Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Cap. 13 – Reconstrução historiográfica de culturas psicológicas
Capítulo 13 - Reconstrução
historiográfica de culturas
psicológicas
María Andrea Piñeda
Nas últimas décadas, a história da psicologia na Argentina tem experimentado um importante desenvolvimento. Numerosos indicadores demonstram sua progressiva institucionalização na educação, na pesquisa e na extensão universitária.
Alguns exemplos são: a incorporação de conteúdos de história da psicologia nos currículos de graduação em Psicologia (Resolução 343/09 do Ministerio de Educación de la Nación e sua modificação parcial, a Resolução 800/2011). Além disso, o crescente número de projetos de pesquisa, pelo menos, em universidades estatais, como: a Universidad de Buenos Aires (UBA), a Universidad Nacional de La Plata (UNLP), a Universidad Nacional de Rosario (UNR), a Universidad Nacional de Mar del Silver (UNMP), a Universidad Nacional de Córdoba (UNC) e a Universidad Nacional de San Luis
(UNSL); 1 e teses de pós-graduação concluídas e em curso nesse campo, com um aumento gradual de formação de recursos humanos inserindo-se em bolsas oficiais e subsídios de Ciência e Tecnologia (ex-CONICET, Agencia Nacional de Promoción Científica y Tecnológica, UBACyT etc.).
A participação da comunidade Argentina de historiadores da psicologia em reuniões científicas nacionais e internacionais também aumentou. Os Encontros Argentinos de História da Psicologia tornaram-se um espaço destacado de vinculação e intercâmbios. Estes acontecem anualmente desde 1999 em vários centros acadêmicos da Argentina, publicando suas atas de textos completos, que fornecem uma visão geral do estado do campo em nosso país. Em todos os congressos de psicologia, organizados por universidades nacionais, há abundantes sessões de história. Além disso, grande parte dos especialistas locais foram integrando-se a redes internacionais de trabalho e intercâmbio. Um exemplo disto é a Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia (RIPHP) e o Grupo de Trabalho sobre a História da Psicologia da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP-GT). Com participação regular em reuniões especializadas, como os Encontros Clio-Psyché (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil), as Jornadas Chilenas de História da Psicologia e sessões nesse campo, nas reuniões da Sociedade Interamericana de Psicologia. Alguns historiadores da psicologia locais já participaram do International Congress of Psychology (International Union of Psychological Science), da International Conference on Applied Psychology (International Association of Applied Psychology, que conta com a 18th Division on History of Psychology), e alguns membros dessa comunidade Argentina também ingressaram em Cheiron: Annual Meeting of the International society for the History of the Behavioral and Social Sciences.
Essa intensa atividade recentemente deu seus frutos na iniciativa de criação da Sociedade Argentina de História da Psicologia, cuja petição foi votada por unanimidade na última reunião de especialistas nesse campo, realizada em La Plata, em outubro de 2014.
No entanto, revistas especializadas nacionais não proliferaram. Desde Cuadernos Argentinos de Historia de la Psicología (UNSL), que manteve três volumes, em meados de 1990, houve apenas a Revista Argentina de Historia de la Psicología (UBA), como iniciativa para desenvolver uma revista especializada. Porém, revistas de universidades públicas e privadas publicam artigos de história da psicologia, como é o caso das revistas de universidades públicas: Anuario de Investigaciones da UBA, Revista de Psicología da UNLP, Perspectivas en Psicología da UNMP, Tesis da UNC e Fundamentos en Humanidades da UNSL; e privadas: Revista de Psicología da Pontificia Universidad Católica Argentina, Revista de Psicología y Psicopedagogía da Universidad del Salvador e Psicodebate da Universidad de Palermo. Assim como revistas de algumas sociedades científicas: Revista Argentina de Ciencias del Comportamiento (RAAC) da Asociación Argentina de Ciencias del Comportamiento, Psiencia da Asociación para el Avance de la Ciencia Psicológica. Além disso, em nível internacional, destaca-se o papel de autores argentinos em edições especiais da história da psicologia que surgiu pelo esforço coletivo internacional da RIPHP e do GT da SIP (Revista Interamericana de Psicología, Pesquisas em Psicologia, Universitas Psychologica, RACC) e outras publicações de várias equipes de investigação, tais como: Dagfal, 2009, 2011; Fabris, 2007; García et al., 2014. Do ponto de vista de extensão universitária e de comunicação pública da ciência, também se avançou na construção de museus de história da psicologia a partir de esforços coletivos. Entre esses, podemos citar: Museo de Psicología Experimental Horacio Piñero da UBA, Museo de Psicología da UNC e Museo de Historia de la Psicología da UNSL. As universidades também promoveram a organização de arquivos especializados nesse tema.
