Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 18 de 24

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Dever de Capitão

Catorze: Dia 3, hora 0200

Dia 3, hora 0200

 

Mais navios de gue rra a caminho do local onde ocorre u o se que stro do capitão ame ricano: os piratas somalis e se u re fé m e stavam à de riva e m uma e mbarcação de salvame nto na se xta-fe ira ao largo do Chifre da África. Ele s vê m se ndo acompanhados por um contratorpe de iro ame ricano, e outros navios e stão a caminho, e m uma de monstração do pode rio dos Estados Unidos.

Fox News, 10 de abril

 

Durante a madrugada de sexta-feira, adormeci sentado. Outras vezes, fingia dormir para ver o

que os piratas faziam. Eles abririam a guarda? Nenhuma vez. Na cabine de manobra, o Líder ligava a lanterna e me iluminava de repente para ver se eu tentava chegar mais perto de uma

escotilha.

Por fim, vi Musso caminhar pelo corredor da popa até a proa. Ele largou o AK e se deitou no convés. Após algum tempo, pensei tê-lo ouvido ressonar. O barco ficou muito silencioso. Logo em seguida, ouvi duas pessoas roncando, Musso e Jovem. O Líder cochilava na cabine, cabeceando de vez em quando, como se assistisse a um filme ruim. Eu olhava através do corredor e tentava ver se estavam apenas fingindo dormir. Mas não — eles dormiam de verdade. Só faltava Comprido.

Depois de um tempo, ele se levantou. Vi que se dirigia à escotilha de ré para urinar e que colocara o AK bem ao lado da porta, para ficar com as mãos livres.

Talvez esta seja a hora, pensei. Meu corpo inteiro se concentrava no que eu estava prestes a fazer. Debrucei-me buscando apoio nas pontas dos pés. Meu coração disparou.

Fixei meu olhar em Comprido, que estava de pé diante da escotilha aberta, com a água iluminada pela lua ao fundo. A embarcação balançava suavemente. Ele se esticou para agarrar o batente, firmando-se com as mãos sobre ele. O mar estava calmo; ele não precisava usar as mãos para manter o equilíbrio.

Chegou a hora, pensei. Pare de adiar e arrisque. A hora é essa! Tentei sentir meus pés. Estariam dormentes? Encostei um deles no chão com cuidado, procurando não fazer qualquer barulho, para ver se aguentaria meu peso.

Esse movimento pareceu levar horas, mas tenho certeza de que foram apenas alguns segundos. Levantei-me e fui até o sujeito. Com dois passos largos, passei pela escotilha e, ao mesmo tempo, estendi os braços e empurrei o homem. Comprido se virou um pouco enquanto caía, e eu o empurrei de novo, dessa vez com mais força. Ele gritou — meu Deus, foi muito alto — e, justo quando eu estava prestes a mergulhar na água, olhei para baixo e vi a arma. Por uma fração de segundo, pensei em pegá-la e usá-la contra os piratas. Poderia ter agarrado a arma e disparado. Você não faz a menor ideia de como atirar com um AK. E, com esse pensamento, corri e mergulhei na água.

Meu primeiro pensamento não foi Liberdade ou Nade como se não houvesse amanhã, mas apenas Meu Deus, que água fria deliciosa. Os piratas não me deixavam mergulhar para me refrescar, e meu corpo estava tão exausto por causa do calor que aquilo foi totalmente refrescante. Tive vontade de ficar boiando de costas pelo oceano e esquecer a ideia de fugir. A sensação da água na minha pele era muito gostosa. Então me ocorreu um segundo pensamento: os óculos. Eu os perdera. Eram usados quase exclusivamente para leitura, mas me senti nu sem eles, exposto. Enchi o pulmão de ar, mergulhei fundo e nadei por baixo d’água. E fiz isso de novo. Mergulhei e nadei, prendendo a respiração pelo máximo de tempo possível. O mar acima de mim era de uma transparência magnífica, meio esverdeado, como se eu estivesse em uma piscina iluminada por refletores. O luar atravessava a água.

Senti meus pulmões queimando; precisava voltar à superfície. Subi à tona e enchi os pulmões de ar. Notei os piratas na hora, a cerca de trinta metros de distância. Eles haviam ligado o motor e navegavam em círculos, pendurados para fora da escotilha da embarcação de salvamento com seus AK-47 apontados para a superfície da água.

