Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia

Cap. 8 – Emilio Mira y Lopez na mídia impressa baiana: 1946 a 1961

Capítulo 8 - Emilio Mira y Lopez

 

na mídia impressa baiana: 1946

 

a 1961

 

Nádia Maria Dourado Rocha

 

Entre os estudiosos da psicologia, Emilio Mira y Lopez (1894-1964), dispensa apresentação. Nascido em Cuba, quando esta ainda era colônia espanhola, saiu por motivos políticos de Barcelona, onde fixara residência, e depois de alguns anos radicou-se no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, onde passou mais da metade de sua vida.

Pessoa extremamente dinâmica, não passava despercebido. Prova disso é o conjunto de recortes de jornais e fotos, ciosamente sob a guarda da sua família, e que se constitui num rico conjunto de dados para um melhor conhecimento do próprio Mira, como também da constituição da psicologia no Brasil.

O acesso a esse material permitiu fazer um recorte da sua presença em Salvador, Bahia.

Nas 2.162 páginas, que às vezes têm até cinco recortes, foram identificadas um total de 93 notícias, de 1946 a 1961. Tais dados

são apresentados no Quadro 1. Nele, pode ser verificado que foram

publicadas notas em oito jornais de Salvador1. Em 24 destes não consta a identificação do veículo ou há registro de forma genérica, apenas “Bahia” ou “Salvador-BA”. O Diário de Notícias se destaca como o de maior quantitativo de notícias (mais de 25% do total) quanto à regularidade. Os recortes estão organizados em ordem cronológica. Em quatro deles não consta o ano de publicação, tendo sido possível identificá-lo pelo contexto.

Quadro 1 – Notícias publicadas sobre atividades de Mira y Lopez

em jornais soteropolitanos, de 1946 a 1961

 

Jornal Ano Total

 

0 1946 1952 1955 1957 1958 1959 1960 1961

A Tarde 4 3 2 4 1 1 15

Diário da 1 6 7 Bahia

 

Diário de 5 9 2 1 1 1 2 21 Notícias

 

Diário 1 1 Oficial -

BA

Jornal da 1 1 1 3 Bahia

 

O Estado 10 3 2 15 da Bahia

O 1 1 Imperial

 

O 6 6 Momento

s.inf. 11 1 5 24

Total 27 22 17 2 6 1 7 4 93 geral

 

Mira esteve em Salvador, pela primeira vez, no final de 1946, permanecendo por 20 dias. Em 23 de novembro daquele ano, o jornal O Estado da Bahia informava que viria a Salvador “uma das maiores autoridades científicas mundiais”.

Em sua estadia, segundo o mesmo periódico, atendendo a convites de várias instituições, entre as quais, o DASP, estavam

previstas 17 conferências, apresentadas no Quadro 2.

Quadro 2 – Dia de realização, promotores e títulos das

conferências proferidas pelo Prof. Mira y Lopez no mês de

dezembro de 1946 em Salvador-Bahia

Datas Promoção Título

 

02 e Faculdade de Medicina Da medicina 03 anatomoclínica

à medicina

integral

 

04 Faculdade de Filosofia, Técnicas

Ciências e Letras “projetivas” e

técnicas

“ativas” de

exploração

pessoal, suas

vantagens e

inconvenientes

 

05 Faculdade de Filosofia Análise

estrutural do

medo

 

06 Faculdade de Direito Provas

modernas para

a exploração

das atitudes e

conflitos

interpessoais

 

07, SENAI Bases 09 e científicas da 10 seleção e

orientação

profissional

 

11 Secretaria de Educação e Psico-higiene

Saúde do estudo

 

12 Associação de Assistência à Problemas da

Infância e à Adolescência psicopedagogia

sexual e suas

possíveis

soluções

 

13 União sindical dos Higiene mental

Trabalhadores do trabalhador

 

14 Associação dos Escritores Psicoterapia da

infelicidade

 

14 Escola Técnica Industrial Problemas da

aprendizagem

profissional

industrial

 

16 Associação Brasileira de Apoio A obra de

ao povo espanhol – ABAPE Cultura da

República

Espanhola

 

17 Sanatório Bahia Um plano

dinâmico de

assistência

psiquiátrica –

Província de

Santa Fé –

Argentina

 

18 Conselho Penitenciário Conceito atual

das motivações

delitógenas

 

18 Associação Bahiana de Orientação

Medicina; Núcleo de Estudos profissional do

Médicos da Bahia; Sociedade médico Brasileira de Cardiologia;

Sociedade de Pediatria;

Sociedade de Medicina Social

e do Trabalho; Sociedade de

Tisiologia

Fonte: Jornal O Estado da Bahia, 28/11/46.

