Dever de Capitão
Dez: Dia 1, hora 0900
Dia 1, hora 0900
Somos como lobos famintos corre ndo atrás de carne .
Shamun Indhabur, líder de um grupo de piratas somalis, Newsweek.com
18 de dezembro de 2008
O passadiço parecia uma sauna. A temperatura do mar no golfo de Áden pode chegar a mais de 40oC. Eu sabia que logo ficaríamos desidratados naquela gaiola de vidro. Os piratas
haviam fechado a porta do passadiço, que, em geral, fica entreaberta para deixar entrar uma brisa.
— Cadê a tripulação? — perguntou o Líder de novo.
— Não faço a menor ideia, eu estou aqui com...
— Chama a tripulação AGORA! — gritou ele. — Você tem dois minutos. Senão esses caras vão matar vocês.
De repente, os dois piratas nas asas do passadiço correram para dentro e apontaram seus AK-47 por cima do console na direção de ATM e Colin, que estavam agachados no chão. Miraram no rosto dos dois e gritaram:
— Vocês querem morrer?! Dois minutos, nós matamos vocês.
— Calma, calma — pedi. — Estou fazendo o máximo possível.
— Agora um minuto e meio — gritou Comprido, com olhos esbugalhados, apontando a arma para a minha barriga.
— Eles estão falando sério — disse o Líder. — Eu avisei. Caras maus, caras maus.
Voltei a chamar meus homens pelo sistema de som.
— Todos os tripulantes, todos os tripulantes — anunciei. — Compareçam ao passadiço imediatamente. Os piratas querem que venham aqui imediatamente.
O Líder me encarou, seus olhos gélidos.
— Você pode dar um jeito nesses caras? — perguntei. — Antes que alguém leve um tiro?
Ele simplesmente olhou para mim e deu de ombros.
— Sou só um pobre somali — respondeu. — Mas estou avisando. É melhor você fazer alguém aparecer aqui rápido.
— Um minuto! — disse Comprido. — Nós matamos todos.
Pedi com as mãos: Calma, calma. Meu coração estava disparado, e eu sentia como se minhas mãos estivessem cobertas de espinhos de ouriço. Será que eu acabaria tendo que assistir à morte de dois de meus tripulantes? Se os piratas matassem qualquer um, eu tinha certeza de que vasculhariam o navio inteiro e matariam todos nós.
— Os piratas estão ameaçando atirar em nós — gritei pelo sistema de som e pelo rádio. — Eles querem gente no passadiço agora.
— Trinta segundos! — berrou Musso. — VOCÊS OUVIRAM? Trinta segundos e vocês morrem.
Comprido e Musso correram para cima de Colin e ATM e deram cutucadas violentas com os AK, como se quisessem esfaqueá-los. A expressão no rosto de Colin e ATM era de puro terror. O Líder correu, colocou as mãos no peito de Comprido e o empurrou para trás.
— Piratas perigosos — disse ele para mim. — Traga alguém aqui agora!
— O que mais posso fazer? — gritei para o Líder.
Ele deu de ombros.
Liguei o botão de transmissão do rádio.
— Se não chamarmos vocês em um minuto, estaremos mortos. Eles não vão ter misericórdia.
Eu queria que a tripulação soubesse que teriam que matar aqueles caras se ouvissem tiros. Não existia outra forma de sair daquela situação. A rendição não era uma alternativa.
— Manda a tripulação subir agora — esbravejou o Líder. — Manda a tripulação para o passadiço agora ou vamos explodir o navio.
Eu o encarei. Ele realmente dissera “Vamos explodir o navio”?
— Sim, temos uma bomba. Vamos explodir o navio em trinta segundos.
Não acreditei. Eu tinha visto o balde quando ele subiu e não havia nada parecido com explosivos ali dentro. Comecei a achar que eles estavam blefando para tentar encerrar logo o confronto com a tripulação.
Jovem, que olhava para mim da asa do passadiço, sorriu. Havia algo estranho na expressão dele, como se ele estivesse se divertindo com o que os somalis estavam nos fazendo passar. Como se estivesse vendo aquilo tudo na televisão.
