Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Cap. 23 – A influência de William James sobre a obra de C. G. Jung
Capítulo 23 - A influência de
William James sobre a obra de
C. G. Jung1
Pedro Henrique Costa de Resende
Walter Melo
Introdução
Por meio deste trabalho, busca-se a compreensão da influência da obra Pragmatismo, de William James, sobre a teoria de C. G. Jung. Com o termo influência, entendemos as análises, as críticas e as apropriações de ideias efetuadas por C. G. Jung ao longo de alguns de seus escritos. Com base nesse objetivo, definimos a hermenêutica como perspectiva de análise, e, mais especificamente, o conceito de conversação hermenêutica de Hans Georg Gadamer. Segundo Gadamer (2014 [1960]), em sua obra Verdade e Método, o processo compreensivo é dinâmico e se realiza pela análise da intenção dos autores na produção de seus discursos, levando em consideração a relação histórica destes. Na busca pela compreensão de um texto, o intérprete deve procurar estabelecer um diálogo com as propostas dos autores. Nessa dialética, dois aspectos devem ser observados: a abertura das perguntas direcionadas ao texto; e o horizonte hermenêutico, ou seja, um direcionamento na procura por respostas.
William James é um pioneiro em várias áreas do conhecimento. Ele inicia sua carreira nas áreas de medicina e fisiologia. Posteriormente, participa do estabelecimento da psicologia como ciência, fundando o primeiro laboratório de psicologia experimental dos Estados Unidos, e se torna, ainda, um dos expoentes do pragmatismo, sendo um dos mais importantes filósofos de sua época.
Já Carl Gustav Jung foi um importante autor e psiquiatra do século XX, tendo iniciado sua carreira científica sob a supervisão de Eugen Bleuler, no Hospital Burgholzli, na Suíça. Suas ideias foram elaboradas ao longo de décadas de trabalho clínico e sempre tiveram como objeto central de estudo o ser humano, em sua existência, projetos e conflitos. Suas teorias influenciaram os mais diversos campos do conhecimento, como a psicologia, a antropologia, a teologia, entre outros.
C. G. Jung e William James participaram de contextos históricos e sociais distintos, no entanto, estabeleceram alguns contatos no início do século XX. A maior influência de James sobre Jung ocorreu em um período em que o autor suíço se afastava da psicanálise e buscava encontrar sua própria metodologia de trabalho. Dentre os vários aspectos estudados por C. G. Jung da obra do filósofo americano, destacamos o pragmatismo, como elemento norteador desta análise.
A obra de C. G. Jung ainda é pouco pesquisada no contexto universitário. Devido à escassez de pesquisas sobre a fundamentação teórica do referido autor, seu trabalho é normalmente associado à psicanálise freudiana. É importante destacar que, mesmo no contexto da psicanálise, a relação entre Freud e Jung se desenvolvia muito mais sob uma perspectiva de colaboração mútua do que em uma relação de mestre e aprendiz.
William James e C. G. Jung se conheceram pessoalmente em 1909, devido a uma conferência na Universidade de Clark, nos Estados Unidos, onde conversaram em duas ocasiões sobre suas perspectivas e ideias, em especial sobre a psicologia da experiência religiosa (Bair, 2003). Jung (2002 [1949], p. 138) nutria grande admiração pelo trabalho de James, como pode ser verificado em suas Cartas, volume II: “Duas personalidades que encontrei na Clark Conference causaramme profunda e duradoura impressão. Uma foi Stanley Hall, o presidente, e a outra foi William James, que encontrei lá pela primeira vez”. A convivência pessoal entre eles não foi duradoura, devido à morte de James em 1910.
No entanto, o interesse de C. G. Jung pela obra jameseana, em especial, sua teoria pragmática, persistiu. Em 1921, em seu trabalho Tipos psicológicos, o autor reserva um capítulo, “O problema dos tipos na filosofia moderna”, para o estudo do tema. Jung (2011 [1921]) considerava a teoria pragmática como elemento importante de sua psicologia analítica. Porém, para que possamos compreender melhor os apontamentos, as apropriações e as críticas de Jung ao trabalho de James, devemos retornar à obra Pragmatismo.