Além destas, houve também uma série de seminários no Conselho Penitenciário, discutindo problemas de atualidade

científica de sua especialidade 2.

Um programa intenso e diversificado. Mira foi notícia nos jornais A

Tarde3,

Diário da Bahia 4 , Diário de Notícias , Momento, O Estado da Bahia e O Imperial, de 23 de novembro a 18 de dezembro daquele ano.

No dia 02 de dezembro, teve início o ciclo de conferências. Segundo a mídia local:

 

O professor Mira y Lopez foi, ontem à noite, recebido solenemente na

Universidade da Bahia 5, quando da sua visita à Faculdade de Medicina, que

é a sede dessa instituição. Tendo à frente o Reitor prof. Edgard Santos e

demais membros no Conselho Universitário, a Universidade da Bahia

prestou significativa homenagem ao ilustre cientista espanhol que recebeu

as saudações de estilo (O Estado da Bahia, 03/12/1946).

Estavam presentes, além do Reitor e membros do conselho Universitário,

professores das diversas escolas superiores, diretores de instituições

científicas e culturais, convidados, intelectuais, grande número de médicos e

estudantes de todos os cursos universitários (O Estado da Bahia,

03/12/1946).

 

Em entrevista concedida no dia seguinte, ele se declarou “surpreendido com a quantidade de moças que havia na faculdade, o que, no seu entendimento, indica o nível de inquietação do sexo feminino e as suas habilidades intelectuais na Bahia” (O Estado da Bahia). Além disso, em 06 de dezembro declarou ao jornal A Tarde que

 

Ao contrário do que pensava, está bastante satisfeito com as nossas

atividades culturais, especialmente no que se prende a questões femininas,

assinalando que a libertação da mulher, conquistando a sua própria

independência, marcha a passos mais largos entre nós.

 

A mesa da sessão da conferência sobre análise estrutural do medo, realizada na Faculdade de Filosofia, foi composta pela Prof.ª

Aniela Ginsberg 6, Abia Reuters, Barros Barreto e Flaviano Silva, além do Prof. Mira, sendo presidida por Hélio Simões, diretor interino da instituição (O Estado da Bahia, 06/12/1946).

No dia 12 de dezembro, a Associação de Assistência à Infância e à Adolescência conferiu-lhe título de sócio honorário, o primeiro a ser atribuído pela instituição.

Dois dias após, O Estado da Bahia informou:

 

O Prof. Mira y Lopez foi alvo hoje de significativa homenagem pela classe

médica bahiana que lhe ofereceu um almoço no Bahiano de Tênis o qual foi

muito concorrido, vendo-se figuras das mais destacadas dos nossos meios

científicos e culturais, que aderiram a esta manifestação de admiração ao

ilustre mestre da ciência e da cultura ibéricas que ora visita a Bahia.

 

No último dia da sua estadia em Salvador, Mira visitou o Hospital Juliano Moreira e declarou: “Não está à altura da Bahia” (Diário de Notícias, 18/12/1946).

A última notícia dessa sua estadia foi a seguinte:

 

Pelo avião de carreira regressará amanhã, ao Rio, o prof. Mira y Lopez, que

aqui conclui a sua importante excursão ao norte em que visitou Recife e

Bahia. O embarque do ilustre cientista espanhol será muito concorrido,

comparecendo intelectuais e professores da Universidade, diretores de

instituições culturais e científicas e universitários (O Estado da Bahia,

18/12/1946).

 

Mira retornou em 1952, com patrocínio do Governo do Estado da

Bahia, da Reitoria e da Faculdade de Filosofia7, permanecendo por uma semana, para ministrar, juntamente com Gisele Matos (DASP)

e Ester França e Silva (ISOP) 8, o curso intitulado “Técnicas de exploração da personalidade”, promovido pelo DASP, bem como proferir três conferências:

 

Aplicação da psicologia no campo das atividades estatais; Motivação e resultados do exame psicotécnico no ingresso das faculdades universitárias;

Análise dos erros como fator no aperfeiçoamento da conduta individual.

