Dever de Capitão
Treze: Dia 1, hora 1900
Dia 1, hora 1900
A Casa Branca e stá monitorando ate ntame nte o apare nte se que stro de um navio de bande ira ame ricana no oce ano Índico e avaliando qual é a me lhor ação a se r adotada. Nossa prioridade máxima é a se gurança dos tripulante s a bordo.
Comunicado da Casa Branca,
8 de abril de 2009
Baixei o bote de resgate para a água comigo e os três piratas dentro. O turco nos pousou
delicadamente no mar. Ergui os olhos para o meu navio. De repente, me deu a impressão de ser um transatlântico. Enorme.
— Eles ainda podem disparar contra o navio — avisei pelo rádio. — Não deixe o pessoal ficar exposto.
O combustível ainda estava no convés. A cabeça de Shane despontou por trás da amurada.
— Ei, capitão! — chamou ele.
— Estamos quase lá, Shane! Comece a baixar o combustível!
Os piratas ansiavam por aquele combustível extra. Continuariam nervosos até que o óleo diesel e o Líder estivessem a bordo do bote. Virei-me e vi Comprido e Musso sentados nos bancos, as armas sobre os joelhos, os canos voltados para mim.
Shane desaparecera. Um minuto depois, o primeiro balde apareceu junto à amurada do navio e Shane desceu-o até o bote. Quando se encontrava a um metro e meio da água, ele o soltou. O balde afundou e ele o trouxe de volta à superfície, com água escorrendo pelos lados.
Eu ri. Grandes mentes pensam da mesma forma. Shane estava tentando estragar o combustível de modo que viesse a fazer o motor do bote engasgar.
— Não se preocupe — falei pelo rádio. — Já coloquei água suficiente neles.
Os somalis acabariam a duzentas milhas da costa com um pedaço de ferro-velho no lugar do motor.
Os baldes foram descendo um após o outro. Quando peguei o último e o pus no bote, Musso se manifestou:
— Muito bem, precisamos de mais combustível e um pouco de comida.
Olhei para ele.
— Mais combustível? Para onde estão indo? Para a Disneylândia?
Ele riu. Os piratas estavam de volta ao seu elemento — a água — e ainda tinham um comandante americano como refém. No seu entender, não haviam perdido nada. Por isso Musso se dava o luxo de rir das minhas piadas.
Queria afastá-los do meu navio. Posicionei o bote a uns noventa metros a bombordo da popa e desliguei o motor. Ficamos à deriva, esperando.
Pelo rádio, pedi que a tripulação providenciasse os suprimentos extras. Shane foi até a despensa do refeitório e arrumou algumas “refeições noturnas”, nome que dávamos às refeições preparadas pelo cozinheiro para o pessoal que faz a vigília da noite ou do início da manhã, ou qualquer um clinicamente louco o bastante para querer comer aquilo. Não dá nem para adivinhar o que botavam ali. Basta dizer que também era conhecido como “pau de cavalo”, o que, na verdade, era um insulto ao pênis de um equino. Conheci cozinheiros que serviam a mesma coisa durante uma semana inteira, até formar tanto mofo que daria para fazer penicilina. O negócio era inacreditável.
“Refeições noturnas” também levam carne de porco. E esse era o último “fodam-se” de Shane para os somalis, que eram muçulmanos e não comeriam aquilo nem mortos.
Tudo corria bem. A troca enfim podia ser feita. Vi Shane correndo, preparando-se para o momento.
— Muito bem, estamos prontos — disse Shane no rádio.
— Entendido — respondi. Dei a partida no motor do bote de resgate.
Nada.
Liguei de novo. Nada. Não faça isso comigo, pensei. Liguei de novo e ele não emitiu um ruído — nem sequer tentou girar as pás.
— Merda — deixei escapar.
Os piratas olhavam para mim.
— Algum problema, capitão? — disse Musso.
— O motor morreu. Levanta daí. Preciso checar as baterias.
Em princípio, as baterias do bote de resgate devem estar sempre carregadas. Isso era para ter acontecido automaticamente, já que estavam ligadas à rede elétrica do navio. Porém, ao verificar a chave, vi que estava acionada apenas para uma das baterias. A da direita tinha recebido toda a carga, mas agora também estava descarregada. Quando mudei a chave das duas baterias para apenas a da direita, o motor começou a fazer woooo, woooo, woooo e não conseguia pegar.
— Shane, temos um problema aqui — avisei no rádio.
— O que é? — respondeu Shane.
— As baterias descarregaram.
Pude ouvi-lo suspirar.
— Pronto, estamos ferrados.
— Ainda não — falei.
Peguei algumas ferramentas e comecei a trabalhar. Chequei todas as conexões, rezando para encontrar um fio solto, mas tudo estava no lugar. O problema era mesmo com as baterias.
Então cometi meu erro número 2,5. Eu não queria sair do bote de resgate. Era uma embarcação aberta. Se alguém aparecesse para nos ajudar, os piratas não teriam como se esconder. É verdade que ficaríamos cozinhando sob o sol quente, mas qualquer um com um fuzil poderia derrubar os somalis como se fossem alvos num parque de diversões.
Eu devia ter ficado bem ali. Mas minha vontade naquele momento era resolver os problemas que aparecessem, pois estava ansioso para acabar com aquilo. Com o bote de resgate inoperante, passei para a minha única opção: a embarcação de salvamento.
A embarcação de salvamento é fechada, com três metros de altura por 7,5 metros de comprimento. É de um laranja vivo e tem um único motor situado do lado de fora, com bancos que mantêm os passageiros sentados de costas uns para os outros e uma cabine mais elevada, com janelas, de onde pode ser manobrada. Produzindo um grande splash, ela desaba na água, caindo de sua estrutura numa queda livre de quase catorze metros de altura. E era a última opção que restava.
— Escutem, precisamos remar de volta ao navio — anunciei. — Este bote não vai nos levar a lugar nenhum.
Voltamos e amarramos o bote ao Maersk Alabama.
— Abaixem as armas — pedi aos piratas. Não queria vê-los apontando seus AK para a tripulação enquanto nos aproximávamos.
O terceiro oficial de máquinas e o contramestre subiram na embarcação de salvamento no convés, depois de carregá-la com o combustível extra e a comida. Apenas um homem era necessário a bordo durante o lançamento, mas o terceiro oficial de máquinas se recusou a sair. Ele queria estar lá caso eu precisasse de ajuda.
Shane queria ir na embarcação, mas expliquei que agora ele era o comandante a bordo do Maersk Alabama e que precisava permanecer onde estava.
— Mas aí eu estaria pondo alguém em perigo — argumentou ele.
— Bem-vindo ao novo emprego — falei.
Quando todos estavam prontos para o lançamento, Shane me deu o sinal pelo rádio.
— Certo — dirigi-me aos piratas. — Não se assustem, essa coisa desaba feito uma pedra e faz muito barulho.
Os três sinalizaram que haviam entendido.
