Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Cap. 5 – Intercâmbios internacionais na história da psicologia: O programa de investigação transcultural da IUPsyS no contexto da Guerra Fria

Capítulo 5 - Intercâmbios

 

internacionais na história da

 

psicologia: O programa de

 

investigação transcultural da

 

IUPsyS no contexto da Guerra

 

Fria

 

Hugo Klappenbach

 

As sociedades científicas internacionais são, em si, espaços de colaboração e intercâmbio internacional. No caso da psicologia, é interessante a criação da União Internacional de Ciências Psicológicas (IUPsyS). Em especial, com um olhar centrado no impulso que a IUPsyS deu à psicologia transcultural, resultado precisamente da colaboração internacional entre pessoas de diferentes países e culturas.

A história da psicologia transcultural não tem sido uma área muito estudada, e as poucas abordagens históricas do tema costumam reduzir-se a aproximações legitimantes e celebratórias (Adamopoulos e Lonner, 2001; Jahoda e Krewer, 1997). As primeiras abordagens questionadoras surgiram apenas quando a psicologia transcultural começou a ser criticada pela psicologia cultural corrente, que, em grande medida, foi desenvolvida por personalidades que, em seu momento, estavam comprometidas com o desenvolvimento da psicologia transcultural (Cole, 2003; Rattner, 2006; Rattner e Hui, 2003).

No entanto, há um tema que tem sido pouco desenvolvido nessas histórias e refere-se ao contexto político que favoreceu o desenvolvimento de um programa de psicologia transcultural impulsionado pela International Union of Psychological Science (IUPsyS). Esse impulso pode ser acompanhado nos primeiros volumes da revista editada pela IUPsyS, a International Journal of Psychology. Mesmo os poucos trabalhos que repararam nesse contexto político não o analisaram ou o explicaram:

 

The modern era of cross-cultural psychology began shortly after the end of

World War II. Its rapid expansion may be attributed to a shared motivation to

understand the attendant horrors of the war and to expand the intellectual

horizons of psychology beyond parochial, nationalistic boundaries. With the

increased salience of international perspectives accompanying the cold war,

the study of human behavior in cultural context evolved particularly rapidly

(Segall et al., 1998, p. 1.102). 1

 

O que apresentamos aqui é um esboço apenas inicial, no qual simplesmente perguntamos: por que o IUPsyS interessou-se em psicologia transcultural? Ou o que pode considerar-se quase a mesma pergunta, mas por outro ângulo: por que a revista de uma sociedade internacional de psicologia em geral esteve dedicada, em seus primeiros anos, quase exclusivamente à psicologia transcultural? Para esse fim, analisaremos os antecedentes histórico da IUPsyS, especialmente no período e contexto no qual desenvolveu-se o programa de psicologia transcultural que já foi anteriormente apontado por Segall et al. (1998).

 

Antecedentes da IUPsyS

 

Em um trabalho clássico centrado nos enfoques historiográficos, Danziger advertia:

 

For at least a generation after the Nazi takeover in Germany, psychology

outside the United States was of little accoumt and increasingly took its lead

from North America. The historical work that bears the stamp of this period

quite naturally equated the celebration of certain conception of science with

the celebration of psychology as an American science (Danziger, 1994, p.

476). 2

A situação da psicologia na Alemanha, a partir da ascensão do nazismo (Geuter, 1992) e depois da Segunda Guerra Mundial, facilitou a crescente hegemonia da psicologia estadunidense, a qual pode ser considerada como uma das consequências, no plano da cultura e da ciência, da hegemonia militar, política e econômica estadunidense (Zeitlin, 2000). Enquanto no começo do século XX as teorias psicológicas europeias, especialmente a alemã, eram um sinal de prestígio entre os estadunidenses, a partir de 1942, esse quadro inverte-se “American psychological theories became dominant in Europe and in Germany in particular” (Adler, 1991, p.

