Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 15
“A Melhor Sensação do Mundo”
MOURMELON
25 de fevereiro-2 de abril de 1945
Em 25 de fevereiro, os membros da Companhia E tiveram uma experiência singular para eles, embora comum para seus pais, como seja a de terem sido transportados através da França em “48s”: vagões ferroviários capazes de transportar 40 pessoas ou 8 cavalos. Foi a primeira viagem dos membros da companhia durante a guerra, e eles gostaram muito disso. O dia estava quente e ensolarado, os vagões tinham feno até a altura dos joelhos, havia muita comida, e ninguém atirou neles.
“Enquanto avançávamos pela França”, escreveu Webster, “balançando as pernas sentados na porta do vagão, acenando para os fazendeiros e tomando uns goles de uma garrafa de Schnapps, vi que não há coisa melhor do que se afastar da linha de frente. Foi a melhor sensação do mundo.”
Eles estavam voltando para Mourmelon, mas não para o quartel. Dessa vez, estacionaram num acampamento, em grandes barracas verdes que acomodavam 12 soldados, situado a uns 800 metros fora do que Webster chamou de “a patética e miserável praça-forte de Mourmelon, castigada por soldados desde os tempos de César, que tinha seis bares, dois prostíbulos e um pequeno clube da Cruz Vermelha”. Na opinião crítica e contundente de Webster, “Mourmelon era pior do que Fayetteville, na Carolina do Norte”.
A primeira coisa a fazer era limpar-se. Havia chuveiros no lugar, embora a água fosse morna, no máximo. Mas, para homens que não tinham tido um banho adequado desde a partida de Mourmelon, dez semanas antes, a chance de ensaboar-se e esfregar-se, esfregar-se e ensaboar-se, cobrir-se de espuma, enxaguar-se e repetir o processo era alegria pura. Depois disso, eles ganhavam roupas limpas e um novo uniforme Classe A. Porém, quando foram pegar seus sacos de campanha, deixados para trás quando a companhia foi para Bastogne, a alegria deles se transformou em fúria. Os “guardas” dos escalões da retaguarda tinham aberto o depósito para a 17ª DIA quando a divisão seguiu para as Ardenas, e os jovens da 17ª pilharam-no, como se os donos dos pertences não fossem voltar para pegá-los. Haviam sumido com macacões de salto, camisas, insígnias do regimento, botas de pára-quedista, macacões de salto britânicos, células de pára-quedas usados na Normandia e na Holanda, Lugers e outros suvenires de valor inestimável.
O regime imposto pelo major Winters aumentou ainda mais a insatisfação deles. Novos recrutas tinham chegado, e, para integrá-los à companhia, Winters instituíra um rigoroso programa de treinamento. Era como se tivessem de passar pela instrução básica novamente. Eles detestavam isso. Webster ficou tão farto disso “que, às vezes, em momentos de distração, sentia vontade de voltar para a liberdade relativa dos combates”.
Um desses novos recrutas era o praça Patrick S. O’Keefe. Ele entrara para o exército quando tinha 17 anos de idade, passara pela escola de pára-quedismo e partira de Nova York a bordo do Queen Elizabeth no fim de janeiro. — Eu estava num sono profundo quando passamos pela Irlanda — disse O’Keefe, lembrando-se da ocasião, fato que o desapontou, já que seus pais nasceram em County Kerry, o primeiro porto de escala nas viagens transatlânticas. Ele chegou a Mourmelon logo depois que a companhia voltou para lá. Sua primeira impressão em relação aos combatentes era que “eram todos durões e velhos e tinham cabelos grisalhos. Pensei: ‘Você quis abraçar o mundo com as pernas, O’Keefe’”. Ele foi engajado no 1º Pelotão, unidade sob o comando do tenente Foley e do sargento Christenson.
Em sua terceira noite em Mourmelon, O’Keefe participou de um treinamento noturno, iniciado à meia-noite. Quando caminhavam no escuro em fila indiana, ele perdeu de vista o soldado que seguia na frente dele. Ele respirou fundo. E ficou tenso, olhando em volta.
Foi quando uma voz tranqüila vindo da retaguarda disse: — Tudo bem, filho. Basta ajoelhar-se e olhar para cima que você conseguirá avistá-lo, pelo contraste do solo com o céu. — Foi o que O’Keefe fez. Ele os viu, disse “Obrigado” e continuou a marcha. Depois, descobriu que o conselho tinha vindo do major Winters. Então, lá estava Winters, o oficial do estado-maior do batalhão divertindo-se em Paris, liderando um exercício de instrução para recrutas.
