Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Unidade II. Homenagem a Emilio Mira y López

Unidade II. Homenagem a

 

Emilio Mira y López

 

Parte III - Mira y López: 50 anos

 

depois

 

Capítulo 6 - Pensar Mira y

 

López: contribuições para a

 

psicologia

 

Hildeberto Vieira Martins

 

Este texto objetiva apresentar as contribuições contidas nos trabalhos que fizeram parte da mesa redonda “Mira y López: 50 anos depois”, por mim coordenada. Os trabalhos aqui reunidos são o resultado de artigos originalmente apresentados no XI Encontro Clio-psyché: Discursos e Práticas na História da Psicologia, ocorrido entre os dias 01 a 03 de outubro de 2014, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A mesa contou com a participação de importantes nomes do campo da história da psicologia: Annette Mülberger (UAB, Espanha), Hélio Carpintero (UNED, Espanha), Nádia Rocha (FRB, Brasil) e Rosa Falcone (UBA, Argentina). Pode-se afirmar que as análises que os autores dos textos que compõem esse livro fazem do papel fundamental que teve para a história da psicologia a obra intelectual (modelos teóricos, recursos técnicos, projetos institucionais) desenvolvida pela figura polivalente de Emílio Mira y López (1896-1964), que atuou e trouxe significativas contribuições para áreas como a medicina, psiquiatra, psicoterapia e psicologia, convergem para a consolidação do reconhecimento da relevância histórica da produção acadêmica e da vida desse pesquisador. Vários trabalhos já foram escritos sobre Mira y López (Martins, 2014; Jacó-Vilela e Rodrigues, 2014; Rossi et al., 2014; Rosas, 1995; Silva, 1964), mas os textos aqui apresentados enfocam aspectos ainda pouco debatidos da trajetória profissional desse cientista, o que revela a importância de novas pesquisas que discutam a importância do seu legado para a psicologia.

Os autores abordam de diferentes maneiras dois períodos fundamentais da vida desse grande pensador: a sua vida (profissional e intelectual) na Espanha e a sua fase de exílio, mais especificamente, a sua passagem pela Argentina e Brasil. Não obstante, é possível assinalar certos aspectos que entrelaçam as diferentes abordagens realizadas pelos autores sobre um determinado aspecto da extensa e diversificada atuação de Mira y López. A abordagem historiográfica utilizada nos trabalhos apresentados nos parece enfatizar dois pontos capitais de sua trajetória: seu papel como difusor da ciência (psicologia, psicanálise, psiquiatria) e as tentativas de articular política e psicologia por meio de sua atuação profissional. É claro que esses dois aspectos não esgotam todas as questões abordadas pelos referidos autores, como se pode notar na exposição de temas não menos importantes para entender a obra de Mira, como a discussão do papel da psicanálise e da psicotécnica em sua produção intelectual em decorrência da sua adesão ao “credo positivista” que marcou a ciência da época em que viveu. Mas optamos aqui por dar destaque a esses dois pontos na tentativa de demonstrar a proximidade e afinidade discursiva dos textos reunidos nessa mesa redonda.

A mesa foi composta por quatro apresentações. Rosa Falcone, da Universidade de Buenos Aires, com o texto intitulado “Emílio Mira y López. Suas valiosas contribuições à psicoterapia médica durante seu exílio na Argentina (1940-1944)”, inicia a exposição de suas ideias tomando como base do desenvolvimento do pensamento e da produção intelectual de Mira y López as duas principais etapas de vida: a sua estada na Espanha e o seu período de exílio. É a partir desse recorte temporal que a autora se dedica a apresentar a passagem (breve) do cientista pela Argentina. Contudo, mesmo breve, esse evento teve um significativo impacto no debate médico e intelectual argentino, principalmente no que tange às questões que giravam em torno das práticas de psicoterapia e ao uso da psicanálise no campo médico. Na tentativa de aprofundar essas questões, a autora revisa os artigos psicanalíticos de Mira y López anteriores a 1936 e em seu livro intitulado Manual de psicoterapia, publicado na Argentina em 1942.

