Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Cap. 7 – Emilio Mira y López e a revolução social: “É melhor morrer de pé do que viver de joelhos”

Capítulo 7 - Emilio Mira y López

 

e a revolução social: “É melhor

 

morrer de pé do que viver de

 

joelhos” 1

 

Annette Mülberger

Ana Maria Jacó-Vilela

 

Introdução

 

O trabalho como psiquiatra e psicólogo a serviço do indivíduo e da sociedade, nos anos 1930 na Espanha, aos poucos deixava os profissionais insensíveis diante dos problemas sociais e das mudanças políticas daquele momento. Tal como observam Salmón y Huertas (2005), o discurso científico foi uma arma usada por psiquiatras espanhóis na defesa da República durante a Guerra Civil. A ciência não foi apenas sinônimo de progresso técnico e de modernidade, mas também um instrumento de compreensão e intervenção social. Como veremos neste artigo, o trabalho de Mira y López sobre a revolução nasceu a partir da sensibilidade e inquietação, frutos de uma intenção de usar a ciência para entender e interpretar as complexas mudanças sociais.

Emilio Mira y López (1896-1964) é um personagem da história da psicologia e da psiquiatria muito conhecido no mundo hispânico e ibero-americano. É conhecido por ter sido o principal protagonista

no acesso da psiquiatria ao ensino universitário espanhol2 e por sua grande obra publicada, que abarca tanto temas psiquiátricos, como

psicológicos e pedagógicos 3. Se sua postura socialista não passou inadvertida nas aproximações biográficas que lhe dedicaram, também é certo que não se prestou especial atenção à sua produção psicológica relacionada com a política. O objetivo do presente trabalho é estudar, em seu próprio marco histórico (biográfico, científico e político), o trabalho psicológico de Mira em

relação à revolução social 4. Do ponto de vista historiográfico é interessante verificar como Mira relaciona seu trabalho científico com a política e, concretamente, examinar a concordância dos mesmos com respeito à crença socialista e aos princípios do marxismo histórico.

 

O contexto catalão e a atividade

 

política e profissional de E. Mira y

 

López (1896-1964)

 

Mira se formou no ambiente médico catalão, identificando-se com

a causa trabalhista e com o catalanismo político5. É possível que seu trabalho como médico municipal de assistência domiciliar, que começou em 1918, o tenha ajudado a tomar consciência da difícil

situação econômica e social em que viviam os desfavorecidos 6.

Ainda que, por um lado, seus rendimentos7 lhe permitissem levar uma vida privilegiada, por outro, participou assiduamente, junto com outros intelectuais comprometidos, em instituições dedicadas à formação trabalhista, tais como a Escola Del Treball, o Ateneu Obrer e o Ateneu Enciclopèdic Popular (Iruela, 1993). Nesta última instituição, compartilhou sua atividade com August Pi y Suñer, Joaquim Xirau, Jaume Serra Hunter, Rafael Campalans, Jaume Aiguader e outros.

Representando o que Hobsbawm (1994) denominou de “ciência politizada”, Mira não era o único médico que pareceu desenvolver uma sensibilidade diante das graves injustiças sociais naquela época. Assim, observa Granjel (1986) que, desde as décadas finais do século XIX e o primeiro trimestre do século XX, o intervencionismo político dos médicos se acentuava. Entre os psiquiatras madrilenos, destacava-se o médico positivista Jaime Vera, membro fundador do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e autor do primeiro documento teórico do marxismo espanhol, publicado em 1884 (León Sanz, 2006). Muitos intelectuais positivistas que também eram militantes socialistas, como Julián Besteiro (1870-1940), Miguel de Unamuno (1864-1936) e José Verdes Montenegro (1865-1939), mostraram uma preocupação social marcada por características das quais González de Pablo (1992) destaca o tom cientificista, o mecanicismo, o determinismo e o darwinismo social de esquerda.