No entanto, esses indicadores de crescimento disciplinar, por vezes, podem ser contrastados com certos sentimentos de marginalidade no campo psicológico, e, em geral, no campo científico mais amplo. A história da psicologia é marginal dentro de uma ciência marginal (Bayer, 2005). Poderíamos nos perguntar: “Nos departamentos e faculdades de Psicologia, organismos oficiais de promoção da ciência ou nas sociedades científicas de psicologia do país, que lugar ocupa a história da psicologia?”, “Na pesquisa, extensão, nas comunidades mais amplas de psicólogos e da sociedade em geral, qual o impacto que nossas atividades de docência têm causado?”.
Especialmente no contexto de crises sócio-cultural e econômica, aprofundam-se as questões sobre a relevância social da história da psicologia no desenvolvimento do país. Sem dúvida, a maneira como essas questões serão pensadas irá desempenhar um papel na distribuição dos orçamentos, subsídios e taxas que refletem na valorização social das comunidades acadêmicas e da legitimação de interesses de alguns grupos sociais. Pode a história da psicologia dar a sua contribuição, pelo menos, no campo da formação de psicólogos? Tem algo a dizer sobre as políticas acadêmicas e de desenvolvimento de uma psicologia científica socialmente relevante? Quem são os interlocutores de nosso trabalho ou para quem fazemos a história da psicologia?
A resposta a essas questões não é sem valor para o acadêmico em formação que projeta sua vida, sua carreira e suas opções de emprego, e que acaba afetando o seu sentido de competência. Isto, de certa forma, também está relacionado com o crescimento potencial da comunidade de historiadores da psicologia e do desenvolvimento futuro dessa área do conhecimento (Danziger, 2005).
Como historiadores, temos produzido abundante literatura sobre o que tem sido a psicologia Argentina em diferentes períodos. E alguns desses trabalhos permitiram-nos refletir sobre as relações de poder dentro do campo disciplinar (cf. Garcia, 2014; Klappenbach, 2001; Rossi et. al., 2001; Polanco e Miranda, 2014). Temos também contribuído para compreender as relações de poder entre a psicologia e a sociedade e como se estabeleceram os novos objetos científicos (cf. Macchioli de 2014; Ostrovsky, 2014). Por exemplo, fora analisada a sua utilidade para o planejamento estatal no início do século XX, na construção da identidade nacional e na organização das instituições públicas, com base na ideia de ciência e progresso (cf. Falcone, 2012; Klappenbach, 2013; Rossi, 2012), ou durante o desenvolvimento industrial do peronismo pós-guerra (cf. Klappenbach, 2005), e, em última análise, a identificação de interesses entre a psicologia Argentina dominante e os interesses sociais mais amplos. Demonstramos o auge das pesquisas psicológicas de primeira linha, nesses períodos, e a deterioração que os processos de formação de recursos e o financiamento das estruturas de desenvolvimento da pesquisa psicológica foram sofrendo desde a organização das graduações em Psicologia.
Nesse contexto, documentamos o progressivo deslocamento da investigação básica e aplicada aos centros externos e o esvaziamento da capacidade investigativa dos departamentos e faculdades de Psicologia (Piñeda e Jacó-Vilela, 2014). Questionamos a matriz disciplinar que foi configurando-se na formação de psicólogos (cf. Dagfal, 2014; Ferrero e Altamirano, 2011; Klappenbach, 2012; Scherman, 2014) e a reprodução social de modelos tendenciosos que provaram eficácia na resolução de alguns problemas da vida privada, mas têm pouco valor social para compreender e atender aos outros planos da vida: escola, indústria, comunidade etc. (Piñeda, 2012). Podem esses estudos históricos lançar luz sobre o presente e o futuro da psicologia argentina?
