Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 19
Carreiras no Pós-Guerra
1945-1991
Quarenta e oito membros da Companhia E deram suas vidas por seu país. Mais de cem deles se feriram, muitos gravemente, alguns duas vezes, uns poucos três vezes, um deles quatro vezes. A maioria foi vítima de tensão, geralmente grave. Todos dedicaram à guerra o que consideravam os melhores anos de suas vidas. Tornaram-nos matadores, acostumados a carnificina e a reações rápidas e violentas. Poucos deles tinham algum conhecimento universitário antes da guerra; a única habilidade que a maioria deles tinha era a de combatente de infantaria.
Eles saíram da guerra determinados a compensar o tempo perdido. E correram para a universidade, lançando mão da Bill of Rights dos Pracinhas, unanimemente elogiada pelos veteranos, considerada por eles o melhor conjunto de leis que o governo norte-americano criara até então. Eles se casaram e tiveram filhos o mais rapidamente possível. Depois, iniciaram o esforço de construção da própria vida.
Seu sucesso foi notável, principalmente por causa de sua determinação, ambição e trabalho árduo, mas também, até certo ponto, graças àquilo que tinham conseguido com sua experiência positiva no exército, onde haviam aprendido a ser autoconfiantes, disciplinados e obedientes; que eram capazes de suportar mais do que achavam que era possível, que podiam trabalhar com outras pessoas como parte de uma equipe. Eles se haviam alistado como voluntários no corpo de pára-quedistas porque queriam estar com os melhores e tornar-se os melhores possíveis. E conseguiram. Não desejaram menos que isso em sua vida de civis e foram bem-sucedidos nela também.
O caráter deles era como a rocha, esses que nasceram entre 1910 e 1928. Eles foram os filhos da Depressão, combatentes da maior guerra da história, realizadores e participantes do surto econômico do pós-guerra. Eles aceitaram o incentivo e amparo da Carta de Direitos Fundamentais, mas jamais aceitaram esmola. Eles abriram seu próprio caminho. Alguns deles enriqueceram; outros se tornaram poderosos, quase todos construíram casas, cumpriram seu dever, criaram famílias e tiveram vida decente, aproveitando-se inteiramente da liberdade que ajudaram a preservar.
Parece-me apropriado começar pelos que sofreram ferimentos graves. O cabo Walter Gordon tinha levado um tiro nas costas em Bastogne e ficou paralítico. Depois de seis semanas de internação num hospital na Inglaterra, imobilizado na cama e com uma prótese Crutchfield, ele começou a sentir um pouco a extremidade dos membros. Ele havia sido tratado pelo Dr. Stadium, que costumava pôr-se ao pé da cama dele e provocá-lo:
— Você não passa de um maldito enrolão, Gordon. — Gordon ficava tenso, retrucava e se irritava. Stadium jamais perdeu a esperança de recuperá-lo.
— Jamais me ocorreu que eu poderia tornar-me um aleijão inútil — contou-me Gordon.
Quando a prótese foi retirada, Stadium conseguiu fazê-lo andar, ou pelo menos arrastar-se. Na primavera de 1945, Gordon foi classificado como “ferido capaz de andar” e enviado num navio-hospital para os Estados Unidos, onde se recuperou lentamente no Lawson General Hospital, em Atlanta. Ele estava lá quando a guerra na Europa acabou. Ele caminhava com dores nas costas, sentava-se com dores nas costas e ia dormir sentindo dor. Qualquer esforço físico estava muito além de suas possibilidades; era óbvio que ele não era mais útil ao exército. Nos meados de junho, seu pai exigiu saber quando ele seria dispensado. — Não sei — foi tudo que Gordon conseguiu dizer.
Em 16 de junho, Gordon foi submetido a um exame. Então, o jovem médico lhe disse que ele seria transferido para o Forte Benning, dado como apto para serviços limitados. Até onde Gordon pôde entender, ele fez isso porque “lesões nervosas levam tempo para curar, e dispensar um veterano com o meu grau de incapacidade justificaria a concessão de uma compensação significativa. Se me mantivessem no exército por mais alguns meses, meu estado certamente melhoraria”.
Gordon telefonou para o pai, a fim de dar-lhe a notícia. Seu pai o repreendeu duramente.
— Ele frisou que eu tinha sido ferido duas vezes e que, agora, eu era um aleijado. Ele achava que eu tinha feito a parte que me cabia e que a hora de eu voltar para casa havia chegado. — Depois, deu uma ordem ao filho para que a repassasse ao médico do exército.
Gordon fez o que o pai lhe ordenara, embora com certo constrangimento. Ele iniciou a conversa com o médico explicando que a mensagem era de seu pai e que se eximia de qualquer responsabilidade por ela.
— Vamos logo com isso! — bradou o médico, mostrando quanto estava ocupado.
— Meu pai pediu que eu lhe dissesse que, se eu for enviado para qualquer lugar que não seja a minha casa, ele virá buscar-me para levar-me de avião para Washington, D. C, e, se necessário, despir-me até a cintura diante do senado.
O médico ficou pasmo. Gordon teve a impressão de que isso quis dizer: “Ó meu Deus, aquilo de que menos preciso é um senador do Mississípi no meu caso. Isso seria uma passagem para o Pacífico. Tirem-no daqui.”
Ele disse, em voz alta: — OK, dispensa imediata e invalidez total. — Ele arranjou um novo uniforme para Gordon, levou-o ao dentista para que este lhe obturasse um dente e providenciou-lhe o pagamento.
