Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia
Cap. 3 – A cooperação internacional na história da psicologia: um caminho bidirecional
Capítulo 3 - A cooperação
internacional na história da
psicologia: um caminho
bidirecional
Rubén Ardila
De onde viemos e para onde vamos?
Por uma perspectiva histórica, o estudo dos fenômenos que chamamos de psicológicos tem raízes na cultura grega e nas civilizações anteriores, como a suméria, a assíria, a egípcia, a chinesa, a indiana, entre outras. A partir de Aristóteles, o corpo de conhecimentos que se centrou em estudar a “alma”, a “mente” e a “conduta” evoluiu e se consolidou. Foi um campo de trabalho de filósofos, teólogos, educadores, médicos e outros pensadores.
Em sua perspectiva moderna, a partir do Renascimento, esses desenvolvimentos se centram em países que começaram a desenvolver comunidades acadêmicas e científicas, como Inglaterra, Alemanha e França. A psicologia foi sempre um campo de grande interesse na cultura ocidental. Os filósofos, educadores, políticos e outros pensadores se interessaram profundamente nos problemas que denominaram psicológicos, incluindo a natureza humana, a mente, a conduta, a maneira como percebemos o mundo, como aprendemos e a maneira como pensamos, e as relações de umas pessoas com as outras.
Com o crescimento das investigações e reflexões em vários países, inicia-se a psicologia como campo de conhecimento autônomo, diferente da filosofia. A data é 1879, com o Instituto (Laboratório) de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, com Wundt. Este é o “mito de nascimento” mais aceito na psicologia. Ainda que obviamente haja outras raízes e outras origens (ou seja, outros mitos) que também mereçam atenção.
A psicologia liga-se ao conhecimento que recebeu o nome de “ciência” e que se passou a considerar na atualidade como conhecimento objetivo, replicável, com fundamentos empíricos, independentemente do observador, de sua ideologia e de sua perspectiva pessoal, refletindo (ao menos parcialmente) o que denominamos “mundo real”, “natureza”, e outros conceitos similares.
Esse corpo de conhecimento começa na Europa ocidental e, mais adiante, desenvolve-se com grande vitalidade nos Estados Unidos. A partir das últimas décadas, passou a ser um conhecimento muito mais universal, muito mais globalizado. No entanto, considerado de uma perspectiva histórica, ainda existe uma grande lacuna entre o estado da psicologia no mundo desenvolvido e no mundo em desenvolvimento (majoritário). Lacuna esta que tende a fechar-se, sendo cada vez menor.
A universalização da psicologia
Os historiadores da psicologia têm encontrado em praticamente todos os países do mundo o seguinte:
a psicologia reconhece as mesmas origens (a cultura grega, o associanismo britânico, a psicologia experimental alemã, a evolução e as mudanças sociais do século XX); investiga as mesmas áreas de conhecimento: percepção, cognição, aprendizagem, motivação, fundamentos biológicos, conduta social, comportamento desviado da norma, psicofarmacologia e desenvolvimento humano ao longo do ciclo vital;
aplica as mesmas metodologias, tanto quantitativas quanto qualitativas;
dedica-se, no nível profissional, aos mesmos campos: psicologia clínica e de saúde, educacional, organizacional, social/comunitária, neuropsicologia, psicologia do esporte,
psicologia de casal e família, psicologia jurídica e forense (psicologia e lei);
os psicólogos leem os mesmos autores: Piaget, Skinner, Freud, Pavlov, Bandura, Kohlberg, Luria, Maslow, Lewin, Rogers, Vygotski e seus sucessores. Em muitos casos, também, autores da cultura em questão que deixaram um legado mais adiante de seus predecessores porque “subiram nos ombros de gigantes” (segundo a frase atribuída a Newton);
discutem os mesmos problemas: se a psicologia é uma ciência natural, social ou do comportamento, ou se é parte das humanidades; se as quantitativas proporcionam informações mais confiáveis que as metodologias qualitativas, ou ao contrário; qual é a relação profissional com neurologistas, antropólogos, psiquiatras, psicopedagogos e outras profissões afins; se há leis universais na psicologia; e se estão contextualizadas numa cultura determinada ou não.
Tudo isso indica que a psicologia realmente se globalizou.
A grande lacuna cultural
O mundo “majoritário” ou em desenvolvimento, do qual faz parte 70% da humanidade, possui muitas carências na organização social, direitos humanos, participação política, inserção da mulher na sociedade, distribuição de ingressos, discriminação e desigualdade, e outros temas de enorme importância.
Nesses países em que se desenvolveu amplamente a psicologia, especialmente nas últimas décadas, a sociedade a concede grande credibilidade, considerando que essa ciência pode contribuir amplamente para o desenvolvimento social e humano, além de solucionar os problemas tradicionais da sociedade.
A mensagem que devemos recordar é esta: a psicologia não pode permitir-se não ser relevante para os problemas sociais do mundo em desenvolvimento. Não podemos deixar de lado o contexto nem podemos marginar nossas sociedades, nossas culturas e nossa época.
A colaboração internacional
Mesmo considerando que a distinção entre países “desenvolvidos” e países “em desenvolvimento” é relativa e discutível, podemos considerar para o caso da história da psicologia que a comunicação bidirecional entre ambos os grupos culturais poderia centrar-se no seguinte:
O mundo em desenvolvimento (ou majoritário) é um campo fértil de investigações para os historiadores da psicologia, em áreas como a psicologia transcultural, a comunidade, o ciclo vital, a psicologia comparada, entre outras. As histórias locais têm grande relevância;
As comparações transculturais e transnacionais (e também ao longo de períodos históricos) nos permitem investigar se os processos psicológicos são universais, ou se são relativos à época e à cultura, ao desenvolvimento e a outros fatores similares. Elas irão nos permitir dar luzes sobre o complexo problema da universalidade dos fenômenos psicológicos e sua contextualização cultural; O mundo desenvolvido possui tecnologias cada vez mais refinadas e exatas para investigar importantes problemas psicológicos, seu desenvolvimento histórico e sua historiografia. Por haver construído comunidades científicas amplas e variadas, com experiência de trabalhos de grande envergadura, podem lançar luz sobre os grandes problemas da história da psicologia;
O mundo desenvolvido tem experiência no que é relacionado com a organização profissional da história da psicologia, os problemas de investigação, as relações com outros campos, o financiamento da investigação, que podem servir de guia aos países em desenvolvimento.
A colaboração deve ser bidirecional, norte-sul, mundo desenvolvido e mundo em desenvolvimento. Uma colaboração para benefício mútuo, para contribuir para o avanço da psicologia, de sua história, e para servir melhor a nossa sociedade.