Definições de finalidade, utilidade e impacto social dos estudos históricos sobre a psicologia dependem de outras definições mais básicas de ordem ontológica, ética, política, epistemológica, teórica e metodológica, cujas premissas requerem explicação.
Que ciência, por quem, para quê e
para quem?
Entendemos que as ciências são produções sociais e, portanto, fazem parte das culturas e promovem cultura. A partir dessa perspectiva, não podemos perder de vista o impacto cultural que a ciência, como resultado de certas culturas, tem sobre os grupos humanos que não pertencem à elite das comunidades científicas, e quais são os processos de comunicação pública da ciência, também chamados de democratização, ou alfabetização científica (Cazaux, 2008; Daza, 2007).
Como ciência, a psicologia é o objeto de estudo histórico. Isso pode ser pensado a partir da tripla perspectiva da história do sujeito de estudo da psicologia, ou da disciplina, ou mesmo dela em sua relação com outras disciplinas ou campos sociais mais amplos.
Mas a perspectiva sócio-cultural e crítica da história implica reconhecer a riqueza da natureza multiforme do campo psicológico. Onde têm predominado histórias das mainstreams, modelos dominantes ou histórias de autoridade, torna-se necessário descobrir uma variedade de programas científicos e desvendar-lhes várias linhas de continuidade e ruptura, enquanto descreve-se como foram culturalmente validados (cf. Klappenbach, 2006).
Nesse sentido, uma história crítica apontará para a visão da pluralidade, situada no tempo e no espaço, para desafiar visões ortodoxas, desnaturalizar objetos científicos e tornar as relações de poder visíveis dentro da disciplina e as relações mútuas de impactos entre psicologia e sociedade.
Na maioria dos casos, são os psicólogos-historiadores que escrevem essas histórias. O que significa dizer, acadêmicos que pesquisam a história de sua disciplina como uma especialidade desta, seja fazendo-a como amadores ou profissionalmente (Massimi, 1996; Harris, 1999). Seus interlocutores têm variado: outros historiadores da psicologia, acadêmicos de outras disciplinas interessados em abordagens interdisciplinares ou outros psicólogos.
Danziger (2005) chamou a atenção para essa questão, afirmando que, se o nosso trabalho como psicólogos historiadores orientara-se apenas aos dois primeiros grupos, poderia ser insatisfatório do ponto de vista da história e da psicologia. O primeiro grupo de interlocutores é muito reduzido. O grupo de estudiosos de outras disciplinas (historiadores de outras especialidades, sociólogos, antropólogos, jornalistas etc.), nos supostos estudos interdisciplinares, possivelmente tenha mais que dizer que nós a respeito de contextualizações, ideologias disciplinares, mitologias e identidades profissionais. Portanto, seria conveniente que nossos estudos históricos estejam orientados, em primeiro lugar, para contribuir para a comunidade de psicólogos. Nossa contribuição crítica poderia lançar luz questionando o determinismo e as ortodoxias das tradições intelectuais e o complexo aparato de pressuposições implícitas ou supostos subjacentes nas práticas sociais (modelos teóricos, métodos, ferramentas, classificações, interpretações, influências sociais, coerções etc.) que as comunidades de psicólogos exercem sobre outros. Primeiramente, trata-se de fazer visíveis tais práticas e reconhecê-las como sociais e, portanto, não universais. A tarefa é defini-las como instituições sociais, em um determinado contexto, que têm uma estrutura interna de distribuição de poder e divisão do trabalho, e da função social em relação ao valor que tem para outros grupos sociais. Tais práticas sociais, quando se estendem por um longo período de tempo, a repetição de uma maneira não aleatória, definem padrões que podem ser estudados historicamente. Tornam-se “objetos psicológicos” que não são naturais, nem eticamente ou teoricamente neutros (Danziger, 1979, 2001, 2005).