O prazo passou. Respirei fundo. Tinha sido o nosso primeiro obstáculo — eles ainda não queriam nos matar.
Eu corria de um lado para o outro desligando os alarmes, que logo eram reacionados e voltavam a tocar. De vez em quando, eu ligava o rádio e dava notícias rápidas do que estava acontecendo no passadiço. Ou formulava estratégias.
Eu tinha uma ideia de onde estava a tripulação — no compartimento da máquina do leme —, mas não sabia ao certo. Talvez alguns dos caras ainda estivessem dormindo ou vagando pelos corredores. Eles mantinham suas posições em segredo para que os piratas não encontrassem seus esconderijos, atacassem e os capturassem. Descobri depois que, naquele momento, Shane estava no guindaste dianteiro, nos observando, e o chefe de máquinas andava pelo navio. Os demais tripulantes estavam na sala de navegação, a sala do pânico reserva que o chefe de máquinas havia sugerido e nós aprováramos durante o exercício. Eu sabia que eles estariam
sofrendo lá embaixo; a temperatura devia estar em cerca de 40oC ou mais. E alguns tripulantes tinham sessenta ou setenta anos. Se ficassem muito tempo lá, começariam a sofrer de hipertermia, ou seja, estresse causado por calor. Os sintomas da desidratação logo se manifestariam: confusão, hostilidade, dor de cabeça forte, pele cada vez mais avermelhada, queda de pressão. Em seguida, calafrios e convulsões à medida que a condição piorasse. E, finalmente, coma.
Estávamos correndo contra três relógios diferentes: o tempo até a chegada do navio-mãe, o tempo até minha tripulação sucumbir à hipertermia e o tempo até a chegada da “cavalaria”. Tentei calcular os três mentalmente de uma só vez.
Mas eu sabia que precisava tirar os piratas do navio o mais rápido possível.
Os minutos passavam lentamente.
Musso e Comprido voltaram ao passadiço.
— Dois minutos! — gritou Musso. Ele se postou em pé diante de Colin e apontou o AK para o rosto dele a um metro e meio de distância.
— Capitão, manda a tripulação vir aqui — aconselhou o Líder por trás deles. — Piratas com raiva agora.
— Estou aqui com vocês! — quase gritei. — O que vocês querem que eu faça? Não sei onde esses caras se enfiaram.
— Tripulação AGORA! — gritou Comprido. — Ou matamos todos.
Não dá para tentar o mesmo truque duas vezes e esperar o mesmo impacto. Por mais ameaçadores que fossem aqueles fuzis automáticos, eu sentia que os somalis estavam blefando. Se quisessem nos matar, já teriam executado um dos tripulantes. Ver aquelas armas ainda fazia meu coração disparar, mas não levei a sério aquela ameaça de chacina.
Os somalis fizeram uma nova contagem regressiva, um minuto e meio, um minuto, trinta segundos, vinte... ATM e Colin estavam com as cabeças abaixadas. Eu senti o suor escorrer pela testa e fazer meus olhos arderem.
Novamente, o prazo expirou. Comprido e Musso me encararam com raiva, e então disseram algo para o Líder e foram para as asas. Minha disposição melhorou. No fim das contas, os caras eram homens de negócios — desonestos, violentos e brutos, mas que não desperdiçariam um recurso tão precioso quanto uma vida humana a menos que fosse absolutamente necessário.
De repente, ouvi uma batida na porta. Não acreditei naquilo. Alguém estava batendo na porta do passadiço querendo se juntar aos piratas. Pensei: Já sei quem é.
Os piratas não ouviram nada. Estavam concentrados demais em tentar nos assustar. Rezei: Tomara que ele vá embora.
Toc, toc. Só que mais alto dessa vez.
O Líder olhou para mim.
— Quer que eu atenda? — perguntei.
Ele assentiu.
Fui até a porta do passadiço e a abri.
Era um de meus marinheiros. Apontei para ATM e Colin.
