Bound by Duty
Capítulo Dez
Eu nem percebi Dante deitar na cama naquela noite, mas seu lado estava amassado, então ele deve ter dormido lá mesmo. Passei mais alguns minutos na cama, me sentindo de alguma forma mais leve agora que eu tinha rasgado uma barreira entre Dante e eu, mas sabia que não podia acreditar que o sexo iria mudar fundamentalmente nosso relacionamento. Eu não achava que Dante de repente agiria como o marido amoroso e carinhoso, que era o que eu queria quando eu era mais jovem. Era estranho. Enquanto Antonio nunca tinha sido capaz de me dar o que eu precisava fisicamente, ele tinha sido meu amigo e confidente. Havíamos passado tempo juntos quando ele não estava ocupado e eu nunca tinha me sentido extremamente solitária em nosso casamento. Eu tinha a sensação de que o mesmo não seria verdade no meu segundo casamento. Mesmo que Dante satisfizesse minhas necessidades sexuais, levaria algum tempo antes de nos tornarmos parceiros.
Depois que eu tinha tomado banho e vestido a minha saia lápis cor de ameixa favorita e uma blusa branca, fui a um dos quartos que agora abrigava algumas das minhas caixas de mudança que ainda não tinham sido abertas. Levei alguns minutos vasculhando até encontrar o que estava procurando, uma caixa de madeira onde eu guardava algumas coisas de Antonio. Dentro estavam nossas alianças de casamento, com as quais eu nunca tinha me preocupado muito. A coisa mais importante que havia ali era um álbum de fotos fino com retratos de Antonio e eu antes do casamento. Naquela época só éramos amigos, sem o peso de ter que fingir sermos apaixonados. Antonio não se parecia em nada com Dante. Ele tinha cabelos escuros e olhos escuros, e não era muito alto. Ele nunca queria que eu usasse saltos altos, porque se não eu ficaria muito mais alta do que ele. Mas a aparência não era a maior diferença entre o meu primeiro e o meu segundo marido; era a sua aura. Enquanto Antonio tinha sido aberto e amigável, alguém cujo outras pessoas viam como uma pessoa agradável, ainda que um cara comum, Dante demonstrava poder e frieza. Ninguém iria confundi-lo com alguém que seguia os outros. Se Dante não tivesse nascido no nosso mundo, ele provavelmente seria um governador ou senador. Ele teria feito o bem nesse mundo. Mas, como para todos nós, nosso nascimento determinou nosso destino. Fomos todos obrigados a nos acostumar. Olhei para a foto de Antonio e eu em um cavalo. Tinha sido a minha primeira vez montando um. Nós dois parecíamos jovens e felizes, esperançosos. Antonio não tinha sido introduzido na máfia naquela época, ainda achava que poderia encontrar uma maneira de sair disso tudo.
Eu coloquei a caixa de madeira de volta no lugar antes que mergulhasse mais profundamente em tristes lembranças. Me endireitei, respirei fundo e deixei o quarto. Não havia como voltar no tempo, mas nem sempre era fácil andar pra frente, especialmente se você não sabia para onde ir. Mas eu precisava de algo em que eu pudesse colocar minha energia, que desse significado e estrutura à minha vida, uma vez que Dante não me deixou entrar na sua.
Eu sentia falta de ter um propósito, uma tarefa diária. Eu não era alguém que podia ficar em casa o dia todo, ou estar sempre ouvindo a mais nova fofoca do momento. Eu queria um emprego, e mesmo durante o meu tempo com Antonio as pessoas já achavam estranho ele me permitir trabalhar. Eu me preocupava que isso fosse ser um escândalo e Dante não estaria disposto a arriscar.
Meus passos desaceleraram enquanto me dirigia à porta do escritório, ele se escondia atrás dela quase todo o tempo. Eu não estava apenas nervosa porque queria perguntar a Dante sobre um trabalho. E se as coisas estivessem um pouco estranhas e tensas entre nós, agora que nós dormimos juntos? Embora eu realmente não tivesse certeza de como nossa relação poderia estar mais em queda livre. Nós estávamos sendo civilizados um com o outro. Só faltava jogar pratos na cabeça e termos brigas constantemente, fora isso não havia nenhuma maneira que nossas interações mudassem para pior. E para ser honesta, eu não tinha certeza se eu não preferia brigas acaloradas à ignorância fria com a qual estava sendo tratada agora.
Reunindo a minha coragem, bati na porta.
— Entre, — Dante chamou depois de um momento.
Entrei em seu escritório. Meus olhos imediatamente correram para o local sobre a mesa onde a foto de sua primeira esposa tinha estado, mas ele a tirou de lá. Eu não acho que ele tinha jogado fora. Ele provavelmente tinha escondido em uma das gavetas da mesa, e eu não esperava que ele jogasse fora todas as peças que lembravam a ela, banindo-a da sua memória e do seu coração; eu só queria que ele deixasse um pouco de espaço em seu coração para mim.