 

Além destas, houve outras três atividades:

18 de setembro – a convite do Instituto de Pesquisas Psiquiátricas da Bahia, palestra sobre a “Importância dos institutos de pesquisas na luta contra as doenças mentais” (Diário da Bahia, 18/09/1952); 19 de setembro – “Os testes mentais no exame ortopsiquiátrico”, palestra em reunião da Seção de Neuropsiquiatria da Associação Bahiana de Medicina; 20 de setembro - a convite da Secretaria de Segurança do Estado da Bahia, participou no Curso Intensivo de Polícia, proferindo a conferência “Determinação da periculosidade de criminosos pelo Psicodiagnóstico Miocinético” (Diário de Notícias, 19/09/1951).

 

Nas notícias, constam relatos de visitas protocolares ao Governador do Estado, Sr. Regis Pacheco, bem como ao reitor Miguel Calmon.

 

Mira y Lopez volta à Bahia

O prof. Mira y Lopez, psiquiatra, psicólogo e psicotécnico de renome

internacional, criador do teste Miocinético, e de várias outras técnicas de

pesquisa de aspectos psicológicos da personalidade, e que, atualmente,

vivendo no Brasil, vem dirigindo o Instituto de Seleção e Orientação

Profissional, da Fundação Getúlio Vargas, do Rio, responsável pelo

movimento psicotécnico do país. A ação de Mira y Lopez nos meios

científicos brasileiros tem sido profunda e extensa, não só no terreno da

pesquisa como na formação de equipes de especialistas que anualmente o

ISOP prepara, ao lado de contribuir para que em numerosos Estados

idênticos serviços se criem. Autor dos mais lidos, tanto em obras populares,

quanto em científicas, Mira y Lopez é, nas primeiras, o que se poderia

chamar o ‘romancista da psicologia’, sobretudo pela sua obra de grande

repercussão, ‘Los quatro Gigantes de La alma’, destacando-se pelo seu

estilo e expressão.

Nas obras científicas, a influência de Mira y Lopez em nosso meio é das

mais eloquentes, ressaltando-se a autoridade com que sempre é invocada,

tanto em matéria de psiquiatria forense como clínica, de psicologia como de

técnicas projetivas e expressivas. Há seis anos Mira y Lopez visitou a Bahia

pela primeira vez, e deixou raízes profundas nos meios culturais e científicos,

pelas suas contribuições sobre a psicologia do medo, como ainda pelo seu

Teste Miocinético, em várias palestras para especialistas, no Conselho

Penitenciário, realizando ele, a este tempo, a coleta de testes para uma

pesquisa, na Penitenciária e na Casa de Detenção. Assim, a sua volta à

Bahia é muito significativa, sendo motivo para que reveja a nossa terra e os

seus discípulos bahianos possam, mais uma vez, ouvir os seus

ensinamentos (Diário de Notícias, 17/09/1952).

 

Em outra entrevista, declarou:

 

Estou surpreendido com a Bahia. Depois de seis anos que estive nesta terra,

logo quando cheguei ao Brasil, fiquei surpreendido, não só pelas melhoras

que tenho visto sob o ponto de vista urbano, como também pela intensidade

do tráfego nas vias públicas. Isso faz pensar na conveniência da seleção

psicotécnica dos motoristas, principalmente de ônibus, para que evite o que

tem acontecido, a exemplo de um grande desastre que houve há pouco

tempo, aqui nesta cidade. Os motoristas devem ser rigorosamente

examinados, a fim de que não se entregue tal função a pessoas violentas ou

distraídas (Diário da Bahia, 17/09/1952).

 

Conforme anunciamos, realizou-se ontem na Faculdade de filosofia a

conferência do prof. Mira y Lopez sobre “Análise dos erros como fator de

aperfeiçoamento”.

A de amanhã, sob os auspícios do Governo do Estado e com a presença do

Governador, dos Secretários de Estados e demais convidados, será às

20h30 no auditório da Secretaria de Educação (O Estado da Bahia,

17/09/1952).

 

Em nome da Congregação da Faculdade, o prof. João Mendonça 9 saudou o

conferencista, traçando o seu perfil numa análise segura e brilhante (Diário

da Bahia, 18/09/1952).