Comprido gritava em somali, e eu ouvia e via movimentos dentro da embarcação. Pensei: E aí, o que você vai fazer agora? Havia algumas nuvens no céu, mas a lua estava visível e os somalis veriam minha cabeça, uma bolota branca em meio à água escura.

O bote se virou, com a proa apontada em minha direção. Se eu não fizesse nada, seria triturado pela hélice.

Percebi o navio da marinha norte-americana a cerca de meia milha de distância. Inspirei rápido e comecei a dar braçadas, dando tudo de mim. Com a imagem do que acabara de ver ainda em mente, me dei conta: Cara, os piratas estão putos. Os três pareciam mais irados do que eu jamais vira, xingando e berrando. Se eu não estivesse com eles, a marinha poderia disparar uma saraivada de balas na embarcação, e os piratas acabariam com mais perfurações do que Bonnie e Clyde.

Eu sabia que havia tubarões perto da costa da Somália: brancos, tigres e até o mais feio de todos, o boca-grande. Houve casos em que traficantes de pessoas atiraram sua carga ao mar nessa área, e pedaços de cadáveres apareceram na costa com enormes marcas de dentadas. Mas ignorei o medo de ser comido. Se fosse morrer naquela noite, seria nas mãos dos piratas.

Eu estava numa enrascada. Queria fazer barulho suficiente para que a marinha me visse e posicionasse o Bainbridge entre mim e os somalis, ou simplesmente os matasse. Sabia que os marinheiros estariam em alerta máximo. Sabia também que havia algum marinheiro olhando para a embarcação através de um binóculo potente ou com uma mira telescópica montada em um fuzil — seria preciso que entendessem que a pessoa no mar era eu, e não um dos piratas. Contudo, se eu fizesse barulho demais, os somalis me encontrariam.

Eu arfava ao nadar. Meu condicionamento físico não era dos melhores. Senti o coração disparado e pensei: Deus, só me ajude a chegar ao navio.

Virei-me e olhei para trás. A luz da lua se espraiava pelo oceano como uma toalha branca, e eu conseguia ver os piratas nitidamente. Vinham em minha direção, com Comprido agarrado ao costado — nem haviam se preocupado em diminuir a velocidade para puxá-lo para dentro. Eu não sabia se tinham me visto ou presumido que eu nadaria em direção ao navio de guerra. Estavam a quinze metros de distância e se aproximavam rápido.

Respirei fundo e mergulhei de novo, ouvindo a embarcação de salvamento se aproximar. A dois metros abaixo da superfície, batendo os pés e as mãos para me manter submerso, vi a esteira de espuma do barco, branca e fantasmagórica, acima de mim. Os piratas passaram bem por cima da minha cabeça, depois viraram e fizeram um círculo.

A embarcação parou e os piratas desligaram o motor. Eles estavam logo acima de mim. Devem ter me visto, pensei. Não é possível que tenham tanta sorte assim.

Lentamente, comecei a me deixar levar para a superfície e emergi perto da popa. Estiquei a mão e toquei o costado; em seguida, voltei a mergulhar fundo. Porém não havia para onde ir. Se eu tentasse me afastar, teria que voltar à superfície e eles me veriam de imediato. Nadei de volta e emergi perto da proa do bote dessa vez. Estiquei a mão até a borda e me agarrei a ela, esperando que os piratas não me notassem. Fiquei pendurado ali por trinta segundos, ouvindo-os correr e gritar. Eu estava encoberto pela sombra do bote. Para me verem, teriam que se debruçar sobre a borda e olhar para baixo.

A embarcação balançava com as ondas, e precisei fazer um grande esforço para me segurar e não acabar me soltando e boiando desgarrado. Os somalis ligaram o motor e começaram a fazer círculos lentos. Agarrei os canos de refrigeração do motor que ficavam debaixo da quilha e fiquei assim enquanto era arrastado.

Os piratas pararam e emergi do outro lado da proa. Ouvi o som de passos e imediatamente mergulhei, nadei por baixo do costado e apareci do outro lado. Após brincar de esconde-esconde no Maersk Alabama, com seus 150 metros de comprimento, agora eu voltava a fazer a mesma coisa embaixo de um barco de dez metros. Senti minhas chances de sucesso diminuírem.