Mira abraçou o socialismo e participou como membro fundador de um partido de esquerda catalão, a Unió Socialista de Catalunya. O partido, nascido em 8 de junho de 1923, depois da retirada do apoio do PSOE ao movimento catalão, tinha entre seus militantes, principalmente, intelectuais que aspiravam reunir forças políticas socialistas e progressistas na Catalunha. Mira formava parte da junta diretiva presidida por Gabriel Alomar como presidente, e Francesc Serra i Moret como vice-presidente, ocupando a seção cultural do partido (Martín i Ramos, 1997). Segundo Iruela (1993) e Cid (1996), a influência ideológica de Rafael Campalans (membro do partido, diretor da Universidad Industrial e um dos socialistas catalães mais prestigiosos daquela época) foi decisiva para o ingresso de Mira na Unió Socialista de Catalunya. No texto aprovado no congresso de fundação, em 1923, Serra fez o seguinte discurso, com o qual tentou definir a linha política do partido:

 

Confessamos-nos socialistas, e aplicando este princípio aos assuntos da

Catalunha, nos proclamamos socialistas catalães e, por sua vez, os

primeiros defensores de sua independência, a qual queremos estabelecer

sobre a base segura da socialização de toda riqueza universal (Sobrequés i

Callicó, 1983, p. 183, tradução nossa).

 

Como principal figura teórica do partido, elaborou o manifesto sobre três eixos essenciais que apontam para uma política moderada de esquerda: 1) a adesão ao ideário socialista e a integração desse ideário às reivindicações nacionalistas; 2) a atribuição à ala reformista do movimento trabalhista nacional; e 3) a defesa de uma política moderada e oposição ao uso de violência como arma ofensiva (Martín i Ramos, 1977, p. 160).

Depois de frustradas tentativas de fusão com a Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e partidos comunistas, a Unió se dissolveu em 1926. Quando reapareceu quatro anos mais tarde, apoiando os republicanos na luta contra a ditadura e Macià, presidente da Catalunha, e seu partido (Esquerda Republicana), Mira permaneceu simplesmente como colaborador do semanário Justicia Social.

Em relação à sua orientação política, é de interesse destacar sua colaboração com o Institut d’Orientació Professional de Barcelona (I.O.P.), uma instituição criada na proposta da Diputación para prestar serviço de orientação profissional à sociedade, no nível tanto individual como coletivo, e para dar canal às iniciativas catalãs em

matéria de organização científica do trabalho 8. Mira dirigiu o laboratório psicométrico da seção experimental desde 1919 até o início da Guerra Civil. Apesar do serviço de orientação e seleção realizado, como é mais detalhado em Kirchner (1975), segundo Medina e Rodríguez Ocaña (1992), não se pode falar em termos quantitativos de um alto impacto das tarefas do I.O.P. entre a classe trabalhadora. O feito de ter que mediar entre os interesses dos trabalhadores e o dos patrões foi complicado devido aos conflitos

sociais e políticos do momento9. Desde seu início, a iniciativa do Instituto se inscrevia como alternativa do capitalismo intervencionista, alinhando-se, por sua vez, com os princípios da legislação de proteção aos trabalhadores. No entanto, no julgamento dos citados autores, a posição institucional do centro fracassou porque não encontrou a colaboração das empresas, por um lado, nem o apoio por parte das associações trabalhistas, pelo outro.

A vida acomodada de Mira em Barcelona foi interrompida com a explosão da guerra civil, momento em que não duvidou em apoiar a

causa republicana, colocando-se à disposição do governo catalão10. Devido à sua colaboração com o lado perdedor, viu-se obrigado a exilar-se depois da derrota do exército republicano. Tal como veremos, a publicação de seu ensaio sobre a revolução social data desse período de emigração.

