Bound by Duty

Cora Reilly · Capítulo 16 de 24

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Bound by Duty

Capítulo Quinze

 

Eu não sabia o que tinha me acordado, mas quando abri os olhos o sol ainda não tinha nascido. O céu já estava claro ao longe, e fornecia luz suficiente aos meus arredores. Dante estava pressionado contra as minhas costas, com o rosto meio enterrado no meu ombro, seu hálito quente contra a minha pele. Estava desconfortavelmente quente, mas eu não me afastei. Esta foi a primeira vez que eu acordei com Dante ainda na cama, e ele estava realmente me segurando em seus braços. Talvez seu subconsciente tivesse aceitado o que ele não podia; que ele queria estar perto de mim.

Eu mantive a minha respiração, tentei parecer adormecida, eu não queria acordá-lo. Devo ter cochilado novamente, porque me assustei quando Dante se afastou de mim. Ouvi com atenção, mas ele não saiu da cama. Ele rolou para longe de mim ainda adormecido, se sua respiração ritmada fosse uma indicação. Eu me virei lentamente para o outro lado, para poder vê-lo. Ele estava deitado de costas, um braço jogado por cima do rosto. Os lençóis estavam empurrados para baixo sobre o delicioso V de seus quadris. Apoiei-me em um braço, tendo cuidado para não fazer nenhum som. Meus dedos coçaram para arrumar suas mechas loiras para trás, para passar pelos cumes de seu abdômen definido, para seguir a trilha de cabelo fino que ia em direção à sua a sua ereção.

Estendi a mão hesitante e levemente rocei meus dedos pelo seu cabelo. A mão de Dante disparou rapidamente, agarrando meu pulso apertado. Ao mesmo tempo, ele sentou-se e seus olhos encontraram os meus. Eu apertei meus lábios. Ele soltou meu pulso com rapidez, empurrando-o para longe. Esfreguei a pele, baixando os olhos para os hematomas já se formando. Dante tocou minha cintura nua, sua mão quente e suave na minha pele. — Eu te machuquei? — havia uma real preocupação em sua voz.

Olhei para cima, surpresa. — Está tudo bem. Eu te assustei.

Ele segurou minha mão e inspecionou as marcas que seu aperto tinha deixado no meu pulso. Seu polegar roçou a pele machucada com um toque suave. — Eu não estou mais acostumado a acordar ao lado de outra pessoa.

Foi a coisa mais pessoal que ele já tinha compartilhado comigo. Eu tive que me impedir de cavar mais fundo, de procurar saber mais. — Eu sei. Está tudo bem. Você vai se acostumar com isso.

Ele ergueu o olhar, mas seus dedos mantiveram o afago suave no meu pulso. — Você e Antonio dividiam a cama?

— No começo, sim. Por causa das aparências, principalmente. Nessa época ainda tinham uma empregada em casa, e não queríamos que ela ficasse desconfiada. No início, era como ter uma festa do pijama com um amigo, mas finalmente as coisas ficaram estranhas, principalmente quando ele chegava em casa com o cheiro do seu amante, então ele dispensou a empregada e começamos a dormir em quartos separados.

Seus olhos pousaram nos meus seios expostos. — Eu não posso imaginar um homem olhando para você e não desejando tê-la em sua cama.

Quase pulei de felicidade, mas decidi manter o ambiente leve, preocupada que uma resposta emocional fizesse Dante se fechar outra vez. — Eu acho que Antonio teria dito o mesmo sobre você. Penso que você era o tipo dele.

Dante riu e seu rosto inteiro se transformou. — Isso não é algo que eu quero pensar.

Eu sorri. — Imagino que não. — Fiz uma pausa, curiosa. — O que você faria se um de seus homens admitisse que é gay?

— Eu diria a ele para manter em segredo e não revelasse a ninguém.

— Não é como se as pessoas escolhessem serem gays. Eles são ou não são. Você iria forçá-lo a viver uma mentira.

— Ou eles vivem uma mentira, ou lidam com as consequências da verdade.

— Você mataria alguém por quem elas amam.

