Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Cap. 4 – A internacionalização em história da psicologia: uma reflexão sobre suas possibilidades e seus desafios

Capítulo 4 - A

 

internacionalização em história

 

da psicologia: uma reflexão

 

sobre suas possibilidades e

 

seus desafios

 

Saulo de Freitas Araujo

 

A internacionalização é uma das questões centrais nas discussões contemporâneas sobre as metas e os rumos da educação superior em todo o mundo. Nos países em desenvolvimento, em especial, observa-se uma tendência à sua valorização como meta fundamental, criando-se, para tanto, muitos incentivos não apenas no sentido de facilitar a mobilidade de seus estudantes e pesquisadores ao estrangeiro, mas também de garantir uma maior qualidade de suas instituições de ensino e pesquisa (Altbach e Knight, 2007; Ilieva et al., 2014; Lima e Maranhão, 2009; Taylor, 2004; Teichler, 2004; Wit, 2009).

No Brasil, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES), agência federal que regula os cursos de pós-graduação no país, enfatiza, em seu mais recente Plano Nacional de Pós-Graduação, a necessidade de uma “interação mais intensa entre instituições brasileiras e internacionais” (CAPES, 2010, I, p. 303). Nesse sentido, projeções para o ano de 2020 incluem uma perspectiva de crescente internacionalização para a pós-graduação brasileira (Gazzola e Fenati, 2010; Almeida, 2010).

É curioso notar, contudo, que o termo “internacionalização” aparece nesses debates contemporâneos com significações bem diferentes, de forma que nem sempre as pessoas estão se referindo ao mesmo fenômeno (p. ex., David, 1992; Gao, 2014; Harris, 2008; Ilieva et al., 2014; Jiang, 2008; Stier, 2004; Yang, 2002). Como consequência, seu sentido torna-se ambíguo e, às vezes, pouco claro, o que pode dificultar o entendimento do que está sendo debatido.

Tendo em vista a importância do tema para o momento atual da educação superior brasileira em geral, e para a formação do psicólogo brasileiro em particular, o objetivo do presente trabalho é oferecer uma reflexão preliminar sobre as possibilidades e os desafios da internacionalização em psicologia, tomando como exemplo a história da psicologia.

Para alcançar meu objetivo, vou dividir o trabalho em quatro etapas. Primeiro, discutirei o conceito de internacionalização na educação superior e alguns de seus desdobramentos possíveis. Em seguida, restringirei seu significado à dimensão da cooperação acadêmica entre programas de pós-graduação, analisando suas características básicas. Em um terceiro momento, mostrarei como essas características se aplicam ao caso específico da história da psicologia no contexto brasileiro. Finalmente, apontarei alguns desafios futuros que os programas de pós-graduação terão de enfrentar para levar adiante a meta da internacionalização.

 

O conceito de internacionalização

 

No seu sentido mais geral, o verbo “internacionalizar” refere-se ao processo de tonar-se internacional, e o substantivo “internacionalização” indica o resultado desse processo, podendo ser algo que já se tornou ou ainda se tornará internacional (Marrara, 2007). No entanto, esse esclarecimento preliminar está longe de elucidar o sentido do termo nos debates contemporâneos. É preciso aprofundar sua análise.

Para tornar visível a complexidade e a multiplicidade de significações da internacionalização, proponho aqui esquadrinhar o conceito em quatro dimensões distintas de análise, que se relacionam a quatro questões fundamentais:

 

1. O que vai ser internacionalizado?

2. Quem serão os agentes da internacionalização?

3. De que forma isso vai ser feito?

4. Quem vai financiar?

 

A primeira questão refere-se ao objeto da internacionalização. Dada a impossibilidade de internacionalizar tudo de uma só vez, é preciso ter bem claro em mente o que queremos priorizar. Por exemplo, pensando no tripé da universidade brasileira (ensino-pesquisa-extensão), é possível eleger apenas um dos três elementos para iniciar o processo de internacionalização. Por outro lado, é igualmente possível focalizar a formação geral dos docentes e discentes, a instituição, os programas de pós-graduação, etc. Cada um desses objetos exige políticas e estratégias distintas, ainda que em algum nível elas possam se cruzar.

A segunda questão diz respeito aos sujeitos do processo. Quem se tornará internacional? É possível pensar em uma internacionalização voltada primariamente para os discentes. No entanto, é muito comum que os docentes de uma instituição sejam os privilegiados. Finalmente, não é nenhum absurdo imaginar um processo voltado para representantes da administração, uma vez que eles têm um papel importante na comunicação com instituições estrangeiras e na realização de acordos internacionais.

