Band of Brothers: Companhia de Heróis

Stephen E. Ambrose · Capítulo 14 de 20

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Band of Brothers: Companhia de Heróis

Capítulo 14

A Patrulha

 

HAGUENAU

18 de janeiro-23 de fevereiro de 1945

 

Em meados de janeiro, desesperados para salvar o que lhes fosse possível de suas tropas e de seus equipamentos nas Ardenas, os alemães empreenderam uma operação diversionária na Alsácia, codinominada Nordwind (Vento Norte), numa tentativa de fazer as tropas americanas sair da região das Ardenas. Tal como haviam feito no ataque dos meados de dezembro nas Ardenas, eles atacaram um setor da linha de frente americana precariamente defendido. (Quando o III Exército, comandado por Patton, deixou a Alsácia para seguir em demanda das Ardenas, o VII Exército se deslocou para a esquerda para ocupar a posição dele, bem como para assumir a sua mesma.) Quando a operação Nordwind começou, Eisenhower enviou a 101ª para a Alsácia com o objetivo de fortificar a linha.

Quando os pára-quedistas receberam a notícia de que seriam levados para a Alsácia de caminhão, ela chegou acompanhada de um boato que acabou mostrando-se exagerado: o de que os alemães tinham realizado uma ruptura das fileiras inimigas. Diante disso, Winters pensou: “Meu Deus, eles não têm outra unidade neste exército para fechar essa ruptura?”

Foi uma longa viagem. A Alsácia ficava a uns 257 quilômetros ao sul e mais ou menos a leste de Bastogne. Os dias eram frios e inclementes. com a neve caindo. As estradas estavam escorregadias e perigosas. Os caminhões avançavam em ritmo de caminhada; a tropa conseguia saltar, aliviar-se e alcançar o veículo para tornar a embarcar sem dificuldade. Na maioria das vezes, porém, o processo era engraçado, pois, por dentro e por fora, o combatente estava usando calças-balão, calças verde-oliva, ceroulas e cuecas verde-oliva. Todas tinham botões — nenhum fecho ecler. O combatente tentava abrir tudo sem tirar as luvas. Às vezes, parecia levar um eternidade.

O comboio saiu de Bastogne e passou por Bellefontaine, Virton, Etain, Toul, Nancy, Drulingen, chegando em 20 de janeiro. O 506° RIP foi para a reserva.

Durante a viagem, o sargento ficou doente, com tremedeira e febre alta. Em Drulingen, ele fez uma visita ao médico, que o examinou e declarou que ele tinha pneumonia e precisava ser evacuado para um hospital. Lipton disse que era o primeiro-sargento da Companhia E e que não podia abandoná-la. O médico disse a ele que voltasse na manhã seguinte, já que não poderia evacuá-lo à noite.

O tenente Speirs e o sargento Lipton conseguiram um quarto numa casa alemã para passar a noite. (A Alsácia, na fronteira entre a França e a Alemanha, muda de mãos a cada nova guerra. Em 1871, tornou-se território alemão; os franceses a recuperaram em 1919; em 1940, voltou para as mãos dos alemães; em 1945, foi a vez de os franceses a recuperarem.) O quarto tinha apenas uma cama. Speirs disse a Lipton que ele podia dormir nela. Lipton respondeu que isso não era correto; já que era recruta, ele dormiria no piso, em seu saco de dormir. Para resolver a questão, Speirs respondeu, simplesmente: — Você está doente.

Lipton deitou-se na cama. O casal de idosos que morava na casa deu um pouco de

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Schnapp s e Apfelstrudel. Lipton nunca tinha tomado bebida alcoólica, mas bebericou o Schnapps até ingerir todo o conteúdo de um copo grande e comeu a torta. E caiu em sono profundo. De manhã, sua febre tinha diminuído, e seu vigor voltara. Ele voltou ao oficial-médico, que não conseguiu acreditar na melhora. O médico classificou como milagrosa a recuperação dele.

Speirs, exultante com a melhora do colega, disse que ele e Winters tinham recomendado Lipton para o recebimento de uma promoção e que o coronel Sink queria conversar com ele. Lipton foi até o regimento, onde Sink lhe submeteu, durante uma hora, a um tormentoso interrogatório a respeito de suas experiências como combatente.

A Easy ficou na reserva por quase duas semanas, movendo-se quase diariamente de uma vila para outra. O tempo esquentou. O sol brilhou. A neve começou a derreter-se, e o solo cobriu-se de lama. Um caminhão de suprimentos chegou trazendo uma carga de botas de cano longo térmicas e impermeáveis, além de meias e palmilhas de feltro. — Onde vocês estavam seis semanas atrás, em Bastogne, quando precisávamos de vocês? — clamaram os combatentes contra os motoristas. Roupas sujas, cobertores e sacos de dormir foram recolhidos pela Companhia de Intendência e enviada para a lavanderia. Chuveiros coletivos portáteis capazes de atender 215 homens por hora foram trazidos também; a Easy passou por eles como uma companhia inteira. A água não era quente, mas, pelos menos. não chegava a ser fria. Muito sabonete e espuma, esfrefa-esfrega — foi necessário um esforço muito grande para remover seis semanas de sujeira e suor.