A teoria pragmática de William James
James (1989 [1907], p. 4) faz, inicialmente, uma análise sobre a importância dos temperamentos na postura filosófica dos indivíduos: “A história da filosofia é, em grande parte, a de uma certa colisão de temperamentos humanos”. As ideias e proposições acerca do mundo, das coisas do mundo, dos indivíduos e de suas relações são orientadas a partir do temperamento daquele que se propõe a avaliar esses fatores. Os pesquisadores, ao explicarem a realidade, buscam elaborar esquemas que mais se harmonizem com a sua forma de ser. O resultado final não é uma representação fiel do mundo, até porque um indivíduo não conseguiria abarcar a totalidade da existência, mas uma representação daquele que se dispôs a pesquisar. Os filósofos, em geral, tentam encobrir esse fator fundamental por meio de afirmações neutras e objetivas. Podemos até mesmo destacar certa insinceridade das discussões filosóficas, pois a premissa principal que movimenta os debates não é mencionada (James, 1989 [1907]).
O filósofo americano, na busca por exemplificar a ideia principal de sua exposição, afirma que é possível dividir os diferentes tipos humanos em duas categorias básicas: os racionalistas, adeptos das concepções abstratas; e os empiristas, seguidores dos fatos observáveis. É claro que o autor leva em consideração a diversidade de posturas humanas, com graus dos mais variados de cada um desses posicionamentos. A divisão estabelecida tem, dessa forma, um objetivo didático, de facilitar a compreensão de sua proposta. Em seguida, James (1989 [1907]) passa as qualificações secundárias do par de opostos delimitado.
Os racionalistas normalmente são associados a uma atitude idealista e intelectualista, possuem uma visão otimista da vida e do mundo, são religiosos, monistas, defensores do livre-arbítrio e dogmáticos em seus posicionamentos. Já os empiristas são materialistas, ligados às sensações, de pensamento pessimista, irreligiosos, fatalistas, pluralistas e céticos. James (1989 [1907]) procura associar cada uma dessas características ao local mais adequado dentro do par de opostos inicial. No entanto, reforça a questão da multiplicidade dos tipos humanos e da diversidade de combinações possíveis.
Em seu tempo, e podemos afirmar que ainda hoje, a busca pelos fatos objetivos e a valorização da ciência eram almejados por todos. Ao mesmo tempo, uma grande parte das pessoas não abandonava a religião, pela capacidade da mesma em fornecer suporte emocional para a vida. Valorizam-se os dados sensoriais da mesma forma que as ideias e concepções abstratas. Dessa forma, tem-se um impasse, ou melhor, uma dissociação, pois o empirismo se posiciona na maioria das situações de forma impessoal e, para James (1989 [1907]), até mesmo de maneira desumana e irreligiosa, enquanto que o racionalismo, que se pode chamar de religioso, mantêm-se afastado das questões mais objetivas da vida. Essa dissociação fica ainda mais clara por meio do exemplo oferecido por James (1989 [1907], p. 9):
Quisera ter poupado as primeiras páginas de uma tese que um estudante me
passou às mãos um ano ou dois atrás. Ilustravam meu ponto tão claramente
que tenho pena de não poder lê-las agora. Esse jovem, formado por alguma
faculdade do oeste, começava dizendo que tinha tido sempre como certo o
fato de que, quando se entra em uma classe de filosofia, tem-se que estreitar
ralações com um universo inteiramente distinto daquele que se deixou lá
atrás na rua. Supunha-se que os dois, disse, tinham tão poucas relações um
com o outro, que não se podia possivelmente ocupar o espírito com eles ao
mesmo tempo. O mundo de experiências pessoais concretas ao qual a rua
pertence é heterogêneo, além da imaginação, enredado, obscuro, doloroso e
enigmático. O mundo ao qual o professor de filosofia o introduz é simples,
claro e nobre. As contradições da vida real acham-se ausentes dele. Sua
arquitetura é clássica. Os princípios da razão traçam os seus delineamentos,
as necessidades lógicas cimentam suas partes. A pureza e a dignidade são
o que mais expressa. É uma espécie de templo marmóreo brilhando no alto
de uma colina.