Perdi toda a esperança que tinha de chegar ao navio de guerra. Eu não sabia se ele navegava em nossa direção a toda velocidade ou se estava parado, mas tinha certeza de que não chegaria até lá. Fui em frente, pelo lado de bombordo. Os piratas andavam no costado, gritando uns para os outros enquanto examinavam a superfície.

Ouvi passos vindo em minha direção e mergulhei para o outro lado da embarcação, passando uma mão e depois a outra pelo cano frio. Mergulhei, me puxei pelo cano e emergi à meia-nau a boreste. Ao subir, dei de cara com Comprido. Ele gritou.

Meu coração quase parou. Joguei-me na direção dele, agarrei-o pelo pescoço e tentei puxá-lo para dentro d’água. Ele segurava com as duas mãos a corda de segurança amarrada ao bote e não havia meio de fazê-lo soltar. Enfiei a cabeça dele na água e seu grito virou uma bolha de ar. O homem engasgou e emergiu, seus olhos e dentes brilhando na escuridão. Continuou gritando em somali, cuspe e água jorravam de sua boca. Eu tentava afogá-lo, mas ele segurava a corda de segurança com tanta força que não era possível jogá-lo na água. Eu não esperava que ele fosse tão forte. Ouvi passos se aproximando a boreste. Senti que os outros piratas corriam em nossa direção, os pés martelando contra a fibra de vidro.

Larguei o pescoço de Comprido e mergulhei outra vez. Os malditos sabiam que eu estava embaixo do barco. Será que vão atirar no costado?, pensei. Eles pareciam caubóis com aquelas armas, e eu não podia descartar essa possibilidade.

Eu era como um rato preso em um compartimento minúsculo. Não tinha para onde ir. Emergi do outro lado, mas vi uma sombra e ouvi vozes perto de mim. Inspirei e mergulhei de novo. Quando subi do outro lado, vi um pirata logo acima de mim com o AK-47 a menos de meio metro de distância da minha cabeça. Ele tremeu e disparou dois tiros — BUM, BUM — que penetraram na água logo acima da minha cabeça.

— Desisto! — gritei. — Eu me rendo. Eu me rendo.

Os piratas mantiveram a arma apontada para mim e gritaram:

— Vamos matar você! Vamos matar você! — Puxaram Comprido de volta pela escotilha e depois voltaram para me pegar. Ajudaram-me a subir a bordo enquanto me espancavam. Estavam tão furiosos que nem esperaram eu cair dentro da embarcação de salvamento para começar a me dar socos e coronhadas. Eu protegia a cabeça com os braços, e eles me atacavam com toda força.

Depois de um minuto de chutes e socos, me levaram até um canto e me amarraram a uma barra horizontal que sustentava a cobertura. Musso deu nós bem firmes. Fiquei de joelhos, e ele pegou minhas mãos, atou-as à barra e puxou meus braços até meus ombros estalarem. Depois, amarrou meus pés à base do assento à minha frente.

Em seguida, começaram a me espancar para valer.

Se eu tivesse sido capturado por uns caras parrudos, provavelmente ainda estaria fazendo cirurgia plástica, pois os somalis queriam me estraçalhar. Eles ficaram furiosos, e batiam com os pés no convés, cuspindo, enquanto me espancavam. Mas eram magros e não conseguiam empregar muita força nos golpes. Sinceramente, minha irmã Patty tem um soco mais potente. Senti que haviam machucado meu rosto e as costelas, mas sabia que era capaz de sobreviver àquilo. O que me preocupava mesmo era a arma. Jovem batia com a coronha no meu joelho e, todas as vezes que o fazia, apontava a arma para o meu peito. Ele está tentando bater em mim, pensei, mas em vez disso vai acabar me dando um tiro.

— Vamos matar você agora! Matar você! — Eram como abelhas furiosas.

Eles não esmoreciam. Um parava e começava a andar; depois se aproximava, me esbofeteava e me chutava de novo. Mas não havia espaço suficiente para os quatro baterem em mim. Então, eles se revezavam.

Acabaram se cansando. Todos ofegantes, assim como eu. E eu estava de volta àquele forno. O calor doía quase tanto quanto os golpes.

— Minhas mãos estão ficando dormentes — gritei para eles. — Vocês têm que afrouxar os nós.