119).3

A americanização da psicologia nunca foi absoluta. Primeiramente, porque reconheceu-se limites ao projeto de americanizar a cultura europeia ao final da Segunda Guerra Mundial (Zeitlin, 2000). Em todo caso:

 

we can say that America’s scientific accomplishments remained an

omnipresent point of reference and a constant source of pressure for change

in Europe, while U.S. recognition of European achievements was an essential

source of scientific credibility and scientific capital (Krige, 2006, p. 269). 4

 

Assim mesmo, também houve resistência diante da americanização da vida acadêmica e científica, ao menos no caso da psicologia, em partes, pela psicologia soviética, e, em outras, pela psicologia em língua francesa. Poder-se-ia também mencionar uma terceira resistência por parte da psicanálise. Todavia, as relações entre a psicologia e a psicanálise, neste período que estamos analisando, eram particularmente complexas, e a tendência que começava a ser dominante no campo da psicanálise estabelecia relações de separação entre as duas ciências. No Seminário 2, Lacan afirmava “del modo más categórico, la tentativa

de una nueva fusión del psicoanálisis en la psicología general” 5 (Lacan, 1854/1992, p. 28). Ainda quando a amplitude do tema excede nossa análise, a psicologia francesa manteve constante, desde o século XIX, suas características distintas. Suas revistas mais destacadas, a Revue Philosophique, primeiramente, e a L’Année Psychologique, depois, foram veículos da “energy and originality of research done in France and in French-speaking

countries”6 (Nicolas et al., 2000). O próprio Piéron testemunhou o valor de seus trabalhos na direção de voltar a localizar a produção psicológica francesa em um lugar de envergadura:

 

To a rather large extent my efforts have been successful, and after a period of

decline, French psychology is now regaining an honorable place in the

international field. Its growth, however, has been slow, and too short of the

goal I hoped for to be fully satisfactory (Piéron, 1952, p. 278).7

 

A resistência da psicologia soviética, por assim dizer, não é fácil de reconstruir em poucas linhas. Desde a queda do Muro de Berlim ampliaram-se as controvérsias sobre as características dessa psicologia (Dergam, 1997). Nesse mesmo ano, Fernando González-Rey, que obteve seu doutorado em Moscou, tentou periodizá-la. E, embora em sua reconstrução histórica pudesse reconhecer alguns dos debates que cruzaram a psicologia cubana na década de 1970 e 1980 – como a controvérsia entre os seguidores de Vygotsky e Rubinstein, por um lado, e Luria e seus seguidores, por outro, ou com os encontros e desencontros entre a psicanálise e marxismo –, o trabalho serviu para realçar mais uma vez a complexidade da psicologia soviética, mesmo antes da oficialização stalinista de Pavlov, por volta de 1940 (Gonzalez-King, 2014).

Em qualquer caso, o que importa é que, paralelamente à americanização da psicologia, mesmo nos anos de maior hegemonia da psicologia estadunidense, é possível traçar um desenvolvimento policêntrico da psicologia, com características diferentes na França, na então chamada União Soviética, na Inglaterra, que nunca deixou de priorizar o estudo da mente mais que o do comportamento, e as diversas formas de psicologias nativas. Danziger poderia concluir que “primero, existe una evidente heterogeneidade sobre lo objeto de estudio de la psicología; segundo, existe una falta de unidad asociada com a dispersión

territorial do tema”8 (Danziger, 2006, p. 209).

Queremos enfatizar o desenvolvimento relacionado ao programa de psicologia transcultural que, por sua parte, reconhece diferentes orientações. Aqui vamos limitar-nos ao programa promovido pelos IUPsyS.

Os antecedentes da IUPsyS remontam ao primeiro Congresso Internacional de Psicologia, realizado em Paris, de 6 a 10 de agosto de 1889. Embora não haja muitas as investigações históricas sobre esse primeiro congresso, há uma tese de doutorado na Espanha, algumas resenhas publicadas em fontes diversas e alguns poucos trabalhos publicados (Marillier, 1889; Montoro et al., 1984; Nicolas e Soderlumd, 2005; Piéron, 1954, Sabourin e Cooper, 2014). Todos concordam que o impulso para esse congresso surgiu de uma personalidade periférica, Julian Ochorowicz, da Polônia, que publicou em 1881 na Revue Philosphique uma proposta para o Congresso Internacional de Psicologia (Ochorowicz, 1881).

Tem-se observado que o Revue Philosophique da France et de l’étranger, como era seu título completo, é uma das mais importantes conquistas da filosofia francesa (Nicolas e Murray, 1999). Principalmente dedicada à nova psicologia, ocupou um lugar central no desenvolvimento desta:

 

Depuis une quinzaine d’années a psychologie est entré dans une ère

nouvelle. Cette ère date approximativement de 1878, époque doublement

importante pour a psychologie, puisque c’est elle où, em Allemagne, M.

