Bound by Duty
Capítulo Dezenove
Dante não se desculpou. Não no dia seguinte à nossa briga e nem nas semanas seguintes. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa. Fui para a consulta com a ginecologista de dez semanas de gravidez com Bibi. Eu nem sequer disse a Dante. Se ele queria ignorar o fato de que eu estava grávida, era problema dele.
Uma semana após a consulta, Inês, a irmã de Dante, e seu marido Pietro vieram nos visitar. Eu só tinha visto Inês duas vezes, no casamento e quando ela tinha dado à luz seu terceiro filho, há quatro semanas. Zita tinha feito o jantar, eu estava muito cansada a maior parte do tempo.
— Posso segurar ela? — perguntei, quando Inês ergueu a filha para fora do assento de carro. Ela procurou meu rosto e então entregou o bebê para mim, que tinha pequenas bolhas de saliva na frente de seus lábios e parecia muito adorável. Os gêmeos estavam brigando no fundo, mas eu não conseguia tirar os olhos da menina no meu braço. Levei-a para a sala, brincando com ela. Quando eu olhei para cima, Dante estava me olhando com algo perto de calor em seus olhos. Baixei meu olhar imediatamente. Mais tarde, depois do jantar, Inês e eu fomos para a biblioteca para conversar enquanto os homens e os gêmeos ficaram na sala de estar. Inês começou a amamentar sua filha, então me encarou com um olhar compreensivo. — Você está grávida, não é?
— Como você sabe? Nós não contamos a ninguém ainda. — Não que eu não quisesse, mas era Dante quem decidia se queria tornar isso público.
— Você não bebeu vinho durante o jantar e continua tocando sua barriga sem parar.
Eu core. — Eu não sabia que era tão óbvio.
— Provavelmente não para um homem. Você não está mostrando a barriga ainda.
— Por favor, não diga a seus pais sobre isso. Eu não acho que Dante quer que as pessoas saibam.
Inês mudou o lado que estava amamentando sua filha, porque ela era uma pequena gulosa. — Por que não? — Era estranho pensar que isso ia acontecer comigo em menos de um ano.
Eu dei de ombros.
— Vocês dois estão com problemas? Ele não está feliz que você está grávida?
— Acho que ele precisa de tempo para se acostumar com a ideia.
— Ele fez algo estúpido, não é? Ele é meu irmão. Eu sei que ele pode ser teimoso.
— Teimoso nem sequer começa a descrevê-lo. Ele alguma vez já pediu desculpas para você quando fez algo errado?
Inês riu. — Não. Às vezes eu acho que ele não pode dizer as palavras. Na maioria das vezes ele só tenta ignorar o problema até que eu desista de esperar um pedido de desculpas dele.
Isso soava familiar.
— O aniversário da morte de Carla é em uma semana.
— Oh, — eu disse, congelando. Eu tinha esquecido completamente isso.
— Eu apenas pensei que você deveria saber. Dante sempre fica particularmente de mau humor nesse dia. Talvez você devesse tentar evitá-lo.
Isso não seria um problema.
***
Meus enjoos matinais tinham finalmente parado e eu me sentia fisicamente perfeita. Quando saí do quarto de hóspedes no dia 1º de junho, o dia da morte de Carla, eu esperava que Dante não estivesse em casa ou estivesse escondido em seu escritório. Fiquei em um impasse quando encontrei a porta do quarto onde ele guardava as velhas coisas de Carla entreaberta. Eu podia ouvir o vasculhar. Será que ele estava lá olhando para fotos antigas deles juntos? Eu lembrei o que Inês havia dito, que eu deveria deixar Dante sozinho, mas fazia mais de cinco semanas desde que eu tinha saído do nosso quarto. E eu sentia falta dos nossos momentos de intimidade. No entanto, o orgulho não me deixava fazer o primeiro movimento. A porta se abriu totalmente e Dante saiu carregando uma caixa.
Eu sorri me desculpando. — Desculpe. Eu não quis... — eu parei, não sabia o que dizer a ele.
Meus olhos dispararam para a caixa. — O que você está fazendo?
— Estou levando essas caixas embora.
— Todas elas?
Ele assentiu com a cabeça. — Enzo e Taft vão desmontar os móveis mais tarde e jogá-los fora.
Engoli em seco. — Por quê?