O temperamento racionalista é refinado, e esse refinamento caracteriza as filosofias intelectualistas que buscam a sua satisfação na contemplação de um objeto organizado e bem estruturado que corresponda a sua busca. Não é uma explicação do universo concreto, mas um substituto, um produto idealizado que, para James (1989 [1907]), poderia ser definido como um escape. Já o posicionamento empirista procura afastar para longe qualquer perspectiva metafísica, que considera fora do contexto da realidade. Como conciliar posicionamentos tão opostos, que geram uma discussão interminável? James apresenta como possibilidade o pragmatismo.
O pragmatismo como resposta às
divergências teóricas
O primeiro ponto acerca da compreensão sobre o que é o pragmatismo é a sua característica de método, o segundo, pode ser definido de uma teoria genética da verdade. Em seu primeiro aspecto, o pragmatismo não é uma novidade, mas uma atualização de posturas anteriores, como as de Sócrates, Aristóteles, Locke, Berkeley e Hume, pois cada um, a sua maneira, fez uso do método pragmático. No entanto, esses precursores o utilizaram de maneira fragmentada. Somente no início do século XX, os filósofos se dedicaram a seu estudo de maneira mais aprofundada (James, 1967 [1907]).
James (1967 [1907]), em um momento inicial de seu trabalho, afirma que a filosofia deveria adotar os pressupostos das ciências naturais, sendo indutiva e empírica. Para tanto, o filósofo deveria adotar hipóteses, substituindo-as quando estas não o auxiliarem na solução de um problema. A filosofia se tornaria móvel e adaptável, sendo a verdade algo que se modifica e se expande. Uma premissa seria verdadeira de acordo com a possibilidade que oferece de conduzir um pensador de uma experiência para outra.
O pragmatismo busca interpretar cada proposta por meio de suas consequências objetivas, ou seja, as afirmações terão valor na relação direta com as ações decorrentes. Uma concepção é avaliada por seus efeitos significativos, imediatos ou remotos, na vida prática. De acordo com a exposição de James (1967 [1907]), fica a impressão da vitória da postura empírica, pois o destaque está sobre os fatos e a objetividade dos resultados, mas o autor esclarece que a perspectiva racionalista das ideias e das abstrações tem perfeita validade.
A metafísica e a ciência poderiam até mesmo trabalhar juntas, pois princípios defendidos como fundamentais, como Deus, razão e absoluto, e conceitos como matéria, energia e natureza, encontrariam sua validade não como palavras definitivas, mas no trabalho que extrai o valor prático de cada uma delas e as coloca na corrente da experiência: “As teorias, assim, tornam-se instrumentos, e não respostas aos enigmas, sobre os quais podemos descansar” (James, 1989 [1907], p. 20). O pragmatismo flexiona todas as concepções e as coloca no campo da ação.
Em seu segundo aspecto, de teoria genética da verdade, o pragmatismo analisa a origem e o desenvolvimento de novas ideias e de novas teorias, assim como a adaptação das mesmas na sociedade. Para James (1989 [1907]), quando uma nova ideia surge, tenta-se adaptá-la aos conhecimentos já existentes. O filósofo americano utiliza o exemplo da descoberta do elemento químico rádio, que emite continuamente energia, o que aparentemente contradiz a teoria da conservação da energia. No entanto, os pesquisadores analisaram que as radiações eram uma fuga de energia potencial insuspeita, preexistente dentro do átomo. O hélio, sendo descoberto como resultado da radiação, confirmou essa crença. Portanto, buscou-se o mínimo de modificações necessárias, dentro do arcabouço teórico já existente: “Faz-se verdadeira pela maneira como opera, enxerta-se, então no velho corpo da verdade, que se desenvolve, assim, de modo semelhante à árvore que cresce pela atividade de uma nova camada de câmbio” (James, 1989 [1907], p. 31).