 

Além de visitas protocolares, a exemplo do que ocorreu em 1946, há relatos de recepções oferecidas em homenagem a Mira e Sr.ª, tanto pelo Reitor Edgard Santos quanto por Renato Bião. Este

último, em sua casa de veraneio em Amaralina10.

Nesse período, a sua estadia foi noticiada nos jornais A Tarde, Diário da Bahia, Diário de Notícias, Diário Oficial do Estado da Bahia e O Estado da Bahia.

Em maio de 1955, Mira veio pela terceira vez a Salvador, permanecendo por duas semanas, atendendo a convite da Reitoria da Universidade da Bahia, para pronunciar conferências com um amplo programa de atividades, organizado pela Universidade, bem como para colaborar no planejamento de um Centro de Orientação Infantojuvenil, organizado pela Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina. Para tal, ocorreram dez seminários com os especialistas baianos para definição do planejamento do referido Centro.

As aulas e conferências eram abertas ao público em geral. Já, dos seminários, participavam os professores Nelson Pires, João

Mendonça e Isaias Alves 11, catedráticos, respectivamente, de Psiquiatria, de Psicologia Geral e de Psicologia Educacional, além de representantes de vários outros setores especializados.

O Centro seria composto de três setores: Psiquiátrica, Educacional e Social, a cargo, respectivamente, da Clínica Psiquiátrica, das cátedras de Psicologia Geral e Educacional e

Escola de Serviço Social, unidade esta que não integrava a UFBA 12.

Mira declarou que:

 

A Bahia já está suficientemente madura em sua evolução social e cultural

para poder colaborar na obra desta projetada clínica, na qual, sem dúvida,

convergirão os esforços duma equipe de técnicos que adotará o método de

trabalho em equipe para melhor conseguir os resultados visados ou

desejados de que, dada a complexidade da problemática existente da

criança ou do adolescente da nossa época, é impossível pretender resolver

os seus desajustes com a aplicação isolada dum critério ou dum esforço

individual por muito inteligente que ele possa ser ou venha a ser (s.inf.,

02/05/1955).13

Quadro 3 – Programa de atividades com vistas à preparação do

Centro de Orientação Infanto-Juvenil da UFBA

 

Datas Promoção Título

 

03 Clínica Seminário: Análise crítica dos

Psiquiátrica métodos psicoterápicos da

Faculdade

de Medicina

 

s. inf Aula no curso de Música

Psiquiátrica: A psicotécnica. Suas

bases, sua valoração

 

04 Hospital das Seminário: Planificação de uma

Clínicas clínica de orientação infanto-

juvenil

 

Faculdade Conferência: Objetivos e de Medicina organização da assistência

mental aos menores desajustados

 

05 Hospital das Seminário: Tipos principais de

Clínicas comportamento antissocial do

menor

 

Associação Conferência: A escolha do órgão Bahiana de nas neuroses Medicina

 

06 Hospital das Seminário: Princípios gerais da

Clínicas readaptação psicológica:aA

formulação do plano psicológico

 

Faculdade Conferência: Correlações entre a de Medicina neurofisiolação no plano

psicológico

 

07 Hospital das Seminário: Síntese crítica dos

Clínicas métodos e técnicas do exame

psico-bio-social aplicáveis ao

estudo dos menores desajustados

j

 

09 Hospital das Seminário: os diversos tipos de

Clínicas teste. Sua aplicação ao menor

desajustado

 

Hospital Visão prospectiva da Medicina Santa Isabel

 

Hospital das Conferência: Emoções e Clínicas patologia

 

10 Hospital das Seminário: O processo de

Clínicas recuperação nos diversos tipos de

menores desajustados. A criação

da atmosfera pedagógica

 

Secretaria Conferência: A assistência aos

de Saúde doentes mentais Pública e

Assistência

Social

 

11 Hospital das Seminário: Dinâmica interpessoal

Clínicas do menor, em relação com a

família, os companheiros, os

mestres e os desconhecidos

 

Secretaria Relações entre a Pediatria, a de Saúde Psicologia e a Pedagogia Pública e

Assistência

Social

 

Faculdade Conferência: Higiene mental no

de Filosofia trabalho

 

12 Hospital das Seminário: Ludo e ergoterapia,

Clínicas com finalidade de reajuste do

menor

 

Reitoria da Conferência: Problemática Universidade existencial do estudante

universitário

universitário

 

13 Hospital das Seminário: Normas psicológicas

Clínicas para o pessoal dos serviços de

assistência ao menor

Fonte: S.inf, 02/05/1955.