Trouxeram filmes também, entre eles Rhapsody in Blue, Buffalo Bill e Our Hearts Were Young and Gay. Stars and Stripes, Yank e Kangaroo Khronicle traziam notícias do mundo lá fora (não tão bem-vindas como seriam de esperar, pois as notícias do Pacífico mostravam que a guerra ali tinha ainda um longo caminho pela frente; isso gerou boatos de que a 101ª seria embarcada com destino ao Pacífico para “o grande salto” no Japão).

Em 5 de fevereiro, a Easy seguiu para a linha de batalha, quando o 506° rendeu o 313° de Infantaria da 79ª Divisão na cidade de Haguenau. A população era de quase 20 mil habitantes, o que foi a causa do melhor momento dos pára-quedistas na Europa. Carentan tinha cerca de 4 mil habitantes; Mourmelon, por volta de 4.500, e Bastogne, talvez uns 5.500. Haguenau abrangia as duas margens do rio Moder, tributário do Reno. A posição da Easy ficava na extremidade do flanco direito do 506°, na junção do Moder com um canal que atravessava a cidade para quebrar uma alça do Moder.

— Nossa posição era algo parecido com um ponto nas fileiras alemãs — observa o tenente Foley. A Easy ocupou os edifícios da margem sul: os alemães ocupavam os edifícios da margem setentrional. O rio estava acima de seu nível normal, com forte correnteza. Sua largura variava de 30 a 100 metros, o que era muito para permitir o lançamento de granadas de uma margem à outra, mas não para os tiros de metralhadoras, fuzis e morteiros. Ambos os lados tinham o apoio de artilharia. Alguns quilômetros atrás de suas fileiras, os alemães tinham um gigantesco canhão ferroviário (talvez de 205 milímetros) remanescente da 1ª Guerra Mundial. Ele lançava projéteis tão grandes quanto os dos canhões navais de 16 polegadas que haviam apoiado os americanos na Praia de Utah.

Os pára-quedistas se instalaram em edifícios que tinham sido ocupados pela 79ª Divisão. Webster e cinco outros membros do 1º Pelotão ocuparam um edifício no encontro do Moder e do canal. “Seguindo a melhor tradição dos pára-quedistas de confiar em loucos, em vez de no poder de fogo”, escreveu Webster, “seis de nós, com

um B.A.R.{69}, rendemos 18 empavonados da 79ª Divisão com uma metralhadora .50 resfriada a água e uma metralhadora calibre .30 resfriada a ar”. Os membros da 79ª Divisão disseram ao 1º Pelotão que o setor era tranqüilo, sem ofensivas empreendidas por nenhum dos lados, mas Webster notou que eles partiram às pressas depois de lhes passarem o mais breve dos informes.

O edifício que o 1º Esquadrão do 1º Pelotão ocupou era praticamente um monte de ruínas. Parte de suas paredes tinha sido derrubada; o telhado fora parcialmente destruído por projéteis de morteiros; todas as janelas estavam quebradas; os pisos entulhados de gesso, tijolos e vidro quebrados até a altura do joelho, corrimãos arrancados, para serem usados em lareiras, privadas entupidas de fezes; o porão era um esgoto de cinzas, excremento e latas de ração.

Depois de examinar o local, o cabo Tom McCreary expressou o sentimento geral de seu esquadrão: — Entramos pelo cano.

Essa era a primeira vez que os membros do esquadrão tinham ficado num abrigo de alvenaria na linha de batalha. E trataram de pôr mãos à obra para melhorar suas acomodações. Eles reorganizaram o sótão, pondo os beliches e as rações C num cômodo e transferindo o lixo para outro. Acharam alguns lampiões a gás e um fogão que ainda funcionava. Eles invadiram um sistema de telefonia de campanha alemão e estabeleceram contato com o PC do 1º Pelotão. Quando precisavam defecar ou urinar, iam até o terceiro andar, “onde a privada estava cheia somente até a metade”.

George Luz, operador de rádio do PC do 1º Pelotão, lhes fez uma visita. O esquadrão de McCreary mostrou-lhe suas acomodações com orgulho. — Se acham isto bom — observou Luz —, deveriam ver a Companhia do QG. Eles estão vivendo como reis. — Ele olhou em volta novamente e acrescentou: — Aqueles filhos da mãe.

(Webster nutria os mesmos sentimentos de Luz. Ele voltou para o PC da companhia o mais cedo possível, pois “havia nobreza demais naquele lugar; um soldado não tinha chance lá”.)

Tal como ocorrera na Ilha, movimentos diurnos eram impossíveis. Atiradores de elite estavam sempre prontos para destroçar qualquer um pego em áreas abertas. O menor movimento atraía projéteis de morteiro; dois ou três soldados do lado de fora justificavam o disparo de projéteis de 88 contra eles. Por causa disso, escreveu Webster, “nossa maior distração era comer. Passávamos mais tempo preparando, cozinhando e ingerindo comida do que qualquer outra coisa”.

A missão da companhia era defender e manter a linha, despachar patrulhas para manter contato com os alemães e atuar como observadores de artilharia avançados. O esquadrão de McCreary guarnecia o posto de observação número 2. Dois combatentes, um deles na janela do terceiro andar, o outro no porão, com o telefone, ficavam de serviço durante uma hora cada. Da janela, os combatentes tinham uma bela vista do setor alemão da cidade. Eles podiam solicitar fogo de artilharia praticamente sempre que quisessem, um luxo antes desconhecido. Os alemães davam o troco.

