Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 15 de 24

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Dever de Capitão

Onze: Dia 1, hora 1100

Dia 1, hora 1100

 

 

Estamos plane jando mandar re forços aos nossos companhe iros; e le s nos disse ram que um navio de gue rra ame ricano e stava se aproximando de le s.

Abdi Garad, comandante pirata,

falando do porto somali de Eyl, Agence France-Presse,

8 de abril de 2009

 

ATM e o Líder saíram. Voltei à tarefa de silenciar os alarmes, mas por dentro eu torcia para

que ATM conseguisse de algum modo se livrar do pirata e se esconder em algum lugar seguro. Os somalis restantes se alternavam entre examinar o horizonte e nos vigiar.

Minhas buscas com o Líder tinham demorado cerca de vinte minutos. Quinze minutos depois de ATM e o Líder saírem, meu rádio deu sinal de vida. “Atenção, piratas, aten...”

Peguei o rádio e abaixei o volume. Eu me virei e olhei na direção da popa. Ouvi Mike Perry falando no rádio. Com os alarmes acionados e toda a gritaria entre si e conosco, os piratas não tinham percebido nada. Cheguei o rádio mais perto do ouvido.

— ...um pirata. Repito. Temos um companheiro de vocês. Queremos trocá-lo pelo capitão.

Agarrei o rádio e sorri. Minha nossa, tínhamos conseguido. Mas ainda era cedo demais para comemorar. Voltei a me ocupar com os alarmes que precisavam ser desativados. Eu ainda não queria confronto. Meu objetivo era fazer com que as coisas continuassem acontecendo lentamente.

Depois de trinta minutos, os piratas começaram a ficar nervosos.

Comprido veio até o passadiço e apontou a arma para mim.

— Ei. Cadê ele? Cadê esse cara?

— Não sei — respondi. — Estou aqui com você.

— Traz o cara.

Apontei para o rádio.

— Muita interferência. Há metal demais neste navio.

Ele fechou a cara, mas voltou para a asa do passadiço.

Quinze minutos se passaram. E mais trinta. Vi os piratas se entreolhando e os ouvi fazendo perguntas em somali. Comprido gritou na minha direção.

— Cadê eles?

— Sei lá — respondi. — Vocês têm que mandar alguém lá embaixo para dar uma olhada.

Musso pensou a respeito.

— Tudo bem. Você vai.

— Estou cansado de tanto andar. Por que não manda o grandão ali? — falei, apontando para Colin.

Musso assentiu com a cabeça.

— Muito bem, grandão, você vai lá embaixo e vê se encontra os caras.

Sorri. Com dois marinheiros ainda em seu poder, os piratas pareciam confiantes para deixar que Colin saísse sozinho em busca do restante da tripulação. Eu estava muito perto de atingir meu objetivo de tirar meus tripulantes do passadiço.

Os piratas estavam nos observando atentamente, de modo que não tive chance de sussurrar para Colin antes que ele saísse do passadiço sozinho. Torcia para que ele tivesse o bom senso de se esconder em algum lugar do navio.

Com outro homem fora do passadiço, senti-me um pouco mais leve. Era como se aos poucos um peso fosse retirado de minhas costas.

Olhei para a antepara da popa, onde temos o “indicador de portas estanques”, que nos diz quais portas e escotilhas estão abertas e quais estão fechadas. Desse modo, é possível saber que partes do navio estão protegidas de alagamento. Ele tem, contudo, outra utilidade. Ao ver o indicador passar do vermelho (fechado) para o verde (aberto) e então vermelho novamente, eu podia identificar quais portas Colin estava abrindo e trancando ao se deslocar pelo navio. A cada movimento da porta, o indicador emitia um pequeno clique e mudava de cor.

Aonde ele está indo? Num navio como o Maersk Alabama havia lugares em que podíamos nos esconder sem que ninguém jamais pudesse nos achar. Já vi casos em navios porta-contêineres em que clandestinos passaram dias a bordo sem que a tripulação sequer desconfiasse. Eu só podia torcer para que Colin encontrasse o esconderijo certo. Pensei que ele iria para o compartimento da máquina do leme, mas depois me dei conta de que Colin não sabia da escolha do local seguro reserva — ele tinha permanecido no passadiço durante meus comentários sobre o exercício.

