Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 8 de 24

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Dever de Capitão

Quatro: -6 dias

– 6 dias

 

A situação na re gião é e xtre mame nte alarmante . Nunca vimos um aume nto se me lhante na atividade de piratas ne ssa áre a. Esse s piratas não he sitam e m usar grande pode r de fogo e m suas te ntativas de tomar o controle de e mbarcaçõe s. Mais de 260 marinhe iros foram fe itos re fé ns na Somália e ste ano. A não se r que novas me didas se jam tomadas, marinhe iros continuarão a e nfre ntar grave s pe rigos.

Declaração de Pottengal Mukundan, diretor do

Departamento Marítimo Internacional, 21 de agosto de 2008

 

Eu nunca havia sido abordado por um navio pirata em toda a minha carreira, mas houve uma

ocasião em que isso quase aconteceu. Durante uma passagem pelo golfo de Áden, em setembro de 2008, eu estava no passadiço quando Shane, meu imediato, me chamou.

— Capitão, sabe aquele navio que mencionei, pelo qual passamos mais cedo?

Fiz que sim com a cabeça. Nas rotas mais trafegadas do mundo, é possível encontrar os mesmos navios várias vezes, percorrendo as mesmas etapas da viagem e fazendo escala nos mesmos portos. Os nomes deles apareciam no Sistema Automático de Identificação (AIS, na sigla em inglês). Passáramos por um navio porta-contêineres na noite anterior. Shane estava monitorando o rádio e ouvira o nome do navio.

— Seis horas atrás ele foi sequestrado por piratas.

— Onde?

— Logo ao norte da fronteira entre Quênia e Somália.

Foi pura sorte. Os piratas viraram para o norte e os capturaram em vez de virarem para o sul e nos atacar.

A pirataria tem estações, como o clima. Em geral, o oceano Índico é liso feito vidro, com um tom azul tropical estonteante, aquilo que os marinheiros chamam de “água bonita”. Mas, do final de junho até o começo de setembro, chega a estação do khareef, trazendo monções que atravessam o oceano a partir do sudoeste, o que torna aquela extensão de água perigosa para embarcações pequenas. Isso significa que a estação de pirataria se estende de outubro até maio. Quando chega abril, os bandidos querem fazer ganhos substanciais antes que a estação das tempestades os deixe temporariamente desempregados.

A maioria dos piratas vinha da região nordeste da Somália, conhecida como Puntlândia. O nome é uma homenagem à mítica Terra de Punt, conhecida pelos egípcios durante a antiguidade como fonte de ouro, ébano e jacarandá. Contudo, de um local que exportava riquezas aos faraós, a região virara um lugar onde a fome, os bandidos e o caos estavam na ordem do dia. O colapso do governo em 1991 causou inanição em massa e a intervenção de uma força de paz da ONU, liderada pelo exército dos Estados Unidos. Isso acabou nos dias 3 e 4 de outubro de 1993, quando ocorreu a infame Batalha de Mogadíscio e dezoito soldados americanos e um malásio perderam a vida em um tiroteio terrível.

Os piratas alegavam ser ex-pescadores obrigados a virar bandidos quando seu meio de sustento desapareceu. De acordo com eles, traineiras estrangeiras chegavam perto da costa e retiravam centenas de milhões de dólares em atuns, sardinhas, cavalas e peixes-espada. Outros navios despejavam lixo tóxico na água para ganhar dinheiro fácil. Os pescadores locais não tinham a menor chance de competir com as frotas espanholas e japonesas equipadas com tecnologia avançada e descobriram que os intrusos atiravam neles quando tentavam trabalhar na mesma área. Em pouco tempo, eles foram reduzidos à condição de mendigos e até passaram fome.

Mas eu via cardumes de cavalas, atum e de outros peixes todas as vezes que descia pelo litoral da Somália. Dava para viver com o que havia lá. Acreditava que os somalis simplesmente tinham encontrado um trabalho mais fácil: a pirataria.

Nos anos 1990, jovens armados começaram a zarpar de portos somalis como Eyl para capturar tripulações estrangeiras e pedir pequenos resgates. Eram bandidos profissionais e impiedosos que viram uma chance de ganhar muito dinheiro e se aproveitaram dela. Em 2008, eles acumularam 120 milhões de dólares em um país onde a maioria das pessoas ganha seiscentos dólares por ano. Com esses caras, meus pensamentos sobre sardinhas e peixes-espada ficaram para trás. Para mim, não havia diferença entre eles e um bando de escroques da máfia ou ladrões armados que roubam um posto de gasolina. Tudo bem, eles são pobres, mas roubo é roubo.