— A sociedade pode ter mudado ao longo dos tempos, mas a máfia é construída sobre tradições, Valentina. No momento em que eu declarasse que aceito um homem gay, tudo viraria um inferno na Outfit. Essa seria uma mudança pela qual eu não seria capaz de passar firme e continuar em meu cargo. Eu não mataria alguém por confiar em mim, desde que fosse mantido em segredo. Eu não tenho dúvida de que há soldados na Outfit que são atraídos por homens, mas aprenderam a ser discretos. Eles vão, provavelmente, se casar e viver uma mentira, mas, vez contanto que eles deixem transparecer nada, não há problema.

Nós ainda estávamos sentados juntos, realmente conversando à luz do dia. Estendi a mão para o peito de Dante, escovando levemente meus dedos sobre uma longa cicatriz. Dante agarrou meu pulso, suavemente desta vez, e puxou minha mão. Ele deslizou as pernas para fora da cama e se levantou. Vi quando ele se dirigiu ao banheiro, completamente nu, e ainda coberto por centenas de camadas de resistência invisível que eu nunca poderia penetrar.

Deixei cair a minha mão no meu colo. Com um suspiro, saí da cama também. Não havia sentido em ficar deitada sozinha. Eu teria um dia agitado. Meu primeiro dia no cassino sem Dante. Eu estava ansiosa e animada ao mesmo tempo. Depois de um banho rápido, eu levei um longo tempo escolhendo as roupas. Eu não queria parecer muito sexy, mas também não queria esconder minha feminilidade. Eu sabia que aqueles homens, especialmente Raffaele, não gostaram da ideia de uma mulher indo trabalhar com eles, e pior: sendo sua chefe. Porém, eu não tinha a intenção de tornar isso mais fácil para eles. Eles teriam que aprender a lidar com mulheres fortes, e se eles não conseguissem, não era problema meu. Eu escolhi uma saia-lápis azul escuro na altura do joelho, combinando com a cor dos meus saltos, e uma blusa branca com gola redonda e mangas compridas. Depois que coloquei a blusa para dentro da saia, prendi o cabelo em um coque, deixando alguns fios rebeldes pendurados.

Quando entrei na sala de jantar, ela estava deserta. Parei na porta, deixando meus olhos descansarem no lugar habitual de Dante. Seu jornal estava dobrado ao lado do prato vazio. Com um suspiro, eu fui para a minha própria cadeira. A porta se abriu e Gaby entrou, carregando uma jarra com suco de laranja fresco e um bule de café. Ela abriu um grande sorriso para mim. — Bom dia, am... Valentina. — Ela me deu um olhar de desculpas, mas eu apenas sorri, feliz por ver um rosto amigável logo pela manhã. — Espero que você tenha dormido bem?

Minhas bochechas aqueceram indesejavelmente. — Sim, obrigada.

Ela me serviu café e suco de laranja. — Você gostaria de ovos ou panquecas?

— Não, só um croissant e algumas frutas. — Acenei para a variedade de doces e frutas à minha frente.

Gaby virou-se para sair. — Espere, — eu falei, percebendo como tinha soado desesperada. Gaby me encarou com os olhos arregalados, como se ela estivesse preocupada que tivesse feito algo que me ofendeu e ia ser punida. — Por que você não me faz companhia?

Gaby congelou.

— Só se você quiser. Eu gostaria de conhecê-la melhor.

Um sorriso tímido se formou no seu rosto, mas ela não se sentou.

— Você não tem que sair. Sente-se. — Eu puxei a cadeira ao lado da minha. Gaby largou a garrafa e o bule de café antes de se sentar cautelosamente na cadeira.

— Você já tomou café da manhã?

Gaby hesitou, depois balançou a cabeça.

— Então sirva-se. Há mais do que suficiente para nós duas. — Eu peguei a cesta de pães e empurrei para ela. Ela pegou um croissant de chocolate com um agradecimento murmurado, suas bochechas ficando vermelhas.

Peguei um para mim, dei uma mordida, e então tomei um gole de café quente. Eu queria dar a Gaby algum tempo para superar seu nervosismo. — Onde você mora? Eu estive pensando sobre isso desde que você me contou a sua história.