— Entre — mandei. — Você está morto.
O recém-chegado olhou para mim.
— Sente-se lá com os outros.
— Sim, senhor — respondeu, e andou em direção a Colin e ATM.
A chegada do marinheiro pareceu dar uma ideia aos piratas. Em vez de esperar os tripulantes virem até eles, eles iriam procurá-los. Afinal, se aquele marujo estava perambulando pelo navio, batendo de porta em porta, não seria muito difícil encontrar os outros.
O Líder apontou para mim.
— Queremos dar uma volta pelo navio — disse ele. — Você vem comigo.
Ativei o rádio e comecei a falar.
— Você quer revistar o navio? Ok, tudo bem. Vamos nessa. Vamos começar pelo convés E. É um bom lugar para procurar pela tripulação.
___
Passei pela porta do passadiço enquanto o Líder me seguia um pouco atrás. Ele não queria que eu ficasse perto demais. Apontei para a porta que dava para a chaminé e ele assentiu com a
cabeça. Seguiu meus passos até o convés E.
Um navio sem qualquer meio de propulsão e usando apenas energia de emergência tem um aspecto fantasmagórico. Ele fica à deriva, parece mal-assombrado e é muito, muito quieto.
Um navio porta-contêineres como o Maersk Alabama pode ser comparado a um arranha-céu deitado no oceano. Ele tem muitos compartimentos, milhares de metros quadrados de espaço, passagens e corredores que podem servir de esconderijos. Meu conhecimento do navio era minha única vantagem tática sobre os somalis. Comecei a pensar em como manter longe dos piratas os dezesseis homens que se escondiam debaixo de mim e como fazer com que os três homens ainda no passadiço escapassem para um dos locais seguros, onde estariam a salvo.
Era como um jogo de xadrez tridimensional. Mexo meu peão e você contra-ataca. Protejo uma peça, você passa a atacar outra. Eu só precisava entender a estratégia dos piratas antes que eles entendessem a minha.
O Líder deixara sua arma com Comprido; assim, estava desarmado. Ele tinha mais ou menos 1,75 metro e pesava uns sessenta quilos. Apesar de jovem e ágil, eu poderia tê-lo dominado e trancado em um compartimento qualquer. Mas o que eu faria depois? Ainda havia três reféns no passadiço. Minha fuga não resolveria nada.
— Abre essa porta — exigiu o Líder.
O convés E abrigava meu camarote e o do chefe de máquinas. Não deveria haver ninguém ali. Enfiei minha chave na fechadura da primeira porta e abri.
O Líder entrou. Havia uma televisão e uma cama com a colcha jogada para um lado, algumas roupas, uma mesa e uma cadeira. O lugar estava silencioso como uma tumba.
Continuamos pelo corredor e inspecionamos o camarote do chefe de máquinas. Eu andava tagarelando em voz alta, caso algum tripulante tivesse decidido se trancar num dos camarotes. Minha voz funcionava como um radiofarol, alertando aos tripulantes que estávamos chegando. Eu também mantinha o botão de transmissão do rádio ativado para que todos que tivessem um aparelho soubessem onde estávamos.
Eu estava apavorado. Apavorado mesmo. Mas tinha que manter a aparência de controle. Sem isso, eu não tinha nada.
Andamos de um convés ao outro. Destranquei outra porta e deixei o Líder passar por mim para revistar o ambiente. Ele deu um grito assustado. Ele encontrou alguém. Corri para dentro do camarote.
O Líder apontava para baixo. Havia um tapete de oração no chão. Acima dele, presa na luminária da mesa, uma seta com a inscrição “Meca”.
— Muçulmano? Muçulmano? — perguntou o Líder.
Ele parecia ao mesmo tempo feliz e confuso.
— Sim — respondi. Era o camarote de ATM.
Voltamos para o corredor.
— Esse foi todo o convés C — falei. — Quer ir para o B?
Ele assentiu.
— Ok, vamos lá.
