilômetros rio Hudson acima, em relação a Nova York. Os soldados receberam promessas de ganhar licença para visitar a cidade, mas elas não foram cumpridas. Ao contrário disso, houve mais inspeções médicas, seguidas de aplicação de injeções. — Uma injeção atrás da outra — relata Christenson —, até que nossos braços pendessem do corpo como se fossem corda. — Oficiais e combatentes chegaram a saber de cor o manual Preparação para Mobilização Além-Mar.

Sobel criou um modelo de carta impressa para enviar às mães de seus soldados. “Cara Senhora”, era a abertura da carta. “Logo, seu filho, o praça Paul C. Rogers [o nome era preenchido à máquina] saltará do céu para entrar em combate e derrotar o inimigo. Ele terá as melhores armas e os melhores equipamentos. Ele passou por meses de treinamento rigoroso e cansativo para estar apto a triunfar nos campos de batalha.

Suas cartas freqüentes, cheias de amor e encorajamento, servirão para muni-lo com ânimo de luta. Com isso, ele não tem como fracassar, mas, sim, conquistar glória para si mesmo e fazê-la orgulhar-se dele e de seu país, sempre grato pelo serviço dele, nesta hora de necessidade.” Ele assinou todas as cartas com muito floreio: “Herbert M. Sobel, capitão, comandante.”

Os alistados conseguiram arranjar um pouco de uísque. Uma vez que estavam acostumados com cerveja, o efeito da bebida foi grande. Christenson ficou tão bêbado que “se apaixonou pela privada”, fato comum entre os jovens que tinham acabado de conhecer o uísque. O cabo Randleman o achou e o levou gentilmente para a cama. Na manhã seguinte, o ambiente tomado pelos gemidos e pelas queixas dos homens de ressaca, a companhia marchou para o cais do porto. Uma barca levou os soldados para um embarcadouro, onde café e rosquinhas servidos pelas jovens da Cruz Vermelha ajudaram a reanimar os que pareciam quase “mortos”.

Houve muito xingamento, em parte porque a tropa tinha esperança de que fosse passar por Nova York marchando, com destino aos campos de batalha, e isso não aconteceu, mas também porque não teve permissão para usar botas de pára-quedista. O motivo: espiões inimigos poderiam ver isso e ficariam sabendo que uma divisão aerotransportada estava de partida. A tropa teve de tirar o distintivo da 101ª, a Screaming Eagles, dos ombros.

Até onde Winters pôde lembrar-se, houve apenas um caso de “febre de

embarque {14}”. Um oficial médico “usou de esperteza, já que sabia o que era necessário para ser incumbido de atender a casos de enjôo e deixar de embarcar”. Todos os outros formaram uma fila única para embarcar pela prancha, carregando suas barracas de campanha e suas armas. Quando chegavam a bordo do navio de passageiros transformado em navio de transporte de tropas e respondiam à chamada, o encarregado de fazê-la marcava-lhes a presença. Foi necessário quase um dia inteiro para fazer com que os 5 mil soldados embarcassem num navio construído para transportar mil passageiros. Por fim, rebocadores tiraram o navio do ancoradouro, e lá foi ele, movido a vapor, mar adentro. Os membros da Companhia E debruçaram-se na amurada do navio, de modo que pudessem ver a Estátua da Liberdade ficar para trás. Para quase todos eles, era a primeira viagem para fora dos Estados Unidos. Certa saudade do lar começou a impregnar o ambiente, acompanhada da percepção de “quão maravilhoso o último ano tinha sido”, tal como registrado no livro de memórias do regimento, o Currahee.