Gordon entrou para a faculdade de direito da Cumberland University, em Lebanon, Tennessee. Com a invalidez total rendendo-lhe 200 dólares por mês, além dos benefícios da Carta de Direitos Fundamentais, “eu era um aluno rico”. E um bom aluno também. Ele tornou-se advogado no Mississípi antes de terminar o curso de advocacia.
— Portanto, eu era um advogado inscrito no foro que ainda freqüentava a faculdade. — Depois de formado, ele trabalhou para várias empresas importantes no ramo da indústria petrolífera no sul de Louisiana. Em 1951, conheceu Betty Ludeau em Acapulco, México, em viagem de férias. Eles se casaram um ano depois, mudaram-se para Lafayette, Louisiana, e deram início ao que se tomou uma família com cinco crianças, quatro delas meninas. — Percebi que meu salário não era suficiente para sustentar Betty do jeito que ela queria — contou-me Gordon. — Dessa forma, passei a trabalhar por conta própria.
Ele entrou para um ramo de negócio de alto risco, que envolvia o arrendamento de bens da indústria petrolífera e a especulação com títulos de longo prazo. E foi bem-sucedido. Hoje, os Gordons têm uma casa em Lafayette e apartamentos em Pass Christian, Mississípi, Nova Orleans e Acapulco. Ele ainda sente dores, caminha com certa dificuldade, mas os Gordons foram abençoados com filhos e netos, ainda estão apaixonados e adoram contar piadas sobre si mesmos; têm tido uma vida boa.
— E o que o exército significou para você? — perguntei-lhe no fim de nossos três dias de entrevistas.
— Foram os três anos mais significativos de minha vida — ele respondeu. — A influência que ele exerceu sobre mim é espantosa. Fiz amizades que até hoje são as mais importantes que tive. Sou incrivelmente sortudo por ter saído de lá vivo e mais ainda por ter feito parte desse grupo de homens notáveis.
Em dezembro de 1991, Gordon leu uma história no Sun Herald, de Gulfport. Ela dava conta de que o prefeito Jan Ritsema, de Eindhoven, Holanda, tinha se recusado a encontrar-se com o general H. Norman Schwarzkopf, pois o comandante das forças das Nações Unidas presente na Guerra do Golfo tinha “sangue demais nas mãos”. “Foi ele quem criou a maneira mais eficiente possível para matar o maior número de pessoas”, disse Ritsema a respeito de Schwarzkopf.
Gordon enviou uma carta ao prefeito Ritsema: “Em 17 de setembro de 1944, participei da grande operação aérea realizada para libertar seu país. Como membro da Companhia E, 506° RIP, aterrissei perto da pequena cidade de Son. No dia seguinte, seguimos para o Sul e libertamos Eindhoven. Durante o cumprimento de nosso dever, sofremos baixas. Essa é a expressão militar para designar derramamento de sangue. Ocupamos várias posições defensivas durante dois meses. Qual fôssemos animais, vivemos em buracos, celeiros, e da melhor forma possível. O tempo era frio e úmido. Apesar das condições adversas, defendemos o território pelo qual lutamos muito arduamente para conquistar.
Naquela época, os cidadãos holandeses não tiveram essa aversão que você tem agora a derramamento de sangue quando o derramado foi o dos alemães que ocupavam sua cidade. Como nossa memória é curta. A história mostrou mais de uma vez que a Holanda poderia ser conquistada outra vez caso seus vizinhos, os alemães, tivessem um fim de semana tedioso e os campos de golfe estivessem cheios.
Por favor, não deixe que seu país seja engolido por Liechtenstein ou pelo Vaticano, já que não pretendo voltar. A partir de agora, vocês terão de se virar sozinhos.”
O sargento Joe Toye nos fala de suas experiências: — Depois de ser atingido (minha quarta Purple Heart) em Bastogne, fui submetido a uma série de operações. A principal delas foi a amputação de minha perna direita, num ponto acima do joelho. Depois, tive duas outras operações; estas duas foram para extrair estilhaços da parte superior do tórax — para conseguir isso, o cirurgião fez uma incisão em minhas costas.
Eu me casei em 15 de dezembro de 1945, enquanto ainda estava no hospital, em Atlantic City. Fui dispensado do exército em 8 de fevereiro de 1946.
Ele recebeu um atestado de 80% de invalidez. Antes da guerra, fora modelador numa fundição, mas agora, com uma perna de pau, não podia fazer o trabalho. Ele conseguiu trabalho numa indústria têxtil em Reading, Pensilvânia. Depois, trabalhou 20 anos para a Bethlehem Steel como esmerilhador.
Ele tem três filhos e uma filha. — Eu costumava levar os meninos para caçar, pescar, mas jamais levei uma arma — tinha medo de tropeçar. Esta perna artificial, se travar em algo, você já era, sabe. Por isso, jamais carregava uma arma. Mas eu os levava para caçar cervos e pescar. Todos os anos, eu ia acampar com eles no Canadá.
De 1946 para cá, as pernas artificiais se modernizaram muito. Toye acha que os
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médicos dos hospitais da Veteran’s Administration fizeram um bom trabalho e o
mantiveram atualizado a respeito das últimas próteses lançadas no mercado. Mas ele tem do que se queixar. Ele quer duas pernas, uma delas ligeiramente maior no ponto de contato com a parte que restou da perna amputada. Porém, uma vez que os médicos dizem que uma só basta, “não me atrevo a ganhar ou perder peso, pois, do contrário, pode não caber em mim.