— Podemos utilizar melhor esse quarto. Ele poderia ficar para o bebê.
Um caroço subiu em minha garganta. — É verdade. Mas não temos móveis para o quarto do bebê ainda.
Dante pigarreou. — Você pode ir às compras nas próximas semanas.
— Sozinha?
— Eu poderia ir com você.
Eu balancei a cabeça. — Se é isso que você quer.
Ele não disse nada. Por que ele não podia fazer isso mais fácil para nós dois? Será que ele achava que eu ia cair de joelhos de alívio? Ele nem sequer pediu desculpas. Esta foi a primeira vez que ele reconheceu que iríamos ser pais, mas só indiretamente. Ele não tinha sequer admitido que era o pai do meu filho.
— Você quer a minha ajuda pra carregar essas caixas? — eu acenei com a cabeça em direção às caixas empilhadas atrás dele, no quarto.
— Não. Você não deve levantar peso.
— Eu não estou com a gravidez tão avançada ainda. — Mais uma vez o silêncio e uma expressão que eu não conseguia ler. Me virei, pronta para descer as escadas e tomar café da manhã. — Eu quero que você volte para o nosso quarto, Val.
Eu parei. Foi um pedido dito como uma ordem. Ele não se desculpou. Apesar de tudo isso, eu me ouvi dizendo, — Ok.
Naquela noite, voltei para o nosso quarto e quando as mãos de Dante começaram a esfregar minhas costas e bunda, e ele sussurrou — Eu quero você, — eu balancei a cabeça e relaxei sob seu toque.
***
Alguns dias mais tarde, depois que saí da casa de Bibi, pedi a Enzo me levar à farmácia para comprar algo contra enjoo, pois minha náusea havia voltado nos últimos dias. Como de costume, ele ficou no carro para me dar privacidade. Bibi também tinha me pedido um teste de gravidez porque suspeitava que estivesse grávida, mas não queria que Tommaso descobrisse; ele só iria ficar mais furioso se suas suspeitas não se confirmassem. Aquele homem não a merecia. Caminhei em direção ao corredor com os testes de gravidez.
— Val, — alguém sussurrou. Me virei lentamente, reconhecendo aquela voz de algum lugar.
Choque me prendeu ao chão enquanto eu olhava para o rosto de meu primeiro marido. Seu cabelo estava na altura dos ombros e muito mais ralo do que costumava ser. Ele estava usando óculos que provavelmente não precisava, e tinha ganhado um pouco de peso. Ele estava quase irreconhecível, especialmente pela forma como se vestia: como um estudante universitário que tinha acabado de sair da cama sem pensar muito no que usar. Era um bom disfarce.
— Antonio? — eu perguntei com voz trêmula, começando a me sentir fraca. Eu não podia acreditar que era ele, na minha frente, vivo e em carne e osso. Como isso era possível? Eles encontraram o seu corpo; um corpo queimado e sem cabeça. — Shhh, — ele disse rapidamente. — Não fale alto.
Antonio se aproximou de mim e me puxou para um abraço apertado. No começo eu estava como uma prancha rígida, mas então eu afundei no abraço. — Precisamos nos apressar. Eu vi o seu guarda-costas do lado de fora no carro. Eu não quero que ele desconfie e entre aqui.
As lágrimas faziam meus olhos arderem. Dei um passo para trás, analisando as linhas familiares do seu rosto. — Você está vivo.
Ele sorriu, um pouco sem graça. — Sim.
— Frank sabe?
— Sim, é por isso que ele queria encontrar com você. Eu pedi a ele.
— Por que ele não me contou?
— Porque eu queria que ele descobrisse mais sobre a sua lealdade antes.
Minha lealdade? Antonio estava preocupado que eu contasse a Dante sobre ele? Eu fiz uma careta. — Tudo bem... Por que alguém tentou me matar quando eu encontrei com ele?
Antonio riu. — Eu não tentei te matar. Eu apontei alguns metros acima de sua cabeça. Eu tinha que ajudar Frank. Dante teria matado ele se eu não tivesse feito algo.
Eu ainda não gostava do fato dele ter mirado em qualquer lugar próximo a mim. As balas atingiram a parede a menos de um metro acima da minha cabeça. — Então você estava lá o tempo todo e não me contou?