Quanto mais descíamos, mais eu me preocupava. No chaveiro que eu usava para abrir todas as portas havia chaves para a praça de máquinas e para o compartimento da máquina do leme, onde a maioria da tripulação devia estar. Se o Líder me mandasse abri-las, eles estariam fritos. Eu precisava dar um jeito para que ele não examinasse alguns compartimentos, apesar de todas as portas terem placas: CAMAROTE DO IMEDIATO, PRAÇA DE MÁQUINAS — todas elas. Teria que contar com que o Líder não fosse muito fluente em inglês ou tentar distraí-lo com minha falação.
Descemos para o convés B. O Líder apontou para uma porta.
— Ah, é só um armário, não tem ninguém lá — afirmei.
— Abre! — ordenou ele, apontando para a porta.
Sorri. Eu queria criar um clima de confiança para que, quando chegássemos aos compartimentos verdadeiramente importantes, o Líder concordasse em passar direto por eles. Abri a porta, e era mesmo um armário cheio de chaves-inglesas e outras ferramentas. Ele assentiu. A mesma coisa aconteceu alguns minutos mais tarde.
— Esse é outro armário, mas quero que você fique satisfeito — falei.
Abri a porta. Nada além de produtos de limpeza.
Depois disso ele passou a confiar em mim. Quando chegamos à praça de máquinas, usei outra chave e disse que não conseguia abri-la. Apenas apontei para ela e continuei andando.
— Armário — arrisquei. — Perda de tempo.
Passamos por sete conveses e o convés principal externo e então voltamos para o passadiço pela chaminé. Quando entramos, Comprido e Musso fizeram caras de espanto. Começaram a fazer perguntas em somali ao Líder, que rosnou algumas palavras. Eles obviamente não estavam satisfeitos.
Acenei com a cabeça para ATM, Colin e o outro marinheiro. Eu queria que eles soubessem que a tripulação continuava escondida.
— Capitão, capitão, responda.
Apertei o rádio portátil contra a perna, tentando abafar o som. Depois, levantei-o devagar e abaixei o volume. Andei até o radar e fingi olhar para ele enquanto falava no rádio.
— Shane, fale.
Eu o ouvi suspirar. Parecia aliviado.
— Estou no convés E. Onde estão os piratas?
Olhei para cima. Os quatro tinham voltado às suas respectivas posições: um em cada asa, o Líder conosco no passadiço e Jovem no tijupá acima de nós. Comuniquei isso a Shane enquanto fingia trabalhar no console.
— Acho que dou conta deles.
Shane era um tipo proativo. Eu gostava disso. Mas atacar os piratas não era uma boa ideia.
— Negativo, negativo — sussurrei, virando as costas para o Líder. — Piratas espalhados. Armas automáticas. Não tente.
Musso gritou da asa do passadiço. O Líder correu para a porta e olhou para baixo. Parecia estar tentando escutar algo.
— Shane, acho que ouviram você. Fique quieto.
— Entendido.
Duas horas haviam passado.
___
O Líder tentou usar o rádio de novo, falando em somali. Virei-me e olhei pelas janelas do
passadiço.
Notei algo branco na água, a quinhentas jardas de distância a boreste, perto de onde os piratas haviam nos abordado. De início, não consegui enxergar o que era. Parecia algum destroço marítimo parcialmente submerso que vagava à deriva próximo de nós. Encontramos coisas desse tipo o tempo todo, contêineres que foram engolidos pelo mar durante tempestades ou amontoados de plástico flutuantes. Mas algo naquilo prendeu minha atenção.
Surpreso, percebi que não era lixo marítimo. Era a lancha dos somalis. A embarcação boiava emborcada: a maior parte do costado estava debaixo d’água, e a bela escada branca se arrastava a seu lado. Estavam sendo levados, vagarosamente, pela correnteza, junto conosco.
Virei-me para falar com os somalis, mas pensei bem e parei. Será que o Líder mandou afundar a lancha? Eles podiam tê-la amarrado ao navio e a deixado flutuar ao lado do Maersk Alabama. Ninguém perde um barco assim sem querer. Eles apostaram alto quando nos abordaram. Naquele momento, senti que ficariam ainda mais desesperados.