Quando os piratas surgiram, no começo da década de 1990, eles saíam de seus portos em pequenas embarcações de madeira deterioradas com somente um motor de popa, alcançando apenas as imediações do litoral e cobrindo alguns milhares de milhas quadradas do oceano. Seus barcos não estavam equipados para ir mais longe. Mas os navios fizeram o que sempre fazem quando confrontados com uma ameaça pirata ao longo de rotas de navegação conhecidas: alteraram suas rotas. Os navios grandes começaram a navegar mais e mais longe do litoral, e os bandidos descobriram que sua sorte acabara.

Foi aí que os somalis viraram o jogo. Em vez de sequestrarem traineiras e cargueiros, eles roubavam as embarcações e as usavam como navios-mãe. Essas traineiras podem viajar a centenas de milhas de distância do litoral em tempo ruim, e os somalis simplesmente amarravam suas pequenas lanchas à popa e saíam em busca de presas maiores. Quando encontravam um navio, equipes de três ou quatro piratas embarcavam nas lanchas e iam à caça. Não importava se falhassem. Com o navio-mãe, eles podiam permanecer em alto-mar por semanas enquanto procuravam a vítima certa. Em 2005, não havia onde se esconder nas imediações do litoral da África Oriental. Por onde se navegasse, os piratas estavam lá.

O procedimento-padrão para um ataque pirata é o seguinte: logo antes do anoitecer ou após a alvorada, três ou mais barcos rápidos se aproximam em alta velocidade de um navio. Um navio-mãe fica à espreita, seguindo o alvo pouco além do horizonte. Os piratas se aproximam do costado do navio-alvo, prendem croques na amurada do convés e sobem a bordo. A partir desse ponto, vira um jogo de ameaças e resgates.

Se você é atacado, não pode ligar para a polícia. Não existe guarda costeira somali, e os europeus e os americanos não podem garantir a segurança de ninguém. Uma força-tarefa de navios de guerra de vinte países da região combate a pirataria, porém ela está concentrada em um corredor no golfo de Áden, ao longo da costa meridional do Iêmen, o que deixa a costa da Somália praticamente desguarnecida. E a área total abrange milhões de milhas quadradas de oceano. Os piratas podem tomar o controle de seu navio e de sua tripulação em minutos. O melhor é chamar rapidamente o Controle de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO, na sigla em inglês), uma central de informações sobre segurança para membros da marinha mercante no golfo Pérsico e no oceano Índico. Ela repassa a notícia.

Os donos dos navios, desesperados para fazer a carga chegar ao destino — sejamos francos, esse é o verdadeiro motivo porque eles querem acabar com essas situações com reféns —, contratavam helicópteros para jogar o dinheiro do resgate em sacos de estopa nos conveses. Ou colocavam o dinheiro em maletas à prova d’água em pequenas lanchas motorizadas. Uma empresa chegou a usar um paraquedas ao estilo James Bond para pagar os bandidos, jogando três milhões de dólares no convés do MV Sirius Star. Todo mundo ganhava dinheiro. As empresas de segurança profissionais eram pagas regiamente para negociar os resgates com os somalis. Os sujeitos que entregavam os resgates recebiam um milhão de dólares para arriscar a vida. As empresas de navegação recebiam as embarcações de volta e as seguradoras as ressarciam pelo tempo perdido e dobravam o prêmio para todos os outros. Os estatísticos dessas seguradoras diziam: “Bem, apenas 0,4% dos navios que passam pelo golfo de Áden são tomados por piratas.” Assim, as embarcações continuavam a passar por lá. E os piratas recebiam uma soma vultosa.

Mas e os tripulantes? Em geral, voltavam para casa, ganhavam uma refeição quente e algumas lágrimas da família e em pouco tempo já estavam embarcados de novo. Um membro da marinha mercante não recebe adicional por periculosidade.