Dante olhou para cima de uma pilha de papéis. — O que você precisa? — ele não disse isso de uma forma hostil, mas era óbvio que ele estava ocupado. Seu comportamento em relação a mim não tinha mudado nada, apesar do que tínhamos feito ontem. Quando meus olhos passaram sobre seu colete cinza escuro, meu corpo se lembrou de como ele tinha esfregado contra meus mamilos ontem, e eu quase atravessei a sala e me joguei em Dante novamente. Mas eu não queria parecer muito carente. Nossa próxima sessão de sexo teria que ser iniciada por ele. Claro, talvez Dante não voltasse a me tocar. Eu empurrei esse pensamento preocupante de lado quando fechei a porta atrás de mim e me aproxime da mesa. — Tenho algo que gostaria de discutir com você.
Dante digitalizou meu rosto. — Vá em frente.
— Eu quero trabalhar. Quando era casada com Antonio eu o ajudava a fiscalizar os restaurantes da Família. — Eles sempre foram apenas para a lavagem de dinheiro, mas eu gostava da tarefa. Eu recebia os convidados e organizava todos os arranjos quando alguém reservava um de nossos restaurantes para casamentos. Após sua morte, seu irmão mais novo tinha assumido. Uma mulher sozinha não poderia lidar com a tarefa. Isso é o que os nossos homens pensavam, pelo menos.
Dante recostou-se na cadeira com uma careta. — Trabalhar? O que você tem em mente?
Eu estava feliz por ele estar aberto à ideia e não recusá-la de imediato. Encorajada por isso, eu andei em torno da mesa e parei na borda. Os olhos de Dante correram para minhas pernas, mas muito rapidamente eles voltaram para o meu rosto. — Eu sou boa em organização e planejamento de eventos. Eu também sou muito boa com as pessoas. — Eu era boa em liderar pessoas, mas eu guardava isso para mim mesma. Homens iniciados não gostavam de mulheres no comando. Por alguma razão a maioria deles não podia aceitar uma mulher forte ao seu lado, como se isso os fizesse menos homens.
Dante assentiu. — Eu preciso de alguém em um dos nossos cassinos.
Tentei conter a minha emoção. Eu nem sabia o que Dante tinha em mente para mim ainda. — Nos navios ou nos clandestinos? — Os cassinos em terra não eram legalizados. Ainda era ilegal manter cassinos em Chicago, de modo que os que não estavam em navios eram ilegais, mas a máfia, e Dante em particular, estavam trabalhando para mudar isso. Ele podia ser muito convincente, e certamente não se importaria de conversar com alguns senadores que eram clientes habituas em cassinos e bordéis da máfia. Não que a legalização significasse que a Outift deixaria seus cassinos secretos abertos ao público. Eles perderiam muito dinheiro se isso acontecesse.
— Clandestinos. Eu não quero você aos olhos do público.
Isso fazia sentido. As pessoas sabiam que eu era a esposa de Dante. Atrairia muita atenção se eu trabalhasse em um dos cassinos flutuantes. — Eu sei um pouco sobre o jogo, e eu tenho certeza que posso aprender tudo o que for necessário muito rapidamente. — Na verdade o único conhecimento sobre o jogo que eu tinha eram as regras do Texas que Antonio havia me ensinado, mas Dante não precisava saber disso.
Havia um brilho nos olhos conhecedores de Dante. — A única coisa que você precisa saber sobre o jogo é que a banca sempre vence.
Eu levantei minhas sobrancelhas. — Sério. Que tipo de trabalho você tem em mente que eu não preciso de nenhum conhecimento sobre o funcionamento de um cassino? — Eu assumi que Dante não deixaria sua esposa ser uma das meninas atrás do bar que encorajavam os homens a beber mais.
— Eu quero que você gerencie um dos menores cassinos da Outfit. O homem que foi o responsável pelos últimos três anos foi demitido ontem.
Era isso que Dante tinha feito depois de dormir comigo? Por alguns momentos Dante e eu olhamos um para o outro como se estivéssemos pensando a mesma coisa, mas agora não era o momento para falar de sexo. — Demitido? — eu repeti suas palavras, que eu tinha certeza que eram um eufemismo, uma vez que era difícil ser demitido de um cargo na máfia. Se você estragou tudo nos negócios da máfia, era improvável que conseguisse uma posição em outro lugar, a não ser que você fosse o filho de alguém, sobrinho, etc. E se você não fosse...
Dante ficou me encarando de perto, até que disse suas próximas palavras. — Eu descobri que ele encheu os bolsos com dinheiro da Outfit.
— Então você o matou, — eu terminei para ele. Eu sabia como as coisas funcionavam no nosso mundo. Talvez eu nunca tivesse sido autorizada a viver em meio a isso, mas eu ouvia as histórias.
Dante assentiu. — Matei. E se você quiser, pode ficar com o trabalho dele.