Clique. Ele estava no compartimento número um. Clique. Agora estava na passagem principal. Colin descia direto para as entranhas do navio, para longe dos alojamentos da tripulação. Clique. Entrou no compartimento das bombas do sistema de combate a incêndio. Era um cubículo raramente usado e mais difícil ainda de achar.

Olhei para a tela. Nenhuma luz vermelha se acendera. Ele tinha encontrado seu esconderijo.

Sorri. Bom garoto, pensei. Fique aí embaixo.

Agora só restavam eu e um marinheiro. Ele não seria minha primeira opção no caso de planejar uma fuga, mas a gente tem que se virar com o que tem.

Cheguei perto dele.

Ele ergueu os olhos para mim.

— Pode ser que precisemos correr pela porta do passadiço — falei. — Tente se aproximar dela.

Ele assentiu com a cabeça. Um dos piratas se inclinou e lançou um olhar na nossa direção, desconfiado. Em seguida, a cabeça do pirata desapareceu.

— Fique preparado — avisei ao marinheiro e caminhei de volta para o centro do passadiço.

Acionei o rádio.

— Três piratas no passadiço, todos armados — falei.

O rádio emitiu um bipe. Olhei o indicador da bateria. Estava quase no fim.

 

___

 

O Líder e ATM simplesmente tinham desaparecido. Só dias mais tarde descobri o que

acontecera.

ATM havia conduzido o pirata até o interior do navio, rumo à praça de máquinas. Mike Perry, meu chefe de máquinas, já estava lá embaixo — tinha se encaminhado para o gerador do navio ao primeiro indício de ataque pirata. Enquanto ATM e o Líder percorriam os corredores sinuosos, Mike checava alguns dos equipamentos.

— Estava um breu total, não havia um fóton sequer de luz — diria ele depois.

O Maersk Alabama estava em pleno sol equatorial; a água refletia o calor de volta para o costado do navio. A temperatura lá dentro estava subindo para 51°C.

— Começávamos a ter a sensação de que estávamos morrendo — contou um integrante da tripulação.

E Mike ouvia o crescente desespero dos piratas — e como eles estavam voltando contra mim sua raiva e perplexidade.

— Só pelo tom de voz das pessoas dava para sentir que Rich estava correndo perigo.

Mike andava pela praça de máquinas carregando uma faca para se proteger quando, de repente, um facho de luz passou pelo seu rosto — o Líder, a apenas alguns metros de distância naquele corredor escuro, o descobrira. Mike se virou e saiu em disparada pelo corredor, seguido pelo Líder, que gritava feito um louco, as palavras ricocheteando pelas paredes de aço. Ao alcançar o ponto em que o corredor dobrava em um ângulo de noventa graus, ele rapidamente fez a curva e firmou as costas contra a parede. Esperando na escuridão, enquanto o facho de luz apontava em todas as direções à medida que chegava mais perto, Mike pensou: É uma loucura isso que vou fazer? Vinham à sua mente histórias sobre piratas que sequestravam navios e obrigavam os tripulantes a fazerem “roleta-russa”.

— Na minha cabeça — disse ele depois —, naquele momento, eu já sabia a resposta.

Mike ouviu os passos se aproximando e segurou firmemente na mão direita a faca de lâmina serrada, afiada como uma navalha. Os gritos estavam cada vez mais perto. Quando o rosto do somali surgiu de repente, dobrando aquela curva do corredor, Mike saltou na frente dele.

— Pulei para cima dele.

Dando-lhe uma gravata, Mike levou o fio da faca ao pescoço do pirata.

— Eu só precisaria mover minha mão para o lado; com isso teria rasgado a garganta dele.

