Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Prefácio
Cristiana Facchinetti
Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz, Brasil
Por sua longevidade e importância, o Programa de Estudos e Pesquisas em História da Psicologia Clio-Psyché, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/Brasil), coordenado por Ana Maria Jacó-Vilela desde 1998, vem se consolidando como um núcleo de intensas atividades de pesquisa, ensino, divulgação e publicação em história da psicologia. Seus eventos bianuais converteram o Programa em um centro de reunião interinstitucional e internacional de historiadores dos saberes psicológicos, tornando-o locus de produção e divulgação de trabalhos policêntricos, partícipes da consolidação de uma reflexão historiográfica e social do conhecimento psicológico.
O livro Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia, cuidadosamente organizado por Jacó-Vilela e Oliveira, apresenta ao amplo público universitário e de pós-graduação o acúmulo das reflexões adquiridas ao longo de um desses eventos, o “XI Encontro do Clio-Psyché”. Trata-se de um conjunto de trabalhos selecionados por suas análises precisas e que ultrapassam as bordas locais e nacionais. Alguns autores foram convidados como palestrantes e conferencistas e, agora, presenteiam-nos com um texto mais aprofundado sobre o tema; outros, porém, foram convidados para esta coletânea após envio espontâneo de trabalhos e apresentação primorosa ao longo do evento.
Em conjunto, os textos são uma contribuição valiosa para quem considera investigar como determinados sistemas conceituais se transnacionalizam e produzem práticas psicológicas variadas. Nesse processo, ganhamos acesso a redes científicas e a processos de apropriação, (re)interpretação e aplicação dos saberes psicológicos, de acordo com referências temporais, culturais e sociais.
Para possibilitar essa diversidade, os autores da coletânea são de diferentes instituições e possuem inserções acadêmicas variadas, capazes de conformar um conjunto bastante amplo e aprofundado de reflexões. Em conjunto, os capítulos contribuem para um diálogo original entre a história e a psicologia, formando um mosaico da Ibero-América.
Apesar de estarem organizados ao longo do livro pelos temas do Encontro, os capítulos também podem ser sistematizados a partir de diferentes eixos de problemas que trazem e que permitem contextualizar os mais diversos trabalhos teóricos, trajetórias profissionais e práticas científicas.
Assim, o primeiro eixo de discussão que convém destacar diz respeito aos “modos de pensar e de fazer história da psicologia”, que inclui importantes reflexões sobre a relação entre marxismo e a história e historiografia da psicologia, capítulo de Fernando Lacerda, da Universidade Federal de Goiás (Brasil); e um debate historiográfico relevante sobre as diferentes culturas psicológicas, de Maria Andrea Piñeda, da Universidad Nacional de San Luis (Argentina). As organizadoras convidaram também Nádia Maria Dourado Rocha, da Faculdade Ruy Barbosa, na Bahia (Brasil) para apresentar os autores e o debate.
Um segundo eixo de problemas está aqui nomeado como “práticas e lugares da psicologia”, e lança luz sobre as práticas psicológicas e os lugares de atuação em que os saberes psi estiveram presentes. Nesse eixo está o excelente trabalho de Juan Alberto Litmanovic (Universidad Iberoamericana México) sobre a entrada da psicanálise em um mosteiro beneditino, na década de 1960, bem como o precioso depoimento de Gregorio Baremblit (Instituto Félix Guattari/Brasil) sobre a influência da psicanálise argentina para a psicanálise brasileira no contexto das ditaduras dos dois países.
No que diz respeito às trajetórias e produções intelectuais, estas sublinharam o papel de um personagem que contribuiu sobremaneira para a psicologia em diversos países. Emílio Mira y Lopez foi investigado em sua trajetória profissional na Espanha (por Annette Müllberger, da Universidade Autônoma de Barcelona, e por Ana Maria Jacó-Vilela, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), na URSS (por Helio Carpintero, da Real Academia de Ciencias Morales y Políticas de España), na Argentina (por Rosa Falcone, da Universidad de Buenos Aires) e no Brasil (por Nádia Rocha, da Faculdade Ruy Barbosa-BA).
Outra preocupação central desse Encontro foi o estudo acerca da formação de psicólogos. Neste eixo de problematização, estão incluídos o importante trabalho de Francisco Portugal (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com sua elucidativa história acerca da psicologia social e das políticas de formação em psicologia no Rio de Janeiro; o valioso depoimento de Arrigo Angelini (USP/Brasil) sobre as práticas de formação na Universidade de São Paulo; e também um debate contemporâneo sobre o papel da formação do psicólogo diante dos desafios da intersetorialidade (de Maria Lúcia Boarini, da Universidade Estadual de Maringá).
Finalmente, um último eixo envolve reflexões mais diretas acerca do processo multidirecional da internacionalização da psicologia e de sua história. Essa articulação encontra-se bem apresentada em termos das “políticas discursivas”, nos textos organizados a partir do encontro entre Alexandre Carvalho (CEFET/Brasil), Ana Maria Talak (UNLP/Argentina), Francisco Portugal (UFRJ/Brasil) e Tomás Caycho (UPN/Peru); e da discussão acerca da “cooperação internacional em história da psicologia”, nos textos organizados a partir do diálogo travado entre Rubén Ardila (UNC/Colômbia); Saulo de Freitas Araujo (UFJF/Brasil); Hugo Klappenbach (UNSL/Argentina) e Márcio Luis Costa (UCDB/Brasil). Esse último conjunto de textos reflete sobre os novos desafios historiográficos e profissionais diante da realidade tão bem exemplificada no “XI Encontro do Clio-Psyché”.
O último eixo nos traz de volta para o início deste prefácio. Comecei dizendo que o Clio, nos seus quase vinte anos de funcionamento, vem se constituindo em um dos centros de ebulição das novas propostas de leitura e interpretação acerca da história e historiografia da psicologia, ou dos saberes psicológicos, se preferirem. Desde 2010, em conjunto com outras instituições nacionais e internacionais, construiu e participa ativamente de uma rede de pesquisadores que traz para si o desafio de tirar a história da psicologia “da caixinha”, como dizem por aí, a RIPeHP. É nesse sentido que este Encontro e o livro que dele resultou constituem-se como exemplares do esforço para deslocar o eixo eurocêntrico e anglo-saxônico, ultrapassando a tradicional visão de Estado-Nação, na direção de uma história global que considere as cooperações e articulações políticas multicêntricas, bem como a circulação de conhecimento em redes transnacionais.
Desse modo, tenho certeza de que esta obra oferece material útil e eficaz para leitores em geral, bem como para estudantes e pesquisadores que procurem sínteses atualizadas e recentes sobre o assunto, que ultrapassam as já tradicionais barreiras do centro-periferia.