O’Keefe assumiu a posição de batedor da vanguarda pouco antes do amanhecer. Às primeiras luzes do dia, eles fariam a simulação de um ataque contra uma posição inimiga fixa no lado oposto de um campo aberto. O’Keefe avançou até a última ondulação do terreno antes do alvo. Embora nervoso com o fato de que um jovem de 18 anos de idade estivesse liderando um grupo de veteranos experientes, ele fez sinal com a mão para que o batalhão parasse e para que o segundo batedor, que estava atrás dele, avançasse, movido pela idéia de que talvez o outro novato pedisse para trocar de lugar com ele. O praça Hickman aproximou-se correndo e, antes que O’Keefe conseguisse articular algo, o recruta disse, inseguro: — Cara, estou contente que você esteja aqui. Estou nesta unidade há apenas três semanas.
O’Keefe recuperou a lábia quando notou que o batalhão estava cheio de substitutos. — OK, jovem — ele disse a Hickman. — Vou atravessar a ponte para ver o que há do outro lado. Trate de voltar e esteja pronto para repassar o meu sinal quando eu o der.
Alguns minutos depois, O’Keefe estava de volta à massa de terreno, segurando o fuzil com ambas as mãos para dar o sinal: — Inimigo à vista. — Foley avançou com o seu pelotão para a linha de início da operação, gritou “Estabeleçam um campo de tiro!”, e o ataque começou. Depois de alguns minutos de tiroteios intensos e contínuos, Joe Liebgott se pôs de pé de um salto, deu um grito de guerra indígena, arremeteu contra o objetivo e atacou o ninho de metralhadora com a baioneta calada, dilacerando os sacos de areia, fazendo o papel de herói. O’Keefe e os outros substitutos ficaram muito impressionados com isso.
* * *
Em 8 de março, o coronel Sink adotou uma política de troca contínua de postos entre os oficiais que vinham atuando nas operações de combate e administrativas por no mínimo dois meses. O tenente-coronel Strayer tornou-se subcomandante de regimento. O major Winters assumiu o posto de comandante do 2º Batalhão. Houve algum remanejamento, com o major Matheson sendo transferido do S-4 para o S-3 do regimento, como substituto do capitão Nixon, que saiu do S-3 do regimento e foi para o S-3 do 2º Batalhão. O tenente Welsh, recuperado do ferimento que sofrera na véspera do Natal, tornou-se membro do S-2 do 2º Batalhão. O capitão Sobel substituiu Matheson como chefe do S-4 do regimento.
O rebaixamento de Nixon como oficial de regimento para oficial de batalhão ocorreu por causa de sua bebedeira. Assim como todos que o conheciam, Sink sabia que Nixon era um gênio, além de soldado corajoso e sensato, mas Sink — ele mesmo um beberrão incontrolável (chamavam-no, pelas costas, de “Bob Uísque”) — não conseguia suportar as bebedeiras noturnas de Nixon. Ele perguntou a Winters se este conseguiria controlar Nixon. Winters disse que tinha certeza de que conseguiria, já que os dois eram excelentes amigos.
Em março, os antigos oficiais da Companhia E estavam ocupando postos no regimento (S-3 e S-4) e no batalhão (o comandante do 1º Batalhão era o tenente-coronel Hester; Winters era o comandante do 2º Batalhão, onde o S-2 e o S-3 eram formados com oficiais da Easy). Um desses homens, Matheson, acabou chegando ao posto de general-de-divisão e comandante da 101ª DIA no Vietnã. Infelizmente, quanto ao capitão Sobel, somos obrigados a dizer, ainda que pela última vez, que andou aprontando alguma no verão de 42 em Toccoa.
Não se pode dizer o mesmo em relação a Winters, cujos sentimentos por Sobel jamais foram amenizados. Aliás, a volta de Sobel proporcionou a Winters um dos momentos mais satisfatórios de sua vida. Certa vez, quando passava a pé por uma rua de Mourmelon, o major Winters viu o capitão Sobel vindo em direção contrária a ele. Sobel viu Winters também, baixou a cabeça e passou por ele sem bater continência. Quando ele deu mais um ou dois passos adiante, Winters disse, em voz alta: — Capitão Sobel, devemos bater continência para os oficiais, e não para os soldados.