Eu me perguntava se o Líder mandara afundar o barco para intimidar seus homens. “Ou tomamos o controle do navio”, eu o imaginava dizendo, “ou morremos nele.”
Inutilizar sua via de escape significava que os somalis teriam que entrar em contato com o navio-mãe ou pegar um de nossos botes salva-vidas para fugir.
O júbilo que eu havia sentido após o blefe desmascarado dos piratas desapareceu. Aqueles caras estavam determinados. Não havia jeito de eles saírem de mãos abanando.
___
Ao meio-dia, começáramos a estabelecer uma rotina. ATM e Colin tomavam goles pequenos
de água de vez em quando, sentados no convés do passadiço, à ré e a boreste. O terceiro marinheiro estava recostado no revestimento de madeira para suportar o calor. O Líder
alternava-se entre o radar e o rádio, tentando contatar o navio-mãe, tossindo e cuspindo de vez em quando, como se tivesse tuberculose. Eu desligava um ou outro alarme e tentava pensar em
como levar os três homens que estavam comigo ao local onde se escondia o restante da tripulação.
Não seria nada fácil. Se eu sinalizasse para que saíssem correndo, os piratas os matariam antes que conseguissem dar quatro passos. Não, teríamos que fazer com que os piratas tirassem meus homens do passadiço. Comecei a esboçar um plano.
— Ah — disse o Líder.
Olhei para cima. Ele estava mexendo no rádio VHF.
Bosta, pensei, ele descobriu como usar o rádio. Cheguei perto dele e olhei para o mostrador. Eu deixara o rádio no canal 72. Ele o mudara para o 16, a frequência para comunicações entre a tripulação e o restante do mundo.
— ...sk Alabama, fomos atacados por piratas. Repito, quatro piratas a bordo.
O Líder olhou para o rádio. Eu também. Era a voz de Shane, mas o que ele estava fazendo?
— Entendido, aqui é o cruzador de lança-mísseis USS Virginia . Estamos enviando os helicópteros.
— Obrigado, USS Virginia. Quando os helicópteros chegam?
Sorri. Não havia nenhum USS Virginia naquela frequência. Ambas as vozes eram de Shane. Ele devia ter descido até o meu camarote e pegado o rádio portátil VHF que ficava lá. E estava fazendo a mesma encenação que eu fizera no dia anterior, simulando se comunicar com um navio de guerra e pedindo ajuda.
O Líder ficou totalmente perplexo. A tripulação inteira parecia ter evaporado, mas agora um dos homens estava falando com a marinha dos Estados Unidos. Musso veio para o passadiço investigar. O AK-47 dele esbarrou no console quando se debruçou para ouvir melhor.
— Quem está falando? — perguntou o Líder.
Simplesmente ergui as sobrancelhas.
— Não tenho a menor ideia, estou aqui com vocês.
A voz de Shane soou pelo rádio outra vez.
— Aqui fala o imediato. Repito, piratas somalis a bordo. Eles sequestraram nosso navio.
— Esse é o imediato? — perguntou o Líder.
Parei para ouvir.
— A voz parece mesmo ser a dele.
Shane continuou:
— Quatro piratas a bordo. Todos armados. Os quatro estão localizados no passadiço ou nas imediações...
E ele continuou sua comunicação com o navio de guerra fantasma.
— Onde está o outro rádio? — disse o Líder.
Vi medo nos olhos dele. A última coisa que os piratas querem é negociar com a marinha dos Estados Unidos. Eles gostam de lidar apenas com os proprietários dos navios. Proprietários de navios não têm mísseis teleguiados e atiradores treinados.
— Que eu saiba, só existem dois rádios — respondi. — E eles estão no passadiço.
Parecia que o cérebro do Líder ia explodir. Estávamos virando os planos dele de cabeça para baixo. Os somalis haviam dominado o navio, mas nós havíamos dominado os somalis. Por enquanto.