Por meio de uma perspectiva hermenêutica, podemos compreender melhor a teoria pragmática de James. O autor americano, inserido em seu contexto histórico, busca a explicação para a necessidade prática do homem moderno, que está sempre à procura de novos ideais, ao mesmo tempo que ainda se liga a uma tradição. O filósofo americano afirma que não há uma ruptura conceitual. As novas ideias se adaptam às estruturas já existentes, como no círculo compreensivo de Gadamer (2002 [1959]), no qual as partes se relacionam de maneira direta com o todo, sendo o todo compreendido pelo singular, da mesma forma que a singularidade é compreendida através do todo.
Gadamer (2002 [1959]) utiliza a concepção de círculo hermenêutico em um nível de interpretação de textos no qual o intérprete avalia as palavras na sua relação com a totalidade da produção. Nesse processo, o leitor vai inserindo seus conhecimentos já adquiridos anteriormente na construção do sentido. Não seria possível escapar a esse círculo compreensivo, que se expandiria cada vez mais sem se romper. William James, no entanto, busca a compreensão de aspectos vivenciais do homem, em suas construções teóricas e suas necessidades objetivas. O processo que ele descreve encontra ressonância no círculo compreensivo de Hans-Georg Gadamer, no qual novas ideias se adaptam a um todo conceitual já existente. A verdade, portanto, seria determinada na relação do indivíduo com a experiência.
A influência do pragmatismo na obra
de C. G. Jung
Em suas obras coligidas, C. G. Jung faz apontamentos acerca do pragmatismo no volume três, Psicogênese das doenças mentais, e no volume 10/2, Aspectos do drama contemporâneo. No entanto, é no volume seis, Tipos psicológicos, citado anteriormente, que Jung (2011 [1921]) expõe de maneira mais aprofundada suas apreciações, suas críticas e adaptações.
No volume três, Psicogênese das doenças mentais, Jung (2011 [1914]) aponta para a importância do livro Pragmatismo, de William James. A referência à obra se encontra no “Apêndice” de seu estudo sobre O conteúdo da psicose. O referido texto é uma transcrição de uma conferência realizada na cidade de Zurique no ano de 1908. O trabalho havia sido publicado originalmente pelo professor Freud, no Caderno III do conjunto Schrifte zur angewandten Seelenkunde. É importante destacar que a referência a James foi acrescentada em uma reedição posterior, publicada em 1914.
No apêndice que complementa a publicação, Jung (2011 [1914]) se refere a um aumento considerável das experiências e estudos acerca da dementia praecox. Freud, por exemplo, submete a autobiografia de P. Schreber, Denkwüdigkeiten eines Nervenkranken (Memórias de um doente dos nervos), a seu método de interpretação, nomeado por Jung de analítico-redutivo. Freud mostra como o vasto material de delírios e simbolizações de Schreber se referem às suas relações infantis com o pai, atualizadas em sua relação com seu médico e identificadas com noções e ideias acerca de Deus.
No entanto, Jung (2011 [2014]) afirma que as apreciações de Freud não apresentam os resultados esperados diante da riqueza do material simbólico. A escola de Zurique, representada por Maeder, Spielrein, Nelken, Grebelskaja e Itten, da mesma forma que Freud, e seguindo os passos do método analítico-redutivo, também buscou avaliar o material simbólico produzido por pacientes com diagnóstico de dementia praecox. A intenção desse tipo de avaliação seria retirar do sistema de delírios certos componentes que podem ser generalizados. Uma análise importante, mas que, segundo Jung (2011 [1914]), não consegue abarcar a extraordinária riqueza simbólica presente nos relatos dos pacientes.