O sargento Bill Guarnere perdeu parte de uma das pernas também, num ponto acima do joelho, em Bastogne. Depois de ter sido dispensado, no verão de 1945, recebeu um atestado de 80% de invalidez. Ele se casou, teve um filho e trabalhou como tipógrafo, vendedor, funcionário da VA e carpinteiro, apesar da perna artificial. Houve certa confusão envolvendo seus documentos, fato que lhe custou dinheiro e levou a muitas disputas com a VA. Em 1967, finalmente obteve atestado de invalidez total e conseguiu aposentar-se. Ele jogou fora a perna artificial e, nos últimos 24 anos, tem usado muletas. Ele consegue mover-se mais rapidamente do que a maioria dos jovens que têm as duas pernas. Mora em South Philly, onde foi criado, com sua esposa Fran. O casal tem cinco filhos; o mais velho foi pára-quedista no Vietnã. Ele é membro muito ativo da Associação da 101ª e nas reuniões dos membros da Companhia E que ele organiza.
O sargento Chuck Grant, atingido no cérebro pela bala disparada pelo recruta bêbado na Áustria depois da guerra, teve a vida salva por um médico alemão. Ele se recuperou lentamente, embora tivesse ficado com certa dificuldade para falar e com paralisia parcial no braço esquerdo. Depois da dispensa médica, com invalidez total, ele foi morar em San Francisco, onde tinha uma pequena charutaria. Durante alguns anos, freqüentou regularmente as reuniões da Companhia E e foi membro ativo da Associação da 101ª. Mike Ranney o nomeou o representante do 506° no quadro de diretores da Associação; ele foi eleito e serviu com grande orgulho. Morreu em 1984.
O tenente Fred “Moose” Heyliger, atingido duas vezes por tiros de seus próprios homens na Holanda, foi levado de avião para um hospital em Glasgow e depois embarcado no Queen Elizabeth com destino a Nova York. Nos dois anos e meio seguintes, foi transferido mais três vezes. Ele foi submetido a enxerto de pele e nervos antes de ser dispensado, em fevereiro de 1947. Beneficiado pela Carta dos Direitos Fundamentais, entrou para a Universidade de Massachusetts, onde se formou em 1950 e obteve diploma em horticultura ornamental. Nos 40 anos seguintes, trabalhou para várias empresas paisagísticas e em campos de golfe, como consultor e fornecedor de materiais. Ele tem dois filhos e uma filha e continua com seus passatempos, como a caça, a observação de pássaros e o camping.
O sargento Leo Boyle foi dispensado em 22 de junho de 1945, depois de nove meses em hospitais na Bélgica, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Ele obteve um atestado de 30% de invalidez e conseguiu um emprego como guarda-freios de uma ferrovia, mas suas pernas não suportaram o esforço. Depois, passou a trabalhar nos correios, classificando correspondência, mas ali também suas pernas entregaram os pontos.
— A essa altura, eu já estava tão mal e confuso que me internei no hospital da VA. Vários dias depois, uma junta de três médicos declarou que eu tinha 50% de invalidez e me deu alta, sem nenhuma orientação sobre minhas possibilidades de trabalho.
Boyle lançou mão dos benefícios da Bill of Rights para freqüentar a University of Oregon, onde estudou ciência política e obteve diploma de M.A., com honras. Ele passou a dar aulas em escolas de ensino médio e, posteriormente, começou a trabalhar com deficientes físicos.
— Foi uma carreira excepcionalmente compensadora. Entre o professor e o deficiente, existe sempre um sentimento bom e afetuoso. — Quando, em 1979, ele se aposentou, ganhou a Phi Delta Kappa Service Key por Liderança e Pesquisa em Educação para Deficientes.
Dois outros membros da companhia, um deles seu último primeiro-sargento, o outro, comandante original da companhia, também foram vítimas da guerra.
O sargento Floyd Talbert sofreu ferimentos e ganhou cicatrizes, seqüelas que encarou sem dificuldade, e lembranças, que o deprimiam. Ele se tornou errante e beberrão. Para sobreviver, trabalhou como pescador, caçador, preparador de armadilhas de caça e guia no norte da Califórnia. Ele teve vários ataques cardíacos.
Talbert foi um dos poucos membros da companhia que simplesmente saiu de cena. Em 1980, Gordon solicitou a ajuda de seu deputado e de Steve, filho de George Luz, para localizar Talbert. O sargento Mike Ranney juntou-se ao esforço deles. Eles acabaram conseguindo localizá-lo em Redding, Califórnia, e o persuadiram a participar em 1981 da reunião da companhia em San Diego.
Ranney repassou o endereço dele a outros colegas. Winters e outros lhe escreveram. Na resposta manuscrita de três páginas enviada a Winters, Talbert falou das lembranças das experiências deles. “Lembra-se da ocasião em que você estava nos levando para Carentan? Vê-lo no meio da estrada querendo avançar foi demais!... Lembra-se daquela nossa retirada na Holanda? O tenente Peacock jogou seu mosquetão na estrada. E não conseguia sair do lugar. Francamente, eu disse a ele que pegasse o mosquetão e se mexesse, senão eu atiraria nele. Ele me obedeceu. Eu gostava dele; ele era um oficial sincero e correto, mas não era soldado. Desde que passou a deixar que eu chefiasse a tropa, ele e eu nos demos bem.
Dick, isto aqui pode continuar indefinidamente. Jamais falei sobre estas coisas com alguém neste mundo. As coisas que tivemos são quase sagradas para mim.” Ele terminou a carta: “Seu dedicado soldado, para sempre.”