Mike derrubou-o, desabando sobre o corpo do pirata ao cair no chão, e o somali, sentindo a lâmina na jugular, imediatamente parou de resistir.

Meu chefe de máquinas não sabia que o pirata estava sozinho. Pensou que outros membros do bando dobrariam aquela curva do corredor a qualquer momento, atirando com os fuzis AK-47.

— Na minha cabeça, pensei: Cadê os tiros? Por que não estou ouvindo tiros?

Ele olhou para baixo. Durante a luta, o somali sofrera um corte profundo na mão, e o sangue pingava no chão de metal do convés.

ATM e Mike carregaram o Líder até a sala de navegação traseira. Bateram na porta, e Mike pediu que a tripulação abrisse. Ele gritou a senha para situação sem perigo, e a porta se abriu.

Da escuridão onde se encontravam, quinze rostos exaustos, porém determinados, lançaram um olhar sobre o Líder. Ele finalmente encontrara os tripulantes desaparecidos. Só que não da maneira como desejava.

— Peguei meu rádio e mandei o recado para o capitão e todos os outros — contou Mike. — Disse apenas: “Menos um.”

 

___

 

A boa notícia era que nosso jogo de esconde-esconde de vida ou morte com os piratas estava

dando certo. A má notícia era que eles não estavam gostando nem um pouquinho daquilo.

Percebi que os olhos de Comprido iam ficando cada vez mais arregalados com o passar dos minutos. Jovem estava no tijupá, em cima de nós, mas Musso e Comprido continuavam de olho em mim e no marujo. Um desses caras vai ter um troço, pensei. Era como se o navio estivesse devorando homens, e isso começava a deixá-los em pânico.

— Cadê ele? — perguntou Musso.

— Não sei. Minha tripulação enlouqueceu. Não sei que brincadeira eles acham que estão fazendo.

Minha intenção era fazer o papel de comandante idiota, incapaz de controlar os próprios homens. Mas eu sabia que essa estratégia tinha um limite.

— Cadê o grandão? Por que ele não voltou?

Falei de novo pelo fonoclama.

— Atenção, toda a tripulação. Por favor, voltem ao passadiço. Colin, volte.

A agitação entre os piratas aumentava de minuto a minuto.

— Por que o navio não se mexe? Bota esse navio para andar!

Estendi as mãos na direção deles, pedindo calma. Voltei a falar no fonoclama.

— Chefe de máquinas, por favor, obedeça aos piratas e venha para o passadiço.

Comprido e Musso estavam quase pulando de tão nervosos. Tinham encontrado outro rádio portátil e o monitoravam. A bateria do meu estava terminando. Eu não tinha ouvido Mike Perry ou Shane pelo menos nos últimos trinta minutos.

Os piratas começaram a olhar para o convés. Viram algo, e Musso se virou para mim.

— O que é aquele barco ali?

— Que barco? Onde?

— Bem ali.

Ele apontou para o bote de resgate instalado no convés B.

Expliquei a eles de que se tratava — uma embarcação com motor e suprimentos próprios usada em casos de homem ao mar.

— Ele funciona?

— Claro que funciona — respondi.

Eu não estava tentando evitar que os somalis fugissem no bote. Na verdade, eu queria que eles o levassem. Ora, eu poderia até pilotá-lo para eles. Para mim, tirá-los do Maersk Alabama e deixar meus homens a salvo seria como conquistar um campeonato.

— Mostra para mim — disse Musso.

Saímos do passadiço para o convés e nos encaminhamos para o bote laranja. Enquanto eu contornava a embarcação, falava bem alto ao mesmo tempo em que mantinha o botão do rádio apertado para que a tripulação soubesse onde eu estava. O bote de resgate, de fibra de vidro reforçada, tinha seis metros de comprimento, um único motor externo e três pranchas para servir de assentos. Para baixá-lo na água, era preciso içá-lo para fora da estrutura onde estava encaixado, levá-lo sobre a água, abaixá-lo até certo ponto e depois liberar uma trava para deixá-lo cair.