Rosa Falcone demonstra como a publicação do Manual de psicoterapia está articulada ao movimento de Higiene Mental, bastante importante no círculo psiquiátrico argentino da época. O debate construído por Mira a respeito da higiene mental se dirige mais especificamente para os temas da psicoterapia (e em quem pode exercê-la) e para a assistência aos alienados. E, a partir desses temas, ele enfatiza a importância da especialidade médica na prevenção das doenças mentais. Falcone realça ainda a vasta produção intelectual de Mira y López no curto espaço de tempo em que permaneceu nesse país: entre 1940 e 1944. Mas isso não impediu que a sua influência fosse significativa junto aos círculos universitários e médicos da Argentina. E isso parece ficar evidente se atentarmos para o significativo acervo publicado em solo argentino dos trabalhos de Mira, como fica demonstrado no artigo de Rosa Falcone. A autora demonstra ainda como o Manual vai servir de veículo difusor de certas ideias e práticas da medicina que ainda não faziam parte da prática e do ensino oficial de medicina na Argentina e na América Latina, e o quanto a obra e a atuação de Mira y López respondem a essa demanda.

A psicanálise ainda era recente na América do Sul quando Mira a utilizou como referencial teórico para discorrer sobre a importância da psicoterapia e do papel do médico no uso e difusão dessa prática clínica. Como Falcone afirma, o Manual é resultado de cursos ministrados sobre essa disciplina quando da sua passagem pela Argentina. Segundo ela, esses cursos e a sua repercussão sinalizam para a carência do ensino oficial de psicoterapia nos cursos de }medicina da época. A autora demonstra como a psicoterapia será definida em termos de especialidade médica, em oposição às práticas de charlatanismo, o que aponta para o momento de produção de disputas inerente à formação dos espaços de constituição de um saber científico. Contudo, ela deixa claro que a psicanálise que Mira apresenta é um apanhado de doutrinas psicológicas, o que fez com que a psicanálise descrita por Mira fosse considerada por alguns autores como superficial. Mas, valendo-se de conceitos psicanalíticos, como “pressão”, “associação livre”, “interpretação dos sonhos” etc., Mira apresentou para o público argentino os recursos que a psicanálise havia elaborado na luta contra o sofrimento psíquico.

Outro aspecto destacado pela autora diz respeito ao papel da psicanálise. Segundo a visão de Mira, esta era uma forma de “compreensão profunda das ações humanas e das suas motivações”, o que parece ter contribuído para a sua visão mais ampla dos fenômenos psíquicos. Além disso, ela ressalta como o contato com as obras freudianas possibilitou que a primeira geração de psiquiatras espanhóis (Láfora, Sacristán, Sanchís Banús e o próprio Mira y López) pudesse se libertar da influência francesa por meio da leitura feita dessa recente produção intelectual alemã. Não obstante, ressalta a contradição de certa interpretação de Mira acerca de algumas noções da teoria psicanalítica quando este afirma “que a medicina é o fundamento da prática psicoterapêutica”, já que é sabido que o autor vienense caminhou na direção de apontar a medicina como “a principal resistência à psicanálise”.

O segundo trabalho, de autoria de Nádia Rocha, da Faculdade Rui Barbosa, da Bahia, intitulado “Emílio Mira y López na mídia impressa baiana: 1946 a 1961”, analisa a passagem de Mira y López pela Bahia e a sua atuação como difusor de temas ligados ao campo psicológico. Pode-se perceber uma significativa aproximação entre o trabalho de Nádia Rocha e de Rosa Falcone, já que ambos discutem o impacto da figura de Mira y López junto às sociedades intelectuais pelas quais passou.

A autora apresenta a pesquisa realizada a partir de um conjunto de matérias publicadas em jornais de Salvador (BA), que compreendem o período de 1946 a 1961. Ela relata que as visitas realizadas por Mira ao estado da Bahia ocorreram nos anos de 1946, 1952, 1955, 1957, 1958, 1959, 1960 e 1961. O material selecionado e analisado foi publicado em oito periódicos diferentes, sendo o jornal Diário de Notícias o que concentrou o maior número de publicações analisadas. O que chama a atenção é a quantidade significativa de informações que puderam ser reunidas a partir da análise desses materiais jornalísticos. Os temas das suas apresentações eram os mais variados, abrangendo questões como higiene mental, problemas de aprendizagem, seleção e orientação profissional ou técnicas projetivas. Isso aponta para o caráter eclético da atuação de Mira y López durante toda a sua vida intelectual. O artigo apresenta três tabelas: 1) que descreve as publicações das informações nos diversos jornais baianos (A Tarde; Diário da Bahia; Diário de Notícias; O Estado da Bahia etc.) sobre a passagem de Mira segundo uma ordem cronológica (1946-61); 2) que descreve a data da ocorrência, o título das conferências proferidas, além dos órgãos ou entidades promotoras do evento; e 3) que descreve as atividades (conferências, aulas, seminários) preparatórias para a criação do Centro de Orientação Infantojuvenil da UFBA e os órgãos ou entidades promotoras do evento.

