Dever de Capitão
Oito: Dia 1, hora 0600
Dia 1, hora 0600
De pois que capturamos um navio, só te mos a ganhar. Atacamos vários todos os dias, mas poucos são lucrativos. Ningué m vai re sgatar o navio de uma nação do Te rce iro Mundo com uma tripulação indiana ou africana, e ntão nós o libe rtamos ime diatame nte . Mas se o navio é de um país ocide ntal... Aí é como ganhar na lote ria.
Pirata somali, Wired.com,
28 de julho de 2009
Na marinha mercante, temos uma expressão: “dormir rápido”. Os marinheiros conseguem adormecer em dez segundos e estar prontos para trabalhar em duas horas. Você precisa
aprender a fazer isso para sobreviver.
Dormi como uma pedra e acordei às seis horas da manhã seguinte quando o sol apareceu pela fresta embaixo da bainha das cortinas. Era 8 de abril, quarta-feira. Sobrevivêramos por mais um dia.
Tomei uma chuveirada com a água bombeada dos tanques do navio. Sequei-me, vesti-me e examinei o boletim meteorológico. Ensolarado de novo. Clima perfeito para navegação. Verifiquei as mensagens que haviam entrado — mais conversas sobre piratas. Conta uma novidade, pensei.
Subi até o passadiço. O sol parecia um atiçador incandescente queimando o meu rosto. Peguei uma xícara de café e juntei-me a Shane, que estava de serviço naquele turno. Começamos logo a planejar o que precisávamos fazer naquele dia. Estávamos nos preparando para chegar a Mombaça, e nossa estada lá seria muito atarefada. Com ou sem piratas, tínhamos carga para desembarcar, mantimentos para carregar e um milhão de outras tarefas que a tripulação de um navio mercante tem que realizar ao se aproximar de um porto: lavar roupas, fazer pagamentos, contratar novos tripulantes. Além disso, existem imprevistos que sempre acabam acontecendo: um fiscal do governo decide inspecionar o navio (quer dizer, até você pagar uma propina) ou um passageiro clandestino sobe por uma espia.
Eu estava lidando com essas tarefas rotineiras quando ATM, o marinheiro de ascendência paquistanesa, nos interrompeu.
— Barco se aproximando, 3,1 milhas, pela popa.
Shane e eu nos viramos para olhar. Era uma pequena lancha que se aproximava de nós a pelo menos vinte nós. Parecia um daqueles barcos que haviam nos perseguido na véspera, com uns vinte metros de comprimento e um motor de popa poderoso. Eu conseguia ver sua esteira branca sobre a água azul-turquesa. Com o nevoeiro, a visibilidade ficara limitada a quatro milhas, então ATM não demorara muito para notar sua presença.
Olhei para a água. O vento diminuíra desde o dia anterior, e o mar estava calmo. Não daríamos sorte agora. Estávamos apostando corrida com uma embarcação muito mais rápida, e as ondas não iam segurá-los.
— Imediato, descubra onde o contramestre colocou o pessoal dele.
A maior parte da tripulação estaria na cama, ou acordando e começando suas rotinas matinais. Mas eu sabia que o contramestre estava em alguma parte do navio, trabalhando com uma equipe, e queria ter certeza de onde estava cada tripulante.
— Ele está na proa — respondeu Shane.
— Verifique se ele sabe o que está acontecendo, caso ele tenha que mandar o pessoal para dentro — ordenei.
— Entendido.
— Rumo? — perguntei.
— Dois três zero.
— Governar em um oito zero.
— Um oito zero.
O timoneiro girou o timão, e eu espiei pelas janelas. A lancha veloz estava a 2,5 milhas de distância. Ela acompanhou nosso novo rumo.
Não havia dúvida. Aqueles caras não estavam lá para pescar atum. Eles estavam atrás de nós.
— Ligue para a UKMTO imediatamente — ordenei.
Eu não tinha tempo para lidar com os britânicos. Shane fez a ligação.
Eu o ouvi responder a uma saraivada de perguntas: quantas pessoas estão no barco? Quantas armas eles têm? Qual é a cor do barco? Qual é a cor do interior do barco?
