Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Cap. 10 – Emilio Mira e sua experiência na URSS (1931)

Capítulo 10 - Emilio Mira e sua

 

experiência na URSS (1931)1

 

Helio Carpintero

 

A vida de Emilio Mira y López reúne uma ampla série de experiências que fazem dela uma efetiva representação da história de seu tempo. Nascido em 1896, em Santiago de Cuba, quando essa ilha ainda formava parte do mundo regido pela Espanha, logo teve que abandoná-la para mudar-se para a península, após a guerra hispano-americana, que pôs fim ao império colonial espanhol em 1898.

Mira contemplou de longe a Primeira Guerra Mundial, tendo recebido a influência do novo interesse pela psicologia que esse conflito despertou. Mais tarde, viveu plenamente a Guerra Civil Espanhola, do campo republicano, e, em seu término, exilou-se primeiramente no Reino Unido, depois, no mundo iberoamericano, em meio à agitação produzida pela Segunda Guerra Mundial. Assistiu, de dentro, ao desenvolvimento e à modernização do mundo latino-americano, após reconstruir sua instalação pessoal e profissional no Brasil (Iruela, 1993).

Uma das experiências importantes que teve oportunidade de realizar foi o conhecimento direto da União Soviética, durante os anos 1930, em um tempo em que ali se via a oportunidade única de se estabelecer uma sociedade comunista e igualitária, que atraía os olhares esperançosos de grande parte da esquerda europeia da época.

 

Notas biográficas

 

Recordemos brevemente que Mira y López havia nascido, como já dito, em Santiago de Cuba, em 1896, e com sua família se reinstalou em Barcelona, em 1903, depois do chamado “desastre de 1898”, com a total perda do Império Colonial espanhol. Depois de realizar os estudos de medicina, conseguiu uma vaga de médico municipal em Barcelona, em 1918, e no ano seguinte recebeu a nomeação de chefe do laboratório de psicofisiologia do Instituto de Orientação Profissional, centro estabelecido pela prefeitura da “ciudad condal”, com apoio da Mancomunitat da Catalunha (Siguán, 1981; Saiz y Saiz, 1996). Pouco tempo depois, em 1922, doutorou-se em medicina com uma interessante tese sobre os reflexos musculares e os processos de atenção. Daí em diante, sua vida girou em torno da psiquiatria, especialidade da qual foi catedrático em 1933, e também da psicologia.

Recordemos, não obstante, que o ambiente da época, e particularmente o que se vivia na Catalunha, era de uma grande agitação social. Em 1909 havia tido lugar ali a “Semana Trágica”, evento de grande violência que comoveu o país. O desenvolvimento industrial e econômico da região determinou uma importante imigração de trabalhadores do resto da península, que se acomodaram em várias favelas, aguçando o sentimento de problema social. Mira, jovem médico, com sentimento profundamente fraterno, escreveu uma série de artigos no periódico Justicia Social, denunciando as condições de vida em “Barracópolis”, os aglomerados de cabanas e barracas que rodeavam a grande cidade. Tais artigos são a expressão da viva consciência social de seu autor, experiência que, sem dúvida, animou Mira a não desatentar-se dessa faceta humanitária de sua vida.

Também, já na emigração, seu colega Ortega Duran, ao recordar o jovem amigo, escreveu: “Muitas noites […] escapava para os bairros proletários da grande cidade, onde, nos inesquecíveis Ateneos sindicais… lecionava como um professor e discorria como um companheiro” (Ortega Duran, 1964, pp. 104-5). Ademais, seus interesses políticos de homem de esquerda o levaram a participar, junto com outros amigos e colegas, como Gabriel Alomar, Josep Xirau, Francesc Serra i Moret, da fundação da União Socialista da Catalunha, em 1923, grupo que se transformaria, anos mais tarde (em 1936), no Partido Socialista Unificado da Catalunha, PSUC (Iruela, 1993, p. 89; Mülberger y Jacó, 2007, p. 314). Manteve também grande amizade com um dos líderes socialistas da Catalunha, Rafael Campalans, e apoiaria os movimentos de higiene mental que se iniciaram no país nos tempos da II República.

Para terminar com esta breve revisão biográfica de Mira – centrada toda ela antes de sua emigração –, recordemos que este assumiria durante a guerra civil a chefia dos serviços psiquiátricos da República, apoiando assim o governo com sua experiência e competência médica especializada.