O tema da revolução na psicologia

 

Desde a Revolução Francesa, a ideia de “revolução” adquiriu um lugar de destaque no pensamento político e um significado mais delimitado, referindo-se a uma mudança radical e profunda na ordem social e no governo (Porter e Teich, 1986). Por um lado, o conceito de revolução ficou associado à ideia de progresso, democracia e república, mas, por outro, também se converteu em ameaça ante o perigo de induzir ao terror. Depois da Revolução Francesa e ao longo do século XIX, houve numerosos acontecimentos que foram interpretados em termos revolucionários, fazendo com que, ao se referir a essa época, Georg Forster falasse de um “miasma revolucionário”.

Nesse contexto, apareceram as obras de Marx e Engels, que assentaram as bases para a formulação e o desenvolvimento de uma teoria histórica e sociológica baseada na luta de classes. O Manifesto do Partido Comunista, de 1948 (Marx e Engels, 2001), postulava que a revolução burguesa mudou a sociedade, inaugurando novos modos de produção baseados na exploração do homem pelo homem, e previa que, no futuro, o conflito entre trabalhadores e patrões se faria cada vez mais inflamado até desembocar na revolução socialista e na emancipação do proletariado. Segundo a perspectiva marxista, a luta se estenderia por todo o mundo e a revolução iluminaria uma nova sociedade sem classes nem trabalhadores explorados. Nessa visão, a revolução englobaria aspectos tanto políticos quanto econômicos e intelectuais.

No século XX, a chamada Grande Revolução de Outubro de 1917 se converteu no paradigma de revolução social e criou expectativas de estender-se aos demais países, dando lugar a uma nova era da humanidade, tal como haviam preconizado Marx e Engels. Pelo paralelismo que se estabelecia entre Rússia e Espanha, e o início das greves gerais a partir desse momento, os dois anos seguintes foram denominados na Espanha de bienio bolchevique (1917-19) (Hobsbawn, 1994). A raiz de tais expectativas ao término da revolução ganhou atrativo nos anos 1930 (Gilbert, 1973), sendo um tema tratado muito frequentemente tanto na imprensa trabalhista e instituições populares, como os ateneus, quanto no âmbito científico, como se pode ver em Brinton (1958).

Mas quando e como se converteu a revolução num tema médico e psicológico? Uma referência obrigatória é sem dúvida a obra de Le Bon (1841-1931). O pensador francês desenvolveu sua doutrina sobre a psicologia das massas ao fim do século XIX (Le Bon, 1980). Nela discutiu sobre o auge da sociedade de massas em seu tempo, vendo a conduta da massa guiada por uma alma coletiva com características psicológicas específicas, como a extrema emotividade. Ao ser pouco reflexiva e muito imaginativa e suscetível, a massa se presta com grande facilidade à manipulação por parte de líderes políticos dogmáticos. Em sua obra posterior, La Révolution Française et la Psychologie des Révolutions, Le Bon (1920) empregou sua doutrina sobre a psicologia das massas para explicar o fenômeno histórico da revolução. Em sua perspectiva, as revoluções não derivam de influências racionais, e sim de forças afetivas e místicas. Segundo o pensador francês, podemos encontrar diferentes mentalidades durante o período revolucionário, porque os traços de caráter das pessoas ficam mais evidentes nessas circunstâncias. Na situação da revolução, os sentimentos que normalmente se encontram inibidos, como o ódio, o medo, a ambição, a inveja e o entusiasmo, desatam-se. Assim, podemos encontrar: a “mentalidade mística”, que se caracteriza pela atribuição de poderes misteriosos a seres superiores; a “mentalidade jacobina”, que mostra características de agitação e inconformidade; e, finalmente, a “mentalidade criminosa”, associada a forças violentas e antissociais. Certamente, Mira, à medida que ressaltou o papel emocional e irracional no fundo psicológico da revolução, fez eco a Le Bon quando pensou numa classificação distinta dos tipos revolucionários, adotando uma atitude claramente favorável à revolução. Há que se advertir que Le Bon era um pensador conservador, contrário à revolução e às doutrinas socialistas que classificou de “retrocesso ao passado” e de “contrários a razão” (Le Bon, 1980).