— Oh, eu vivo com Zita e seu marido. Eles me levaram um pouco depois que comecei a trabalhar para o Sr. Cavallaro.

— Eles estão te tratando bem? — Toda vez que eu via Zita, ela estava carrancuda ou franzindo a testa. Ela não parecia ser alguém que deveria cuidar de uma menina como Gaby, que tinha ido ao inferno ainda adolescente.

Gaby balançou a cabeça com veemência. — Sim. Zita é rigorosa, mas ela me trata como se fosse da família. — Ela colocou a última migalha de croissant em sua boca e engoliu antes de dizer envergonhada. — Ela está começando a se acostumar com você. Zita sempre precisa de algum tempo para se acostumar com pessoas novas.

— Sério? Não parece que ela está gostando de mim.

Gaby deu de ombros. — Tenho certeza que ela vai mudar de ideia em breve.

Eu não tinha como não gostar de Gaby. Ela era doce. Olhei para o meu relógio de pulso. — Eu preciso ir agora. Quero chegar cedo no meu primeiro dia de trabalho.

— Boa sorte, — disse Gaby, levantando-se da cadeira. — Eu acho ótimo que você deseje trabalhar. Você é a única mulher com a sua importância que não fica só em casa. Quero dizer, não há nada de errado em ser apenas uma esposa.

Toquei brevemente seu ombro para mostrar a ela que não me senti ofendida, depois fui para a área dos empregados, onde Enzo estava tomando café. Ele se levantou assim que me viu. — Você pode terminar o seu café. Não há pressa, — eu disse a ele. Apesar das minhas palavras, ele pegou sua xícara e bebeu de um gole só. Zita estava jogando olhares de desaprovação para mim. Eu definitivamente não conseguia vê-la se acostumando comigo. Ela ainda não tinha dito nada além de um curto “bom dia”, mas eu podia ver que ela queria.

— Na minha época a esposa de um Capo nunca teria considerado trabalhar, — ela murmurou enquanto lavava a louca, que já estava impecável.

— Os tempos mudam, — eu disse simplesmente.

— A falecida ama, que Deus cuide de sua alma, estava feliz com o papel de dona da casa. Ela passava seus dias tentando fazer o marido feliz e cuidando para que ele tivesse uma bela casa.

— Zita, — disse Enzo acentuadamente. — Já basta.

Zita apontou o dedo para ele. — Não fale assim comigo.

— Talvez devêssemos sair agora, — eu disse a Enzo. Eu não queria que eles brigassem por minha causa. Ele balançou a cabeça, pegou o coldre de sua arma da cadeira, e nós caminhamos em silêncio em direção à garagem.

— Obrigada por me defender, — eu disse quando nos sentamos no carro.

— Zita lhe deve respeito. Você é a mulher do Capo. Ele não aprovaria que qualquer um a trate assim. — Será que ele realmente se importava? — Você deveria dizer a ele.

Balancei minha cabeça. — Não. Eu posso me cuidar, mas obrigada.

Enzo inclinou a cabeça e ficou em silêncio. Para minha surpresa, Enzo não me deixou no cassino e foi embora. Ele me seguiu para dentro e não saiu do meu lado. Eu tinha uma sensação de que Dante poderia ter dito a ele para ficar de olho em mim. Eu me perguntava se era porque ele não confiava que seus homens me tratassem decentemente ou porque ele não confiava que eu fizesse bem esse trabalho. Nenhuma das opções me fazia sentir melhor.

Leo pareceu surpreso quando me viu. — Eu não esperava você por agora. Raffaele e as meninas ainda não chegaram. Não há muito a fazer no momento.

Fui direto para a parte de trás, onde os escritórios estavam localizados. — Eu sei, mas quero ler sobre os nossos grandes jogadores. Suponho que vocês tenham documentos e estatísticas sobre eles?

Os olhos de Leo correram entre mim e Enzo, que estava com os braços cruzados sobre o peito, parecendo que só estava esperando a oportunidade para esmagar a cabeça de Leo. Com certeza não havia amizade ali. — Sim, nós temos. Me deixe pegá-los para você.

