Dever de Capitão
Dezoito: Dia 5, hora 1945
Dia 5, hora 1945
Estou fe liz pe lo fato de o capitão Phillips te r sido re sgatado e e star são e salvo a bordo do USS Boxer. Sua se gurança foi nossa principal pre ocupação, e se i que e ste é um ime nso alívio para sua família e sua tripulação. Se mpre me orgulhare i de todos os e sforços das forças armadas dos Estados Unidos e de muitos outros de partame ntos e agê ncias que trabalharam incansave lme nte para asse gurar o re sgate do comandante . Compartilho a admiração de nosso país pe la corage m de Richard Phillips e por sua de dicação altruísta à sua tripulação. Sua bravura é um e xe mplo para todos os norte -ame ricanos.
Presidente Barack Obama, 12 de abril
A marinha içou o Zodiac para o convés do USS Bainbridge com o auxílio de um turco. Eu
apoiava uma das mãos no ombro do Seal à minha frente ao caminhar. Entramos no hangar traseiro, onde marinheiros nos aclamaram, aplaudiram e me congratularam. Mas o clima
continuava tenso — fuzileiros navais corriam de um lado para o outro, com fones de ouvido e microfones, obviamente conferindo a possível existência de mais piratas e lidando com a
situação na embarcação de salvamento. Acenei e gritei “Obrigado” enquanto era encaminhado diretamente para a enfermaria, onde um médico me aguardava.
O alívio tomou conta de mim. Tudo acontecera muito rápido, parecia que eu fora teletransportado daquela embarcação infernal para um navio gigantesco. A tensão começou a escoar do meu corpo lentamente.
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A milhares de quilômetros, Andrea ainda não sabia de nada na manhã daquele domingo. Pessoas continuavam a entrar e sair de nossa casa. Ela se despediu de minhas irmãs, que
precisavam retornar às suas famílias, e depois foi para o quarto por volta das 11h30 para cochilar. O quarto dela era sua zona de segurança e, como todos sabiam, inviolável. Pensando
que a televisão a ajudaria a adormecer, Andrea sintonizou um canal de filmes e, na parte inferior da tela, apareceu a notícia: “Capitão Richard Phillips libertado.”
Ela não acreditou. Desceu voando as escadas e, ao encontrar Jonathan, gritou:
— VOCÊ PRECISA DESCOBRIR SE ISSO É VERDADE!
Em meio ao júbilo e à emoção, todos haviam se esquecido de avisar minha mulher. Cada um presumiu que o outro havia telefonado. Acho que, quando a informação está por toda parte, você não acredita que alguém ainda a ignore, sobretudo quando essa pessoa é casada com o protagonista da história. Então, Jonathan precisou ligar para a Maersk e para o Departamento de Defesa para ter informações mais precisas. Andrea não se importava — tudo que ela queria era saber se eu estava bem.
Jonathan recebeu uma confirmação quase imediata. “Corri pela casa inteira gritando a notícia”, minha mulher recordou. “Depois, liguei para todo mundo que conhecia.” Em pouco tempo a casa se encheu de parentes e amigos próximos.
Andrea logo começou a ver imagens minhas na televisão. Foi nesse momento que ela teve certeza de que eu estava bem — quando pôde ver meu rosto. Ela não conseguia desgrudar os olhos do aparelho, sem se importar com o número de vezes que as mesmas imagens eram exibidas. “Eu não me cansava de ver aquilo”, ela me contou depois.
Por volta das três da tarde, o telefone tocou. Sua amiga Paige atendeu. Nossa casa estava recebendo tantos telefonemas da mídia que ela respondeu num tom brusco:
— Quem fala?
— Quer dizer que você não reconhece mais minha voz? — respondi.
Ela gritou.
Ouvi Andrea correr até o telefone e Paige exclamar: “É o Richard!”
— Alô, alô?
— Seu marido está em casa?
— Não.
— Muito bem. Então vou dar uma passada por aí agora.
Andrea me disse que seus olhos ficaram inundados de lágrimas.