Wundt a ouvert le premier laboratoire de psychologie expérimentale, celle

aussi où em France M. Charcot a inauguré ses recherches sur l’hypnotisme

chez les hystériques. A peu près à a même époque, M. Ribot fondait a Revue

Philosophique, et donnait ume vive impulsion aux études da psychologie

expérimentale em France (Binet, 1894, p. 1). 9

 

Para Binet, a Revue Philosophique tinha uma envergadura análoga ao trabalho de Wumdt e Charcot. Nesse contexto, a proposta de Ochorowicz incluía um programa completo de psicologia que abarcava: psicologia geral; psicofísica; psicologia fisiológica e patológica; psicologia animal; psicologia criminal; psicologia da arte; psicologia da história; psicologia educacional; etologia; psicologia matemática; e até mesmo história da psicologia (Ochorowicz, 1881).

O Primeiro Congresso Internacional de Psicologia foi organizado por um Comitê nomeado pelo Ministério do Comércio e Indústria na Exposição Universal de 1889, o qual fez parte das atividades comemorativas da Revolução Francesa (Société de Psychologie Physiologique, 1889; Nicolas e Söderlumd, 2005). É importante destacar o peso que teve o congresso de psicologia francesa das desagregações da personalidade. Charcot foi o presidente do Comitê Organizador, embora aqueles que realmente organizaram esse congresso fossem um dos vice-presidentes, Ribot, e o secretário-geral, Charles Richet, que também foi o secretário da Sociedade de Psicologia Fisiológica (Nicolas e Söderlumd, 2005). Charcot não pôde comparecer, tendo sido as sessões presididas por Magnan, Delboeuf e Bernheim (Marillier, 1889).

Nesse evento decidiu-se por um próximo congresso em Londres, em 1892, sob o nome de Congresso de Psicologia Experimental, e também decidiu-se criar um Comitê Permanente Internacional com personalidades de 10 países:

 

Il est institué une Comitê International Permanent qui se réumira vers a Noël

1791 pour recueillir les propositions et étudier le programme du Congrès. Ce

Comitê se compose de MM. Beaumis, Benedikt, Bertrand, Bernheim,

Danilewsky, Delboeuf, Espinas, Forel, Ferrari, Galton, Gley, Grote, Grüber,

Herzen, W. James, Lombroso, Marillier, Mumsterberg, Myers, Neiglick,

Ochorowicz, Ribot, Ch. Richet, von Schrenck-Notzing, Sidgwick, Sperling. On

n’a choisi que des personnes présentes au Congrès pour être assuré de leur

acceptation (Marillier, 1889, p. 546). 10

 

O Comitê Permanente efetivamente teve sob sua responsabilidade a organização dos seguintes congressos:

Tabela 1 - Congressos Internacionais de Psicologia

previos à IUPsyS

1. Paris August 6– Jean Martin Charcot

10,1889 (Acting, Théodule Ribot)

 

2. London August 2–6, Henry Sidgwick

1892

 

3. Munich August 4–7, Carl Stumpf

1896

 

4. Paris August 20– Théodule A.Ribot

25, 1900

 

5. Rome April 26–30, Giuseppé Sergi (Honorary,

1905 Leonardo Bianchi)

 

6. Geneva August 2–7, Theodore Flournoy

1909

 

7. Oxford July 26- Charles S.Myers

August 2,

1923

 

8. September Gerardus Heymans Groningen 6–11, 1926

 

9. Yale September James McKeen Cattell

1–7, 1929

 

10. August 22– Edgar Rubin* Copenhagen 27, 1932

 

11. Paris July 25–31, Henri Piéron (Honorary,

1937 Pierre Janet)

 

12. July 23–29, James Drever Sr Edinburgh 1948

 

13. July 6–21, David Katz Stockholm 1951

Fonte: Montoro et al., 1984.

As dificuldades na comunicação entre os membros do Comitê Permanente levaram a uma reorganização deste. De 1926 até 1937, Edouard Claparède incorporou-se ao Comitê como Secretário Permanente. Entre 1937 e 1948, criou-se um Comitê Executivo integrado por Karl Bühler, Otto Klemm, Charles S. Myers, Henri Piéron e Mario Ponzo. Enquanto existiu o Comitê Executivo, Edouard Claparède permaneceu como Secretário Permanente (até sua morte em 1940). Nesse comitê incorporou-se também um Secretário Assistente, Herbert S. Langfeld, que em 1940 assumiu o lugar de Claparède (Rosenzweig et al., 2000).