Era difícil dizer o que era mais perigoso: morteiros, as balas precisas dos atiradores de elite, rajadas de metralhadora, projéteis de 88 ou o enorme canhão ferroviário. Um fato interessante sobre o monstruoso canhão era que, embora estivesse tão distante na retaguarda que a tropa não conseguia ouvir seus disparos, ela ouvia o projétil, de baixa velocidade, vindo ao longe. Parecia um trem locomovendo-se. Shifty Powers lembrou-se da ocasião em que estava atuando como observador numa janela do terceiro andar. Quando ouviu o projétil chegando, ele teve tempo de correr para o andar inferior e entrar no porão antes de ele cair.

Embora os combatentes vivessem sob constante perigo — um tiro direto do canhão ferroviário podia destruir edifícios inteiros —, eles eram espectadores da guerra, em certo sentido. Glenn Gray disse em seus escritos que as “atrações secretas da guerra” são “a satisfação de observar, a satisfação da amizade, a satisfação de ver destruição”. E acrescenta: “A guerra, como espetáculo, como algo para se ver, nunca deveria ser

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subestimada.” Gray nos faz lembrar que o olho humano padece da concupiscência

pelo ineditismo; ele anseia pelo novo, pelo incomum, pelo espetacular.

A guerra fornece mais elementos para a satisfação desse anseio do que qualquer outra atividade humana. As exibições pirotécnicas são muito mais duradouras e sensacionais do que o mais elaborado dos festejos de 4 de Julho é capaz de oferecer. Do PO 2, Webster pôde ver “os projéteis explodindo tanto nas zonas amigas quanto nas zonas inimigas de Haguenau e observar ataques rasantes de P-47s em toda parte”. À noite, os quilômetros de baterias antiaéreas atrás da linha de tiro voltaram seus holofotes para o céu, de maneira que a luz refletida nas nuvens iluminasse a frente de batalha. Ambos os lados lançavam foguetes de sinalização toda vez que um observador solicitava o disparo deles; o combatente surpreendido fora de seu abrigo quando um deles era disparado tinha de ficar imóvel até que ele se apagasse. Todas as metralhadoras disparavam balas traçantes, o que aumentava o espetáculo.

Os grandes projéteis de artilharia provocavam incêndios crepitantes e intensos, que iluminavam o campo. “Incêndios em combates causam uma impressão sinistra”, Webster observou. “As chamas enormes e vigorosas parecem tão estranhas e gritantes que nenhum dos lados ousa expor a mais diminuta chama de um palito de fósforo.”

A guerra não satisfaz apenas a concupiscência dos olhos; ela consegue criar, mais ainda do que os rigores coletivos do treinamento, um sentimento de amizade. Em 9 de fevereiro, Webster escreveu numa carta enviada aos pais: “Voltei para casa outra vez.” A descrição que ele faz da vida no PO 2 inclui os perigos enfrentados por ele, mas também enfoca os sentimentos que ele tem por seus colegas de esquadrão. “Como o perigo derruba as barreiras do eu e dá ao homem um sentimento de comunidade?”, Gray pergunta. E ele mesmo responde que é a “força de união entre os colegas. Em momentos [de perigo], muitos têm uma vaga noção de quanto suas vidas foram distantes e isoladas até então e de quanto perderam com isso... Com as fronteiras do eu ampliadas,

eles experimentam um sentimento de afinidade jamais visto”. {71}

(Webster e o praça Bob Marsh receberam ordens certa noite para montar a metralhadora na sacada de seu edifício, de forma que dessem tiro de cobertura a uma patrulha, se necessário. Eles estavam tão expostos que, caso atirassem, a guarnição de um canhão motorizado alemão do outro lado do rio os avistaria sem o auxílio de observadores. Mas eles decidiram que, se a patrulha fosse atacada, abririam fogo com tudo que tivessem, “pois a vida de cerca de 20 soldados poderia depender de nós”. Webster, que jamais se ofereceu como voluntário, comentou: — Essa foi uma das ocasiões em que eu nos via dando uma de heróis mesmo que isso significasse a nossa morte.)

A terceira “delícia” de Gray proporcionada pela guerra é a satisfação pela destruição. Não se pode negar que a tropa gosta de ver edifícios, veículos e equipamentos serem destruídos. A multidão que se reúne em qualquer cidade em que um edifício esteja prestes a ser demolido ilustra a idéia. Para o combatente, é um espetáculo agradável ver ser riscado do mapa pela artilharia amiga um edifício que talvez esteja sendo usado como refúgio pelo inimigo. Em seu diário da 1ª Guerra Mundial, o soldado alemão Ernst Juenger falou do “monstruoso desejo de aniquilação que pairava sobre o campo de batalha... Talvez um observador neutro tenha acreditado que

estávamos tomados de um excesso de felicidade”.{72}

A preocupação do combatente é com a morte, não com a vida, com a destruição, não com a construção. A maior das destruições é o ato de matar outro ser humano. Quando os atiradores de elite americanos atingiam um alemão do outro lado, gritavam “Peguei! Eu o peguei!” e dançavam de alegria. O praça Roy Cobb avistou um alemão caminhando atrevidamente de um lado para o outro na frente de uma cabana a algumas centenas de metros. Ele o atingiu logo no primeiro disparo. O praça Clarence Lyall, observando a cena com binóculos, disse que o semblante de dor e perplexidade no rosto do alemão era algo interessante de ver. Quando o soldado inimigo tentou arrastar-se para dentro da cabana, Cobb acertou mais dois tiros nele. Em cada uma das vezes que ele foi atingido, ouviram-se hurras e vivas.