Com um enorme estrondo, a embarcação de salvamento mergulhou na água e depois voltou à superfície. Os integrantes da minha tripulação pararam ao lado do bote de resgate e começaram a transferir os alimentos e o combustível para a nossa nova embarcação. Trocamos de lugar com o contramestre e o terceiro oficial de máquinas, e, felizmente, os piratas não fizeram nenhuma tentativa de tomá-los como reféns. Só mais tarde vim a saber que tanto o contramestre como o terceiro oficial de máquinas levavam facas escondidas. Estavam prontos para pular sobre os somalis na primeira oportunidade, mas não tiveram uma chance.
— Boa sorte — falei ao contramestre quando nos preparávamos para partir na embarcação de salvamento. — Faça com que icem você logo lá para cima. E, se alguma coisa acontecer comigo, não se preocupe. Só trate de dar o fora daqui. Também não se preocupe com o bote de resgate. Os piratas podem querer voltar aqui para tentar levá-lo também.
Dei a partida na embarcação de salvamento e o motor pegou. O terceiro oficial de máquinas e o contramestre jogaram as cordas, soltando a embarcação.
Enquanto manobrava, bati com a popa no navio. O choque produziu um forte baque.
— O que foi isso? — gritaram os piratas.
— Isso sou eu tentando me acostumar com essa coisa — respondi.
Minha intenção tinha sido avariar a hélice. Não queria ir a parte alguma com os somalis. Só que essas coisas são construídas para garantir a sobrevivência de quem está a bordo, e a hélice continuava a funcionar perfeitamente.
Minha sorte estava mudando. Para pior.
___
Em Underhill, Andrea circulava pela nossa casa de fazenda usando meu casaco de fleece, que
ainda tinha o meu cheiro. Ela estava irritada consigo mesma por ter lavado as roupas depois de eu ter ido para a África, pois aquele agasalho era a única coisa que ainda conservava o
meu cheiro.
— Eu não largava aquilo de jeito nenhum — contou ela mais tarde. — Era o que eu estava vestindo no momento em que soube que você tinha sido sequestrado. À noite, eu largava o casaco na cama, e minha amiga Amber e eu nos cobríamos cada uma com uma parte dele e dormíamos.
Por volta de meio-dia de quarta-feira, meu nome chegou até a mídia. De repente, as equipes dos noticiários locais começaram a aparecer na nossa fazenda e estacionar na entrada. A irmã de Andrea, como uma típica habitante de Vermont, convidou-os para um café. No início da tarde, a casa estava repleta de repórteres e cinegrafistas locais sentados no nosso sofá, beliscando biscoitos e vendo Andrea assistir ao noticiário. O pai de Shane Murphy ainda o chamava de capitão do Maersk Alabama — o que tecnicamente era o correto, uma vez que o imediato assume quando o comandante deixa o navio —, porém aquilo dava a Andrea a impressão de que eu havia sido esquecido. Meu nome ainda não aparecera nos noticiários nacionais.
Àquela altura, Andrea conjecturava: Bem, a situação é a seguinte. Um navio é sequestrado. Vão pedir um resgate. A empresa vai fazer jogo duro por um tempo. Depois pagará o resgate. A tripulação será liberada e todos ficarão felizes e estarão a salvo. Alguns homens da marinha mercante que me conheciam ligavam para ela e diziam:
— Andrea, você sabe como os piratas costumam agir... Eles têm um plano de negócios. Só querem o dinheiro. Não querem machucar ninguém.
— Eu sei, eu sei — respondia ela. — Se conheço Rich, neste momento ele está desfiando piadas sem graça. E vai voltar para casa com uma história e tanto para contar.
E Andrea rezava para ser só isto: um sequestro normal, desses que acontecem toda hora. Ela não queria nada de heroico.
Nossa filha, Mariah, ligou de volta.
— Mãe, o que aconteceu com o papai?
Andrea contou o que sabia e conseguiu manter o autocontrole. Isso definiu a forma como nossos filhos receberam a notícia. Mariah era forte; estava muito preocupada, mas não histérica. “Quero ir para casa”, disse ela. Andrea tentou convencê-la a ficar na faculdade, mas Mariah se mostrou inflexível. Dan também ligou. A mãe deu a ele a opção entre permanecer na universidade ou voltar para casa, e ele escolheu ficar para os últimos dias da semana de provas.
— Quero concluir as provas — explicou ele. — Estudei muito, mãe, e sei que o papai me diria para ficar e terminar tudo.
— Isso é exatamente o que ele diria — concordou Andrea.
Eles tinham razão. Vocês têm ideia de quanto pago por aquela faculdade? Dan ficou para concluir suas tarefas. O fato de estarem unidos, minha mulher acreditava, daria aos nossos filhos condições para lidar com as notícias que viriam.
Após se certificar de que os dois estavam bem, ela voltou a se concentrar na TV, alternando entre os principais canais de notícias. Eram o único elo que a mantinha ligada ao que estava acontecendo a milhares de quilômetros dali. Nada em especial fora feito para manter Andrea e outros familiares informados.
Uma coisa, mais tarde ela me contaria, ajudou-a naquele primeiro dia. Nunca digo adeus ao partir para um serviço. Odeio esse negócio de “olá” e “adeus”. Só gosto de ouvir a parte que, segundo Andrea, “tem a ver com a vida de verdade” que acontece entre um e outro. Então digo sempre “até mais” ou “volto logo”. Um dos dois.
Isso ajudou Andrea a suportar toda aquela situação. “Ele me disse ‘volto logo’”, dizia a si mesma. “E eu acredito nele.”
Ela foi para a cama sem imaginar o que a esperava nos próximos dias.
___
Manobrei a embarcação para bombordo do navio, onde se encontrava a escada do prático. Quatro ou cinco tripulantes estavam parados no alto dela. Eu podia vê-los por uma das
janelas. A visibilidade era muito mais limitada que a do bote de resgate, que é aberto — ali seria preciso se abaixar e se contorcer para conseguir ver algo através das janelas de trinta
centímetros.
— Muito bem, estamos prontos para a troca — informei a Shane. — Faça o Líder começar a descer à medida que nos aproximamos. Não quero esses caras subindo pela escada e tomando o navio de novo, certo?
— Entendido — respondeu Shane.
— Estou indo com a embarcação de salvamento — continuei.
Vi dois tripulantes escoltando o Líder ao longo do convés. Ele trazia um trapo branco em volta da mão.
— Deixe que ele desça e, quando tiver uma chance, eu subo — falei.
Manobrei para ficar ao lado do navio, batendo o bote no costado do Maersk Alabama. O fim da escada ficava mais ou menos um metro acima da cobertura do salva-vidas. Vi o Líder descer até o fim da escada e então saltar para dentro do bote, que sacudiu com o impacto.
— Pirata a bordo — alertei pelo rádio. O Líder veio na minha direção. Era óbvio que sua mão o incomodava, mas ele parecia estar de bom humor.
Eu também sorria. Tinha cumprido minha obrigação como comandante. Agora, tudo o que precisava fazer era me salvar. Se visse uma chance, era só agarrá-la. O mais básico dos instintos — o da sobrevivência — despertou em mim.
— Me mostre como manobrar — ordenou o Líder.
Eu mostrei. Desliguei o motor e voltei a ligá-lo algumas vezes. Ensinei-lhe como manipular o leme e dar a partida e indiquei onde se encontrava a bússola. Ele tinha um curso que desejava seguir — 340 graus — e eu disse a ele como fazer isso. Depois me afastei e deixei que tomasse a cabine de manobra, uma plataforma um pouco mais alta que os bancos dos passageiros. Ele assumiu o timão e distanciou a embarcação do Maersk Alabama, aumentando a velocidade.