Paralelamente, foram-se organizando sociedades de psicologia em diferentes países. Em 1948, durante o Congresso de Edimburgo, sete sociedades nacionais (Bélgica, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Suécia e EVA) decidiram fundar uma sociedade científica internacional. Tal instituição se organizou formalmente durante o congresso seguinte, reunido em Estocolmo, em 1951, no qual se agregaram sociedades da Holanda, Japão, Noruega e Suíça às sociedades dos sete países anteriores. Assim, sociedades nacionais de 11 países constituíram a IUPsyS.

Em relação à denominação da sociedade, é interessante o testemunho de Nuttin:

 

Concerned about the scientific status of psychology in their countries, all

three [Piéron, Michotte and Piaget] felt the need to separate the Union from

two tendencies that still threatened scientific psychology in some European

countries: (1) certain literary or philosophical forms of psychology, and (2)

certain psychotherapeutic practices. English-speaking psychologists allowed

themselves to be persuaded, and the Union was formed with the name

International Union of Scientific Psychology/Union Internationales da

Psychologie Scientifique (Rosenzweig et al., 2000, p. 62).11

 

Posteriormente à Segunda Guerra Mundial, “la pura y simples necesidad de coordinación global multiplicó las organizaciones

internacionales”12 (Hobsbawm, 1998, p. 429). As Nações Unidas seriam o testemunho mais eloquente dessa tendência, ainda que organizações internacionais muito pequenas e de menor envergadura como a IUPsyS se formassem no mesmo período histórico. E, mesmo não ficando totalmente claro em que medida organizações não governamentais internacionais, como a IUPsyS, poderiam contribuir para a constituição de uma nova ordem internacional, as organizações relacionadas às ciências se multiplicaram depois da Segunda Guerra Mundial (Schofer, 1999).

O primeiro Presidente da IUPsyS foi Henri Piéron; Vice-presidente, F. C. Bartlett (UK); Tesoureiro, David Katz, então radicado e representando na Suécia; Secretário Geral, Herbert Langfeld dos Estados Unidos; e Pró-Secretário Geral, Jean Piaget. Por sua vez, o Comitê Executivo Eleito era composto por: S. Baley (Polônia); J. Germain (Espanha); O. Klineberg (EUA); P. Lersch (Alemanha); A. Michotte (Bélgica); T. H. Pear (Reino Unido); M. Ponzo (Itália); T. Rasmussen (Dinamarca); G. Révész (Países Baixos); e H. Wallon (França).

Em seu primeiro quarto de século, todas as autoridades da IUPsyS foram personalidades de renome dentro da psicologia:

Tabela 2 - Autoridades da IUPsyS em seus primeiros 25 anos

Anos Presidente Vice- Secretário Secretário

Presidente Geral Adjumto

1951-H. Piéron F. C. Bartlett H. J. Piaget 1954 Langfeld

1954-J. Piaget T. O. J. Germain 1957 Rasmussen Klineberg

1957-A. Michotte J. Drever O. H. Duijker 1960 Klineberg

1960-O. H. Duijker R. Russell G. 1963 Klineberg J. Piaget Westerlumd

 

1963-J. Drever P. Fraisse R. Russell G. 1966 Westerlumd

1966-P. Fraisse A. Leontiev E. G. Nielsen 1969 Jacobson R. Russell

1969-R. Russell A. Luria E. G. Nielsen 1972 J. Nuttin Jacobson

 

1972-J. Nuttin A. W. G. de 1976 Summerfield Holtzman Montmollin

Y. Tanaka

 

Fonte: Rosenzweig et al., 2000.

 

Relações internacionais, preocupação

 

pela paz e psicologia transcultural

 

Nos anos imediatamente posteriores ao final da Segunda Guerra Mundial, o Comitê Permanente participou de diferentes iniciativas que tinham por objetivo a paz Mundial.

Em 1947, o Comitê reuniu-se no México ao Projeto da UNESCO “Tensions Affecting International Understanding” e, no ano seguinte, participou da elaboração do folheto “Mental Health and World Citizenship”, auspiciado pela recém-criada World Federation for Mental Health. Eduardo Krapf, da Argentina, participou do congresso em Londres a partir do qual se organizou a referida Federação, testemunhando sobre o abandono do antigo campo da higiene mental que daria lugar ao mais moderno da saúde mental (Krapf, 1949). Também Otto Klineberg, sobre quem retomaremos em seguida, deixou seu relato daqueles encontros em Londres e da articulação entre o Comitê Permanente dos congressos, da nova Federação de Saúde Mental e do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO (Klineberg, 1974).

