Dever de Capitão
Dezessete: Dia 5, hora 0300
Dia 5, hora 0300
Até o mome nto a maior parte dos se que stros na re gião do Chifre da África te rminou com a libe rtação dos re fé ns, ge ralme nte ile sos, e com o pagame nto de re sgate . No e ntanto, onte m um de sse s impasse s te ve um de sfe cho fatal. Re fé ns france se s foram libe rtados de pois de quase uma se mana e m pode r de piratas. Quatro adultos e uma criança foram mantidos e m se u iate até a e mbarcação se r re tomada no golfo de Áde n, no sábado. Um dos re fé ns e dois piratas morre ram durante a ope ração de re sgate ; trê s piratas foram capturados. Os militare s france se s optaram pe la ação de pois que os piratas re cusaram várias ofe rtas, inclusive a troca de um oficial pe la mãe e a criança a bordo. Não ficou claro se o re fé m morto foi atingido pe lo fogo cruzado ou e xe cutado pe los piratas.
CNN, 11 de abril
Quando acordei na manhã de domingo, o ambiente estava escuro, sombrio. Combinava com
meu estado de espírito.
— Ei, Phillips! — disse o Líder. — Tenho um novo trabalho agora. Vou até um rebocador azul paquistanês para checar a pedido da marinha se não são da al-Qaeda.
Só emiti um grunhido em resposta.
— Vou ajudar, contar a eles onde podem conseguir comida e combustível.
A marinha chamou no rádio de novo. Era óbvio que queriam uma prova de vida. Eu os vi lá fora, pela escotilha de popa, flutuando num Zodiac a cerca de cinco metros de distância e me espiando. Acenei para eles. Os piratas estavam agrupados perto da porta, meio que protegidos pelo costado, as armas apontadas para fora, na direção dos militares da marinha.
Os paramédicos da marinha deram uma rápida olhada em mim, me perguntaram se eu estava bem e falei que sim — isso foi tudo. Nenhuma jogada ao estilo James Bond, já que havia três piratas paranoicos e muito tensos menos de um metro atrás de mim. “Então aí está o nosso contingente da al-Qaeda”, disse um dos caras da marinha, quase brincando com os piratas. Os somalis faziam a cara mais feroz possível, realmente interpretando seu papel. Era muito clara a sensação de familiaridade entre eles. Eu tinha vontade de gritar: “Vocês conhecem esses caras?” Mas o Zodiac apenas passou para lá e para cá algumas vezes e se afastou.
O Líder abandonou o bote. Não pude ver para onde ele foi, ou como foi, mas o homem alegou estar indo checar o rebocador azul paquistanês.
Jovem aproveitou a oportunidade para conversar.
— Quando chegarmos à Somália, você vai querer ir ao cinema comigo?
— Ah, claro — respondi.
— Vou sair com a minha garota — disse Jovem. Ergui os olhos para ele. O sujeito mal abrira a boca antes, então aquilo era uma novidade.
— Você tem um encontro?
— É, um encontro. Com a minha garota. E a mãe dela vai estar lá. Você pode ir com a mãe dela.
Ergui as sobrancelhas.
— Vou com a minha namorada e você pode sair com a mãe — repetiu o rapaz. — Iremos ao cinema. — Ele se inclinou na minha direção. — E depois para um hotel.
Eu ri.
Fiquei pensando. Onde estamos? Perto da terra, atracados num pequeno ancoradouro da marinha? Para mim era estranho que houvesse três navios da marinha e toda essa atividade que os piratas descreviam — rebocadores e outras embarcações. Isso não existiria a trezentas milhas do litoral. Eu estava desorientado. Nada do que acontecia à minha volta fazia sentido.
De repente vi um bando de golfinhos através da escotilha da popa. Devia haver cem deles. Ergui a cabeça e tentei acompanhar seu trajeto pela água, mas eles desapareceram. Um minuto depois reapareceram bem em frente à escotilha da popa. Vinham à superfície e deslizavam pela água, borrifando jatos d’água pela abertura em suas costas.
Ver um bando de golfinhos nadando juntos levantou meu estado de espírito. Talvez esse viesse a ser um bom dia, pensei.