— E o acordo? — perguntei, chocado.
— Não tem acordo nenhum — disse o Líder.
Meu erro número três: não faça acordos com piratas. Nunca deveríamos ter feito a troca.
Não fiquei surpreso com a traição. Ainda me sentia um passo à frente deles naquele jogo. Tinha resolvido três dos meus quatro grandes problemas: minha tripulação, o navio e a carga estavam a salvo. E agora eu dependia da minha sorte e da minha perseverança para salvar a mim mesmo.
Os somalis me empurraram na direção da proa. Olhei a escotilha na parte de cima e pensei na possibilidade de tentar me atirar através dela e pular no mar, mas era uma abertura horizontal. Eu precisaria me esticar mais de um metro para depois mergulhar na água. A essa altura alguns tiros de AK-47 já teriam atingido as minhas costas, então desisti da ideia.
— Estamos partindo — informei pelo rádio. — Nada de acordo.
O Líder estava se familiarizando com o timão, girando-o para um lado e para o outro. Próxima parada, Somália, pensei. Sabia que era para lá que os piratas me levavam. Era desse jeito que eles operavam. Lá negociariam o preço pela minha cabeça. Lá se encontravam quem os financiava e seus reforços.
Começava a escurecer. Nos trópicos, o entardecer é mais demorado pela proximidade da linha do equador. E a lua estava quase cheia. Ainda podíamos ver o Maersk Alabama não muito longe. Suas luzes estavam acesas, a fumaça saía de sua chaminé e deixava um rastro de espuma na sua passagem.
Os piratas olharam para trás espantados, como se dissessem Caramba, ele está se mexendo, imagine só. Lá estava ele, o navio quebrado, sem chance de qualquer conserto, agora funcionando perfeitamente. Lá estava a tripulação desaparecida, andando de um lado para o outro e fazendo seu trabalho. Os somalis mal podiam acreditar no que viam.
Eu estava prestes a apertar o botão do rádio e avisar para que ficassem de olho em outros possíveis barcos piratas quando ouvi Mike no rádio: “Certifiquem-se de que não há outras embarcações pequenas se aproximando de nós pela popa.” Balancei a cabeça com aprovação. Eu sabia que o navio estava em boas mãos.
Fiquei muito feliz ao ver que estavam a caminho. Ainda nos encontrávamos em território dominado pelos bandidos, e nada impedia que outro grupo de piratas aparecesse de repente para tomar o Maersk Alabama. Se o navio estivesse à deriva, a tripulação não teria chance.
Então ele virou sua proa na nossa direção e os sorrisos desapareceram dos rostos dos somalis. O Maersk Alabama avançava rápido ao nosso encontro, e daquele ângulo se parecia com o Queen Mary. Eu não estava preocupado. Sabia que, se o navio nos acertasse, a embarcação apenas afundaria um pouco abaixo da superfície da água e depois voltaria à tona. Não, não contei aos somalis nada sobre essa característica surpreendente daquele bote salva-vidas moderno.
— Aquele imediato vai nos atropelar — disse o Líder.
— Pode apostar que sim — retruquei. — Ele quer o meu emprego. Está louco para conseguir isso desde que saímos de Salalah.
Musso, com sua arma apontada para mim, arregalou os olhos.
— Você! Levanta e vem aqui! — gritou o Líder para mim, pulando da plataforma de manobra.
— Está bem — concordei.
— Diga a eles que parem de se aproximar — disse o Líder. — Mande nos deixarem voltar a bordo.
Assumi a manobra e contornamos o Maersk Alabama. Passei pela proa, dei a volta ao largo do navio e repeti o trajeto. Fiquei no timão durante uns trinta minutos até finalmente o Maersk Alabama diminuir a velocidade e avançar bem devagar, ficando a menos de cem metros da embarcação.
A noite caiu.
___
Os piratas agora estavam no rádio, falando com Shane.
— Ei, vamos voltar amanhã — afirmaram.
— Claro, vamos começar tudo de novo — respondeu Shane. — Foi só um mal-entendido.
— É, você vai nos deixar subir — disse o Líder.
— Com certeza — brincou Shane. — Apareça aqui pela manhã. Temos comida e água para vocês.
Pode parecer estranho, mas todos estavam aliviados pelo rumo que as coisas haviam tomado.
A única coisa que incomodava os piratas era o céu. Os somalis estavam sentados na popa da embarcação, examinando o céu noturno em busca de aviões e helicópteros. No seu íntimo — eu achava — permanecia ainda a ideia de que alguém viria me salvar. O céu estava tão limpo que era possível ver satélites passando lá em cima. E chegamos a avistar dois aviões — um grande e depois um menor que nos sobrevoou e voltou, voando em círculos.
Os piratas pareciam imaginar que um avião viria ao meu socorro. E não gostavam da ideia. Continuaram a observar o céu, tentando ouvir o zumbido do motor de uma aeronave. Era como se esperassem que a força aérea nos bombardeasse ou lançasse uma escada mágica para me resgatar.
Acionei o rádio.
— Quatro piratas, dois na escotilha da popa, um no timão e outro na escotilha da proa. Dois AK na escotilha da popa, uma pistola com o pirata no timão.
Ouvi Shane confirmar que escutara. Continuei:
— Vou me aproximar da porta de ré. Se ouvir o barulho de algo caindo na água ali, sou eu. Aproxime-se desse ponto e sairei do outro lado do seu navio.
Se eu conseguisse escapar — e esse era um grande se —, queria que o Maersk Alabama estivesse entre mim e a embarcação de salvamento.
Os piratas me puseram no terceiro banco, a bombordo. Dali eu tinha uma boa visão do timão, assim como do restante da embarcação, e eu queria ficar lá, sem mudar de lugar. Assim, qualquer aliado que pudesse aparecer saberia exatamente onde eu me encontrava. Fogo amigo mata do mesmo jeito que fogo inimigo. Pelo rádio informei à tripulação precisamente em qual assento eu estava.
Os piratas fecharam as duas escotilhas. Acho que temiam que homens-rãs pudessem subir a bordo. Foi então que começamos a sentir o calor: insuportável, implacável como o de uma sauna, dominava a embarcação inteira. Um verdadeiro inferno.
Devo ter cochilado uma ou duas vezes. Acordei por volta das duas da manhã de quinta-feira. Olhei para fora e tive uma das visões mais lindas da minha vida: um navio da marinha de guerra norte-americana soltava fumaça pela chaminé e avançava na nossa direção a uma velocidade de trinta nós, holofotes acesos no convés, sirenes tocando e os alto-falantes berrando. O refletor era tão intenso que iluminava o interior da embarcação como se fosse um set de filmagem.
— Apaguem a luz, apaguem a luz — gritou o Líder no rádio. — Nenhuma ação, nenhuma ação militar.
Meus compatriotas tinham chegado. Senti que eu recobrava o ânimo.
___
Na quarta-feira, a imprensa divulgava que os piratas haviam me levado na embarcação de
salvamento. Andrea pensou: Meu Deus, como isso pode ter acontecido?
