Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Apresentação: Nossas práticas em história da psicologia

Apresentação: Nossas práticas

 

em história da psicologia

 

Ana Maria Jacó-Vilela

Dayse de Marie Oliveira

 

Há quase vinte anos realizamos os Encontros Clio-Psyché. O primeiro, pequeno, pouco divulgado, com somente uma pesquisadora de fora do Rio de Janeiro – Prof.ª Maria Helena Souza Patto, da USP – ocorreu em 1998. De imediato, organizamos um livro-coletânea, reunindo a conferência de Maria Helena, o belíssimo depoimento do Prof. Antonio Gomes Penna (intitulado “Minha caminhada na Psicologia”), as contribuições das mesas e, especialmente, das sessões coordenadas – era nosso interesse, à época, também dar visibilidade aos jovens pesquisadores.

De lá para cá, esta proposta se manteve. A cada Encontro, uma nova coletânea. Esta sequência permite apontar duas diferenças, entre as primeiras e as atuais: a partir do V Encontro, passamos a realizar o evento bienalmente, podendo nos dedicar então, em um ano, ao evento, e no seguinte, à produção do livro. Desde o X Encontro, temos uma grande participação de estrangeiros, oriundos principalmente da Argentina, onde a área de história da psicologia é muito forte, havendo diversos grupos de pesquisa e uma intensa publicação. Assim, esse é um intercâmbio extremamente edificante para nós.

Não pretendemos discutir aqui sobre o aprofundamento da investigação histórica que ocorreu nesse período. Uma leitura dos textos publicados, relativos aos diversos Encontros, possibilitará a percepção do avanço e a maior abrangência das discussões.

Queremos relatar aqui a riqueza do XI Encontro, a qual está muito presente neste livro.

Em primeiro lugar, tivemos uma grande presença de historiadores da psicologia oriundos de outros países, alguns da Europa (Espanha) e muitos da América Latina (Colômbia, México, Peru e Argentina), além de nossos colegas brasileiros. Essa diversidade permitiu que organizássemos – e aqui estão apresentadas – duas mesas: uma sobre cooperação internacional e outra em homenagem a Emílio Mira y López (1896-1964), personagem da história da Psicologia da Espanha, da Argentina, do Uruguai, do Brasil e de inúmeros outros lugares do mundo onde ministrou cursos, realizou conferências e teve seus livros editados. Esta homenagem teve como justificativa a comemoração dos cinquenta anos de seu falecimento.

Tivemos a oportunidade também de contar com dois depoimentos de personagens ímpares – e muito diferentes – da história da psicologia no Brasil. Esses depoimentos estão transcritos neste livro. São eles: o do Prof. Arrigo Angelini, professor Emérito da USP, que foi o primeiro presidente do Conselho Federal de Psicologia, ex-presidente da Sociedade Interamericana de Psicologia e representante do Brasil em diferentes instâncias internacionais; e o de Gregorio Baremblitt, argentino radicado no Brasil há quarenta anos, introdutor da análise institucional entre nós.

Os demais textos deste livro se referem a participações específicas e enriquecedoras, como a de Francisco Teixeira Portugal (“Políticas discursivas na história da Psicologia”), de Fernando Lacerda e de Maria Andrea Piñeda (“Modos de pensar e fazer psicologia através da história”), de Maria Lúcia Boarini e Juan Alberto Litmanovich (“Encontros e desencontros entre a psicologia e outros saberes ao longo da história”).

Constam também desta edição alguns outros trabalhos de suma relevância na historiografia da psicologia. Dois deles se dedicam à questão da Reforma Psiquiátrica: o de Maria Stella Brandão Goulart e seu grupo em Minas, que discute sobre o voluntariado brasileiro em Trieste; e o de Gláucia Silva e Maria Lúcia Boarini, sobre a relação entre os trabalhos de Nise da Silveira e as diretrizes da Reforma. Outros três trabalhos se referem à análise da contribuição de personagens específicos, como o de Rodrigo Miranda, Annette Hoffman e Marina Massimi sobre as neurociências, apontando o papel de Miguel Covian. Outro, de Tomás Caycho, discute o pensamento psicológico de Walter Blumenfeld. Um terceiro analisa a influência de William James sobre a produção de Jung. O último trabalho, de Lélio Fernando Martins, Adjane da Silva Batista e Andressa Maciel Corrêa (FAMATH), analisa um dos campos profissionais de atuação do psicólogo, o da violência doméstica.

Esse é o conteúdo deste livro, que agora submetemos ao escrutínio dos leitores. Para nós, que temos nos dedicado ao fazer historiográfico, tentar responder a perguntas que o presente nos traz implica construirmos uma história do passado por meio de narrativas. Dessa forma, é uma alegria trazermos estes trabalhos à luz, aguardando o retorno dos leitores e a realização de novos encontros, pois acreditamos que a psicologia é uma construção coletiva que dialoga constantemente com seu legado, para o que este livro pretende contribuir.