Alguns anos mais tarde, a IUPsyS, já constituída, fez parte do congresso de Copenhagen do espaço “Psychology and International Affairs: Can We Contribute?”, que havia reunido a mais antiga organização internacional no campo da psicologia, a International Association for Applied Psychology, que convocou a “psychologists everywhere to devote their energies and specific skills to the

scientific understanding and reduction of international tensions”. 13

Nos Estados Unidos, no começo da década de 1960, verificou-se uma atitude crítica por parte dos psicólogos, a política exterior estadunidense, e, com isso, uma viagem às “investigations of the psychological dimensions of international relations in the nuclear

age” 14 (Morawski e Goldstein, 1985, p. 280). Ao mesmo tempo, o campo das relações internacionais começava a profissionalizar-se na área acadêmica:

 

After WWII, the field of International Relations was achieving independence

from Political Science and was gaining ground as a discipline in US academic

and that realist approaches to International Relations emphasizing the

importance of systemic variables to understand conflicts (Tomas-Rangil,

2011, p. 26). 15

 

Em 1965, a Swiss Psychological Society solicitou à IUPsyS que, com urgência, desse início a ações que contribuíssem para evitar guerras, algo que sensibilizava profundamente nos anos da Guerra Fria. Hobsbawm (1998) afirmou que as possibilidades reais de uma guerra nuclear entre o Pacto de Varsóvia e a OTAN eram remotas, mas isso não impedia a existência de uma retórica, especialmente no Ocidente, que enfatizava termos bélicos e apocalípticos.

Nesse contexto, o Comitê Executivo da IUPsyS constituiu o Working Group, integrado por Paul Fraisse, Alekséi Leontiev e Otto Klineberg, que redigiu um informe, aprovado pelo próprio comitê, intitulado “An Appeal to Psychologists”.

Ao mesmo tempo, na Reunião anual do Comitê Executivo da IUPsyS, realizado em junho de 1965, na Abadia de Royaumont, decidiu-se publicar uma revista dedicada aos estudos transculturais. Na apresentação da revista, o então presidente da IUPsyS reafirmou a habitual frustração que gerava “el estudio experimental

del comportamiento humano”16 (Drever, 1966, p. 1):

 

When we attempt to carry out an experimental study of human behaviour we

are often frustrated because we can manipulate only a few unimportant

variables, and because the period over which we can observe their effects is

so short. To escape from such limitations we have recourse to animal studies,

with a consequent reduction in the range and complexity of the phenomena

which are accessible to us. There is an alternative whose value is becoming

more and more apparent, namely, to exploit the variables which nature has

provided in differences of ecology, culture, and language. This approach is

not new, but a more adequate specification of the relevant variables has

become possible through the growth of anthropology and linguistics. We can

now undertake the study of basic psychological processes, which is our real

concern, much better equipped than were our predecessors to assess the

long-term effects of complex environmental conditions upon many aspects of

behaviour (Drever, 1966, p. 1).17

 

No caso da investigação com sujeitos humanos, as variáveis que podem manipular-se são muito limitadas e o período de observação, muito curto. Com a intenção de superar essas limitações, Drever defendia que poderia recorrer-se à investigação animal, a qual reduz “el rango y la complejidad de los fenómenos” ao estudar. Como uma maneira de solucionar essas limitações, Drever recomenda “explotar las variables que la naturaleza prove en diferencias de ecología, cultura y lenguaje” (Drever, 1966, p. 1). O então presidente da IUPsyS também afirmou que esse tipo de estudo não era novidade, sendo possível uma maior especificidade das variáveis devido ao crescimento experimentado na antropologia e na linguística. Com essa justificativa, a IUPsyS “decided that it was appropriate for a worldwide body such as ours to encourage comparative studies of this kind, and that, as a first step, we should provide a journal in

which they might be published”18 (Drever, 1966, p. 2).