Mas os somalis não estavam dispostos a me deixar em paz. De novo aquela obsessão com os nós. Faziam um nó e me mandavam desatar. Se eu tocasse na corda errada, me davam uma pancada na cabeça e faziam um segundo nó. E então, se não fizesse as coisas exatamente como deveria, davam um terceiro nó. Logo havia seis nós para eu tentar desfazer.
Até Jovem pareceu cansado daquele jogo.
— De que adianta isso? — gritou ele para Musso e Comprido. Eles logo o cercaram.
— Qual o problema? Quer ser um marinheiro americano? Hein? Somos somalis, marinheiros 24 horas por dia, sete dias por semana!
A tensão aumentava. Os somalis discutiam frequentemente entre si; Jovem contra os outros dois. Por volta do meio-dia, a marinha enviou mais comida, mas isso não aliviou a tensão.
O Líder estava fora da embarcação havia uma hora. Ele está cobrindo o dele, pensei. Percebeu que alguma coisa está para acontecer e armou para os outros . Depois eu soube que ele fora discutir o resgate e as condições de um acordo com a marinha, mas não acredito nisso. Acho que o Líder saiu porque viu a merda que estava se formando para o lado deles.
Enquanto isso, os outros três piratas continuavam com suas aulas sobre como dar nós somalis, mas eu também já não aguentava mais aquilo.
— Chega — falei. — Para mim já deu.
Eram três da manhã. Naquele momento, não me importava mais se me matassem ou não: não daria mais outro nó nem aceitaria outra ordem.
De repente me senti fraco. Toda a energia pareceu escoar do meu corpo. Deixei o peso me puxar para o assento e as coisas ficaram como que embotadas. Eu não conseguia me concentrar em nada; era como se minha mente tivesse desistido de funcionar. Sentia vertigens.
Os piratas ficaram nervosos.
— Você precisa de um médico, precisa de um médico — começou Musso. Ele pegou o rádio e pediu que a marinha mandasse um médico para o barco. Os somalis me trouxeram água. Bebi um pouco e joguei o resto sobre a cabeça. Tinham parado de racionar minha água e decidido me dar o quanto eu quisesse.
Fiquei assustado. Eu nunca havia me sentido daquele jeito em toda a minha vida. Meu coração está fraquejando, pensei. É assim que acontece. Deve ter sido o calor. Sempre odiei o calor, mas ele nunca tinha me afetado daquela maneira.
O médico da marinha chegou mais ou menos uma hora depois.
— Como está se sentindo? — perguntou do barco inflável onde estava.
— Bem. Estou bem agora. Acho que só tive um mal-estar por causa do calor ou algo assim.
— Como são as instalações sanitárias?
— Bem, você está olhando para elas.
— Pode me mostrar onde costuma ir ao banheiro? Queremos ter certeza de que está tudo bem com você.
Não compreendi. Já tinha dito a eles que por nada neste mundo os piratas me deixariam chegar perto da porta.
O que eu não sabia era que, naquele momento, havia armas escondidas debaixo de cobertores naquele Zodiac. Os caras da marinha estavam tentando me fazer chegar perto da porta de trás, quando então me mandariam pular. Em seguida acertariam os somalis. Mas os piratas não tinham a menor intenção de deixar que eu me aproximasse daquela abertura.
Eles também usaram a senha “hora do jantar” para saber se eu estava sob coação, mas eu não sabia que eles tinham conhecimento desse código — Shane lhes havia passado essa informação.
Antes que os paramédicos se afastassem, eles nos forneceram mais alimentos — um pouco de peixe e algumas ameixas, dizendo aos piratas: “Façam com que o capitão receba essa comida. Não é para vocês. É só para o capitão.” Então tentei comer aquilo, mesmo que ainda não estivesse com fome. Aquelas ameixas eram a coisa mais deliciosa que eu já provara em toda a minha vida. Tinham trazido quatro, uma para cada pessoa no barco. Devorei duas antes que me desse conta do que estava fazendo.
— Ah, desculpa, comi a sua? — disse para Musso. — Toma, pode ficar com o meu peixe.
Ele só sacudiu a mão. Pareciam assustados com a ideia de que eu pudesse morrer ou algo assim e ficaram satisfeitos por eu estar comendo.