— Vamos andar pelo navio de novo — disse o Líder.
Dei de ombros.
— Você manda.
Novamente, éramos só eu e ele. Descemos para o convés E, depois, para o convés principal.
Andei pelo corredor escuro, o navio tão desolado e silencioso quanto uma cidade fantasma. O chefe de máquinas tinha cortado a energia de emergência. Tínhamos apenas lanternas. Vi a porta para o compartimento do ar-condicionado aberta à minha frente. Eu sabia que o Líder ia querer dar uma olhada lá dentro. Levantei o rádio.
— Muito bem, estamos chegando ao compartimento do ar-condicionado. A porta de boreste está aberta. Vocês precisam trancá-la.
Entramos. Aquele sistema enorme resfriava o navio inteiro. Mas os compressores não faziam qualquer barulho naquele momento. À nossa frente estava a praça de máquinas. Eu não queria entrar lá a menos que fosse absolutamente necessário. Se, por alguma razão, o chefe de máquinas não tivesse recebido a mensagem, encontraríamos tanto ele quanto seu auxiliar esperando por nós.
— Entrando na praça de máquinas — avisei.
Uma praça de máquinas sem eletricidade é um lugar bastante lúgubre. Havia um pouco de fumaça pairando no ar e uma lâmpada acesa à nossa direita, mas o lugar estava quase totalmente escuro. Ouvíamos o ping, ping, ping de água gotejando dos canos. Percebemos o vulto enorme do motor a diesel à minha frente, mas era impossível vê-lo por completo. Senti como se estivéssemos prestes a ser emboscados.
Fui na frente. Depois de dar seis passos, o Líder me chamou.
— Não, não, já terminamos aqui. Vamos.
Olhei para ele, surpreso. O Líder parecia assustado. Ele se virou e eu o segui para fora do compartimento.
Vagamos a esmo, passamos pelo depósito de gêneros secos e verificamos que estava vazio. Enquanto isso, eu abria todas as portas externas que podia. Perguntava “Você quer ver isto aqui?” e depois deixava a porta aberta. Isso daria à tripulação uma oportunidade para saírem às pressas caso necessário e a qualquer um que quisesse nos resgatar uma oportunidade de entrar no navio com rapidez. Espere o melhor, mas prepare-se para o pior.
Contudo, eu ainda não acreditava que houvesse alguém a caminho. O que acontecia conosco nunca acontecera antes na era moderna — um navio norte-americano ser sequestrado por piratas. Eu não sabia nem se a marinha sequer se interessaria. Navios de guerra operavam naquela área, mas não havia qualquer protocolo estabelecido para resgate de marinheiros mercantes.
Para mim, as únicas pessoas que poderiam nos salvar éramos nós mesmos.
___
Novamente, não encontramos uma vivalma. Notei que o Líder ficava cada vez mais tenso. Em
todos os compartimentos onde entrávamos, havia roupas dispostas como se alguém estivesse prestes a se arrumar, ou um copo de suco de laranja largado em um canto como se alguém
tivesse acabado de enchê-lo. Entramos na cozinha, e sobre a tábua de carne estavam uma faca e meia dúzia de fatias de melão que pareciam ter sido cortadas poucos minutos antes. Havia
um bule de café em cima da grelha, com vapor saindo do bico.
Isso me lembrava do famoso caso do Mary Celeste, o navio encontrado no oceano Atlântico em 1872 com todas as escovas, botas, camisas e a carga inteira nos lugares em que deviam estar, mas nenhuma pessoa a bordo. Esse caso virou o mistério marítimo mais famoso de toda a história, o navio fantasma que perdeu sua tripulação de oito pessoas a caminho do estreito de Gibraltar (inicialmente suspeitou-se de pirataria, mas não houvera relato de qualquer caso naquela área em décadas, nada de valor fora tocado e não havia sinais de violência). O Maersk Alabama tinha aquele mesmo ar de abandono enquanto andávamos de um compartimento silencioso ao outro.
— Onde está o chefe de máquinas? — perguntou o Líder.