— Dante e seu guarda-costas apareceram quando eu estava prestes a sair. Eles estragaram tudo.
— Como você fez pra chegar aqui sem Enzo perceber?
— Eu fui um deles uma vez. Eu sou mais esperto que esse cara a qualquer dia.
Minha cabeça girava. Dei um passo para trás. — Eu chorei em seu túmulo! Lamentei sua perda por meses.
— Eu sei, — disse ele. — Mas eu não podia contar a você o meu plano.
— Por que não? Você não teve problemas em dizer a Frank.
Antonio me deu um olhar suplicante. — Eu não queria te envolver nisso. Teria sido muito perigoso.
— De quem era o corpo que encontraram? Ele tinha sua faca favorita com ele.
— Ele era apenas um estranho sem-teto, — disse ele com desdém.
— Você o matou e fez parecer como se os russos tivessem feito isso?
Antonio assentiu, com um brilho de orgulho em seus olhos. — Eu cortei a cabeça dele para que não pudessem tentar me identificar através da arcada dentária.
Eu o encarei. — A Outfit foi atrás de vingança! Eles atacaram os russos e mataram vários deles.
— Os russos merecem morrer. O mundo é um lugar melhor sem eles.
O mundo seria um lugar muito melhor sem muitas das pessoas que eu conhecia. — Eu não posso acreditar que você não me contou. Eu me casei com você para te ajudar, e você não confiou em mim o bastante para me envolver em seu plano. Você já pensou que eu também poderia querer sair dessa vida?
— Eu confiei em você. Eu continuo confiando, Val. Há poucas pessoas que eu confio mais do que em você, mas eu não poderia envolvê-la nisso. E como eu poderia te levar comigo? Teria parecido suspeito se tivéssemos forjado a sua morte também.
Eu não podia ver como isso teria parecido estranho. Poderíamos ter criado uma cena de crime em nossa casa e queimado dois corpos. Mas eu não gostaria que mais um inocente morresse para que eu pudesse fugir com Antonio. Eu não amava Antonio como tinha feito no início do nosso casamento.
— E vamos ser francos, você realmente iria querer deixar essa vida para trás?
Eu balancei minha cabeça. Esta era a única vida que eu conhecia. Eu nem saberia como agir na sociedade normal. Olhei para o rosto dele. — Mas por que você está aqui? Se você queria deixar essa vida para trás, se encontrar comigo não é exatamente inteligente. Por que você ainda está em Chicago? Você não deveria estar em algum lugar do Caribe ou da América do Sul desfrutando de sua liberdade recém-descoberta da máfia?
— Eu ouvi sobre o seu casamento com Dante Cavallaro.
Eu zombei. — Você não veio aqui por causa disso. Por que você iria sair do seu esconderijo por isso? Você estava seguro.
Antonio desviou o olhar. Eu poderia dizer que ele estava relutante em responder à minha pergunta. — Eu tentei. Frank e eu tentamos uma vida diferente, uma vida normal. Eu tinha dinheiro suficiente para viver confortavelmente no México por um tempo, e então o plano era encontrar um emprego, viver como pessoas normais fazem.
— E?
— Eu não consegui fazer isso, Val. Eu tentei trabalhar, mas era degradante, como se eu fosse um nada, trabalhando por migalhas, vivendo sem dinheiro. Eu vivia entediado, perdendo a cabeça. Eu tentei por um tempo, por Frank, mas ele percebeu que eu estava infeliz e por isso decidimos voltar para Chicago.
— Mas por quê? — perguntei. — Você realmente não pode entrar no escritório de Dante e dizer a ele que está vivo. Você quebrou o seu juramento ao deixar a Outfit. Você traiu a Família. Eles não vão te receber de braços abertos.
Antonio assentiu tristemente. — Eu sei. Você acha que eu não sei disso?
Algo me ocorreu. — Você quer que eu fale com Dante pra ele perdoar você? Você quer que eu invente alguma mentira louca para salvar sua vida? — eu não tinha certeza de que havia algo que eu pudesse fazer ou dizer que fosse impedir Dante de colocar uma bala na cabeça de Antonio. Ele tinha quebrado uma regra fundamental da máfia. Você não podia simplesmente deixar a Outfit e seguir com a vida.
Antonio agarrou meu ombro, os olhos implorando. — Se eu pudesse desfazer o que eu fiz, eu não ia te deixar para trás, viúva. Val, você sabe que eu te amo, não é?