A marinha também tinha me mandado um par de calças azuis e uma camisa de um amarelo berrante. Eu não queria vestir aquelas roupas porque me sentia imundo e a ideia de sujar aquela camisa limpa de algum modo me repugnava. Falei aos piratas que poria a roupa depois de tomar uma ducha. Mas os piratas insistiram. Vesti e imediatamente a camisa ficou molhada e suja da água que eu vinha despejando sobre a cabeça e por causa da imundície que imperava na embarcação de um modo geral.
Não me ocorreu que a marinha me dera aquela camisa amarela chamativa para que os atiradores de elite me distinguissem dos piratas. Meu cérebro não estava alerta a esse ponto. Eu me sentia como um animal lerdo.
Havia também uma garrafa de molho de carne. Só depois eu viria a descobrir que a tripulação do navio rabiscara uma mensagem no rótulo: “Aguente firme, vamos aí buscar você.” Fiquei ocupado devorando as ameixas e não cheguei a ler o recado. Também estava sem meus óculos; não conseguiria ler nada mesmo se tivesse visto a mensagem. Na verdade, lembro que me perguntei por que haviam me dado molho para bife com o peixe (imaginei que era tudo de que dispunham a bordo do navio em matéria de molhos), mas logo parei de me preocupar com isso e passei a garrafa para os somalis.
O bote Zodiac reapareceu.
— Vamos rebocar vocês! — gritou na nossa direção um dos caras da marinha.
— Vão nos rebocar? — perguntei. Virei-me para Comprido. — O que vocês fizeram? Estragaram o motor? O leme está ok? O que vocês quebraram agora?
Os piratas logo concordaram em sermos rebocados, o que era estranho. Por que alguém desejaria que seus adversários controlassem seus movimentos?
Eu não fazia a menor ideia de que estávamos agora a vinte milhas da costa somali. A marinha não queria que fôssemos para terra, pois os somalis poderiam tentar convocar reforços ou dar um jeito de me tirar da embarcação. Porém os piratas também não queriam atracar, porque tínhamos nos afastado muito do porto deles e estávamos nos aproximando de território controlado por uma tribo rival. Não queriam desembarcar ali porque achavam que seriam recebidos com violência.
Por volta das cinco da tarde, estávamos sendo rebocados pelo guincho de popa do USS Bainbridge, com um cabo de aço atado à proa.
Por fim, antes de se afastarem, deram algo a Comprido. “Entregue isso ao capitão”, disseram. Ele pegou, olhou e passou para mim.
Era o meu relógio.
— Onde arrumou isso? — perguntei. Na última vez que vira aquilo, estava na mão do Líder.
— Do pirata — respondeu o cara da marinha.
Minha mente girava.
___
A tensão no barco aumentava a cada minuto. À medida que éramos rebocados, começamos a ouvir ruídos de objetos caindo na água, então vimos formas negras flutuando ao nosso redor,
uma depois da outra.
— O que é isso? — gritaram os piratas no rádio. — Nenhuma ação, nenhuma ação!
Não pude distinguir o que eram aquelas formas, mas fazia alguma ideia. Navios mercantes não podem jogar objetos de plástico no oceano, mas a marinha pode.
A marinha confirmou. Disseram aos piratas que era apenas lixo flutuante.
Com a partida do Líder, a coesão entre os piratas tornou-se ainda mais frágil. Comprido e Musso se voltaram contra Jovem. Talvez fosse pelo estresse ou por ele não se mostrar tão entusiasmado quanto os outros dois — isso tinha ficado claro quando conversavam com os negociadores. Agora começavam a hostilizá-lo.
— O que é? Está querendo beber cerveja que nem um americano? É isso que você quer?
— Não. Sou somali.
— Nós somos marinheiros somalis, trabalhamos o tempo todo. Não paramos. Você é um desses americanos preguiçosos, bebendo cerveja e indo ao cinema. Você quer ir ao cinema?
— Vá para o inferno.
— Vá para o inferno você, americano. Estamos aqui para essa missão.
E então o chamaram de crioulo. Fiquei chocado.
— Quer ser um americano? O que você é? Um crioulo?
Jovem disparava suas respostas em somali e em inglês. Todos os três ferviam de ódio. E cada um deles tinha uma arma ao alcance.