Ao conceituar a história dos objetos psicológicos, Danziger (2001) não sustenta a divisão cartesiana entre sujeitos e objetos, mas entende que os objetos psicológicos estão sempre em relação dialética constante, ligados a pessoas (interesses, projetos, preferências, resistências etc.) e práticas sociais (institucionalizada, antagônica) em um determinado contexto. Nesse sentido, o autor refere-se aos objetos discursivos (classificações, conceitos, metáforas etc.), que são objetos que têm uma existência independente em um domínio discursivo compartilhado por numerosos sujeitos e têm em si uma história (emergem, mudam, morrem, ressurgem com outras formas). Mas, além da história do autor, podem ter parte de sua história (Ex.: O texto de um autor sobre instinto pode ser parte de sua história intelectual, mas também da história de um objeto discursivo). Visualizar a mutabilidade de objetos psicológicos é questionar o status quo de estruturas institucionalizadas e práticas discursivas, investigando o que está subjacente à persistência destes (Danziger, 2001). Como é que um domínio completo dos fenômenos (p.ex., sonhos, átomos, monstros, cultura, auto) torna-se, ou deixa de ser o objeto de investigação científica? A partir dessa pergunta, Daston (2000) analisa que os objetos científicos podem ser ao mesmo tempo tanto reais como históricos, e têm implicações para a experiência cotidiana, tanto quanto os objetos cotidianos. Estes são ideias que afetam a vida (p.ex., erguem monumentos e definem políticas em um governo). Portanto, tais conceitos foram ligados ao “realismo internalista” de Hilary Putnam (Talak, 2004).
Acreditamos que as categorias de objetos psicológicos ou objetos discursivos aproximam-se do conceito de “ferramentas culturais” no sentido vygotskiano. Ou seja, aqueles registros de sistemas simbólicos socialmente criados, que servem como organizadores de experiência (Corral, 2003) que enlaçam sujeitos e práticas em uma comunidade, instituição e dada cultura. Para os nossos estudos históricos da psicologia, as ferramentas são os testemunhos das culturas científicas e profissionais, cuja validade ou sua falta interpelam o presente e as tradições consolidadas. Portanto, sua análise permite a reconstrução das estruturas político-institucionais de seus atores, os interesses intelectuais de suas comunidades e as relações de poder configuradas (cf. Piñeda, 2014).
É nesse ponto que se encontra a possibilidade do impacto social da historiografia. O simples reconhecimento da historicidade de objetos psicológicos ou ferramentas culturais já constitui uma contribuição para a psicologia, porque essa análise crítica, que é implícita ou explicitamente política (Harris, 1999), contém um potencial de transformação.
Inspirada por postulados danzigerianos, Bayer (2005) enfatizou que o papel do historiador crítico da psicologia é compreender a dimensão política da história. Ou seja, seu papel é ajudar a produzir um insight sobre as relações de poder que produzem marginalização e, assim, promover a transformação social. Isto implica uma reflexão sobre quem e o que se transforma (O sujeito de nossa disciplina, a própria disciplina, sua relação com outras disciplinas ou instituições?), para trabalhar na cautelosa desestabilização dos limites disciplinares e das margens sociais. A partir dessa perspectiva, torna-se socialmente relevante conhecer uma história cultural que mostre que existem abordagens alternativas para ortodoxias dominantes. Torna-se crucial que, no currículo de formação de graduação de psicólogos, seja estudada a história cultural da psicologia, e que a mesma seja gerida por pessoas dedicadas à história, e não por aqueles cujo principal interesse reside em outra área. Situar a ciência em suas circunstâncias contribui para a compreensão das relações de poder e para desnaturalizá-las, facilitando a possibilidade de transformação. Por exemplo, lança luz sobre como as instituições podem exercer pressão e sua autoridade na disciplina, resistindo à mudança; ou como a psicologia trabalha na cultura contemporânea e quais as suas matrizes de produção. Logicamente, enquanto o historiador crítico leva sua contribuição transformadora, ao questionar a autoridade da comunidade científica, gera uma cisão profunda nela. Mas, por outro lado, corre-se o risco de se transformar a história em um elemento ornamental da disciplina, reproduzindo o discurso da autoridade. No melhor dos casos, se produziria uma história crítica para ser ouvida por um grupo composto inteiramente por historiadores. Portanto, neste trabalho, temos de procurar a convergência entre os interesses dos cientistas (profissionais e estudantes), psicólogos e historiadores (Bayer, 2005).