A autora ressalta a importância e o impacto dessas passagens de Mira y López pela Bahia ao destacar o conteúdo das informações veiculadas pelos jornais da época. Pode-se ler no jornal O Estado da Bahia, de 1946, a informação que Mira era “uma das maiores autoridades científicas mundiais” e que permaneceria por 20 dias no Estado, realizando conferências. E, em 1952, ele é retratado como o “responsável pelo movimento psicotécnico do país” no vespertino Diário de Notícias. Um dado curioso, presente em uma nota de rodapé, chama a atenção. Nessa curta passagem pelo Estado, a presença de Mira y López foi noticiada pelo jornal Momento, jornal do Partido Comunista Brasileiro da Bahia. Isso parece reforçar que a atuação política de Mira já era conhecida por parte da militância política brasileira de esquerda. Mas, ao que parece, suas visitas e conferências nesse momento de sua trajetória intelectual tinham mais cunho científico que político.

O papel e a importância da psicotécnica no trabalho de Mira y López são destacados pela autora ao sinalizar para o seu papel de destaque na implementação e consolidação do Instituto de Orientação Vocacional (IDOV), criado nos mesmos moldes do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), que já funcionava no Rio de Janeiro desde de 1949. Segundo a autora, as discussões para a criação do IDOV se iniciaram em 1955, mas o início do seu funcionamento só ocorreu em 1959.

A leitura atenta dos títulos dos cursos, conferências e seminários proferidos por Mira mais uma vez demonstram a sua preocupação com a difusão e popularização das ideias e práticas psicológicas para um público diversificado (acadêmicos e leigos). A sua imagem de “romancista da psicologia” parece ter sido fundamental para consolidar o seu papel de especialista e apontar para a importância da psicologia como ferramenta capaz de melhorar o cotidiano da sociedade, seja por meio da seleção mais eficaz dos motoristas de veículos (eliminando da função os “violentos e distraídos”), seja por meio da seleção e orientação infantojuvenil (garantindo a “assistência mental aos menores desajustados” e a compreensão da “dinâmica interpessoal do menor”).

O artigo de Nádia Rocha expõe novos dados e nos leva a compreender cada vez mais a importância da atuação institucional de Mira y López e do seu papel de principal difusor dos métodos e da prática da psicotécnica no Brasil.

O texto de Hélio Carpintero, da Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED), da Espanha, intitulado “Emílio Mira e sua experiência na URSS (1931)”, é fruto de uma leitura da trajetória de Mira y López em que suas ideias e posicionamentos políticos são enfatizados. Tomando como norteador analítico de sua exposição a passagem de Mira y López pela União Soviética, fruto de sua participação na VII Conferência Internacional de Psicotécnica, ocorrida em Moscou, em 1931, Carpintero demonstra como a preocupação de Mira y López com as questões sociais tomam um viés assumidamente de esquerda desde muito cedo. O autor aponta a forma positiva e favorável com que o projeto de “homem novo” presente no projeto soviético marca os textos escritos por Mira sobre a sua experiência a respeito desse modelo revolucionário. O autor descreve ainda como Mira participou da fundação da União Socialista da Catalunha em 1923, o que mais tarde será o núcleo fundador do Partido Socialista Unificado da Catalunha, este criado em 1936. Nota-se que esse prematuro engajamento de esquerda impulsionou a sua adesão aos movimentos de higiene mental espanhol. Essa experiência junto a esses movimentos seria reproduzida em sua passagem pela Argentina, como aponta o artigo de Rosa Falcone.