— Sim, senhor — respondeu Sobel e bateu continência com presteza e vigor.
Webster e Martin, parados nas imediações, se deliciaram com a cena (“Gosto de ver oficiais se impondo sobre seus subordinados”, comentou Webster), mas não tanto quanto o próprio Winters. (Winters teve outra causa de satisfação em Mourmelon, dessa vez diariamente. Prisioneiros de guerra alemães estavam trabalhando num hospital; todos os dias, ao anoitecer, eles voltavam marchando para o alambrado de prisioneiros. Durante a marcha, cantavam canções marciais. “Eles cantavam e marchavam com orgulho e vigor”, escreveu Winters, “e isso era bonito. Meu Deus, eles eram soldados!”)
O soldado que tinha substituído Sobel e Winters como comandante da Easy, o capitão Speirs, continuava a impressionar tanto os oficiais quanto os recrutas. “O capitão Speirs promete ser um oficial tão bom quanto Winters”, escreveu Webster. Ele percebeu que muitos discordavam dele, homens “que detestavam Speirs em razão de ele ter matado um de seus próprios subordinados na Normandia, por achar que ele era obstinado e de caráter duvidoso, porque acreditava que coisas como fadiga de combate não existiam”. Mas, para Webster, “ele era corajoso nos combates; aliás, um verdadeiro bárbaro, um homem que havia ganho sua Estrela de Prata, sua Estrela de Bronze e três Purple Hearts legitimamente. Speirs acredita em coisas como consenso, graduados e em instrução com ênfase em simulações de batalha, em vez de em manuais de guerra. Gosto de Speirs”.
Houve mudanças importantes entre os graduados. O sargento Talbert substituiu o tenente Lipton como primeiro-sargento. Homem genial, Talbert era admirado pelos recrutas porque desprezava burocracia e fazia as coisas baseado no senso comum, em vez de em manuais de guerra. Carson tornou-se escrevente da companhia; Luz passou a mensageiro de pelotão; os sargentos de pelotão, todos praças em Toccoa e feridos pelo menos uma vez, eram Charles Grant (segundo), Amos Taylor (terceiro) e Earl Hale (primeiro).
A promoção de Hale causou rumores de insatisfação no 1º Pelotão. A tropa não tinha nada contra ele, exceto o fato de que era forasteiro (ele servira no QG da companhia como operador de rádio). A tropa fez que circulasse o boato de que Hale se havia queixado a Winters de que sua esposa estava cobrando dele a conquista de uma divisa e de que Winters tinha dado a ele o comando do 1º Pelotão como resultado disso. A causa da insatisfação entre os membros do pelotão foi a forma pela qual Johnny Martin fora desconsiderado. — Acho que os oficiais não gostaram dessa atitude leviana — observou Webster —, pois ele tinha um raciocínio rápido e era o maior líder entre nós, naturalmente talhado para ser o sargento do pelotão.
Martin era da mesma opinião. Depois de sobreviver a três campanhas sem se ferir, ele decidiu informar aos socorristas que tinha uma cartilagem problemática num dos joelhos que o incapacitava como combatente. Em pouco tempo, ele voltou para os Estados Unidos.
“Os homens de Toccoa estavam escasseando como as folhas de bordos em novembro”, escreveu Webster. “Um sentimento de impotência e irritação tomou conta dos veteranos em Mourmelon. Lá estávamos nós, atravessando campinas e pântanos, ainda quebrando cercas e pisando em rutabagas, ainda nos campos fazendo exercícios.”
Os veteranos tentaram abster-se de participar das manobras de simulação de batalha. De manhã, eles se apresentavam simulando doença. Speirs perguntava qual era o problema, resmungava e os encaminhava para o posto de socorro. Lá, eles os internavam no hospital por um dia. Um dia em que não faziam nada; ficavam deitados, lendo revistas. Era fácil conseguir isso. Todos faziam isso, mas nunca mais de duas vezes. Até mesmo Webster preferiu participar da simulação de combates a ler ou não fazer nada.
O dia 15 de março foi de merecida recompensa para os membros da 101ª DIA. Houve um desfile militar diante das mais altas patentes que os soldados tinham visto. O general Eisenhower estava lá, juntamente com o general Taylor, os generais-de-divisão Sir Frederick Morgan e Lewis Brereton, Stephen Early, assessor do presidente Roosevelt, o general-de-brigada Matthew Ridgway e outros.