Como sempre, na linha de frente, não havia passado nem futuro, mas apenas o presente, um presente sempre tenso, em razão da eterna ameaça de que a morte violenta poderia vir a qualquer momento. “A vida se tornou uma questão de sobrevivência diária ou de hora após hora”, Webster disse em carta enviada aos pais.

Os substitutos chegavam. Isso era inquietante, pois, quando uma divisão aerotransportada, que, organizada geralmente com sua força máxima em bases aéreas como preparativo do salto seguinte, recebia reforços enquanto ainda na linha de frente, significava que a divisão iria continuar lutando. No PO 2, “quatro soldados muito jovens e assustados, recém-saídos da escola de pára-quedismo”, foram engajados no esquadrão. “Senti um aperto no coração. Por que o exército, com todos aqueles brutamontes maduros no escalão da retaguarda e aqueles palermas da Força Aérea Americana na Inglaterra, optam por enviar seus membros mais jovens e inexperientes direto de treinamentos básicos para o serviço mais detestável do mundo, como seja o da infantaria da linha de batalha?”, comentou Webster.

Um dos substitutos era o segundo-tenente Hank Jones, formado em West Point (da turma de Eisenhower, de 6 de junho de 1944), que tinha terminado o curso na escola de pára-quedismo no Forte Benning no fim de dezembro. Ele partiu de Nova York nos meados de janeiro, aterrissou em Le Havre e chegou a Haguenau em meados de fevereiro.

— A maneira mais rápida de substituir baixas era ensiná-los a dizer “sigam-me” e enviá-los para além-mar — observou o tenente Foley. Jones era autoconfiante, bem-apessoado e afável. Ele estava ávido para provar o seu valor.

Ele conseguiria essa oportunidade rapidamente, pois o chefe do setor do serviço de inteligência do regimento, capitão Nixon, precisava fazer alguns prisioneiros para interrogatório. Em 12 de fevereiro, ele pediu que Winters providenciasse a captura de alguns alemães. Winters ainda era capitão, uma desvantagem óbvia no trato com os outros dois comandantes do batalhão, que eram tenentes-coronéis. Mas ele tinha amigos no estado-maior do regimento, onde o coronel Strayer era subcomandante, e Nixon e o chefe do S-4 (Matheson) eram ex-membros da Companhia E. Matheson conseguiu apossar-se de alguns botes de borracha infláveis para fazer a patrulha atravessar o rio. Winters escolheu a Companhia E para a missão.

Seria uma grande patrulha, com 20 soldados, tirados de cada um dos pelotões e do QG da companhia, mais dois membros do S-2 do regimento que falavam alemão. O tenente Foley escolheu Cobb, McCreary, Wynn e Sholty no 1º Pelotão. Assim que atravessasse o rio, a patrulha se dividiria em duas partes, uma liderada pelo sargento Ken Mercier, a outra, pelo tenente Jones.

Os soldados escolhidos para participar da patrulha passaram dois dias nas cercanias de Haguenau praticando o manuseio dos botes de borracha infláveis. Em 14 de fevereiro, Winters e Speirs visitaram o PO 2, o que muito afligiu os membros do 1º Esquadrão, pois ficaram na frente do PO estudando a posição dos alemães com binóculos, gesticulando e brandindo um mapa. — Praguejamos muito por dentro — relatou Webster —, com medo de que um observador alemão nos avistasse e solicitasse fogo de artilharia contra nosso canto aconchegante.

O plano que Winters e Speirs conceberam contava com o uso das muitas habilidades da Easy, habilidades conquistadas duramente. O batedor da vanguarda seria o cabo Earl McClung, soldado parcialmente descendente de índios e que tinha a fama de ser capaz de “sentir o cheiro de Krauts”. A patrulha se reuniria num PO da Companhia D, onde a tropa tomaria café e ficaria comendo sanduíches até as 22 horas. A patrulha levaria a ponta de uma corda até a outra margem do rio, onde a prenderia num poste telefônico no lado norte, para que os outros pudessem atravessar o rio puxando-a. Assim que alcançasse as linhas alemãs, a patrulha se dividiria em duas seções; a sob o comando do tenente Jones seguiria para a cidade; a outra, sob o comando do sargento Mercier, para uma casa na margem do rio suspeita de ser um posto avançado alemão.

Conseguisse ou não fazer prisioneiros, a patrulha teria muito apoio em sua retirada, ocasião em que teria de atravessar o rio novamente. Se alguma das seções tivesse problemas ou conseguisse fazer prisioneiros, a seção líder faria soar um apito para indicar que a retirada estaria em andamento. Esse seria o sinal para ambas as seções se reunirem nos barcos e para o tenente Speirs e o sargento Malarkey iniciarem o tiro de cobertura.

