Band of Brothers: Companhia de Heróis
Capítulo 6
“MOVAM-SE”
CARENTAN
7 de junho-12 de julho de 1944
No amanhecer do dia 7 de junho, o capitão Hester foi procurar Winters com uma mensagem. — Winters — ele disse —, detesto fazer isso com você depois daquilo por que você passou ontem, mas quero que a Companhia E encabece um coluna com destino a Vierville.
O batalhão tinha alcançado seus objetivos do Dia D, a 4ª Divisão havia desembarcado bem, as estradas estavam seguras. Sua próxima tarefa era seguir para o Sul, em direção a Carentan, do outro lado do rio Douve, com o intuito de juntar-se às forças americanas procedentes da Praia de Omaha, a Oeste. A rota começava em Culoville, passava por Vierville, ia até St.-Côme-du-Mont, cruzava um rio e findava em Carentan.
O 2° Batalhão conseguiu varrer o inimigo de Vierville e depois avançou para Angoville-au-Plain, com a Easy agora na reserva. O restante do dia foi gasto em ações de rechaço de contra-ataques alemães empreendidos pelo 6º Regimento Pára-quedista, comandado pelo coronel von der Heydte. No dia seguinte, o 1º Batalhão do 506° tomou St.-Côme-du-Mont, a cerca de 3 quilômetros ao norte de Carentan, na última região elevada que dava vista para Douve Valley e, mais além, Carentan. O coronel Sink estabeleceu seu posto de comando em Angoville-au-Plain, com a Companhia E tomando posição para defender o QG do regimento. Essa continuou sendo a tarefa dela nos três dias seguintes.
A Easy aproveitou o tempo para tomar fôlego e recompor sua força. Soldados chegavam num fluxo constante, procedentes de toda a península de Cotentin. O sono era ainda algo difícil de conciliar, por causa do fogo de atiradores de elite, da artilharia e de morteiros. Enterrar corpos, de homens e animais, era problemático, já que estavam começando a intumescer e feder.
E surgiu outro problema, um que perseguiria as forças aerotransportadas durante o ano seguinte inteiro. Toda cidade libertada na França, e depois na Bélgica, Holanda, Alemanha e Áustria, estava cheia de vinho, conhaque, uísque e outro tipo de bebida alcoólica fina, de uma qualidade e em quantidade tais que eram desconhecidas pelo soldado comum. O praça Shifty Powers e um amigo acharam uma loja de vinhos em St.-Côme-du-Mont. Eles a invadiram e começaram a provar o conteúdo de algumas garrafas, “para achar o tipo de que gostávamos”. Cada um pegou uma garrafa e voltou para tomar a bebida em paz. — De vez em quando, um atirador de elite alemão tentava nos acertar. Ele ficava tentando nos alvejar pelo ricochete da bala, e a ouvíamos atingir um obstáculo e ricochetear. De certo modo, gostávamos disso.
O tenente Welsh achou um barril de conhaque, “e achei que ele estava tentando bebê-lo todo sozinho”, relata Winters. “Houve ocasiões em que eu falava com Harry e percebia depois que ele não tinha ouvido uma palavra sequer do que eu havia dito, e isso não foi porque ele tivesse deficiência auditiva. Corrigimos esse problema alguns dias depois.” Mas o problema tornou a aparecer. Havia simplesmente muita disponibilidade de bebida, e os jovens guerreiros estavam sob muita tensão, para que se recorresse a qualquer solução simples para isso.
Em 10 de junho, o praça Alton More pediu a Malarkey que o acompanhasse numa expedição a Ste.-Mère-Eglise para procurar uns bornais de provisão que ele tinha visto empilhados lá num terreno baldio. More era uma espécie de John Wayne grosseiro, filho de um botequineiro em Casper, Wyoming. Ele havia se casado com a namorada da escola, e o primeiro filho deles tinha nascido quando ele estava na Inglaterra. Malarkey concordou em ir com ele, mas, quando chegaram lá, sentiu certo mal-estar quando percebeu que os bornais de provisão tinham sido tirados de pára-quedistas mortos. Apesar disso, ele se juntou a More no esvaziamento dos bornais, virando-os de cabeça para baixo e pegando barras de chocolate, artigos de toalete, rações e dinheiro.
Mas, de repente, Alton caiu de joelhos e, num tom de voz quase inaudível, disse: — Vamos dar o fora daqui. — Malarkey virou o rosto para o lado e viu que More estava olhando para um par de sapatinhos de bebê, de crochê. Eles abandonaram o que tinham recolhido e voltaram para St.-Côme-du-Mont, decididos, dali por diante, a terem mais respeito para com os colegas mortos.
Os soldados alemães mortos eram outro problema. Quando vinha um período de calmaria, a caça a suvenires começava. As Lugers eram o item favorito, além de relógios, punhais, bandeiras, qualquer coisa que tivesse a suástica. Quando, finalmente, quatro dias após o Dia D, Rod Strohl juntou-se a eles nessa prática, Liebgott o viu e foi correndo falar com ele. “Ei, Strohl, Strohl, veja só o meu.” Ele mostrou ao colega um anel que tinha arrancado do dedo de um alemão que ele tinha matado com sua baioneta.
A essa altura, a 29ª Divisão, vindo do Oeste, da Praia de Omaha, tinha tomado Isigny, situada a 12 quilômetros de Carentan, que, com uma população de cerca de 4 mil habitantes, a cidade era cortada pela principal rodovia que ligava Cherbourg a Caen e St.-Lô. A linha férrea Paris-Cherbourg passava por ela. O 6º Regimento Pára-quedista Alemão, uma vez que tinha fracassado em manter o planalto ao Norte, estava defendendo Carentan agora. O coronel von der Heydte tinha ordens do marechal-de-
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campo Erwin Rommel para “defender Carentan até o último homem”.
Em 10 de junho, a 29ª Divisão, procedente de Omaha, fez ligação com a 101ª, a nordeste de Carentan. Isso tornou a cabeça-de-praia segura, mas esta não podia ser estendida continente adentro até que os americanos expulsassem os alemães de Carentan. O avanço era penosamente lento, por conta de três importantes fatores: a falta de unidades blindadas ou de artilharia suficiente, a habilidade e a determinação dos defensores e as sebes. Geralmente com 2 metros de altura, ou até mais, com ruelas estreitas que mais pareciam trincheiras, tão compactas que podiam deter um tanque, cada sebe era uma posição inimiga difícil de vencer. E havia muitas delas. Tomava-se uma sebe, depois de um esforço máximo, e lá estava outra, 50 metros ou menos adiante. A região era o pior lugar em que se podia pensar em organizar uma tropa de assalto, tão ruim quanto livrar uma cidade de todos os inimigos casa por casa ou cômodo por cômodo, ou quanto atacar o inimigo no sistema de trincheiras da 1ª Guerra Mundial. Mas isso tinha de ser feito.