Nos preparativos para o desfile, “todos esfregaram e lavaram, poliram e abrilhantaram, desmontaram, limparam e remontaram todas as armas”, disse o tenente Foley, lembrando-se da ocasião. — Tiraram as condecorações do baú e as puseram caprichosamente na camisa. — Além disso, pintaram o capacete, estamparam-lhe a insígnia do 506° num dos lados e, quando ela secou, aplicaram óleo nela até que brilhasse sob a luz do sol e ensaiaram para o desfile. Logicamente, os oficiais puseram os combatentes na praça de armas três horas antes da chegada de Ike e sua comitiva; obviamente, os soldados xingaram o exército e seu jeito de fazer as coisas.
Eisenhower finalmente chegou. Ele passou numa viatura diante da divisão inteira e depois subiu no estrado de revista de tropa para fazer um discurso. Então, anunciou
que a divisão tinha recebido a Medalha Congressual de Honra ao Mérito,{75} a primeira vez na história do exército que uma divisão inteira recebia uma honraria desse tipo, por seu desempenho em Bastogne. Num pequeno discurso, Ike foi generoso em elogios: — Vocês tiveram uma oportunidade maravilhosa [em Bastogne] e venceram todas as provações... Estou muito orgulhoso de vocês.
Ele terminou o discurso com um misto de elogio e exortação: — Esta grande honra vem acompanhada de certa responsabilidade. Assim como uma nova tradição que se inicia, vocês precisam entender, todos vocês, de agora em diante, que a luz dos holofotes incidirá sobre vocês com um brilho especial. Toda vez que disserem que são soldados da 101ª Divisão, todos, seja na rua, seja na cidade, seja na linha de frente, esperarão uma conduta excepcional de vocês. Sei que vocês vencerão todas as provações
futuras, como o fizeram em Bastogne.{76}
Webster, que estava ficando cada vez mais cínico em relação ao exército e exercitando vigorosamente o direito do soldado de reclamar, ficou impressionado. — Até mesmo os novos recrutas, como eu, sentiram grande orgulho em participar dessa revista — comentou o praça O’Keefe.
O tenente Foley teve “a maior de todas as surpresas”. De pé atrás do general Taylor, estava o ajudante dele, ninguém menos que o capitão Norman Dike.
O sargento Hale, que tinha sofrido um corte na garganta nas Ardenas e tivera permissão médica para comparecer ao desfile sem gravata, recebeu sua Estrela de Bronze das mãos do general Eisenhower. Ike quis saber por que ele não estava usando gravata. Hale explicou-lhe por quê. Quando o general Taylor confirmou a história de Hale, Ike soltou sua gargalhada típica e disse que Hale foi o único combatente em todo o Teatro de Guerra Europeu a sair-se com essa.
E vieram as licenças, que foram desfrutadas na Inglaterra, na Riviera, em Paris e em Bruxelas, e folgas noturnas em Reims. O capitão Speirs teve de ir à Inglaterra, onde se casara com uma britânica que acreditava que o marido tinha sido morto no norte da África. Foley foi a Paris e, quando voltou, disse que não se lembrava de nada do que vira. Houve alguns espetáculos patrocinados pela USO, com artistas famosos, inclusive Marlene Dietrich.
A vida na base era tranqüila, mas tinha seu preço. Para elevar o nível da disciplina e da aparência ao do padrão de um escalão da retaguarda, o exército tinha de achar um meio de fazer com que regras e regulamentos fossem cumpridos. Ameaçar membros de uma companhia de fuzileiros que tinha acabado de sair da linha de tiro e estava prestes a voltar depois de uma visita ao alambrado de prisioneiros de guerra não passou de uma promessa. Porém, tirar dinheiro das mãos de homens tomados pela expectativa de desfrutar sua licença em Paris lhe pareceu interessante.
Os praças da 101ª tinham um salário-base de 50 dólares por mês, mais 50 dólares de bonificação por serviço perigoso e um adicional de 10 dólares por ficar em zona de combate. O general Taylor criou um tribunal especial em Mourmelon, e começou a impor pesadas multas por violação das regras e dos regulamentos. O combatente pego usando fardamento inadequado recebia uma multa de 5 dólares. O que levasse uma Luger no bolso era multado em 25 dólares. Nos casos de excesso de velocidade com jipes ou caminhões, a multa era de 20 dólares. Atitudes desordeiras eram infrações que o faziam ser multado em 25 dólares.