Uma terceira dimensão do processo relaciona-se ao modo como ele será implementado. Isso pode ocorrer por meio de mobilidade física, com deslocamento dos envolvidos no processo até o país de destino. Como alternativa a isso, pode-se formular uma estratégia de treinamento local, sem que saiam do seu país de origem. Além disso, a forma da internacionalização pode ser pensada em termos de atividade e passividade. O modelo ativo envolve o recebimento de docentes, discentes e pesquisadores internacionais, enquanto o passivo refere-se ao envio de pessoas a uma instituição estrangeira (Lima e Maranhão, 2009; Marrara, 2007). Por fim, o processo de internacionalização pode acontecer de forma vertical ou horizontal. No primeiro caso, países do sul enviam seus representantes a países do norte, ao passo que, no segundo, há o fortalecimento das relações sul-sul (Morosini, 2011).

Finalmente, a quarta e última questão está associada à dimensão econômica da internacionalização. Nesse caso, é preciso ter bem claro quem vai financiar o processo. É comum pensar que o Estado deve incentivar e arcar com todas as despesas, mas é igualmente possível que uma instituição privada ou indivíduos isolados resolvam financiar a sua própria internacionalização, sem depender em nada do Estado. Uma alternativa viável seria uma parceria do Estado com a iniciativa privada, em que o ônus fosse compartilhado.

A discussão prévia dessas quatro questões facilita enormemente não só a comunicação de objetivos e propostas, mas também a criação de estratégias de ação e de instrumentos de avaliação. Nesse contexto, é importante enfatizar que a internacionalização não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio para atingir objetivos (Knight, 1997, 2004; Knight e Wit, 1998). Consequentemente, quanto mais clara estiver a definição desses objetivos, maior será a facilidade para situar a nossa perspectiva de internacionalização.

 

A internacionalização como

 

cooperação acadêmica

 

Com base no que foi dito anteriormente, passo agora a esclarecer o sentido que adotarei aqui para o termo “internacionalização”: daqui em diante, restringirei minha discussão sobre internacionalização ao âmbito da cooperação acadêmica entre programas de pós-graduação (PPGs) e centros de pesquisa, tendo em vista o já referido Plano Nacional de Pós-Graduação (CAPES, 2010). Assim, a questão que imediatamente se impõe é: como pensar essa cooperação acadêmica dentro daquelas quatro dimensões anteriormente estabelecidas?

Em relação ao objeto da internacionalização, penso que ela deveria envolver tanto o ensino quanto a pesquisa. Nesse caso, os programas de pós-graduação e os centros de pesquisa a eles vinculados buscariam a cooperação acadêmica com programas ou centros internacionais para compartilhar estratégias de ensino e de investigação científica, resultando em inovações didáticas e em produção de conhecimento no âmbito mundial. Por exemplo, no plano do ensino, seria interessante que os PPGs brasileiros criassem cursos para atrair estudantes internacionais, ao mesmo tempo que continuassem enviando seus estudantes a centros de excelência em todo o mundo. No que diz respeito à pesquisa, a estratégia mais evidente seria a expansão das parcerias de pesquisa e das publicações internacionais, com a criação de novos acordos bilaterais, garantindo o intercâmbio entre instituições brasileiras e estrangeiras.

Do ponto de vista dos sujeitos desse processo de internacionalização, o enfoque inicial seria em discentes e docentes vinculados aos PPGs e seus respectivos centros de pesquisa. Isso valeria tanto para o âmbito do ensino quanto da pesquisa. No primeiro caso, a criação de cursos em língua inglesa para mestrandos e doutorandos estrangeiros seria um ótimo exemplo de como os docentes dos PPGs brasileiros estariam inseridos no processo. No segundo caso, a criação de parcerias em projetos de pesquisa envolvendo grupos de docentes e discentes seria a maneira mais rápida de atingir a internacionalização no plano da investigação e da produção de conhecimento.

No que diz respeito à sua forma, a estratégia mais efetiva parece ser a mobilidade acadêmica dos discentes e docentes envolvidos. Em um estágio preliminar, seria possível pensar em um treinamento local prévio, feito por agentes internacionais (docentes e pesquisadores) junto aos PPGs, mas o deslocamento dos agentes brasileiros é indispensável para que o processo de internacionalização seja bem-sucedido. A experiência de viver e trabalhar em centros e programas de pesquisa no exterior é insubstituível.