Eu me sentei na cadeira de couro caro atrás da minha mesa me sentindo fora do lugar, mas quando Leo voltou com pastas cheias de papéis, mantive a cabeça erguida e fiz um gesto para ele colocá-las sobre a mesa. — Eu vou ler tudo isso agora. Por favor, me avise quando Raffaele e as meninas chegarem para que eu possa falar com eles.

Leo assentiu e saiu sem dizer mais nada. Enzo hesitou, mas então ele também saiu e fechou a porta atrás de si. Eu me acomodei mais na cadeira e deixe meus olhos vagarem pelo escritório sem janelas. Peguei a primeira pasta, determinada a aprender tudo o que precisava saber para fazer um bom trabalho. Eu não queria decepcionar Dante. Eu sabia que ele estava se arriscando a ganhar a ira de muitos homens ao deixar uma mulher trabalhar nos negócios da máfia.

 

***

 

Meus olhos ardiam com o ar seco do ar condicionado, e eu só tinha conseguido completar duas pastas, quando ouvi uma batida na porta. — Entre, — eu disse com a voz rouca. Limpei a garganta quando a porta se abriu e Enzo enfiou a cabeça para dentro. — Raffaele está aqui. Devo deixá-lo entrar?

Eu sufoquei um sorriso. Esse era Enzo atuando como minha secretária? — Sim, obrigada.

Enzo segurou a porta aberta. Raffaele caminhou com um olhar fulminante na direção de Enzo, que o devolveu com o mesmo fervor. Ele fechou a porta e parou na frente dela, do lado de dentro, os braços cruzados e o olhar duro sobre Raffaele. — Você não pode falar comigo sem o seu cão de guarda? — ele perguntou com um sorriso desagradável.

Me levantei. De salto alto eu ficava tão alta quanto ele, e imediatamente me senti mais à vontade. — Eu poderia sim, mas não vou, — disse, fazendo parecer que essa era realmente minha decisão, e não uma ordem de Dante.

Raffaele pareceu surpreso, mas se recuperou rapidamente. — Você queria falar com as prostitutas. Eles estão se preparando em seu camarim.

— Bom. Mostre o caminho.

Raffaele saiu sem dizer uma palavra e dirigiu-se para uma das portas que levavam para longe da área principal. Enzo estava logo atrás de nós. Raffaele não se incomodou em bater, ele simplesmente escancarou a porta. Algumas das meninas soltaram suspiros de surpresa, mas quando viram quem era, se acalmaram. Aparentemente, elas estavam acostumadas a esse tipo de comportamento vindo dele. Raffaele fez um gesto largo com o braço, me convidando a entrar no camarim. — Cuidado, — Enzo vaiou, trazendo o rosto muito perto do de Raffaele. — Ou você quer perder outro dedo? Dante não vai deixar você costurá-lo de volta.

Raffaele ficou vermelho, mas não se atreveu a retrucar algo desagradável, embora fosse óbvio, pela sua expressão, que ele queria.

Dei um passo para dentro do camarim, depois parei. — Está tudo bem se eu falar com vocês por um momento? — eu perguntei às meninas. Havia dez delas, com idade variando entre o final da adolescência – que é o que eu esperava, pelo menos – até seus vinte e tantos

anos. Algumas deles pareciam “ 12 a garota da porta ao lado”, outras pareciam lideres de torcida, enquanto outras eram mais exóticas. Quase todas tinham silicone nos seios. Suas expressões variavam de desconfiança e preocupação até puro e simples medo. Como se coreografadas, seus olhares procuraram Raffaele, em silêncio, buscando a sua permissão. Eu poderia dizer pelo sorriso de satisfação e do seu jeito que ele gostou disso.

— Eu quero ter uma palavra a sós com as meninas, — eu disse a ele com firmeza.

— Mas...