A forma de investigação analítico-redutiva procura transformar o complexo em simples, e o desconhecido em conhecido, por meio da redução da diversidade a aspectos gerais, comuns a todos os homens. A esse tipo de compreensão, Jung (2011 [2014]) também nomeia de retrospectiva. O método redutivo é válido e possível, no entanto o autor propõe outra forma de avaliação desses fenômenos, a sua hermenêutica, ou método construtivo, sendo essa forma de compreensão conhecida como prospectiva. Utilizando como exemplo o caso Schreber, estudado por Freud, Jung (2011 [1914]) afirma que, enquanto o método redutivo se ocupa da objetividade científica do fenômeno, reduzindo a estrutura de fantasia do doente a fundamentos mais simples e gerais, a compreensão prospectiva busca, em casos como o de Schreber, a perspectiva da subjetividade do paciente, em seu processo de construção simbólica. A partir desse destaque dado à subjetividade do fenômeno patológico, o psiquiatra suíço chega ao ponto essencial de sua explicação. A existência de diferentes tipos humanos, que imprimem suas particularidades em todas as suas formas de expressão, inclusive as patológicas.
A experiência médica até o presente momento ensina que existem dois
grandes grupos de distúrbios nervosos funcionais: um que abrange todas as
formas de doença comumente chamadas ‘histéricas’, e outro que abrange
todas as formas denominadas pela escola francesa de psicastenia. Embora
essa distinção seja bastante imprecisa pelo que pude observar, podemos
identificar dois tipos psicológicos, manifestamente diferentes, que possuem
psicologias diametralmente opostas. Denominei esses tipos de introvertidos
e extrovertidos. A histeria pertence ao tipo extrovertido, a psicastenia e a
dementia praecox pelo que dela se conhece, ao tipo introvertido (Jung, 2011
[1914], p. 211).
A partir dessas afirmações chegamos à importância atribuída à obra Pragmatismo, na qual o psiquiatra suíço destaca “a excelente descrição dos tipos psicológicos feita por William James” (Jung, 2011 [1914], p. 212). O trabalho de James permite a introdução do fator subjetivo no contexto científico, pois, ao estudar a questão das tipologias, ele afirma que todas as produções humanas são afetadas pelas diferenças de personalidade. A análise construtiva, ou compreensão prospectiva, seguiria os passos desse fator subjetivo destacado por William James.
Em sequência, temos a obra Aspectos do drama contemporâneo. No capítulo XXI, C. G. Jung avalia o livro de Hermann Keyserling, La revolution mondiale et la responsabilité de l’espirit, por meio de uma resenha intitulada: “Um novo livro de Keyserling ‘A revolução mundial e a responsabilidade do espírito’”. O texto de Jung foi publicado originalmente em Basler Nachrichten, Sonntagsblatt, n. XXVIII, de 13 de maio de 1934.
O livro em questão representa a visão do autor diante da situação de seu tempo. Para Keyserling, os acontecimentos sociais, políticos e econômicos, apesar de serem princípios condutores das revoluções no mundo, não representam a transformação essencial, que deveria partir de uma reforma dos sentidos, ou como o próprio autor se refere, a um resgate do espírito.
Segundo Jung (2011 [1934]), Keyserling tenta resgatar uma visão de mundo característica dos séculos XVIII e XIX, nos quais tudo poderia ser passível de ser conhecido e, nessa posição, Keyserling critica o pragmatismo americano chamando-o de antiespiritual. Em relação a essa afirmação, Jung (2011 [1934], p. 103) destaca: “espero aliás, que ele não esteja pensando em William James”. James segue exatamente o caminho oposto, pois se dedica a compreender valores religiosos e aspectos espirituais da conduta humana tanto em sua obra Pragmatismo, na qual reserva um capítulo para o estudo do pragmatismo em relação à religião, quanto em sua obra The varieties of religious experience, totalmente dedicada ao tema.
