Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Parte V – Encontros e desencontros entre a psicologia e outros saberes ao longo da história
Parte V - Encontros e
desencontros entre a
psicologia e outros saberes ao
longo da história
Capítulo 14 - Encontros e
desencontros entre a
psicologia e outros saberes ao
longo da história
Lucia Rossi
Lijtmaer apresenta um caso ressonante: uma comunidade religiosa de origem belga que se radica no México da década de 1960. Como uma proposta inédita, ele mostra seu caráter original vanguardista, diferente, fora de todo cânone, admirada e suspeitada. É a Teologia da Libertação, com projeto fora de todos os estandartes previstos, alcançando grande ressonância, repercussão e visibilidade. Trata-se de uma experiência exótica situada no México em um momento de grande abertura, e, portanto, dificilmente enquadrável. Esta situa-se fora do habitualmente aceito e reconhecido tanto das ordens religiosas mexicanas como das outras ordens permitidas pela Igreja em geral. Assim, situada à margem do permitido pela Igreja, solicitou a Roma seu reconhecimento como tal, desafiando na forma, nas maneiras, em suas procedências. Desafiou a Igreja, mas envolveu a comunidade toda.
Procederemos, então, por partes.
No nível grupal, da comunidade, surpreendeu com um feito. Seu líder, sacerdote belga, impressionou o grupo que o seguia com suas alucinações, determinando tanto a maneira de conceber sua religiosidade como o comportamento peculiar desta comunidade. Tal situação dificilmente enquadrável, por momentos, tornou-se suspeita por bordear o estado psicopatológico em sua dimensão tanto individual quanto grupal e institucional. Em determinado momento solicitaram a intervenção de um grupo de psicanalistas com formação grupal kleiniana. É esse riquíssimo material gravado das sessões o que apresenta Lijtmaer. A experiência transcorreu em um momento de descontinuidade.
No nível religioso, a proposta disruptiva e revolucionária da irmandade belga e de seu líder consistiu em uma leitura direta da Bíblia. O responsável pelo culto fala dirigindo-se de frente para a congregação, dando as costas ao altar e a uma série de detalhes que recordam o funcionamento dos cultos protestantes, entre outros detalhes que provocarão a investigação eclesiástica rigorosa em que a Igreja, finalmente, baseando-se em motivos religiosos (exclusivamente?), considerou vulneráveis seus princípios fundamentais e em fronteira com a dimensão herética.
Como vemos, segundo a perspectiva em que se aborde, isso gera consultas a psicanalistas grupais, além de inquietudes nas autoridades religiosas. Mas se constata também que essas inquietudes a respeito do nível religioso se apoiam na consulta aos psicanalistas pelo funcionamento grupal. Estas constituem duas dimensões nitidamente demarcadas.
É interessante o desenlace: a comunidade segue funcionando com suas mesmas características, prescindindo de consulta com os psicanalistas grupais e com o líder intacto quanto às suas alucinações que impactam o comportamento do grupo e fora da Igreja, que finalmente não os aprova como ordem religiosa. A comunidade segue funcionando fiel a seus achados religiosos não convencionais, laicos e com hábitos de convivências frouxos e abertos entre seus integrantes.
Um dos assistentes a apresentação de Lijtmaer, o professor Rubén Ardilla, comenta ao final que, quando era jovem e estudava psicologia experimental em uma universidade americana nos anos 1960, chegou ao conhecimento de todos essa experiência exótica tão famosa, e um grupo de estudantes decidiu viajar ao México para visitar a comunidade, ávidos para conhecer diretamente essa experiência controversa desafiante, e tirar suas próprias conclusões. Vimos então que era tão admirada e famosa – ao ponto de transcender fronteiras – como se suspeitava: os paradigmas de liberação incluíam a dimensão religiosa e política na Teologia da Libertação. Além disso, essas novas propostas e novos desenhos incluíam a permissividade e a liberação sexual próprias dos anos 1960; e, com isso, a suspeita da permissão da homossexualidade estava presente. Os visitantes buscavam ver com seus próprios olhos, esquadrinhar essas novas propostas e tirar suas próprias conclusões a respeito do funcionamento comunitário religioso.