O general Collins tinha o VII Corpo de Exércitos atacando ao Norte, na direção de Cherbourg (a maior cidade portuária da Normandia e importante objetivo estratégico), e a Oeste, no sentido da costa (com o objetivo de isolar os alemães em Cotentin e cortar-lhes a linha de comunicação), mas os ganhos eram limitados e pouco progresso poderia ser esperado até que o gargalo em Carentan fosse destruído. A 101ª foi incumbida de cumprir essa tarefa.
O general Taylor resolveu atacar a partir de três direções diferentes ao mesmo tempo. O 327° Regimento de Infantaria Transportada por Aeroplanos chegou do Norte, e o 501° do Nordeste, ao passo que o 506° se mobilizaria em marcha noturna, contornando Carentan, quase sitiada então, em demanda do Sudoeste. Ataques coordenados estavam programados para começar de madrugada, às 5 horas do dia 12 de junho.
O capitão Sobel tinha providenciado para que a Companhia E passasse por treinamentos noturnos durante meses. Marchas noturnas através de campos e florestas, com o enfrentamento de problemas de localização geográfica e todo tipo de dificuldade de movimentação e controle de tropas. A tropa se sentia totalmente à vontade em trabalhar à noite. Aliás, alguns soldados insistiam em afirmar que conseguiam enxergar melhor no escuro do que à luz do dia.
De acordo com Winters (que, a essa altura, era o comandante de fato da companhia; Meehan ainda era considerado soldado desaparecido em combate, em vez de morto), os que não conseguiam adaptar-se a operações noturnas eram os oficiais do estado-maior do regimento. Eles não haviam ido “muito bem” nos treinamentos e não fizeram os exercícios noite após noite que os soldados e os graduados haviam feito. O resultado disso apareceu na noite do Dia D, conta Winters:
“Eles foram os que tiveram problemas de orientação e localização de objetivos. Tiveram grande dificuldade para passar pelas sebes. Os graduados e os recrutas tinham achado, sem nenhuma ajuda, o caminho e o objetivo que lhes diziam respeito sem dificuldade e sem mapa.”
Essa deficiência dos oficiais tornou a ficar evidente na marcha noturna dos dias 11 e 12 de junho. A Companhia F seguiu na vanguarda, secundada pela Companhia E. Elas partiram com destino a Carentan através de um pântano, uma ponte e campos, até alcançarem uma estrada de ferro. Era penoso atravessar pântanos e sebes. As companhias foram perdendo contato. A Companhia F alcançava uma região difícil, atravessava-a com esforço e depois prosseguia em marcha acelerada, sem considerar os elementos da retaguarda, empenhados em atravessar esse mesmo terreno difícil. O QG do regimento mudava freqüentemente as ordens da área de ação do 1º e 2º Batalhões. As companhias paravam, entrincheiravam-se, montavam metralhadoras e depois recebiam ordens para deslocar-se outra vez.
Houve importantes batalhas ao longo da rota que o 2º Batalhão estava seguindo. A região estava coberta de corpos, de americanos e alemães, armas e equipamentos, difíceis de serem vistos com clareza na escuridão. Depois de ter atravessado o rio Douve, seguindo em demanda da estrada de ferro, a Easy perdeu contato com a Companhia F. — Eu sabia que não conseguiríamos achar o caminho para o nosso objetivo atravessando aquele estranho terreno sozinhos — observa Lipton — e que estávamos alinhados numa formação sem defesa.
Winters tentou contatar o batalhão pelo rádio. Os operadores procuraram falar amortecendo o tom de voz. Apesar do cuidado, não conseguiram evitar que uma MG 42 (a melhor metralhadora alemã do mundo) abrisse fogo, lançando várias rajadas curtas de algum ponto à esquerda. Lipton deslocou-se para o seu operador de metralhadora e sussurrou-lhe que montasse a metralhadora voltada para a direção dos disparos feitos contra eles. Ele se lembrou de que, enquanto se movia silenciosamente para posicionar o resto do pelotão, “quase morri de susto quando [o sujeito] começou a carregar a metralhadora. O barulho de uma metralhadora leve sendo carregada, com o ferrolho sendo puxado duas vezes para trás e depois solto, pode ser ouvido a meio quilômetro de distância numa noite silenciosa. Todas as tentativas de mantermos silêncio e surpreendermos os alemães foram desperdiçadas por nada”. Mas não houve outros ataques do inimigo, e Lipton ficou um pouco aliviado.
O contato foi restabelecido. A Easy retomou o avanço. Pelo caminho, encontraram um alemão morto, com a mão direita estendida para cima. Todos passaram por cima dele, mas, quando o praça Wayne “Skinny” Sisk alcançou o corpo, estendeu a mão e apertou a do defunto, enquanto pisava em seu estômago inchado. O corpo do soldado morto produziu um ruído esquisito.
— Lamento, amigo — Sisk disse em voz baixa e seguiu adiante.
Chegaram a um trecho do caminho em que este dobrava abruptamente para a direita. Carson lembra-se de que “havia um alemão lá com um fuzil apontado diretamente para nós. Ele deve ter assustado metade da companhia. Eu disse comigo mesmo: ‘Por que esse merda não atira e acaba logo com tudo?’ Mas ele estava morto, e a rigidez cadavérica tinha se estabelecido. Ele tinha ficado ali como se fosse uma estátua”.
A Easy alcançou a estrada de ferro e estabeleceu outra posição de defesa. Então, chegou-lhe a informação de que era certa a vinda de blindados alemães. Lipton posicionou Tipper e sua bazuca na rampa da estrada, sem nenhuma linha de retirada possível: era uma situação de matar ou morrer.
— Tipper — sussurrou Lipton —, estamos em suas mãos. Não erre.
— Não errarei.
Tipper teve um problema logo em seguida. Seu carregador de munição, o praça Joe Ramirez, parecia muito nervoso. — Ficaremos bem, Joe — Tipper disse a ele. — Apenas não deixe de ficar com duas cargas de munição prontas para usar, sem nenhuma perda tempo, nem mesmo uma fração de segundo. — Ramirez saiu dali e voltou com duas cargas de bazuca, tropeçando e trombando em toda parte. Para espanto de Tipper, ele disse que tinha removido os pinos (sem o pino de segurança, um projétil de bazuca armada explodiria se o deixassem cair da altura de um metro ou pouco mais).