 

A VII Conferência Psicotécnica em

 

Moscou (1932)

 

Desde 1920, haviam-se iniciado os trabalhos da Société Internationale de Psychotechnique, uma associação que buscava integrar os técnicos em psicologia aplicada e os psicotécnicos que haviam multiplicado sua presença social em virtude da guerra mundial, evento que obrigou diferentes exércitos nacionais a confiarem aos especialistas em psicologia os trabalhos de seleção de pessoal e atenção aos combatentes afetados por transtornos psicológicos como resultado da vivência direta da guerra.

Desde o primeiro momento, Emilio Mira tomou parte nas atividades da nova associação e, em 1921, organizou a II Conferência, em Barcelona, entre os dias 29 e 30 de setembro. Depois da primeira, a de Genebra, em 1920, organizada por E. Claparéde, a personalidade e as conquistas do psicotécnico de Barcelona adquiriram nova reputação internacional, justificando a eleição dessa cidade como sede da nova reunião.

Os congressos foram se sucedendo, e, em 1931, Mira veio a celebrar a VII Conferência Internacional de Psicotécnica em Moscou, cidade que vivia em plena efervescência o processo da revolução soviética, entre os dias 8 e 12 de setembro daquele ano, com a presidência do professor Isaac Spielrein (1891-aprox. 1937), que havia assistido previamente à reunião de Barcelona de 1930. Ali havia apresentado um trabalho sobre “Quelques éléments d’une theoríe de la psychotechnique”, em que oferecia uma versão da disciplina fundamentada nas doutrinas de Marx (Spielrein, 1930, p. 322 ss.).

Na cidade de Moscou renovada pelo governo soviético, veio a se reunir um considerável número de especialistas: 160 soviéticos, 100 estrangeiros, e um alto número de convidados: 800 (Petrovsky, 1990). Suas principais áreas temáticas giraram em torno da teoria psicotécnica, os indicadores matemáticos em psicotécnica e a psicotécnica do comércio. Um tema transversal parece ter estado muito presente em todas as sessões: a comparação de uma psicotécnica marxista e outra “burguesa”, questão lógica, dado o momento e o lugar de sua celebração.

 

O artigo de Mira

 

Entre os trabalhos sobre conceitos gerais da especialidade, o artigo de Mira ocupou-se da “profissiografia” (Mira, 1931a). O autor se declara partidário de estudos com certa especialização em seu objetivo, em lugar do que chama “profissiografias integrais”. Não é o mesmo, diz, fazer este, atendendo ao aspecto técnico do trabalho, que tomar em consideração os aspectos morais ou, inclusive, filosóficos. Ele considera inoportuno que se possa tratar de orientar a profissão de viajante empregando questionários que se faz supor necessárias mais de cem aptidões aos candidatos ao posto. Para evitar isso, o cientista apresenta alguns tipos de profissiografias que aparentemente foram diferenciadas no Instituto de Barcelona: longitudinais e transversais – que seguem a evolução do trabalho ao longo do tempo ou fazem um recorte em momento dado para ver as funções implicadas –; superficiais ou profundas, isto é, descritivas do trabalho externo das tarefas ou orientadas pelas atitudes subjetivas de reação do trabalhador. Mira cita nesse ponto Adler e sua introdução à psicanálise da vocação nesse campo de trabalhos profissionais. A isto há que se adicionar a pluralidade de métodos de estudo. Mas Mira insiste, sobretudo, em primeiro lugar, no estudo de habilidades ou funções gerais (fator G etc.), ao invés de outras mais específicas. Dessas aptidões, em Barcelona, se ocuparam, de suas variadas intensidades, e a forma de sua aplicação em cada caso. E, em segundo, parece-lhe essencial a validação das hipóteses alcançadas, fazendo comparações entre grupos, basicamente um de profissionais, ainda que heterogêneos, e outro de sujeitos profanos no trabalho. Termina afirmando que os muitos dados não se correlacionam com a exatidão do estudo; que em profissões superiores, as habilidades específicas não têm valor de seleção, que grupos de profanos de elite obtêm altos valores mais por sua capacidade de seguir as instruções do técnico que por suas qualidades especiais, e que é melhor validar os dados obtidos ao comparar grupos que ao comparar sujeitos (Mira, 1931a).

Em suma, seu artigo apresentava o modus operandi de seu grupo em Barcelona, no qual os aspectos gerais, psicológicos e de personalidade implicavam grande alívio adiante da análise micrográfica de outros grupos.