Essa irmandade, que seguiu funcionando igualmente, ainda que sem legitimação da Igreja, terminando como uma irmandade laica, gozou de bastante aceitação e admiração por parte da comunidade circundante – mesmo tendo gerado efeitos inquietantes, como hoje em dia. Na época, todo o mundo estava muito pendente do comportamento tão inusitado desse grupo, de seus achados e de seu modo de encarar seus problemas.
Essa foi uma excelente maneira de apresentar os materiais do professor Lijtmaer em um esforço que inclui o respeito às fontes, como resgatar o genuíno do comportamento peculiar dessa pequena comunidade, sem tornar opaco, resgatando a originalidade de suas propostas de uma leitura psicanalítica estrita.
II
A professora Boarini planeja incluir a evolução e as mudanças nos novos paradigmas de saúde mental do pensamento contemporâneo como proposta chave na formação do psicólogo. Busca simultaneamente articular e relacionar a um psiquismo em evolução com a mobilidade e a mudança de paradigmas. Esse duplo movimento – mudança de paradigmas e mudança na concepção do estado psíquico como eixo na formação do psicólogo – aponta para a dinamização das categorias taxonômicas que tendem a instalar-se, fixando seus enfoques e suas consequências e criando categorias com aspectos estigmatizantes.
Para esclarecer essa consideração, a professora Boarini constrasta os usos atribuídos à psicologia na década de 1920. Educadores e higienistas coincidiam no Brasil em uma visão naturalista e classificatória da conduta. Quando os professores avaliavam seus alunos de educação primária, enfatizavam suas características individuais – as provas psicométricas estão dispostas assim – organizando comportamentos e desempenhos infantis em grupos de categorias hierárquicas que constituem mapas sociais fixos, inertes, condenatórios e com efeitos estigmatizantes. Digo no Brasil porque, na Argentina, na época à qual se refere a professora Boarini, vivia-se o período conservador de 1900 a 1920, que, um pouco antes, era um período de democracia de participação restrita, taxonomizando a situação da criança. Os antecedentes estavam descritos em folhas de cor amarela, verde ou vermelha, para fins de adoção, segundo o desempenho e as origens da criança: precaução – educabilidade restrita; adotável; periculosidade, pouco recomendável para adoção. Essas classificações definiam e naturalizavam uma situação, fixando-a e definindo um destino para a criança. Na década de 1920, na Argentina, começou um período de democracia ampliada que inaugurou fichas psicológicas no âmbito educativo forense, em que se incluíam diagnósticos e prognósticos, sobretudo, um tratamento possível, datas de alta e derivação institucional pertinente. Ou seja, moviam-se as categorias institucionais e aparecia o vocabulário para indicar o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento, surgindo variáveis temporais, sobretudo, “altas” e remissões, circulação por instituições.
Por que todo este jogo atento a resgatar a mobilidade? Porque, hoje, a integração de múltiplas perspectivas é chave quanto ao que incluem e destacam em relação à subjetividade e aos coletivos sociais. A inclusão social de todos os atores confere à interação social um lugar primordial: o sujeito é colaborador corresponsável da construção discursiva. O diálogo participativo abre para uma psicologia uma dinâmica de construção social.
Assim, o sujeito é redescoberto numa dimensão complexa, redefinido numa nova dimensão que alcança a intersetorialidade. Essa tendência contemporânea tão significativa tende a integrar inclusão social, enfoque de direitos, interdisciplina e intersetorialidade.
A mobilidade conceitual paradigmática envolve uma nova ideia de subjetividade em contexto social: complexa, construtora de discursividade social, diálogo, definida pela interação. Aberta a múltiplas dimensões participantes, construtores corresponsáveis com função dinâmica em um contexto social móvel.
A professora Boarini insiste nas novas tendências paradigmáticas que repensam a subjetividade em complexidade como construtora participante da discursividade social. E o social aparece como em construção permanente. Ela insiste que essas tendências tomem parte significativa na formação de psicologia.