Àquela altura, os canais de notícias tinham conseguido se comunicar com o primeiro oficial de náutica no Maersk Alabama, que informara: “Eles pegaram um dos nossos tripulantes. Preciso ir! Estou no timão do navio!” E então desligou. O primeiro oficial de náutica não estava no timão. Acho que naquele momento todo mundo estava um pouco maluco.
Na manhã de quinta-feira, minha cunhada Lea concedeu uma curta entrevista a alguns noticiários matinais. Isso marcou o início da avalanche da imprensa nacional que se abateu sobre a nossa casa. No final daquela manhã, todo um cortejo de vans munidas de antenas parabólicas avançava pela estrada de duas pistas que passa em frente à nossa caixa de correio para estacionar no quintal. A cada vez que Andrea pisava fora de casa, um bando de jornalistas começava a gritar: “Queremos uma foto sua, queremos falar com você, queremos uma entrevista.” Andrea saiu e disse:
— Pessoal, eu trabalho num local público e não quero esse tipo de publicidade.
Ela também tentava proteger nossos filhos daquele frenesi. Logo a coisa chegou ao ponto em que Andrea, ao olhar por uma janela, percebeu um fio elétrico ligando a van de uma das equipes a uma tomada da casa. Tenho certeza de que os responsáveis pediram permissão ao irmão dela ou a outra pessoa, e esse alguém deve ter pensado: “Claro, por que não?” Normalmente somos pessoas afáveis.
Algo insuportável para Andrea e minha família, do ponto de vista emocional, eram os constantes rumores. Jornalistas ligavam para nossa casa dizendo: “Ouviu o que X acabou de dizer?” ou “Temos informações não confirmadas de Y”. De todo lado chegavam fofocas e especulações: outros piratas estariam a caminho para ajudar os sequestradores, o pagamento de um resgate estava sendo negociado, a embarcação de salvamento estava sem combustível. Andrea e seus amigos atendiam a todas as ligações já ao primeiro toque, ansiosos por boas notícias. E, quando diziam coisas que mais tarde se revelavam infundadas, ela pedia: “Por favor, não façam isso comigo. Estão me deixando louca.” Até o celular dela a imprensa havia conseguido. Andrea ficou espantada até se dar conta de que a mensagem da nossa secretária eletrônica informava o número. Rapidamente tratou de apagá-la, mas o estrago já estava feito.
Os repórteres tornaram-se cada vez mais insistentes. Na quinta-feira, todos começaram a dizer: “Vá e fale com eles.” Ingenuamente, acreditavam que, se Andrea falasse, eles iriam embora. Então ela resolveu conceder uma breve entrevista. Sua única gravação para a TV tinha sido na quarta-feira, mas aquilo abrira uma caixa de Pandora. No dia seguinte, as três redes nacionais ficaram se revezando e competindo para ver quem conseguiria botá-la no ar. O telefone não parava de tocar.
Havia um fluxo constante de pessoas na nossa casa. Cartas e cartões-postais de desconhecidos lotaram a caixa de correio. Até os escoteiros apareceram e limparam o quintal, sem que ninguém tivesse pedido. Os dois senadores de Vermont, Patrick Leahy e Bernie Sanders, ligaram, assim como os deputados locais e funcionários municipais. Até Ted Kennedy deixou seu telefone, pedindo que ligasse se houvesse algo que ele pudesse fazer. Todos se mostravam muito solidários, inclusive um casal da comunidade somali da região, que apareceu para entregar pessoalmente uma mensagem, contando que os dois estavam orando por Andrea e pela nossa família.
Na tarde de quinta-feira, a avalanche de telefonemas e cartas, assim como o constante assédio da imprensa, havia se tornado avassaladora. Até o diretor-executivo da Maersk, John Reinhart, telefonara, mostrando-se incrivelmente preocupado e atencioso.
— Preciso de Richard — disse-lhe Andrea. — Quero Richard. Por favor, traga meu marido para casa.
Ela havia marcado uma entrevista coletiva e estava à beira de um ataque de nervos. Andrea odeia falar em público e isso a deixou muito estressada. Por fim, Pete Johnston, um amigo nosso da LMS Ship Management, ligou para saber notícias e Andrea falou sobre sua angústia de falar com a imprensa.
— Você não precisa fazer nada. Não é obrigada a dizer uma palavra — falou Pete.
Ela quase desmaiou de alívio. Mas alguém teria que sair e anunciar essa decisão. Nosso pobre vizinho, Mike, o primeiro a avisar Andrea sobre o sequestro, se dirigiu até a frente da casa e deu a notícia a todos, embora ele próprio odiasse falar em público tanto quanto Andrea. Numa crise, um bom vizinho vale ouro.
Outra ajuda importante estava a caminho: duas admiráveis funcionárias do serviço de atendimento às vítimas do FBI, Jennifer e Jill, passaram a ligar para Andrea com as informações mais recentes. O Departamento de Defesa também começou a lhe transmitir os boletins à medida que chegavam, de modo que ela não precisava mais ficar ligada na TV, pulando de canal em canal, para saber se eu ainda estava vivo.
— Eu me lembro de ter dito a uma delas: “Para você, Richard é só mais um cara, mas para mim é a minha vida, meu futuro, meu tudo. Preciso tê-lo aqui de volta” — contaria ela mais tarde.
Lá fora, no meio do oceano, eu só podia imaginar o martírio pelo qual minha mulher estaria passando.
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O contratorpedeiro americano brincava de gato e rato com os piratas. Às vezes chegava bem perto da embarcação, a boreste, e então mudava de direção. Quando estava a meia milha,
investia novamente contra nós, passando rápido, para então se afastar. Era uma maneira agressiva de dizer: A qualquer hora que quisermos, podemos afundar seu barco.
O Maersk Alabama estava de volta, a distância, talvez a três milhas de nós. Eu sabia que ele estava fora de perigo agora que a ajuda militar tinha chegado.
Ouvi alguém da marinha anunciar o nome do contratorpedeiro no rádio: o USS Bainbridge. O nome me fez sorrir. O navio só podia ter sido batizado em homenagem a William Bainbridge, um homem da marinha mercante que, depois de ir para o mar aos catorze anos, acabara evoluindo na carreira até se tornar um comodoro ousado e impetuoso da marinha dos Estados Unidos. Em 1803, Thomas Jefferson enviou Bainbridge a Trípoli, no auge dos ataques dos piratas berberes, para subjugar os bandidos. Só que, em vez de fazer isso, ele rumou para o litoral e acabou aprisionado pelos piratas. Agora um navio com seu nome estava aqui para ajudar a me libertar dos herdeiros dos corsários berberes: os piratas somalis. Era uma incrível coincidência. Porém um detalhe me incomodava: Bainbridge fora mantido prisioneiro durante dezenove meses antes de recuperar sua liberdade.