— Sem mas, — eu disse, ao mesmo tempo em que Enzo agarrou Raffaele pelo colarinho e o puxou para fora, e então eu os segui e fechei a porta, ficando sozinha com as meninas. Voltei minha atenção total a elas, que tinham parado o que estavam fazendo para me olhar. — Talvez vocês possam se apresentar. Nome, idade, há quanto tempo você tem trabalhado para a Outfit.

Eu apontei para uma menina asiática pequena no canto quando ficou claro que nenhuma delas queria começar. Depois dela tudo pareceu ficar mais relaxado, e as outras falaram sem precisar de muito estímulo. Para meu alívio a menina mais jovem já tinha vinte anos, a menos que ela estivesse mentindo a idade.

— Como vocês estão sendo tratadas?

Mais uma vez o silêncio.

— A Outfit nos trata muito bem, — disse uma garota chamada Amanda.

— Eu quero a verdade. Raffaele as trata com respeito?

Algumas das meninas trocaram expressões divertidas e, finalmente, uma delas disse. — Nós somos prostitutas. Dificilmente alguém nos trata com respeito. Raffaele não é diferente.

— Ele não é o pior.

— Essa é a sua opinião, não a minha.

— Ah, cala a boca.

Ergui os braços e as meninas ficaram em silêncio. — Ok. Quem é pior do que Raffaele?

— Alguns dos clientes nos batem. E Tommaso também. — Isso não foi uma surpresa. Bibi não me contou tudo, mas as poucas coisas que ela compartilhou comigo sobre sua vida sexual com Tommaso tinha feito o meu estômago revirar.

— Eu gosto de sexo duro.

— Você gosta de tudo, mas eu não.

— Ah, isso é problema seu. Eles compram o seu corpo e decidem o que fazer com ele.

— Você soa como Raffaele.

— Tudo bem, tudo bem, — eu disse lentamente. — O que exatamente Raffaele faz?

— Ele é como o nosso cafetão. Ele nos experimenta antes de decidir se nós somos boas o bastante para trabalhar aqui. E ele garante que façamos os clientes felizes. Se não fizermos, ele nos castiga.

— Eu assumo que isso de experimentar significa que ele dorme com vocês?

— Ele nos fode.

— E o que exatamente ele faz para puni-las? — perguntei, mas as contusões cobertas com maquiagem que vi nas meninas logo ao entrar me deram uma boa ideia.

— Ele nos dá uma surra, ou nos fode muito duro. Ou então ele nos envia a um dos prostíbulos na periferia da cidade.

— Os clientes de lá são os piores. Eles estão sempre bêbados, e são brutais e gordos.

Tomei uma respiração profunda. — Ok. Alguma coisa boa que vocês podem me dizer?

— O dinheiro é bom. Eu posso comprar roupas bonitas e alugar um apartamento incrível. Isso é algo que eu nunca poderia fazer sem este trabalho.

Muitas meninas assentiram, e eu tentei me confortar com isso. Todas elas tinham começado a trabalhar como prostitutas por sua livre e espontânea vontade e ganhavam mais dinheiro do que a maioria das pessoas com um diploma universitário. Eu conversei com elas um pouco mais e pedi para que me dissessem quando um cliente fosse muito brutal. Elas prometeram fazer isso, mas eu não tinha certeza se eles estavam apenas dizendo isso para que eu parasse de incomodá-las. Eu ia ter que falar com Leo e Raffaele sobre essa situação.

Quando saí do camarim, Enzo estava esperando por mim. — Onde está Raffaele?

Enzo acenou na direção do bar. — Ele está de mau humor. Aquele menino teria sido tirado da Outfit há muito tempo se não fosse pelo seu pai. Filho da puta inútil. — Ele fechou a boca. — Peço desculpas pela linguagem.

— Não há necessidade. Já ouvi coisa pior.

A surpresa atravessou seu rosto. Feliz por estar fazendo progressos com os homens de Dante, fui em direção a Raffaele. Ele estava sentado em um dos bancos de bar, bebendo o que parecia um Martini. — Não é um pouco cedo para começar com o álcool?

Raffaele esvaziou o copo. — Nós somos a máfia, não um convento.

— Eu ainda gostaria que todos ficassem lúcidos durante o trabalho.