Se o trabalho do historiador da psicologia capta esses interesses, que ao mesmo tempo atendem aos de outros grupos da sociedade em geral, é possível atingir um impacto social respeitável. Além disso, contribui também para que a psicologia e a história da psicologia não ocupem lugares academicamente marginais, e sim ganhem representação nas discussões mais amplas da cultura.
Em suma, a história da psicologia, a partir de uma perspectiva sócio-cultural, visa a clarificar os processos que acompanharam, promoveram ou obstaculizaram o desenvolvimento da psicologia em determinados contextos. Ao situar seus objetos em circunstâncias específicas, é, ao mesmo tempo, uma história institucional e material. De fato, na compreensão histórica dos problemas, procura-se o estudo das atividades, artefatos e expressões de homens e grupos, que revelam ou ocultam relações que se formaram no campo disciplinar. Na reconstrução de narrativas e ideias, questiona-se inclusive o conceito de homem cunhado pelas ortodoxias dominantes, enfocando as forças sociais que se formaram (Brock, 2005).
Entre as forças sociais a considerar nos estudos culturais, cobram grandes interesses as relações internacionais entre os diferentes centros de produção de psicologia, nos quais se joga o problema da cultura autóctone vs. a globalização da cultura nas práticas disciplinares da psicologia. A internacionalização na institucionalização da psicologia e o policentrismo (Danziger, 2005) são complementares desde a história sócio-cultural.
Se a compreensão da psicologia como uma construção sócio-cultural destaca a pluralidade de perspectivas, põe em evidência visões alternativas para a dominante. Nesse caso, a historiografia crítica também descentraliza os olhares em relação às perspectivas ocidentais, revendo a controvérsia “centro-periferia”. A partir daí, analisa-se qual foi a resposta dos psicólogos do terceiro mundo para as psicologias importadas, que relevância social tiveram essas importações no processo de indigenização da psicologia e quais foram as contradições entre essas formas autóctones ou tradicionais de compreender o homem e seu mundo. Uma história policêntrica crítica mostra a diversidade de vozes dos diferentes centros, não isoladamente, mas analisando a relação entre eles (Brock, 2014; Staeuble, 2005).
Como construímos uma história
cultural crítica da psicologia?
Em nossa própria prática historiográfica estudamos a psicologia argentina. Na última década, temos nos interessado especialmente desde o período posterior a sua profissionalização à história mais recente. Investigamos sistematicamente os processos de formação de psicólogos de diferentes universidades de nosso país (Calabresi, 2011; Klappenbach, 2009; Piñeda, 2004, 2007a), e as estruturas de poder dentro das graduações de Psicologia, e em relação a outras instituições estatais (Klappenbach, 2003, 2012; Piñeda, 2012; Piñeda e Jacó-Vilela, 2014), associações profissionais e científicas (Piñeda, 2007b, 2010), grupos estudantis (Calabresi e Polanco, 2008) e também a indústria editorial (Klappenbach, 2001). Indagamos sobre as práticas de ensino e definição de conteúdo (González, 2012; Piñeda, 2014b; Mariñelarena-Dondena, 2012; Vázquez Ferrero, 2009) as práticas de pesquisa (Piñeda, 2012) e de serviços à comunidade a partir da universidade (Piñeda, 2007b, 2010).
Pensamos que a sofisticação teórica corresponde ao uso correto de variedade de recursos metodológicos, técnicas para a coleta, processamento e interpretação e, especialmente, a construção de fontes que garantam a solidez das premissas firmemente estabelecidas, ou evidência empírica (Harris, 1999; Klappenbach, 2014). Assim, buscamos a reconstrução racional, plausível e provisória do mundo-cultura-passado – outros, com a compreensão de que a pretendida objetividade do historiador é também parte de um processo histórico e culturalmente situado (Mills, 2000). Ao longo da trajetória em busca das referidas fontes confiáveis, temos nos voltado cada vez mais para a análise de todos os objetos materiais que fazem parte do patrimônio institucional, demarcando uma particular cultura organizacional, uma idiossincrasia, objetivando discursos, e refletindo práticas e relações de poder.