— Ponha esses pinos no lugar — disse-lhe Tipper, em tom de sussurro. — Eu lhe direi quando for necessário tirá-los.
— Não sei onde eles estão — tornou Ramirez, segurando as cargas com as mãos estendidas e o corpo inteiro tenso. — Eu os joguei fora.
— Meu Deus! Trate de achá-los. — Ramirez não conseguiu achá-los. Tipper se pôs de quatro no chão para ajudar a procurá-los. Eles acabaram achando-os. Os braços de Ramirez ficaram tremendo enquanto Tipper procurava reinserir os pinos cuidadosamente. — Quando o desarme foi conseguido — contou Tipper —, Joe acalmou-se, e sua tremedeira cessou. A minha começou nesse instante.
Não houve ataque do inimigo. Isso ocorreu porque o coronel von der Heydte, com pouca munição depois de seis dias de pesados combates e sem que suprimentos chegassem até ele, tinha tirado a maior parte de suas forças de Carentan. Ele deixou atrás de si uma companhia para defender e manter o controle da cidade por tanto tempo quanto possível, enquanto ele se ressupria e preparava um contra-ataque a partir do Sudoeste. Os 50 membros da companhia em Carentan mantinham uma posição de metralhadora para lançar disparos diretamente ao longo da estrada que conduzia ao Sudoeste e morteiros de 80 milímetros com a mira assestada contra um crítico encontro de vias em forma de T, situado num ponto do perímetro da cidade.
A Easy retomou o avanço em demanda do Nordeste. Lá pelas 5h30, o 2º Batalhão da 506a estava em posição para atacar Carentan. O objetivo era a encruzilhada em forma de T, defendida pela companhia do 6º Regimento de Pára-quedistas. Os últimos 100 metros ou mais da estrada que terminava na encruzilhada eram retos, com um pequeno declive. Havia trincheiras rasas em ambos os lados. A Companhia F estava no flanco esquerdo, enquanto a Companhia E seguia diretamente pela estrada, com a Companhia D de prontidão. As ordens eram para que entrassem em Carentan e se juntassem ao 327°, que viria do Norte.
O silêncio era total; nenhum disparo. O tenente Lavenson, que fora membro da Companhia E, mas que agora fazia parte do setor administrativo do batalhão, foi até um campo para defecar. Como estivesse amanhecendo, os combatentes conseguiam ver seu traseiro branco no meio do mato. De repente, um atirador de elite alemão fez um disparo e atingiu Lavenson nas nádegas. (Ele foi evacuado para a Inglaterra; mais tarde, enquanto era transportado por via aérea de volta para os Estados Unidos, seu avião caiu no meio do Atlântico.)
A essa altura, Winters estava furioso. O regimento precisou de uma noite inteira para pôr seus homens em posição. Foram tantas as vezes que pararam, moveram-se, pararam, moveram-se, que a tropa ficou esgotada. — Não deveria ter sido assim — avalia Winters. — Não era uma tarefa tão difícil assim. Tínhamos desperdiçado a noite, apenas tentando assumir posições. — Não havia tempo para uma operação de reconhecimento; a Easy não tinha idéia do que havia adiante dela. Não houve preparação de artilharia, nem ataques aéreos.
Mas a ordem chegou: atacar às 6 horas.
Winters tinha posicionado seu antigo pelotão, o 1º, sob o comando do tenente Welsh, no lado esquerdo da estrada, pouco além da curva, que depois se estendia em linha reta, com o 2º Pelotão à direita e o 3º Pelotão de prontidão. A tropa mantinha-se deitada nas trincheiras em ambos os lados da estrada, aguardando ordens. Os defensores alemães não tinham revelado a posição de sua metralhadora nem haviam disparado nenhum morteiro. Tudo estava calmo.
Às 6 horas, Winters ordenou: — Vamos lá. — Welsh deu o sinal de avanço, saindo em disparada pela estrada em direção à encruzilhada em T, distante dele uns 50 metros, com seu pelotão vindo logo atrás. A metralhadora alemã abriu fogo, direto pela extensão da estrada. Estava posicionada num local perfeito, na hora certa, para varrer a companhia.
Os tiros da metralhadora dividiram o pelotão. O sétimo homem atrás de Welsh permaneceu na trincheira. E o restante do pelotão fez o mesmo, quase 30 homens. Eles estavam deitados de bruços nas trincheiras de ambos os lados da estrada, tentando manter-se o mais rente possível ao o solo.
Winters saltou para o meio da estrada, muito agitado, gritando: — Movam-se! Movam-se! — Em vão; a tropa continuou no mesmo lugar, com a cabeça enfiada na trincheira.
Da retaguarda, Winters ouviu o tenente-coronel Strayer, os tenentes Hester e Nixon e outros membros do QG do batalhão berrar “faça-os mover-se, Winters, faça-os mover-se”.
Winters livrou-se do equipamento, pegou seu M-1 e correu para o lado esquerdo, “gritando como um louco, ‘movam-se!’”. E começou a chutar os homens nas nádegas. Depois, correu para o outro lado e repetiu a ordem e os chutes que dera nos outros soldados.
— Eu estava possuído — confessa Winters. — Ninguém jamais tinha me visto desse jeito. — Ele tornou a correr para o outro lado, com balas de metralhadora zunindo pela estrada. “Meu Deus, estou tendo um momento abençoado. Estou divinamente protegido”, Winters pensou consigo mesmo.
Mas ele estava desesperado também. Seu melhor amigo, Harry Welsh, estava lá na frente, tentando enfrentar a metralhadora. “Se eu não fizer algo”, Winters pensou consigo mesmo, “ele morre. Não duvido disso.”
Mas os soldados não se moviam. Eles chegaram a levantar a cabeça.
— Jamais me esquecerei da surpresa e do medo estampado naqueles rostos voltados para mim — contou Winters. O operador da metralhadora alemã parecia estar tentando fixar a mira nele, já que Winters estava mostrando-se um alvo tentador. — As balas continuavam a passar por mim e a ricochetear em vários pontos da estrada.
— Todos pareciam congelados — observou Strohl. — Ninguém conseguia mover-se. Mas Winters levantou-se no meio da estrada e gritou: — Vamos! Movam-se! Agora!
E funcionou. Nunca membro algum da companhia tinha ouvido Winters gritar. — Isso era tão incomum no comportamento dele — comenta Strohl — que saímos dali como se fôssemos um único homem.
De acordo com Winters:
— Foi ali que a disciplina mostrou o seu valor. A tropa entendeu a mensagem e avançou.
Quando o sargento Talbert passou por Winters, perguntou, em voz alta: — Que direção devemos tomar quando alcançarmos a encruzilhada?
— Sigam para a direita — ordenou Winters.