— Talvez um copo seja suficiente para deixar você bêbada, mas eu sei segurar as pontas. Não sou uma mulherzinha mimada.

— Raffaele, — a voz de Dante atravessou a sala como uma faca. Eu me virei enquanto Dante caminhava em direção a nós, seu corpo cheio de energia e raiva. Seus olhos frios estavam focados em Raffaele, que rapidamente escorregou do banco do bar e se levantou, um lampejo de nervosismo substituindo aquela arrogância. Enzo estava sorrindo ameaçadoramente. Eu tinha uma sensação de que ele havia mantido Dante atualizado, de longe, sobre como as coisas estavam indo.

Dante parou bem na frente de Raffaele, encarando-o com uma expressão de fúria óbvia. — Se eu ouvir mais uma palavra de desrespeito da sua boca, vou te cortar em pedaços pequenos e usar para alimentar os cães do seu pai. Entendido?

— Sim, Boss, — Raffaele disse apressadamente. Ele se virou para mim. — Me desculpe se eu a ofendi. — Ele parecia sincero, mas havia algo vingativo e amargo em seus olhos.

Dante finalmente estabilizou seu olhar em mim. — Eu gostaria de ter uma palavra com você.

Eu comecei a andar ao lado dele em direção ao meu escritório e entramos. Dante fechou a porta. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, murmurei. — Foi Enzo quem te chamou?

— Enzo não teve que me chamar. Eu pretendia vir aqui de qualquer forma. Eu queria me certificar de que seu primeiro dia estava indo bem.

Dei a ele um olhar de dúvida.

— Por que você está tão surpresa?

— Porque até agora você não me pareceu o tipo de marido cuidadoso.

Dante não disse nada, apenas me olhou com aquele olhar frio.

— Eu não preciso de você para me defender. Eu posso me cuidar, — disse eu, quando ficou claro que ele não diria nada.

Dante estreitou os olhos. — Este é o meu território. Estes são os meus homens, e é o meu trabalho mantê-los na linha. Se eles mostram desrespeito em relação a você, é apenas um pequeno passo até que eles se atrevem a me desrespeitar também. Eu não vou permitir isso.

— Você me fez parecer incapaz de fazer o meu trabalho. Raffaele vai pensar que eu sou fraca, porque eu preciso de você para me proteger.

Dante chegou muito perto, me envolvendo com sua loção pós-barba. — Valentina, a única razão pela qual estes homens te respeitam é porque você é minha esposa. Eu sei que você não gosta disso. Eu sei que você é forte, mas você não pode exercer sobre esses homens o mesmo domínio que eu, porque porque você não tem as mesmas armas que eu.

— Que armas?

— Crueldade, brutalidade e a determinação absoluta para matar qualquer um que conteste a minha afirmação de poder.

Prendi a respiração. — O que faz você pensar que eu não iria matar alguém se eu tivesse que fazer? Talvez eu seja capaz da mesma brutalidade que você.

Dante me deu um sorriso triste. — Talvez, mas eu duvido. — Ele passou o dedo pela minha garganta. — Talvez você tivesse o potencial para sobreviver na Outfir, se tivesse sido criada da mesma forma que os meninos são criados em nosso mundo. Meu pai me fez matar meu primeiro homem sob suas ordens quando eu tinha catorze anos. Um traidor que meu pai tinha torturado na minha frente antes de eu colocar uma bala na sua cabeça. Depois disso, meu pai mandou um de seus soldados me torturar para ver quanto tempo eu poderia suportar a dor antes de quebrar e implorar que ele parasse. Aguentei menos de trinta minutos. Na segunda vez, foram quase duas horas. Na décima vez, meu pai teve que parar o soldado ou teria morrido. Eu não peço nada a ninguém, nem mesmo para salvar a minha vida. Fique feliz por nunca ter tido a chance de desenvolver sua crueldade, Valentina.

Eu tive que engolir duas vezes antes que pudesse falar. — Isso é algo brutal. Como você pode não odiar seu pai pelo que ele lhe fez?