 

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Os piratas sempre alegavam tratar bem seus prisioneiros, e, segundo os boatos que ouvi, isso

costumava ser verdade. Mas eu sabia que eles eram capazes de matar quando acuados. Quando um grupo de somalis sequestrou um barco de pesca taiwanês, o Ching Fong Hwa 168,

em abril de 2007, um membro da tripulação levou um tiro nas costas durante o ataque. Quando o dono se recusou a pagar o resgate de 1,5 milhão de dólares exigido pelos somalis, eles

escolheram a esmo outro marinheiro chinês e o executaram a sangue-frio com seis tiros. Os piratas queriam atirar o cadáver aos tubarões que infestam o oceano Índico, mas o comandante

os convenceu a guardá-lo na câmara frigorífica da embarcação. Depois os piratas apontaram uma arma para a cabeça do filho de 22 anos do comandante e ameaçaram apertar o gatilho

caso ele não ligasse para Taiwan e retornasse as negociações. Por sete meses, a vida da tripulação foi um inferno: eles eram arrancados da cama para execuções simuladas e

espancados quando não conseguiam entender os somalis, e foram vítimas do assassino mais antigo do oceano — o escorbuto — quando os legumes e as verduras acabaram. Os somalis

chegaram a forçá-los a ligar para a própria família e suplicar por suas vidas.

Quando não recebem o dinheiro, os piratas começam a ficar violentos. Chicotearam marinheiros russos cujo graneleiro era objeto de um pedido de resgate de dez milhões de dólares e os obrigaram a deitar nos conveses escaldantes quando a temperatura passava de 38°C. Uma tripulação nigeriana permaneceu trancada em seus camarotes por três meses, sem poder ver o sol ou respirar ar fresco. Marinheiros indianos foram torturados e ameaçados de execução. Quando o Maersk Alabama entrou no golfo de Áden, mais de duzentos marinheiros de diversas nacionalidades encontravam-se na condição de reféns em vinte navios diferentes, a maioria capturada no oceano Índico, ou perto dele.

Havia quatro grupos principais responsáveis pela maior parte desses incidentes: a Guarda Costeira Voluntária Nacional, que se concentrava em atacar barcos comerciais pequenos e navios de pesca; o Grupo de Marka, que operava da cidade do mesmo nome; o Grupo da Puntlândia, constituído por ex-pescadores agora fora da lei; e o dos fuzileiros navais da Somália, que se consideravam um tipo de marinha de guerra nacional, com um almirante de esquadra, um vice-almirante e um diretor de finanças. Estes lançavam lanchas velozes a partir dos navios-mãe e depois orientavam seus tripulantes até os alvos usando telefones por satélite. Especializavam-se em alvos grandes, como petroleiros e porta-contêineres.

Nós.

A notícia mais perturbadora sobre os piratas veio, na verdade, de meu irmão, que é um analista especializado no Oriente Médio e trabalha em um grupo de pesquisa interdisciplinar em Washington. Ele me disse que lera relatos de que havia combatentes da al-Qaeda saindo do Paquistão para a Somália e o Iêmen. Isso me preocupava até a enésima potência. A al-Qaeda são outros quinhentos. Eu tinha ouvido falar de um incidente bizarro em que um grupo de piratas abordara um navio no estreito de Malaca, a oeste da Malásia, enganchara seus croques e subira a bordo. Eles reuniram a tripulação e a prenderam em um compartimento. O passo seguinte, obviamente, seria pedir um resgate, porém eles não o fizeram. Queriam aprender a manejar o navio. Foram até a praça de máquinas e a examinaram. Foram ao passadiço e treinaram como manobrar a embarcação. Usaram o rádio e treinaram com o VTS (sigla em inglês para Sistema de Controle de Tráfego Marítimo), utilizando os pontos de chamada que monitoram as rotas dos navios. Depois de aprender tudo o que podiam, foram embora, levando consigo os manuais da praça de máquinas e do passadiço e uma lista de pontos de controle que os comandantes usam quando estão manobrando em áreas congestionadas.

Parecia um treinamento para uma operação da al-Qaeda, uma versão marítima do 11 de Setembro.

 

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Depois de ler os relatórios de segurança, escrevi um e-mail curto para Andrea. Acho que me sentia um pouco só, porque comecei a mensagem com uma referência à nossa busca contínua

por um cão para substituir nossa amada Frannie.

 

Oi, Anjo,

Alguma novidade quanto aos cachorros? Fiquei pensando em Frannie ontem à noite; senti os olhos rasos d’água.

Aquela cadela danada ainda mexe comigo! Preciso de um cachorro!