— Não sei — respondi. — Esses caras são doidos. Eles podem ter se enfiado em qualquer lugar.
Entramos no camarote do contramestre. Eu já notara que os somalis calçavam chinelos de dedo baratos. O contramestre deixara suas sandálias de couro ao lado do beliche, e o Líder as olhava fixamente.
— Olha esses sapatos — disse ele.
Era como se estivesse esperando minha permissão.
— Pode usar! — incentivei. — O contramestre não vai se importar. Experimente.
O Líder atirou os chinelos de dedo para um lado e calçou as sandálias. Em seguida, assentiu com a cabeça.
A próxima parada era o refeitório, que já visitáramos uma vez. Havia uma mesa longa com um cobertor jogado por cima. Eu tinha certeza de que aquilo não estava lá quando passamos antes. Não sabia naquela hora, mas Shane me contou depois que ele vagava pelo navio quando nos ouviu chegar e correra para dentro do refeitório, logo antes de nós. Ele carregava o EPIRB (sigla em inglês para Radiobaliza Indicadora de Posição em Emergência), um transmissor que informa ao grupo de resgate a localização exata do navio. Shane o retirara do suporte, ativando o dispositivo, antes de nos aproximarmos daquela forma descuidada. Ele entrara em pânico e jogara o cobertor em cima do aparelho, depois começara a procurar um lugar para se esconder. Naquele exato momento, Shane estava no compartimento ao lado, na enfermaria, agachado embaixo de uma mesa, no espaço normalmente ocupado por uma cadeira. Entramos, e Shane viu meus pés a apenas um metro de distância.
Se os piratas o tivessem pegado, teríamos perdido um de nossos melhores líderes. Mas eu nem sequer o ouvi respirar.
Vasculhamos alguns outros compartimentos e depois voltamos para o passadiço.
Àquela altura, a tripulação e eu ajudávamos uns aos outros a nos mantermos a salvo. Eu os alertava sobre os movimentos dos piratas e eles mantinham um trunfo na mão ao permanecerem escondidos. Mesmo se os piratas matassem alguns de nós, não obteriam qualquer vantagem. Ainda teriam dezesseis caras escondidos em todos os cantos, mantendo o navio fora do controle deles. E a embarcação estava à deriva e sem energia elétrica. Era um impasse. Mas os reforços dos somalis estavam muito mais próximos do que os nossos.
O navio era agora um forno gigantesco. O ar-condicionado estava desligado, e os ventiladores que mandavam ar fresco para os compartimentos não funcionavam. O calor ficava cada vez mais forte, apesar de uma ou outra brisa. Eu mal podia imaginar o sofrimento dos tripulantes no compartimento da máquina do leme. Quanto tempo conseguiriam aguentar sem ar fresco e água?
O medo que senti ao ver o primeiro pirata subir a bordo não desaparecera. Mas eu estava ocupado demais para pensar nisso. De certa forma, ATM, Colin e o terceiro marinheiro passavam por uma situação bem pior. Tinham que ficar sentados no convés e imaginar o que poderia acontecer com eles. Eu não parava de pensar em como poderíamos sair vivos daquela situação.
___
Voltamos ao passadiço, derretendo no calor da tarde. Os piratas estavam ficando nervosos.
Por que não conseguiam encontrar a tripulação? Simplesmente dei de ombros.
— Não sei onde eles estão — eu dizia a toda hora. — Estou aqui com vocês.
O Líder pediu outra busca. Dessa vez, Musso e Comprido me acompanharam, ambos armados. Novamente, entrei na praça de máquinas, tentando mantê-los longe da porta parcialmente escondida que levava ao compartimento da máquina do leme, onde eu achava que a tripulação se encontrava. Nossas lanternas se moviam de um lado para o outro, e vislumbrávamos uma variedade de máquinas: tanques de óleo lubrificante, mostradores, canos. Musso e Comprido avançaram um pouco mais do que o Líder e então falaram:
— Basta!