(Em 1981, Talbert disse, numa carta enviada a Winters: “Jamais me esquecerei de você no meio daquela estrada. Você foi toda a minha inspiração. Todos os meus homens tiveram a mesma experiência.”)
Enquanto isso, Welsh estava conseguindo neutralizar a metralhadora.
— Estávamos inteiramente sós — lembrou-se ele —, e eu não conseguia entender onde estavam todos. — Graças à distração causada pelas corridas de Winters de um lado para o outro, o operador da metralhadora alemã tinha perdido a localização de Welsh e seus seis homens. Welsh lançou algumas granadas contra a metralhadora, que foram seguidas por séries de disparos de seu mosquetão. Os homens dele fizeram o mesmo. A
metralhadora silenciou{28}.
O restante dos membros da Companhia E avançou para a encruzilhada a toda velocidade e tomou as posições do inimigo ali. Winters enviou o 1º Pelotão para a esquerda, o 2º para a direita, e procurou destruir as posições inimigas dentro das casas, com um homem lançando granadas pelas janelas, enquanto outro aguardava do lado de fora da porta. Logo depois da explosão, o segundo homem arrombava a porta com o pé para procurar sobreviventes e matá-los.
Tipper e Liebgott livraram uma das casas da presença do inimigo. Quando Tipper saiu pela porta da frente, “fui atingido por um ‘trem’, que me lançou lá para os fundos da casa. Não ouvi nenhum barulho, não senti dor, mas, não sei como, continuei de pé e cambaleante, e na posse de meu M-1”. O alemão da retaguarda estava pondo em ação seus morteiros, previamente assestados. Liebgott segurou Tipper firmemente e o ajudou a sentar-se, chamou um socorrista e procurou convencer Tipper de que ele ficaria bem.
Welsh veio em socorro de Tipper e aplicou-lhe um pouco de morfina, embora ele insistisse que era capaz de andar sem ajuda. Tolice dele; suas pernas estavam quebradas, e ele tinha um grave ferimento na cabeça. Welsh e Liebgott arrastaram-no até a rua, onde “lembro-me de que fiquei deitado junto à base do muro com explosões na rua e estilhaços zunindo e chocando-se contra a parte do muro acima de minha cabeça”. Welsh levou Tipper para o posto de socorro que estava sendo montado num celeiro a cerca de 20 metros na retaguarda.
Projéteis de morteiro continuavam a chegar, juntamente com as balas de atiradores de elite. Lipton levou o 3º Pelotão para a encruzilhada e separou-se dele, seguindo para a direita. Projéteis explodiram na rua; ele se encolheu contra um muro e ordenou aos gritos que seus homens o seguissem. Um projétil de morteiro caiu a cerca de 2 metros na frente dele, o que fez com que alguns de seus fragmentos lhe atingissem a bochecha esquerda, o pulso direito e a perna direita, perto da virilha. Ele largou o fuzil, que caiu na rua. Depois, deixou-se cair ao chão, levou a mão esquerda ao rosto e sentiu que havia ali um enorme buraco, mas sua maior preocupação era com a mão direita, já que o sangue saía dela em esguichos. O sargento Talbert correu para ajudá-lo e pôs um torniquete no braço dele.
Somente então Lipton sentiu a dor perto da virilha. Ele esticou a mão para avaliar o ferimento e, quando a trouxe de volta, viu que estava toda ensangüentada.
— Talbert, devo ter sido atingido muito gravemente — ele disse. Talbert rasgou-lhe uma das pernas das calças com seu canivete, deu uma olhada e disse: — Você ficará bem.
— Que alívio foi ouvir isso — disse Lipton. Os estilhaços dos dois projéteis tinham perfurado a parte superior da perna dele, mas “não atingiram o que importava realmente”.
Talbert pôs Lipton por cima de um dos ombros e levou-o até o posto de socorro. Lá, os socorristas deram-lhe uma dose de morfina e fizeram curativos nele.
Malarkey contou que, durante “esse tiroteio intenso, ouvi alguém rezando uma Ave-Maria. Olhei de relance para cima e vi o capelão John Maloney segurando o rosário e seguindo para o meio da estrada para dar a extrema-unção aos moribundos na
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encruzilhada”. (Maloney foi condecorado com a Cruz de Serviços Notáveis.)
Winters foi atingido por uma bala ricocheteada, que lhe perfurou a bota e atingiu a perna. Ele continuou em combate o tempo suficiente para checar sua munição e consultar-se com Welsh (que tentara extrair a bala com sua faca, mas desistira), com o intuito de estabelecer uma posição de defesa para o caso de um contra-ataque inimigo.
A essa altura, eram 7 horas, e a área tinha sido conquistada. Nesse ínterim, a Companhia F havia atingido o ponto de contato com o 327°. Carentan tinha sido capturada. O tenente-coronel Strayer entrou na cidade, onde se encontrou com o comandante do 3º Batalhão do 327°. Eles entraram numa loja de vinhos e abriram uma garrafa para comemorar a vitória.
Winters voltou para o posto de socorro do batalhão. Dez de seus homens estavam lá, recebendo primeiros socorros. Um médico examinou a perna de Winters com uma pinça, extraiu a bala, limpou o ferimento, aplicou um pouco de pó de sulfa nele e fez um curativo.
Winters circulou entre os feridos para conhecer-lhes o estado. Um deles era o praça Albert Blithe.
— Como você está, Blithe? Qual o seu problema?
— Estou cego, senhor. Estou cego.
— Acalme-se, relaxe. Você está com a passagem nas mãos para sair daqui; tiraremos você daqui rapidamente. Você será levado de volta para a Inglaterra. E ficará bem. Relaxe — disse Winters, e voltou a caminhar.
Nisso, Blithe começou a levantar-se. — Acalme-se — Winters tornou a dizer-lhe. — Procure ficar quieto.
— Estou conseguindo ver, estou conseguindo, senhor! Eu o estou vendo!
Blithe se levantou e voltou a juntar-se à companhia. — Nunca vi nada assim — disse Winters. — Ele ficou com tanto medo que perdeu momentaneamente a visão. Assustado. Era como se simplesmente evitasse ver a realidade, e tudo de que ele precisava era alguém para conversar com ele por algum tempo e acalmá-lo.
O contra-ataque dos alemães era certo e, certamente também, viria do Sudoeste, pela estrada que a Easy tinha usado para entrar na cidade. O terreno ditava o eixo do avanço; uma península de terreno elevado conduzia a Carentan dessa direção. Ao Norte, além da estrada de ferro, havia uma região alagada, assim como ao sul da estrada. O general Taylor resolveu avançar com suas tropas vários quilômetros para o Oeste e estabelecer uma posição de defesa no planalto.