Finalmente, ele desligou.
— O que eles falaram?
— Para ligar de novo quando estiverem a menos de uma milha de distância.
Não havia tempo para perguntar sobre a razão daquilo. Peguei um rádio portátil — ele ficaria na minha mão durante as próximas horas — e conferi o radar.
— Onde está o maldito navio-mãe?
Estávamos a mais de trezentas milhas da costa da Somália. Não havia a menor chance de esses sujeitos terem chegado até ali sozinhos. Tinha que haver uma traineira, e um líder dando ordens. Mas eu não conseguia vê-la, e nada aparecia no radar. Pensei: E se esses caras estiverem nos empurrando na direção do navio-mãe?
Shane havia ido até o armário de pirotécnicos e retirado dezoito sinais luminosos assim que os somalis foram avistados. Ele começou a distribuí-los antes de ir ao convés principal para ficar de olho na tripulação.
— Estou descendo para aprontar tudo, vou mandar o segundo oficial de náutica subir — disse ele antes de sair correndo do passadiço.
Eu sabia que o chefe estava acordado. Mike se levantava cedo e, naquele momento, estaria em sua cama lendo a Bíblia. Liguei para seu camarote e ele atendeu.
— Estamos sob ataque de piratas, preciso que você vá para a praça de máquinas — falei e desliguei o telefone.
Eu precisava dos olhos dele no painel de controle enquanto aumentávamos a velocidade.
O barco estava a duas milhas de distância. Navegávamos a 16,8 nós e eles, a 21. Eles estavam chegando mais perto.
Quando estavam a uma milha, falei para Colin:
— Toque o alarme de intrusos.
Ele tocou o apito do navio, comprido e curto, comprido e curto, comprido e curto. Depois, correu até a antepara e tocou o alarme geral, na mesma sequência. Isso era um aviso para que todos os homens no navio fossem imediatamente ao seu local designado de concentração em casos de emergência. Olhei e vi os jatos d’água das mangueiras antipirata. Com cem libras de pressão por polegada quadrada, aquele jato podia derrubar uma pessoa. Chamei pelo rádio:
— Mude para o canal 1.
Era nossa faixa de emergência.
Colin começou a emitir uma série de ordens.
— Liguem a bomba de incêndio, acendam as luzes, digam para o contramestre trazer o pessoal dele para cá.
Apontei para o armário de pirotécnicos.
— Prepare-se para disparar esses sinais luminosos — falei para Colin. — Quando os piratas estiverem a menos de uma milha de distância, dispare. Mire diretamente neles.
Ele assentiu.
Eram sete da manhã, e ATM, Colin e eu estávamos no passadiço. A tripulação se reuniu no local seguro. Os maquinistas estavam trancados na praça de máquinas. O primeiro e terceiro oficiais de máquinas se encaminharam até o compartimento da máquina do leme. O chefe já estava na praça de máquinas. Lá, ele poderia desligar os motores caso necessário, e o primeiro oficial de máquinas assumiria o governo do navio se o passadiço fosse invadido. Eles poderiam assumir o controle de todos os sistemas de bordo, uma maneira de contornar o passadiço.
Naquele momento, eu conseguia ver o torso dos homens que estavam de pé na embarcação pirata. Eles estavam inclinados para a frente, balançando por causa das batidas da lancha na água.
— Ligue de novo para a UKMTO — ordenei a Colin. — Diga que a ameaça é real. E não encerre a ligação, para que eles possam acompanhar o que está acontecendo. Entendido?
— Feito — respondeu ele.
Colin fez a ligação, depois pegou meia dúzia de sinais luminosos e foi para a asa do passadiço a boreste.
Corri para o SSAS, o sistema de alerta de segurança, e o apertei. Isso alertaria o centro de salvamento a respeito de nosso sequestro. Colin também apertou o SSAS.
De repente, ouvi disparos de armas automáticas. Vi os clarões dos tiros do barco pirata. Eles estavam atirando no navio a menos de quinhentos metros de distância. Ouvi o barulho das balas atingindo o metal da superestrutura e ricocheteando na chaminé.