 

A visita de Mira a URSS

 

Mais importante aqui são, para nós, as opiniões que Mira formou na ocasião da viagem sobre o regime soviético e o valor da ideologia comunista. O cientista viajou a Moscou em setembro do ano de 1931, junto a outras personalidades do mundo cultural de Barcelona: o catedrático Joaquim Xirau, o pedagogo Rafael Campalans e o professor Juan Roura Parella, interessado por temas psicológicos (Mülberger e Jacó, 2007).

Pouco depois de seu regresso, em outubro do mesmo ano, concedeu uma entrevista ao periodista Gabriel Trillas (1931) – quem, aliás, o chamava de “Enrique Mira” – que apareceu no dia 14 daquele mês.

A viagem foi primeiramente a Paris, de lá, para Berlim, depois Varsóvia, e, ao fim, Moscou. Começou chamando-lhe a atenção o cartaz de saudação que precedeu sua chegada à estação – “Saúde aos trabalhadores do mundo oprimido” – e os cartazes de Lênin e Stálin, de propaganda da revolução e luta contra o analfabetismo. Mais concretamente, achou que “Moscou é uma cidade que dá a sensação de viver em perpétua festa e em contínuo trabalho”. Há trabalho contínuo, descanso e festa em distintos dias para cada caso. Não há tráfego de rodas, salvo carros oficiais, e alguns “carros velhíssimos, frágeis, oxidados, guiados por motoristas tão sujos como velhos que pedem uma quantidade fantástica por viagem e ninguém os toma”. Existem excelentes ligações de trens, acrescenta.

O sistema comercial é cooperativo. As pessoas não parecem ricas, mas estão cheias de entusiasmo e fazem largas filas nos armazéns cooperativos, cada qual como lhe foi designado. “As pessoas vestem-se mal e as moradias são escassas, no entanto, há uma sensação enorme de vida, de trabalho e entusiasmo”. Mira anota, também, que os turistas estão obrigados a gastar dez dólares diários, senão o governo os cobra depois.

Em relação ao mundo do trabalho, conta que os sovietes mantêm a cooperação entre trabalhadores e camponeses, recordando que Lênin se equivocou ao pensar em reconhecer que a “terra era para os agricultores”, coisa que o governo logo retificou.

O cientista também crê que se cumprirá o “plano quinquenal”, observando que os bolcheviques suprimiram a classe média, a burguesia, e, com eles, perderam técnicos, os quais é necessário trazer do estrangeiro. Além disso, acreditam mandar nos russos, enquanto estes estão mais seguros de mandar naqueles. Mas, com um pouco de tempo, “a maquinaria da URSS funcionará maravilhosamente”, acredita Mira.

Finalmente, Mira estende suas opiniões sobre Lênin, quem teve erros já superados, pondo a política por cima das qualidades espirituais e dos “princípios”. Foi um homem “eminentemente prático”. Com sua ação diretora, “salvou-se a nova Rússia e com ela a revolução”.

Outras opiniões aparecem no artigo intitulado “De uma viagem à URSS” (Mira, 1931b), cuja localização não nos foi possível – o recorte de que nos valemos tem suprimidas as possíveis indicações de origem.

Aqui reaparece a emoção que lhe produziu a saudação do mundo russo aos visitantes com a famosa frase: “trabalhadores de todos os países, uni-vos”, reiterando sua impressão da alegria da gente na vista do trem e recordando conversas amistosas com os russos sobre a revolução.

Mira ainda acrescenta: “E agora os direi […] o segredo de porque a enorme transformação que levou a velha Rússia à moderna União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi possível: tornou-se possível porque contou com uma sólida doutrina revolucionária aplicada por alguns cérebros geniais – Lênin e Stálin – infiltrada em oito milhões de homens dispostos a todo momento se sacrificarem em proveito da comunidade social, trabalhando dia e noite sem parar nem sequer para comer, com vistas a superar rapidamente o caos inerente ao

A visão que ele tem é clara: cada membro do partido “produz a impressão de um iluminado […] não há alguém que se aproveitou dos demais um mínimo de sua situação circunstancial de privilégio político dentro do país para gozar de uma comodidade ou de um benefício acima dos demais camaradas ‘sem partido’”. E, como modelo, menciona o mundo particular onde vive Lênin, um “ambiente franciscano”, de fervor religioso, mas “da religião que religa e une os homens, e não a pseudo-religião ocidental”.

Seguindo por esse caminho, Mira afirma que agora a santidade tem que ser buscada no partido comunista, antes que em outros lugares, porque “a URSS é um povo livre que vive de acordo com as leis naturais da evolução do espírito, defendendo a liberdade, igualdade e a fraternidade, e sentindo a ‘irmandade amorosa que os habitantes da URSS sentem por todos os homens que querem viver decentemente”.