Dormi por algumas poucas horas e acordei com um sobressalto. Os idiotas ainda discutiam.
— Estou me sentindo melhor agora — falei. — Mas quero nadar. — Mais do que qualquer coisa, eu queria ter contato com o oceano de novo. A lembrança daquela água fresca tinha permanecido comigo.
Para meu espanto, eles começaram a me desamarrar. Minhas mãos estavam inchadas e fui sentindo o quanto doíam à medida que desfaziam os nós, porém a sensação de alívio se espalhou por todo o corpo. Deixaram um laço não muito apertado no meu tornozelo, de modo que não pudesse correr e mergulhar pela abertura do barco.
— Vamos, só me deixem dar um mergulho ali — falei. Só queria me refrescar.
— Não, você está fraco demais.
— Só um pulo. Vai ser entrar e sair da água.
— Fraco demais, doente demais. Só durma e pronto.
Jovem desenrolou dois macacões do equipamento de sobrevivência e abriu-os no chão, na passagem entre os bancos perto de mim, fazendo uma espécie de cama para que eu deitasse.
— Deita — ordenou.
— Não vou deitar. Não vou fazer nada do que você está mandando. Me deixe pular na água.
Havia um impasse. Optei pela oposição total. Cooperar não havia me levado a parte alguma com aqueles bandidos.
Os piratas me repreenderam por alguns minutos, depois se afastaram e se sentaram nos lugares de sempre.
Mexi os pés, afrouxando a corda o máximo que pude. Jovem reparou e desceu pela passagem entre os bancos com a lanterna. Os laços estavam cada vez mais frouxos.
— Ele está brincando com as cordas.
— Não. Só estou me esticando um pouco.
Então pensei: Chega.
— Estou fora, não vou mais jogar esse jogo.
Soltei meus pés com um chute nas cordas e me pus de pé. As cabeças dos piratas levantaram na proa e na popa. Avancei andando.
Musso se levantou de um pulo.
— Abaixa, abaixa! Não pode sair!
— Então me dê um tiro — falei. — Para mim chega. Vou sair daqui.
Musso largou a arma e me agarrou na altura do peito. Senti Comprido vir por trás e me segurar pela perna.
— Não aguento mais isso! — Dei dois passos na direção da proa.
BUUUM. O cano de uma arma brilhou num clarão vindo da parte da frente da embarcação. Rodopiei para trás e caí, indo parar no terceiro banco.
— O que estão fazendo? — gritei.
Jovem tinha disparado sua arma.
— O que está havendo aí dentro? Qual é o problema? — A voz vinha de fora e parecia ser de uma mulher.
Os piratas gritavam uns com os outros.
— Não pode atirar aqui dentro! O que você está fazendo?! Nada de tiros!
— O que está acontecendo? O que houve aí dentro? — disse a voz, parecendo ansiosa.
— Sem problemas! Engano! — As vozes vinham de todo lado da escuridão do barco. — Relaxa, ok, ok!
Jovem, aborrecido por ter sido repreendido, comandava o bote. Comprido estava com ele.
— Tudo bem! — gritava ele para a mulher do lado de fora da embarcação. — Agora sem problema! Tudo bem!
Fui me deitar na cama que tinham improvisado. Ao me virar, vi Musso e Comprido avançando para a escotilha na parte da frente da embarcação.
— Engano, sem problema! Ok, ok! — Eles se levantavam enquanto eu me abaixava para deitar no piso.
Estava exausto. Só queria descansar.
De repente, ouvi tiros. Bangbangbangbangbangbangbangbangbangbang. Tive a impressão de que foram seis ou sete em sequência. Enquanto o ruído ecoava na pequenina embarcação de salvamento, mergulhei entre os assentos, me espremendo o máximo possível contra o piso. Senti algo como uma chuva caindo sobre o meu rosto, espetando minha pele. E agora?, pensei. O que aconteceu?
A impressão que tive foi de que o tiroteio se estendeu por quinze minutos, mas tenho certeza de que durou apenas alguns poucos segundos. Senti o mais puro terror e uma sensação de absoluta confusão enquanto procurava me enterrar no piso.
— O que estão fazendo? — gritei. — Pessoal, o que estão fazendo?