 

Essa visita foi noticiada por A Tarde, Diário de Notícias e O Estado da Bahia. No material consultado, a próxima notícia é de 1957. Foram dois anos e sete meses sem informação. Em 29 de dezembro, o Diário de Notícias anunciou: “A Reitoria vai instalar o I.

de Orientação Educacional”14, e informou que:

 

O prof. Mira y Lopez permanecerá nesta capital até o dia 31, retornando ao

Rio. Mas, no próximo mês estará novamente entre nós para prosseguimento

das providências necessárias à instalação do novo serviço que vai funcionar

no edifício da Reitoria e, de acordo com o previsto desde que passe a

funcionar normalmente aquele serviço, virá à Bahia mensalmente realizando

um trabalho idêntico ao que fez em Minas Gerais.

Sobre o instituto de orientação vocacional, afirmou que um dos pontos mais

importantes é o exame de personalidade, que visa evitar que indivíduos com

graves defeitos ingressem nos cursos superiores.

 

São publicados anúncios do Serviço de Orientação Vocacional da

UFBA convidando estudantes do 1.º e 2.º ciclos15 a comparecerem para a realização de testes.

Decorridos cinco meses, há notícia de outro retorno do Prof. Mira, pela segunda vez em Salvador no ano de 1958, em virtude dos preparativos do Instituto de Orientação Vocacional – IDOV, que teria sede na Reitoria. Informou ele: Estou satisfeitíssimo com o grupo de colaboradores, entre os quais me cabe destacar: o Dr. Norival

Sampaio16 17 , o professor Raimundo Mata e as professoras Alice

Costa18 19 20 , Gicele Matos , Cidália Dias e Maria Constança Vilas

Boas 21 (A Tarde, 31/05/1958).

Em 13 de dezembro, A Tarde noticiou que a equipe do IDOV estava empenhada em concluir a pesquisa piloto para a padronização dos testes de inteligência e de personalidade para os jovens estudantes de nível médio da Bahia e que seriam utilizados para os trabalhos de orientação educacional e vocacional. Além disso, informou que o IDOV passaria a funcionar em imóvel situado à frente da Reitoria.

Mira informou que manteve contato com psicotécnicos de Salvador, visando à constituição da Seção Bahia da Associação Brasileira de Psicotécnica.

Em 1958, ele foi notícia em A Tarde, Diário de Notícias e no Jornal da Bahia.

Há uma lacuna de quase 40 meses, exatamente no período de instalação e início do funcionamento do IDOV, pois a próxima notícia é de 06 de abril de 1961, quando o Diário de Notícias informou sobre uma série de conferências em comemoração ao segundo

aniversário do Instituto, já sob a direção da prof. a Alice Costa, e que, no Congresso Interamericano de Psicologia, realizado em 1960, foi apresentado trabalho de pesquisa realizado na instituição.

No conjunto de recortes apresentados pode ser verificado que, em 15 anos, o prof. Emilio Mira y Lopes esteve na Bahia pelo menos

em dez oportunidades22.

Nas notas, frequentemente, Mira era referido de forma reverente e elogiosa. Foram identificadas 64 formas de denominá-lo. Destas, as mais frequentes realçavam o caráter “mundial, internacional ou mesmo universal” dos seus méritos, bem como “ilustre”, em 21 e 20 das notícias, respectivamente. Quase metade dos denominativos foi feita em 1946, possivelmente pela necessidade de “apresentá-lo” aos soteropolitanos. Ele foi identificado como psiquiatra (44 vezes), psicologista (12), psicólogo (33), psicotécnico (sete); psicanalista

(uma vez) e até como “romancista da psicologia” 23. Interessante é que, desde 1946, foi denominado psicólogo. O jornal Diário de Notícias foi o mais pródigo em elogios (26), seguido por O Estado da Bahia (24) e A Tarde (17).