Achei que a corda fosse acabar decepando minhas mãos. A dor era excruciante, como aquela sensação familiar de formigamento multiplicada por mil.

Musso se aproximou, desamarrou os nós e voltou a amarrá-los, dessa vez mais frouxos.

Pararam de bater em mim.

O Líder gritou para seus homens em somali, mas entendi o que ele dizia por causa dos gestos:

— Dois caras precisam ficar vigiando ele o tempo todo. E um precisa ficar ao lado da porta. O tempo todo.

A partir desse momento, havia sempre armas apontadas para o meu peito a não mais que um metro de distância.

Foi o fim de qualquer tipo de camaradagem. Eu acabara com aquele clima de alegria geral. A máscara caíra. Eles ficaram chocados com minha tentativa de fuga. Eu não seguira as regras do jogo e tenho certeza de que achavam que eu os colocara em risco ao tentar escapar.

A atitude deles mudou completamente a partir daquele instante. Até então, eu era um refém, mas também um ser humano. Contava piadas para Musso e Comprido e tinha até brincado com Jovem. Agora isso acabara. Eles olhavam para mim como se eu fosse um animal, uma coisa.

Enquanto tentava normalizar a respiração, pensei: Ou eu saio vivo ou eles saem. Não há jeito de todos sairmos com vida deste barco.

 

___

 

Faltavam poucas horas para o amanhecer de sexta-feira. Sentia como se a tentativa de fuga tivesse durado meia hora, mas estou certo de que foram uns cinco minutos, se tanto. Pensei:

Talvez eu realmente esteja aqui sozinho . Se a marinha estivesse ali para me resgatar, se houvesse atiradores de elite deitados na popa esperando por uma chance, eles teriam furado

aqueles desgraçados.

Por que não fizeram nada?, pensei. Não podiam ter deixado de me ver. Não podiam ter deixado de ver o que acontecera. Mas ninguém no navio esboçara qualquer reação.

Talvez estejam aqui para observar. Devem ter ordens de não atirar . Tentei imaginar quais seriam as implicações da morte de alguns piratas somalis no cenário político mundial, mas meu cérebro estava atordoado demais por causa do cansaço. Mais tarde, descobri que a tripulação do USS Bainbridge vira todo o incidente se desenrolar, mas achara que os piratas estavam apenas nadando. Quando notaram minha barba branca e perceberam que eu conseguira fugir, era tarde demais para fazer qualquer coisa.

Todos estavam exaustos. Eu ficava amarrado igual a um porco assado, e os piratas permaneciam deitados, com as armas apontadas para mim. O Líder realmente os assustara. Não podia me mover nem um centímetro sem que um deles levantasse a cabeça e apontasse uma lanterna em minha direção para ver o que eu fazia.

Jovem fora um simples elemento secundário até aquele momento. Não estava no comando de nada. Seguia ordens. Ele veio na minha direção e se sentou do outro lado do corredor. Eu estava no assento número três a bombordo, e ele no número três a boreste. Vi quando se sentou e depois desviei o olhar.

Clique.

Olhei para ele. O AK estava em seu colo, e ele me olhava.

Clique.

Ele apontava a arma para mim. Acho que estava sem o pente. Ainda assim, ouvir uma arma ser disparada quando ela está apontada para a sua barriga deixa qualquer um nervoso. Estremeci nas primeiras vezes.

Jovem me olhava como se eu fosse um rato de laboratório — me estudava com olhos frios. Sem vida. Nunca vira olhos como aqueles antes. Era um garoto que não tinha noção do que estava fazendo, que não fazia a menor ideia do que significam a vida e a morte. Ele não teria agido assim antes da tentativa de fuga, mas agora era como se tivesse permissão para me tratar como lixo. Algo mudara dentro dele. E dentro de mim também.

Sou fã fervoroso de John Wayne e me lembrei de uma fala dele em um filme, Rastros de ódio. Um caubói se desculpa por matar um bandido. E John Wayne diz algo como: “Está tudo bem. Alguns homens precisam matar.”

Eu nunca encontrara um homem que precisasse matar. Mas, naquele momento, Jovem precisava. Ele era como um assassino brincando com sua vítima antes de acabar com o sofrimento dela. Estava se divertindo como nunca.