O dedo de Dante permaneceu na curva do meu seio. O tecido da minha blusa poderia muito bem não estar lá, sentia como se ele estivesse tocando minha pele nua. — Eu o odeio. Mas eu o respeito muito. Medo, ódio e respeito são os três mais importantes sentimentos que um Capo deve impor às outras pessoas.

— Em sua esposa também?

Dante afastou sua mão. — Ódio e medo não têm lugar em um casamento. — Ele se afastou de mim e caminhou casualmente até a minha mesa, que estava coberta com as pastas que eu pretendia ler. —Vejo que você está tentando se familiarizar com os nossos grandes jogadores.

Eu tive problemas para lidar com a mudança repentina de tópico. Minha mente ainda estava sofrendo com as coisas horríveis que Dante tinha me falado sobre sua juventude. Não era de admirar que ele fosse tão bom em se fechar após a crueldade que seu pai lhe tinha submetido. Fiquei imaginando quantas das cicatrizes do seu corpo eram resultado dessas sessões de tortura e quantas eram resultado de um ataque inimigo. — Sim. Eu quero memorizar os rostos, nomes e peculiaridades de cada um.

— Eu acho que eu deveria ficar até ter a chance de apresentar você a eles. Desta forma vai parecer mais oficial. Tive Leo enviando convites para uma recepção um pouco mais cedo. Você terá a chance de falar com eles sem o caos habitual do cassino e eles terão a oportunidade de jogar em privado por um tempo.

Eu estava grata por Dante garantir que as coisas corressem bem para mim. Claro que eu sabia que parte disso era porque ele gostava de ter as coisas sob seu controle. — Obrigada.

Ele inclinou a cabeça e olhou para mim por um longo momento antes de virar para seu relógio de pulso. — Por que você não se prepara um pouco mais? Os primeiros grandes jogadores devem chegar em uma hora. Eu vou falar com Leo e me certificar que tudo está pronto para a recepção.

Quando ele tentou passar por mim, eu coloquei minha mão em seu braço para detê-lo. Então fiquei na ponta dos pés e beijei sua bochecha antes de caminhar em direção à minha mesa e pegar uma pasta. Depois de um momento, eu ouvi a porta abrir e fechar.

Quinze minutos antes da chegada dos convidados, eu fui em direção à área principal, onde algumas mesas com copos e baldes de gelo cheias de garrafas de champanhe tinham sido arrumadas. Havia também um pequeno buffet de canapés. Dante caminhou até mim no momento em que ele me viu. Sua presença me deixou à vontade.

Logo os primeiros clientes chegaram. A maioria deles estava, pelo menos, na casa dos cinquenta anos. Homens ricos e velhos em ternos caros de grife, bronzeados de muitas horas passadas no campo de golfe, e sorrisos que falavam de excesso de confiança. Estes homens achavam que o mundo era deles. E ainda assim eu não perdi o olhar de respeito que dirigiam ao enfrentar Dante. Pela maneira como apertavam sua mão, você poderia dizer que eles estavam tentando lhe pagar deferência. Dante sempre voltava rapidamente sua atenção para mim, me apresentando como a nova gerente e sua esposa. A última parte sempre levava a uma onda de elogios respeitosos sobre a minha beleza. Embora eu certamente não me importasse de ser elogiada por minha aparência, não era algo que iria me ajudar a manter a equipe do cassino sob controle. Eu levava o assunto para longe da minha aparência e envolvia os homens em uma conversa descontraída. Felizmente eles se deixavam envolver, muito ansiosos para compartilhar suas histórias sobre enganar o imposto de renda, as suas realizações no campo de golfe ou até mesmo a seleção em suas adegas, e era óbvio que eles estavam acostumados a ter mulheres penduradas em cada palavra sua.

Eu os levei para a mesa da roleta, toda sorrisos, e logo eles começaram a jogar fora o seu dinheiro quase sem perceber, muito ocupados em se gabar e me impressionar. Do canto do olho, eu notei Dante falar com Enzo antes de ir embora do cassino. Eu sabia que ele estava ocupado, mas queria que ele tivesse ficado mais um pouco. Eu não tive muito tempo para pensar nisso, no entanto; eu tinha que ser a anfitriã perfeita para um outro grupo de grandes jogadores ansiosos em trocar ideias com a esposa do Capo.