Da mesma forma, em sua obra Tipos psicológicos, o psiquiatra suíço reserva um capítulo para o estudo do tema intitulado “O problema dos tipos na filosofia moderna”. Nesse trabalho, o autor faz um estudo detalhado da obra Pragmatismo, destacando a diferença dos temperamentos humanos na construção do conhecimento. A divisão básica da tipologia de James, já explicada anteriormente, é retomada por Jung (2011 [1921]), que analisa as diferenças principais estabelecidas entre racionalistas e empiristas. Jung (1989 [1907]) afirma que prefere a utilização dos termos ideologismo, ou idealismo, ao conceito original de racionalismo. O autor suíço considera que o empírico é também racional, pois faz uso de uma sensatez ou ratio (razão). O racionalismo diria respeito a uma atitude psicológica geral de ponderação, seja no nível do pensar ou do sentir.
Razão é, pois, a capacidade de ser razoável, uma atitude especial que torna
possível um pensar, sentir e agir segundo valores objetivos. Do ponto de
vista do empirismo, esses valores objetivos provêm da experiência, mas do
ponto de vista do ideologismo, provêm de um ato de avaliação racional que,
então, segundo Kant, seriam ‘faculdades de julgar e agir de conformidade
com princípios básicos’ (Jung, 2011 [1921], p. 322).
Jung (2011 [1921]) acrescenta às propostas de James explicações baseadas em sua própria tipologia. As diferentes posturas de idealistas e empiristas também se distinguiriam pelo percurso seguido pelo pensamento, que poderia ser introvertido ou extrovertido. Enquanto Kant representa o tipo de pensamento introvertido, ao afirmar que a fonte da razão seria uma ideia original, cujo objetivo não é encontrado na experiência, mas parte de princípios reguladores, Wundt representaria o polo oposto, por meio de seu pensamento extrovertido, afirmando que a razão é parte de funções intelectuais complexas, cujas fases anteriores se encontram em um substrato sensível. Para o introvertido ou idealista, o aspecto valorativo está sobre o conceito, ou as ideias, que passariam a orientar o material experimental. Já para o empírico ou extrovertido, os conceitos são sempre derivados da experiência, sendo, portanto, secundários, pois seu pensamento sempre recai sobre o objeto. As duas orientações do pensar são possíveis: enquanto uma parte da experiência para a ideia, a outra segue o percurso oposto. A discussão sobre qual seria a melhor via só levaria a debates filosóficos inúteis.
Posteriormente, o psiquiatra suíço se detém nas explanações acerca dos tipos secundários. No entanto, destacamos que a questão principal apontada por James (1989 [1907]), e analisada por Jung (2011 [1921]), é como certas características individuais são determinantes na escolha dos objetos de pesquisa. Essa característica seria mais bem definida pelo conceito de equação pessoal, que determinaria o aspecto subjetivo, ou psicológico, como subjacente a todas as ciências (Shandasani, 2003).
Na conclusão do capítulo, Jung (2011 [1921], p. 333) destaca a coerência do método pragmático, mas apresenta, da mesma forma, suas críticas. Ele afirma: “James tem o grande mérito de ter apontado, pela primeira vez e com certa profundidade, para a extraordinária importância dos temperamentos na formação do pensamento filosófico”.
No entanto, também completa que a solução do conflito entre opostos não se dá por um compromisso lógico-intelectualista, como tenta o conceptualismo, nem pela medição pragmática de concepções inconciliáveis. Os opostos deveriam ser vistos como elementos necessários de coordenação, “assim como um movimento muscular coordenado implica sempre a inervação dos músculos antagônicos, o pragmatismo deveria ser visto como uma atitude transitória que prepara o caminho do ato criador afastando os preconceitos” (Jung, 2011 [1921], p. 334). Apesar das críticas, o posicionamento, em geral, de Jung sobre o pragmatismo é favorável, sendo as teorias de William James referenciadas até mesmo em seus últimos trabalhos, como em Símbolos e interpretação dos sonhos, de 1961.