Agiu daquele jeito por uns vinte minutos. Tentei ignorá-lo, mas de vez em quando olhava para ele. E ele adorava aquilo. Porém não havia qualquer emoção em seus olhos. Estava apenas me atormentando, esperando uma reação, querendo ver bem de perto o terror que provocava.

 

___

 

O sol nasceu; o forno estava aceso mais uma vez. Os piratas falavam com o intérprete pelo

rádio, e ouvi outra lancha se aproximar.

Maravilha, pensei. Mais tortinhas. E eram. Tortinhas, baterias de rádio novas e água. Mal podia acreditar.

Olhei por uma das escotilhas e vi que o Maersk Alabama não estava no mesmo lugar do dia anterior. Se antes seguia duas ou três milhas da popa do navio da marinha, agora desaparecera. Enquanto virávamos, vasculhei o horizonte e percebi que haviam partido. Fiquei muito aliviado ao constatar que minha equipe estava a caminho da segurança.

Depois descobri que Shane insistira em não me deixar para trás. Disse que preferia fazer qualquer coisa a ir embora sem minha presença a bordo. Mas a marinha insistiu, uma vez que havia mais piratas na área e eles não queriam ter que cuidar de outra situação envolvendo reféns. Dezoito militares armados embarcaram no Maersk Alabama, e o navio partiu rumo a seu destino original, Mombaça.

O Líder ficou na cabine, tossindo e cuspindo de vez em quando, como um velho com tuberculose. Os piratas fumavam um cigarro atrás do outro. Estavam muito agitados. Os bons tempos eram, definitivamente, passado.

— Esses cigarros vão matar vocês — falei.

Não responderam à minha brincadeira. Jovem apenas me encarou com aqueles olhos sem vida.

— Fumar faz mal à saúde.

Nada.

Em seguida, o isqueiro que usavam quebrou. O fluido acabara, ou quebrara pelo excesso de uso, mas a coisa não acendia. Isso me pareceu muito engraçado por causa do pânico que vi nos olhos deles.

— Qual é o problema? — perguntei. — Não conseguem acender? Ah, mas que pena...

Eu ainda estava amarrado e as cordas provocavam dores terríveis. Não me deixavam mais urinar no mar. Recebi uma garrafa para isso. E racionaram minha água, apesar de termos muitos litros de reserva. Às vezes me davam uma garrafa d’água, outras, não.

Para resumir, se esforçavam ao máximo para me fazer penar. Então, vê-los sofrer, nem que fosse só um pouquinho, era um bônus.

— Talvez seja a hora de distribuir o khat — sugeri. Khat é uma erva narcótica mascada por todo mundo na Somália. Mas ela precisa ser mastigada logo depois de colhida. Portanto, acho que não era uma boa sugestão usar essa planta durante sequestros que podem demorar algum tempo.

Os somalis estavam enlouquecidos. Vasculharam tudo em busca de um isqueiro, mas não encontraram nenhum. Eu não disse nada sobre os fósforos reserva que fazem parte do equipamento de sobrevivência de todas as embarcações de salvamento. Finalmente, desmontaram a lanterna e removeram o cone refletor.

— Ah, ideia genial! — ironizei.

Tudo que acontecia no bote passara a ser de grande interesse para mim. Se tivesse deixado minha mente se concentrar no calor e na passagem do tempo, eu teria enlouquecido. Então a busca pelo fogo virou uma distração. Aqueles caras estavam com síndrome de abstinência e, se não conseguissem nicotina, morreriam tentando.

Eles posicionaram o cone sob a luz do sol e colocaram um pouco de papel no fundo, conversando em somali e em inglês.

— Mexe para cá. Inclina, inclina.

Eles olhavam atentamente o papel, torcendo para que acendesse.

— Precisa acender, ah se precisa.

Eu ria, mas também me inclinava para a frente a fim de ver o que acontecia.

— Não está dando certo — afirmei após dez minutos. — Ah, mas que peninha.

Mas eles estavam empenhados. Observavam o papel no fundo do cone como se o segredo da vida estivesse prestes a ser revelado. Após vinte minutos, surgiu um pouco de fumaça. Musso e Comprido quase se mijaram de felicidade.

— Conseguimos! Conseguimos! — gritaram.

O papel pegou fogo, e os dois piratas acenderam seus cigarros. Depois disso, eles acendiam o cigarro seguinte com o anterior e mantiveram uma fonte constante de fogo no barco.