Era meia-noite quando as coisas tinham progredido o suficiente para eu me despedir. Vários dos grandes apostadores tinham desaparecido em quartos com as meninas, ou estavam muito imersos no jogo, sem precisar da minha atenção. Eu estava exausta, mais exausta do que algumas horas de conversa deveriam deixar uma pessoa.

Depois que escorreguei no banco do passageiro do carro, deixei escapar um suspiro de alívio por finalmente dar um descanso aos meus pés. Minhas pernas doíam por ficar de pé por muito tempo, especialmente em meus saltos altos desconfortáveis. Para os homens era mais

fácil. Eles poderiam usar seus oxfords13 14 ou sapatos Budapeste, e os dedos dos pés não ficavam apertados em sapatos pontudos.

Devo ter cochilado porque a próxima coisa que percebi foi Enzo desligando o motor na garagem. Me sentei, envergonhada. — Me desculpe, eu adormeci. Isso foi rude.

Enzo balançou a cabeça. — Eu não me importo.

Eu estava muito cansada para analisar essa afirmação. Fiz o meu caminho para a casa, e lá dentro meus olhos correram em direção à porta do escritório de Dante, me fazendo questionar se ele ainda estaria ali. Decidi que estava exausta demais para lhe contar como foi a noite, então subi, estremecendo cada vez que meus pés tocavam o chão. Precisava tirar esses saltos o mais rápido possível ou ficaria louca.

Eu entrei no quarto e congelei. Dante estava na cama, lendo alguma coisa em seu tablet. Como de costume, sua parte superior do corpo estava nua, mas dessa vez meus olhos correram sobre as cicatrizes na sua pele, e eu não pude deixar de imaginar Dante com catorze anos sendo torturado por seu pai a fim de fortalecê-lo.

— Correu tudo bem depois que eu saí? — Dante perguntou, mal olhando o que ele estava lendo.

— Sim, os apostadores perderam um pouco de dinheiro. — Saí de meus saltos e poderia ter chorado de alívio. — Vou tomar um banho rápido. — Dante apenas acenou com a cabeça distraidamente. Eu estava exausta demais para me preocupar com isso. Depois do banho, vesti uma pequena camisola de cetim e calcinha combinando, e voltei para o quarto, onde me sentei na beira da cama, de costas para Dante. Eu não estava com vontade de fazer qualquer esforço. Levantei meu pé e comecei a massageá-lo. Talvez da próxima vez eu devesse ir de sapatilhas. Elas ainda seriam elegantes, mas não doeriam tanto. O colchão se mexeu e então a voz de Dante estava em meu ouvido. — Deixe isso comigo.

Antes que eu pudesse protestar, ele me fez deitar e colocar meus pés em seu colo. Seus dedos começaram a esfregar meus pés cansados e relaxei com a quantidade certa de pressão que ele aplicava.

— Esta noite foi uma exceção. Os apostadores queriam conhecê-la. Você não tem que ficar tanto tempo no futuro. Basta fazer uma aparição, cumprimentá-los, fazer com que se sentiam bem-vindos e depois sair. Leo é um homem capaz.

Eu cantarolava, meus olhos se fecharam enquanto eu relaxava sob sua massagem. Em certo momento, os dedos de Dante desviaram para cima, acariciando meus joelhos e até mesmo minhas coxas, e minha respiração se aprofundou. Dante, também, não estava pouco afetado. Eu podia sentir sua ereção pressionando contra os meus pés ainda descansando em seu colo. — Vire-se, — Dante ordenou.

Eu rolei, ficando deitada na minha barriga, sabendo exatamente o que Dante queria. Hoje à noite eu nem estava incomodada com o fato de que ele nunca querer olhar para o meu rosto. Levantei minha bunda quando seus dedos passaram sob o cós da minha calcinha e a puxaram pelas minhas pernas. Suspirando no travesseiro, deixei Dante despertar meu corpo exausto com seu toque.