Talbert incluíra uma fotografia recente. Ele parecia um homem das montanhas. Na resposta que enviou a ele, Winters lhe disse que tirasse a barba e que cortasse os cabelos se tivesse a intenção de ir a San Diego. Ele fez isso, mas, mesmo assim, apareceu trajando andrajosas roupas de caçador. Já na primeira manhã de sua chegada, Gordon e Don Moone levaram-no a uma loja de roupas masculinas e compraram roupas novas para ele. Ele morreu no fim do ano.
Gordon compôs o epitáfio dele: “Quase todos os membros da Companhia E sofreram ferimentos mais ou menos graves. Aleijões alguns, outros com a visão ou a audição prejudicadas, mas, quase sem exceção, modificamos nossas vidas para nos adaptarmos às seqüelas. Tab continuou em conflito diário com um demônio no íntimo. Ele pagou um alto preço pelo serviço que prestou a este país. Não poderia ter feito mais que não fosse a perda da própria vida.”
Dick Winters fez-lhe o último tributo: “Se eu tivesse de escolher um único homem para acompanhar-me numa missão de combate, esse homem seria Talbert.”
* * *
O capitão Herbert Sobel não sofreu ferimentos físicos, mas lesões mentais profundas. Ele também sumiu de cena. Ele se casou, teve dois filhos, divorciou-se e depois se afastou do contato com os filhos. Trabalhou como contador numa empresa de eletrodomésticos em Chicago. No início da década de 60, o major Clarence Hester foi a Chicago em viagem de negócios e combinou almoçar com o capitão. Ele achou Sobel amargo em relação à Companhia E e à vida em geral. Vinte anos depois, Guarnere tentou localizar Sobel. Ele acabou conseguindo achar a irmã dele, que lhe disse que Sobel estava com problemas mentais e que voltava seu ódio aos membros da Companhia E. Apesar disso, Guarnere pagou à Associação da 101ª as mensalidades atrasadas de Sobel, na esperança de vê-lo participar da organização. Porém, nada aconteceu. Logo depois disso, o capitão tentou matar-se com um tiro, mas não conseguiu. Ele acabou morrendo em setembro de 1988. Seu funeral foi um acontecimento triste. Sua ex-esposa não compareceu, nem seus filhos, nem nenhum membro da Companhia E.
O sargento Skinny Sisk também teve dificuldade em lidar com as lembranças da guerra. Em julho de 1991, ele enviou uma carta explicativa a Winters. “Minha vida após a guerra resumiu-se a tentar esquecer com bebedeiras a multidão de alemães cujo avanço detive na Holanda e os aguerridos nazistas que deparei e matei nos Alpes da Baviera. O velho Moe Alley havia dito que todas as mortes que eu tinha provocado me visitariam em minhas noites de sono algum dia, e isso aconteceu mesmo. Depois da guerra, tive muitos lampejos retrospectivos dos combates e comecei a beber. Ah! Ah!
Então, a filhinha de minha irmã, de 4 anos de idade, entrou em meu quarto (eu era insuportável demais para o restante da família, de ressaca ou bêbado) e me disse que Jesus me amava e ela também, e que, se eu me arrependesse, Deus me perdoaria por todos os homens que eu ficava tentando matar outra vez.
Essa garotinha mexeu comigo. Eu a pus para fora do quarto, disse-lhe que fosse procurar a mãe. E foi ali mesmo, naquele momento, que apoiei a cabeça sobre o velho colchão de penas de minha mãe e me arrependi, e Deus me perdoou pela guerra e por todas as outras coisas ruins que eu tinha feito com o passar dos anos. Iniciei meu ministério no segundo semestre de 1949 e creia-me, Dick, flagelei apenas um homem desde então, mas ele precisou disso. Tenho quatro filhos, nove netos e dois bisnetos.
Com a permissão de Deus e a bênção de Jesus, espero vê-los todos na próxima reunião. Quando não, espero vê-los no último salto. Sei que vocês não empacarão de medo na porta.”
A contribuição da Companhia E para a defesa da nação não acabou com a extinção da unidade. Alguns de seus membros continuaram no exército. O tenente S. L. Matheson, um dos oficiais originais da companhia que ascendera rapidamente ao posto de membro do estado-maior de regimento, tornou-se general de duas estrelas e comandante da 101ª. Bob Brewer chegou a coronel e passou a maior parte do tempo trabalhando para a CIA no Extremo Oriente. Ed Shames tornou-se coronel da reserva.
O sargento Clarence Lyall fez carreira no corpo de pára-quedistas. Ele fez dois saltos na Coréia e, em 1954, foi designado para servir no 29° Regimento Pára-quedista francês como conselheiro. O 29° estava em Dien Bien Phu. Lyall deixou a unidade duas semanas antes de a guarnição se render. Ele faz parte de um pequeno grupo de soldados que realizaram quatro saltos de combate; e certamente é uma pessoa ímpar, em razão de sua participação na Batalha das Ardenas e do Cerco de Dien Bien Phu.
O sargento Robert “Burr” Smith também continuou no corpo de pára-quedistas, onde se tornou oficial e depois tenente-coronel. Ele comandou uma unidade das Forças Especiais da Reserva em San Francisco. Em dezembro de 1979, enviou uma carta a Winters: “Minha comissão na reserva acabou levando-me a uma nova carreira numa agência do governo, que, por sua vez, me fez passar oito anos no Laos como conselheiro civil junto a uma grande força irregular. Continuei a saltar regularmente até 1974, quando a falta de interesse me levou a passar a voar de asa-delta, e essa tem sido a minha grande paixão desde então... Atualmente, sirvo como assessor especial do comandante da Delta Force, a força-tarefa antiterrorista do Forte Bragg. Minhas especialidades são (surpresa! Surpresa!): operações aéreas, armas leves e operações com pequenas unidades.