E o psicotécnico que há em Mira aparece para agora acrescentar: todos os habitantes da União Soviética chegam lá onde se permite suas possibilidades psicológicas, e, portanto, não há frustração derivada da situação social injusta dominante nas sociedades ocidentais. Definitivamente, acrescenta: “Catalães, nos inclinemos ante o espírito da nova Rússia” e a tomemos por modelo.

Esses textos não necessitam de comentário. Falam por si mesmos. O psiquiatra catalão, de orientação fortemente de esquerda, encontra no mundo soviético a realização paulatina e entusiasta dos ideais da revolução. E, apesar das limitações circunstanciais, vislumbra um novo estado mais justo, incomparável com os estados ocidentais não comunistas.

 

Uma aproximação psicológica

 

Encontramos o recorte de uma conferência pronunciada por Mira em Reus (Tarragona), em 6 de fevereiro de 1932 (Mira, 1932a). Tampouco há dados que permitam identificar o periódico onde se publicou (um resumo mais breve, com o título de “La conferencia del Dr. Mira”, apareceu no periódico de Reus “Les Circumstancies" (sic), de 7 de fevereiro, coincidente com o resumo que trazemos a seguir (Mira,1932b)).

Interessa-nos porque a conferencista intitulou sua exposição de “Aspecto psicológico da revolução russa” e, nela, propõe uma visão da população russa de uma tipologia etnológica que não carece de interesse. Essa população, segundo Mira, estava constituída por três tipos de gente: os mongóis, homens da estepe, basicamente guerreiros; os eslavos, povo dos bosques, camponeses, que seriam granjeiros e agricultores; e um terceiro tipo, que havia surgido da mistura desses grupos e que se tornaram comerciantes. Os eslavos constituíam, segundo ele, 80% da população, com 10% para os mongóis, e outro tanto para comerciantes.

“A psicologia dominante do homem russo é a do homem primitivo”, na qual o forte impõe a tirania, que é o que fizeram os czares com o resto da população, conduzindo à revolução. Quando esta se produziu, eliminaram-se os comerciantes, diz o orador; os guerreiros opuseram-se aos camponeses, e então tornaram-se favoráveis à industrialização; e os camponeses queriam, acima de tudo, a propriedade das terras. Em oposição a esses grupos, interveio Lênin, que impôs as cooperativas industriais e agrícolas como modo de solução. Também necessitou de técnicos, e os obteve graças à implantação dos planos quinquenais, em que se promoveu o contrato de especialistas estrangeiros para resolver os problemas de transformação do país.

Essa alteração modificou a situação. “A revolução serviu para destruir a classificação entre homens bons ou maus […] todos somos bons e maus”. A Rússia, assim, é um país de vários tipos, onde contrasta o camponês abúlico com o operário industrial inquieto e também com o soldado asiático; um país, diz, onde há 17 aparelhos de raios X ao mesmo tempo que há o melhor laboratório de anatomia do mundo. E termina dizendo que espera a “terceira fase da revolução”, que será “mais amorosa, mais humana”. A dureza da situação não escapa de sua vista, mas sua confiança no futuro é completa.

 

Socialista ou comunista

 

Finalmente, Mira publicou no periódico Justicia Social (1932c) um artigo intitulado “Socialismo i Comunismo”, que saía após um prévio resumo de páginas de uma conferência sua, em que acrescentou alguns detalhes que não carecem de interesse. Refere-se, por um lado, ao “antagonismo entre socialistas e comunistas”, e detalha que é “unilateral”, porque os primeiros “se encontram unidos […] ideologicamente aos segundos, quem por sua parte criticam sistematicamente” aqueles.

Mira vai além. Interessa-se pelas possibilidades de “transplantar de um povo ao outro os mesmos remédios”, e a isto considera “antibiológico”. Por isso não crê que se possam transplantar os remédios russos a outros países, como, por exemplo, o nosso. Este é tão distinto da Rússia “como a noite do dia”. E detalha: a “Rússia é um povo semiasiático, em que a iniciativa individual é a exceção e o conformismo fatalista é a regra”. Enquanto nós somos individualistas, “levamos cada um de nós um deus no corpo, e somos inimigos sistemáticos da autoridade, da ordem e da organização”. Por isso estamos sempre envoltos em lutas interiores. Ademais, acrescenta, na Rússia não há classe média, enquanto em nós esta ocupa um lugar importante.