Entre os autores que no princípio do século XX realizaram contribuições relevantes à psicologia das massas, devemos mencionar Mac Dougall (1920), quem, seguindo Le Bon, considerava característico o estado psíquico mostrado pela massa na exaltação emocional junto a uma diminuição da atividade racional e a renúncia às qualidades individuais; e também Freud (1974), que projetou a força libidinal sobre a alma coletiva, sendo esta última, por sua vez, o fator que confere coesão à massa.

Entre os autores espanhóis que Mira cita explicitamente no estudo sobre a revolução social, figuram Eloy Luis Andre (1933), José María Gallegos (1937) e, como não podia deixar de ser, José Ortega y Gasset. O livro deste, Rebelión de las masas (1969), publicado pela primeira vez em 1930, a partir de vários artigos anteriores, constituiu uma obra de referência importante para o estudo de Mira. Ortega, mais que fazer uma análise da revolução, realizou uma análise da própria sociedade contemporânea por meio da qual filtrou a imagem de um “homem-massa”, que constituiria o protótipo do homem moderno na Europa entre guerras.

 

A psicologia a serviço da revolução

 

socialista na obra de Mira y López

 

O exposto anteriormente mostra que o tema da revolução havia preocupado autores como Taine, Le Bon, Ellwood e outros, que desenvolveram explicações científicas do fenômeno da revolução em termos sociológicos, médicos e psicológicos. Nessa linha, o estudo de Mira y López sobre a revolução social abordou um tema político relevante no primeiro terço do século XX.

Mira (1944) voltou a tratar do tema da revolução adotando uma postura favorável. Sua reflexão remonta aos cursos monográficos organizados até 1938 pelo Institut d’Orientació Professional (Kirchner, 1975; Vilanou, 1998). Em um dos últimos cursos, e em uma das circunstâncias realmente difíceis devido à guerra, Mira apresentou seu estudo psicológico da conduta revolucionária em

cinco lições 11. Em sua peregrinação após a guerra civil, o psicólogo catalão visitou Cuba e depois se instalou durante quatro anos na

Argentina e no Uruguai (1940-44) 12, onde publicou suas lições sobre psicologia da revolução como capítulos de um seus livros mais populares de divulgação científica, intitulado Problemas psicológicos

actuales13 14 . Como outros socialistas de seu tempo, e seguindo com fidelidade o imperativo expresso anteriormente nas páginas de Justicia Social de que a cultura possibilita a mudança social, Mira dedicou um grande esforço escrevendo artigos e livros científicos com fins didáticos voltados para um público leigo. A publicação de obras de divulgação, assim como seus cursos didáticos, formavam parte desse esforço por popularizar a ciência e conseguir uma “ilustração popular” para combater a superstição, o irracionalismo e o capitalismo.

No estudo sobre a conduta revolucionária estão presentes traços característicos do enfoque psicológico de Mira: sua perspectiva evolucionista, naturalista e biologizante. Ele define o que considera como “revolução”: trata-se de um estado excepcional, mas natural, comparável a uma crise biológica de crescimento na história da humanidade, que resulta em destruições e construções. Enquanto Ortega advertia sobre o perigo presente na rebelião, podendo acabar em catástrofe, apesar de suas reticências iniciais, Mira agora não duvida de sua necessidade e conveniência da revolução, mostrando uma atitude favorável a seu respeito. Isto, mesmo tendo oportunidade de visitar Moscou em 1931, em plena época stalinista,

para participar do VII Congresso Internacional de Psicotécnica15, três anos antes de que todas as instituições psicotécnicas fossem obrigadas a fechar na União Soviética. É possível que a experiência da ditadura de Primo de Rivera tenha contribuído para essa mudança de opinião. Ademais, o psiquiatra catalão devia ter muito presente a ameaça iminente do fascismo e o fato de que a revolução iniciada em seu país não tinha possibilidade de voltar atrás.