Meu escritório fica em Buckner Road, de frente para a rua em que estávamos pouco antes de partirmos para a Inglaterra. Os antigos edifícios se encontram exatamente como você os viu na última vez e ainda estão sendo usados...
Engraçada essa coisa de ‘Exército Moderno’, Dick. Fui designado para servir numa unidade tida como a melhor do exército dos Estados Unidos, a Delta Force, e acredito que seja mesmo. Ainda assim, levando em conta o aspecto individual de seus membros, eu ficaria com minha companhia de pára-quedistas da época da guerra em qualquer situação! Tivemos uma coisa ali durante três anos que jamais se conseguirá igualar.”
Ele foi incluído no grupo que seguiria em missão para o Irã com o objetivo de resgatar reféns em 1980, mas, quando a CIA soube disso, proibiu-o de ir, pois ele sabia de muitos segredos. “Portanto, perdi o que certamente teria sido a última aventura de minha vida”, ele disse na carta enviada a Winters. “Convivi, trabalhei e treinei com a Delta Force todos os dias, durante dois anos, Dick, e odiava ser deixado para trás.”
Isso fez Smith falar sobre liderança. “Você foi abençoado (alguns diriam recompensado) com o respeito constante e a admiração de 120 soldados, essencialmente civis uniformizados, que certamente o teriam seguido até a morte. Fui soldado durante a maior parte de minha vida adulta. Nesse período, conheci apenas um punhado de grandes soldados, e, desse grupo, apenas metade ou pouco menos nas situações vividas por mim na 2ª Guerra Mundial, e dois deles vieram da velha Easy — você e Bill Guarnere. O restante de nós era bom... Bons soldados de um modo geral, e alguns eram melhor do que a média, mas, como a maioria da tropa, conheço o valor de se ter ‘coragem sob pressão’ e muito mais do que alguns. Você tinha esse valor.”
Em 1980, ao voar com uma asa-delta experimental, Smith sofreu um acidente e foi vítima de ferimentos graves. Ao submetê-lo a uma operação nos pulmões, os médicos descobriram que ele tinha câncer. Rader, que havia tirado Smith de um campo alagado em 6 de junho de 1944, visitou-o no hospital. Rader resolveu fazer uma brincadeira com ele — um novo jogo no qual um deles diria o nome de um membro de Toccoa, enquanto o outro faria um breve resumo das qualidades dele. Logo depois disso, Smith morreu.
O sargento Amos “Buck” Taylor passou 25 anos trabalhando para a CIA, servindo na Divisão do Extremo Oriente da Diretoria da Operação Covert, às vezes em Washington, e muitas vezes além-mar. Ele não fala muito a respeito do que fez, exceto que “a grande ameaça ao nosso país naquela parte do mundo era a China comunista e, logicamente, a União Soviética. Isso pode dar-lhe uma idéia do objetivo de meu trabalho”.
Quando o capitão Speirs voltou para a Inglaterra no verão de 1945, descobriu que a “viúva” inglesa com a qual ele se havia casado e que lhe tinha dado um filho não era viúva em verdade. O marido dela reapareceu, depois de sair de um campo de prisioneiros. Ela preferiu ficar com ele, em detrimento de Speirs, e o casal apossou-se de toda a pilhagem que Speirs tinha enviado para a Inglaterra. Speirs resolveu continuar no exército. Ele fez um salto na Coréia e comandou uma companhia de fuzileiros na linha de frente nessa guerra. Em 1956, fez um curso de idioma para aprender russo em Monterey, Califórnia, e depois foi enviado para Potsdam, Alemanha Oriental, como oficial de ligação junto ao exército soviético. Em 1958, tornou-se o diretor americano da Prisão de Spandau, em Berlim, onde Rudolf Hess cumpria prisão perpétua. Em 1962, foi para o Laos com a missão americana de apoio ao Exército Real Laosiano.
Quando antigos membros da Companhia E telefonam para ele hoje e iniciam a conversa dizendo: — Talvez você não se lembre de mim, mas estivemos juntos na guerra — Speirs responde: — Qual? — Seu filho Robert, nascido na Inglaterra durante a guerra, é major de infantaria no Corpo de Fuzileiros Reais, os “Green Jackets”, e “o orgulho e a alegria” de Speirs.
David Webster não conseguia entender como alguém era capaz de continuar no exército. Ele queria ser escritor. Ele se mudou para a Califórnia e, para pagar suas contas, passou a fazer biscates enquanto escrevia e submetia artigos e um livro sobre suas experiências durante a guerra à apreciação de alguns setores da mídia. Conseguiu publicar muitos de seus artigos, dos quais o melhor foi o veiculado no The Saturday Evening Post, mas não achou ninguém que se interessasse pela publicação de seu livro. Então, tornou-se repórter, inicialmente no Daily News, de Los Angeles; depois, no The Wall Street Journal. Em 1951, casou-se com Barbara Stoessel, artista e irmã de Walter J. Stoessel, Jr, que foi embaixador americano na Polônia, na União Soviética e na Alemanha Ocidental.