O papel desempenhado pela revista da IUPsyS tem sido reconhecido na história da psicologia transcultural:

 

La década de 1960 vivió una expansión continua y acelerada, que se

reflejaba en el crecimiento de publicaciones: el Journal of Social Psychology

publicó muchos estudios tempranos transculturales; el International Journal

of Psychology, dedicado principalmente (largely devoted to) a tópicos trans-

culturales y trans-nacionais, apareció por primera vez en 1966, para ser

seguida en 1970 por el Journal of Cross-Cultural Psychology (Jahoda e

Krewer, 1997, p. 24; tradução minha). 19

 

Uma revisão do primeiro número pode ilustrar as características do programa de investigação transcultural proposto. Por exemplo, León Jakobovits, do Center for Comparative Psycholonguistics da Universidade de Illinois, afirmava que:

 

This type of analysis is illustrative of the evidence of cross-cultural differences

which the researcher can isolate for further study. It should be evident that, as

psychologists with only superficial knowledge of the many cultures we study,

we cannot offer adequate explanations for results of this nature. Cooperation

among social scientists from many fields and from different countries is not

only desirable but necessary in the comparative study of culture (Jakobovits,

1966, p. 37).20

 

Por sua parte, Nuttin Jr. propunha:

 

It seems to us that a critical replication of the Festinger and Carlsmith study

was appropriate for several reasons. In the first place, there is, especially in

the study of the social determinants of human behavior, an increasing interest

in cross-cultural research (1966, p. 37).21

 

Sempre no primeiro número, Marcello Cesa-Bianchi publicava os resultados de dois estudos transculturais: um estudo sobre processos de socialização em conformidade social e um estudo sobre estilo de enfrentamento e realização (acadêmica).

The results will be organized by such variables as age, sex and social class;

by cultural variables (defined by ethnic, national and social class variation

within countries) and by psychological variables (such as guilt, internalization

of adult norms, etc.). Data will be analyzed to determine the extent to which

aggressive behavior and compliance toward peers and adult authority is

determined and can be predicted from cultural, social and psychological

variables built into the design of the study (Cesa-Bianchi, 1966, p. 60).22

 

Inclusive no primeiro número, o próprio Piaget enfatizava a necessidade de desenvolver estudos comparativos interculturais: “En une mot a psychologie que nous elaborons en nos milieux, caracterisés par une certaine culture, une certaine langue, etc., demeure essentiellement conjecturale tant qu’on n’a pas fourni le

mattriel comparatif nécessaire à titre de controle”23 (1966, p. 12).

O International Journal of Psychology também foi a via privilegiada para a publicação do Informe “An appeal to psychologists”, que haviam preparado Fraisse, Klineberg e Leontiev. Estendemo-nos na citação textual de partes do referido documento por considerarmos que este destaca a posição oficial da IUPsyS.

 

Psychologists share with other people of good will a horror of nuclear

warfare, and a desire to live in a world of peace and international

understanding. They acknowledge with other biological and social scientists

the duty to consider the practical implications of their research findings and of

the technical knowledge which they have acquired. They bear, however, a

special responsibility at this moment in the history of mankind. Their discipline

is most directly concerned with man and human behavior: they are

professionally involved in helping men to realize their potentialities, by

facilitating their mental and social development. It is surely reasonable to

require psychologists to become professionally concerned also with man’s

survival (Fraisse et al., 1966, p. 165).24

It is for this reason that the Executive Committee of the International Union of

Psychological Science addresses to its thirty national member societies,

representing a wide range of geographical distribution and of social and

economic systems, as well as to psychologists throughout the world, the

following appeal: that they, as psychologists, actively direct their professional

energies toward reducing the menace of a new war, and toward improving

the chances for peace throughout the world (Fraisse et al., 1966, p. 166).25

A revista da IUPsyS já destacava, nos estudos comparativos interculturais, a chamada aos psicólogos publicada no segundo número, potencializando ainda mais a perspectiva transcultural da IUPsyS e da revista. No primeiro número do ano seguinte, dessa vez apenas com a firma de Otto Klineberg, publicou-se uma nota na qual já se aludia, sem mediações à posição da IUPsyS, sobre as relações internacionais:

 

The Executive Committee also decided that on the occasion of the Moscow

Congress a meeting should be arranged for further discussion of possible

action by the Union. It was agreed that the meeting should be relatively small

(if possible a true Round Table), but as representative as possible. Roger

Russell, then the Union’s Secretary-General, sent a letter to all national

member societies, asking them to suggest the names of participants. In the

name of the ad hoc Committee, I then wrote to all those whose names had

been submitted, inviting them to attend the Round Table, and if possible to

prepare a brief statement in answer to the following two questions: 1) What

do you regard as the possible contributions of psychology to the improvement

of international relations? 2) What kind of research, particularly of a cross-

national nature, would you like to see developed in the immediate future?