Winters recebeu-lhe as ordens. A Easy se posicionaria num ponto extremo à direita, ao longo da estrada de ferro. Ele checou a munição. Leo Boyle e alguns outros do 1º Pelotão depararam e “libertaram” uma carroça de duas rodas carregada de munição e levaram-na para o celeiro, situado nas cercanias da cidade, que estava sendo usado como posto de socorro. Quando Boyle estava preparando-se para levá-la para o destino visado, ouviu um grito: — Tanque inimigo!
— Olhei cautelosamente pelo vão da porta e vi o contorno meio indistinto da torre de um tanque numa sebe a alguns metros de distância. Antes que eu pudesse reagir, um bala da metralhadora do tanque atingiu minha perna esquerda num ponto acima do joelho e me derrubou. — Boyle foi levado de caminhão para a Praia de Utah, de forma que pudesse ser evacuado para a Inglaterra. Ao longo do caminho, “encontramos o capitão Sobel, que estava transportando de jipe suprimentos para a frente de batalha”.
Mas, de repente, fogo de bazuca fez o tanque recuar. Winters providenciou a reorganização da companhia e avançou para sudoeste, ao longo da estrada de ferro. A companhia avançou 3 quilômetros sem deparar resistência significativa. Winters estabeleceu uma posição de defesa atrás de uma sebe.
Os alemães estavam bem na frente deles, atrás da sebe seguinte, lançando-lhes tiro de inquietação. Qualquer um que se movesse atraía tiros do inimigo. Quando a noite começou a cair, a companhia foi reabastecida de ração e munição e tratou de acomodar-se para pernoitar. Winters recebeu ordens do batalhão para lançar um ataque ao amanhecer, às 5h30.
Por volta das 24h30 do dia 13 de junho, os alemães enviaram uma patrulha até uma área no campo entre as sebes. Não uma patrulha silenciosa para obter informações em apoio do serviço de inteligência, mas alguns esquadrões, com homens notoriamente bêbados, fazendo disparos com suas pistolas automáticas e gritando imprecações contra os americanos. — Isso nos deixou muito assustados — contou Winters. — Não fazia sentido. — Ele temia sofrer um ataque noturno, mas os alemães voltaram para o lugar donde tinham vindo tão rapidamente quanto vieram.
Gordon, com sua metralhadora, Sisk e Guth estavam no posto avançado, num ponto extremo à direita, junto à estrada de ferro. Gordon sentia-se “pouco à vontade e com muito medo”, já que havia pouco que servisse para ocultar-lhes as posições, e achava que estava “muito exposto”. O sargento Talbert examinou as posições dos fuzileiros, achou que eles realmente estavam muito expostos e os fez retroceder para a linha de defesa principal.
O sargento Talbert ficou indo a noite inteira de uma extremidade à outra da linha, fazendo o revezamento da tropa, de maneira que os combatentes pudessem ter alguns minutos de sono. Em dado momento, fez que seus fuzileiros calassem as baionetas. Era uma noite fria; Talbert pegou do chão um poncho alemão e o vestiu. Perto das 3 horas, cutucou o praça George Smith com o cano da pistola, para acordá-lo e fazê-lo entrar em serviço. Smith estava como que em estado de coma. Quando, finalmente, acordou, deparou, banhada pela luz pálida da Lua, o que lhe pareceu uma figura estranha, usando poncho alemão, parada diante dele ameaçadoramente e cutucando-o com a ponta da pistola.
Smith levantou-se de um salto com o fuzil nas mãos e a baioneta calada e começou a desferir estocadas contra Talbert. Este tentou pará-lo gritando: — Smith, é o Tab, não faça isso! — Mas Smith continuou a dar estocadas, até que acabou atingindo Talbert no tórax. Felizmente, o golpe não alcançou os pulmões nem o coração, mas Talbert foi tirado de combate.
Ele teve de ser arrastado e carregado por 3 quilômetros até o posto de socorro.
Por volta das 5h30, Winters tinha a companhia preparada para o ataque. Assim que ele deu a ordem para o avanço, o coronel von der Heydte empregou seu 6º Regimento de Pára-quedistas no contra-ataque. Ambos os lados abriram fogo com tiros de artilharia, morteiros, metralhadoras e fuzis, com tudo que tinham. A confusão era enorme. O fogo inimigo chegando implacavelmente, soldados extremamente cansados, que tinham esgotado sua adrenalina havia muito tempo, Taylor exigindo mais velocidade da tropa, homens gritando; em dado momento, houve um tiroteio entre os membros da Easy e de outra companhia da 101ª Divisão, com alguns tanques Sherman se aproximando como elementos de apoio, mas disparando contra unidades amigas à esquerda. Um caos completo.
Sob fogo intenso, a Companhia F, posicionada no flanco esquerdo da Easy, dispersou-se e retirou-se. (O comandante da companhia foi substituído ali mesmo pelo coronel Strayer.) Isso expôs o flanco direito da Companhia D. Assim, ela se retirou também, e a Easy ficou inteiramente só, isolada, com seu flanco direito voltado para a estrada de ferro e seu flanco esquerdo totalmente exposto.
Mas a Easy se manteve firme em sua posição. Gordon montou sua metralhadora num portão de uma sebe, voltada para o campo (ele tinha perdido o tripé no Dia D) e atirou sem parar. Em dado instante, um projétil de morteiro caiu a 10 metros na frente dele. Gordon foi abatido pelos estilhaços, que lhe atingiram o ombro e uma das pernas. O mesmo morteiro feriu Rod Strohl. Apesar disso, eles continuaram na linha e a atirar. Winters, Compton, Welsh e os outros oficiais corriam de um lado para o outro da linha, incentivando a tropa, endireitando as coisas, providenciando para que nada deixasse de ser feito e os alemães fossem detidos.
Um tanque alemão começou a tentar atravessar uma sebe no flanco esquerdo da Easy, exatamente onde a Companhia F deveria estar. Welsh pediu ao praça John McGrath que lhe trouxesse a bazuca e fosse para onde ele estava. Os dois correram para o campo aberto, agacharam-se, montaram a bazuca, e Welsh ordenou que McGrath fizesse o disparo. O projétil atingiu a torre de tiro giratória, mas apenas ricocheteou. O tanque alemão voltou seu canhão de 88 milímetros para Welsh e McGrath e disparou. O projétil passou zunindo por cima da cabeça deles e, por uma questão de centímetros, não os atingiu. O operador do canhão do blindado não conseguia baixar o cano suficientemente, pois o condutor do tanque estava com o veículo inclinado contra a sebe, num esforço para rompê-la e atravessá-la. Welsh começou a recarregar a bazuca. McGrath repetia o tempo todo:
— Tenente, o senhor vai me fazer morrer. O senhor vai me fazer morrer. — Mas ele se manteve em sua posição, procurou mirar bem contra o tanque, que estava no ápice de sua escalada, com o canhão apontando para cima e o enorme veículo prestes a tombar para adiante na tentativa de superar a sebe, e fez o disparo. O projétil atingiu em cheio a área visada por ele, como seja, a parte inferior do tanque, sem blindagem, e explodiu com grande impacto e profusão de chamas.