Mandei ATM se sentar no convés junto ao timão e governar o navio de acordo com as minhas ordens.
— Entre, Colin! — gritei.
Ele estava na asa do passadiço, escondido atrás do armário de pirotécnicos.
— Já, já! — respondeu. — Assim que eles pararem de atirar.
Estamos perdidos, pensei. Foi tudo muito rápido. Mas onde está o maldito navio-mãe? Se a embarcação maior conseguisse emparelhar, eles poderiam colocar 25 homens armados a bordo. Fim de jogo.
Eu queria que meus tripulantes continuassem sentados no passadiço. Os piratas estavam atirando de baixo para cima, a um determinado ângulo. O único jeito de ser atingido por uma bala ricocheteada seria ficar de pé. Quando houve um intervalo nos tiros, Colin correu para dentro do passadiço.
— Quinhentos metros — falei pelo rádio portátil. — Tiros disparados, tiros disparados.
As balas faziam um barulho enorme quando ricocheteavam em partes diferentes da superestrutura, spati, iuum, pati. Olhei para a lancha pirata. Eles estavam a cerca de cinquenta metros de distância. De repente, aceleraram e fizeram uma curva para se aproximarem por bombordo. Ainda atiravam, com armas semiautomáticas e automáticas. O AK-47 faz um som característico, um ta-ta-ta-ta rápido e grave. Eu nunca ouvira um desses em ação, exceto na televisão. As balas ricocheteavam pelo navio uma fração de segundo depois de o AK-47 dispará-las.
Eu precisava agir. Peguei alguns sinais luminosos, corri para a asa a bombordo e comecei a atirar no barco pirata. Via que eles se aproximavam de nosso costado, na altura do guindaste número dois. Balas voavam para todos os lados, mas a pontaria dos somalis estava melhorando — o passadiço recebia rajadas de tiros que traçavam uma série de buracos pela asa onde eu me encontrava, ping, ping, ping. Abaixei-me e voltei a me levantar na mesma hora, ao ver um somali sentado de pernas cruzadas no barco atirar em minha direção. Eu via o rosto dele concentrado em mim.
Comecei a me levantar rapidamente, disparar um sinal luminoso e depois me abaixar atrás do quebra-vento, uma cobertura de metal que desvia o vento para passar por cima do passadiço. Eu parecia um boneco preso numa mola, aparecendo para disparar e então me escondendo. Esses sinais luminosos eram nossa única esperança naquele momento — lançar um rojão no barco, atingir um galão de gasolina... Um tiro muito difícil de acertar, mas era a melhor maneira de desviar os tiros para longe dos tripulantes no passadiço.
Esgotados os sinais luminosos, corri de volta ao passadiço.
— Quinze graus de leme a bombordo — ordenei a ATM, que governava o timão.
Olhei para o GPS e vi que estávamos a 18,3 nós. Eu colocara o navio naquilo que denominamos “manobra de zigue-zague”, que dificulta a aproximação de outros barcos. O convés do Maersk Alabama fica a apenas seis metros acima da superfície do mar. Os piratas só precisavam emparelhar a lancha, arremessar um cabo com ganchos em nosso convés e subir.
— Agora, quinze graus de leme a boreste! — gritei.
Não é bom virar bruscamente demais, perde-se velocidade. Você balança para um lado e depois para o outro.
Olhei para a água e não consegui acreditar. Os piratas estavam levantando uma linda escada branca no ar. Pensei: “Onde diabos eles conseguiram essa coisa?” Era uma escada de piscina com degraus e um gancho na ponta e parecia algo saído de uma loja de materiais de construção. Em geral, os somalis usam croques, postes ou cabos, mas aquele engenho maldito parecia ter sido projetado sob encomenda para tomar o nosso navio. A escada tinha duas peças verticais que se conectavam perfeitamente à nossa placa de junção, uma peça de metal sólido que se projeta quinze centímetros acima do convés.