(Klineberg, 1967, p. 76).26

 

Nessa mesa-redonda mencionada, foram recebidas 12 propostas por escrito. Klineberg destacava que se conseguiu consenso ainda quando “las principales causas de las tensiones internacionales se encontraban em condiciones objetivas” os psicólogos “tienen a obligação profesional de indicar el papel desempeñado por los

factores subjetivos” (Klineberg, 1967, pp. 76-7).27

Os números seguintes da publicação voltaram a enfatizar a investigação transcultural. Inclusive, já em 1968, Berry publicou a primeira versão do diretório sobre investigadores dedicados à investigação transcultural que logo seria ampliado e atualizado (Berry, 1968).

Podemos concluir que, em seus primeiros anos, a IUPsyS discutiu a participação em temáticas sociais de relevância, como a saúde mental coletiva, a compreensão entre os povos da terra e a paz mundial. O contexto dessa preocupação foi a Guerra Fria e o horror da guerra nuclear, situação central na Europa nesses anos, especialmente a partir da retórica que o Ocidente outorgou ao tema (Hobsbawm, 1998). Em tal cenário, a IUPsyS promoveu intercâmbios científicos e institucionais entre investigadores de diferentes culturas, nacionalidades e linguagens. É possível que um dos resultados mais destacados desses intercâmbios tenha sido o impulso sustentado e defendido para a investigação no campo transcultural. A partir dos primeiros anos da década de 1970, esse impulso se debilitou até chegar a quase desaparecer na segunda metade da década de 1970. Muitos fatores contribuíram para isso, desde a edição de 1970 de uma nova revista sobre a especialidade, o Journal of Cross-Cultural Psychology, a aparição de uma nova sociedade internacional dedicada unicamente à psicologia transcultural (International Association of Cross-Cultural Psychology), até as próprias críticas surgidas na interioridade dessa ciência. Em particular, a análise da cultura como mais uma variável dos fenômenos psicológicos começou a ser vista como uma séria limitação para a compreensão inteiramente cultural desses fenômenos.

 

Referências

 

Adamopoulos, J. e Lonner, W. J. «Culture and psychology at a crossroad: historical perspective and theoretical analysis”. In Matsumoto, D. (ed.). The handbook of culture and psychology. Nova York: Oxford University Press, 2001, pp 11-3.

 

Adler, H. E. “The European influence on American psychology: 1892 and 1942”. In ______ e Rieber, R. W. (eds.). Aspects of the history of psychology in America: 1892-1992. Nova York: The New York Academy of Sciences - Washington: American Psychological Association, 1994, pp. 113-22.

 

AnÔnimo. “Congrès International de Psychologie Physiologique”. Revue Philosophique da France et de l’étranger, n. 28, pp. 109-11, 1889.

Berry, J. W. “Directory of Cross-Cultural Psychological Research”. International Journal of Psychology, v. 3, n. 2, pp. 137-48, 1968.

 

Binet, A. Introduction à a Psychologie Expérimentale. Paris: Felix Alcan, 1894.

 

Cesa-Bianchi, M. “The development of social attitudes as studied in two cross-cultural research projects”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 1, pp. 59-62, 1966.

 

Cole, M. Psicología cultural. Madrid: Morata, 2006.

 

Danziger, K. “Does the history of psychology have a future?”. Theory and Psychology, v. 4, n. 4, pp. 467-84, 1994.

 

______. “Universalism and indigenization in the history of modern psychology”. In Brock, a.c. (ed.). Internationalizing the history of psychology. New York: New York Umiversity Press, 2006, pp. 208-25.

 

Dergam, A. “El presente no es actual. Tres visiones de la psicología post-soviética”. Anuario de Psicología, n. 74, pp. 99-123, 1997.

 

Drever, J. “Foreword”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 1, pp. 1-2, 1966.

 

Fraisse, P. et al. “An appeal to psychologists”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 2, pp. 165-7, 1966.

 

Geuter, U. The Professionalization of psychology in Nazi Germany. Cambridge, England: Cambridge University Press, 1992.

 

González-Rey, F. L. “Advancing further the history of Soviet psychology: moving forward from dominant representations in Western and Soviet psychology”. History of Psychology, v. 17, n. 1, pp. 60-78, 2014.

 

Hobsbawm, E. Historia do siglo XX. Buenos Aires: Crítica, 1998. Jahoda, G. e Krewer, B. “History of cross-cultural and cultural psychology”. In Berry, J. W. et al. (eds.). Handbook of cross-cultural psychology: theory and method. Needham Heights, MA: Allyn & Bacon, 1997, v. 1, pp. 1-42.