Webster sempre teve fascinação por tubarões. “O tubarão tornou-se, para ele, um símbolo de tudo que é misterioso e feroz no mar. Ele começou a reunir material para publicar seu próprio livro sobre o assunto. Suas pesquisas duraram anos. Ele estudou os tubarões diretamente, em sessões de mergulho, e nadou entre eles; e também capturou muitos, com sua vara de pesca em seu barco a vela de 11 pés, que ele batizou de Tusitala, que significa ‘Contador de Histórias’”, escreveu Barbara. Ele escreveu o livro e o apresentou a 29 editores, mas não conseguiu convencer nenhum deles de que o público teria interesse em leitura sobre tubarões.
Em 9 de setembro de 1961, Webster zarpou de Santa Mônica com iscas de lula, vara e linha de pesca grossa para pescar tubarão. E não voltou mais. O pessoal de uma busca feita no dia seguinte achou o Tusitala à deriva a cerca de 8 quilômetros da costa. O barco estava sem um remo e a cana do leme. Seu corpo nunca foi encontrado.
Barbara conseguiu publicar seu livro sobre tubarões (Myth and Maneater, W. W. Norton & Co., 1963). A obra ganhou uma edição britânica, e uma brochura foi publicada na Austrália. Quando o filme Tubarão estreou, em 1975, a Dell lançou uma edição em brochura para o grande público.
Três dos sargentos enriqueceram. John Martin freqüentou a Ohio State University com a ajuda em dinheiro a que tinha direito pela Bill of Rights e depois voltou para seu emprego na estrada de ferro. Lá, tornou-se supervisor, tinha carro, secretária e aposentadoria privada e estava ganhando dinheiro por fora com a construção especulativa de casas. Em 1961ªbandonou tudo e, mesmo com os intensos protestos da esposa e dos filhos, então cursando o ensino médio, mudou-se para Phoenix, Arizona, e recomeçou a construção de casas. Ele tinha um capital de 8 mil dólares, e todos achavam que estava louco. No fim do primeiro ano, estava pagando mais impostos do que ganhava quando trabalhava para a estrada de ferro. Em pouco tempo, passou a construir condomínios de apartamentos e creches. Ele estendeu suas atividades ao Texas e a Montana. Em 1970, comprou um rancho nas montanhas do oeste de Montana. Hoje, é multimilionário. Ainda gosta de correr riscos, embora não salte mais de aviões. Ele resistiu a várias ofertas de compra de seu negócio; hoje, o presidente da Martin Construction é John Martin, enquanto sua esposa, Patricia, é a vice-presidente e tesoureira da empresa. Eles são também os diretores da empresa e seus únicos acionistas.
Don Moone usou os benefícios da Bill of Rights para estudar no Grinnell College e depois entrou para o ramo da publicidade. Ele subiu rapidamente na carreira. Em 1973, tornou-se o presidente da Ketchum, MacLeod & Grove, Inc., importante empresa publicitária de Nova York. Quatro anos depois, aos 51ªnos de idade, aposentou-se, construiu uma casa na Flórida e mora lá desde então com certo esplendor.
Carwood Lipton formou-se em engenharia na Marshall College (agora universidade), e sua esposa, Jo Anne, lhe deu três filhos. Lipton foi trabalhar para a Owens-Illinois, Inc., onde ascendeu sem muito esforço; em 1971, mudou-se para Londres como diretor de produção de oito fábricas de vidro da Inglaterra e da Escócia. Em 1974, foi para Genebra, Suíça, onde assumiu a chefia das operações na Europa, no Oriente Médio e na África. Em 1975, Jo Anne morreu de um ataque cardíaco. No ano seguinte, Lipton casou-se com uma viúva chamada Marie Hope Mahoney, cujo marido havia sido amigo íntimo de Lipton, assim como Marie fora amiga íntima de Jo Anne. Por solicitação do presidente da United Glass, Ltd., ele criou um folheto intitulado Liderando Pessoas. Era assunto que ele conhecia bem.
Lipton aposentou-se em 1983. “Atualmente, desfruto de uma aposentadoria generosa em Southern Pines, Carolina do Norte, onde decidi que moraria algum dia na ocasião em que estávamos treinando em Camp Mackall. Meus passatempos são muitas viagens pelo mundo, golfe, miniaturismo, trabalho em madeira e leitura.
Lewis Nixon sempre foi rico. Ele assumiu o controle do vasto império industrial e agrícola do pai e passou a administrá-lo enquanto viajava pelo mundo. Seu principal passatempo atualmente é a leitura.
O tenente Buck Compton passou a trabalhar para o serviço público. Portanto, ficou mais famoso do que rico. Ele foi detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles de 1947 a 1951; depois passou 20 anos trabalhando como promotor da promotoria da cidade e por fim tornou-se assessor do chefe da promotoria. Em 1968,
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chefiou as investigações do caso Sirhan Sirhan e depois conduziu o processo. Em
1970, o governador Ronald Reagan o nomeou juiz adjunto do Tribunal de Apelação da Califórnia. Ele e sua esposa, Donna, têm duas filhas e uma neta. Ele ainda tem a fama de melhor atleta da companhia; e dizem que é ótimo jogador de golfe.
O sargento Mike Ranney formou-se em jornalismo pela University of North Dakota e depois teve uma carreira de sucesso como repórter, editor de jornal e consultor de relações públicas. Ele e a esposa, Julia, tiveram cinco filhas e têm cinco netos. Em 1980, ele começou a publicar o que intitulou “O Inconstante Boletim Informativo da Companhia E”. Eis a seguir alguns trechos extraídos dele.
Março de 1982: “O contingente da Pensilvânia reuniu-se na casa de Dick Winters para fazer uma festa de surpresa a Harry Welsh. Fenstermaker, Strohl, Guarnere, Guth se divertiram muito.”