O tiro de cobertura tinha sido planejado nos mínimos detalhes. Todas as posições alemãs conhecidas e presumidas seriam cobertas com o relevante fogo de fuzil, metralhadora, artilharia e morteiro. Um canhão antitanque de 57 milímetros foi tomado emprestado de uma divisão e assentado numa plataforma para disparar contra o porão de uma casa que não podia ser atingida por tiros indiretos de artilharia. A Companhia D assentara uma metralhadora calibre .50 (tomada da 10ª Divisão de Blindados Alemã em Bastogne) para varrer as posições alemãs. O 1º Pelotão montaria sua metralhadora calibre .30 na sacada do edifício do PO 2 onde ficaria pronta para crivar de balas os refúgios alemães do outro lado do rio, se necessário (a travessia seria feita bem na frente do PO 2).

A noite do dia 15 de fevereiro estava calma e escura. Os morteiros alemães dispararam apenas alguns foguetes de sinalização e um ou dois 88s. A artilharia americana silenciara, aguardando o apito. Os holofotes estavam apagados, tal como Speirs solicitara. Os americanos não dispararam nenhum sinalizador. Não houve tiroteios de armas leves, nem lua cheia, nem estrelas.

O primeiro barco atravessou o rio sem problema. Os outros dois também. O quarto barco, com McCreary e Cobb a bordo, virou. Eles boiaram uns cem metros rio abaixo, conseguiram desvirar o barco e tentaram novamente, mas viraram outra vez. Acabaram desistindo e voltaram para o PO 2.

Jones e Mercier reuniram os soldados que conseguiram fazer a travessia, dividiram-nos e trataram de cumprir a missão. Mercier tinha em sua companhia um substituto da Companhia F recém-chegado. Sem que Speirs ou Winters soubessem, o jovem oficial — vibrante e leal, mas ingênuo e ávido por mostrar o seu valor — tinha se engajado à patrulha. Quando subia atrás de Mercier a margem setentrional do rio, ele

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pisou numa mina Schu e morreu. Havia menos de 24 horas que ele estava na linha

de combate.

Mercier continuou em direção ao alvo colimado, com oito homens acompanhando-o. Quando chegou perto o bastante do posto avançado alemão, ele disparou uma granada de bocal contra a janela do porão. Quando ela explodiu, a tropa arremeteu contra o edifício e lançou granadas contra o porão também. Quando estas explodiram, Mercier entrou com seus homens no porão, tão imediatamente após a explosão que o praça Eugene Jackson, substituto que tinha sido engajado na Holanda, foi atingido no rosto e na cabeça por fragmentos de estilhaço. No porão, os americanos acharam três alemães ainda vivos, em estado de choque. Eles pegaram um ferido e dois incólumes e saíram às pressas para a rua. Mercier fez soar o apito.

O sinal provocou o início de um tiro de barragem colossal, que fez tremer o solo. O fogo de artilharia pesada da retaguarda foi engrossado por tiros de morteiros e pelo canhão antitanque. Webster, que observou os fatos da sacada do PO 2, nos dá uma descrição deles: “Vimos uma cortina de chamas; depois, uma bola vermelha entrar no porão de uma habitação do outro lado do rio. Os projéteis de artilharia produziam clarões alaranjados nas estradas e nas fortificações alemãs. Uma casa começou a pegar fogo a uns 800 metros de distância frontal de nossa linha. A Companhia D abriu fogo com a .50 atrás de nós e manteve um disparo regular de rajadas. Um consistente rastro de projéteis traçantes inflamou o trecho do rio, provocando um duelo de pistolas automáticas com os alemães, que lançavam em revide de seu refúgio num porão incólume um verdadeiro rio de traçantes igualmente consistente contra a Compahia D.”

Mercier e seus homens correram de volta para os barcos, onde encontraram Jones e sua seção. Quando iniciaram a travessia, chegaram à conclusão de que o estado do soldado alemão ferido se havia agravado demais para que pudesse ser útil. Assim, resolveram abandoná-lo na margem do rio. Um dos substitutos, o praça Allen Vest, sacou uma pistola para matar o soldado, mas recebeu ordens para não atirar. O alemão ferido não poderia fazer nenhum mal a eles. e não havia sentido em revelar a posição deles. Alguns dos combatentes atravessaram o rio usando a corda; outros fizeram a travessia nos barcos.

Assim que atravessaram o rio, os membros da patrulha seguiram às pressas para o porão do PO 2, empurrando os dois prisioneiros na frente. Quando chegaram ao porão, projéteis da artilharia alemã começaram a explodir no quintal, como o início de uma barragem que abarcava toda a extensão da linha de frente da Companhia E.

No porão, os membros da patrulha reuniram-se em volta dos prisioneiros. Os americanos estavam exaltados, muitos deles conversando — ou melhor, gritando em meio ao barulho intenso — tentando descrever suas experiências pessoais. O sangue deles fervia.

— Deixe-me matá-los, deixe-me matá-los — clamou Vest, arremetendo contra os prisioneiros com a pistola na mão. Um colega o deteve.

— Saia daqui, Vest. Eles querem estes filhos da mãe no batalhão — um deles exclamou.

De acordo com Webster, os prisioneiros “eram dois graduados muito calmos, um Unteroffizier (terceiro-sargento) e um Feldwebel, ou segundo-sargento. Continuaram calmos, de pé, como rochas, num cômodo quente, fedorento, cheio de combatentes querendo matá-los, mas eles não moveram um dedo sequer nem franziram o semblante. Eles eram os sujeitos mais controlados que eu já tinha visto”.