Esse foi o momento crítico da batalha. Os condutores de tanques alemães enfileiraram seus veículos atrás do que McGrath tinha atingido, engataram a marcha à ré e começaram a retirar-se. Enquanto isso, o quartel-general do batalhão tinha interrompido a retirada das Companhias D e F, reunira-as e as fez avançar uns 150 metros, fechando um pouco a lacuna existente no flanco esquerdo.
Ainda assim, os alemães continuaram a vir. Eles tentaram um ataque de flanco, pelo outro lado (norte) da estrada de ferro. Winters providenciou o disparo de alguns tiros de morteiro e conseguiu anular essa tentativa. A Easy manteve suas posições. A companhia tinha sofrido dez baixas no dia 12 de junho, no ataque a Carentan, e outras nove no dia 13, na defesa da cidade.
Gordon saiu da formação e foi procurar Winters. Um estilhaço de explosão tinha entrado por um lado da batata de uma de suas pernas e havia saído pelo outro; ele estava sangrando também por conta do ferimento causado por outro estilhaço, que lhe atingira um dos ombros. Mas aquilo que o estava incomodando mesmo era uma bolha que se lhe havia desenvolvido na canela, logo acima do cano da bota. A dor era insuportável. Ele disse a Winters que precisava pedir a alguém que cortasse a bolha. Winters disse a ele que fosse ao posto de socorro.
No posto, o socorrista fixou o olhar no soldado ensangüentado na perna e no ombro, com a aparência de alguém que não dormia havia três dias e tinha acabado de chegar de uma batalha intensa, e perguntou-lhe:
— Você está ferido?
— Bem, estou — Gordon respondeu —, mas esse não é o problema. Meu problema é esta bolha. Cuide dela. — O socorrista lancetou a bolha e depois examinou as outras feridas. Ele disse que o ferimento não era preocupante, “mas o ferimento em sua perna é grave”. Os dois lados do ferimento tinham fechado, e a perna de Gordon estava começando a ficar roxa. — Você terá problemas sérios com isso — advertiu o socorrista. — Temos de evacuá-lo.
— De jeito nenhum — protestou Gordon. — Eu não disse ao tenente Winters que faria isso.
— Eu informarei a ele; não se preocupe com isso. — Assim, Gordon acabou concordando em ser evacuado.
Às 16h30, 60 tanques da 2ª Divisão Blindada, acompanhados por uma unidade de infantaria estreante da 29ª Divisão, chegaram para render a Easy. Winters lembrou-se de que “foi maravilhoso ver aqueles tanques despejando tiros profusamente contra os alemães com aquelas metralhadoras pesadas, de 50 milímetros, e simplesmente seguindo direto de nossas fileiras de encontro às sebes dos alemães, com todos aqueles soldados de infantaria dispostos e vigorosos marchando ao lado dos tanques”.
— Ah, que estrago eles fizeram! — observou Welsh, esfregando as mãos de alegria enquanto pensava nisso quase 47 anos depois.
Às 23 horas, a Easy e o restante do 506° Regimento foram levados para a reserva da divisão em Carentan. Os oficiais providenciaram alojamento para eles nas casas que permaneceram de pé. Winters achou abrigo num hotel abandonado. Antes de ir para a cama, os oficiais procuraram saber como a tropa estava. Welsh voltou de suas rondas para o hotel, sentou-se na escada e dormiu ali mesmo. Winters dormiu entre lençóis. Foi um período de sono de que ele jamais se esqueceu.
No dia seguinte, 14 de junho, os salões de barbeiro abriram, e os soldados fizeram filas para cortar os cabelos (eles se serviam das bebidas, dos alimentos ou de qualquer coisa nas lojas e casas abandonadas, mas pagavam pelos serviços que recebiam). Winters foi até o posto de socorro para tratar a perna; durante os cinco dias seguintes, tudo correu tranqüilo para ele. Foi durante esse período que ele fez as anotações em seu diário sobre suas experiências com o Dia D, citadas no capítulo anterior. Welsh ficou no comando da companhia. O coronel Sink fez uma rápida visita a Winters, para agradecer-lhe o excelente trabalho que a Easy tinha feito no dia 13 de junho, quando defendeu o flanco direito e impediu a ruptura de suas fileiras pelos alemães, o que, se tivesse ocorrido, poderia ter sido decisivo para os combates pelo controle de Carentan. Sink disse também que estava recomendando a concessão a Winters da Medalha Congressual de Honra ao Mérito pelo combate em Brécourt Manor no Dia D. Winters achou isso muito bom, mas se perguntou por que não a concediam também à tropa, em vez de somente a ele.
Quanto ao combate em Carentan, o coronel Sink disse ao repórter Walter McCallum, do Star, de Washington: “Foi o espírito de liderança pessoal do tenente Winters que manteve aquela posição fundamental na linha de frente e causou o rechaço do inimigo com fogo de morteiros e metralhadoras. Ele agiu como um excelente soldado nessa batalha. Sua bravura e conhecimento de combate serviram para manter
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uma posição crucial quando as coisas estavam realmente difíceis.”
A companhia estabeleceu uma posição defensiva ao sul de Carentan. No segundo dia dessa situação passiva, um soldado se aproximou deles seguindo ao longo da sebe e perguntou por Don Malarkey e Skip Muck. Era Fritz Niland. Ele achou Muck, conversou com ele e depois achou Malarkey também. Teve tempo apenas para despedir-se deles; estava prestes a voltar de avião para casa.
Alguns minutos depois de Niland partir, Muck procurou Malarkey, “com seu sorriso maroto de irlandês substituído por um semblante fechado”. Teria Niland explicado a Malarkey por que estava indo para casa? Não. Muck contou-me a história.
No dia anterior, Niland tinha ido até a 82ª para ver seu irmão Bob, o sujeito que havia dito a Malarkey em Londres que, se ele, Bob, quisesse ser herói, os alemães teriam de sentir o gosto da determinação dele, e rapidamente, o que levara Malarkey a concluir que Bob Niland tinha perdido a coragem. Fritz Niland havia acabado de saber que seu irmão tinha sido morto no Dia D. O pelotão de Bob sofrera um cerco, e ele era o operador de metralhadora que atacou os alemães com tiro de inquietação até seu pelotão conseguir furar o cerco. Ele esgotara várias caixas de munição antes de ser morto.
