Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Unidade III. Discursos e práticas na história da psicologia
Unidade III. Discursos e
práticas na história da
psicologia
Parte IV - Modos de pensar e
fazer psicologia através da
história
Capítulo 11 - Modos de pensar
e fazer psicologia através da
história
Nádia Maria Dourado Rocha
A psicologia é múltipla, disso quase todos sabemos. Desde a antiguidade podem ser verificadas as mais diversas preocupações com o comportamento. São exemplos disso textos publicados antes mesmo da instalação formal da psicologia em Leipzig.
Um bom referencial para avaliarmos a diversidade histórica da psicologia é o livro de Richard J. Herrnstein e Edwin.G. Borin – A souce book in the history of Psychology, editada pela Harvard University Press em 1966, que tem versão brasileira publicada pela Herder/USP em 1971, com tradução do Prof. Dr. Dante Moreira Leite.
Nesse livro, prestes a completar cinquenta anos da edição original, é apresentada uma seleção de 116 trabalhos datados de 350 a.C. a 1926, organizados em 15 capítulos, a saber:
Quadro 1 – Classificação de Herrnstein e Boring (1971) de textos
relevantes para a história da psicologia, com a quantidade dos
mesmos, bem como a data do mais antigo e do mais recente
Tema N Antigo Recente Amplitude
em anos
1. Percepção visual de 3 1638 1838 200 tamanho e distância
2. O reflexo 8 1662 1896 234
3. Associação 12 -350 1896 2.246
4. Especificação 14 -350 1896 2.246 sensorial
5. A imagem retiniana 5 -300 1897 2.197 e a orientação de
objetos percebidos
6. Psicofísica e 7 1760 1905 145 mensuração sensorial
7. Psicologia 4 1882 1906 24 comparativa
8. Evolução e 10 1859 1912 53 diferenças individuais
9. Teorias nativistas e 6 1781 1912 131 empiricistas de
percepção
10. Funcionalismo 4 1890 1913 23
11. Aprendizagem 8 1885 1917 32
12. Isomorfismo 4 1878 1920 42 psicofisiológico
13. Relação com os 8 1709 1923 214 objetos
14. A natureza da 14 1650 1923 273 Psicologia
15. Localização 9 1650 1926 276 cerebral
Tais dados são apresentados no quadro 1. Nele pode ser verificado que:
“Associação” e “Especificação sensorial”, ambos de 350 a.C., cujo autor é Aristóteles (385 a.C.-322 a.C.), são as categorias com textos mais antigos. Os mais recentes, de ambas, datam de 1896. O da primeira é de Wilhelm Wundt (1832-1920), e o da segunda, de Edward Bradford Titchner (1867-1927). Assim, seus textos abrangem 2.246 anos;
“Percepção visual de tamanho e distância” foi a última categoria a ser iniciada, em 1638, com texto de René Descartes (1596-1650). Seu texto final, publicado em 1838, é de Charles Wheatstone (1802-1838). Esses textos têm uma distância de 200 anos;
“Localização cerebral”, tem a publicação mais recente, com texto elaborado por Henry Head (1861-1940) e publicado em 1926.
Verifica-se também uma amplitude de variação de 23 a 2.246. Ou seja, a diferença em anos entre o texto mais antigo e mais recente de cada categoria.
O Prof. Joseph Brozek apresenta outra categorização de trabalhos em psicologia (Campos apud Brozek e Massimi, 1998, p. 19):
1. Fenômenos anormais, como o vício, a embriaguez e o suicídio;
2. Desenvolvimento (criança, velhice);
3. Atividades de aprender e ensinar;
4. Adaptação a formas diferentes de esforço (estresse);
5. Personalidade;
6. Pecados e pecadores;
7. Trabalho humano;
8. Fenômenos sociais e políticos, como o caráter nacional,
partidos públicos, ação de aprender línguas, visando à paz
entre aos povos.
Uma segunda forma de avaliar nossa diversidade é analisar livros publicados e teses defendidas no século XIX.
Inicialmente lembramos o livro Essai sur la psychologie comprenant la théorie du raisonnement et du langage, l’ontologie, l’esthétique et la dicéosyne, de 1826, cujo autor é o filósofo e político português Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Merece ele destaque por ter sido escrito para participar de um concurso promovido pela Kongelige Danske Videnkabernes Selskab (Real Academia de Ciências e Letras da Dinamarca), cujo tema foi: “Quelle est la véritable notion de la Psychologie, et quelle est la relation de cette science avec celles qui s’y rapportent? Doit-on admettre la distinction que des savans ont voulu établir entre la psychologie empirique et la psychologie rationelle?”