O período de análise do artigo de Hélio Carpintero compreende o período profissional de Mira y López que antecede a sua fase de emigração. O autor se propõe a enfocar a passagem de Mira pela União Soviética (década de 1930) e demonstrar como isso está intimamente articulado a sua preocupação com os problemas sociais que marcavam a sociedade espanhola da época, o que pode ser confirmado pela publicação de suas experiências na revista Justicia Social, periódico ligado ao partido denominado União Socialista da Catalunha (USC), no qual aborda essa questão. Não menos importante seria a sua participação na fundação desse mesmo partido, em 1923, organização que mais tarde se tornaria o Partido Socialista Unificado da Catalunha (PSUC), no ano de 1936. Carpintero sinaliza para a importância do papel desse movimento político na constituição dos movimentos de higiene mental na Espanha. Esse ponto é relevante, pois Rosa Falcone também apresenta indícios da participação de Mira nos movimentos de higiene mental quando trata da sua passagem pela Argentina.

O trabalho de Carpintero ressalta a participação de Mira y López na criação e manutenção da Société Internationale de Psychotechnique (Sociedade Internacional de Psicotécnica), desde 1920, e que levou a sua participação no congresso em Moscou no ano de 1931. Discorrendo sobre os aspectos técnicos, morais e filosóficos do trabalho, Mira apresentou um artigo intitulado “La professiographie” (“A profissiografia”), em que mais uma vez demonstra sua dívida ao campo da psicanálise quando se faz valer de Alfred Adler e de sua psicanálise da vocação. Contudo, o ponto mais relevante dessa visita a Moscou foi o contato direto que ele teve com o modelo soviético e o aspecto ideológico desse sistema político voltado para a elaboração de um projeto de transformação da realidade social. Isso fica evidente nos depoimentos e escritos que resultaram dessa experiência em solo soviético, que realizam uma análise descritiva do cotidiano dos trabalhadores sob esse regime social e tece comentários (elogiosos) sobre a base ideológica da proposta comunista soviética ao citar o papel de Stalin e Lenin na consolidação desse mesmo modelo.

Cabe ainda comentar sobre a interpretação “psicológica” da revolução russa feita por Mira y López a partir da ideia de uma “tipologia etnológica” daquela população baseada em um biologismo evolucionista que cairia em desuso já naquela mesma década. Valendo-se da ideia de “homem primitivo” para descrever a maior parte da população russa, o referido cientista tenta demonstrar como a revolução será o motor de transformação dessa sociedade. Nesses trabalhos também fica evidente a distinção que Mira estabelece entre os modelos socialista e comunista. Deixando claro que percebe as deficiências do modelo comunista, ele considera que o modelo socialista parece ser o caminho mais justo (segundo ele, “nem burguês, nem proletário”) por se aproximar dos critérios científicos, e por isso mais objetivos, capazes de construir soluções melhores para a sociedade. Essa “afinidade ideológica” com o socialismo fará com que Mira não deixe de apontar para as limitações apresentadas pelo regime russo, mesmo que continue a afirmar a sua forte aproximação aos modelos políticos de esquerda.

E, por fim, a apresentação de Annette Mülberger, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), da Espanha, intitulada “É melhor morrer de pé que viver de joelhos: Emílio Mira y López e a revolução social”, discorre sobre como as análises psicológicas de Mira estão marcadas pela ideia do papel da psiquiatria na transformação social. A sua pesquisa se situa no período que antecede a ascensão ao poder do modelo franquista na Espanha, fenômeno que provocará o exílio forçado desse cientista. Por outro lado, Mülberger enfatiza a postura socialista do trabalho científico de Mira em decorrência da forma como esse autor relaciona política e psicologia.

O trabalho de Mülberger mantém uma afinidade temática com a linha de análise apresentada por Helio Carpintero, já que dá destaque ao aspecto político da vida de Mira, esmiuçando a sua importância para a formatação das ideias e projetos sociais desse psicólogo. E, da mesma forma que Carpintero, ela apontará para os usos que o modelo científico tem na obra de Mira y López: ele foi uma ferramenta importante na tentativa de entender e interpretar as complexas relações sociais da maneira mais objetiva possível. Mira é impelido pelo interesse de compreender a relação entre o trabalho científico e a política com o intuito de realizar uma verdadeira revolução social. Por isso sua aproximação com a ideologia socialista e com os princípios do materialismo histórico. Mas, da mesma forma que Carpintero, a autora apontará para os efeitos das ideias evolucionistas na obra de Mira, ideias “herdadas” de seu mestre August Pi y Suñer (da “Escola Biológica Catalã”). A autora também aponta a atuação profissional de Mira como o fator que permite a ele travar contato desde muito cedo com a difícil situação econômica e social de determinada parcela da população catalã, geradora de sua exclusão social.