Contudo esse foi o único momento de empolgação. Todos pareceram se retrair, até eu. Refleti sobre a fuga: Será que eu deveria ter agarrado a arma? Será que eu deveria ter continuado a nadar? E meus outros erros voltaram para me atormentar: Devia ter feito esses desgraçados despencarem dez metros quando estávamos arriando o bote de resgate. Ou: Nunca deveria ter passado para a embarcação de salvamento. E o mais estranho: Onde eles conseguiram aquela escada branca? Aquilo tudo ainda me deixava perplexo.

Mas o que realmente doeu foi a tentativa de fuga fracassada. Eu tinha certeza de que não teria outra oportunidade.

Um dos piratas se aproximou e apalpou minhas mãos. Elas estavam cada vez mais inchadas e doloridas por causa dos nós apertados. Beliscavam meus dedos para ver se eu reagia, mas eu mal os sentia.

— Ah, isso é bom, isso é bom — diziam.

Talvez quisessem me incapacitar, ou só causar dor. Não sei. Comecei a divagar. Mexia as mãos o tempo inteiro para tentar afrouxar a corda. Até me dobrei, aproximei as mãos da boca e tentei roê-la. Mas era mercadoria de boa qualidade. Demoraria uma semana para conseguir rompê-la.

Musso descobriu que eu estava tentando roer a corda.

— Não, você não pode fazer isso — ordenou ele, levantando-se e correndo para perto de mim. — Isso é halal. Você não pode colocar a boca aí.

Halal. Eles começaram a usar essa palavra. Deduzi que aquilo significava limpo, de acordo com a religião deles.

— Se continuar mordendo a corda, vamos botar um pedaço de pau na sua boca para você parar — ameaçou. Ele estava com raiva e também enojado.

— Tudo bem, vou parar de morder.

— Pare de se mexer também.

— Não vou parar de me mexer! — gritei para ele. Mal podia me contorcer do jeito que estava. Queriam que eu ficasse deitado como um cadáver.

— Não se mexa!

— O que você vai fazer? — perguntei. — Me amarrar?

Musso me mandou calar a boca.

 

___

 

A doze mil quilômetros dali, enquanto eu discutia com os piratas, Andrea recebia ligações de

todas as pessoas que conhecera na vida. Até um sujeito que namorara antes de nos conhecermos, quando tinha vinte e poucos anos, telefonou para ela.

— Ele foi a primeira pessoa que realmente partiu meu coração — Andrea me contou. — Não nos falávamos desde aquela época, havia mais de trinta anos. Quando a pessoa que filtrava minhas ligações telefônicas disse o nome dele, respondi: “Eu atendo.”

Andrea pegou o telefone.

— Então, você liga assim que parece que fiquei solteira... — queixou-se.

— Vi você na televisão — disse o ex-namorado, rindo. — Não pude deixar de ligar. Estou vendo que você não perdeu o senso de humor.

“Ele falou que eu estava bonita, o que foi um pouco surreal”, Andrea lembrou. “Ele só queria que eu soubesse que estava torcendo por mim e por minha família. Eu sabia que ele precisara de muita coragem para ligar depois de tanto tempo.”

O apoio às vezes chegava a ser opressivo. Algumas pessoas entravam em nossa casa, histéricas, chorando e dizendo: “Meu Deus, Andrea!” E ela retrucava: “Vai dar tudo certo.” As pessoas ficavam perplexas, claro. Diziam: “Você não deveria me consolar. Eu é que deveria consolar você!”

Na tarde de sexta-feira, nossa casa estava cheia. Minhas irmãs apareceram para acrescentar um toque especial. Os Phillips são uma turma da pesada com um senso de humor singular, que nem todos entendem, inclusive Andrea, às vezes. Um exemplo: um dia, minhas irmãs faziam piadas sobre a possibilidade de Hollywood fazer um filme sobre o sequestro e começaram a escolher os membros do elenco: “Hum... talvez George Clooney para o papel principal.” E aí minha irmã Dawn, por alguma razão conhecida apenas por ela, pegou uma fotografia emoldurada, tirada para a formatura dela no colégio, e a colocou no travesseiro de Andrea na nossa cama. Quando Andrea chegou ao quarto e viu a fotografia lá, não se conteve:

— Dawn, mas que diabos...

— Não é hilário?

— O que é hilário?