O Líder subiu na plataforma de manobra e nos manteve em movimento. Ele retomou nosso rumo, sem passar de uma velocidade de seis nós. Havia uma bússola magnética a bordo, de modo que podia determinar sem grande dificuldade a direção da costa da Somália. E obviamente ele queria manter o motor funcionando no caso de a marinha tentar tomar a embarcação de assalto. A rotina habitual dos piratas a bordo era manter dois caras na popa com os AK apontados para mim, o Líder na cabine de manobra com uma pistola 9mm, e o quarto homem na proa, em geral dormindo. Eles se revezavam nessas posições para se manterem descansados. Por rádio, passei as posições dos piratas para Shane. Àquela altura já me encontrava na embarcação de salvamento havia pouco menos de 24 horas.
A quinta-feira correu em meio ao torpor provocado pelo calor. Odeio calor. Sou do tipo que torce para que caia logo a primeira neve em Vermont. Gosto da sensação de frio na minha pele. Se a temperatura passa de 26ºC, já me sinto infeliz. E, às seis da manhã, a temperatura ali com certeza já passava de 40ºC. A partir daí, o calor só piorava. O suor escorria pela minha testa, irritando os olhos. O motor ficava embaixo do piso e o cano de escape corria por debaixo do bote, de modo que, com o funcionamento constante, o calor se propagava pelo chão. Chegava ao ponto de impedir que a gente sequer baixasse os pés, de tão quente que estava o piso.
Seja em que embarcação for, sempre ansiamos pela hora em que o sol nasce. É como se voltássemos a ter como referência um calendário da antiguidade, no qual nosso tempo é medido pelo ângulo do sol. Porém, a bordo daquele salva-vidas, eu odiava as manhãs, pois com o alvorecer aumentava o calor. Eu torcia para que chegassem logo o crepúsculo e a escuridão, promessa de algum alívio para a temperatura escaldante.
A marinha fez contato pelo rádio. Queriam nos enviar comida e água. Os piratas deram permissão. Não pude ver como puseram aquelas coisas ali, mas devem ter mandado um bote inflável ou algo parecido, e à medida que ele se aproximava — dava para ouvir o motor — eu pensava: A liberdade agora está a seis metros de distância . A marinha atirou uma caixa de comida na água. Era visível a tensão nos rostos dos piratas. Demos voltas ao redor da caixa; um dos somalis abriu a porta da popa e puxou-a para dentro.
A marinha, na sua infinita sabedoria, nos mandara transmissores de rádios portáteis, pilhas, água e Pop-Tarts, um tipo de tortinha recheada. Caixas de Pop-Tarts de chocolate. E apenas Pop-Tarts. Andrea adora essas tortas, mas eu realmente não sou fã delas, e não conseguia entender por que diabos o comandante do Bainbridge optara por enviar aquilo. Será que elas continham algum segredo nutricional que eu ignorava? Ou teriam botado algum tipo de sonífero nelas?
Fazia tanto calor que eu não conseguiria comer nada de qualquer jeito. Meu estômago roncava e eu estava faminto, mas a comida não me apetecia. Bebi um pouco de água e peguei um dos rádios militares que a marinha enviara. Mais tarde eu descobriria que eles continham um dispositivo que eu nunca vira antes. Ao apertar o botão de “Falar”, o aparelho emitia um bipe. Nos rádios de uso civil, um ruído como aquele significava que a pilha estava acabando, e achei que era só isso. Por isso ficava dizendo aos piratas: “Troquem as pilhas, elas estão descarregando.” Estava preocupado com a possibilidade de os rádios pararem de funcionar e com isso perder o único vínculo que me ligava ao mundo exterior. Àquela altura, o rádio portátil que trouxera do Maersk Alabama já estava mudo. Mais tarde, a marinha me informou que todos os seus rádios emitem aquele bipe quando é acionado o botão de “Falar”.
Os piratas também estavam sofrendo com o calor. De vez em quando, um deles abria a porta da popa e mergulhava na água para se refrescar. Ou iam ali para urinar no mar. Naquele dia me deixaram ir até a porta para fazer o mesmo. Mantiveram pelo menos duas armas apontadas para mim enquanto eu estava de pé ali. Dava para ver o Bainbridge a distância, mas as chances de fuga eram nulas. Não consegui nem urinar. Era como estar no mictório de um estádio depois de tomar quatro cervejas nos primeiros quinze minutos de jogo e ter quatrocentos sujeitos na fila atrás de você, esperando pela vez deles. Pressão demais. Eu disse:
— Esqueçam. Não vai rolar.
O ambiente ali não era pesado. Os piratas não se mostravam abatidos. Sentiam que ainda estavam numa situação vantajosa. Tinham um refém nas mãos e não precisavam lidar com um navio gigantesco ou olhar para trás preocupados com o risco de um tripulante golpear suas cabeças. Na verdade, tenho certeza de que, no futuro, os piratas vão começar a fazer isso de propósito — invadir um navio, lançar um bote salva-vidas no mar e tomar como reféns o comandante e outro integrante da tripulação. Para eles, é uma estratégia eficaz. É bem mais fácil lidar com um ou dois reféns do que com vinte. Acredito que é apenas uma questão de tempo até vermos essa estratégia posta em prática no litoral da Somália.
Fiquei feliz em ver a marinha ali, mas não acreditava que aquilo fosse mudar tanto assim a minha situação. Eis o padrão seguido em outros episódios de captura de reféns: os piratas tomam o navio, fazem reféns, os levam para a costa e obtêm um resgate. Qualquer navio da marinha francesa, britânica ou de qualquer outro país que os seguisse até a Somália estava ali apenas para assegurar que os reféns não fossem levados para a costa e conduzidos a algum esconderijo. Tirando isso, eles se mantinham a distância. Resgatar reféns não era o seu departamento.
Não me ocorreu a ideia de que a marinha tentaria intervir. Na minha cabeça, eu ainda me encontrava sozinho numa embarcação de salvamento no meio do nada e cabia a mim a missão de me salvar. Pensar que a CNN estava pondo no ar flashes atualizados sobre a minha situação e que o presidente dos Estados Unidos acompanhava o progresso das negociações estava além da minha imaginação.
Na maior parte do tempo, a conversa a bordo se resumia a observações bem-humoradas. Os piratas não me ameaçavam — ainda. O principal tema de conversa era aquele bando de idiotas filhos da mãe com os quais eu navegava.
— Aquele oficial de máquinas doido — disse um deles. — O imediato também. Que pé no saco. Qual é o problema com eles?
Era como se o chefe de máquinas tivesse quebrado algum código de boas maneiras do mar segundo o qual sempre se deveria ajudar os piratas a tomar o navio alheio. Os outros somalis faziam piada sobre o modo como a tripulação os tinha enganado, mas o Líder estava de fato irritado.
— Por que sua tripulação me atacou? — disse o Líder, em tom de acusação. — Eles me esfaquearam!
Eu quase ri. Você toma meu navio com fuzis AK-47, ameaça matar todo mundo e fica ofendido só porque alguém cortou sua mão?
— Bem, você estava atirando neles — falei. — Você os assustou. O que esperava?
À medida que o tempo foi passando, mostrei aos piratas onde ficava tudo na embarcação: o kit de primeiros socorros, a água, o equipamento de sobrevivência, as lanternas, a comida. Ansiosos para ver os suprimentos que tínhamos, começaram a abrir os sacos plásticos e a arrancar o conteúdo. Com isso estragaram o que pretendiam usar e as coisas que, mais tarde, poderiam ser necessárias. Enquanto reviravam os sacos, reparei que o Líder segurava a mão machucada com a outra mão e que, de vez em quando, seu rosto se contorcia numa careta de dor.