O Quadro 2 nos apresenta uma relação de títulos publicados na Alemanha, França, Inglaterra e Rússia, cuja edição inicial aconteceu antes da instalação do primeiro laboratório de Psicologia em Leipzig. Ela já aponta a diversidade que se constituirá posteriormente. Consta dela a referência de textos sobre temperamentos, psicopatologias, sono, vida psíquica dos animais, relações psicossomáticas, uma história das principais teorias psicológicas, bem como o primeiro texto sistemático sobre a deficiência mental.
Quadro 2 – Exemplos de títulos publicados em países europeus
no século XIX, com primeira edição anterior a 1879
País Ano Autor/Título
França 1825 P. J. Jacquier (?-?) - Elemens de
psychologie, d’ idéologie de logique
ou art de penser. Paris: Chez Raymond, 1825.
França 1834 Hippolyte Royer Collard (1802-1850) -
Des temperaments considérés dans
leurs rapports avec la santé. Paris:
J. B. Bailliere, 1834.
França 1846 Édouard Séguin (1812-1880) -
Traitement moral hygiène et éducation
des idiots et des autres enfants
arriérés. Paris: J. B. Baillière, 1846.
França 1849 Louis Rufin Szafkowski (?-?) -
Recherches sur les hallucinations au
point de vue de la psychologie. Montpellier:
Louis Castel, 1849.
França 1852 Adolphe Garnier (1801-1864) - Traité
des facultés de l’ ame: comprenant l’
histoire des principales théories
psychologiques. Paris: L. Hachette, 1852
França 1855 Albert Lemoine (1824-1874) - Du
sommeil au point de vue
physiologique et psychologique. Paris: J. B. Baillière, 1855.
Inglaterra 1855 Herbert Spencer (1820-1903) - The
principles of psychology. 3 ed. London: Williams and Norgate, 1881.
França 1856 Edouard Cournault (?-?) - De l’ ame;
essai de psychologie expérimentale. Paris: Didier, 1856.
Inglaterra 1858 Daniel Noble (1810-1885) - The
human mind in its relations with the
brain and nervous system. London: John Churchill, 1858.
Rússia 1863 Ivan Setchenoff - Études
psychologiques. Paris: C. Reinwald, 1881. (Original publicado em 1863).
França 1868 P. J. Grenier (?-?) - Étude médico-
psychologique du libre arbitre humain. Paris: A. Delahaye, 1868.
Inglaterra 1868 Alexander Bain (1818-1903) - Mental
and moral science: a compendium of
psychology and ethics. London: Longmans, Green and co., 1868.
Alemanha 1876 Ludwig Buchner (1824-1899) - La vie
psychique des bêtes. Paris: C. Reinwald, 1881 (tradução).
À época, a defesa de uma “These” era condição necessária à conclusão do curso de Medicina. Na Faculdade de Medicina da
Bahia1, no período de 1845 a 1879, foram localizadas 26 teses lá apresentadas que demonstram uma preocupação com fatores psicológicos, a exemplo de:
1845 - Polycarpo Cesario de Barros - As proposições sobre a influência da
Música na medicina;
1852 - Joaquim Marcellino de Britto Junior - Breve dissertação sobre a
hypochondria;
1853 - Julio Cezar da Silva - Breves considerações sobre a natureza de
algumas affecções nervosas e de seu tratamento;
1873 - Manoel Ludgero d´Oliveira Campos - Em que consistem os
temperamentos;
1857 - Cid Emiliano de Olinda Cardozo - Influencia da civilisação sobre o
desenvolvimento das affecções nervosas;
1859 - Luiz Carneiro da Rocha - Tratamento das moléstias mentaes;
1874 - João Carlos Balthascar da Silveira - Influencia dos climas sobre a
intelligencia humana;
1876 - Antonio Gonçalves Ramos - Accidentes nervosos do alcoholismo.
Aqui também encontramos uma variedade. A tese mais antiga, cujo título remete à questão psicológica, e não medicamentosa, é realmente interessante. Há predominantemente questões ligadas à psicopatologia: afecções nervosas ou doenças mentais, alcoolismo, temperamentos e inteligência.
É evidente que esses textos carecem de fundamentação teórica, mas são importantes para mostrar uma preocupação presente desde o início do século XIX, sobre vários temas e em vários países.
Essas pequenas listagens, meramente ilustrativas2, nos indicam dois pontos: 1) antes mesmo da constituição “oficial” da psicologia científica, já havia uma preocupação entre os intelectuais e
médicos3 com esse assunto, em alguns países, inclusive no Brasil; 2) a variedade de temas que, já àquela época, interessava aos estudiosos.
Com relação a modos de fazer, e diante da dificuldade de esgotar todas as possibilidades, lembremo-nos das posturas clássicas do Behaviorismo, Gestalt, Psicanálise e Psicodrama, todas cuja consolidação ocorreu ao longo do século passado.