Em Salvador, Mira se relacionou com a elite local: acadêmica, política e social. Foi recebido formalmente pelo reitor e pelos dois governadores (Regis Pacheco e Juracy Magalhães, respectivamente). Veio à primeira vez atendendo a convite de 16

instituições 24 de ensino e técnico-profissionais. Aqui, sempre teve agenda muito carregada. Por exemplo, em 1946, durante os vinte dias que permaneceu na cidade, proferiu palestras quase cotidianamente, além de realizar seminário no Conselho Penitenciário, cuja duração não foi explicitada. Já em 1955, durante dez dias, realizou seminários diários na Faculdade de Medicina e várias outras atividades em diversas instituições. A penúltima informação selecionada (que não é um recorte de jornal) é um

convite pessoal para jantar com o governador Juracy Magalhães 25, no qual não consta a data precisa (10 de abril de 1961?).

Nas notícias publicadas é possível identificar um percurso de “amadurecimento” para o surgimento do IDOV. A discussão foi iniciada em 1955 com o propósito da UFBA de instalar, na Faculdade de Medicina, um Centro de Orientação Infantojuvenil. Em 1957, o anúncio é para o I. de Orientação Vocacional funcionando na Reitoria. Essa mudança deixa supor uma ação dos catedráticos da Faculdade de Filosofia para a constituição de um órgão vinculado à direção geral da Instituição e mais ligado à sua atividade fim.

É lamentável a inexistência de recortes de 14/12/1958 a 05/04/1961. Esse período de três anos e quatro meses por si só justifica a continuidade desta pesquisa, pois, certamente, trará luz para a constituição da psicologia na Bahia.

Digna de nota é a ação da família de preservar os livros dos recortes dos jornais, que se constituem numa excelente fonte de pesquisa.

Vale frisar que esta análise decorre do material que foi selecionado pelo próprio Mira ou algum familiar seu. Eles residiam na capital federal. Assim, é lícito supor que há grande possibilidade de que não tenham tomado conhecimento ou mesmo não tenha sido possível o acesso ao periódico que publicou alguma notícia em Salvador. Recompor essa história é uma tarefa difícil. Dos sete jornais comerciais da época, apenas o A Tarde continua em circulação. Todas as suas edições foram digitalizadas por ocasião do primeiro centenário, com patrocínio, inclusive, do FazCultura, programa da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, que previa duas estações de acesso ao material, as quais atualmente não funcionam. Atualmente, o jornal cobra valores proibitivos para a realidade da maioria dos pesquisadores brasileiros.

É inegável a influência que Emílio Mira y Lopez exerceu no cenário da psicologia baiana. Seu trabalho maior, o IDOV, já foi, inclusive, objeto de tese de doutorado (Rapold, 2006), que entrevistou algumas das pessoas que lá trabalharam, sendo manifesta a admiração pela competência do mestre e a sua dedicação ao trabalho.

 

Fontes:

 

A Tarde - 06/12/1946; 11/12/1946; 17/12/1946; 16/09/1952; 17/09/1952; 19/09/1952; 03/05/1955; 13/05/1955; 21/05/1958; 03/08/191958; 17/05/1958; 31/05/1958; 21/05/1959; 07/04/1961.

Diário da Bahia - 12/12/1946; 17/09/1952; 17/09/1952; 18/09/1952; 18/09/1952; 19/09/1952; 23/09/1952.

Diário de Notícias - 04/12/1946; 05/12/1946; 12/12/1946; 18/12/1946; 16/09/1952; 17/09/1952; 17/09/1952; 18/09/1952; 19/091952; 20/09/1952; 20/09/1952; 23/091952; 03/05/1955; 04/05/1955; 29/12/1957; 13/12/1958; 31/12/1960; 05/04/1961; 06/04/1961.

Diário Oficial-BA - 17/09/1952.

Jornal da Bahia - 01/09/1960; 9 e 10/04/1961.

O Estado da Bahia - 23/11/1946; 03/12/1946; 28/11/1946; 05/12/1946; 06/12/1946; 10/12/1946; 10/12/1946; 14/12/1946; 17/12/1946; 18/12/1946; 16/09/1952; 17/09/1952; 19/09/1952; 02/05/1955; 03/05/1955.

O Imperial - 12/12/1946.

O Momento - 04/12/1946; 04/12/1946; 05/12/1946; 07/12/1946; 12/12/1946; 18/12/1946.

 

Referência

 

Rapold, Rita. A psicologia da educação na Bahia: a história do IDOV pela memória de seus personagens (tese). PUC-SP, São Paulo, 2003.