— Ei! — chamei-o. — Você limpou esse ferimento?
Ele fez que não com a cabeça.
— É melhor limpar. Se esse negócio infeccionar, a coisa vai ficar feia.
Os piratas abriram a caixa de primeiros socorros e começaram a passar garrafas e pacotes de mão em mão. Era óbvio que a Somália não contava com um sistema de saúde de primeira classe, pois eles olhavam para aqueles suprimentos médicos como se examinassem artefatos arqueológicos maias.
— O que é isso? Para que serve essa coisa?
— Me passa isso aí — pedi.
Musso empilhou tudo de volta na caixa e trouxe para mim, me entregando o que eu lhe pedia: soro fisiológico, gaze e esparadrapo. Enrolei um pedaço de gaze, peguei o canivete que trazia no bolso, abri a lâmina e comecei a cortar tiras de bandagem e a colocá-las sobre os meus joelhos.
De repente fez-se um silêncio. Ergui os olhos e vi todos os piratas me encarando.
— Que foi? — perguntei.
— Onde conseguiu isso?
— Isso? — falei, segurando meu canivete. Tinha me esquecido completamente de que não sabiam sobre ele. — Bem, vocês querem meu canivete?
Eu ri, e Musso e Comprido também riram. Entreguei o canivete a Musso. O Líder também pediu meu relógio, então tirei e dei a ele. Ele já estava com a minha lanterna.
O Líder choramingava como faziam os meus filhos ao caírem da bicicleta. Desenrolei o trapo sujo que envolvia sua mão e vi alguns talhos menores na palma. Ele prendeu a respiração.
— Ah, até que não está tão ruim — eu disse. O Líder se comportava como se sua mão tivesse quase sido amputada. Não dava para acreditar na rapidez com que aquele pirata havia se transformado num bebê chorão.
Coloquei um pouco de soro no ferimento e limpei toda a fuligem e sujeira. Passei, então, um pouco de pomada nas feridas, apliquei um antisséptico, envolvi a mão em gaze limpa e, cuidadosamente, prendi tudo com esparadrapo. Dei-lhe então um anti-inflamatório e disse para tomar um daqueles de oito em oito horas.
— Precisa fazer isso todo dia — recomendei.
O Líder assentiu.
Eu acreditava que fazendo isso eles teriam um pouco de boa vontade.
___
Comecei a formar uma ideia melhor a respeito da personalidade de cada um dos piratas.
Comprido e Musso eram os que mais sorriam. Mostravam-se mais descontraídos, dispostos a conversar, e assumiam o comando quando o assunto era navegação. Talvez esses caras sejam
marinheiros, pensei. Sem dúvida sabiam se virar num barco.
O Líder raramente abria um sorriso. Era inteligente, sempre me encarando e tentando descobrir o que eu tramava. Ele não conseguia aceitar o fato de que meus compatriotas ianques tinham estragado seus planos. Falando francamente, ele me lembrava alguns comandantes com os quais eu havia navegado. O mundo girava ao redor dele e de mais ninguém. Mas reconheço: era um líder eficiente. Mantinha total controle sobre a embarcação e seus homens seguiam suas ordens ao pé da letra.
Um incidente naquele primeiro dia confirmou meus pensamentos sobre as prioridades do Líder. Depois de já ter se familiarizado com os controles da embarcação, ele deixou o timão e pediu para ver o dinheiro. Um dos outros somalis lhe passou a sacola e ele tirou de dentro os dois bolos de notas de cem, um com notas de cinquenta, depois as de vinte, cinco e dez. Começou a dividir o total em pilhas, uma para cada um dos piratas.
Era como se dissesse: “Uma para você, uma para você, uma para você e uma para mim.” Só que ele botava a maior parte das notas de cem na pilha dele, sobrando para os outros as notas de dez e de cinco. No meu íntimo, eu ri. Seu filho da mãe. Não existe mesmo honra entre ladrões. Os outros piratas não disseram uma palavra. Mais tarde, quando me deram um saco para me recostar, pude sentir dentro dele os maços de notas, mas nunca mais vi o dinheiro.
Jovem era apenas isso. Jovem. Parecia menos embrutecido do que os outros. Eu podia imaginá-lo desistindo do ramo da pirataria para se tornar um pacato cidadão em Mogadíscio ou seja lá qual fosse sua cidade. Ou poderia se tornar um tipo feito Charlie Manson, o mentor intelectual frio e alucinado do assassinato da atriz Sharon Tate e de mais seis pessoas. De vez em quando eu o surpreendia olhando para mim como se eu fosse um peru numa gaiola na manhã de um Dia de Ação de Graças, e ele o cozinheiro experimentando o fio da lâmina do machado com o polegar. Tinha potencial para se transformar num maníaco, mas ainda não chegara a esse estágio.
A certa altura, quando os outros três piratas estavam ocupados na manobra, comecei a dar alguns conselhos para ele. Não sei o que me ocorreu, mas ele me pareceu um garoto imaturo que perdera a noção das coisas.
— Seria melhor se afastar desses caras — falei. — Eles vão acabar levando você por um caminho que vai dar em lugares bem ruins. Você pode escolher outro rumo para a sua vida.
Ele sorriu e concordou com um aceno de cabeça. Mas não estou muito certo de que a mensagem chegou ao seu destino.
Por volta do meio-dia, o calor havia se tornado tão intenso que os piratas decidiram quebrar as janelas do bote. Comprido foi até a pequena cabine onde se encontrava o timão e começou a investir seu AK-47 contra a janela de acrílico, acima da cabeça do Líder, que mantinha o rosto virado. A cada pancada, o cano da arma passava a poucos centímetros da cabeça dele. E o pente com a munição continuava na arma.
Meu Deus, pensei, esses caras são uns idiotas. Vão acabar disparando em alguém sem querer, e a marinha vai vir para cima da gente atirando com todo seu arsenal.
— Ei, ei! — gritei para o Líder. — Diga a ele para tirar o pente antes que acabe metendo uma bala na sua cabeça.
O Líder olhou para mim e falou algo com Comprido em somali. Comprido tirou o pente de munição do fuzil e voltou a bater nas janelas. No final conseguiu quebrar duas delas, mas entrou muito pouco ar pelas aberturas. À noite soprava uma brisa agradável, mas durante o dia só nos restava ficar sentados lá, cozinhando.
De algum modo, a marinha conseguira em tempo recorde arrumar um intérprete somali e colocá-lo a bordo do Bainbridge. Era ele quem falava com os piratas agora. O Líder ligava o rádio transmissor e dizia: “Chamem o Abdulah, chamem o Abdulah, chamem o Abdulah.” Uma vez que Abdulah entrava em cena, eu não conseguia mais entender o que falavam, mas tinha certeza de que pediam um resgate e que a marinha queria saber como eu estava. De vez em quando eu gritava algo — “Sou Richard Phillips, do Maersk Alabama” — quando o Líder ligava o rádio, só para a marinha saber que eu ainda estava vivo.