O treinamento prosseguiu. Foi estendido dos esquadrões aos pelotões; dali, às companhias e, depois, aos batalhões. A divisão estava preparando-se para uma missão de salto diurna, chamada Operação Eclipse, um salto em Berlim e em seu entorno.
Ninguém saltaria em Berlim até que os exércitos dos Aliados atravessassem o Reno. Durante meses, os membros da Easy ficaram na expectativa de um salto no outro lado do rio, mas, quando o dia dele chegou, a unidade não participou da missão. Eisenhower resolveu poupar a 82ª e a 101ª para missões em Berlim. Ele deu à 17ª DIA a chance de participar de uma missão de salto e a incluiu na Operação Varsity, a maior operação de emprego de tropas aerotransportadas de todos os tempos (com a participação da 17ª, da 1ª Britânica e da 6ª DIAs).
Não participar da Operação Varsity foi frustrante para muitos dos substitutos, que tinham passado pelos rigores da escola de pára-quedismo, foram engajados na mais famosa divisão aerotransportada do mundo na Bélgica ou na Alemanha e jamais haviam participado de uma operação pára-quedista. Em Mourmelon, uma unidade do Comando de Tropas Aerotransportadas tornou possível a realização de alguns saltos para os combatentes que desejassem isso, de modo que conquistassem o direito de receber a bonificação de pára-quedista ou apenas para se divertir mesmo. O tenente Foley fez dois. Mas esses saltos não eram como os saltos reais.
Assim, em 24 de março, os membros da Companhia E ficaram observando com sentimentos conflitantes um C-47 após outro avançar pela pista de um campo de aviação nas proximidades, voar em círculo e entrar na formação em V ou Vs, de nove em nove, e seguir para o Nordeste. — Foi uma bela cena — Foley relata. — Fazia o coração bater mais rápido, e, no meu caso, de alguém que tinha sido engajado numa companhia que participara de duas operações pára-quedistas, achei que tinha perdido a última oportunidade.
Alguns dos velhos soldados eram da mesma opinião. Para espanto dele, Webster acabou surpreendido pelo desejo de que gostaria de ter seguido viagem e ter participado da operação com a 17ª. ‘Teria sido divertido.” Mas ele ficou em terra com os amigos, torcendo pelos que haviam partido, fazendo o V de vitória e gritando: “Acabem com eles, rapazes! Mandem-nos para o inferno!” Então, Webster escreveu: “Fiquei observando-os desaparecer no horizonte junto com o ronco dos motores e, de repente, me senti só e abandonado, como se tivesse sido deixado para trás.”
Um dos membros do 506° que não foi deixado para trás foi o capitão Nixon. O general Taylor o escolheu para saltar com a 17ª como observador avançado da 101ª. Felizmente para Nixon, ele foi designado como mestre de salto de seu avião. Mas o avião foi atingido; apenas Nixon e três outros conseguiram saltar antes de o avião chocar-se contra o solo. O engajamento de Nixon na 17ª durou apenas uma noite; em 25 de março, ele foi levado para o outro lado do Reno, e, de lá, seguiu viagem num pequeno avião especial de volta para o 2º Batalhão, em Mourmelon. O salto deu a Nixon o direito de ser um dos dois membros do 506° a usar três estrelas em suas asas de pára-quedista — pela participação de combates na Normandia, na Holanda e na Operação Varsity. O outro foi o sargento Wright, dos Pathfinders, que fora membro da Companhia E em Toccoa.
A resistência alemã contra a Operação Varsity foi feroz. Enquanto os combates prosseguiam, o I Exército Americano atravessava rapidamente o Reno pela Ponte Ludendorff, em Remagen, capturada pouco tempo antes, e depois seguia para o Norte, de forma que pudesse cercar as tropas do exército alemão que defendiam o coração industrial da Alemanha no Ruhr.
Eisenhower precisava fortalecer o cerco no Ruhr. Ele podia dispor da 82ª e da 101ª. As ordens para empregá-las foram emitidas no fim de março. A companhia avançava, de volta para a frente de batalha, dessa vez no rio Reno.
Os veteranos decidiram não correr nenhum tipo de risco. O fim da guerra estava próximo, e agora eles sabiam que não podiam acreditar em Bastogne, que eles iam conseguir sobreviver. Em segurança. Mais ou menos intactos. Eles queriam fugir do tédio do quartel. Eles sabiam cuidar de si mesmos, estavam prontos para fazer seu trabalho, mas não para ser heróis.