Subi no bote e liguei o motor por um instante, e então os piratas fizeram o mesmo. O motor roncou todas as vezes que foi acionado.

— Podemos levar este bote? — perguntou Comprido.

Parte da tensão parecia ter desaparecido do seu rosto. Era óbvio que os piratas queriam saber se poderiam fugir nele se fosse necessário.

— É claro — respondi. — Posso até colocá-lo na água para vocês.

Ele e Musso conversaram a respeito em somali.

O rádio deles emitiu um ruído.

— Temos o companheiro de vocês — disse Mike Perry. — Estão ouvindo, piratas? Seu companheiro está conosco, e vamos trocá-lo pelo capitão.

Comprido apertou o botão do rádio.

— Quem está falando?

— O chefe de máquinas.

— Está com nosso homem?

— Sim. E vamos trocá-lo pelo nosso capitão.

Isso provocou outro diálogo intenso em somali. Comprido olhou para mim.

— Precisamos de dinheiro — disse ele. — Não podemos ir embora sem dinheiro.

Meneei a cabeça.

— Entendo — disse. — Tenho muito dinheiro no meu camarote. Podem ficar com ele se deixarem o navio.

— Quanto?

— Trinta mil dólares.

Não ficaram impressionados. Estavam no meio do oceano Índico em busca de alguns milhões de dólares, não trinta mil. Mas percebi que poderia ser o bastante para fazer com que eles abandonassem meu navio se ainda tivessem reféns em seu poder. Reféns dariam a eles acesso ao dinheiro grosso.

Algo como um acordo começava a tomar forma.

 

___

 

Subimos até meu camarote. Mal sabia eu que Shane vinha acompanhando nossos movimentos e havia sido surpreendido no trajeto ao corredor à nossa frente. Sem ter aonde ir, correu para o

meu camarote, procurando desesperadamente um lugar onde se esconder. Quando entrei ali com os dois piratas, ele se encontrava dentro de um armário, a um metro e meio de distância.

— Você não tem ideia de quantas vezes salvou minha vida — diria ele mais tarde. — Eu ficava andando pelo navio e então eu o ouvia falar; na mesma hora mergulhava no buraco mais próximo.

Depois, ao refletir sobre aquelas horas, senti grande satisfação ao saber que havia sido capaz de proteger Shane e os outros. Mas naquele momento isso nem me passava pela cabeça — eu estava tão concentrado em arranjar o dinheiro para os piratas e dar um jeito de tirá-los do meu navio que não conseguia pensar em mais nada, muito menos imaginar que um integrante da tripulação estivesse ali, ao alcance da minha mão. Fui direto até o cofre, girei o botão do segredo, fiz clicar a combinação e abri a porta. Tirei os trinta mil dólares, separados em bolos de cédulas de diferentes valores, e passei tudo para Musso. Ele e Comprido contaram o dinheiro e assentiram com a cabeça.

Enquanto isso, os piratas falavam pelo rádio com Mike, o chefe de máquinas. Concordaram que a tripulação libertaria o Líder ao mesmo tempo em que eu fosse entregue. Não me envolvi nas negociações — estava ocupado demais preparando tudo para que os somalis partissem.

Voltamos ao bote de resgate e começamos a içá-lo com a ajuda do turco, uma pequena grua que ergue e abaixa objetos até o nível da água. Precisava levantar o bote, passá-lo por cima da amurada e abaixá-lo até a água, doze metros abaixo.

No entanto, ainda não tínhamos eletricidade. Por isso fui obrigado a acionar a manivela manual enquanto os dois filhos da mãe, Musso e Comprido, ficavam me vigiando com seus AK-47.

— Espera — disse Comprido. — Precisamos de mais combustível.

— Mais combustível? — perguntei. — Com o que tem aqui dá para ir até a Somália.

Não dava. Com os dois galões e meio que estavam a bordo do bote, chegariam até a metade do caminho e ficariam à deriva. Eu sabia disso, mas eles não.

— Mais combustível — disse Musso. — Você escutou.

— De quanto vocês precisam?