 

Jakobovits, L. A. “Comparative psycholinguistics in the study of cultures”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 1, pp. 15-37, 1966.

 

Klineberg, O. “The IUPS and international relations”. International Journal of Psychology, v. 2, n. 1, pp. 76-8, 1967.

 

______. “Otto Klineberg”. In Lindzey, G. (ed.). History of psychology in autobiografphy. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, v. VI, pp. 163-82.

 

Krapf, E. “Las reuniones de Salud Mental de Londres y la fundación de la Federación Mundial de Salud Pública”. Neuropsiquiatría, v. 1, n. 1, pp. 69-75, 1949.

 

Krige, J. American hegemony and the postwar reconstruction of science in Europe. Cambridge: The MIT Press, 2006.

 

Lacan, J. Seminario 2: el yo en la teoría de Freud y en la tecnica psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 1992[1954].

 

Marillier, L. “Le Congrés de Psychologie Physiologique de 1889”. Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, n. 28, pp. 539-46, 1889.

 

Montoro, L. et al. “A short history of the International Congresses of Psychology”. Revista de Historia de la Psicología, v. 5, n. 1/2, pp. 245-52, 1984.

 

Morawski, J. G. e Goldstein, S. E. “Psychology and nuclear war : a chapter in our legacy of social responsibility”. American Psychologist, v. 40, n. 3, pp. 276-84, 1985.

Nicolas, S. e Murray, D. J. “Théodule Ribot (1839-1916), founder of French psychology: a biographical introduction”. History of Psychology, v. 2, n. 4, pp. 277-301, 1999.

 

______ e Söderlumd, H. “The project of an International Congress of Psychology by J. Ochorowicz (1881)”. International Journal of Psychology, v. 40, n. 6, pp. 395-406, 2005.

 

______ et al. “L’Année psychologique: history of the founding of a 100-year-old French Journal”. History of Psychology, v. 3, n. 1, pp. 44-61, 2000.

 

Nuttin, J. M. Jr. “Attitude change after rewarded dissonant and consonant forced compliance: a critical replication of the Festinger and Carlsmith experiment”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 1, pp. 39-57, 1966.

 

Ochorowicz, J. “Projet d’um Congre’s International de Psychologie”. Revue Philosophique de la France et de l’Etranger, n. 12, pp. 1-17, 1881.

 

Piaget, J. “Necessité et signification des recherches comparatives en Psychologie Génétique”. International Journal of Psychology, v. 1, n. 1, pp. 3-13, 1966.

 

Piéron, H. In Boring, E. G. et al. (eds.). History of Psychology in Autobiography. Worcester: Clark University Press, 1952, v. IV, pp. 257-78.

 

______. “Histoire succincte des Congrès Internationaux de Psychologie”. L’année Psychologique, v. 54, n. 2, pp. 397-405, 1954.

 

Rattner, C. Cultural psychology : a perspective on psychological functioning and social reform. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates, 2006.

 

______ e Hui, L. “Theoretical and methodological problems in cross-cultural psychology”. Journal for the Theory of Social Behavior, n. 33, pp. 68-94, 2003.

 

Rosenzweig, M., et al. (eds.). History of the International Union of Psychological Science (IUPsyS). Hove: Psychology Press, 2000.

 

Schofer, E. “Science associations in the international sphere, 1875-1990: the rationalization of science and the scientization of society”. In Boli, J. e Thomas, G. M. (eds.). Constructing world culture: International Nongovernmental Organizations since 1875. Stanford, CA: Stanford Umiversity Press, 1999, pp. 249-66.

 

Segall, M. H. et al. . “Cross-cultural psychology as a scholarly discipline”. American Psychologist, v. 53, n. 10, pp. 1.101-10, 1998.

 

Tomas-Rangil, T. The politics of neutrality: UNESCO’s Social Science Department, 1946-1956. Durham, NC: Center for the History of Political Economy, 2011. (Chope Working Paper 2011-8). Zeitlin, J. “Introduction”. In ______ e Herrigel, G. (eds.). Americanization and its limits: reworking US technology and management in post-war Europe and Japan. Oxford: Oxford University Press, 2000, pp. 1-50.

 

Zeitlin, J. “Introduction”. In ______ e Herrigel, G. (eds.). Americanization and its limits: reworking US technology and management in post-war Europe and Japan. Oxford: Oxford University Press, 2000, pp. 1-50.