— Meu par, ele parece com Richard quando tinha aquela idade.

Era verdade. O cara tinha a barba e tudo. Mas o que a fotografia fazia no travesseiro de Andrea?

— Todos disseram que fui ao baile com meu irmão! — disse Dawn, quase chorando de tanto rir. — Ah, eu não podia deixar de trazer este retrato.

Duas amigas de Andrea, Amber e Paige, que se dispuseram a encurtar uma excursão para o Colorado para praticar snowboard, também estavam na nossa casa. Elas sabiam que minha mulher não poderia ser tratada como porcelana delicada. Andrea me contou que, em determinado momento, estava sentada à mesa da sala de jantar, perto da cozinha, e suas amigas trocavam coisas de lugar. Paige e Amber haviam assumido o papel de tomar conta da casa e sabiam que Andrea odiava perder o controle da cozinha. Paige olhou para Andrea e perguntou:

— Você detesta isso, não é?

— O quê?

— Nós na sua cozinha.

Elas estavam reorganizando as coisas só para irritá-la. Era justamente daquilo que Andrea precisava. Tratá-la como se o marido fosse morrer a qualquer minuto não iria ajudar. O humor, sim.

Na sexta-feira, Andrea finalmente recebeu ajuda profissional. A Maersk enviou dois representantes, Jonathan e Alison, para lidar com a mídia. Aquilo a salvou. Mas ela foi um pouco sarcástica quando Jonathan entrou na casa. Andrea olhou para ele e disse, brincando só até certo ponto:

— Vocês já não recuperaram o navio? Por que estão se importando com meu marido? — Ele deve ter pensado: “Ih, vai começar.” Mas Andrea estava sofrendo.

Nem Jonathan nem Alison tinham ideia da situação com a qual deparariam antes de chegarem lá, se a casa estaria cheia de caipiras de Vermont irados ou de pessoas histéricas. Ficaram surpresos com a atmosfera simpática e afetuosa que encontraram. Jonathan era um sujeito calmo e sensato, e Alison virou a nova melhor amiga da minha mulher. Logo se tornou parte do clã e passou a se identificar com a situação que Andrea enfrentava. Mas o que também ajudou foi que os dois viam as coisas como elas eram.

— Vamos fazer o seguinte: primeiro, desligar a TV. Em seguida, vamos montar um painel e escrever nele todas as informações que pudermos confirmar. E mandaremos alguém tomar conta do telefone para deixar Andrea atender as chamadas apenas quando realmente for necessário.

Alison sempre tinha à mão um bloco e escrevia nele como a equipe lidaria com cada problema que surgisse.

Do ponto de vista emocional, era difícil resistir ao impulso de assistir aos noticiários o tempo todo. Repetiam sempre a mesma notícia, sem parar, e não o desfecho pelo qual Andrea ansiava. Ela via minha fotografia na tela e a dor por aquela situação cortava seu coração. Então Alison desligou a TV e, a partir daquele momento, a família recebia informações somente através do Departamento de Estado, do Departamento de Defesa e da Maersk, o que tirou Andrea da montanha-russa emocional que era esperar o próximo boletim de notícias na tela. E havia pessoas filtrando as ligações. Ela ouvia o nome de alguém e dizia “Ah, essa eu atendo” ou “Não posso neste momento”.

Porém algo inexplicável aconteceu. Meu oftalmologista telefonou para Andrea e disse: “Ouvi dizer que Rich pulou do barco. Tenho certeza de que ele perdeu os óculos quando fez isso. Fiz um novo par e mandei entregar aí.” Além disso, com tantas pessoas indo e vindo, o vaso sanitário entupiu. Por fim, meu vizinho Mike teve que desmontá-lo todo para desentupi-lo. Ele descobriu que o bloqueio tinha sido causado por um par de óculos. Minha irmã Nancy, que estava na casa, disse: “Meu Deus, provavelmente são do Richard!” Todos riram. Poucas horas antes, eu pulara da embarcação de salvamento e perdera os óculos. Era como se eles tivessem dado meia volta ao mundo e acabado em nosso encanamento.

Andrea conseguiu me enviar uma mensagem através do Departamento de Estado: “Toda a nossa turma está torcendo. Amamos você.” Turma é o apelido que demos para nossos amigos e família. Andrea sabia que isso me faria sorrir.