O artigo de Mülberger dá grande destaque ao ambiente político e intelectual em que viveu Mira y López entre as décadas de 1920 e 1930, reforçando o caráter politizado desse período e o lugar que a medicina teve como mecanismo de intervenção e diagnóstico social. É importante comentar o minucioso trabalho realizado pela autora sobre a rede de relações institucionais (políticas, profissionais e sociais) da qual Mira fez parte nessa época. Articulando sua atuação política com a sua formação profissional, a autora apresenta um quadro bastante claro desse momento histórico da sociedade espanhola e de como um certo “credo socialista” serviu de base para o sonho utópico de transformação da sociedade que acalentou o trabalho profissional desses médicos.

O trabalho de Mülberger percorre de maneira pormenorizada o desenvolvimento das alianças políticas e a participação de Mira na construção de um movimento de esquerda espanhol. Como Carpintero, ela aponta para a relação muito próxima entre a preocupação social e um cientificismo positivista, que tinha como objetivo criar as condições propícias para uma real transformação da sociedade. A pesquisadora aponta a adesão partidária de esquerda precoce feita por Mira ao partido União Socialista da Catalunha (USC), assumindo a organização da seção cultural dessa entidade. A importância daquela organização política também foi referida e discutida no artigo de Helio Carpintero. A autora também faz menção à colaboração e participação de Mira junto ao periódico Justicia Social.

O texto esclarece como o início da vida profissional de Mira está ligado a uma grande preocupação com a desigualdade social e aos grupos sociais excluídos socialmente, como a classe trabalhadora catalã. Ao que parece, pode-se ver isso como um fator que favoreceu sua adesão aos movimentos científicos e políticos (de esquerda) que surgiram nas décadas iniciais do século XX. Não parece ser fortuita, portanto, a sua participação política (União Socialista da Catalunha) e científica (psicanálise) de primeira hora aos movimentos sociais que tinham um caráter considerado “revolucionário”. E é esse mesmo olhar sobre a classe trabalhadora que parece ter feito Mira y López se interessar cada vez mais pela orientação profissional, bem como aperfeiçoar suas ferramentas na tentativa de construir um “novo homem”. A ideia de elaborar um modelo de organização científica do trabalho marcaria o estudo de Mira y López desde o início, o que pode ser constatado pelo comentário que a autora faz da participação de Mira junto ao Instituto de Orientação Profissional de Barcelona (IOP), por meio da sua direção do laboratório psicométrico e da seção experimental a partir de 1919. Se esse projeto de mediação entre os interesses das classes trabalhadora e patronal – que é o resultado da tentativa de objetificação científica da orientação e seleção profissional pretendido por Mira – fracassou inicialmente, como aponta Mülberger, este será bastante exitoso quando do exílio forçado que o cientista fará a partir da vitória do movimento franquista na Espanha. Mülberger chama atenção para as tentativas de apagamento histórico da obra de Mira na sociedade espanhola sob o jugo franquista, ignorando sua importância e reputação internacional. O resgate dessa história ainda é recente.

Por fim, cabe ressaltar neste texto o instigante debate que a autora apresenta sobre as interpretações e análises de cunho socialista de Mira e o modelo materialista-histórico formulado inicialmente por Marx e Engels, buscando dar intelegibilidade a esse debate a partir de uma perspectiva e de uma abordagem histórica. Tomando como chave interpretativa a constituição da relação entre a ideia de revolução e o olhar médico-psicológico, Mülberger estabelece uma “linhagem” analítica sobre o tema. De Taine a Mira y López, a compreensão do fenômeno da revolução e a sua relação com as massas será tema recorrente no campo médico-psicológico. Gustave Le Bon, Charles Ellwood, William MacDougall e José Ortega y Gasset não são esquecidos por Mira quando este busca uma explicação psicológica para o problema do fenômeno revolucionário. E é também por esse caminho que a autora tenta demonstrar a adesão teórico-política de Mira e a sua ligação na polêmica política dos círculos europeus da época, que opunha socialismo a comunismo ante a pergunta: “evolução ou revolução social?”.