Lembremo-nos também de que a regulamentação da nossa profissão ocorreu em 27/08/1962, e, ainda, de mais indicadores de uma diversidade de periódicos, programas de pós-graduação, associações científicas e especialidades.
No portal da PePSIC4 estão arrolados 96 títulos de periódicos, publicados em alguns países da América Latina. Entre eles estão alguns de caráter geral, a exemplo de Psicologia: Ciência e Profissão, Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia e Temas em Psicologia. Outras têm um recorte temático: Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, Revista Brasileira de Orientação Profissional e Revista Psicologia Política. Ainda outro grupo tem uma vinculação teórica: Revista Brasileira de Psicodrama, Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva e Estudos de Psicanálise.
No site da CAPES5, sob o título Relação de Cursos Recomendados e Reconhecidos, constam 77 programas de pós-graduação. Entre estes há 40 com o título “simples” de “Psicologia”. Os demais assumem uma especificidade, tais como: “Análise do Comportamento”, “Neurociência Cognitiva e Comportamento”, “Psicanálise: Clínica e Cultura e Psicobiologia” e Psicologia Social.
O Fórum de Entidades Nacionais de Instituições de Psicologia congrega, atualmente, 23 instituições. Entre estas estão: o próprio
Conselho Federal de Psicologia – CFP6, órgão máximo de orientação e fiscalização profissional no nosso país; a Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia7 – ANPEPP, que congrega pesquisadores doutores de todo o país; e a
Federação Nacional de Psicólogos8 – FENAPSI. Também aqui se encontram associações de caráter, digamos, geral, tais como as já referenciadas, e aquelas que são específicas, seja de temas. Cabe ressaltar que o FENPB não representa todas as instituições nacionais. A ausência mais evidente provavelmente seja a SBP –
Sociedade Brasileira de Psicologia 9, fundada em 1971 como Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto (SPRP).
Por meio da Resolução 13/200710, o Conselho Federal de Psicologia reconheceu as seguintes especialidades, que não são condição para o exercício profissional, indicando a diferenciação já possível em nosso exercício profissional:
1. Psicologia Escolar/Educacional;
2. Psicologia Organizacional e do Trabalho;
3. Psicologia de Trânsito;
4. Psicologia Jurídica;
5. Psicologia do Esporte;
6. Psicologia Clínica;
7. Psicologia Hospitalar;
8. Psicopedagogia;
9. Psicomotricidade;
10. Psicologia Social;
11. Neuropsicologia.
Os dois textos desta seção tratam também desta diversidade. O trabalho de Fernando Lacerda Júnior, da Universidade Federal de Goiás, tem como título “Totalidade, individualidade social e ideologia: três contribuições da tradição marxista à história da psicologia”. O de Maria Andrea Piñeda, da Universidad Nacional de San Luís, apresenta-nos a “Reconstrução historiográfica de culturas psicológicas”.
Lacerda afirma que pretende destacar, a partir de referências associadas aos pensamentos de Karl Marx (1818-83) e Georg Lukács (1885-1971), algumas contribuições da tradição marxista que podem orientar certas formas de pensar e fazer história da psicologia. Discorre ele sobre três das quatro articulações que considera possíveis entre o marxismo e os estudos históricos: totalidade, individualidade social e decadência ideológica. Ao concluir, afirma que a abordagem marxista pode realizar concomitantemente três análises: histórica, sistemática e da função social.
Já Piñeda nos apresenta o relato da institucionalização da história da psicologia no seu país natal, desde a inclusão deste conteúdo como disciplina nos cursos de graduação em Psicologia, ao aumento das pesquisas especialmente nas universidades estatais, o apoio institucional à participação em programas de pós-graduação, o incremento da participação de pesquisadores em eventos específicos da área, tanto em nível nacional quanto internacional, e a participação em redes internacionais de intercâmbio. Segundo a autora, esses fatos resultaram na criação, em 2014, da Sociedade Argentina de História da Psicologia. Mas ainda há muito a fazer. Por exemplo, há poucos periódicos específicos. Piñeda finaliza, tecendo considerações sobre como construímos uma história cultural crítica da psicologia.
Esse pequeno resgate nos permite concluir que efetivamente há uma grande diversidade no pensar e fazer psicologia, que nos acompanha desde a mais remota preocupação com os fatores psicológicos. É quase lugar comum localizarmos tal preocupação nos antigos gregos, bem antes da época cristã, atravessando mais de 23 séculos de nossa história e, como tudo indica, está se aprofundando cada vez mais. Que sejamos competentes para dar conta dela.
Referências
Brozek, J. e Massimi, M. (orgs.). Historiografia da psicologia moderna: versão brasileira. São Paulo: UNIMARCO/Loyola, 1998.
Herrnstein, R. J. e Boring, E. G. Textos básicos de história da psicologia. São Paulo: USP/HERDER, 1971.