— Muito. Precisamos de muito combustível.

Que fosse. Subi até o convés, fui ao armário do contramestre e peguei uma mangueira, uma conexão e uma braçadeira. Cortei a mangueira no comprimento certo — em nenhum momento os somalis haviam tomado meu canivete de sete centímetros — e a levei até o tanque do gerador a diesel reserva. Sabia que havia ali mais de trezentos litros. Peguei alguns galões de plástico, formei uma fileira, liguei a mangueira à saída do tanque de combustível do gerador e deixei que o diesel fluísse.

Comprido se aproximou de mim e olhou o painel do gerador. Foi até ele e começou a mexer nas chaves, para cima e para baixo. Provavelmente achava que podia botar o maldito navio para funcionar se descobrisse a combinação certa.

— Dá para não mexer nisso? — gritei.

Ele riu e se afastou. Voltei a me concentrar no combustível.

Eu havia escolhido cuidadosamente aqueles galões. Eram os mais sujos que havia naquela parte do navio, cheios de graxa, produtos químicos e toda sorte de restos que se acumulam quando se opera um porta-contêineres. Se aquilo não fizesse engasgar o motor, nada mais faria.

Os galões se encheram rapidamente. Os piratas me ajudaram a levá-los até o convés, para perto do bote de resgate. Depois que tivéssemos baixado a embarcação até a água, desceríamos os galões e os colocaríamos dentro dele. Com aquela quantidade de combustível, eles poderiam chegar a qualquer ponto do litoral da Somália.

Quando eu estava levando os baldes, passei pela escotilha situada a pouco mais de um metro acima do convés. Essa escotilha em particular conduzia ao paiol de popa, uma área na qual guardávamos todos os cabos usados no Maersk Alabama. A escotilha estava escancarada, e havia um fio correndo para o interior. Só existia uma razão pela qual aquela escotilha poderia estar aberta: a tripulação deveria estar lá embaixo, deitada sobre os cabos, tentando pegar um pouco de ar e fugir do calor infernal que imperava no navio.

Eu torcia para que os piratas não tivessem percebido. A escotilha estava fechada quando passamos ali antes. Agora estava completamente aberta. Mas, claro, depois de alguns segundos de confusão, Comprido e Musso se inclinaram e espiaram para dentro daquela escuridão.

Levantei meu rádio à altura da boca.

— Pessoal, eles estão vendo essa escotilha. Saiam daí agora. Os piratas estão bem em cima de vocês.

Musso sacou a lanterna e a apontou para baixo. Prendi a respiração. Se encontrassem a tripulação agora, o acordo iria por água abaixo.

Comprido tirou o AK-47 da correia dos ombros e apontou o fuzil para a escotilha. Deve ter escutado o pessoal se mexendo lá embaixo. Droga, pensei. Já era.

Ele puxou a arma de volta e a entregou a Musso. Comprido se abaixou, meteu a cabeça pela escotilha e tentou ver se conseguiria passar por aquela abertura. Eles iam lá embaixo à caça do meu pessoal. Porém ele não era magro o bastante para fazer com que seus ombros passassem pela escotilha.

— Vamos lá — chamei Musso a uma distância de quase cinco metros. — Vocês querem ou não esse combustível? Preciso de alguma ajuda aqui ou nunca vamos terminar isso.

Musso olhou de volta para Comprido, que tentava espremer os ombros pela escotilha.

— Saiam já daí — sussurrei pelo rádio. — Os piratas estão descendo.

Musso cutucou o companheiro e disse algo em somali. Comprido tirou a cabeça de dentro da escotilha e olhou para mim.

— Pegue esses dois galões — falei. — Pare logo de enrolar. Vocês querem sair deste navio ou não?

Comprido deu outra olhada pela escotilha, espiando lá dentro, mexendo a lanterna para cima e para baixo. Ele então se virou e começou a andar na minha direção.

Fui tomado por uma enorme sensação de alívio.

Entrei no bote de resgate. Os piratas queriam que eu lhes ensinasse a ligar e desligar o motor. Fiquei mais do que feliz em obedecer.