— Eu nunca gerenciei um cassino antes. Por que você está dando uma posição tão importante para mim?
— O assistente de gerente pode fazer o trabalho principal em segundo plano. Eu preciso de alguém que faça os jogadores VIPs se sentirem bem-vindos.
Fiquei rígida. Dante, é claro, notou. — Acho que você me entendeu mal. — Ele se levantou e deu um passo à minha frente. Ele pousou as mãos levemente em minhas coxas, fazendo minha pele formigar mesmo através da minha saia. — Você é minha, Valentina.
Eu tive que morder de volta um sorriso que quis nascer devido à possessividade em sua voz. — Então, o que exatamente eu devo fazer?
Ele tirou as mãos e caminhou até a janela com as mãos nos bolsos. — Eu quero que você receba os jogadores. Mostre-lhes a sua mesa. Apresente-os para as nossas meninas de cortesia.
— Meninas de cortesia, sério?
Dante explicou. — Jogos de azar e prostituição são os nossos principais negócios, e ambos podem ser facilmente combinados.
— Ok. Eu posso fazer isso. — Mesmo que a expressão meninas de cortesia me fizesse querer arrancar os cabelos. — Isso não soa como algo difícil.
— Além disso, você pode organizar eventos especiais. Temos noites de eventos, uma vez por mês, e eu acho que um toque feminino pode torná-los mais atraentes. Você também vai se certificar de que tudo corra bem. Eu quero que você seja os meus olhos. Tenho um sentimento de que ainda não eliminamos todos os frutos podres.
— Você quer que eu espione seus funcionários.
— Sim. E eu quero que você mantenha os olhos abertos.
— Porque você acha que eles vão ser menos cautelosos em torno de mim ou porque você não tem qualquer outra pessoa a quem possa confiar a tarefa?
— Eu tenho homens suficientes em quem eu confio. Mas você está certa, eu acho que muitos irão subestimar você e serão menos atentos. — Ele encostou-se ao parapeito da janela. — Eu não confio em ninguém incondicionalmente.
— Nem mesmo em mim? — Eu falei em voz provocante, mas os olhos de Dante continuaram frios. — Você não me deu razão para isso. Você mentiu para mim sobre o seu casamento com Antonio e se recusa a me dar o nome de uma pessoa de fora que pode estar a par de informações comprometedoras sobre a Outfit.
A maneira como ele expôs isso me fez parecer uma mentirosa notória. — Eu não menti para você sobre o casamento. Eu lhe disse que nunca estive com Antonio.
— Sim, é verdade, mas eu suspeito que você só fez isso porque você temia que eu descobrisse eventualmente.
É claro que atingiu o ponto da questão. Eu não podia negar. Ele teria sabido. Se eu mentisse, isso realmente não ia ajudar a minha situação. — Importa porque eu decidi dizer a verdade?
— Importa muito, Valentina. Porque eu não sei se você vai ser tão sincera no futuro se não se sentir encurralada. Se a verdade que viesse à tona devido ao medo valesse pra alguma coisa, eu teria que poupar cada traidor que me desse informações sob coação.
Sob coação era uma expressão muito leve para o que a Outfit fazia com traidores. — Eu sei o que você faz com os traidores, e é exatamente por isso que não vou lhe dar o nome do amante de Antonio.
— Você percebe que ajudando Antonio a mentir você se torna sua cúmplice e, portanto, traidora da Outif, e continua a nos trair ao ocultar informações.
Eu me levantei da mesa, incapaz de ficar parada por mais tempo. — Eu sei. Mas não importa o que você pensa de mim, eu sou leal àqueles com quem me importo. Eu fui leal a Antonio. Se ele ainda estivesse vivo, eu teria levado o seu segredo para o túmulo comigo a fim de protegê-lo.
Dante sacudiu a cabeça. — Isso é algo que você não pode dizer com certeza. Você nunca sofreu uma dor insuportável. A tortura é um poderoso motivador.
— Eu acho que nós nunca saberemos, a menos que você pretenda testar essa teoria em mim e tente me coagir para lhe dar o nome da amante de Antonio, — eu disse com insolência.
Dante me encarou com um olhar duro. — Porque você é minha esposa e porque você é uma mulher, você está segura. Você sabe disso muito bem.
Porque eu era sua esposa, e não porque ele gostava de mim ou até mesmo devesse me cuidar. — Eu sei, — eu disse, e porque já não podia suportar a tensão entre nós, acrescentei. — Se você tivesse um segredo que precisasse esconder, eu iria fazer isso por você. Eu enfrentaria a tortura, a dor e a morte para guardar esse segredo para você.
Dante não disse nada, nem sequer diminuiu a distância entre nós, apenas me olhou com seus olhos ilegíveis. Decidi fazer minha saída antes que eu dissesse algo sentimental, ou antes que Dante pudesse me mandar para fora. Ele não me parou, mas eu podia sentir seus olhos nas minhas costas.