1980. “A reunião neste verão, em Nashville, vai tomando a forma de uma das grandes assembléias da história da Compania E. Uma lista parcial de participantes — Dick Winters, Harry Welsh, Moose Heyliger e Buck Compton, entre os oficiais; Chuck Grant, Paul Rogers, Walter Scott Gordon; Tipper, Guarnere, Rader, Heffron, Ranney, Johnny Martin, George Luz, Perconte, Jim Alley e ninguém menos que o figurão Burr Smith.”
1983. “Don Moone deixou o ramo da publicidade para aposentar-se e agora leva uma vida boa e tranqüila na Flórida. Ele, Gordon e Carwood Lipton tiveram uma reunião em Nova Orleans.”
Com apenas algumas exceções, esses homens não tinham nenhuma relação comercial ou profissional entre si. Nenhum deles vivia na mesma cidade que o outro, e poucos moravam no mesmo estado (exceto na Pensilvânia). Apesar disso, mantinham contato uns com os outros. Em janeiro de 1981, Moone enviou uma carta a Winters para agradecer-lhe um presente de Natal e inteirar-lhe das últimas: “Ótima notícia o fato de que Talbert foi localizado. Telefonei para ele imediatamente e, depois de uma troca de insultos, conversamos. Sempre gostei de Tab. Ele cuidou muito bem de mim nos velhos tempos. Às 6 horas do último Ano-Novo, Tab telefonou-me para me desejar feliz Ano-Novo. Ele tinha bebido, mas estava consciente. Admite que teve problemas com a bebida, tal como suspeitávamos, mas ele bebia apenas em ocasiões especiais. Acho que a véspera do Ano-Novo foi uma dessas ocasiões ‘especiais’.
Don Malarkey telefonou para mim às 3 horas da véspera de Ano-Novo e ele também estava bem de vida.”
Ranney aposentou-se para escrever poesia e suas memórias, mas, em setembro de 1988, ele morreu, antes de poder iniciar o seu projeto.
Além de Heyliger, Martin, Guarnere e Toye, alguns ex-combatentes entraram para o ramo da construção ou da indústria. O capitão Clarence Hester tornou-se empreiteiro do ramo de telhados em Sacramento, na Califórnia. O sargento Robert “Popeye” Wynn trabalhou como especialista de estruturas de ferro de edifícios e pontes. O praça John Plesha foi funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de Washington. O sargento Denver “Bull” Randleman foi superintendente de uma empresa de engenharia civil pesada em Louisiana. O sargento Walter Hendrix passou 45 anos trabalhando com polimento de granito. O sargento Burton “Pat” Christenson trabalhou 38 anos para a Pacific Telephone and Telegraph Company, instalando novas linhas, e acabou tornando-se supervisor e professor. O sargento Jim Alley foi carpinteiro e depois trabalhou na construção de uma represa na fronteira do estado de Washington com o Canadá. Por fim, conseguiu montar sua própria empresa de construção na Califórnia.
Leo Boyle e outros tornaram-se professores. Depois de 20 anos no exército, o sargento Leo Hashey passou a dar aulas de segurança aquática para a Cruz Vermelha de Portland, Oregon. Depois, tornou-se gerente de programas de saúde e segurança. O sargento Robert Rader deu aulas a deficientes físicos na Paso Robles High School, na Califórnia, por mais de 30 anos. O capitão Harry Welsh casou-se logo assim que chegou aos Estados Unidos com sua noiva Kitty Grogan, trajando um vestido feito com o pára-quedas de reserva que ele usara no Dia D e que mantivera consigo durante o restante da guerra. Ele entrou para a faculdade, deu aulas, obteve diploma de M.A. e tornou-se supervisor de uma escola de ensino médio e depois administrador. O sargento Forrest Guth deu aulas de tipografia, marcenaria, eletricidade, eletrônica, e cuidou dos projetos de cenografia e acústica de peças teatrais de escolas em Norfolk, Virgínia, e em Wilmington, Delaware, até se aposentar. O praça Ralph Stafford nos fala um pouco de suas experiências: “Formei-me em 1953 e comecei a lecionar para a sexta série em Fort Worth. Dei aulas por três anos e fui diretor de escola do ensino fundamental durante 27 anos. Eu adorava isso. Era a minha verdadeira vocação. Fui eleito presidente da Associação de
Professores do estado do Texas, Distrito V (Dallas-Ft. Worth, 20 mil associados).
Em 1950, fui caçar pássaros com alguns colegas do corpo de bombeiros. Matei um pássaro e fiquei com remorso quando olhei para baixo e o vi no chão; o pássaro não me havia feito mal algum, nem poderia. Fui para o caminhão e fiquei lá até os outros voltarem. Jamais voltei a caçar.”
O sargento Ed Tipper estudou na University of Michigan, onde obteve o diploma de bacharel em ciências humanas, e depois na Colorado State, onde fez o seu mestrado. Ele lecionou em escolas do nível médio nos subúrbios de Denver durante quase 30 anos. Depois da aposentadoria: “Fui à Costa Rica visitar um de meus antigos alunos. Lá, conheci Rosy, 34 anos de idade. Após um namoro à moda antiga, que durou quase um ano, nos casamos, mesmo diante de grande oposição da maioria das pessoas que eu conhecia, com exceção de Dick Winters. Foi difícil discordar deles, principalmente do argumento de que o casamento de uma mulher com um velho de 61 anos de idade implicaria, talvez, o sacrifício de toda esperança de termos uma família, questão fundamental quando se trata de mulheres latinas. Nossa filha Kerry nasceu quase 10 meses depois do dia de nosso casamento. Rosy entrou para uma escola de medicina de Guadalajara e, em 1989, obteve diploma”, ele escreveu.