Seu estudo adota um ponto de vista psicológico e estabelece três etapas do desenvolvimento da humanidade, denominadas “ciclos biossociais” (feudalismo, sociedade burguesa e socialismo). Mira usou o conceito de ciclo biossocial para expressar a ideia de que as

mudanças psíquicas levam a mudanças sociais 16. Datas como 1789 e 1917 representam, segundo ele, “pontos nodais em que se inverte a direção e o sentido da corrente afetiva que conduz às aspirações coletivas” (Mira y López, 1944, p. 130).

Assim, Mira explicava a revolução como uma crise existencial do espírito humano, extrapolando um estado afetivo da “alma individual e pessoal” para uma crise da “alma universal”. Dessa forma, sua análise da revolução corresponde plenamente ao seu entendimento psicológico (Iruela, 1993), visto que tanto a atividade psíquica como a revolução parecem basear-se em uma reação global, de caráter emotivo. O ciclo psíquico individual, igual à revolução, passa por fases similares, começando com uma tomada de consciência de um desequilíbrio. Com ele, surge um foco da atenção em um nível intrapsíquico de uma suposta “alma universal”, que se sente angustiada pela discordância, cada vez maior, entre seus anseios e suas conquistas, e que, consequentemente, decide desprender-se das superestruturas do aparelho político que o oprimem.

Ainda que essa aproximação ressoe à dialética em forma de conflito entre forças contrárias, Mira substituiu o enfoque histórico-social do marxismo por um enfoque psicológico e biológico-individual. Quando indica que “o homem como ser vivo se encontra em contínua evolução, e ao compasso de suas íntimas transformações altera suas criações” (Mira y López, 1944, p. 130), fica evidente este giro em seu discurso, distanciando-se das coordenadas habituais da sociologia do marxismo histórico. Marx buscava o motor da revolução no nível extrapsíquico, no surgimento de novas forças produtivas que supostamente se chocam com relações de produção antigas. Para Marx e Engels, são as relações sociais, baseadas no trabalho como condição de vida e de subsistência, o que determina a identidade pessoal, dando lugar a uma alienação. Assim, para Marx “não é a consciência do homem que determina seu ser, mas o contrário, seu ser social que determina sua consciência” (Marx apud Fetscher, 1973, p. 39). Como expressa Lênin, referindo-se à psicologia:“O materialismo […] ao aprofundar a análise até chegar na origem real das ideias sociais do homem (chegou à) conclusão de que o desenvolvimento das ideias depende do desenvolvimento das coisas (e esta) é a única compatível com a psicologia científica” (Lênin, 1963, p. 130, tradução nossa).

A análise de Mira é complexa e não sem contradições quando se compara com as bases do materialismo histórico. Em vez de adotar um ponto de vista sociológico e materialista, Mira estuda a revolução como fenômeno de massa a partir de uma orientação de uma psicologia individualista. Esse enfoque é compartilhado por Le Bon, Mac Dougall, Freud e Ortega, tanto que eles também partiram do pressuposto de que a massa humana, ao estar constituída por um conjunto de indivíduos, tem uma natureza psíquica equivalente à natureza humana individual. Alguns deles ainda assinalam algumas diferenças: ao buscar o fator da coesão entre indivíduos em situação de massa, perguntam-se até que ponto o indivíduo continua sendo indivíduo quando faz parte de uma massa revolucionária. Mira ignora esses problemas e considera que a sociedade está formada por uma alma universal constituída por um agregado de almas individuais.