— Estou muito feliz por você estar bem — disse ela, com a voz embargada de emoção. — O que estava pensando quando entrou naquele barco?
Foi muito bom ouvir a voz dela. Era tudo de que eu precisava, só ouvi-la. As palavras pouco importavam. Perguntei sobre nossos filhos, e ela quis saber se eu estava ferido e se eu comera algo. Ela já estava agindo como a enfermeira que é.
A ligação caiu. Andrea me disse mais tarde que começou a enlouquecer porque finalmente tinha o marido de volta, mas não conseguia falar com ele. Paige ligou para um monte de números e enfim conseguiu falar com um Seal a bordo do USS Boxer, que navegava próximo ao USS Bainbridge. Ela lhe disse como todos estavam felizes e muito agradecidos, ao que ele respondeu: “Minha senhora, estávamos apenas cumprindo o nosso dever.” Ela convidou a ele e aos outros Seals para irem a Vermont comer uma refeição italiana caseira. Era exatamente o que Andrea gostaria de ter dito aos Seals. Paige estava em prantos quando desligou.
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O médico cortou minhas roupas para retirá-las. Pela primeira vez, consegui sentir meu cheiro.
Na embarcação de salvamento, não me dera conta de como fedia. Lembrei-me de meus tempos a bordo do Patriot State, o navio de treinamento da Academia Marítima de Massachusetts.
Naquele primeiro verão, eu e alguns outros calouros fizemos uma competição para ver quem ficaria mais tempo sem tomar banho. O navio não tinha ar-condicionado, então foi como um
duelo até a morte. Chamamo-nos de a Família Nojenta. Pensei: Eu teria ganhado aquela competição.
O médico disse que eu estava bem, e fui levado ao convés e imediatamente colocado em um helicóptero e transferido para o USS Boxer, um enorme navio de desembarque da marinha que chegara após o USS Bainbridge. Dois Seals me acompanharam, ainda cumprindo sua missão e extremamente concentrados em suas tarefas.
Quando cheguei ao USS Boxer, passei por outro exame físico. Ganhei roupas novas — uma camiseta, um macacão azul e um boné. Em seguida, fui encaminhado à acomodação VIP. Um cara entrou e perguntou:
— Precisa de alguma coisa?
— Preciso — respondi. — Adoraria uma cerveja.
— Sem problema. — Eu não sabia naquele momento, mas ele era o capitão do USS Boxer.
Enquanto ele saía da cabine, chamei:
— Ei!
— Pois não?
— Você acha que poderiam ser duas cervejas?
O comandante sorriu.
— Claro, você tem direito a duas cervejas.
O cara foi embora, tirei as roupas e me preparei para tomar uma chuveirada. Estava escovando os dentes, completamente nu, quando o comandante voltou, com dois marinheiros que carregavam um isopor enorme, repleto de cervejas.
— Diabo! — exclamei. — Por quanto tempo vou ficar aqui?
Eles riram, e o comandante disse que eu poderia fazer uma ligação. Ele também me informou que o presidente Obama desejava falar comigo. Acabei de tomar banho, vesti as roupas, peguei uma cerveja e acompanhei o comandante.
Os marinheiros me mostraram onde eu dormiria. Sentei-me no beliche e refleti sobre tudo que acontecera, bebendo minha primeira cerveja. Estou livre, estou vivo, estou salvo . Parecia irreal. Como se eu tivesse sido arrancado daquele inferno naquela embarcação e transportado para aquele navio limpo e tranquilo em um piscar de olhos.
O presidente Obama ligou. Lá estava aquela voz de barítono tão familiar me dando os parabéns.
— Acho que você fez um belo trabalho — disse ele.
— Bem, quem merece todos os créditos são as forças armadas — repliquei. — Não sei como agradecer o suficiente. E gostaria de dizer “Obrigado” por seu empenho. — Não estava brincando. Eu sabia que a ordem que deflagrara o resgate viera de cima; então, de certa maneira, eu estava falando com o homem que me liberara daquele tormento no meio do oceano Índico.