Eu exalei lentamente. — Eu sei, Antonio. Você me disse mais de uma vez que me amava como uma irmã.
Antonio nos trouxe ainda mais perto. — Talvez eu pudesse te amar mais do que isso. Talvez, se a gente tentasse outra vez, nós pudéssemos ser mais do que um casal falso.
— O que você está dizendo?
— Eu quero voltar para minha antiga vida, para você. Eu quero tentar de verdade dessa vez.
Eu estava mais confusa do que nunca estive na minha vida. — Antonio, você tem Frank. E ele? Você é gay.
Antonio evitou meus olhos. — Eu sei. Mas você pode ser a minha mulher. Frank não se importaria se eu agisse como um marido deveria. Ele não se importa de dividirmos.
Pisquei, à beira do riso. — Você quer o que... Um triângulo amoroso? — eu não tinha certeza do que mais chamar a isto. Era ridículo demais para sequer considerar.
Antonio me deu seu sorriso mais cativante. Aquele que trouxe de volta memórias de nossa juventude juntos, o que me tinha manipulado inúmeras vezes antes.
— Eu estou casada com Dante agora. Você não é nem mesmo o meu marido mais. Você foi declarado morto.
— Mas você não pode ficar casada com Dante, eu não estou morto, então nosso casamento ainda é válido.
— Você sabe que Dante vai ficar relutante em concordar com sua sugestão insana, certo? — eu disse. Isso era surreal. Talvez essa conversa não estivesse acontecendo. Talvez eu estivesse dormindo e sonhando.
— Sim. Ele não iria permitir isso e me mataria se descobrisse que eu estou vivo. É por isso que eu preciso de sua ajuda.
Um pavor se estabeleceu em meus ossos como um peso de chumbo. — Que tipo de ajuda?
— Eu sei que você não quer ficar casada com Dante. Ele sempre foi um bastardo frio. Você não pode ser feliz com ele.
— Antonio, — eu disse, suplicando. — Fale de uma vez.
— Quando eu decidi voltar para Chicago, entrei em contato com alguns de meus ex-amigos que não são muito afeiçoados à forma como o Cavallaros comandam a Outfit, especialmente Dante com suas novas regras. Eu lhes disse que tinha falsificado a minha morte porque estava relutando em servir a outro Cavallaro. Eles me acolheram de braços abertos. Eles querem mudanças tanto quanto eu. Dante não será Capo por muito tempo. Este é o momento perfeito para nossas mudanças.
Engoli em seco, eu me preocupava para onde essa conversa estava indo. — Quem são esses amigos?
Antonio balançou a cabeça. — Eu não posso te dizer, mas eles querem o que é melhor para a Outfit. Uma vez que eles estiverem no poder, eu poderia retornar com segurança e ser parte da máfia outra vez.
— Você contou a eles que é gay?
— Ainda não, mas vou, eventualmente.
— Eles não vão aceitar.
— Isso é para eu me preocupar quando chegar a hora. O que importa é que eu vou ter a oportunidade de viver em Chicago, novamente, e voltar com você.
— O que você quer que eu faça? — perguntei em voz baixa.
— É muito arriscado atacarmos Dante abertamente. Não queremos uma guerra aberta. Uma vez que Dante esteja fora do caminho, as coisas vão se encaixar. Será mais fácil depor o velho Fiore Cavallaro se seu filho estiver morto. Mas nós precisamos de você para que nosso plano funcione. — Antonio tirou um pequeno frasco do bolso olhando ao nosso redor, mas nós éramos os únicos clientes, com exceção de uma senhora idosa que estava junto ao balcão conversando com o farmacêutico. Ele estendeu o frasco para mim. — Você é a única em quem confio o suficiente para pedir isso e que tem acesso direto a Dante.
— O que é isso? — eu sussurrei, mesmo que eu já soubesse.
— É veneno, Val. Tudo que você tem a fazer é colocar na bebida de Dante e pronto, vamos nos livrar dele.
Eu recuei para longe de Antonio. Meu estômago estava agitado. — Você quer que eu mate meu marido?
— Eu sou seu marido, Val, — Antonio pegou minha mão e me puxou para ele, com os olhos suplicantes. — Será que ele te ama como eu? Ele sequer se preocupa com você? Nós nos conhecemos por toda a nossa vida.