Especialmente, temos trabalhado com programas de cursos dos vários currículos de graduação em Psicologia, os quais analisamos bibliometricamente, e também qualitativamente, em suas características e conteúdos. Interessamo-nos, além disso, pelas coleções editoriais e publicações periódicas, como objetos da indústria editorial e seu impacto sobre a definição do conteúdo curricular (Klappenbach, 2001). Mais recentemente, voltamo-nos para o estudo de aparelhos de laboratório de psicologia e instrumentos de avaliação psicológica (testes mentais) de fabricação estrangeira e sua introdução no mercado nacional e nas comunidades de psicólogos mediante a indústria editorial (Piñeda, 2014).
Nesse sentido, pensamos a categoria indústria cultural como utilidade conceitual e metodológica, com alguns reparos e distinções que analisaremos (Mato, 2007).
A palavra “indústria” refere-se ao caráter relativamente estruturado e padronizado de produtos, serviços, práticas e procedimentos de trabalho, entrelaçados de interrelações de trabalho e fluxos econômicos entre os atores locais, regionais e internacionais. Em seu sentido original, refere-se a todos os ramos de manufatura, mas, hoje, ele tem se expandido para todas as atividades econômicas, incluindo os serviços culturais, tais como os de cooperação internacional para o desenvolvimento. Entende-se que a indústria produz e circula significados, dispositivos de sentido, políticas e processos tecno-sociais de produção. Portanto, Mato (2007) analisa que destacar o atributo cultural de algumas indústrias e consumo (p.ex., publicações impressas e eletrônicas, rádio, cinema, vídeo, fotografia, música, espetáculos, televisão, internet, publicidade, entretenimento, turismo) prejudica o estudo de outras indústrias e consumo (p.ex., roupas, alimentos, brinquedos, automóveis, cooperação internacional), que raramente são incluídos nos estudos a partir de perspectivas culturais. Argumenta, ainda, que todas as indústrias e consumo são culturais porque eles são funcionais a uma necessidade e resultam sócio-simbolicamente significativos. Ou seja, são adquiridos e utilizados pelos consumidores não só para satisfazer uma necessidade, mas também para produzir sentido de acordo com seus valores, representações e interpretações do mundo. Em todo caso, Mato propõe estudar os ramos específicos da indústria e analisar as suas articulações com outras indústrias. Metodologicamente, trata-se de estudar os produtos do ponto de vista da embalagem, publicidade e marketing associados. Mas, acima de tudo, interessam os usos que diferentes tipos de usuários fazem desses produtos e seus vínculos com outros tipos de usos e indústrias. Vincula-se o estudo de indústrias específicas ao estudo de outras dimensões da experiência social em contextos específicos. Assim, tendo em conta os seus circuitos e modalidades de comunicação e agentes específicos. Por exemplo, no estudo cultural da indústria farmacêutica, será ampliada a sua relação com outros setores da saúde e sua relação com os médicos, escolas de medicina, laboratórios farmacêuticos, fundações e agências de financiamento à pesquisa, publicações científicas e divulgação etc. Formulam-se questões de investigação que podem ser respondidas em termos de modos de produção (Mato, 2007).
Assim, acreditamos que o estudo cultural das indústrias enriquece a história cultural da psicologia. Esse conceito reflete a mesma dialética das relações de poder que descrevemos entre sujeitos-comunidades, práticas e objetos discursivos ou os sujeitos e experiências sociais mediadas por ferramentas. Ao mesmo tempo, abre novas perspectivas metodológicas. Ao aludirem diretamente a produtos concretos padronizados em seus formatos, processos de produção e distribuição, acrescentam a vantagem metodológica de orientar sobre os indicadores desses processos de produção, significados culturais e relações de poder que eles entranham. Além disso, esse aporte interdisciplinar amplia o espectro de interlocutores e o público interessado, fornecendo outros canais de incidência a nossos estudos históricos da psicologia.
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