Por causa de um câncer, ele foi submetido a uma operação recentemente.
— Minha esposa, minha filha e eu acabamos de nos mudar para uma casa nova. Pode parecer estranho uma pessoa de 71 anos de idade comprar uma casa, mas o lema de nossa família é: “Nunca é tarde demais.”
O sargento Rod Bain formou-se na Western Washington College (agora University) em 1950, casou-se nesse mesmo ano, teve quatro filhos e passou 25 anos trabalhando como professor e administrador em Anchorage, Alasca. Ele passa o verão “pescando com rede de arrasto o esquivo salmão-do-pacífico”.
Ed Tipper faz um resumo das opções de vida de todos com uma pergunta: — Teria sido casual o fato de que muitos ex-pára-quedistas da Companhia E se tenham tornado professores? Talvez, para alguns deles, um período de violência e destruição em determinada época os atraiu o interesse depois para alguma coisa criativa, como forma de compensar algo em outra parte de suas vidas. Parece também que temos uma quantidade desproporcional de construtores de casas e outras coisas no grupo que vemos em reuniões.
* * *
O praça Bradford Freeman voltou para a vida na fazenda. Em 1990, Winters enviou-lhe uma carta, na qual disse que ia freqüentemente ao Sul para visitar Walter Gordon e que gostaria de fazer-lhe uma visita breve um dia desses para ver a fazenda de Freeman. Na carta que enviou como resposta, Freeman disse: “Seria uma grande honra tê-lo como visita aqui no Mississípi. Temos boa sombra no verão e um bom aquecedor no inverno. Tudo que faço é jardinagem e colher feno para as vacas no verão e alimentá-las no inverno. Pesco e caço durante o restante do tempo. O Tombigbee fica perto daqui, e fico observando as chatas subir e descer o rio. Estou enviando-lhe uma fotografia da casa e das vacas. Tenho um bom lugar na varanda para me sentar. Fico por aqui, na esperança de que você venha um dia desses.”
Winters foi. Tiveram um ótimo encontro. Ele pediu que Freeman fizesse um relato por escrito do que fizera após a guerra, como contribuição para este livro.
— O que escrevi [sobre a guerra] não parece muita coisa, mas me diverti muito e não trocaria de lugar com ninguém.
O major Richard Winters também fez um relato por escrito de sua vida após a guerra: “Ao ser dispensado do serviço, em 29 de novembro de 1945, Lewis Nixon convidou-me a ir para Nova York conhecer seus pais. O pai dele me ofereceu um emprego, e tornei-me gerente de departamento pessoal da Nixon Nitration Works, em Nixon, New Jersey. Enquanto trabalhava, aproveitei os benefícios oferecidos pela Bill of Rights e fiz cursos de administração comercial e gerenciamento de pessoal na Rutgers University. Em 1950, fui promovido a gerente-geral da Nixon Nitration Works.
Casei-me com Ethel Estoppey em 1948. Temos dois filhos. Tim tem diploma de mestre em Literatura Inglesa pela Penn State, e Jill é bacharel em ciências humanas pela Albright College.
Fui reconvocado pelo exército para servir na Guerra da Coréia. Em Fort Dix, New Jersey, fui posto no estado-maior do regimento como oficial de planejamento e treinamento. Depois de ter sido dispensado, voltei para a Pensilvânia, para o campo, onde passei a vender produtos de saúde animal e pré-misturas vitamínicas às indústrias de ração animal. Em 1951, comprei uma fazenda no sopé das Blue Mountains — situada a pouco mais de 11 quilômetros a leste de Indiantown Gap. Foi onde achei a paz e a tranqüilidade que me prometi no Dia D.”
É uma atitude de moderação típica de Winters. Ele vive modestamente, em sua fazenda e numa pequena casa da cidade de Hershey, mas é um homem rico que chegou ao sucesso pela criação e comercialização de uma nova e revolucionária ração para gado e rações para outros animais.
Além disso, é uma pessoa muito sensível. Em julho de 1990, quando terminou de descrever-me a ocasião em que praticamente varrera do mapa uma companhia de fuzileiros alemães inteira no dique holandês, em 5 de outubro de 1944, iniciamos uma caminhada até o lago da fazenda dele. De repente, uma revoada de talvez 30 gansos canadenses; um deles ficou para trás, grasnando queixosamente contra os outros. Winters explicou-me que o pássaro tinha uma asa quebrada.
Sugeri que ele pegasse uma arma e matasse o ganso antes que uma raposa fizesse isso.
— E guarde-o para o Dia de Ação de Graças.
Ele olhou para mim indignado.
— Eu jamais faria isso! — replicou, horrorizado com a idéia.
Ele é incapaz de um ato de violência, jamais levanta o tom de voz, detesta exageros, soberba e afetação. Ele conseguiu tudo que quis da vida, a paz e a tranqüilidade que prometera a si mesmo quando se deitou para dormir um pouco na noite de 6 para 7 de junho de 1944, e o amor e o respeito imorredouros dos soldados que comandou na Companhia E na 2ª Guerra Mundial.
Num de seus últimos boletins, Mike Ranney escreveu: “Quando penso nos velhos tempos da Companhia E, lembro-me da resposta que dei ao meu neto quando ele me perguntou: ‘Vovô, você foi herói de guerra?’ ‘Não’, respondi, ‘mas servi numa companhia de heróis.’”