Estou a caminho de Mombaça, vou ligar por volta do dia 11 ou 12 de abril. O clima está ótimo, vai ficar assim até a

chegada da monção. Os piratas andam mais ativos ultimamente. Estão atacando até navios de guerra. Acho que não

conseguiram identificá-los.

Beijos, R.

 

Eu não queria que ela se preocupasse, mas não podia fingir que os somalis não existiam. Andrea e eu estávamos nesse negócio juntos. Sempre estivemos. Antes de partir, eu havia falado que minha profissão estava ficando mais perigosa devido aos piratas.

— Em algum momento eles sequestrarão um navio americano.

— Eles não são tão burros — respondera Andrea. — Nunca atacariam um dos nossos.

Porém, no fundo, ela sabia que havia essa possibilidade. Faz parte da vida de uma esposa de marinheiro mercante. Mas, de alguma forma, ela contava com que a bandeira dos Estados Unidos servisse de proteção para mim e minha tripulação. Quem ousaria atacar a bandeira americana?

Andrea nunca perdeu o sono por eu estar tão longe. Talvez fosse puro otimismo, mas ela conseguia manter a cabeça livre de pensamentos ruins. Sempre tivemos sorte. Trabalhamos duro para conseguir o que temos e nos consideramos abençoados. Acho que ela acreditava que isso perduraria.

Suas amigas admiravam-se:

— Não sei como você consegue ser esposa de um marinheiro mercante.

A resposta jocosa dela era sempre igual:

— Está brincando? Um marido que passa um monte de tempo fora de casa e um cheque que entra a cada duas semanas, quem não gostaria disso?

Essa resposta sempre provocava muitas risadas. Mas é verdade que a maior parte das mulheres de marinheiros é independente e forte, capaz de levantar uma pá ou um martelo, ou consertar o aquecedor de água. Quando saía em viagem, sempre entregava a Andrea algo que ela chamava de lista “querida, faça”: “Querida, não se esqueça de trocar o óleo do carro, pagar os impostos, mandar consertar o secador de roupa etc.” No começo do nosso casamento, quando ela ficou em casa com dois bebês em pleno inverno de Vermont, Andrea realmente precisou ser forte.

— Houve muitos momentos em que me senti como aquele estereótipo de mulher que fica parada no acostamento da estrada com um pneu furado — dizia ela. — Ou você aprende a sobreviver sozinha ou se divorcia e volta a levar uma vida normal.

Graças a Deus, temos vizinhos e parentes maravilhosos que sempre ajudam quando Andrea precisa de algo. Se uma árvore caía na nossa propriedade, os vizinhos apareciam com uma motosserra e um trator.

Talvez sua força esteja no DNA. A mãe dela sempre carregou um fardo pesado. Andrea era adolescente quando seu pai saiu de casa e deixou a mulher com seis filhos para criar. A mãe de Andrea trabalhava em tempo integral e, ao voltar para casa, tinha que lidar com um monte de crianças bagunceiras. Andrea sabia como isso era difícil porque era responsável por grande parte da criação dos irmãos. Ela aprendeu a ser bastante prendada: cozinhar, consertar roupas e manter a casa limpa. Quando o caçula Tommy era pequeno e ralou o joelho, ele correu para Andrea. A mãe ficou magoada por causa daquilo, mas logo percebeu que criara uma mulher muito capaz. Um momento que significou muito para Andrea foi quando a mãe lhe disse: “Nunca terei que me preocupar com você ou qualquer uma das minhas filhas.” Muitas vezes pensei a mesma coisa. Andrea pode lidar com quase tudo.

Toda esposa de um marinheiro mercante sabe que não é uma questão de “se”, mas de “quando” o marido vai enfrentar uma situação perigosa. Nós dois só esperávamos que a situação mais perigosa — um ataque de piratas — não acontecesse conosco.

No dia 5 de abril, Andrea me mandou um e-mail sobre a morte de sua madrasta, Tina, e o viúvo dela, Frank.

 

Ei, você aí,

São sete da manhã, Mariah me acordou para dizer que estava nevando e foi para o celeiro... O velório de Tina foi

muito bonito, apesar do frio e da chuva... Quem sabe devêssemos apresentar minha mãe a Frank? Eu ri.

Saudades de você. Tenho acordado no seu lado da cama. Espero que as coisas estejam bem por aí. Sinto falta de sua

voz.

BEIJOS

Andrea