Eu vestia só calça e meias. Tinha deixado os sapatos no bote de resgate e fazia calor demais para usar uma camisa. Passava o dia encharcado de suor. E começava a me sentir frustrado por não ter tido uma oportunidade de fugir. Estava enlouquecendo ali e pensava com meus botões: Não seja um banana! Se vir uma chance de sair daqui, tente!
Eu também rezava. “Deus, me dê a força e a paciência para perceber minha chance e aproveitá-la. Sei que só vou ter uma oportunidade. Que eu tenha sabedoria para perceber a hora certa.” Nunca rezei para fugir, só pedia força, paciência e bom senso para saber agir. Acredito que Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos. Pedir a Ele para fazer todo o trabalho não é o meu estilo.
Mas nada aumentava minhas chances de escapar. Não havia um único momento em que não estivesse sob os olhos atentos dos somalis. Comecei a me perguntar se algum dia eu teria minha oportunidade.
___
Em casa, Andrea não vinha dormindo muito bem. Costumava deitar do meu lado da cama só
para sentir alguma proximidade, com o meu casaco de fleece dividido entre ela e Amber, cada uma segurando numa manga do agasalho.
— Só queria muito ficar ligada a você — contou Andrea mais tarde. — Dizia a mim mesma: “Rich, se você pode me ouvir, se pode me sentir, eu estou bem e vamos conseguir sair dessa juntos.”
Era isso que tornava tudo tão difícil para ela: toda vez que eu estivera doente ou machucado, ela ficara bem ali, ao meu lado, sempre como uma autêntica enfermeira. Mas agora não era possível. Ela não podia me ajudar ou consolar. Não sabia pelo que eu estava passando. E isso era o mais difícil. Acredito mesmo que tenha sido mais duro para ela do que para mim.
Antes do amanhecer era a hora mais difícil. Era o momento em que ela estava totalmente sozinha, sem ninguém de quem precisasse tomar conta. Então rezava para Deus. “Por que estou pedindo isso a você?”, ela se lembra de ter dito. “Você sabe que sou meio pagã. Tenho minhas crenças, mas não vou à igreja regularmente e, quando vemos toda a dor e a infelicidade que qualquer enfermeira de um setor de emergência testemunha, isso acaba corroendo nossa fé.” Mas Andrea continuava a crer e agora precisava de Deus mais do que em qualquer outro momento da sua vida. E ela deixou que Ele soubesse disso.
Alguns dias mais tarde, o padre Privé, antigo sacerdote da igreja St. Thomas, perto da nossa casa, estava sentado à nossa mesa de jantar, segurando a mão de Andrea. Nós dois mantínhamos uma ligação especial com ele. O padre Privé foi o responsável por voltarmos a frequentar a igreja, depois de um tempo sem ir à missa. Andrea voltou-se para ele e disse:
— Padre, o senhor sabe que não somos os melhores católicos do mundo. Mas estou assustada, de verdade. Não quero perder Rich. O senhor tem influência lá em cima... — Ele sorriu, mas Andrea falava sério. — Por favor, reze para que, se houver alguém lá fora que possa ajudar meu marido, Deus dê a ele forças para conseguir fazer isso. — Ele prometeu atender ao pedido dela. “Não conseguia imaginar a possibilidade de não ter você ao meu lado pelo resto da vida”, ela me contou depois.
No mesmo instante em que Andrea segurava a mão do padre Privé, eu estava pensando sobre ele naquela sombria embarcação de salvamento. Sempre gostei dele. Era curiosa a forma como ele contava uma história sobre um dia em que levantara cedo para fazer rosquinhas para o café e ouvira os cardeais discutindo no pátio da paróquia, diante do local onde os pássaros comiam. “E aquilo me fez lembrar de São Tomás”, ele diria, e daí passava para uma parábola bíblica. Além disso, era um homem de coragem. Quando o Vaticano anunciou que não permitiria mais a presença de meninas no altar como coroinhas, ele subiu ao púlpito no domingo e informou à nossa congregação que iria ignorar aquela ordem e manter as meninas ajudando durante as missas. Do seu jeito, ele era um rebelde. Pensar nele e em seus sermões me ajudou a suportar alguns maus momentos em que as horas se arrastavam.
Em Vermont, meus amigos e minha família, mesmo os agnósticos, organizaram uma corrente de orações por mim com ajuda do padre Danielson, nosso atual pároco. Eles fizeram uma prece me desejando força. Foi isso que ajudou Andrea a suportar a situação — sua determinação em me fortalecer. Ela sempre se manteve sintonizada com as necessidades das outras pessoas, não com as suas. É a mãe italiana que existe dentro dela.
Andrea, porém, tinha suas dúvidas. Ela se perguntava: Por que eu seria tão especial? Tenho amigas que enfrentaram divórcios, ou viram seus entes queridos morrer, ou perderam seus lares. Sempre tive sorte. Essas eram as perguntas que tinha a fazer ao padre Privé — e a Deus. Porque a alternativa era terrível demais para ser considerada: “Pensei comigo o que faria se Rich morresse”, disse Andrea. “Como vou seguir em frente? Como meus filhos suportariam a perda do pai?” Mas, lá no fundo do seu coração, ela ainda acreditava que eu conseguiria sair daquela situação.
Ela não tinha respostas para essas perguntas. Tudo que podia pensar era: Fizemos planos para envelhecermos juntos. E tentou parar de pensar na possibilidade de ficar sozinha pelo resto da vida.
___
Andrea estava desesperada por notícias. Em certo momento, ao ler seus e-mails, viu uma mensagem de Shane Murphy, meu imediato:
Andrea,
Aqui é Shane Murphy, o imediato do Maersk Alabama. A última notícia que tive de seu marido é que estava ainda
com moral alto, porém continuava aprisionado. Ele vai derrotar aqueles caras. Sei o quanto ele é forte. Sua força de
vontade é maior que a de qualquer outro comandante com quem já naveguei. E falo sério. Os dezenove homens neste
navio devem a vida a ele e lhe são gratos por cada segundo que respiram em liberdade. A atenção que ele dedicou ao
treinamento e à preparação é o único motivo pelo qual tivemos tempo de reagir da maneira como reagimos. Além disso,
consegui entrar em contato com ele por rádio e transmitir secretamente informações que nos levaram a virar o jogo. Tudo
que posso dizer é que procure manter o pensamento positivo e acreditar que superaremos tudo isso. Os quatro homens
que estão com ele são fracos e estão assustados. Não temos como dizer quanto tempo eles vão mantê-lo lá, mas tenho
certeza de que o capitão Phillips levará a melhor sobre eles.
Espero que esteja conseguindo suportar essas circunstâncias difíceis... Havia vários outros navios piratas armados
convergindo para aquela área e a marinha achou que o mais indicado era tirar nossa tripulação de lá. Sei que seu marido
teria desejado isso, porque é o que ele me disse antes de nos separarmos. Ele não deixaria que eu fosse em seu socorro,
foi bem categórico ao determinar que ele deveria ser o único a partir, e seremos sempre gratos a ele por esse sacrifício.
Boa sorte e seja forte.