Ao contrário dos veteranos, os substitutos achavam Mourmelon um lugar fantástico. Eles treinaram com os veteranos, dia e noite, enfrentando problemas reais, todos sob o olhar atento de um homem que era um mito na Companhia E: o major Winters. Eles tinham aprendido lições de salvamento de vidas. Eles passaram a ser considerados e aceitos como veteranos. Tinham orgulho de fazer parte da companhia, do regimento, da divisão, e estavam ansiosos por mostrar que tinham competência para fazer parte dessas unidades.
Portanto, a Easy ficou pronta para os combates no fim de março, quando chegaram as ordens para os preparativos da partida. Eles viajariam para o Reno de caminhão. Webster estava muito contente por sair de Mourmelon, mas apreensivo e ansioso por voltar a combater e frustrado com o fato de que não ia entrar nas batalhas por meio de uma operação pára-quedista. “Eu nutrira a esperança de que faria outro salto”, ele escreveu, “em vez de seguir para a linha de frente em caminhões, pois as operações pára-quedistas são imprevisíveis — elas podem ser difíceis; elas podem ser fáceis; existe a chance de não se deparar nenhum inimigo —, o que me atrai mais do que um ataque de infantaria sem graça, contra um inimigo que sabe onde você está e quando você chegará.”
O praça O’Keefe estava prestes a participar de seu primeiro combate. Ele guarda uma lembrança viva da ocasião:
— Trazíamos suéteres leves por baixo do casaco de campanha, as calças enfiadas no cano das botas, a faca de campanha presa à perna direita, o bornal de provisões preso a cartucheiras de pistola, uma granada de fósforo e uma granada de mão comum presa com fita adesiva ao arnês, na altura do tórax, cantis, um kit de primeiros socorros, os bolsos cheios de rações K, o capacete de aço e o fuzil. Levávamos nossos pentes de fuzil num cinturão de lona, no lugar das antigas cartucheiras. Em nossos bornais de provisão, levávamos o mínimo possível de cuecas, meias, material de barbear, um kit de costura, cigarros etc. — depois de assistirem à missa celebrada pelo capelão John Maloney e receber a remissão dos pecados, O’Keefe subiu num caminhão e partiu para a Alemanha.
A Companhia E estava prestes a entrar em seu quinto país. Os soldados gostaram muito dos britânicos e do povo inglês. Mas não gostaram dos franceses, que lhes pareceram ingratos, carrancudos, preguiçosos e sujos. Eles fizeram uma amizade especial com os belgas por causa de seu relacionamento intenso e estreito com os civis de Bastogne, que tinham feito todo o possível para apoiar os americanos.
Eles adoraram os holandeses. Corajosos, talentosos, profundamente gratos, com o melhor movimento de resistência da Europa, depósitos cheios de comida escondida dos alemães, mas dada aos americanos, limpos, trabalhadores, honestos eram apenas alguns dos elogios com que os combatentes cumulavam os holandeses.
Agora, eles conheceriam os alemães. Pela primeira vez, estariam nas linhas de frente do território inimigo, convivendo com civis inimigos. E, se o boato tivesse fundamento, boato que dizia que, em vez de se enfurnarem em trincheiras, eles receberiam acolhida nas casas alemãs, teriam a oportunidade de conhecer intimamente os alemães. Esse seria o caso principalmente quando o bolsão de resistência do Ruhr fosse eliminado e o avanço pelo centro da Alemanha começasse. A cada noite, ficariam numa casa diferente, em condições que seus ocupantes saberiam de sua chegada com apenas alguns minutos de antecedência.
Eles chegariam como conquistadores aos quais havia sido dito que desconfiassem de todos os alemães e aos quais tinha sido proibido, por uma política de não-confraternização, manter qualquer contato com civis alemães. Mas, com exceção de Liebgott e outros mais, eles não sentiam ódio imortal pelos alemães. Muitos admiravam os soldados alemães que tinham combatido. Webster não era o único a achar que a maior parte das atrocidades de que tinham ouvido falar era apenas propaganda. De qualquer forma, em pouco tempo eles veriam por si mesmos se todos os alemães eram nazistas e se os nazistas eram tão maus quanto a imprensa e o sistema de radiodifusão dos Aliados os fizeram crer.