Dever de Capitão

Richard Phillips · Capítulo 11 de 24

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Dever de Capitão

Sete: -1 dia

– 1 dia

 

Daqui até Mombaça é grande a possibilidade de ocorre r um incide nte com piratas. Mante nham os olhos abe rtos.

 

Ordem noturna do comandante

Mae rsk Alabama, 7 de abril, hora 2000

 

Naquela noite a tripulação se reuniu à mesa de jantar. Dava para sentir a eletricidade no ar.

— Esse foi o primeiro episódio de pirataria que o senhor teve de enfrentar, capitão?

— Com certeza — respondi, ao me sentar para comer. — E espero que tenha sido o último.

Aquela não era a primeira vez que o assunto era mencionado. Dias antes, Colin, o segundo oficial de náutica, tinha perguntado:

— Sabe o que eu estava pensando?

— O quê?

— E se formos capturados?

Eu o encarei.

— Você está preocupado com isso?

Colin assentiu. Parecia nervoso.

— Se está assustado, não devia ter embarcado neste navio — respondi. — Não sabia para onde estávamos indo?

Eu não queria um tripulante disseminando o vírus do pânico. Precisava que a tripulação sentisse e irradiasse confiança. Se Colin estava aterrorizado com a perspectiva de acabar dentro de um barco somali, devia ter discutido o assunto comigo antes de zarparmos.

Ser refém de piratas era um tabu entre os marinheiros. Qualquer coisa — até mesmo naufrágio — era melhor do que aquilo.

— Olha, temos de engatinhar antes de podermos andar — falei, enfim. — Antes quero me certificar de que estamos nos saindo bem nos exercícios antipirataria.

Contudo, dava para sentir a aflição dele. De repente, o problema da pirataria deixara de ser uma questão abstrata, não era uma manchete ou um rumor ouvido na sala do sindicato. A tripulação tinha visto barcos somalis com os próprios olhos e se sentira completamente indefesa diante deles.

— Bem, posso dar um apanhado geral agora — falei.

Colin concordou.

— Isso seria bom.

— É muito simples — comecei. — Antes de mais nada, jamais mencione religião. É criptonita. Não os enfrente tentando falar sobre Alá ou Jesus e, haja o que houver, não tente convencê-los de que a sua fé é melhor do que a deles. Política também, nem pensar, especialmente a do Oriente Médio. Pode ser que eles tentem provocar você, dizendo que os Estados Unidos são o pior país do mundo. Você não está aqui para defender a honra da sua nação. Está tentando sobreviver. Então, deixe isso para lá.

Naquele momento, só tive tempo para aqueles pontos. Mais tarde, Colin me procurou, parecendo ainda nervoso com a possibilidade de ser capturado pelos somalis. Havia alguns outros membros da tripulação à nossa volta, de modo que continuei com minhas instruções.

— Façam tudo o que eles mandarem — disse. — Deem o mínimo de informação possível. Temos informações que não são vitais, coisas irrelevantes que podemos revelar para estabelecer uma relação, e outras que devemos preservar, coisas que guardamos para nós, a menos que estejamos sob séria ameaça.

— Do que poderíamos abrir mão? — alguém perguntou.

Dei de ombros.

— Contar como obter água potável. Mostrar a eles os equipamentos de salvamento. Temos de fazer com que se sintam no comando enquanto, por outro lado, os afastamos do que é realmente importante, como o radar e o controle das máquinas. Sem falar no restante da tripulação.

— Entendi — disse Colin.

— E, por último, um pouco de humor ajuda.

Olhei para um marinheiro.

— Infelizmente, nenhum de vocês é muito engraçado. Então, regra número um: não sejam pegos pelos piratas.

Sempre tive a impressão de que, se os piratas embarcassem, tudo estaria perdido. Tínhamos de detê-los antes que entrassem no navio.

Àquela altura, avançávamos numa linha paralela à costa da Somália. Voltei ao meu camarote e escrevi minhas ordens para a noite. Todo comandante emite ordens permanentes para a tripulação inteira. Elas são postadas no primeiro dia e nunca mudam. Porém, as ordens noturnas abrangem quaisquer mensagens especiais ou tarefas que precisem ser transmitidas a cada mudança de turno. “Ainda estamos em território apache”, escrevi naquela noite. “Estamos aqui por nossa conta e risco, então é importante manter os olhos abertos. Só podemos contar uns com os outros.” É preciso encontrar novas maneiras de despertar o interesse dos tripulantes. Eu sabia que agora eles estavam prestando atenção por causa dos piratas, então fui breve.

Fui para o meu camarote. Por volta de 3h30, eu estava dormindo quando o telefone tocou.

Era o primeiro oficial de náutica, Ken, que cobria o turno entre meia-noite e quatro da manhã, o pior de todos.

— Capitão, acho melhor o senhor subir até aqui.

— O que é?

— Piratas somalis.

— Onde?

— No rádio. Eles estão falando no rádio.

— Já vou para aí.

Saí às pressas para o corredor e subi a escada interna que levava ao passadiço. Quando saí ao ar livre, vi as nuvens deslizando diante da lua cheia.

Abri a porta do passadiço e encontrei Ken e um marinheiro de vigília. Antes que eu falasse, escutei uma voz.

— Aqui pirata somali — dizia. — Pirata somali.

Encarei Ken. Seus olhos abertos estavam completamente arregalados. Voltei-me para o rádio. Estava sintonizado no canal 16, a frequência internacional utilizada para chamados de emergência entre embarcações.

— Pirata somali, pirata somali. Estou indo pegar vocês.

Era meio fantasmagórico. A voz tinha um sotaque claramente africano. Eu não passara tempo suficiente no continente para distinguir um sotaque somali de um queniano, mas aquilo parecia autêntico. Pior, ele parecia falar sério.