 

Resultados a que chega Mira em seu

 

estudo psicológico da revolução

 

A que resultados chega Mira por meio de sua análise psicológica da conduta revolucionária? Em primeiro lugar, destaca seis características da conduta do indivíduo revolucionário autêntico, que seria o homem que “vive a revolução sentindo-a consubstancialmente em seu ser[…]” (Mira y López, 1960, p. 132). Estas seriam: a) a transcendência do ser (o revolucionário se encontra “fora de si”); b) a adoção da Lei do Tudo ou Nada como norma de atuação; c) o aumento desmesurado da ambição e da consciência do poder; d) a compreensão do tempo e da distância por aceleração da evolução (o revolucionário vive depressa e não tem espera); e) a modificação e frequente inversão da atitude de reação ante as situações habituais; f) a instabilidade e a contradição da ética. Vivendo um momento histórico interpretado como revolucionário, Mira observa e descreve as consequências psicológicas da revolução como vivência em uma pessoa afetada pela mudança social e política radical.

Usando uma linguagem clínica, que aproxima a conduta revolucionária ao desenvolvimento de uma doença, Mira estabelece uma série de fases pelas quais atravessam as atitudes e reações antes e depois da revolução: iniciação, latência, explosão,

ascensão, anfibolia17 e declínio. Por meio de uma abordagem dialética, o referido cientista inclui a evolução da conduta e da atitude afetiva dos revolucionários e contrarrevolucionários em seu esquema, descrevendo o jogo de forças entre tese e antíteses ao longo do processo revolucionário.

Outro resultado do seu estudo consiste na identificação dos tipos psicológicos revolucionários. Com ele, Mira segue uma tradição muito em voga nos anos 1930 na medicina e na psicologia, que tratava de estabelecer a tipologia das pessoas baseando-se em observações acerca do caráter e da personalidade ao modo de autores como Kretschmer em sua obra de 1921 (publicada na Espanha em 1947). Mira, sendo expert em alemão, certamente a conhecia. Usando termos da linguagem comum, ele distingue, entre as pessoas revolucionárias, o idealista místico, o idealista dogmático, o realista organizador e o realista combativo. Diferentes e mais negativos seriam os tipos contrarrevolucionários, entre os que se encontram o crítico, o sabotador e o conspirador. A eles se acrescenta uma terceira força, que consiste no “nefasto influxo dos pseudorrevolucionários”, entre os quais se encontram o pedante, o gângster e, empregando sua autoridade como psiquiatra, diagnostica entre eles o psicopata. Sem dúvida, para Mira esse terceiro grupo (dos pseudorrevolucionários) é o maior estorvo, de acordo com seu lema (seguindo Goethe), que “é pior a hipocrisia que a paixão” (Mira y López, 1960, 1960, p. 11). Enquanto descreve os tipos revolucionários, Mira tem em mente figuras históricas, como Jesus Cristo, exemplo de “revolucionário idealista místico”, e Lênin, como “idealista dogmático”, não dando exemplos para os tipos psicológicos negativos, como os pseudo e contrarrevolucionários. É importante constar que Mira menciona Lênin com respeito e admiração, descrevendo-o como o “mais perfeito revolucionário de todos os tempos” (Mira y López, 1960, p. 153).

Uma vez mais, Mira não se preocupa em fazer compatível sua tipologia com a teoria marxista, baseada na luta de classes. Tal como assinala Poshnev (1970), sob essa perspectiva, não tem sentido falar de diferenças e tipos de personalidades individuais, dado que são as condições sociais que formam o homem, e, portanto, psicologicamente, só se pode falar de “consciência de classe” ou de “mentalidade proletária ou burguesa”.

Seu discurso, em geral, assim como a tipologia de revolucionários que estabelece, mostra sua atitude decididamente favorável à revolução, a qual, como crise, manifesta o verdadeiro modo de ser das pessoas. Ao ficarem desprovidos da rotina, do habitual e, ao se encontrarem em uma sociedade mudada radicalmente, revela-se com clareza o que cada homem leva dentro de si. Em suas palavras: “se evidencia a nudez psíquica de cada pessoa” (Mira y López, 1960, p. 148).