Depois disso, Fritz Niland pegou uma carona para alcançar a posição da 4ª Divisão de Infantaria e visitar o outro irmão, que era líder de pelotão. Esse também tinha sido morto no Dia D, na Praia de Utah. Na época em que Fritz voltou para a Companhia E, o capelão Francis Sampson estava procurando por ele, para dizer-lhe que um terceiro irmão dele, piloto no teatro de operações China-Burma-Índia, tinha sido morto naquela mesma semana. Fritz era o único sobrevivente entre tantos irmãos, e o exército queria tirá-lo da zona de combate o mais rapidamente possível.
A mãe de Fritz tinha recebido todos os três telegramas do Ministério da Guerra no mesmo dia.
O capelão Sampson acompanhou Fritz até a Praia de Utah, onde um avião levou Fritz para Londres, a primeira escala de sua viagem para os Estados Unidos.
A companhia entrincheirou-se. Nenhum dos lados beligerantes estava realizando operações de assalto ao sul de Carentan, mas o envio e a chegada de correspondência eram grandes, uma vez que ambos os lados estavam recebendo reforços em artilharia e armas pesadas; os americanos, pela praia; os alemães, pelo interior da França.
Em suas trincheiras, os membros da Easy mantinham-se agachados, prontos para rechaçar qualquer ataque por terra e, a não ser por isso, permaneciam fora do alcance da vista do inimigo durante o dia. O tenente Nixon, oficial do serviço de inteligência do batalhão (S-2), quis saber o tamanho da força da infantaria alemã posicionada de frente para as trincheiras da Easy. Winters percorreu a linha de frente, pedindo que alguém se apresentasse como voluntário para uma missão de patrulha ao meio-dia. Ninguém respondeu à solicitação dele. Diante disso, ele designou Guarnere como o chefe da missão. Guarnere recebeu instruções de Nixon, que lhe deu um mapa que apresentava todas as sebes do lugar e um aglomerado de edificações agrícolas de uma fazenda que parecia servir como o posto de comando dos alemães, situado a quase um quilômetro de distância dali.
Guarnere, os praças Blithe e Joseph Lesniewski, de Erie, Pensilvânia, e dois outros partiram em missão. Usando as sebes para ocultar seus movimentos, eles avançaram. Blithe seguiu na frente. Em dado instante, alcançou a última sebe cuja extremidade dava nas edificações da fazenda. De repente, foi atingido no pescoço pela bala de um atirador de elite alemão.
— Vamos dar o fora daqui — gritou Guarnere. Quando a patrulha começou a retirar-se, os alemães abriram fogo com suas pistolas automáticas. Quando a patrulha alcançou a linha de frente da Easy, as metralhadoras da companhia responderam ao fogo inimigo.
Mais tarde, Malarkey liderou outra missão de patrulha, como outra tentativa para obter informações sobre o inimigo. A certa altura da missão, quando o praça Sheehy, que seguia na vanguarda, aproximou-se de uma sebe, Malarkey fez o mesmo, juntando-se a ele, mas, ao avançar, pisou num galho de árvore e o quebrou. Logo depois disso, viram o capacete de um alemão aparecer do outro lado da sebe. Sheehy atingiu o alemão em cheio no rosto com um disparo de seu fuzil-metralhadora Thompson.
Quando avistaram mais alemães, Malarkey fez que a patrulha se retirasse dali a toda pressa. Mas Rod Bain, que carregava um rádio, teve dificuldade para acompanhá-los. Depois que conseguiram voltar em segurança para o ponto de onde haviam saído, Bain disse: — Pelo visto, missões de patrulhamento são muito necessárias, mas parece-me também um excelente meio de se ter o traseiro arrancado com um tiro.
O dia seguinte foi relativamente tranqüilo. Gordas vacas normandas pastavam no campo que havia atrás da posição da companhia. O praça Woodrow Robins, operador de metralhadora do 1º Esquadrão, estava numa trincheira distante uns 5 metros da trincheira de Christenson.
— Ei, Chris — falou, em voz alta —, vamos pegar um pouco daquela carne no campo! — Christenson não quis sair da trincheira, mas Bill Howell juntou-se a Robbins quando este tomou a iniciativa e se aproximou rastejando de uma das vacas e atirou nela. Eles abateram de vez o animal e depois retornaram com uma parte do traseiro dele. Robbins cortou a carne em bifes para o esquadrão inteiro. Eles fritaram os bifes em fogueiras improvisadas em suas trincheiras. À noite, Robbins e Howell amarraram o que sobrou da carcaça numa árvore atrás das trincheiras.
Eles a cobriram com um poncho; durante alguns dias, o esquadrão fez de conta que estava comendo carne, em vez de rações K. Mas aquilo com que não contaram foram os estilhaços que voavam em todas as direções, resultantes dos tiros de barragem incessantes. Eles penetravam na carne. No banquete seguinte, foram muitos e freqüentes os casos de membros do esquadrão que cortaram as gengivas ao morder pedaços de carne com estilhaços.
Vinte e três de junho. Um atirador de elite disparou contra Christenson de 600 metros de distância. Chris se jogou atrás de uma sebe e pediu a Robbins que cravejasse de balas a área de onde fora feito o disparo. Este fez 50 disparos contra as árvores distantes. — Ouvi resmungos de nervosismo vindo dos soldados posicionados na linha — disse Christenson. — A tensão sempre aumentava quando, rompendo um silêncio total, uma metralhadora fazia tantos disparos assim. — Em seguida, ouviram, de uma distância considerável, os disparos troantes de morteiros: romp, romp, romp, romp. — Esse barulho, de abalar os nervos, confirmava que quatro projéteis de morteiro estavam vindo em nossa direção. A tensão da espera é terrível. Indescritível. Angustiante. Em seguida: Bum, o primeiro explodiu a não mais de uns dois metros do canhão de Robbins e Howell. Howell deixou sua posição de um salto e correu para a trincheira de Christenson, enquanto o segundo projétil explodia quase no mesmo lugar que o primeiro, “tão perto que podíamos como que sentir o gosto acre de pólvora”. Howell pulou dentro da trincheira de Christenson. — Eu fiquei com o corpo inteiramente dobrado e incapaz de mover-me — Chris relata —, por causa desse mau jeito e do aperto. Era difícil respirar, mas mesmo assim fiquei rindo histericamente, pois os olhos de Howell estavam tão arregalados que pareciam xícaras de chá. Ele ficava murmurando coisas como: “Jesus Cristo, oh, meu Deus”, a cada projétil que explodia. A pressão que esse sujeito, com seu corpo enorme, exercia sobre mim me fez entrar em repentino estado de pânico, já que eu estava sufocando. — Felizmente, o ataque cessou.