— Estamos muito contentes por você estar bem — afirmou o presidente.
Conversamos um pouco sobre basquete — ele é torcedor fervoroso do Chicago, e eu sou fanático pelo Boston — e sobre como os Bulls se comparavam a meus amados Celtics. Não podia acreditar que estava batendo papo com o presidente e falando sobre os arremessos de Kevin Garnett, num navio da marinha dos Estados Unidos do outro lado do mundo.
No dia seguinte, os fuzileiros me perguntaram o que eu queria fazer.
— Quero olhar ao redor, ver toda a extensão do mar no horizonte — respondi.
Eu permanecia com aquela sensação de confinamento, de estar preso em uma armadilha. Eles me levaram até o convés e olhei aquele oceano imenso ao meu redor e aquela sensação claustrofóbica começou a se dissipar. Vi a costa da Somália e me dei conta de como havíamos nos aproximado dela. Mas não me considerei inteiramente liberto até deixar a água para trás e sentir a terra firme sob os pés no Quênia.
Aí tive a oportunidade de conhecer os responsáveis por meu resgate. Os Seals se perfilaram n o USS Boxer, e cumprimentei e agradeci a cada um deles. Sempre respeitara as forças armadas, mas agora eu tinha uma ideia mais concreta de sua abnegação e dedicação. Eles não estavam atrás de fama ou reconhecimento. Queriam apenas que eu estivesse a salvo e fosse devolvido à minha família.
— Vocês é que são os heróis — falei. — Vocês são os titãs. — E acredito nisso. O que fiz não é nada em comparação com o que os Seals fazem todos os dias.
Eles também estavam felicíssimos. “Nossas missões raramente terminam dessa maneira”, revelou um dos Seals. “Treinamos para que tudo aconteça da forma como aconteceu ontem.” Entendi que eu virara uma espécie de talismã para eles, algo tangível que resultara de todos aqueles anos de treinamento.
O líder da equipe que me resgatara veio até o meu camarote e me perguntou se eu estava dormindo bem. A princípio, não quis contar a ele o que estava acontecendo comigo. Acho que me sentia um pouco envergonhado. Na primeira noite após o resgate, acordara às cinco da manhã chorando copiosamente. Não chorava daquele jeito desde pequeno.
Será que sou um banana?, pensei. Tenho sorte de estar vivo e aqui estou, soluçando como uma menininha.
Dei uma bronca em mim mesmo e tomei uma chuveirada. A crise de choro passou até a manhã seguinte, quando a mesma coisa aconteceu. Acordei de um sono profundo e comecei a chorar e a me lamentar.
O líder dos Seals me ouviu e meneou a cabeça.
— Você precisa falar com nosso psiquiatra — aconselhou.
— Não sou muito chegado a médicos de malucos.
Ele sorriu.
— Isso é rotina, todos nós fazemos isso. Você passou por uma montanha-russa de emoções. Se não falar agora, isso tudo vai ficar entalado dentro de você. — Ele se recusou a aceitar meu “não” como resposta e insistiu para que eu consultasse o psiquiatra.
Acabei falando com o profissional que cuidava dos Seals. Ele me explicou que, ao virar um refém, eu me colocara em uma situação de vida ou morte, e que, quando o corpo se defronta com este tipo de situação, libera algumas substâncias químicas especiais para ajudá-lo a superar a crise. E esses hormônios ainda circulavam dentro de mim.
— Você teve crises de choro? — perguntou ele.
Fiquei espantado.
— Tive, sim.
— É normal — afirmou ele. — Acontece com todo mundo. O que você faz para superar isso?
— Grito comigo mesmo, digo para deixar de ser um banana, jogo água na minha cara e sigo em frente.
— Na próxima vez, procure não interromper o processo. Deixe que ele siga seu curso até o fim.
Tive minhas dúvidas. Mas, na manhã seguinte, como sempre às cinco horas, acordei em meu beliche, chorando. Sentei-me na borda da cama com a cabeça entre as mãos, soluçando. E soltei tudo. Durante trinta minutos, lágrimas escorreram por meu rosto e não tentei detê-las. Fui inundado por ondas de tristeza e pesar. E deixei que elas me engolfassem. Foi uma sensação das mais estranhas.