Quando as explosões lá fora aumentaram, o praça Jackson, que tinha sido ferido na missão de patrulha, começou a gritar: — Matem-me! Matem-me! Alguém me mate! Não suporto isto. Deus, não suporto isto. Matem-me, pelo amor de Deus, matem-me! — Seu rosto estava coberto de sangue, pois um fragmento de granada tinha perfurado seu crânio e se alojara em seu cérebro.

— Logicamente, ninguém iria matá-lo, pois sempre há esperança, e aquele maldito prisioneiro me deixou tão louco que comecei a chutar o filho da mãe, e quero dizer que chutei o filho da mãe de todas as maneiras possíveis — conta o sargento Martin. — Estávamos todos muito exaltados — concluiu, pouco convincentemente.

Alguém telefonou para pedir a presença urgente de um socorrista e de padioleiros. Roe disse que estaria lá num piscar de olhos.

Jackson continuou a gritar.

— Matem-me! Matem-me! Quero falar com Mercier! Onde Mercier está? — clamou, soluçante.

Mercier foi até ele e segurou-lhe a mão.

— Está tudo bem, amigo, tudo bem. Você ficará bom.

Alguém aplicou uma injeção de morfina no braço de Jackson. A essa altura, ele estava sentindo tanta dor que teve de ser deitado e preso no beliche. Roe chegou com outro socorrista e um padioleiro. Quando eles levaram o paciente para o posto de socorro, Mercier seguiu ao lado do padioleiro, segurando a mão de Jackson. Jackson morreu antes de chegar lá.

“Ele não tinha nem 20 anos de idade”, escreveu Webster. “Sua vida mal tinha começado. Gritando e gemendo, ele perdeu a vida numa maca. Nos Estados Unidos, o padrão de vida continuava a crescer. Lá, as pistas de corrida floresciam, as casas noturnas obtinham os maiores lucros da história. A Praia de Miami enchia tanto que você não conseguia um espaço vago em parte alguma. Poucas pessoas pareciam importar-se. Ora, isso era crescimento, era prosperidade, era o jeito de fazer guerra. Lemos a respeito de restaurantes operando com mercadorias negociadas no mercado negro, do apelo de um industrial para o início imediato da reversão gradual da condição de comercialização de seus produtos à dos tempos de paz, e ficamos nos perguntando se as pessoas saberiam um dia quanto de terror, de derramamento de sangue e de mortes horríveis e agonizantes é necessário para se vencer uma guerra.”

Durante uma pausa no tiro de barragem alemão, os guardas escoltaram os prisioneiros até o QG do capitão Winters. Mercier sorriu de orelha a orelha quando entregou os dois prisioneiros. O terceiro-sargento falou longamente, mas o segundo-sargento continuou calado.

A noite já não era tranqüila. Ambos os lados disparavam tudo que tinham. Fogaréus irrompiam ao longo do rio, e projéteis traçantes cruzavam-no em todos as direções.

Toda vez que uma calmaria sobrevinha, os combatentes no PO 2 ouviam alguém do outro lado do rio com a respiração ofegante, gorgolejante, como se estivesse sufocando. O soldado alemão ferido abandonado pela patrulha tinha sido atingido nos pulmões. Webster e seus amigos discutiram o que fazer, se deviam matar o soldado e livrá-lo de seu sofrimento ou deixá-lo morrer em paz. Webster mostrou-se a favor de matá-lo, pois achava que, se ele fosse deixado nesse estado, os alemães enviariam uma patrulha para buscá-lo, e ele poderia relatar tudo o que estava acontecendo no PO 2. — Com isso, eles nos bombardearão mais intensamente — advertiu Webster.

Webster acabou decidindo que seria melhor atravessar o rio usando a corda que estava estendida de uma margem à outra e esfaquear o inimigo. McCreary vetou essa idéia. Ele disse que os alemães poderiam estar usando o soldado ferido como isca. Webster concordou com isso. Uma granada de mão seria melhor.

Acompanhado pelo praça Bob Marsh, ouvindo a respiração dificultosa do soldado inimigo, que babava e gorgolejava horrivelmente, Webster desceu cuidadosamente a margem do rio. “Fiquei com pena dele”, escreveu Webster, “morrendo inteiramente só e lentamente numa região distante de casa, sem esperança ou amor, na margem de um pequeno e imundo rio, sem ajuda.”

Marsh e Webster tiraram o pino de suas granadas e as lançaram de modo que caíssem ao lado do alemão. Uma explodiu; a outra falhou. O estertor continuou. Os americanos voltaram para o posto de observação, pegaram mais granadas e tentaram novamente. O estertor continuou. Eles desistiram; deixaram-no entregue a si mesmo, para que morresse com o tempo.

Quando, pouco antes do amanhecer, a barragem finalmente cessou, a vasca continuava, deixando todo mundo nervoso. Cobb decidiu que não suportava mais isso. Ele pegou uma granada, foi até a margem do rio, lançou-a para o outro lado e, finalmente, matou o alemão.

À noite, o sargento Lipton tinha sido atingido pela explosão de um projétil de morteiro. Um fragmento feriu-lhe a bochecha direita, perto da orelha, e o outro atingiu o cachaço dele. Ele foi para o posto de socorro e recebeu tratamento. (Trinta e quatro anos depois, submeteu-se a uma operação para remover o pedaço de metal no pescoço quando começou a incomodá-lo.)