A inclinação teórica e política de Mira ao projeto de uma “evolução ideológica do proletariado”, a partir de uma orientação técnica conduzida pela ciência e pelos cientistas, colocou-o em uma situação de maior ênfase à cultura que à revolução como mecanismo de transformação e justiça social. Contudo, a autora aponta para a transformação que o conceito de revolução tomou na obra e vida de Mira a partir da década de 1930, época de sua passagem por Moscou, tema que foi mais bem retratado no artigo de Carpintero. Tomando como referência o seu trabalho sobre o “comportamento revolucionário” (presente na obra Problemas psicológicos atuais), a autora descreve o ponto de vista psicológico de Mira sobre o problema da revolução e o desenvolvimento da humanidade. E é aqui que o enfoque evolucionista e biológico-individual de Mira substitui a perspectiva histórico-materialista do marxismo. É Mülberger quem afirma: “Em vez de adotar um ponto de vista sociológico e materialista, Mira estuda a revolução como um fenômeno de massas a partir das coordenadas de uma psicologia individualista”. Usando de uma linguagem mais clínica que política, Mira constrói uma tipologia psicológica à maneira kretschmeriana na tentativa de explicar as fases pelas quais passa o indivíduo antes, durante e depois de um processo revolucionário. Isso só corrobora o caráter individualista e evolucionista apontado por Mülberger. Curiosamente, como também aponta a autora, Mira não se valeu nesse trabalho das contribuições de Freud e de outros autores da psicanálise (Reich) sobre esse assunto.

O trabalho de Mülberger fornece novos caminhos de análise da obra de Mira e de sua importância como um difusor e popularizador de ideias e conceitos psicológicos. Ela demonstra ainda como a investigação da atuação política de certos agentes sociais pode ser fundamental para a compreensão dos desdobramentos históricos de seus modelos teóricos. Se, por um lado, a autora aponta as contradições teórico-políticas desse pesquisador, por outro, ela enfatiza que seu posicionamento sempre foi o de tentar corrigir as desigualdades sociais a partir de um olhar crítico (de esquerda) a respeito da sociedade.

Consideramos que os trabalhos aqui reunidos trazem uma grande contribuição para os estudos em história da psicologia. A escolha desses autores demonstra o crescimento e o avanço no campo da história da psicologia e o quanto suas contribuições fomentam novos debates a partir de temas considerados já consagrados. Os autores aqui apresentados nos fornecem novas pistas sobre o papel de Mira y López na construção e consolidação de um saber e de uma prática psicológica que não pode ignorar a investigação e a compreensão das transformações da sociedade na qual se constitui. Valendo-se da reconstrução histórica do papel dos agentes sociais (e do contexto histórico-social), os autores demonstram a relevância da pesquisa histórica como analisador crítico do saber e da prática científica. Isso nos informa sobre a importância do método histórico como recurso fundamental para pensar o lugar da psicologia no que tange ao saber e à prática implicada na transformação social.

 

Referências

 

Jacó-Vilela, A. M. e Rodrigues, I. T. “Emilio Mira y López: uma ciência para além da academia”. Arq. Bras. Psicol., Rio de Janeiro,

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Martins, H. V. “Uma história da psicologia em revista: retomando Mira y López”. Arq. Bras. Psicol., Rio de Janeiro, v. 66, n. 3, 2014. Disponível em:

http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/article/view/860/902. Acesso em: 01 maio de 2015.

 

Rosas, P. Mira y López: 30 anos depois. São Paulo: Vetor, 1995.

 

Rossi, Lucía A. et al. “Emilio Mira y López en Argentina”. Revista de Historia de la Psicologia, v. 35, n. 2, pp. 93-110, jun. 2014.

Disponível em: http://www.revistahistoriapsicologia.es/revista/2014-

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Silva, A. R. Arquivo Brasileiro de Psicotécnica, v. 16, n. 2/3, pp. 5-102, 1964.