— O que aconteceu?

— Vi um barco passar a uma distância de umas sete milhas. Estava todo iluminado.

Assenti com a cabeça. Pesqueiros sempre ficam iluminados como uma árvore de Natal. Precisam de luz para o trabalho com as redes e para evitar ser atropelados por algum petroleiro navegando a quinze nós. Dificilmente um navio pirata viajaria com todas as luzes acesas. Queimava muito do precioso combustível e permitia que fossem vistos no horizonte, coisa que os piratas nunca queriam.

— E então, minutos depois, ouvi isso — disse Ken, apontando para o rádio.

Apanhei o binóculo. Havia um barco a uma distância de sete milhas à ré e a boreste, as luzes brilhando como um típico barco pesqueiro. Porém, olhando melhor, vi um segundo barco amarrado à sua popa.

— Pirata somali, pirata somali — a voz se manifestou de novo, em meio ao silêncio absoluto que imperava no passadiço.

O sujeito estava quase cantando. Que diabo ele pretendia? Os somalis eram conhecidos pela furtividade; a última coisa que fazem é avisar que estão a caminho. Não fazia sentido.

Talvez fossem apenas alguns pescadores se divertindo à nossa custa. Ou poderiam ser piratas de passagem sondando nosso esquema de segurança. Poderiam estar lá na frente, nos observando, tentando nos amedrontar antes de ligarem os motores para interceptarem nosso navio. Como disse, aqueles caras viviam inventando coisa nova, sempre à procura de pontos fracos.

Examinei o navio com o binóculo. Não se movia, estava apenas à deriva, o que é uma atitude típica de um barco de pesca.

— Vamos acelerar para 120 RPM — ordenei.

Estávamos na nossa velocidade normal de 118 RPM.

— Cento e vinte RPM — confirmou o primeiro oficial de náutica. Ele estava no telégrafo da máquina, controlando nossa velocidade.

— Qual o nosso rumo? — perguntei.

— Dois três zero — respondeu o timoneiro, referindo-se a um curso de 230 graus.

— Passe para um oito zero — falei.

Eu queria executar uma mudança drástica que fosse percebida pelo pirata — se é que se tratava de um. E queria que ele se mantivesse, na medida do possível, à nossa ré.

— Cinco graus do leme a bombordo... Governar em um oito zero — confirmou Ken.

O timoneiro repetiu a ordem recebida e em seguida girou o timão.

O navio começou a guinar, e trinta segundos depois estávamos no novo rumo. Quando se está indo rápido, basta um toque no leme para virar cinquenta graus.

Fiquei observando a embarcação misteriosa pelo binóculo. Ela ainda estava à deriva, atrás de nós. E o barco menor junto a ela não se mexeu. Se iam empreender um ataque, seria com aquela lancha veloz. Enquanto a lancha não abandonasse o pesqueiro, tudo estaria bem.

Vasculhei todas as outras direções do horizonte com o binóculo: norte, sul, leste, oeste. Às vezes os grupos de piratas deixam uma embarcação em plena vista de modo a atrair toda a atenção. Enquanto estamos concentrados em um barco, eles atacam com três outras lanchas rápidas vindas da direção contrária, aproveitando-se do ponto cego. Mas a água estava limpa. Nenhuma outra embarcação ao alcance do Maersk Alabama.

Durante trinta minutos fiquei de olho naquela embarcação misteriosa. Ela não tentou nos seguir e não lançou uma lancha em nossa perseguição. Era estranho. Porém, sem nenhum outro comparsa num raio de sete milhas, ele não tentaria um ataque.

— Acho que estamos bem — falei para Ken. — Se acontecer alguma outra coisa, me chame imediatamente. Não deixe de informar tudo o que ocorreu ao responsável pelo próximo turno. E mantenha a velocidade de 120 RPM até eu voltar aqui de manhã.

Pelo que eu sabia, os piratas jamais haviam atacado durante a noite. (Desde aquela época, houve pelo menos um ataque pirata sob a escuridão da noite.) Porém, se eu fosse um bandido somali, era exatamente isso o que eu faria. Trataria de me esgueirar na escuridão e tomar o navio antes que a tripulação tivesse tempo de reagir. Eu não fazia a menor ideia de por que eles ainda não tinham tentado fazer isso — subir a bordo não seria fácil, inclusive atirar aqueles croques, mas o prêmio seria imenso.

Eu não queria ser o primeiro.

Voltei ao meu camarote e desabei na cama. Eu nunca havia enfrentado qualquer incidente relacionado a piratas antes, e nas últimas 24 horas precisara lidar com duas possíveis ameaças. Aquilo mostrava que o mar à nossa volta estava coalhado daqueles caras e que agora nos encontrávamos num mundo completamente diferente. Esqueça aquele 0,4% anunciado pelos estatísticos. A impressão era de que qualquer navio que entrasse no golfo seria um alvo.

Enquanto eu estava deitado, sem conseguir dormir, pensei numa antiga expressão usada na marinha mercante. Durante a Segunda Guerra, comboios formados por cem navios ou mais costumavam cruzar o Atlântico levando suprimentos dos quais os soldados americanos na Europa precisavam desesperadamente. O oceano estava infestado de submarinos alemães, e aqueles cargueiros eram como patinhos de madeira numa galeria de tiro.

Mas nem todos. Se você está no meio da formação, raramente é atacado. Porém, se estiver num dos quatro cantos, permanece exposto. Vulnerável. Uma isca.

Aquelas posições eram chamadas de “cantos do caixão”. Minha sensação era a de que o Maersk Alabama estava num desses cantos bem naquele momento. E não havia nenhum contratorpedeiro à vista para manter o inimigo a distância.