Jung (2011 [1921]) defendia a regra pragmática como diretriz fundamental, especialmente em sua experiência clínica, na qual afirmava que o valor prático de cada palavra deveria ser extraído e colocado dentro da corrente da experiência. Segundo alguns autores, como Pereira (2010), a referência ao pragmatismo jameseano é forte em toda a obra de C. G. Jung, especialmente seus textos sobre prática clínica, nos quais, mesmo sem usar o termo pragmatismo, descreve os mesmos fenômenos a ele associados, como em Os objetivos da psicoterapia, de 1929.
Jung estabelece, portanto, um diálogo hermenêutico com a teoria de William James, avaliando os aspectos principais da teoria pragmática, criticando as limitações do método em sua tentativa de conciliação dos opostos e se apropriando dessa metodologia em sua prática clínica. Nesse último aspecto, já não é necessária uma referência direta a William James, pois o papel de empírico adotado por Jung, assim como a determinação da validade de suas teorias pelos seus efeitos objetivos na vida dos indivíduos, já fazia parte de seu arcabouço teórico.
Considerações finais
William James é um autor de grande importância para as áreas da psicologia e filosofia. Sua teoria não estrutural, na qual conceitos e ideias são apenas ferramentas, parece se adequar aos tempos atuais. Mesmo não construindo uma escola, diversos pensadores buscaram inspiração em seu trabalho, destacando-se C. G. Jung como um autor que avaliou em profundidade os conceitos do filósofo americano, especialmente sua teoria pragmática. Os dois autores se conheceram em uma conferência realizada na universidade de Clark, nos Estados Unidos, no ano de 1909. Apesar de o contato pessoal entre eles ter sido breve, a influência teórica de James sobre a obra de Jung foi abrangente. Por meio de uma perspectiva hermenêutica, buscamos compreender o diálogo de Jung com as propostas de James, estabelecendo suas avaliações, críticas e apropriações acerca do método pragmático. Com este trabalho esperamos que mais pesquisadores possam se interessar pelas ideias de C. G. Jung, compreendendo que a teoria analítica tem influências maiores do que apenas a psicanálise freudiana, sendo William James uma figura de importância expressiva.
Referências
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Gadamer, H. G. “Sobre o círculo da compreensão”. Verdade e método II: complementos e índice. Petrópolis: Vozes, 2002 [1959].
______. Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2014 [1960].
James, W. Pragmatismo e outros ensaios. Rio de Janeiro: Lidador, 1967 [1907].
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______. The varieties of religious experience. New York: Penguin, 2009 [1902]. Disponível em:. Jung, C. G. Cartas de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2002 [1949], v. 2.
______. “Apêndice – A interpretação psicológica dos processos patológicos”. Psicogênese das doenças mentais. Petrópolis: Vozes, 2011 [1914], v. 3.
______. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2011 [1921], v. 6.
______. “O problema dos tipos na filosofia moderna”. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2011 [1921], v. 6.
______. “Os objetivos da psicoterapia”. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2011 [1929], v. 16/1.
______. “Um novo livro de Keyserling: ‘A revolução mundial e a responsabilidade do espírito’”. Aspectos do drama contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2011 [1934], v. 10/2.
______. “Símbolos e interpretação dos sonhos”. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 2011 [1961], v. 18/1.
______. Obras completas. Petrópolis: Vozes, 2011.
Pereira, H. Jung e o laboratório da alma: a psicologia analítica pela teoria do ator-rede. Curitiba: Juruá, 2010.
Shandasani, S. Jung e a construção da psicologia moderna: o sonho de uma ciência. São Paulo: Idéias & Letras, 2003.