Ainda em relação à forma, uma cooperação acadêmica ideal deveria ser tanto ativa quanto passiva, isto é, ela deveria envolver tanto a recepção de agentes internacionais quanto o envio de agentes brasileiros ao exterior, dependendo sempre das condições concretas de cada PPG em questão. Da mesma forma, a escolha entre a cooperação vertical (sul-norte) ou horizontal (sul-sul) não deveria ser feita em termos de exclusividade, mas em razão das estratégias de prioridade estabelecidas pelo governo federal e pelos PPGs envolvidos. Se o objetivo final da cooperação é incentivar a criação e a consolidação de centros de excelência em pesquisa e produção de conhecimento, a cooperação vertical tem sido a estratégia mais bem-sucedida para os PPGs e centros de pesquisa no Brasil. Finalmente, é importante ter em mente uma distinção entre dois estágios distintos de cooperação acadêmica internacional: a cooperação inicial e a cooperação avançada. Enquanto a primeira se caracteriza pela formação de discentes e docentes, a segunda envolve a criação de acordos bilaterais ou multilaterais e a produção conjunta de conhecimento. Como há uma grande discrepância entre os PPGs brasileiros em relação tanto à formação de seu quadro docente e discente quanto às estratégias de produção de conhecimento, é sempre necessário levar em conta a particularidade de cada PPG e suas possibilidades reais de internacionalização.

A quarta e última dimensão da cooperação acadêmica internacional é a econômica. Em grande parte, as escolhas anteriormente esboçadas dependem da disponibilidade e da natureza do financiamento em questão. No Brasil, a cooperação internacional no âmbito dos PPGs tem dependido essencialmente de financiamento da CAPES e do CNPq. Trata-se, pois, de financiamento estatal, com todos os seus riscos e suas instabilidades. Mas é igualmente possível que, no futuro, algumas áreas de conhecimento consigam estabelecer parcerias com a iniciativa privada no Brasil e no exterior, gerando assim outra via de financiamento para a internacionalização de grupos de pesquisa brasileiros.

 

A internacionalização em história da

 

psicologia

 

A psicologia não ficou à margem dessas discussões sobre a internacionalização. De uma forma ou de outra, o tema tem sido levantado e discutido no Brasil e no exterior (p. ex., Bullock, 2013; Feitosa, 2007; Lo Bianco, 2009; Veiga, 2014). No entanto, pelo menos no caso brasileiro, isso ainda tem sido feito de forma bastante incipiente e desconexa, refletindo talvez o baixo nível de internacionalização da área no país. Com base em três levantamentos recentes sobre a psicologia brasileira – envolvendo o perfil dos programas de pós-graduação e a produção científica de artigos (Costa et al., 2014; Lo Bianco et al., 2010; Pilati, 2013) –, podemos facilmente concluir que ainda estamos em uma situação pouco confortável. Especialmente com relação à produção de conhecimento, estamos bem distantes de uma internacionalização efetiva. O que fazer para melhorar esta situação?

A partir do que foi dito acima, vou apresentar aqui uma reflexão sobre possibilidades de internacionalização da psicologia brasileira, restringindo-me aqui à minha área de atuação: a história da psicologia. Para tanto, vou aplicar a este caso específico os critérios desenvolvidos na Seção 2, mostrando como a internacionalização, entendida como cooperação acadêmica, pode ser pensada e concretamente realizada no âmbito dos PPGs e dos centros de pesquisa relacionados à história da psicologia.

Em primeiro lugar, há três pré-condições mínimas que qualquer iniciativa de internacionalização deve satisfazer para lograr sucesso: a) um interesse comum entre os pesquisadores das instituições envolvidas, possibilitando a construção de um projeto de cooperação internacional bem fundamentado; b) o domínio de pelo menos um idioma estrangeiro por parte dos agentes brasileiros, tendo o inglês um peso geralmente maior do que os outros idiomas; c) possibilidade de financiamento.

A partir daí, é possível pensar concretamente as quatro dimensões específicas que vão compor e definir o projeto. Começando pelo objeto, a internacionalização pode visar tanto ao ensino quanto à pesquisa, isto é, a cooperação pode envolver o oferecimento de disciplinas específicas da área em cada instituição e também a elaboração e o desenvolvimento de projetos de pesquisa em conjunto. Em relação aos agentes, ela pode envolver docentes e discentes vinculados aos PPGs e aos centros de pesquisa em psicologia. Quanto à forma, penso que se deve privilegiar a mobilidade física dos agentes, pois é o meio mais eficaz de realizá-la. Ainda sobre a forma, seria ideal que ela fosse ativa e passiva, ou seja, que o projeto previsse não apenas o envio de docentes e discentes brasileiros ao exterior, mas também a recepção de docentes e discentes estrangeiros. Finalmente, seria mais fácil esperar uma forma compartilhada de financiamento, em que cada instituição arcasse com os custos de seus agentes.