Aos russos, as medidas da revolução os levam “a todo gás” a um futuro de bem-estar. Mas Mira não deixa de ver que a Rússia atual é o país “em que havia mais pobres e em que as condições gerais de vida da população eram, ainda, muito duras” (falta de liberdade de exposição de ideias, sujeição imperativa ao Estado constituído, e governado por uma massa minoritária, militarismo exagerado, higiene rudimentar – por falta de técnicos sanitários etc.).

O cientista acrescenta ainda que, enquanto os comunistas apenas admitem os técnicos quando se submetem à sua política, os socialistas buscam, por sua vez,

 

inspirar suas finalidades no parecer justo – nem burguês, nem proletário –

dos homens de ciência, que são os que, definitivamente, podem conhecer

mais que ninguém a solução melhor para cada um dos múltiplos problemas

que a renovação social da estrutura social comporta e delineia.

 

E termina com uma declaração explícita do apreço dos socialistas catalães atuais, que se sentem mais próximos da ideologia comunista que de nenhuma outra das atuantes na Catalunha.

Assim, junto a essa declaração pessoal de afinidade ideológica com que as últimas linhas convergem, há um interessante reconhecimento das limitações do regime russo, bem como a convicção de que cada país deverá encontrar suas soluções próprias, sem buscar copiar o que outras sociedades e outras culturas conseguiram em condições diferentes das que se dão no país que busca se reformar. A partir de certo biologismo, que defende a individualidade de cada sociedade, Mira contempla o modelo russo como um extraordinário estímulo que incita a criar, com originalidade, novas soluções para os problemas sociais do nosso país. A admiração de seus outros textos aparece aqui moderada por um realismo cheio de sentido.

 

Conclusão

 

Os breves textos comentados mostram a posição absolutamente positiva e favorável à ideologia e a realização concreta que encorajava a revolução russa. Seu apreço pelo novo sistema, o movimento que impulsionava a aparição de um “homem novo”, como se dizia naqueles dias, aparece unido a um sentido fortemente crítico das instituições e do funcionamento das democracias ocidentais, além de ser também muito crítico com o papel histórico da religião e da Igreja.

É interessante ver que sua curiosidade o levou a buscar informações que iam mais além do apresentado nas campanhas publicitárias, e não deixou de ter sensibilidade para perceber as limitações e os defeitos da vida implantada pela revolução. Diante do valor ideal daquela enorme construção histórica, Mira teve juízos positivos e esperanças no futuro. Mas sua convicção na individualidade irredutível de cada povo o advertiu da inutilidade de copiar fórmulas estrangeiras para os problemas próprios. E esse sentido realista também o deixou ver, em meio à paixão revolucionária, os defeitos e limitações que ainda continuavam afetando a sociedade russa.

A mentalidade do homem de esquerda, sem dúvida, encontrou na experiência russa muitos motivos de reafirmação e esperança. Com Mira, coincidiam inumeráveis pessoas do ocidente, que viam o progresso revolucionário na Rússia como uma chama de esperança para os homens com sensibilidade social, obrigados, não obstante, a criar suas próprias soluções com originalidade.

Não obstante, a valoração última de toda aquela experiência podia talvez extrair-se de sua eleição do mundo latino-americano para reconstruir sua vida depois do exílio na Espanha. Deixou o mundo soviético e buscou na comunidade hispânica um marco hospitaleiro e promissor, onde seguiu dando alento aos ideais de justiça. Talvez tenha deixado para trás o brilho e a esperança das realizações revolucionárias que a história foi pondo em seu lugar.

 

Referências

 

Iruela, L. M. Doctor Emilio Mira y López: la vida y la obra. Barcelona, Espanha: Universidad de Barcelona, 1993.

 

Mira, E. “La professiographie”. 7ème Conference International de Psychotechnique, Moscou. Moscou, URSS: D’Etat de la Literature Economique et Sociale, 1931a.

 

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______. “Socialisme i comunismo”. Justicia Social, 1932c.

 

Mülberger, A. e Jacó Vilela, A. “Es mejor morir de pie que vivir de rodillas: Emilio Mira y López y la revolución social”. Dynamis, n. 27, pp. 309-32, 2007.

 

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Petrovsky, A. Psychology in the Soviet Union: a historical outline. Moscow, URSS: Progress Publish, 1990.

 

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Trillas, G. El doctor Mira nos cuenta sus impresiones de la URSS. [s.l], 1931.