Pensei que os piratas estivessem atirando uns nos outros e que eu estava no meio do fogo cruzado. Eles tinham discutido e a briga acabara numa troca de tiros. E agora, depois de dias de calor, castigos e ameaças, havia um silêncio absoluto.
De repente ouvi uma voz. A voz de um homem americano.
— Você está bem?
Eu não compreendia quem estava falando.
— Estou bem — respondi. — Mas quem é você?
Ergui os olhos. O rosto de Jovem estava a alguns centímetros do meu. Ele tinha caído da cabine de manobra em frente ao timão, desabando no convés. Seus olhos estavam arregalados e ele se esforçava para conseguir respirar.
— Hu-hu-huuuuuhh.
Fiquei observando ele dar seus últimos suspiros. Deixou escapar um gemido, e aí eu soube que não lhe restava muito tempo de vida.
Então vi o contorno de uma figura diante de mim. Vestia uma roupa escura. Foi tudo o que gravei. Os Seals me contaram mais tarde que tinham ouvido um gemido abafado depois de atirarem nos piratas. Pensaram que podia ser um dos somalis vindo me pegar. Então um Seal desceu pelo cabo de reboque preso na proa e subiu na embarcação de salvamento.
O Seal observou os piratas. Estavam todos mortos agora.
— Você sabe como sair daqui? — gritou o Seal.
Eu me soltei do restante das cordas que me prendiam e me levantei. Pulei por cima da barreira feita de cordas que os piratas haviam armado entre os bancos. Minhas pernas estavam fracas. Avancei cambaleando até a abertura e comecei a desatar a corda presa pelos piratas para impedir que a porta fosse aberta pelo lado de fora. Podia sentir alguém do outro lado, empurrando e puxando, tentando forçar a entrada.
— Espera, deixa que eu abro! — gritei.
Soltei a corda e a porta escancarou-se. Um Seal robusto surgiu e me puxou para dentro do bote inflável. Pude ver seu rosto pairando acima do meu. Atrás de mim vi o enorme costado do USS Bainbridge, tomando todo o meu campo de visão. A impressão que tive era a de que seria capaz de alcançá-lo e tocá-lo.
— Ele está ferido, ele está ferido! — gritou o Seal. Meu rosto devia estar sangrando por causa dos destroços lançados pelas balas ao perfurarem o barco.
— Estou bem, estou bem — falei.
Cambaleei até a parte da frente do bote inflável e eles ligaram o motor. Havia cinco homens da marinha a bordo comigo e eles me saudaram com o polegar para cima. A coisa toda durara provavelmente sessenta segundos.
Havia outro barco zumbindo à nossa volta. Os Seals gritavam para os seus comandantes: “Ele está bem. Nós o pegamos!” Uma voz soou no rádio: “Ele está ferido? Repito, ele está ferido?” Um dos Seals falou pelo rádio: “Pode ser que esteja ferido.”
— Estou bem — avisei.
A lancha rumou depressa para o USS Bainbridge. Vi o enorme navio ficar cada vez mais e mais perto e pensei: Meu Deus, terminou. Consegui. Saí daquele lugar. Estou vivo.
___
Andrea estava dormindo na manhã de domingo quando pensou ter ouvido minha voz dizendo:
“Anjo, estou bem. Não se preocupe, estou bem.” Ela acordou, foi até o banheiro, e então voltou para a cama.
— Andrea — disse Amber, do outro lado da cama. — Tive uma epifania.
— O que foi?
— Acho de verdade que Rich vai ficar bem.
— Acha mesmo? Porque senti a mesma coisa.
Ela contou que naquela hora soube que algo iria acontecer. Era domingo de Páscoa. Para o bem ou para o mal, Andrea sentia que as coisas caminhavam para um desfecho.
Amber voltou a dormir, mas Andrea não conseguiu pegar no sono. Continuou pensando. Chega de falar. Tenho de fazer alguma coisa. Rich a esta altura deve estar cansado e com muito calor. Até quando ele vai aguentar? Ela queria me mandar alguma energia positiva. Mas estava a cerca de doze mil quilômetros de distância do marido — o que poderia fazer?