Até piratas têm medo do escuro. Isso me fez sorrir — eles tinham armas e estavam com medo.
Levei-os até o refeitório, e os olhos deles brilharam quando viram as fatias de melão.
— Querem frutas? — perguntei. — É tudo seu.
Ajudei-os a encher os braços de caixinhas de suco e melão. Comecei a voltar para o passadiço e, enquanto subia pela escada externa da superestrutura, vi os somalis dois lances abaixo, com dificuldades para transportar o butim. Esperei por eles.
— Precisam de ajuda? — perguntei a Musso e estendi as mãos. — Pode deixar que eu carrego sua arma.
Ele riu.
Peguei algumas das caixinhas de suco e das frutas e segui adiante.
Assim como acontecera quando eu estava com o Líder, eu poderia ter fugido em qualquer momento. Mas nem cogitei a possibilidade. Três tripulantes meus estavam em perigo iminente. Eu não podia deixá-los nas mãos dos piratas. Isso não resolveria nada. Além do mais, não é possível fazer algo assim e continuar sendo a mesma pessoa. Depois que aquilo terminasse, eu precisava ser capaz de dizer a mim mesmo — e às famílias dos tripulantes: cumpri meu dever como comandante.
Como eu já disse, com o salário vem o trabalho.
Subimos de volta ao passadiço. Entramos em fila, e os piratas assumiram suas posições originais. Já passava do meio-dia. Os somalis estavam irrequietos e agitados. A euforia que sentiram ao tomar o controle de um navio norte-americano estava se dissipando. Eles falavam constantemente entre si em somali, e a troca de palavras estava ficando mais áspera. Um clima de pânico se instalara.
Tomei um pouco de água, enxuguei a testa e respirei fundo.
O Líder me entregou o telefone. Gritou um número. Como um disco arranhado, os piratas repetiam sempre as mesmas táticas: fazer buscas, chamar pelo rádio, ameaçar. Mas as ameaças eram cada vez menos convincentes. Depois do segundo ultimato, quando disseram que começariam a nos matar depois de dois minutos, desistiram da tática.
O Líder parou de olhar para o mostrador no telefone, então eu simplesmente digitei uns números aleatórios e depois a tecla de envio da chamada. O telefone fez o som de discagem e em seguida zumbiu.
— Esse telefone é uma porcaria. Sério, eu adoraria fazê-lo funcionar.
Um dos tripulantes aproveitou a oportunidade para começar a falar com um dos piratas. E, apesar dos conselhos que eu dera na noite anterior sobre situações de sequestro, a primeira coisa que ele mencionou foi religião.
— Assalaamu ‘alaykum — disse. E acenou com a cabeça para Musso.
O outro o encarou.
— Sou africano — continuou. — Somos irmãos muçulmanos.
Os piratas se entreolharam. Musso começou a rir.
Tentei fazer contato visual com o marinheiro. Dali a pouco ele ia começar a falar que os piratas deviam cortar as cabeças dos cristãos infiéis e pedir para ser levado de volta para a Somália.
Os piratas não queriam nem saber se ele era descendente direto de Maomé. Era apenas um peão no jogo deles.
O Líder olhou para mim.
— Vamos fazer outra busca.
Eu esperava por isso.
— Sem chance — disse. — Estou cansado de ficar andando para um lado e para o outro.
Apontei para ATM.
— Leve aquele ali. Ele pode mostrar tudo que vocês precisarem.
Eu sabia que, se ATM saísse pelo navio, vigiado por apenas um pirata, ele poderia acabar escapando.
O Líder olhou para ATM e pareceu considerar a oferta.
— Está bem — concordou. — Vamos nessa.
ATM se levantou e começou a caminhar na minha direção. O Líder se virou para dar algumas instruções aos piratas em somali.
Quando ATM passou por mim, sussurrei:
— Ele não está armado. Leve-o até os outros.
Não vi o rosto dele quando passou. Não sei se ele sequer deu algum sinal de que me ouvira.
Mas senti que o jogo estava virando um pouco. Chegara a nossa vez de tomar um refém.