Depois de duas semanas na linha de resistência principal (LRP), os membros da Easy fediam tremendamente. Eles não haviam tomado um único banho sequer nem tiveram como barbear-se. Muitos deles tiveram disenteria; todos passaram o tempo inteiro encharcados de suor. Seus cabelos haviam endurecido com a mistura de terra e poeira, situação agravada pelo suor em profusão, causado pelo fato de que usavam o capacete o tempo todo e pelas roupas ensopadas, que vinham usando desde 6 de junho. Sua aparência lembrava a dos personagens Willy e Joe, criados pelo cartunista Bill Mauldin.
Em 29 de junho, a 83a Divisão de Infantaria chegou para render a 101ª. — Estavam todos muito limpos e asseados — conta Christenson —, e todas as unidades estavam completas. Até mesmo a tinta nos capacetes deles dava a impressão de que tinham acabado de sair da embalagem. A cena inesperada, de ver um grupo de homens tão barbados, desalinhados e sujos como o nosso, foi chocante para eles.
Para a Easy, sair da linha de frente, ainda que fosse por alguns dias, foi como renascer. A idéia de uma noite de sono completa e sem interrupções, sem os sobressaltos causados pelos tiros de canhões ou ser enviado em missão de patrulha, de conseguir ter algo quente para comer, de dormir num lugar seco e, sobretudo, poder tomar banho era algo tão bom que não havia palavras para descrevê-lo.
A Easy tinha saltado na Normandia em 6 de junho com 139 oficiais e soldados. A unidade foi tirada da linha de frente em 29 de junho com 74 membros, entre oficiais e soldados, em condições de combate. (O 506° sofrera o maior número de baixas entre todos os regimentos da companhia: um total de 983ºu por volta de 50%). Os membros da Easy mortos em combate foram os tenentes Thomas Meehan e Robert Mathews, os sargentos William Evans, Elmer Murray, Murray Robert, Richard Owen e Carl Riggs, os cabos Jerry Wentzel, Ralph Wimer e Hermin Collins, os praças Sergio Moya, John Miller, Gerald Snider, William McGonigal, Ernest Oats, Elmer Telstad, George Elliott e Thomas Warren.
Para a 101ª, Carentan foi o último local de combate na campanha da Normandia. A divisão foi transferida aos poucos para um acampamento militar completo ao norte da Praia de Utah, com rádio, telefone, quadro de avisos e desfile militar. Lá, cumpriu tarefas de policiamento da área, de limpeza de armas e um programa de exercícios militares. Para compensar isso, havia banhos quentes e oportunidades quase ilimitadas para defraudar o exército.
O praça Alton More era o mestre da defraudação da Companhia E. Ele achou um meio de entrar no principal depósito de suprimentos perto da Praia de Utah. Em sua primeira pilhagem, apareceu carregando duas caixas de papelão, uma com coquetéis de frutas; e a outra, cheia de abacaxis. — Era como se tivéssemos comido a coisa mais gostosa de nossas vidas — relata-nos Harry Welsh —, e jamais fiquei tão enjoado em minha vida. Não estávamos acostumados com esse tipo de alimento. — Dali por diante, More passou a trazer, de suas expedições de rapinagem diárias, alimentos mais variados para os colegas.
O general Taylor foi lhes fazer uma visita, para felicitar a companhia por sua atuação solitária no flanco direito em Carentan. Os soldados quiseram saber sobre o “dêem-me três dias e três noites de combates árduos, e eu os tirarei daqui” da promessa do general feita no dia anterior ao Dia D.
O general Omar Bradley compareceu à cerimônia de entrega de medalhas. De pé num pequeno palanque montado no campo, ele leu em voz alta as citações de concessão da Cruz de Serviços Notáveis a 11 soldados, inclusive ao general Taylor, ao capelão Maloney e ao tenente Winters. — Foi um momento de orgulho — observou Winters. Ele disse que, depois da cerimônia, Bradley ordenou que a tropa saísse de forma e se reunisse em volta dele. — Há algum repórter aqui, algum correspondente? — perguntou. — Se houver, não quero que isso seja registrado.
— O que quero dizer — ele prosseguiu — é que as coisas estão indo muito bem, e, na minha opinião, existe a possibilidade, a esta altura, de que talvez consigamos estar em Berlim no Natal.
Winters pensou consigo mesmo: “Deus, eu consigo fazer isso até o Natal. Pelo menos, deixem-me passar o Natal em casa.”
No dia 1º de julho, Winters recebeu a notícia de sua promoção para capitão. Em 10 de julho, a companhia seguiu para a Praia de Utah, com o objetivo de preparar-se para embarcar com destino à Inglaterra. — Ver a praia pela primeira vez — contou Winters —, com aquela frota de navios [que se estendia] até onde os olhos podiam ver, em todas as direções, e ver a bandeira americana na praia, me fez ficar com as pernas trêmulas por alguns instantes e encheu meus olhos de lágrimas.
O praça More fez uma última investida contra o enorme depósito de suprimentos. Ele arrombou a porta do principal setor de veículos motorizados e roubou uma motocicleta, com carrinho lateral e tudo. Ele a escondeu numa duna de areia. Depois, perguntou ao capitão Winters se a podia pôr no LST e levá-la para a Inglaterra. — A decisão é sua — respondeu Winters.
No dia seguinte, enquanto a companhia subia a bordo pela rampa do gigantesco LST, More levou a motocicleta para o lado da duna oposto ao lado mais próximo da praia. Ele tinha combinado com Malarkey que faria um sinal, pelo aceno de uma das mãos, quando todos estivessem a bordo e houvesse chegado a hora de ele poder embarcar com o veículo. Malarkey informou à tripulação o que ele tinha combinado com More. No momento apropriado, Malarkey, de pé na rampa, deu o sinal, e More assomou na duna pilotando a motocicleta e entrou na embarcação com ela.
No LST, o capitão do navio perguntou a Welsh: — Tenente, o que os seus homens gostariam de comer: carne ou frango? Sorvete? Ovos?
Navegando em comboio, o LST aportou em Southampton na noite do dia 12 de julho. Na manhã do dia seguinte, um trem levou a tropa (exceto More e Malarkey, que partiram de motocicleta) para Aldbourne. — Foi maravilhoso estar de volta — conta Winters. — Todos ficaram felizes por nos ver. Foi como ter voltado para casa.