Então teve uma ideia. Quando o bispo de Vermont tinha ligado na quinta-feira, ele perguntara se poderia fazer alguma coisa pela família. De repente, Andrea sentiu que precisava com urgência fazer algo na manhã de Páscoa. E ela sabia exatamente o que seria.
Alguns anos antes ela fora, com a minha família, assistir a uma missa em Cape Cod. O padre acabara de voltar da África, para onde tinha ido como missionário. Ele falara sobre seu trabalho, sobre o quanto aquilo significara para ele, e daí seguira em frente com seu sermão, do qual nós sempre nos lembrávamos. Ele dissera: “Deus é bom”, e respondêramos: “O tempo todo.” Então ele repetira: “O tempo todo” e a resposta a isso fechava o ciclo: “Deus é bom.” Aquele padre se esforçava muito para fazer com que uma multidão de católicos na convencional Hyannis, Massachusetts, entrasse realmente no espírito da coisa, o que era ao mesmo tempo engraçado e comovente.
Aquilo passou a fazer parte do repertório da nossa família. Estávamos nos despedindo de alguém no aeroporto ou então falando com uma pessoa ao telefone e um dizia “Deus é bom” e outro respondia “O tempo todo”. Era só um desses códigos que qualquer família tem e que ajuda a manter as pessoas unidas. Em momentos de crise, servia como um lembrete de que deveríamos nos mostrar gratos por tudo o que tínhamos.
Andrea estava na cama, sem conseguir dormir. Os minutos passavam, seis da manhã, 6h30. Ela podia vir a se arrepender por deixar passar aquela oportunidade. Pensava: Todo mundo, mesmo o pior católico, vai à missa na manhã da Páscoa. Por que não pedir ao bispo de Vermont que determine que todos os padres recorram a essa pequena homilia em suas missas? Eu poderia fazer com que o estado inteiro de Vermont a dissesse! A imagem de milhares de pessoas, de Burlington até os jovens da universidade em Brattleboro, passando pelas pequenas comunidades sonolentas de fazendeiros, todas repetindo aquelas palavras simples, lhe pareceu transmitir uma enorme força.
— Eu precisava fazer isso — disse Andrea.
Ela pulou da cama, correu procurando Alison e perguntou se poderia pedir que tanto o padre Privé, em Morrisville, quanto o padre Danielson, em Underhill, dissessem a homilia. Então seguiu com sua rotina matinal. Minha mãe chegara da Flórida — não conseguira mais ficar longe da família. E minhas irmãs estavam se aprontando para voltar para suas casas e para suas famílias.
Andrea não poderia saber que Alison, depois de tentar ligar para o padre Privé, não conseguira localizá-lo, então correra para o seu carro e começara a dirigir. O GPS a mandou na direção oposta e ela acabou por avançar, quilômetro após quilômetro, pelo caminho errado, morrendo de medo de não conseguir encontrar o padre a tempo. Mas ela por fim deu meia-volta e chegou à igreja. O padre Privé disse que ficaria feliz em atender ao pedido.
Por volta de onze horas da manhã, Andrea pensou: Onde diabos Alison se meteu? Ela saíra havia mais de cinco horas. Exatamente nesse momento, Jonathan, seu companheiro de trabalho, entrou e disse: “Você precisa ouvir isso!” Pegou o seu telefone celular, ligou no viva voz e pôs o aparelho em cima da mesa da cozinha. Alison, sendo ela mesma católica, sentiu necessidade de permanecer na igreja. E Andrea pôde ouvir a missa em tempo real até que chegou o momento do sermão e o padre começou a entoar “Deus é bom!” e as pessoas na igreja responderem “O tempo todo”. O padre Privé tinha conseguido transformar o lema de nossa família numa espécie de canção. Andrea se sentiu tomada por uma onda de grande emoção.
Ela inclinou a cabeça e, apoiada contra a parede, começou a chorar. Pensou em todas aquelas pessoas que na verdade não me conheciam, mas que estavam fazendo aquilo pela nossa família. Ela ergueu a cabeça e, por entre as lágrimas, olhou pela janela da sala de jantar. Tinha começado a nevar, uma das coisas de que eu mais gostava no mundo.
Minha mulher sentiu que aquele era o seu sinal. Ela virou a cabeça para a parede. E disse a si mesma:
— Ah, meu Deus, ele vai ficar bem.