Vi os ganchos se prenderem ao navio. Em cinco segundos, uma cabeça apareceu por cima da amurada, seguida por um corpo que logo saltou para o convés. Ele estava entre o guindaste número dois e a popa e a cerca de vinte metros de distância de mim. Era o cara que eu viria a conhecer como o Líder.
Que droga. Eles estão a bordo.
— Um pirata a bordo — falei pelo rádio. — Fomos invadidos.
O somali não estava armado. Inclinei-me e vi que ele puxava um balde branco atado a um cabo amarelo. Ali estava a arma. E logo atrás do balde vinha um segundo pirata.
— Um pirata a bordo, outro subindo — comuniquei pelo rádio.
Estávamos perigosamente perto do desastre. Os piratas tinham armas; nós, não. Contra eles, tínhamos apenas nossos cérebros e nossa força de vontade. A maioria das pessoas optaria pelas armas nessa disputa, mas tínhamos que usar o que estava à nossa disposição.
Corri para a asa do passadiço com mais sinais luminosos na mão. O somali no convés virou-se e levantou a mão, e ouvi pou, pou, pou. Ele empunhava uma arma e estava atirando. Disparei um sinal luminoso que ricocheteou no convés e foi para a água. Agachei-me justo quando o cara disparou uma rajada e BAMMMMM, uma bala atingiu o quebra-vento diante do meu rosto. Olhei e vi o amassado no metal.
— Ai, merda! — xinguei.
Se a bala tivesse atravessado o metal, teria atingido meu rosto em cheio.
Levantei-me. O primeiro pirata desaparecera. Ele deve estar escondido atrás dos contêineres no convés, pensei. Eu sabia que seu alvo mais importante era o passadiço, mas ele levaria um tempo para alcançá-lo.
O segundo pirata atingiu o topo da escada e pulou para o convés.
— Dois piratas a bordo — transmiti pelo rádio.
Eu tinha que decidir: abandonar o passadiço naquele momento, trancar tudo, recuar para o local seguro e esperar tudo passar. Ou continuar no passadiço e rezar para que os piratas não conseguissem passar pelas barreiras antipirataria e subir sete níveis.
Eu não queria abrir mão do controle do meu navio. Nem pensar. Ninguém vai botar a mão no meu passadiço, pensei. O passadiço tem algo de especial para o comandante: ele simboliza seu controle sobre o navio. É como a cabine de um 747 para um piloto. Essa geringonça está sob seus cuidados. Você não quer entregar aquilo a menos que seja estritamente necessário.
Acho que esse foi meu primeiro erro. Eu devia ter começado a recuar naquele momento, mas achei que ainda havia tempo. Queria manter o controle pelo máximo de tempo possível. Foi arrogância minha. Venham tentar tirar isso de mim. Disparei alguns sinais luminosos na direção do segundo cara. Reparei que os piratas eram muito magros e vestiam camisetas sujas, bermudas e chinelos. O segundo cara imediatamente se sentou de pernas cruzadas no convés e começou a atirar na minha direção com seu AK-47.
Ouvi três disparos vindo de baixo que pareciam ser de fuzil. Depois percebi que era o som do primeiro pirata atirando nos cadeados das correntes que prendiam a escada exterior. Mas eu ainda achava que ele estava no convés, atrás dos contêineres, esperando pelos outros. O tempo estava a favor dos piratas. Eles sabiam que não estávamos armados. Não havia nada que os impedisse, além das barreiras antipirataria. Se passassem por elas, viraríamos reféns. Mas, até o momento em que o Líder começou a se deslocar na direção da popa, eu ainda me sentia seguro ali em cima.
Corri de volta ao passadiço, pronto para trancar as entradas e começar a recuar para as profundezas do navio. ATM continuava agachado no convés, olhando preocupado para mim e esperando a próxima ordem enquanto Colin andava de um lado para o outro do passadiço. Abri a boca para falar quando pensei ter visto uma sombra pelo canto do olho. Virei-me. Era o primeiro pirata, que estava diante da porta do passadiço e apontava um AK-47 desgastado na minha direção, atrás do vidro.