Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Unidade V - Outras histórias…
Capítulo 19 - Comentando
algumas histórias da psicologia
Alexandre de Carvalho Castro
Em Inventing our selves: psychology, power, and personhood, texto elaborado a partir do que foi originalmente uma palestra, Nikolas Rose procedeu a algumas ponderações históricas, afirmando que o século XX pode ser entendido como sendo o século da psicologia. Muitos estudiosos concordam com ele, e a razão pela qual aludo a esse autor é que a série de textos aqui comentados ilustram, ainda que em tênues linhas gerais, o que Rose (2008) quis enfatizar.
De fato, muito embora constituam temáticas diferentes, esses capítulos sobre enquadramentos diversos da psicologia – de políticas públicas à difusão das neurociências; da desinstitucionalização italiana à reforma psiquiátrica brasileira –, ainda que elaborados como capítulos isolados, mantêm pontos de conexão relevantes, principalmente pelo fio condutor que pode ser derivado do viés histórico. Ademais, os protagonistas dessas investigações – destacadamente o estadunidense William James (1842-1910), o suíço C. G. Jung (1875-1961), o alemão Walter Blumenfeld (1882-1967), a brasileira Nise da Silveira (1905-99) e o argentino Miguel Rolando Covian (1913-1992) – tomaram parte, uns mais outros menos, desse século sugestivamente nomeado como psicológico por Nikolas Rose.
Há de se notar que os textos também mostram a história de saberes psicológicos que não se constituíram univocamente, mas em fluxos sócio-históricos e geográficos, em trajetórias entrecruzadas, em migrações, transições e viagens. Em fins dos anos 1970, por exemplo, Franco Basaglia veio ao Brasil para uma série de intervenções e seminários que muito contribuíram para o desenvolvimento da reforma da política de saúde mental brasileira. Anos depois, brasileiros fizeram o caminho de volta como voluntários em Trieste. Miguel Rolando Covian se mudou da Argentina para o Brasil, e ficou. Walter Blumenfeld fugiu da Alemanha nazista para o Peru, onde permaneceu. Mas William James, que também veio para a América do Sul, preferiu retornar.
Os referidos capítulos igualmente mostram a história de saberes psicológicos, cujas análises, críticas e apropriações se constituíram multifacetadamente por meio de diálogos e de ideias compartilhadas em muitos escritos. Com aproximações, é fato, mas também distanciamentos, pois, se em um psiquiatra italiano – Franco Basaglia – há luz, em outro – Ugo Cerletti – o que se nota é uma iluminação às avessas.
Realmente, o processo compreensivo na ciência psicológica é dinâmico, o que implica a investigação das distintas contribuições na produção de discursos diante da relação histórica construída dialogicamente. Assim, em “A influência de William James sobre a obra de C. G. Jung”, vemos que Jung se apropriou de James, mas, em “Proximidade entre os procedimentos terapêuticos de Nise da Silveira e os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica”, percebemos que Nise se apropriou de Jung. Autores que se cruzam, leituras que se sobrepõem.
Uma palavra ainda pode ser dada sobre “A atuação e a importância do psicólogo nas políticas públicas de violência doméstica”, cujo teor evidencia a trajetória histórica da luta dos movimentos feministas, no Brasil, em busca de uma legislação contra a violência doméstica. Aspecto, aliás, expressamente relevante, uma vez que a ênfase sobre tais políticas públicas pouco aparece nas grades curriculares de cursos de Psicologia.
Referência
Rose, Nikolas. “Psicologia como uma ciência social”. Psicologia & Sociedade, v. 20, n. 2, pp. 155-64, 2008.