E ela nunca mais voltou.
Passei os quatro dias seguintes no USS Bainbridge. Nunca me senti tão velho em minha vida. Estava rodeado por marinheiros, homens e mulheres de dezoito a 24 anos, extremamente profissionais, entusiasmados e valentes. Senso de profissionalismo, cumprimento de dever e honradez transpiravam de cada um deles. Mas a marinha dos Estados Unidos não conseguia esconder uma coisa, mesmo que quisesse: aqueles homens e mulheres estavam esgotados. Eu estava acostumado a trabalhar longas horas e conheço os sinais: bafo de café, bolsas embaixo dos olhos, fala arrastada, reações lentas. Haviam passado noites seguidas sem dormir, tentando me resgatar. Fui saber depois que o capitão Frank Castellano raramente se ausentara do passadiço durante toda a crise e seu rosto deixava transparecer o impacto da experiência. Aquilo sim era dedicação.
Voltei ao meu camarote naquela noite. Enquanto me preparava para deitar, notei um quadro pendurado acima do beliche. Era um retrato em estilo antiquado, e o homem parecia um marinheiro norte-americano do século XIX. Perguntei ao comandante quem era e ele respondeu:
— Ah, é o William Bainbridge.
Ri. O velho caçador de piratas e ex-refém no norte da África era a minha sentinela.
Eu tinha liberdade total para fazer o que quisesse no navio. Estive presente nas reuniões de planejamento de navegação realizadas todas as noites e ouvi o relatório das marés para nossa chegada a Mombaça. Assisti a todas as cerimônias de promoção. Comi porções repetidas na “sessão” do sorvete, que acontecia sempre às nove da noite. Presenciei o encontro do USS Bainbridge com um navio de suprimentos no meio do oceano, do qual recebeu comida, correspondência e cargas diversas. Essas coisas talvez sejam importantes apenas para aqueles que amam o mar e os navios, mas me senti privilegiado ao conhecer os bastidores de um grande navio de guerra.
Eu sentia um pouco de culpa. Expliquei ao capitão Frank que me tornara o tipo de cara que eu detestava ter a bordo de meus próprios navios. Aquele que está presente em todas as refeições, dorme catorze horas por dia e não faz absolutamente nada. Um inútil. Contudo, pela primeira vez na minha vida, assumi esse papel.
O pessoal da marinha tentou me fazer compreender o interesse avassalador dos meios de comunicação em meu sequestro, assim como Andrea fez quando eu falava com ela. Mas não percebi bem o que eles queriam dizer. Em meu primeiro dia a bordo do USS Boxer, estava sentado no refeitório quando ouvi vozes conhecidas, vozes lá de casa. Surpreso, dei uma olhada para trás: na televisão via satélite do navio, vi os rostos de meus vizinhos, de meus filhos e dos executivos da Maersk. Virei as costas para tudo aquilo. Não queria ouvir nada. Um oficial perguntou:
— Você não quer ver?
— Já vi esse filme — respondi — e não quero vê-lo de novo.
Na noite anterior à atracação prevista do USS Bainbridge em Mombaça, foi anunciado que mudaríamos de rumo para socorrer outro navio norte-americano, o Liberty Sun, que estava sendo atacado por piratas. Por acaso, encontrei o capitão Frank, que começou a se desculpar por não me levar, conforme combinado, ao reencontro com minha tripulação. Eu disse: “Nenhum problema, vamos lá. Socorra aqueles marinheiros.” Encontramos o Liberty Sun e espantamos os piratas. Em seguida, retomamos o rumo para o Quênia e atracamos em meio a um forte esquema de segurança e a um enorme interesse dos meios de comunicação. Desembarquei do USS Bainbridge às quatro horas da manhã de sexta-feira.
Enquanto isso, os Seals haviam desaparecido na escuridão, sem fanfarras ou reconhecimento. Nunca mais seriam vistos.