A fim de ilustrar algumas dessas possibilidades, relatarei agora três projetos de cooperação acadêmica internacional na área de história da psicologia que estão sendo elaborados junto ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Todos esses projetos encontram-se ainda em sua fase inicial de planejamento, embora já tenham gerado algumas ações concretas (visitas, conferências etc.).

O primeiro deles envolve uma parceria com a Universidade de Bari (Itália). Para começar, pensamos em promover a cooperação entre docentes para ministrar disciplinas e seminários em ambos os cursos de pós-graduação. Nesse caso, tanto as disciplinas quanto os seminários seriam ministrados em inglês. O objetivo básico é incentivar os discentes brasileiros e italianos a desenvolverem a habilidade de ouvir e debater temas relacionados à história da psicologia em inglês. Em um segundo momento, estamos planejando a cooperação em termos de produção. É provável que organizemos em conjunto um número especial de um periódico italiano, dedicado à história e à filosofia da psicologia, e também um livro didático em inglês para ser usado em ambos os programas de pós-graduação.

O segundo projeto em andamento envolve uma parceria com a Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), fruto de um projeto de pós-doutorado. Nesta fase atual, foi criado um grupo de estudos e debates em história e filosofia da ciência, envolvendo pesquisadores de vários países. Esse grupo se reúne regularmente (uma ou duas vezes por mês) por meio de webconferência para ler e discutir um conjunto de textos estabelecidos previamente. A partir desses encontros, planeja-se a criação de uma rede internacional de pesquisas na área, envolvendo a elaboração de projetos de pesquisa em conjunto e a realização de eventos e encontros com presença física dos participantes. Em termos de produção imediata, está prevista a produção conjunta de dois artigos internacionais (em inglês) sobre a história da psicologia alemã, envolvendo professores de dois departamentos diferentes. Além disso, já está acertado o envio de um discente brasileiro para fazer doutorado sanduíche sob a orientação de um dos professores.

Finalmente, ainda em fase de planejamento, há uma parceria com a Universidade de York (Canadá). Nesse caso, pretende-se estabelecer uma cooperação entre dois PPGs da mesma área (Teoria e História da Psicologia) com enfoque, primeiramente, no intercâmbio de discentes. Posteriormente, pretende-se estabelecer uma parceria em termos de um projeto de pesquisa envolvendo docentes e discentes de ambos os PPGs.

 

Desafios futuros

 

Gostaria de finalizar essa breve reflexão apontando os principais desafios que as iniciativas de internacionalização devem enfrentar. Em primeiro lugar, é preciso considerar a viabilidade de financiamento. A atual crise política e econômica do Brasil já sinaliza uma redução significativa dessas possibilidades. Como os PPGs brasileiros dependem essencialmente do governo federal, é praticamente impossível implementar qualquer projeto ou programa de cooperação internacional sem o financiamento da CAPES ou do CNPq.

Em segundo lugar, é fundamental enfrentar a barreira da língua. O inglês é hoje a língua internacional da ciência, assim como o latim o foi em séculos passados. Gostemos ou não disso, trata-se de um fato indiscutível, que se coloca no horizonte da vida acadêmica mundial e ainda está longe de dar sinais de enfraquecimento. É preciso, pois, enfrentá-lo. Uma internacionalização dos PPGs, para além de iniciativas individuais e isoladas de poucos docentes, demanda um esforço coletivo de todo o grupo. Para tanto, os PPGs precisam flexibilizar sua estrutura de funcionamento e se adequar às demandas da internacionalização, como, por exemplo, o oferecimento de cursos e atividades em inglês para atrair estudantes estrangeiros. Ainda que alguns deles venham ao Brasil para aprender o português, esse não é o ponto central da internacionalização.

Finalmente, parece-me que é desse esforço coletivo dos PPGs que poderia resultar um nível mais avançado de internacionalização das universidades brasileiras. Assim, a atual assimetria entre os PPGs sofreria uma diminuição sensível, com consequências positivas para a psicologia brasileira em geral, e para a história da psicologia, em particular.

 

Referências

 

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