Eu não conseguia respirar. Eu procurei os olhos de Antonio, buscando um sinal de que ele estivesse brincando, mas não encontrei. Ele estendeu mais o fraco. — Pegue.
Peguei o frasco, olhando para o líquido incolor dentro dele.
— Ele não vai notar. Não tem gosto nem cheiro, não se preocupe.
Eu ainda não tinha colocado o fraco na bolsa. Eu parecia incapaz de mover um músculo.
— Ele age rapidamente. É um relaxante muscular, e faz com que o pulmão e coração parem de funcionar. É uma morte mais rápida do que ele merece.
— Você realmente quer que eu mate alguém? — minha voz era quase inaudível. — Se algo der errado e eu me atrapalhar, eles vão me matar. — Ou, mais precisamente, Dante me mataria após tal traição.
— Você é inteligente demais para ser capturada, Val. E uma vez que ele esteja morto, nós vamos tomar o poder em algum momento. Você estará sob minha proteção. Tudo vai ficar bem. — Antonio se inclinou e roçou meus lábios levemente com os seus. Eu estava atordoada demais para recuar. Lentamente eu larguei o frasco dentro da minha bolsa.
— Você deve agir esta noite. Quanto antes você fizer isso, melhor será. Eu não quero correr o risco de ficar em Chicago por muito tempo dessa forma.
— Frank sabe sobre esse plano? — eu tive que perguntar, tinha que saber. Eu lutei contra as lágrimas que queriam escapar dos meus olhos.
— Sim. Na verdade, foi sugestão dele. Ele acha que é mais seguro do que arriscar um tiroteio. Dante é muito bom com uma arma, e o filho da puta nunca baixa a guarda, exceto quando ele está em casa. — Antonio abriu um grande sorriso para mim. Eu era um meio para o fim que ele queria – de novo. Uma vez ele usou meus sentimentos por ele para me atrair para um falso casamento e agora ele queria me manipular a matar o meu marido. Talvez eu devesse ter tentado falar com ele sobre isso, mas no momento em que eu abrisse a boca ele acharia tudo suspeito e ia se esconder novamente, procurando atacar Dante de outra forma. Era muito arriscado.
— Eu realmente me sentiria mais confortável se eu soubesse os nomes dos seus amigos.
Eu confio em você, mas e eles?
— Eu confio neles.
Eu dei a ele um olhar suplicante.
Antonio afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. O gesto foi tão terno e amoroso que me fez engasgar com emoção. Antonio deve ter visto isso, porque concordou. — Eu posso te dar um nome, mas os outros vão ficar em segredo até as coisas se acalmarem.
— Ok.
— Raffaele, você o conhece do cassino, certo?
Oh, eu conhecia Raffaele. E ele era a última pessoa na Outfit que ia aceitar a homossexualidade de Antonio. — Sim.
Eu estava perto de explodir em lágrimas. Para esconder isso de Antonio, eu fingi olhar para o meu relógio. Quando eu tive certeza de que eu estava no controle de minhas emoções, levantei meu rosto.
— Então você vai fazer hoje à noite? — perguntou Antonio quase ansiosamente. — Por mim, por nós?
Dei um tapinha em minha bolsa onde o frasco estava escondido, então estendi a mão e segurei o rosto de Antonio. — Eu te amei desde que eu tinha quatorze anos. Fiquei tão feliz quando nos casamos.
Antonio sorriu, os olhos cheios de satisfação. — Eu sei, Val. Eu deveria ter sido um marido melhor para você.
Sim, você deveria ter sido.
— Mas logo as coisas vão mudar. E desta vez tudo vai ser melhor.
Eu balancei a cabeça. Não, não vai.
Recuei. — Eu preciso voltar para o carro antes que Enzo fique desconfiado.
— Aqui está o meu número. Me ligue quando você acabar de executar o plano, está bem? — Ele colocou um pedaço de papel no meu bolso.
Eu balancei a cabeça novamente.
— Diga adeus a Dante por mim, — disse Antonio com uma piscadela. Ele ainda estava muito confiante no poder que uma vez teve sobre mim, mas eu não era mais a garota ingênua que costumava ser.
Eu me virei e caminhei lentamente para fora da farmácia e de volta para o carro.
Adeus.