SHANE
Andrea ficou realmente tocada pelo meu imediato se lembrar de mim quando ele próprio acabara de escapar do sequestro. E, mais tarde, Shane ligou para ela do navio. Contou que a marinha estava pedindo que saíssem daquela área e rumassem para o Quênia. “Queria que soubesse que nenhum de nós quer deixar Richard para trás”, revelou. Andrea me contou que foi capaz de sentir na voz de Shane o quanto aquilo era doloroso para ele.
— Fico feliz por vocês estarem bem — disse ela. — Façam o que precisam fazer. Se devem ir, então vão.
Era isso que eu teria desejado e Andrea sabia disso.
Nesse meio-tempo, repórteres e jornalistas de todo tipo estavam reunidos em torno da nossa casa, congelando de frio e batendo com os pés no chão para se manterem aquecidos. Por fim, Andrea, sempre habituada a cuidar das pessoas, saiu e começou a dizer:
— Alguma mulher precisa usar o banheiro? Se quiserem, é só entrar. Os rapazes terão que ir no mato.
Porém, no minuto em que botou o pé fora da casa, todos correram na sua direção, gritando:
— Tenho um prazo, tenho um horário! Preciso de algo antes do fechamento do jornal!
Andrea só lhes disse:
— Estou aqui apenas para ver se alguém precisa usar nosso banheiro. Quando eu tiver alguma coisa boa para falar, ficarei mais do que feliz em sair e conversar com todo mundo.
Minha sogra passava pela mesma situação. Quando a imprensa se deu conta de que Andrea não diria nada, decidiram ir atrás de alguma outra pessoa que talvez revelasse algo. Moradora de Richmond, Vermont, a mãe de Andrea, sempre muito afável, estava convidando os jornalistas da TV a saírem do frio e contando a eles, entre um café e outro, a história da nossa vida inteira, sem imaginar que todos os detalhes viriam a aparecer nos jornais. Andrea viu todos aqueles artigos e relatos que diziam coisas como: “Depois do primeiro encontro, Andrea ligou para a mãe e disse: ‘Mãe, acabo de encontrar o homem com quem vou me casar.’” Ela não conseguia acreditar — na noite em que nos encontramos, Andrea não telefonou para ninguém. Ela sabia de onde aquelas histórias estavam saindo. Ligou indignada para a mãe, que retrucou:
— Bem, eles estavam com muito frio lá fora, e eu só os convidei a entrar. Aí começaram a fazer perguntas!
Matt Lauer, famoso apresentador de televisão, ligou para nossa casa e, em sua terceira tentativa de conseguir uma entrevista, Andrea atendeu o telefone.
— Matt, estou falando totalmente em off — disse ela. — Sempre adorei seu programa, então só atendi para dar um alô.
Ele perguntou o que eu pensaria de toda a atenção que aquela história estava atraindo. Andrea contou que eu provavelmente riria e falaria: “Para Andrea a coisa foi mais difícil. Só precisei lidar com quatro piratas. Ela teve que enfrentar toda a mídia.” (Verdade.) Matt riu e disse:
— Somos tão malvados assim?
— São, sim — respondeu ela.
Andrea andava de um aposento para o outro, como se estivesse em transe. Depois viria a me contar que, em determinados momentos, sentira como numa dessas experiências em que nos vemos fora do próprio corpo. Ninguém nunca espera ser a pessoa na capa da revista People. Só conseguimos pensar: Isso não pode estar acontecendo. Isso só acontece com outras pessoas. Não apenas a tragédia, mas a saturação proporcionada pela imprensa, a voz na TV falando num tom impessoal sobre os detalhes mais íntimos da nossa vida. Andrea via uma imagem na TV e pensava: “Ah, meu Deus, é Richard.” O que estava acontecendo era algo extremamente pessoal, mas agora todos viam aquilo se desenrolar como se fosse um filme produzido para a TV.
E Andrea começou a perceber coisas estranhas — em momentos de crise, as pessoas começam a mandar quantidades assustadoras de comida para a casa dos outros: lasanha, chocolate, biscoitos, brownies. Amigos dos quais ela não tinha notícias havia vinte anos telefonavam, mas aqueles com os quais falara na semana anterior nunca ligaram. Algumas pessoas à sua volta ficaram ressentidas por não ocuparem um lugar central na história, mesmo aquilo sendo uma tragédia. E Andrea se deu conta de que, quando nos encontramos sob uma pressão muito grande, temos uma tendência a descontar nas pessoas mais próximas.
— Se eu me sentia frustrada, era agressiva com alguém da família — disse. — Eu precisava ser paciente com as outras pessoas, então a maior parte da minha raiva acabou escoando para a família.
Para ela, sair de casa já era difícil. Porém, na quinta-feira à tarde conseguiu dar uma escapada, saindo pelos fundos para visitar uma vizinha idosa que vivia sozinha. Andrea sabia que ela devia estar preocupada comigo e com as crianças e queria assegurar-lhe que todos estavam bem. Essa pequena caminhada proporcionou a ela uma das poucas chances de pôr as ideias em ordem e ficar sozinha — sem contar os momentos em que ia ao banheiro.
O assédio da imprensa se tornava mais e mais intenso. Enquanto ia de um aposento ao outro, Andrea via repórteres de cada janela. Eles bloqueavam a estrada diante da nossa casa — a única rodovia da cidade — e obstruíam a entrada das casas dos vizinhos. Quando o governador, Jim Douglas, ligou e perguntou: “O que posso fazer por você, sra. Phillips?”, ela respondeu: “Mande a polícia estadual tirar esse pessoal do meu quintal!” A administração municipal pôs o estacionamento da prefeitura à disposição de todos e finalmente a família pediu aos repórteres que arrumassem suas coisas e fossem para lá. Isso tirou um peso enorme das costas de Andrea.
Mais tarde, naquela semana, uma vizinha contou a Andrea que, numa conversa com uma repórter de TV quando todo o circo da mídia ainda estava armado, a jornalista disse: “Sabe, vi Andrea sentada na varanda dos fundos da casa e tive vontade de correr até lá para ver se conseguia um furo, mas ela parecia tão tranquila. Ela aproveitava um momento de paz e eu não quis tirar isso dela.” Andrea ficou agradecida por essa jornalista tê-la deixado desfrutar daqueles minutos a sós. Alguns repórteres demonstraram muita humanidade.
Durante a noite ela continuava a receber informações atualizadas da empresa e das duas funcionárias do FBI: a marinha dos Estados Unidos estava no local e eles tinham me visto (o que, ela veio a saber depois, numa situação onde existe um refém, é também conhecido como “prova de vida”). “O que ele estava fazendo, pegando um bronzeado?”, brincava Andrea com suas amigas. Elas compreendiam que seu senso de humor nada convencional era um mecanismo para suportar aquela situação. Na verdade, ela imaginava: O que diabos Richard estará pensando? Mas, bem no íntimo, Andrea sabia que eu era esperto o bastante para fazer o que fosse necessário. Havia também um relato de que a marinha conseguira fazer contato diretamente comigo e que eles teriam escutado minha voz. Minha esposa estava, então, obtendo informação direta e verídica e ficava grata por isso. Na quinta-feira à noite, eles lhe enviaram uma mensagem cifrada: “Ou teremos uma sexta-feira muito boa, ou então será uma Feliz Páscoa.”
— Fui dormir sonhando com você — contou-me depois.