Comprido e Musso estavam realmente ficando animados com a ideia de deixar o navio.

— Vamos escapar com seu bote e pronto — Musso disse para mim, abrindo um sorriso. — Acabou-se.

Com trinta mil dólares não comprariam um utilitário da Mercedes nem uma mansão, mas era muito mais do que a maior parte dos somalis jamais veria depois de uma vida inteira de trabalho. Nada mau para um dia de trabalho como bandido. No que me dizia respeito, para mim estava tudo bem. Era um pequeno preço a pagar para recuperar meu navio e minha tripulação.

Àquela altura já era fim da tarde. Eu queria tirar os somalis do Maersk Alabama antes do anoitecer. Estava suspendendo o bote da sua armação, mas ele subia lentamente e com muito esforço.

— Cadê os oficiais de máquinas? — disse Musso. — Esses caras são um porre.

— Não sou eu que vou discordar — respondi.

Sorri comigo mesmo. Eu tinha conseguido criar com os somalis uma pequena versão invertida da síndrome de Estocolmo. Comprido, Musso e eu nos víamos agora unidos na irritação provocada pela incompetência da minha tripulação. Que merda, eles devem ter pensado, como ele navega com esses idiotas? Eu depois viria a descobrir que os dois somalis mais altos eram marinheiros competentes, e o Líder era bastante esperto. Mas desconfio que não haviam atacado uma quantidade suficiente de navios a ponto de dominar os princípios básicos sobre como lidar com reféns. Acreditar que um comandante era incapaz de trazer seus homens para o convés era um erro digno de amadores.

Com trinta mil dólares nas mãos, os dois piratas se davam por satisfeitos. Contudo, estava claro que o pequeno truque de Shane ao simular uma chamada de emergência para a marinha dos Estados Unidos havia exercido algum efeito. Eles examinavam constantemente o horizonte em busca de um contratorpedeiro. Mas seu moral havia melhorado.

Assim como o meu. Aquele pesadelo estava quase terminando. Eu não me permitiria pensar que estávamos quase livres. Acho que havia superstição demais por parte da minha ascendência irlandesa — ou então era a insistência de meu pai para que eu sempre concluísse uma tarefa. Porém, aquela ameaça de terminar os meus dias metido num buraco fétido em uma região dominada por bandidos parecia cada vez mais distante.

— Podemos fazer isso — falou Musso para mim. — Mas agora precisamos do nosso amigo.

— Vocês só vão conseguir seu companheiro quando estivermos na água — retruquei. Não havia a menor possibilidade de concluir acordo algum até aqueles caras estarem fora do meu navio.

— Tudo bem, tudo bem.

Meu rádio já dava sinal de que a bateria ia acabar, mas ainda restava alguma energia. Caminhei até os galões de combustível e fingi ter problemas com um deles. Enquanto isso, chamei o chefe de máquinas no rádio.

— Chefe, esses caras estão prontos para entrar no bote de resgate. Vamos fazer a troca assim que estivermos na água.

— Certo.

— Assim que eles saírem do navio, esteja pronto para dar a partida. Quero que dê o fora daqui assim que possível. Quando tiver oportunidade, vá. Não se preocupe comigo.

Não havia em mim qualquer intenção de ser um herói. A vitória para mim consistia em separar meus homens e meu navio daqueles bandidos. Com o resto eu me preocuparia depois.

Naquele momento vi Jovem descendo pela escada; fiquei eufórico. Isso significava que havia um marinheiro sozinho no passadiço, e que ninguém tomava conta dele.

— Pessoal, alguém vá para o passadiço imediatamente — ordenei pelo rádio. — Um dos nossos está lá, sozinho. Todos os piratas agora estão comigo. Peguem o sujeito e o deixem trancado em algum lugar para que não fique zanzando por aí de novo!

Senti uma pontada de adrenalina. Tinha vencido o primeiro assalto. Só faltava agora sobreviver ao que estava por vir.