No dia seguinte, 16 de fevereiro, Winters chamou Lipton ao QG do batalhão para entregar-lhe sua Dispensa Honrosa como recruta, emitida em 15 de fevereiro, e uma cópia das ordens em que lhe concediam uma promoção a segundo-tenente, que vigoraria a partir de 16 de fevereiro.

— Quando fui ferido, eu era um civil! — observou Lipton. — Eu já tinha sido dispensado, e minha promoção não tinha sido efetivada ainda. Eu me pergunto freqüentemente como isso teria sido feito se eu tivesse sido morto pela explosão daquele projétil de morteiro. — Ele fez uma pausa. Depois, acrescentou: — Sempre achei que obter uma promoção no campo de batalha foi a maior honraria que já tive.

Na opinião de todos, o tenente Jones saiu-se bem em sua primeira missão de patrulha — ou seja, aparentemente, ele teve a sábia atitude de deixar que Mercier tomasse as decisões. Uma semana depois, Jones partiu, depois de ter sido promovido a primeiro-tenente.

— Após uma missão de patrulha! — comentou o tenente Foley, indignado. — Jones veio da academia militar de West Point e era membro da WPPA, a West Point Protective Association, conhecida pelo anel que seus membros usam. “Você não é ninguém se não tiver esse anel!” — Jones foi transferido para um posto junto ao estado-maior do regimento. “Corria o boato de que o desfecho da guerra estava se aproximando rapidamente e de que o pessoal de West Point, que comporia o exército no período de paz, estava sendo protegido”, escreveu Malarkey.

* * *

O coronel Sink ficou tão satisfeito com o sucesso da patrulha que ordenou a realização de outra na noite seguinte. Nevou, porém, no intervalo entre a última patrulha e a seguinte, e a neve congelou na superfície, tornando-se quebradiça e ruidosa. O ar frio tinha dispersado as nuvens do céu, e a Lua brilhava. Winters achava que uma missão de patrulha nessas circunstâncias era suicídio. Desse modo, resolveu desobedecer às ordens.

Sink e alguns oficiais do estado-maior foram até o PC do 2º Batalhão para observar a operação. Eles tinham uma garrafa de uísque com eles. Winters disse que ia descer até a margem do rio para supervisionar a patrulha. Quando chegou ao posto avançado, ele ordenou à tropa que continuasse onde estava. Em pouco tempo, assim que o uísque fizesse efeito, Sink estaria pronto para ir dormir. O pessoal da patrulha poderia informar de manhã que tinha atravessado o rio e seguira para as linhas alemãs, mas que

não tinha conseguido capturar um prisioneiro.{74}

Alguns soldados quiseram beber também. Assim, Cobb e Wiseman partiram numa missão diurna para filar bebida, embora tivessem ordens para jamais expor-se durante o dia. Eles acharam uma adega cheia de Schnapps. Cada um deles pegou duas garrafas, e, quando os atiradores de elite alemães começaram a disparar contra eles, saíram correndo pelo meio da rua, como se fossem estudantes que houvessem roubado maçãs.

Wiseman levou um tiro no joelho. Ele tropeçou e caiu, quebrando as garrafas. Cobb conseguiu salvar as suas. Os dois entraram num porão e começaram a saborear os Schnapps. — Você reúne um grupo de recrutas — observou Martin —, e nada melhor do que tomar um gole de Schnapps. Você tem que ingerir tudo antes de desistir. — Wiseman e Cobb tomaram uma garrafa cada um. Quando voltaram para o QG do 1º Pelotão, completamente bêbados, Cobb envolveu-se numa briga com Marsh.

O tenente Foley os apartou e repreendeu Cobb por ter posto os pés onde não podia, desobedecer a ordens, embebedar-se, causar confusão etc. Cobb enfureceu-se e soltou o verbo. Ele ignorou a ordem de Foley para calar-se. Em vez disso, arremeteu contra Foley. Os dois homens o agarraram e derrubaram. Nisso, o sargento Martin sacou sua pistola .45. Foley disse a ele que guardasse a arma, ordenou a prisão de Cobb e fez que o levassem para o regimento e fosse encarcerado.

Enquanto isso, Wiseman rejeitava aos gritos a ordem de evacuação do socorrista Roe. Ele dizia que ia ficar com os amigos.

Foley acalmou os membros do pelotão e depois foi para o QG do regimento, a fim de redigir os documentos com que levaria Cobb à corte marcial. Depois de várias horas dedicadas a isso, levou os documentos ao coronel Sink e contou a ele os detalhes. Quando Foley estava retirando-se, Sink lhe disse: — Foley, você poderia ter nos poupado muito trabalho. Você deveria tê-lo matado.

Wiseman, ainda bêbado, recusou toda ajuda para tratar seu ferimento e disse que conversaria com o sargento Rader, e com ninguém mais. Rader tentou chamá-lo à razão, sem sucesso. Ele foi levado à corte marcial também.

— Essa experiência penosa foi outro golpe em meu espírito — disse Rader —, depois que Hoobler morreu, e Howell foi ferido em Bastogne.

Em 20 de fevereiro, a Easy foi para a reserva, já que o 3º Batalhão do 506° assumiu sua posição. Horas depois da partida da Easy, os alemães desfecharam um tiro certeiro contra o PO 2. Winters obteve sua promoção para major nesse dia. Em 23 de fevereiro, a 36ª Divisão rendeu a 101ª. A divisão aerotransportada transferiu-se para Saverne, na retaguarda, como preparativo de seu retorno para Mourmelon.