Em relação à causa que provoca a revolução, Mira estabelece a seguinte lei:

 

Assim como em uma massa humana se forma um grupo social que sente

coibida sua capacidade de satisfazer uma tendência que adquiriu em sua

consciência o caráter de permanente necessidade, assegura-se que se

engendra um clima psicológico propício para a adoção e uma atitude

revolucionária (Mira y López, 1960, p. 147).

 

Ele indica, em seguida, que o movimento que impulsiona um povo

a adotar uma atitude revolucionária visa a assegurar sua liberdade 18 para realizar seus anseios vitais como necessidades orgânicas. Contrariamente ao significado que geralmente associa esstes termos à “fome”, discutida por Taine como motivação para a revolução, com o conceito de “anseios vitais”, Mira se refere à justiça, cultura, paz e amor, que são considerados como “necessidades orgânicas” pelas pessoas dispostas a se lançarem na aventura da revolução. Mediante essa transformação de ideais em forma de aspirações psicológicas, que são vividas pelo indivíduo como necessidades orgânicas, Mira trata de dar expressão à sua ideia de unidade psicossomática.

 

Conclusão

A partir do exposto, podemos concluir que o trabalho científico de Mira no estudo da revolução se concentra basicamente em quatros aspectos: a) identificar as características psicológicas de uma pessoa quando vive a revolução; b) estabelecer uma lei psicológica de causa e efeito para explicar a aparição de um movimento revolucionário; c) descrever as fases psicológicas pelas quais atravessam as atitudes e reações antes, durante e depois da revolução; e d) determinar os tipos psicológicos (revolucionário, contrarrevolucionário e pseudorrevolucionário) das pessoas que participam do processo. Com ele, Mira parte da observação indutiva e descritiva típica da ciência positivista, enunciando uma lei de causa e efeito que supostamente permite predizer o advento de uma revolução social. Apesar de defender uma política de esquerda, seu entendimento se encontra claramente inspirado nas ideias de Le Bon e o enfoque aplicado da caracterologia. Curiosamente, ignora em seu trabalho os entendimentos psicanalíticos, não cita a obra de Freud, nem menciona os esforços de Wilhelm Reich (1929, 1933), que tentou unir o enfoque psicanalítico com um entendimento marxista. Partindo da ideia de que a história da humanidade pode ser entendida racional e cientificamente, Mira combina o enfoque evolutivo-biológico com a interpretação dialética. Devemos mencionar aqui que, ao combinar esses enfoques, que de entrada podem parecer difíceis de serem compatibilizadas, nosso autor não chega a um resultado estranho. Outros pensadores socialistas relevantessão influenciados em suas teorias pelo enfoque de Le Bon (Moscovici, 1981, pp. 84-5) e do evolucionismo.

Em termos gerais, encontramos no estudo da revolução uma aproximação de Mira às abordagens revolucionárias e uma clara veneração da figura de Lênin, ao passo que vemos um reflexo de um socialismo humanista, pouco de acordo com os princípios do materialismo histórico. No que Mira coincide com o marxismo é buscar a utilidade de sua produção científica. A guerra civil lhe proporcionou a possibilidade única de viver o que considerou uma revolução e mergulhou nela como testemunha, psicólogo e psiquiatra, além de oficial do exército republicano. Seu olho clínico favoreceu uma análise psicológica da revolução que pretende ser uma contribuição prática da ciência. O diagnóstico dos sintomas que acompanham os participantes da revolução, sua classificação em tipos, assim como a descrição das fases do processo e das relações funcionais que nele intervêm, pretendem ajudar a aliviar os sintomas perturbadores sofridos pelas pessoas envolvidas nesse tipo de processo histórico. Apesar das dificuldades e do dramatismo desse momento histórico experimentado pelo nosso autor, seus escritos transmitem um otimismo intransigente. Por meio de processos sociais, como a revolução, e com a ajuda da moderna tecnociência, a humanidade irá progredir. Sem dúvida, sua decepção devia ser imensa quando, pouco depois, viu fracassar a revolução irremediavelmente em seu próprio país.

 

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