Raras tinham sido as vezes em que a 101ª ficara num setor de retaguarda. Aquilo que viram lá os fez perguntar-se como os suprimentos conseguiam chegar à frente de batalha. Em duas ocasiões em Haguenau, eles receberam um ração de cerveja de três garrafas para cada um. Os cigarros que recebiam eram Chelseas ou Raleighs, marcas detestadas. E nada de sabão, apenas um pacote ocasional de goma de mascar, um pouco de pasta de dente uma vez — com exceção das rações C e K e de munição, isso era tudo que chegava às linhas de frente. Uma vez que agora estavam perto de um depósito de munições na retaguarda, a tropa soube o porquê disso. Os batalhões da região do porto que descarregavam os navios vindos dos Estados Unidos pegavam sua parte, os batalhões da estrada de ferro se serviam das barras de chocolate Milky Way e das caixas de cerveja Schlitz, as quais gizavam como “quebradas”, os motoristas de caminhão pegavam as caixas de Lucky Strike (de longe a marca mais apreciada), e, quando o quartel-mestre da divisão e os S-4s do regimento e do batalhão se apoderavam do melhor que sobrava, os fuzileiros da linha de frente tinham a sorte de receber rações C e cigarros Raleigh.

Shifty Powers conseguiu um novo M-1. Isso foi bom e, ao mesmo tempo, ruim. Ele vinha usando o que tinha recebido nos Estados Unidos. Ele adorava o velho fuzil. — Era como se tudo que eu precisava fazer era apontar para que ele acertasse o alvo. Foi o melhor fuzil que já tive. Mas, toda vez que tínhamos uma inspeção, eu era repreendido, pois ele tinha um escarvalho no cano. E, sabe, não há como tirar escarvalhos do cano. Eles estão lá e pronto. — Ele se cansou de ser repreendido, entregou o velho fuzil e pegou um novo M-1. — E digo a você: eu não conseguia acertar um celeiro com aquele fuzil. Aquilo era a pior arma que eu já tinha visto. — Mas, pelo menos, ele não tornou a ser repreendido.

O coronel Sink emitiu ordens para que eles seguissem o mais rigoroso treinamento enquanto estivessem na reserva. Speirs achou isso uma idiotice e não se esforçou nem um pouco para ocultar seus sentimentos. Ele disse aos membros da Companhia E que acreditava em treinamentos duros e sensatos em centros militares, mas achava que a reserva não era lugar para isso.

Apesar disso, Speirs não pôde livrar a companhia de duas formações compulsórias. A primeira foi feita para a realização de um sorteio que daria direito a 30 dias de licença nos Estados Unidos a um combatente de cada companhia. O ganhador tinha de ter estado na Normandia, na Holanda e em Bastogne, e não ter nenhum registro negativo em sua ficha de serviço: nenhum caso de doença venérea, nenhum abandono de posto e nada de corte marcial. Somente 23 membros da Easy estavam aptos para participar. Speirs misturou as papeletas com os nomes dos combatentes num capacete de aço e tirou o de Forrest Guth. Os colegas aplaudiram o sorteado educadamente. Speirs disse que detestava ficar sem Guth, mas lhe desejou boa sorte. Alguns colegas lhe apertaram a mão. Segundo Webster, o restante se retirou tristemente, “como homens que tivessem visto brevemente o paraíso quando a caminho do inferno”.

A segunda formação foi para uma revista do batalhão. A filosofia de Speirs era evitar o desnecessário, mas fazer com presteza o que fosse certo e indispensável. Ele disse aos soldados que queria que a aparência deles ficasse impecável. Os fuzis deveriam ser limpos. As roupas de combate teriam de ser lavadas. Para isso, providenciaram uma caldeira enorme, onde as ferviam com barras de sabão. Como a lavagem fosse demorada, o praça Hudson decidiu que não lavaria as suas. Quando ele se apresentou para a formação trajando o uniforme sujo, Speirs o repreendeu violentamente. Foley, seu comandante de pelotão, o censurou com veemência. O sargento Marsh, que era seu líder de esquadrão, tentou fazê-lo entender o tamanho da ofensa dele. Hudson sorriu timidamente e disse: — Caramba, meu Deus, por que todo mundo está me criticando?

O general Taylor chegou para a revista das tropas, acompanhado de um relações-públicas fotógrafo. Por ironia do destino, ele parou diante de Hudson e conversou com ele. O relações-públicas tirou uma fotografia dos dois juntos, anotou o nome de Hudson e de sua cidade de origem e enviou a fotografia para o jornal local e uma cópia para os pais do combatente. Logicamente, em vez de com um grupo de soldados da retaguarda engomadinhos, ficava bem para o general aparecer na fotografia conversando com um combatente endurecido pelas batalhas e recém-saído das linhas de frente. — Portanto — Webster comentou —, o único membro da Companhia E com o uniforme sujo foi o único a tirar fotografia com o general.

— Não nos tínhamos dado conta disso ainda — disse Winters —, mas todos nós começamos a caminhar com mais cuidado, olhando em todas as direções, para evitar que o inimigo nos tirasse de combate. — Depois de Haguenau, “passamos a ter, de um momento para outro, um forte pressentimento: ‘Tenho fé em Deus de que vou sair daqui vivo!’”